quinta-feira, 30 de novembro de 2017

UM LÍDER VERMELHO - PORQUE VOCÊ DEVERIA SER UM



            Olá, colegas. Esse modesto blog possui algumas ideias centrais, uma das principais é o conceito de se desafiar intelectualmente sempre que possível. Não é à toa que esse espaço às vezes atraia críticas ferozes,  pois desafiar conceitos arraigados não é fácil, mas é essencial. Diversos artigos nesse sentido já foram produzidos, e ficaria difícil citar todos eles.

            Há uma estratégia que recentemente ouvi num podcast do Tim Ferris: red team ou time vermelho. Primeiramente, o vermelho vem da alusão a União Soviética nos tempos de guerra fria. O que um “time vermelho” deve fazer? Basicamente, tentar de qualquer maneira provar que há falhas em algum sistema, forma de pensar, etc. Se uma organização possui um sistema de segurança na internet, um red team pode ser formado dentro da própria organização para demonstrar justamente o contrário. 

            Bom, isso para mim é basicamente o melhor, mais inteligente, e científico processo para evoluir qualquer coisa: ideias, produtos, pensamentos, relacionamentos, etc. Isso é a completa antítese do que ocorre em mídias sociais hoje em dia, ou em comentários como “Nossa, que texto bom, disse exatamente o que penso”. Essa forma de raciocinar é tão não-intuitiva que não é nenhuma surpresa dela ser aplicada apenas em organizações de ponta pelo mundo, e não pela população em geral.

            Sem saber sobre o conceito de “time vermelho”, percebi que sempre tive a tendência, aumentada nos últimos anos, de ter a forma de raciocínio condicionada à forma de agir de um red team. Quero me exonerar do cargo de Procurador? Exercícios e mais exercícios mentais a la red team, para de alguma maneira procurar falhas, inconsistências, riscos, em todas as premissas que me inclinavam a deixar o cargo. Por isso sempre tenho um sorriso interno, quando alguém me pergunta se refleti a respeito da decisão que tomei. É claro que sempre dou a resposta padrão.

         Vou comprar um imóvel em leilão? Exercícios mentais sobre o que pode dar errado. Não estou preocupado sobre o que pode dar certo, se resolvi comprar um imóvel em leilão é porque já vislumbrei tal cenário, é muito mais importante saber o que pode dar errado para que efetivamente possa decidir se vale ou não a pena.

            Ao aplicar tal forma de pensar , é natural que o processo decisório e as decisões derivadas dele se tornem muito mais robustas e eficientes. Se isso é imprescindível para o indivíduo, imagine para o setor de inteligência militar de um país importante? Numa simples pesquisa na Wikipédia em Inglês sobre Red Team, vi que o Exército Americano possui uma Universidade em Assuntos Internacionais militares e culturais. Um dos cursos que essa Instituição ensina é sobre como ser um líder de um Time Vermelho. Dá para imaginar quão bom uma pessoa não deve ser para ser líder de um time vermelho no exército dos Estados Unidos.

            Vou copiar e traduzir alguns itens do texto da Wikipedia - lembrando que não sou tradutor e posso ter comedido algum(ns) erro(s):


"The UFMCS Red Team Leader’s Course (RTLC) is a graduate-level education of 732 academic hours (18 weeks). The course scope includes the four UFMCS pillars: Introspection and Self-Reflection; Groupthink Mitigation (GTM); Fostering Cultural Empathy, and Applied Critical Thinking (ACT)."

O curso de líder do time vermelho da Universidade de Assuntos Militares e Culturais Internacionais é uma graducação de 732 horas (18 semanas). O objetivo do curso inclui os quatro pilares da UFMCS: Introspecção e Auto-Reflexão; Mitigação de Pensamento de Grupo;  Promovendo Empatia Cultural e Pensamento Crítico Aplicado.

"Introspection and self-reflection includes: Personality Dimensions, Introspective Life-Changing Event presentation and daily journaling."

Introspecção e reflexão pessoa inclui: Dimensões da Personalidade, Apresentação de eventos introspectivos de mudanças de vida e journaling diário.

"Groupthink mitigation (GTM) includes: Understanding Groupthink causes and techniques to mitigate."

Mitigação de Pensamento de Grupo inclui: Entender as causas de pensamento de grupo e as formas de mitigação

"Fostering cultural empathy includes: Understanding culture from the perspective of an anthropologist, to include cultural meaning, economics, social structure, religion, politics and globalization."

