segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

COMO FOI 2018 PARA O SOULSURFER?


                Olá, prezados leitores. Não que alguém possa se interessar sobre como o meu ano foi, ainda mais num cotidiano cheio de tantas informações. Porém, mesmo assim, farei uma retrospectiva do meu ano. É preciso que fique claro que esse tipo de texto, como talvez todos os outros, serve mais para agradar o autor do que aos leitores. Portanto, não deixa de ser uma forma de colocar “no papel” para mim mesmo o que foi o meu ano, e nisso com certeza há certo valor em fazê-lo.

NASCE UM PAI – O FATO MAIS IMPORTANTE

                Minha filha completou um mês. Dentre tudo o que ocorreu, com certeza o nascimento da minha filha foi um dos momentos mais impactantes não apenas do ano, mas de toda a minha vida. A existência muda. Confesso que ainda continuo tocando a vida de uma maneira similar antes do nascimento, é inegável que a carga fica muito mais em cima da mulher nesse começo, mas a vida muda com certeza.

                Na minha perspectiva, mudou para melhor. Dizem que a partir dos três anos, fica muito melhor, pois a criança interage muito mais, e é mais independente. Isso apenas me anima, pois se a Serena ainda não dá nem mesmo sorrisos sociais (o que acontece com 2-3 meses) e já é incrível interagir com ela, imagina a interação aumentando? Será fantástico, com certeza.

                Não posso deixar de dizer que devotei certo esforço intelectual antes do nascimento. Tanto eu como minha mulher nos preparamos bastante. Fizemos um curso sensacional na Universidade Federal de Santa Catarina sobre gestantes que durou dois meses, diversos livros foram lidos, palestras assistidas, etc, etc. Aliás, o curso foi sensacional, muito bacana saber que é possível haver serviços públicos de qualidade tão grande. Aliás, se não fosse o fato de termos uma obstetra, nós com certeza teríamos optado por ter a nossa filha no hospital universitário, que inclusive é referência em parto humanizado e aleitamento materno.

                Falando em parto humanizado e aleitamento materno, quando se estuda um pouco mais a respeito, é incrível como se percebe a miopia crescente em que vivemos. Pessoas assustadas com “o Foro de São Paulo”, embasbacadas por teorias conspiratórias de qualidade para lá de duvidosa, perdendo horas e horas com bobagens, mas quase ninguém sabe que o Brasil é o campeão mundial em Cesáreas (na verdade vice-campeão). É incrível. A ONU, tendo em vista dados estatísticos, estima que entre a 10-15% dos partos deveriam ser cesarianos. No Brasil, esse índice chega a absurdos e inacreditáveis 57% (elevado número de cesarianas - ONU), sendo que em alguns hospitais privados é na ordem de 90%.

                Quando estávamos na maternidade, pude ver o “quase assombro” das enfermeiras ao saber que o parto tinha sido natural sem qualquer espécie de anestesia. Ao ver uma lista dos dos quinze recém-nascidos do andar onde estávamos apenas dois (a Serena inclusa) tinham sido partos naturais É uma tragédia. O que é ainda pior é a “naturalização” da cesariana por médicos, pelas próprias gestantes e pela sociedade como um todo. Meses antes do nascimento, ao visitar a maternidade, eu e minha companheira enchemos a enfermeira que comandava o tour pela maternidade com perguntas sobre UTI Neonatal, plano de parto, administração de oxitocina, entre outras perguntas, quando um homem perguntou como era o “procedimento cirúrgico” do parto. Só pensei comigo mesmo “barbaridade”.

                Para os que não sabem, crianças que nascem de cesarianas tem uma probabilidade muito maior de ter diversas complicações de saúde no futuro, fora que o procedimento em si é extremamente agressivo para a mulher. Além do mais, o parto natural privilegia o momento que a criança quer nascer, e não alguma outra comodidade que nada tem a ver com a criança. 


        A cesariana é uma cirurgia que pode salvar vidas, e não se trata de demonizá-la, mas sim de encará-la como a exceção para casos que realmente necessitam. Números tão altos de cesariana, e os consequentes problemas de saúde que isso ocasiona, é um problema crítico de saúde pública do país, ordens de grandeza muito mais importante do que qualquer baboseira conspiratória sobre um golpe comunista patrocinado pelo “Foro de São Paulo”. Sim, estamos socialmente cegos para o que realmente importa.

                Não tenho a menor dúvida que o nosso conhecimento prévio ajudou que o parto fosse tão especial, um momento não de amargura ou infelicidade, mas sim de extrema felicidade tanto para mim como para a minha companheira. Como o nascimento é o primeiro e talvez o mais importante trauma que um ser humano passa, espero que tenhamos amenizado isso para a nossa filha. Há um mês, nasceu um pai, e uma filha, e isso acalenta o meu coração.


RELAÇÕES SOCIAIS


                Esse vídeo de sua filha, acalenta o meu coração”. Essa frase maravilhosa foi dita pelo meu bom amigo Kim. Conhecemos o Kim na Rússia quando estávamos caminhando para a fase final da nossa viagem de dois anos.  Kim é filho da Regina, uma mulher de cinqüenta e poucos anos que coordenava um grupo de travessia de natação em mar aberto que minha mulher participava. Mulher sempre sorridente, sempre disposta a ajudar, um astral 100%. A Regina e minha mulher ficaram amigas, e encontramos o “famoso” Kim morando na Rússia, mais precisamente na belíssima cidade de Peter (São Petersburgo).

                “Famoso”, pois Kim aos 17 anos saiu de casa e caiu no mundo. Consertou barcos (ou pranchas?) na Polinésia Francesa, foi garçom na Costa Rica (ou México?), passou tempo na África, e por fim se apaixonou pela Rússia (ajudou o fato de existir uma russa em específico). O Kim com os seus 27 (ou 28 anos?) é uma pessoa extraordinária. Extraordinária mesmo, uma das pessoas mais bacanas que conheci nos últimos anos.  Em 2017, ele voltou ao Brasil, e ficou ate o começo de 2018. Todos os encontros com ele eram especiais, um sujeito sensível, de mente absolutamente aberta, inteligente (ele estava ganhando dinheiro escrevendo artigos em Inglês para uma revista de surfe da Califórnia , ou é da Austrália?), um cara extremamente maneiro.

                O que sempre me chamou, e ainda chama, atenção no Kim é como ele realmente se preocupa em fazer uma resposta decente que se importe com o que você escreveu. Ele manda mensagens enormes, e cheias de insight. Quando falamos do nascimento da nossa filha, ele mandou uma mensagem de sete minutos no whatsapp, cheia de carinho e reflexões. Num mundo onde as pessoas mandam mensagens feitas por outros, encaminham bobagens quaisquer para 100-200 pessoas ao mesmo tempo, que alívio é saber que ainda é possível ter interações mais genuínas, sinceras e mais intensas com pessoas.  É incrível como a esmagadora maioria das pessoas não consegue externar os seus sentimentos, o que foi agravado ainda mais pelo uso “imbecilizante” e “alienador” das redes sociais.

