quarta-feira, 31 de agosto de 2022

Como Criar uma Criança?

No meu último artigo, eu estava bem emocionado mesmo. Senti uma urgência enorme de escrever, ou melhor dizendo, exprimir o sentimento de amor pela minha filha. Como ela estava dormindo, resolvi redigir um breve parágrafo. 

 Um dos comentários do leitor Bruno, e aqui vai ao meu agradecimento aos milhares de comentários que tive nesse espaço desde 2014, me perguntou sobre como eu e minha mulher criávamos nossa filha. 

 Bom, quem é pai descobre que a frase "não vem com manual de instrução" se aplica como uma luva. Também se descobre que as expectativas sobre a criação variam muito de acordo com a família, onde se está, etc. 

 Eu e minha mulher nos esforçamos na criação de nossa filha, assim como grande parte dos pais. É um esforço muito grande e contínuo. Nossa filha nunca colocou a mão num celular, por exemplo, então temos que entretê-la com outros estímulos. Eu entendo pais que colocam filhos bem pequenos (às vezes com apenas 1 ano) na frente de um celular enquanto estão jantando. Nós não fazemos. Acreditamos que isso atrapalha o desenvolvimento cognitivo, oftalmológico e emocional da criança. 

 Nós em hipótese nenhuma usamos violência contra a nossa filha. Nunca, never, jamais. É muita conversa, desde muito pequena. Algumas vezes tive que ir para outro cômodo, colocar a boca num travesseiro e gritar, mas jamais utilizei qualquer tipo de violência seja física ou emocional contra a minha filha, e espero não fazê-lo jamais.

 Nós sempre estimulamos ela sentir o chão, ir descalça para a praia. Ajuda morarmos num lugar privilegiado pela natureza. Ela com seis meses parecia uma tartaruga engatinhando em direção ao mar gelado. Na época da histeria da pandemia em 2020, íamos todos os dias para a praia.

 Nesse último ano, com ela chegando próximo de quatro anos, está simplesmente fabuloso a interação que tenho com ela. Ela é esperta e inteligente. Eu às vezes estou cansado, mas vou lá me agacho e faço um desenho com ela. Todos os dias ela quer dormir do meu lado, e quer que eu repita a mesma história que eu criei sobre uma viagem nossa "A História da Ararinha Serena e sua Viagem para Gramado e Praia Grande". É impressionante, ela não se cansa. Eu termino de contar a história, ela diz obrigado, me abraça, e dorme. 

 Ela só come comida de verdade: carne de boi, sashimi, lentilha, ovo, iogurte grego, feijão, arroz, brócolis, etc. Sim, ela come pão, pão de queijo, e em festinhas de criança brigadeiro, etc. Mas isso é eventual. Criança precisa comer comida desde a introdução alimentar que se dá aos seis meses. Nós respeitamos as vontades delas, pois ela é um individuo exatamente como eu ou você, prezado leitor. Achamos que nossa sociedade simplesmente ignora as vontades e necessidades das crianças, ou as trata sem respeito. 

Basta ver o que fizemos na pandemia, e a total e completa falta de colocar o interesse do grupo mais importante da sociedade (os jovens) em primeiro lugar. É evidente que não é não. Qualquer coisa que coloque à integridade física dela em risco, ou que seja agredir outras crianças, quebrar coisas, etc, é não, e somos firmes, e ela entende de imediato. 

 Sabemos reconhecer a personalidade dela. Ela é muito observadora, no começo demora para interagir com outras crianças. Apesar da pressão social de amigos, e até de queremos que ela interagisse mais, sabemos que ela precisava do próprio tempo, e ela tinha o próprio temperamento. Resultado? Hoje ela interage com as crianças, brinca, etc, quase nunca chora, como a maioria das outras crianças, e sabe bem o que ela quer. 

As professoras dizem que ninguém mexe, belisca, empurra (o que é bem normal nessa idade), pois ela se coloca. É muito engraçado, ela fala "esse é o meu corpo, você não pode me tocar sem eu deixar" e estende a mão como dizendo 

Não. Isso não é receita de bolo. Não estou aqui para julgar quem faz diferente, cada um com a sua história, sua realidade, seus valores, limitações, etc. 

Mas, prezado, Bruno, como você bem colocou, a minha função é criar um ser humano para que ela possa desenvolver-se, e explorar todas as potencialidades que ela tem. Um ser humano sem sombras, sem rancor, criada com muito amor e empatia.

 É isso, um grande abraço a todos!

9 comentários:

  1. Que legal ler seu relato, a minha fez 5 e estamos nesta mesma nava, semoe lembro desta passagem...

    Vossos filhos não são vossos filhos.
    São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma.
    Vêm através de vós, mas não de vós.
    E embora vivam convosco, não vos pertencem.
    Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos,
    Porque eles têm seus próprios pensamentos.
    Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas;
    Pois suas almas moram na mansão do amanhã,
    Que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho.
    Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis fazê-los como vós,
    Porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados.
    Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas.
    O arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda a sua força
    Para que suas flechas se projetem, rápidas e para longe.
    Que vosso encurvamento na mão do arqueiro seja vossa alegria:
    Pois assim como ele ama a flecha que voa,
    Ama também o arco que permanece estável.