Promoção de Empatia Cultural inclui: Entendendo cultura pela perspectiva de um antropologista, para incluir significado cultura, econômico, estruturas sociais, religião, política e globalização.

"Applied Critical Thinking (ACT) includes: How we think, cognitive biases, intuition, complexity and systems thinking, and argument deconstruction."

Pensamento Crítico Aplicado inclui: Como nós pensamos, vieses cognitivos, intuição, complexidade e sistemas de pensamento, e desconstrução de argumentos.

"UFMCS curriculum is designed to improve critical thinking by teaching them how to ask better questions and challenge their assumptions they hold sacrosanct.
Red Team Leaders are expert in:
  • Analyzing complex systems and problems from different perspectives to aid in decision making, using models of theory.
  • Employing concepts, theories, insights, tools and methodologies of cultural and military anthropology to predict other’s perceptions of our strengths and vulnerabilities."
 O currículo da UFMSC é designado para melhor pensamento crítico ensinando os alunos a fazer melhores questões e desafiar as suas convicções mais profundas.
Líderes de times vermelhos são peritos em:
- Analisar sistemas complexos e problemas de diferentes perspectivas to ajudar no processo decisório, usando modelos teóricos
- Empregar conceitos, teorias, idéias, ferramentas e metodologias de antropologia cultural e militar para prever a percepção dos outros de nossas forças e vulnerabilidades.


            Bom, se um curso como esse fosse aberto para civis de outras nacionalidades, o que obviamente não é, eu embarcaria nos próximos meses para fazer um curso com essa proposta. Aliás, se eu tivesse um filho, esse seria o curso que gostaria que ele fizesse. “Tentar prever a percepção dos outros sobre nossas forças e vulnerabilidades”? Olhe ao seu redor, para si mesmo, quem faz isso? Qual mídia faz isso? Não é à toa que o exército americano é a força mais poderosa do mundo. 

            Não tenho como expressar a minha satisfação de como esse espaço em muitos artigos de maneira inconsciente nada mais estava reproduzindo a filosofia desse curso de formação de líderes. Não se trata de ter uma queda pelo Islamismo ou defender terroristas, por exemplo, mas entender as estruturas sociais, econômicas, legais e acima de tudo a diversidade de cores e formatos em que a religião muçulmana se manifesta.  Isso nada mais é do que promover a Empatia Cultural. Como já viajei por lugares que a esmagadora maioria das pessoas não faz nem noção de que existam, e encontrei comunidade muçulmanas em variados formados, etnias, graus de (in)tolerância, posso entender muito melhor o conceito de empatia cultural na análise desse caso específico. Apenas assim conseguimos ter uma noção mais acurada de como a realidade se apresenta, não repetindo clichês sobre o assunto. Tendo esse entendimento, provavelmente a luta contra o terrorismo, bem como contra a intolerância,  pode ser feita de maneira muito mais inteligente e eficaz.

            Tenho certeza absoluta que Trump não seria nem mesmo aceito como aluno para um curso como este. É engraçado, e ao mesmo tempo fascinante,  refletir  como o chefe de uma nação pode ser a antítese do que os sistemas mais sofisticados de decisões das organizações dessa mesma Nação operam. Essa é a força dos EUA, sem sombra de dúvidas.

            Depois de sair da Procuradoria, a quantidade de ideias que tenho tendo é impressionante. Imagine estruturar um curso desses no Brasil? Está aí uma ideia que vale a pena ser mais refletida. Em tempos onde uma pessoa como Olavo de Carvalho é tida como o maior filósofo de um país, Lula a salvação para o desmonte dos direitos, Bolsonaro apto a ser chefe de um país continental diverso de mais de 200 milhões de pessoas, e onde boa parte dos diálogos são apenas frutos de pensamento de grupo (ou de manada), falta de pensamento crítico ou a falta de qualquer empatia cultural, imagine o bem que não faria ao país se cursos como estes fossem ministrados pelo país? Com certeza, eu matricularia o meu filho num curso desses, e talvez fosse o melhor curso que ele faria na vida inteira.

            Um abraço a todos!