                Portanto, como não uso redes sociais (a não ser o whatsapp para mensagens pessoais), minhas relações pessoais talvez não estejam tão degradadas. Porém, como pessoas extremamente importantes estão imersas nessa loucura, minhas relações acabam se degradando. É horrível. É evidente que as redes sociais não são responsáveis únicas pelas fraturas de relacionamentos entre pais e filhos, irmãos, vizinhos, amigos, “estranhos” de uma comunidade, porém estamos sim criando um ambiente extremamente tóxico para que relações realmente profundas, prazerosas e intensas possam florescer.

                O que às vezes é triste é que você pode, como eu tentei em diversas oportunidades, falar “ei, a forma como você encara a sua vida é a forma como você irá se sentir no mundo”, ou “coisas ruins acontecem, o que importa é o que fazemos disso”, ou “não valha a pena ficar brabo com coisas que não temos nenhum controle, leia um livro ao invés de assistir televisão ou ficar como um viciado em pequenas doses de dopamina passando o dedo para baixo num aparelho de celular”, não adianta. É um processo único e exclusivamente pessoal, e não temos como convencer as pessoas, mesmo se forem próximas a nós. “Veja, olhe a quantidade de beleza que existe no mundo”, seria uma frase que com certeza o Kim diria, ou se ele ouvisse faria todo o sentido para ele. Infelizmente, para uma boa parcela das pessoas é apenas uma frase sem cheiro, ou um meme compartilhado com centenas de pessoas de forma acrítica e inconsciente.

             No último sábado encontrei o Claudião. Ele é juiz de direito há uns 20 anos, extremamente respeitado. Tem uma tatuagem do Che Guevara num braço e do Mozart no outro. Exímio tocador de violino, se encontra quando toca metal pesado com seu baixo. É um músico fenomenal e uma pessoal espetacular. Ele há dois meses se acidentou voando de parapente (sim, ele ainda compete nacional e internacionalmente nesse esporte). Ele quebrou o ombro em três partes, o quadril em outras três partes. Está com dor desde então, toma tramal todo o dia (remédio opiáceo), teve que ficar em casa sem se movimentar muito todo esse tempo. 

         "Como você está Cláudio?", eu pergunto. "Ah, eu estou ótimo!". "Nunca li tanto na minha vida, três livros por semana, esses meses estou usando para ficar comigo mesmo e refletir sobre a vida e o que é importante". "Fico com meus filhos, fico com a minha mulher mais tempo", e "já estou começando a poder me mexer mais, inclusive vamos fazer um som hoje, né?".  Sim, ainda há pessoas que mantém a sanidade e conseguem ver que a realidade e a forma como vemos e sentimos o mundo é feita principalmente de como reagimos aos eventos, sejam eles adversos ou não. Se reagirmos com vitimismo, raiva, culpa, apego excessivo ao passado, é evidente que nossa vida será pesada.

                Como comecei a fazer crossfit de uma maneira mais intensa (às vezes treino três vezes ao dia), acabei conhecendo muitas pessoas bacanas desse universo, o que ampliou em certa medida o meu círculo de pessoas conhecidas. Para ser sincero, conheci diversas pessoas bacanas pelo crossfit que hoje posso chamar de amigos, e que nos ajudaram, e vem ajudando, com o nascimento de nossa filha.  Foi tão interessante essa nova construção de relacionamentos, que o atual baterista de minha banda tem incríveis 13 anos e é filho de um casal de amigos do crossfit. Estava há vários meses sem tocar pela ausência de baterista, e não me aparece esse garoto de 13 anos que toca muito e além de tudo é extremamente bacana? Muito legal.

                Então, minhas relações sociais nesse ano foram boas e melhoraram ao mesmo tempo em que se deterioraram em certas perspectivas.


PARTE FÍSICA E MENTAL – PRIMEIRO ANO “INDEPENDENTE FINANCEIRAMENTE”


                Faz um pouco mais de um ano que saiu minha exoneração do cargo de Procurador Federal, sendo assim o ano de 2018 foi o primeiro ano onde não tive uma atividade oficial. Nossa, que felicidade e alívio. 

          Do ponto de vista físico, nunca estive tão bem.  Como dito, comecei a treinar crossfit com mais intensidade. Meu corpo se modificou, fiquei muito mais “torneado” e musculoso (apesar de pesar pouco), e meu condicionamento aumentou absurdamente.  Hoje posso fazer treinos de 100 barras, 200 flexões, corrida, e manter o ritmo por 30-40 minutos, o que seria impensável alguns meses atrás, e é impensável mesmo para pessoas que fazem apenas academia tradicional, o que dirá em relação aos que são sedentários. 

         Aos poucos vou aprendendo os movimentos de Levantamento Olímpico (que são extremamente complexos, um movimento como snatch é considerado o segundo movimento mais complexo dentre todos os esportes olímpicos), e cada vez mais me interesso por calistenia que aparentemente é o meu maior “talento” nessa área. Aliás, eu nunca poderia me imaginar que eu me interessaria pelas técnicas de levantamento olímpico, pelo contrário achava chato e sem sentido quando via de relance essa modalidade nas olimpíadas. Hoje em dia, eu acho incrível e até mesmo bonito ver profissionais fazendo levantamento, é algo extremamente técnico e difícil.

                A atividade física é essencial para a minha vida atualmente. Além de me preparar fisicamente, me deixa muito mais feliz e conectado com a realidade, e com certeza absoluta tem um impacto grande em minha saúde mental.  Quanta melhoria teríamos na sociedade se as pessoas saíssem das posições erradas ergonômicas que ficam para acessar a internet no celular e começassem a fazer exercícios de maior intensidade.

                Minha saúde mental nunca esteve tão boa. Não guardo mágoas, ressentimentos, não tenho ansiedades ou crises de qualquer natureza. Minha mulher sempre me diz que “você é a pessoa mais sem problemas e bem resolvida que já conheci”, e é assim que me sinto mesmo. E a sensação é ótima. Isso talvez me impeça de ver e sentir as dores dos outros que possuem muitas questões mal resolvidas em suas vidas, o que de certa maneira pode me impedir de estabelecer conexões mais profundas com essas pessoas. Porém, na medida do possível, eu tento me colocar no lugar dessas pessoas.

                Portanto, do ponto de vista físico e mental o ano de 2018 foi excelente.