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  2. Um dos maiores equívocos que eu percebo em alguns pais durante a criação dos filhos é o da ilusão de que a criação tem o poder de modificar a personalidade, caráter, orientação sexual ou vontades da criança.
    Com o conhecimento atual em neurociencia já sabemos que até o livre arbítrio é apenas uma ilusão (criada pelo nosso cérebro), nenhuma criação é capaz de modificar essas coisas.
    O que dá pra fazer é dar exemplo, ensinar valores e proporcionar um ambiente saudável pra que a criança se desenvolva. Já que a maior influência na vida dela são os genes que a gente transmite, o resto é mero detalhe

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    1. Oie amigo, grato pelo comentário. É uma meia verdade o que você disse. Sim, muito dos nossos comportamentos possui um grande componente genético. Se é 40%, 50%, 60%, não se sabe, estudos com gêmeos idênticos tendem a colocar no "ballpark" de 50%. O fenótipo de um ser humano é influenciado pelos seus genes, mas também pelo meio-ambiente que o circunda.
      Portanto, " Já que a maior influência na vida dela são os genes que a gente transmite, o resto é mero detalhe" não creio ser uma afirmação correta.
      Porém, sim, nós pais devemos nos esforçar para proporcionar um meio-ambiente para que as crianças e jovens possam aproveitar ao máximo as suas propensões genéticas a aspectos positivos, e tentar "deixar sob controle" propensões genéticas a aspectos não tão positivos.
      Um grande abraço!

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    2. É exatamente esse "deixar sobre controle" certos comportamentos que as evidências mostram ser algo impossível de se atingir durante a criação de um ser humano. A menos que você use algum tipo de coerção enquanto a criança depende de você, será possível impedir certas coisas. Mas assim que a cria ganha independência financeira e tem o poder de tomar suas próprias decisões é fácil perceber o que qualquer influência atribuida aos pais (além da genética) não existe ou não tem poder de mudar comportamentos.
      Eu nem desconsiderei a influência do ambiente na questão, só que os pais são apenas um dos muitos aspectos do ambiente que influenciam a pessoa, e em muitos casos a influencia no ambiente (do filho) adulto é quase nula.
      Se não temos livre arbítrio, porquê a criação dos nossos filhos poderia dar algum tipo de arbítrio às decisões que eles tomam?

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    3. Oie, colega. Eu entendo de onde vem esse seu comentário, e creio que tem verdades neles, mas não creio ser exatamente como você comenta. Eu posso ter uma tendência genética a comportamentos mais agressivos. Isso é bem estabelecido. Eu posso ser criado num ambiente onde o aparecimento de comportamentos agressivos seja estimulado, por exemplo, ou eu posso sofrer abusos que vão ser "triggers" para comportamentos agressivos onde eu já posso ter uma suscetibilidade genética maior. Ou eu posso ser criado num ambiente onde esses "triggers" serão minorados. Por isso, sim nossa carga genética é importante, inclusive para comportamento. Não, os pais não tem um controle absoluto sobre todas as variáveis. Mas, sim os pais possuem uma função primordial de promover um ambiente de amor, aceitação e desenvolvimento. Um abs

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  3. Soul, passei um tempo sem ler o seu blog e retornei recentemente. Nunca comentei nada, mas saiba que essas pílulas de textos são preciosas (por favor, não pare!).

    Posso estar enganado, mas lembro de você dizer que saiu de alguma grande capital para uma cidade menor perto da praia. Ano que vem pretendo ter meu primeiro filho e esse pensamento me vem de tempos em tempos, mas o medo da mudança é grande. Ficar longe dos meus pais e amigos para dar uma qualidade de vida melhor ao meu filho, perto da natureza, com menor criminalidade, sem trânsito. Caso eu não tenha me enganado em meu pressuposto, como você e sua família lidaram com essa possibilidade de mudança para ficar longe dos amigos/pais, mas dar uma qualidade de vida melhor para a sua família e filhos?

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    1. Oie Diego, tudo bem? Não, não, sempre morei em Santos e depois fui estudar em Floripa onde moro até hoje. Eu e minha família vivemos muito bem, então não pensamos em mudar. Porém, se eu estivesse na situação citada por você, eu provavelmente iria para o lugar com mais qualidade de vida. A infância das crianças passa rápido e creio que se é possível viver num lugar melhor, essa seria a melhor solução. Porém, se a família ampliada é realmente muito unida e possui uma convivência bacana com os filhos, realmente seria mais difícil mudar.

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  4. A verdade nua e crua: Não somos nós que educamos os filhos, são eles que nos educam. rs

    Abraço!

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