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

MINHA EXONERAÇÃO DO CARGO DE PROCURADOR

Faz tempo que queria escrever esse artigo. Talvez mais de cinco anos.  Sou arrependido do caminho que tomei? De maneira alguma. Não sou grato pelo que aprendi? Absolutamente.  Mais de 12 anos depois, minha história como Procurador Federal chega ao fim.

          Durante esse tempo aprendi muito sobre a miséria humana, sobre os outros, sobre mim mesmo, sobre a vida. Lembro-me como se fosse hoje de uma das minhas primeiras audiências. Um garoto de 18 anos que tinha tomado um tiro e ficado paraplégico. Até hoje penso naquele garoto, e na vida dele que foi alterada de maneira tão brusca numa etapa tão cedo da vida. Quantas mães e esposas que perderam os seus filhos e maridos não vi chorar em minha frente. Vi muita desfaçatez também é verdade.

       Durante certa  época sofri com o tratamento recebido. Quem me acompanha há mais tempo no blog, sabe que gosto de tratar dos assuntos com seriedade,  e sempre questionar aquilo que acredito não ser correto. No serviço público, mesmo na elite do funcionalismo, isso às vezes, ou quase sempre, não é muito bem visto. 

     No primeiro estágio fiquei com raiva. Algo que não faz bem para ninguém, muito menos para a pessoa que está sentido raiva. Depois senti indiferença. Um dos piores sentimentos, mesmo que endereçado para pessoas que não agiram de maneira correta comigo . A indiferença é algo terrível e faz um mal danado. Depois senti pena, outro sentimento que não nos leva a nenhum lugar. Foi apenas depois de muito refletir, e sentir todas essas sensações ruins, que percebi que na verdade as situações de desconforto e as pessoas que as criaram eram na verdade professores de vida. Foram elas que me forçaram a evoluir enquanto pessoa, a ir atrás de novos horizontes, a me desafiar. Talvez eu não estivesse escrevendo esse texto se não fossem essas situações e essas pessoas.

         Aprendi muito. Eu sou aquilo que vivi, como gosto daquilo que sou, então só posso agradecer aquilo que vivi.

O salário era muito maior do que necessitava, então pude economizar muito. Com certeza foi um dos pilares para chegar onde estou.  Tomo um caminho em sentido contrário do da maioria. Afinal, quem não quer não ter controle de horário, um salário de R$ 30.000,00 e ser chamado de Dr., tudo isso com estabilidade e respeito social quando as pessoas sabem o que você faz.  Muitos querem, e é natural que assim o seja.  Eu, porém, no atual estágio da minha vida, quero outras coisas.

Foram anos e mais anos me preparando financeira e psicologicamente para esse momento. Talvez já tenha feito centenas de cálculos. Quantos rabiscos não fiz de várias margens de segurança, várias formas de retiradas do patrimônio, várias períodos de abrangência. Acho que fiquei um especialista nessa área.

 Quando percebi que a parte financeira não era o que me segurava, afinal posso me dar o luxo de ter duas independências financeiras (uma aqui no Brasil, e outra com um portfólio em separado no exterior), resolvi tratar da parte emocional, dos medos, das inseguranças próprias e a dos outros. A viagem de quase dois anos que fiz por lugares soberbos do mundo foi com certeza uma amostra de como a vida pode ser espetacular, diferente, desafiadora, sem que se precise se apegar ao padrão tido como correto e vitorioso. Entretanto, é verdade que o governo Temer deu uma bela ajudada para a minha decisão, e tornou tudo mais fácil.

É isso, independência financeira de forma “oficial”.  O que vou fazer? Não faço a mínima ideia. Terminar o meu livro sobre leilões (que está ficando bom), especializar-me em investimento-anjo, ser um bom pai, viver em 9 lugares diferentes no mundo aprendendo os rudimentos da língua local nos próximos 18 meses, melhorar como cantor, ajudar mais os outros, não sei, e francamente isso nunca me preocupou. A vida é muito interessante e ampla para nos definirmos apenas pelos nossos trabalhos. Aliás, quanto mais se conhece do mundo, mais interessante ele fica.

É isso, colegas leitores, esse foi um artigo que ansiava escrever antes mesmo de ter um blog. Uma parte importante da minha vida fica para trás, outra se abre em minha frente. Estou tão tranqüilo, satisfeito e feliz, que tenho certeza que será uma vida ainda melhor do que a vida boa que venho levando.


Um grande abraço a todos.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

BITCOIN BOLHA OU REVOLUÇÃO?