PARTE FINANCEIRA – O DINDIM


                No ano que não fui Procurador, foi o ano disparado que mais ganhei dinheiro. Não tinha feito, mas dias atrás coloquei numa planinha de Excel, e apenas nas minhas operações imobiliárias com leilão o meu lucro líquido (depois de pagos comissão, impostos, despesas, etc) chegou aos sete dígitos. Sendo assim, o ano foi muito bom do ponto de vista de imóveis. 

         Como tenho diversos outros imóveis que consegui regularizar a parte jurídica nos últimos meses (e ainda há alguns pendentes), é possível que o ano de 2019 seja ainda melhor, com lucros ainda maiores. Como não pretendo parar em 2019 (apesar de ter pensando assim alguns meses atrás) e como aumentei a minha atuação geográfica para incluir todo o Estado de São Paulo (o que já me frutificou quatro aquisições, e talvez ano que vem renda talvez umas 6-7 apenas nesse Estado), é muito provável que o ano de 2019 seja melhor, e isso é muito mais do que eu remotamente preciso. Se colocar os rendimentos de indenização do governo pela minha adesão ao PDV, meus rendimentos em renda fixa (grosso do meu capital), e meu patrimônio aumentou num ano o que seria suficiente para gerar uma independência financeira razoavelmente segura.

                Tirando os gastos com o bebê que foram "extraordinários", e com a reforma do apartamento onde moro, o meu “gasto basal” para comer bem, viver bem, é algo na faixa de R$ 5.000,00 mês, ou R$ 60.000,00 ano. Podemos viver com menos e mantermos ainda a qualidade de vida, mas realmente não precisamos de mais para aumentar nosso bem-estar.  Mesmo chegando a gastos de R$ 180.000,00 (R$ 15.000,00 por mês, não consigo me imaginando gastando mais do que isso em coisas que realmente fazem sentido para mim e para a minha família), isso daria taxas de retirada ínfimas comparadas ao total do meu portfólio. 

       Portanto, não tenho riscos financeiros, pelo contrário, a tendência é a coisa aumentar ainda mais e mais. Comprei uma parte de uma empresa de tecnologia extremamente promissora, e talvez, oxalá, em 2020 esteja tirando 25.000,00/30.000,00 apenas dessa empresa que não custou muito.

                Perdi 75 mil numa operação envolvendo eventos. Mais uma vez perdi dinheiro com isso (a primeira foi em 2003). Cheguei a estar 265 mil no negativo, mas o impacto foi minimizado. Tenho uma execução de mais de 200 mil para ajuizar e quem sabe não consiga recuperar e ainda ganhar um dinheiro, mas não conto com isso, apesar de ter alguma probabilidade. Fiquei brabo comigo e com a situação, mas já passou, e é preciso olhar o portfólio como um todo, e esse foi apenas um “escorregão”.

                No mais, não comprei FII, não comprei ações, na realidade nem olho isso mais há algum tempo. O meu único risco é o Brasil, então, assim como o Viver de Renda, minha preocupação é formar um patrimônio fora descolado do patrimônio no Brasil. Mandei pouco para fora em 2018, pois o dólar se manteve acima do câmbio real de R$ 3,45/3,50, talvez eu deva mandar valores pequenos como U$3.000,00 mês, mas mesmo assim mandar alguma coisa mesmo quando o dólar estiver em 110 do índice do Banco Central, que é mais ou menos onde está. Quem sabe o dólar não caia abaixo de 100, se isso ocorrer irei aumentar o envio de dinheiro para fora.


 PROJETOS OUTROS – PODCAST, BANDA, BLOG. LIVRO


                O novo blog não saiu. O Podcast nem comecei a tentar, apesar de querer bastante e achar que há uma carência enorme disso no Brasil. Tudo que eu posso indicar de qualidade é estrangeiro e em inglês, e a verdade é que 99% da população, talvez 99.9%, não consiga entender um podcast em inglês sobre um tema mais complexo. Imagine ter um programa de 1 a 2 horas com pessoas interessantes, de variadas matizes ideológicas, sobre diversos temas, e onde o entrevistado fosse respeitado, e se tentasse genuinamente saber o que ele pensa sobre uma miríade de questões, sem necessidade de frases de efeito, ofensas, etc? 

        Eu acho que seria muito bacana. O fato é que eu preciso contratar alguém para fazer a parte técnica, pois eu não tenho o menor “saco” de aprender por mim mesmo e gastar tempo com isso. Quem sabe em 2019, quem sabe.

                O livro sobre leilões não saiu. Ele até no começo do ano tomou forma, e escrevi umas 400 folhas, mas por motivos alheios fui abandonando. Preciso retomar, e publicar, mas o meu ímpeto inicial deu uma enfraquecida. Continuo tocando numa banda, e está bem bacana. A música é algo extraordinário, e me faz muito bem.



DO QUE SENTI FALTA EM 2018? DO MUNDO! MAS SÓ DE PENSAR QUE VOU PODER MOSTRAR O MUNDO PARA MINHA FILHA E  SORRISO JÁ ABRE NO MEU ROSTO


      Sim, a falta de viajar está começando a pegar um pouco no final de 2018. E pensar que as imagens abaixo é apenas uma fração mínima do que eu e minha mulher já vivenciamos nesse mundão, seja de lugares, comidas, pessoas agradáveis e experiências. Filha, isso tudo espera por você!


 Seul - Coréia do Sul
 Jantando com Amigos Mongóis na capital da Mongólia
 Soulsurfer como "cobaia" de um mágico de rua em Busan no sul da Coréia do Sul
Arrozais no Sul da China
 A família querida que nos acolheu em sua casa por vários dias na belíssima cidade iraniana de Esfanhan (que delícia de café)
A maravilhosa e inexplorada parte leste da ilha de Lombok Indonésia

 Um dos maiores desastres ambientais da história humana: o desaparecimento do mar de Aral. Foi difícil chegar nesse lugar no Uzbequistão, mas valeu muito a pena. Só desse dia tem no mínimo umas 3-4 histórias
Parte extremo oeste e selvagem da Mongólia. Sim, o paraíso existe. Escalamos a montanha menor por conta própria e risco (e tem 3-4 histórias diferentes apenas desse dia)

Cantando no museu comunista de Kazan (Rússia). Cidade irada, capital da província muçulmana do Tartastão

Parque Amarelo na China. Esse dia andamos e andamos, e depois andamos mais um pouco. Creio que subi uns 8 mil lances de escada, se não foi mais, mas valeu cada momento.
Passeio pelo lugar mais quente da Terra (deserto de Lut, província de Kermat Irã). Quando fomos estava frio, no verão já foi medido temperatura de mais de 70 graus Celsius. Amigos iranianos gentilmente nos levaram lá, já que é difícil chegar de transporte público

 Viagem de cavalo de três dias pelas montanhas do Quirguistão
Os "assustadores" soldados iranianos pedindo para posar numa foto com um gringo (ou estariam pedindo votos para o Bolsonaba?)


Típico transporte no uzbequestião
Aitolá Khomeini - Mural feito na antiga embaixada dos EUA em Teerã

Um dos lugares mais lindos da terra: Karakul lake. Província muçulmana de Xinjiang (a mais complicada para o governo central, mais ainda do que o Tibet, não sei nem como fomos autorizados a entrar nessa gigantesca província), fronteira com o Quirguistão. Nosso simpático anfitrião, Etnia Quirgiz (pode-se ver pelo chapéu). a esposa dele fez um massa de pastel, com um chá na noite anterior dessa foto (estava um frio de lascar), que valeu a noite



                É isso, meus prezados amigos. Espero que o ano de 2018 possa ter sido bom para vocês, e que 2019 traga novos desafios, esperanças, felicidades, tristezas, ou seja vida. O que desejo para vocês é uma vida intensa que valha a pena ser vivida.

Abraços!


terça-feira, 18 de dezembro de 2018

A VIAGEM DA PATERNIDADE: SOBRE SER MÃE, EMPATIA E PODCASTS DE TRÊS HORAS


        Olá, colegas leitores. Já faz certo tempo que não escrevo nada. Coisas da vida. Nesse tempo passado minha linda filha nasceu. Filhos, dizem “só quem tem sabe o que é”, e é a mais pura verdade. Incrível. Participar do parto dela foi uma das experiências que fico feliz de ter passado nessa vida. Com certeza, um dos momentos impactantes de minha existência Parto natural, com uma médica humana, tocando Queen no quarto, foi um momento extraordinário.

                E quão extraordinária não é a vida. Ao ver a minha filha se desenvolvendo, as habilidades mais básicas sendo adquiridas dia após dia, nesse último mês, eu não consigo evitar ser tomado por inúmeras reflexões.  Qual será o mundo que a espera em 2050? Eu venho lendo muito sobre Inteligência Artificial, bioengenharia, e pensadores como Yuval Harari e Sam Harris, e me pego um pouco assustado ao imaginar que o mundo dela vai ser completamente diferente do meu, talvez de uma forma sinistra. Porém, sou trazido ao presente, pelos choros e fraldas, e fico feliz de poder estar com ela todos os dias várias horas, algo que a liberdade financeira me permite. O que posso dizer? Quero apenas aproveitar todos os momentos, do primeiro sorriso, a primeira engatinhada, a primeira palavra, tantas coisas boas ainda por acontecer.

                Ao olhar para ela, e vivenciar o que estou passando, também não consigo parar de olhar para as pessoas sejam homens, mulheres, brancos, negros, ricos, mendigos, mau encarados, etc, e refletir que um dia todas essas pessoas apenas choravam, mamavam e defecavam, completamente dependentes de um outro ser. Será que nesse momento de extrema fragilidade, de intensa atividade formativa neural, elas receberam amor ou indiferença? Será que mamaram como deve ser até um ou dois anos de idade, ou tomaram fórmula, ou coisa pior? Quanto do que essas pessoas hoje são não se deve a como elas foram tratadas nos primeiros meses? Ao pensar sobre tudo isso, um sopro de felicidade entra na minha vida, pois às vezes sou tomado de um grande sentimento de empatia por todas essas pessoas e suas histórias sofridas ou não.

                E se há alguém importante nessa história toda, ela é em especial a minha companheira, e em geral a Mãe. A dedicação, a dor na hora do parto, as mudanças hormonais, as 24 horas preocupadas com a criança, a dor de dar o seio para a amamentação, meu deus, só posso dizer obrigado Mãe, e obrigado para minha companheira. Mãe, um papel tão negligenciado socialmente. Não vale quase nada socialmente ser uma Mãe dedicada. Aliás, principalmente em meios financeiros, um dos diferenciais para salários maiores a homens em relação a mulheres é o fato que estas engravidam e ficam afastadas por períodos longos de tempo. Compreensível do ponto de vista individual de um empreendedor, completamente incompreensível de um ponto de vista social como um todo. Uma sociedade que não valoriza como uma das funções mais importantes o ato de ser Mãe, encorajando e ajudando as mulheres, é uma sociedade doente que está míope para as grandes questões

          Ouvi de uma excelente pediatra numa palestra que fui que ela aprendeu no tempo que viveu em Malawi (um país Africano) que é "necessário uma vila inteira para se criar uma criança". Eu pensava que esse era um ditado indígena, mas na verdade esse é apenas a constatação óbvia de diversos povos de diversas geografias.  Hoje em dia, muitas mulheres não possuem uma vila inteira, muitas vezes não possuem nem mesmo um companheiro, e ainda precisam ouvir explicações sobre os motivos delas, geralmente proferidas por homens (com h minúsculo mesmo) serem preteridas por sua simples condição de ser mulher ou Mãe. E há pessoas que acham isso não só normal, mas como o ápice da melhor ideologia e forma de se organizar dos seres humanos. Não é à toa que vemos tantos adultos depressivos, ansiosos, que não sabem lidar bem e de forma saudável com relacionamentos humanos, com várias sombras da infância mal resolvidas, e continuaremos a "fabricar" adultos assim, sem sombra de dúvidas.

                Falando em mulheres, grandes questões e empatia, que entrevista fui brindado ao ouvir o Podcast do Sam Harris de número 144 com Deeyah Khan. São quase três horas de duração de uma entrevista fantástica, com uma mulher extraordinária. Se você ainda perde o seu tempo com Lula, Bolsonaro, dinheiro do assessor, Olavo de Carvalho, conspirações globalistas e comunistas, blogs mal escritos, noticiário, redes sociais, etc, é uma escolha única e exclusivamente sua de desperdiçar o seu tempo com coisas que além de não acrescentarem nada, apenas te deixam mal. Infelizmente, isso ainda não existe no Brasil, e é por isso que eu queria começar um Podcast. Porém, no exterior, especialmente os EUA, podcasts fantásticos existem em grande número. E por que eles são fantásticos?

Incrível a entrevista. O Sam Harris todos sabem que é um cara diferenciado, mas essa entrevista passou todas as expectativas que tinha sempre que ouço um podcast dele.

                Principalmente, pela longa duração, tem podcasts de quase quatro horas. Num mundo onde textos de duas folhas são “textões”, onde vídeos de 2 minutos com milhões de visualização como “bolsonaro humilha não sei quem”, “Ciro arrebenta economista de direita” atrai a atenção de quase todos, é uma bênção e oportunidade poder ver realmente conversas acontecendo num período de tempo correto. Não, um debate de idéias não se faz em cinco minutos, mas em cinco horas, ou talvez em cinco meses. Em cinco minutos, você tem apenas frases de efeito, e chavões e mais chavões, sem que os interlocutores estejam realmente interessados no que o outro está falando.