                Olá, colegas.  Moedas virtuais. Não se fala em outra coisa.  Até mesmo amigos que não são do universo de se preocupar muito com finanças pessoais já comentaram sobre Bitcoins comigo. Podcasts estrangeiros sobre investimento falam sobre BTC. No meu blog já perguntaram para mim, que sou absolutamente leigo em moedas virtuais, o que penso sobre BTC.    Portanto, correndo o risco de escrever alguma bobagem, tecerei algumas reflexões relacionadas ao BTC e a temas correlatos.

      Primeiramente, gostaria de chamar atenção que manias especulativas muito provavelmente continuarão existindo na humanidade. Desde a bolha das tulipas na Holanda há séculos chegando a bolha dot.com nos EUA há 16 anos, o simples fato é que histórias sobre algo e,ou, cativantes sempre terão o poder de impressionar os seres humanos. O Professor Schiller no seu excelente livro “Exuberância Irracional” descreve que qualquer processo de bolha de ativos geralmente, ou quase sempre, é acompanhado de uma história que do ponto de vista intelectual faça sentido. Se a tecnologia irá mudar o mundo, se a internet é essa ferramenta poderosa que está transformando tudo que se conhece, então uma história que narre essa perspectiva talvez pudesse justificar precificações elevadíssimas de ações de tecnologia nos EUA no começo da década passada.

        Em segundo lugar, é incrível como nosso cérebro reage a certas coisas. Eu sou uma pessoa bem controlada e sei exatamente das minhas forças e limitações. Tenho certa clareza também em meus objetivos financeiros e de vida. Uma regra minha, copiada de W.Buffett, é de não investir naquilo que não conheço. Como sou leigo em criptomoedas, ou nas tecnologias que a cercam, jamais passaria pela minha cabeça (sem um estudo muito aprofundado) colocar qualquer dinheiro nisso. Entretanto, ao ver a cotação chegar a R$ 22.000,00, passou rapidamente pela minha cabeça “será que não devo comprar um pouco?”, o que, ainda bem, foi prontamente repelido por alguma outra parte do meu cérebro “claro que não, siga o seu plano que está tudo bem, lembre da sua estratégia”.

           Essas duas primeiras considerações não foram para dizer que há uma bolha em BTC. Ou que a cotação não possa ir para R$ 330.000,00 (os U$ 100.000,00 previstos por alguns), não amigos.  Foi apenas um relato de que, mesmo com conhecimento e estratégia definida, é natural que possamos ser “seduzidos” por uma história que faça sentido. Ora, faz sentido que as pessoas queiram apostar numa nova forma de encarar as moedas, faz sentido que pessoas queiram transacionar de forma sem controle estatal, etc, etc.  Porém, o ponto é que tudo isso fazia sentido quando o BTC tinha o preço de R$ 1.000,00, absolutamente nada mudou desde então em relação ao Estado, controle de câmbio, inflação monetária, desejo de liberdade, etc.  Entretanto, a história parece ficar mais sedutora ao ver o BTC aos R$ 22.000,00, o que realmente dá força a percepção de que de tempos em tempos manias especulativas invariavelmente irão surgir no mundo.

      Assim também como W.Buffett, eu tenho dificuldades em entender um ativo que não tenha o potencial de produzir um fluxo de caixa. Por este motivo, se não estou enganado, já vi o famoso investidor não recomendando o investimento em ouro, por exemplo. Como mensurar quanto vale um grama de ouro? Como saber se o ouro está sendo negociado a valores elevados ou não? Deixe-me abordar duas tabelas (a fonte pode ser acessada aqui):

Fim do Padrão-Ouro, medo do enfraquecimento total das moedas fiduciárias, e o ouro na década de 70 teve retornos ainda maiores do que W.Buffett nos seus anos mágicos. Nas décadas subsequentes, com a exceção da década 00, o Ouro teve retornos anualizados negativos acentuados.


Alguém que acreditou na história de inflação descontrolada e comprou ouro no começo da década de 80 (época de enorme inflação para padrões americanos) teve um retorno real anualizado nos últimos 35 anos de -1.5%. Sim, fazia todo sentido comprar ouro como reserva de valor no começo da década, mas esse fictício investidor perdeu -1.5% do seu poder de compra por ano durante 35 anos.