                Isso, na realidade, era o que mais me incomodada (irritava em certas ocasiões) quando falavam de mim (Soulsurfer) em outros espaços. Não era o fato de discordar de mim, já que pela milésima vez repito que isso é o normal numa sociedade democrática, mas sim não fazer a mínima questão de entender o que eu tinha escrito. Uns por preguiça, outros por má-fé e outros por falta de capacidade interpretativa mesmo. Nisso, a jornada com esse blog foi um grande aprendizado, que não temos controle sobre isso, e temos que focar nossa atenção naquelas pessoas que realmente querem ter um diálogo genuíno, seja para concordar, discordar, ou refletir.

                Por isso, os diversos podcasts são ferramentas fantásticas. Esse da Deeyah Khan é um deles. Ela é uma mulher que devota a sua vida a fazer documentários e a questionar diversas questões complexas. Dois dos seus documentários (que estão disponíveis no Netflix nos EUA, mas não no Brasil, aliás quem conseguir um link para assistir agradeceria enormemente) tratam dos Jihadistas e do movimento de extrema direita branca nos EUA. A forma corajosa que ela abordou esses temas, a forma empática com que ela se refere a jovens radicalizados muçulmanos e neonazistas americanos, é espantosa. É um exemplo de como nós temos ainda muito a evoluir.

White Right: Meeting The Enemy (não consigo achar um link para ver esse documentário de jeito nenhum)

                É isso amigos leitores, muita iluminação para vocês todos.

Um abraço!

OBS: Não respondi diversos comentários no meu último artigo, peço desculpas. Irei fazê-lo agora.

terça-feira, 6 de novembro de 2018

PODE UM PAÍS ALMEJAR SER INDEPENDENTE FINANCEIRAMENTE ?


             
Tempo de leitura: mais de 20 minutos (longo para padrões atuais)

      Eu sempre acreditei que nós evoluímos quando nossas convicções são colocadas a prova, ou quando enxergamos uma determinada parcela da realidade sob um prisma completamente novo.  A ciência geralmente costuma avançar, ou revolucionar um determinado campo, dessa maneira. Assim, talvez a leitura de um livro sobre biologia possa fazer com que um grande empresário  tenha um  insight que não iria obter ao ler mais um livro sobre gestão ou finanças. Esse exemplo específico não foi nem mesmo criado por mim, e é citado expressamente pelo autor no bom livro “The Art of Thinking Clearly”.  O escritor dessa obra, um gestor e consultor, fala expressamente que sua visão de mundo foi mudada radicalmente quando ele começou a entender mais profundamente sobre biologia.


                Steve Jobs, quando era jovem e sem dinheiro, fez um curso de caligrafia e isso de alguma maneira (nas próprias palavras dele naquele célebre discurso de formatura) criou dentro dele um senso de estética que iria influenciar sobremaneira o design dos produtos da Apple. E como nós sabemos, centenas de milhões de pessoas admiram a estética dos produtos da apple. Quão improvável não é a ligação entre caligrafia e um dos produtos eletrônicos de maior sucesso? Eu diria que é uma relação improvável, algo que jamais passaria na cabeça nem dos mais sonhadores analistas sobre a realidade. Porém, aconteceu.

      Portanto, abrir-se a novas idéias, ler sobre coisas completamente distintas, refletir sobre um problema antigo num outro viés, conversas com pessoas distintas,  tem essa aptidão única de criar relações entre idéias, fatos, noções, que num primeiro momento aparentam não ter qualquer relação.  É por isso que viajar, principalmente para lugares diferentes, proporciona esse tipo de possibilidade, mas de uma forma lúdica e divertida

        Eu realmente não gosto de escrever textos sobre coisas evidentes. O esforço pessoal, por exemplo. Eu apenas me tornei duas vezes campeão brasileiro de xadrez (por idade), pois eu estudava horas e horas em casa, porque eu viajava para competir, etc, etc. Se eu não tivesse me esforçado (horas de estudo), eu jamais seria campeão, ou jogaria razoavelmente bem, ainda mais num jogo onde o esforço é apenas individual. Se eu não tivesse estudado durantes vários anos, eu não teria passado no vestibular de uma universidade federal extremamente concorrida. Se eu não tivesse lido vários livros sobre finanças, enquanto poderia estar fazendo outra coisa, eu jamais teria a segurança atual de manejar o meu próprio dinheiro. Logo, é evidente que o esforço pessoal importa, e isso sempre foi claro desde a minha infância. Escrever textos sobre isso me parece uma grande perda de tempo do autor e do leitor.

                Porém, para o meu espanto nos últimos anos, o tipo de texto que muitas pessoas gostam é aqueles que louvam o esforço pessoal, como se isso fosse uma grande (re)descoberta.  Nesse tópico, muito mais interessante para mim é ler, refletir, sobre o que o esforço pessoal não explica.  Se apenas o esforço pessoal (ou mérito) explica a distribuição de riquezas e honrarias num agrupamento humano ou não. Se a própria noção de mérito é algo que faz ou não sentido, e se faz sentido será que o é em todas as situações? E isso não é nada novo, os antigos gregos já refletiam sobre esse tema, como compartilhei neste artigo há mais de dois anos: Virtude e Fortuna. Aceite o Acaso. Esforce-se sempre que puder


           Portanto, se há algo que me “cansa intelectualmente” é o óbvio.  Porém, se fosse apenas o óbvio nossas conversas ainda assim seriam de qualidade maior . O problema é  quando a realidade é transformada num maniqueísmo grosseiro, simplista e muitas vezes falso.  Quer, prezado leitor, você queira ou não, o mundo e as relações humanas são extremamente complexas.  Se uma pessoa quer observar o mundo com base em poucas idéias, e signos para representar essas idéias (pense em direita x esquerda, comunismo x capitalista, cidadão de” bem” x cidadão do “mal”), não há como a visão de mundo dessa pessoa captar a complexidade da realidade. É simplesmente impossível.  A relação entre compreensão simples da realidade ou complexa e existência de símbolos linguísticos para expressar a realidade já foi comentada por mim nesse artigo:  Newspeak, Neve e Distorção da Realidade

                Essa grande digressão serviu para expor, ao menos essa é a minha opinião, que devemos fugir da obviedade e procurar as nuances do mundo, e que por causa dessas nuances, o mundo (a realidade) moderno tende a ser muito mais complexo do que nosso cérebro de primata que evoluiu nas savanas africanas milhões de anos está disposto a aceitar sem um grande esforço.

           Comecemos com um exemplo. Expectativa de vida ao nascer. É claro que essa é uma questão muito mais complexa, mas a esmagadora maioria das pessoas gostaria de viver mais, e não morrer tão cedo. Especialmente se a vida se prolongar com razoável saúde, pois muitos podem não querer uma vida mais longa, mas com severas limitações de saúde. Essa métrica (expectativa de vida e longevidade com saúde) é algo mais importante, ao se analisar um agrupamento humano, do que número de carros por família, PIB Per Capta, telefones por domicílio, etc? Para mim a resposta óbvia é um sonoro SIM.

            A reflexão não é apenas retórica, ela possui um exemplo prático muito atual. Poucas pessoas sabem, mas a expectativa de vida dos EUA caiu nos anos 2015 e 2016. Não é comum uma queda na expectativa de vida durante dois anos seguidos num país que não é assolado por guerra ou epidemia aguda de alguma doença .  Aparentemente, haverá uma queda na expectativa do ano de 2017 também (os dados são divulgados no final de 2018, with-death-rate-up-us-life-expectancy-is-likely-down-again). Se isso ocorrer, os EUA repetirão os anos de 1916,1917 e 1918 onde a expectativa de vida declinou por três anos seguidos, mas isso aconteceu por causa da maior epidemia de gripe da história, bem como por causa da primeira guerra mundial. Se a expectativa de vida cair em 2017, e continuar caindo em 2018, os EUA terão retrocedido enormemente.


Os EUA, na métrica talvez mais importante para governos e sociedades, vem ficando para trás, sendo que a expectativa de vida caiu nos últimos dois anos.


      É um enigma por qual motivo a expectativa de vida vem caindo nos EUA. Muitos atribuem, inclusive o prêmio nobel de economia do ano de 2015 Angus Delton, que isso se deve ao que se chama "mortes de desespero". Fenômeno que engloba as mortes por suicídio e overdose de opioides

     Não é apenas a longevidade, mas a qualidade da vida do americano médio. Quase 40% da população (incluído crianças) possui alguma condição crônica (diabetes, depressão, doença cardíaca, etc).  Quase um terço da população (incluindo crianças) possui mais de uma condição crônica. Lembro-me de ter lido um estudo que aproximadamente 60% das pessoas com mais de 50 anos de idade possuíam duas ou mais condições crônicas (fonte), contra uma média de 25% de países europeus. Está se a falar de dezenas de milhões de pessoas. Uma verdadeira tragédia.

        Logo, parece-me claro que se alguém disser que os EUA vão bem nos últimos anos, apenas se a métrica for crescimento econômico, pois de longevidade e saúde o país está indo muito mal.

       Para se ter uma concretude maior com a sua vida, pense você mesmo prezado leitor. Você preferiria viver com saúde até os 85 anos e ter um iphone, ou você preferiria viver até os 60 anos com dores constantes, mas trocando de telefone a cada ano?  A resposta sua, leitor, parece-me óbvia. Na verdade, a pergunta parece até absurda, apesar  dos EUA como um todo estarem escolhendo metaforicamente o "iphone com diabetes e menos longevidade". 

     Se parece tão evidente , por qual motivo essa ênfase quase que exclusiva, principalmente quando se fala de países e não indivíduos, em apenas métricas materiais? A resposta simples para isso é que durante muitos e muitos anos, na verdade ao longo da esmagadora maioria da história humana, quanto maior a riqueza material maior era possibilidade de uma vida mais longa saudável.

        O PIB Per Capta é uma métrica que com certeza, e não preciso nem olhar dados para isso, possui uma correlação positiva com expectativa de vida. Lógico, é muito mais fácil se viver mais e melhor, se as necessidades nutricionais não são um problema diário, se há estradas mais seguras para se locomover, etc. etc. Logo, um aumento da riqueza produzida com certeza irá levar a um aumento da expectativa de vida, principalmente nos estágios iniciais de uma sociedade.

            Isso é óbvio e ululante, apesar de ser repetido ad nauseaum por economistas e pensadores das mais variadas matizes. A pergunta muito mais interessante, porém, é se essa relação é linear, ou seja, se um aumento cada vez maior do PIB Per Capta, independente de outras métricas, irá ocasionar um aumento da expectativa de vida, e o mais importante de uma longevidade saudável.

         Aqui, na maioria dos entusiastas e blogueiros de finanças pessoais, há a criação de uma enorme dissonância cognitiva.  O coletivo e o individual parecem se dissociar completamente (é verdade que há muitas pessoas que acreditam que não existe nem mesmo sociedade, mas apenas indivíduos, principalmente aqueles que leram Any Rand sem muito senso crítico, porém acho isso uma enorme tolice, até mesmo do ponto de vista biológico). Por qual motivo?

           Ao falar das próprias vidas e aspirações, os entusiastas pelo conceito de Independência Financeira querem chegar num determinado montante financeiro, pois daí poderia gozar de sua liberdade de forma plena, poderiam em outras áreas da vida, que não envolvem necessariamente o acúmulo de mais bens, achar o que realmente faz sentido. Poderiam encarar as perguntas existenciais que realmente são importantes de frente. Isso é ótimo. Eu estive nesse caminho, há certo tempo eu gozo do que chamam “independência financeira”, e acho bacana que muitas pessoas estão despertando para esse fenômeno.

           Qual é a ideia implícita da independência financeira? A ideia de que há algo mais do que dinheiro, que há porções de nossa vida, de nossos relacionamentos, que vão além da simples questão material.  Reconhecer essas questões significa que o dinheiro, ou bens materiais, deixam de ter importância? Com certeza, se a pessoa encarar de frente os seus “demônios”, suas dúvidas existenciais mais profundas, a importância de sucesso, dinheiro, etc, perderá um pouco (ou às vezes muito) o brilho que exerce sobre parcela significativa de nossa sociedade.

       Porém, mesmo deixando para lá a reflexão do último parágrafo, é evidente que reconhecer parcelas da realidade que não são afetadas pelo dinheiro, e não dependem dele, obviamente não retira a importância do mesmo. No caso da independência financeira, isso é ainda mais evidente, pois a acumulação de dinheiro é uma ferramenta a mais para se poder lidar com essas outras questões.

           Muitos leitores provavelmente concordarão com o que foi dito sobre independência financeira, mas quando a análise se passa para como sociedades encaram esse problema, há um giro de 180 graus e uma dissonância cognitiva que muitos nem percebem que estão tendo. Quantas e quantas vezes eu já não li em artigos mais ou menos profissionais (no sentido de escrito por economistas ou pensadores mais conhecidos ou não) sobre o fato de que países nórdicos poderiam ser muito mais ricos se quisessem. Se não houvesse uma tributação tão alta, se não houvesse benefícios sociais tão generosos (ou se não houvesse nenhum), países como a Dinamarca, por exemplo, poderiam ser ainda mais ricos. 