        Antes de comentá-las, é necessário esclarecer que até a década de 1970 o ouro, visto numa perspectiva de longo prazo, costumava acompanhar a inflação, ou seja, os retornos reais de investimento em ouro produziam rentabilidade próxima a zero.  No começo da década de 1970, os EUA abandonaram de vez o chamado padrão-ouro, o que fez com que o metal se valorizasse a um ritmo alucinante nos anos que se seguiram. Muito provavelmente, houve histórias convincentes de que o mundo iria degenerar numa inflação monetária sem fim das moedas estatais, e que o ouro era a única maneira de se proteger do arbítrio expansionista de Bancos Centrais pelo mundo.

      Se na década de 1970 essa história fez sentido, nas outras décadas (80,90,00) parece que não fez mais tanto sentido, e uma valorização anual real de quase 24% ao ano na década de 70, se transformou numa valorização real de 3.7% ao ano desde a década de 70 (quase em linha com títulos de dívida soberano dos EUA). O Ouro, é claro submetido a variações violentas no curto-médio prazo, mesmo num mundo de inflação monetária muito mais pronunciada, parece que (depois dos turbulentos anos 70) voltou ao seu local natural de reserva de valor e potencial de retornos reais baixos em períodos maiores de tempo.

         Percebam, prezados leitores, que se digo que um FII vale 10 vezes o seu fluxo de caixa anual, ou se uma padaria vale pelo menos cinco vezes o seu faturamento, há uma métrica objetiva pela qual eu posso comparar se o preço está adequado ou não. Em relação ao ouro, essa métrica inexiste,  pois uma barra de ouro não produz absolutamente nada.  Se a ideia do ouro como reserva de valor faz sentido, então a ideia de que o ouro não deva produzir retornos reais acentuados no longo prazo também possa fazer sentido. Baseando-se nisso, talvez seja possível dizer se o ouro, em sua tendência histórica, esteja sobreprecificado ou não. Porém, é difícil mensurar quanto investidores estão dispostos a pagar por uma reserva de valor num determinado momento.

    Nesse sentido, talvez o BTC, ou outras criptomoedas, representem uma reserva de valor.  Um BTC, até onde eu  sei, não é capaz de produzir mais BTCs, ao contrário de um imóvel que pode produzir outros “imóveis em potencial” pelo recebimento de aluguéis. Se assim o é, o BTC teria um comportamento como o ouro? Precisaríamos de pelo menos algumas décadas para poder fazer qualquer afirmação nesse sentido, já que a tecnologia é extremamente nova. Porém, o que ocorreu com o ouro na década de 70 pode ser um ponto de partida para refletir o que acontece com ativos que são vistos como reserva de valor frente a uma “história” de desvalorização contínua e acentuada de moedas tradicionais.

        E se o BTC virar uma forma de reserva de valor com muito mais utilidade do que o ouro? E se o BTC substituir o ouro nessa função? Mesmo sem conhecer profundamente os mecanismos de operação por meio de criptomoedas, parece-me claro que é muito mais simples comprar um BTC do que comprar 100 gramas de ouro, sem contar os eventuais custos de custódia e manutenção. Nesse sentido, o BTC como reserva de valor pudesse ser muito mais prático e eficiente. Quem sabe não seja esse o futuro.

       Entretanto, os ensinamentos de Taleb de como refletir sobre novidades creio que são profundos e muito interessantes. Conforme Nicholas Taleb em seu livro “Antifrágil”, quanto mais tempo uma tecnologia existe, maior a sua probabilidade de continuar existindo. Quanto mais nova uma tecnologia, menor a probabilidade de ela continuar existindo. Pense na tecnologia “cadeira” e há quanto tempo ela existe. Como diz Taleb, nós nos surpreenderíamos ao ver que uma cozinha romana de 2000 mil anos atrás talvez seja muito semelhante com uma cozinha moderna atual no que tange aos utensílios.  O escritor libanês gosta da sabedoria dos antigos e na sua resiliência, e talvez essa reflexão seja  influenciada por esse aspecto do seu caráter. Porém, a ideia faz todo o sentido, quanto mais tempo algo ou uma tecnologia sobreviveu ao “caráter aniquilador do passar do tempo, mais robusta e apta a sobrevivência parece ser essa tecnologia ou ideia.