             É claro que talvez poderiam, ou talvez não, vamos partir do pressuposto que poderiam ter uma renda per capta maior.  A pergunta essencial (a indagação óbvia) é se isso teria ou não algum custo no bem-estar da população como um todo.  Eu, Soulsurfer, poderia ter continuado Procurador Federal, e junto com meu patrimônio atual, mais operações em leilões, mais rentabilidade financeira,  mais aportes do salário do cargo, com certeza o meu patrimônio seria ainda maior. Porém, isso teria algum custo? É evidente que sim. Já passamos por isso na reflexão sobre independência financeira. Porém, uma busca desenfreada por mais Pib Per Capta no caso de uma Dinamarca, por exemplo, iria ser sem custos?

              A Dinamarca, atualmente, aparece como o terceiro país mais “feliz” do mundo. Na verdade, talvez a palavra correta seja satisfeito, e não feliz. Durante muitos anos a Dinamarca foi o primeiro nesse ranking elaborado pela ONU, e a diferença para o primeiro lugar é tão pequena, que se pode considerar que há um bloco de países extremamente satisfeitos com a vida.

   Eu já escrevi sobre esse tema também neste artigo Um Guia Prático Para o Estudo da Felicidade, mas para o leitor que não leu ou não quer ler, basta observar que o índice de satisfação é baseado não apenas em Pib Per Capta (apesar de ter um peso enorme), mas em suporte social, generosidade, liberdade para fazer escolhas e senso de viver num local sem ou com corrupção.


                
         Como a Dinamarca durante muitos anos esteve em primeiro lugar nesse index, e atualmente está quase em primeiro lugar, qualquer um que reflita seriamente sobre o tema, precisa pensar se haveria ou não custos para o bem-estar geral da população Dinamarquesa eventuais mudanças bruscas na forma como eles conduzem sua própria sociedade. De uma perspectiva de análise de risco, seria arriscar muito (bem-estar geral da população) sem qualquer ganho óbvio (o país com o maior bem-estar humano do mundo em várias perspectivas), pois fica difícil imaginar uma melhora ainda maior na sensação de felicidade dos Dinamarqueses.

             Só essa pergunta, esses dados concretos, deveria fazer com que todos que já escreveram ou refletiram sobre o tema parassem para pensar um pouco mais. É evidente que isso não se trata de esquerda x direita, ou se há um socialismo nórdico ou se há um “mito” de um socialismo nórdico, a questão é ordens de grandeza mais complexa do que isso, e envolve economia, biologia, sociologia, antropologia, filosofia, e muitos outros mais ramos do conhecimento. Qualquer resposta de apenas um ramo é capenga por natureza, generalizações seja de qualquer lado é apenas uma muleta, e muitas vezes é simplesmente falso.    

                Encaminhando-me para o final, e tentando juntar todos os conceitos e várias idéias tratadas nesse artigo. Como serei pai daqui algumas semanas, venho lendo diversos livros sobre o tema paternidade, criação de filhos, etc. Um desses foi o interessante livro "O Segredo Da Dinamarca".



               O livro trata da história de uma jornalista inglesa que resolve mudar para a Dinamarca e morar um ano nesse país. Jornalista londrina, estressada pela vida na cidade grande, querendo sucesso e fama na carreira, ela resolve acompanhar o marido que vai trabalhar para a famosa produtora de brinquedos Lego. A sede da companhia é numa pequena cidade do interior da Dinamarca, e a autora conta, em cada capítulo que representa um mês, os detalhes, a cultura diversa, e como ela sendo estrangeira encara tudo aquilo. Desde a preço de carros, passando por grupos de Hobbies, culinária, impostos, e muitos outros tópicos. 

       Cito esse livro não por ser um tratado denso sobre a Dinamarca, mas por ser um livro leve e divertido sobre esse país. Um dos fatos que mais me chamou atenção no livro é que os Dinamarqueses trabalham "pouco" se comparado com outras sociedades.  A autora narra que a coisa mais normal do mundo é o expediente de trabalho terminar às 4 da tarde para que o Pai (não necessariamente a mãe) possa ir buscar os filhos na escola. Ou que é extremamente normal, e na verdade apreciado socialmente, que as refeições sejam feitas em família, geralmente lá pelas seis e meia da tarde.

          Quem não quer pegar o filhinho na escola às quatro da tarde? Ou jantar com a família às seis e meia ao invés de estar dentro de, nas palavras do blogueiro Mister Money Mustache, uma enorme cadeira de rodas ambulante parado no trânsito de alguma cidade? Aparentemente, os Dinamarqueses fizeram e fazem todos os dias uma escolha: a independência financeira, ou melhor dizendo uma semi-independência financeira. Melhor ainda, que tal uma vida mais equilibrada? Não é isso que você procura prezado leitor ou blogueiro?

          Isso não é apenas uma especulação, isso aparece nos dados. Os Dinamarqueses fazem uma escolha consciente (aparentemente) entre menos dinheiro e mais tempo para outras coisas importantes na vida. Como é possível saber? Olhem o gráfico abaixo:


Talvez não esteja tão visível, veja os dados aqui

         Se comparado aos EUA, por exemplo, o trabalhador médio dinamarquês é aproximadamente 15% mais produtivo por hora trabalhada, mas sua renda per capta é razoavelmente menor. Por qual motivo? Porque a Dinamarca é socialista? Porque tem muitas regulações? Porque o "espírito animal" empreendedor não floresce lá? Não. Simplesmente porque um dinamarquês trabalha em média 370 horas a menos por ano do que um trabalhador americano médio. 

        Essas 370 horas a menos por ano podem ser usadas para ficar mais com a família, ter um hobbie, meditar, refletir mais sobre a vida, viajar mais, etc, etc. Isso ocasiona que um trabalhador médio dinamarquês seja mais "pobre" do que um americano, mas possua uma qualidade de vida muito maior, e isso é captado pelo ranking de satisfação pessoal que leva muitas métricas em conta. Se a pessoa trabalha muito, ela terá menos tempo para fortalecer relações sociais com vizinhos, por exemplo, e há muito é sabido que suporte social e boas relações na comunidade são uma parte importante de nosso bem-estar.

       Logo, a Dinamarca parece ser um país que optou por caminhar em direção a uma "independência financeira". Portanto, ela deveria ser um exemplo para nós que gostamos do conceito, e não o contrário. Talvez essa minha reflexão sobre "independência financeira" para países não faça muito sentido, talvez não faça o menor sentido. Porém, com certeza, mostra o quão complexa, e muito mais interessante é a questão sobre dinheiro, bem-estar, seja no nível individual, seja no nível coletivo.