          O Ouro é conhecido como uma reserva de valor por milênios. Ou seja, é uma tecnologia, ou ideia, que acompanha a humanidade há bastante tempo.  Sendo assim, eu acompanharia Taleb no raciocínio, e seria ao menos cético de que algo que existe há milênios possa ser substituído por uma tecnologia nova. Diria que essa não é a maior probabilidade, o que obviamente não quer dizer que não possa ser o caso.

         Por fim, para não deixar o artigo muito longo, gostaria de encerrar o texto voltando levemente às primeiras considerações feitas.  Na minha modesta opinião de investidor, e a estendo para a  vida como um todo, qualquer pessoa precisa fazer escolhas.  O mundo multitarefa de hoje dá a falsa, pelo menos para mim, perspectiva de que podemos fazer inúmeras coisas ao mesmo tempo. Não, não podemos, ao menos não com profundidade e qualidade.  Como sempre temos que escolher sobre o que investir, o que estudar, com quem se relacionar, para onde viajar,  etc, etc, e é natural que os caminhos que não escolhemos possam parecer promissores depois da escolha feita.

           Precisamos saber conviver com isso. Talvez essa seja uma das maneiras de se alcançar uma vida plena.  Não podemos estar em todos os lugares ou fazer inúmeras atividades, aceite esse fato da vida. Assim, voltando especificamente para investimentos, não podemos estar em todas oportunidades que o mercado oferece. Há tantas maneiras de ganhar dinheiro: com leilões de imóveis, analisando empresas na bolsa de valores, comprando e vendendo negócios pequenos (como nosso colega Corey fazia), sendo visionário numa tecnologia promissora (como nosso amigo Viver de Renda e seus BTC maravilhosos), vendendo livros, comprando FII na hora certa, etc, etc. Acredite-me, prezado leitor, oportunidades é que não faltam.

        Uma das minhas maiores vitórias mentais enquanto investidor foi ter me libertado da sensação de “perda de uma oportunidade”. Se não comprei dólar quando estava muito barato, paciência. Se eu perdi aquela empresa redondinha que estava sendo negociada a múltiplos baixíssimos, ok não posso fazer nada. Se perdi um Unicórnio (termo de investidores anjos para aquelas empresas que aumentam de valor 1000/10000 vezes), faz parte. O importante é que o investidor sinta-se seguro em suas escolhas, e tenha objetivos e estratégias definidas. Se mesmo perdendo oportunidades você está mais próximo dos seus objetivos, não fique desapontado ou triste com o que perdeu, mas alegre-se de estar mais próximo daquilo que talvez o faça ficar satisfeito com a vida. Assumo que você, prezado leitor,  está fazendo o dever de casa e esteja construindo objetivos financeiros alinhados com os seus valores de vida.

      Apenas como uma nota final, falo sobre poder. Desde o advento da revolução agrícola há 10-12 mil anos, o que possibilitou o adensamento populacional humano, seres humanos dominam outros seres humanos. Sempre foi assim, e é questionável pensar que não será assim nos próximos séculos ao menos. O poder de certa forma foi contido com a criação dos Estados Modernos de Direito. O Estado Moderno, abominado por algumas ideologias, nada mais é do que uma forma de poder controlado e mais transparente do que outras formas de poder que existiram durante a história humana.


     Sendo assim, eu veria com extremo ceticismo a ideia que moedas virtuais de alguma maneira irão minar o poder, nesse caso o poder estatal sobre o controle monetário e de suas divisas. A mesma internet que serviu e serve como ferramenta para exigir mais transparência dos detentores de poder, também serve para exercer uma vigilância aguda nas pessoas por aqueles que detém o poder, como o caso Edward Snowden deixou bem claro. A tecnologia não precisa ser impedida, ela pode ser moldada a vários objetivos. Às vezes, como vivemos em tempos de paz e sem muitas guerras, as pessoas se esquecem que quem realmente manda é quem possui os exércitos. Sempre foi assim, e duvido seriamente que isso mude na humanidade tão cedo.

       É isso, amigos.  Não faço a mínima ideia se BTC é bolha, ou se vai assumir um papel relevante como meio de troca, ou como reserva de valor revolucionando e pressionando as moedas estatais.  Talvez seja um misto das duas coisas, quem sabe? Aliás, não domino nem os fundamentos técnicos da coisa para poder dizer algo mais categórico a respeito.  Porém, mesmo assim, espero que esse artigo possa ajudar na reflexão sobre o tema.


                Um abraço a todos!