       
Esse é o livro citado no começo, onde o autor diz que teve os maiores insights depois de aprender mais sobre biologia (sendo o seu ramo de formação e profissional gestão administrativa)



Comecei a reler esse grande livro de um dos maiores biólogos de todos os tempos que viveu mais de 100 anos

Este também estou lendo (geralmente antes de dormir). São mais de 600 páginas sobre a história do Câncer, desde o antigo Egito até as modernas técnicas de quimioterapia.


  
   Um abraço a todos!



domingo, 14 de outubro de 2018

O GRANDE CONSELHO: ACEITO EFUSIVAMENTE EM FINANÇAS PESSOAIS, IGNORADO OU DETESTADO NAS DEMAIS RELAÇÕES


                “Eu comecei no mercado financeiro sem muito conhecimento e muito confiante, aprendi a duras penas que não poderia confiar tão cegamente nos meus instintos quanto se trata de mercados. Não há dinheiro fácil!”. “Eu fazia Day trades, ganhei muito no começo, mas acabei quebrando a cara e vi que não era tão simples, hoje escolho boas empresas que possuem índices fundamentalistas excelentes”. “O pior inimigo do investidor é ele mesmo”.

                As frases acima (inventadas) poderiam  ter sido retiradas da história de algum blogueiro de finanças, ou talvez de algum livro sobre investimentos. Em certo momento, mesmo um investidor amador como eu, se dá conta que realmente o maior adversário para bons investimentos é a própria pessoa.  Livros clássicos sobre o tema dedicam várias páginas sobre a necessidade de o investidor conhecer melhor a si mesmo, suas fraquezas, os seus receios, suas tolerâncias a riscos, e apenas depois de um profundo processo de auto-análise, começar a esboçar algumas estratégias de investimento para a perseguição de certos objetivos financeiros.

                Isso é ponto pacífico na técnica sobre finanças pessoais. Não há discussão a respeito do ponto. Não há nenhum livro, ou autor sério, dizendo que é desimportante saber suas próprias limitações, pois não teria nenhuma influência nos resultados financeiros.

                Mas, se isso é verdade para finanças pessoais, seria para outras áreas da vida? É importante se conhecer para melhor navegar pelas vicissitudes de nossa existência? A resposta parece óbvia, não? Como saberei que hobby fazer, se eu não me perguntar o que gosto de fazer? Como saber que trabalho se dedicar, se não se pergunta  o que se quer com o trabalho? Como ter uma existência mais plena, se não se sabe o que são as coisas e situações que levam a um maior bem-estar?

                Isso não é novo. Aliás, é muito antigo, e está quase que na gênese da filosofia ocidental, e muito provavelmente oriental. Afinal, já há milhares de anos estava escrito no Tempo de Apolo na antiga cidade de Delfos a célebre frase: “Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o universo e os deuses”. O processo de iluminação de Buda foi um processo profundo de autoconhecimento.  Logo, o autoconhecimento, a crítica pessoal, é  há bastante tempo celebrado como uma das ferramentas mais importantes ao alcance de uma pessoa para a sua evolução, seja no ocidente, seja no oriente.

                Porém, voltemos para algo mais mundano como investimentos. Por qual motivo é tão importante conhecer a si mesmo? Há diversas razões. Imagine tolerância a risco. O que torna uma pessoa mais ou menos tolerante ao risco? Há explicações genéticas . Há explicações epigenéticas. Há explicações ambientais. Há explicações fisiológicas, como pessoas com maior nível de testosterona, por exemplo, tendem a ser mais tolerantes ao risco. Ou seja, é extremamente complexo para um terceiro explicar o motivo de alguém ser mais ou menos tolerante ao risco.

                E por qual motivo é importante saber a tolerância ao risco? Se uma pessoa com pouquíssima tolerância ao risco resolve investir uma parte substancial do seu capital numa operação mais agressiva, ou num ativo mais volátil, a probabilidade dela se assustar com resultados negativos é muito maior, e com base emotiva, e não racional, tomar decisões péssimas na pior hora possível.

                Logo, se essa pessoa realmente tivesse refletido sobre si mesma, sobre seus reais limites de tolerância ao risco de perda, ela provavelmente não faria um investimento arriscado, ao menos não numa quantia razoável em relação ao seu patrimônio. A pessoa, por um processo de autorreflexão, reconhece uma limitação sua, aceita esse fato e segue com a vida.  Nem todos servem para serem empreendedores em áreas completamente novasE não há nenhum problema com isso. Por outro lado, ao refletir profundamente sobre nós mesmos, não descobrimos apenas falhas, mas também qualidades e pontos fortes, e isso é fundamental para saber melhor aproveitar esses nossos pontos positivos.

                O processo de reflexão e autoconhecimento é para identificar pontos fortes e fracos, para que aqueles não nos façam tomar decisões erradas e para que estes possam fortalecer os processos decisórios.

                Agora, depois de uma página e meia de escrita, eu pergunto a vocês leitores: “Num debate é mais fácil ter um bom desempenho quando desconhecemos ou quando conhecemos o nosso antagonista?”. A resposta parece óbvia, pois ela é intuitivamente óbvia mesmo. Quando eu jogava xadrez semi-profissionalmente, antes da preparação de uma partida importante, procurava conhecer o estilo, as aberturas, pontos fracos e fortes do  adversário, especialmente se era uma partida por um campeonato mundial (eu participei de alguns).

                Quanto mais é possível conhecer de um adversário, seus pontos fracos e fortes, melhor é a possibilidade de se extrair uma estratégia mais eficiente para enfrentá-lo, seja numa partida de xadrez, numa entrevista a um cargo, ou num debate presidencial.

                Falando em política, mas isso se aplica a qualquer área, um erro comum cometido é não reconhecer que o adversário tem qualidades. Isso é um erro primário, mas é repetido muitas e muitas vezes.  O viés de confirmação e câmaras de eco (assunto tratado alguns artigos atrás nesse blog) são aspectos que prejudicam o reconhecimento das virtudes de opositores. Mídias sociais apenas amplificam esse problema. Porém, mesmo que seja cada vez mais difícil, esse fato não impede que possamos quebrar esse ciclo, e reconhecer as virtudes de idéias contrárias e de antagonistas.

                Há diversas razões pelas quais deveríamos fazer isso mais constantemente. Há uma de ordem meramente utilitária. Ao conhecer os erros e virtudes de meus adversários, ou de suas idéias, eu posso estar muito mais habilitado a traçar estratégias efetivas para conseguir algum objetivo.  Para além desse argumento, eu, Soulsurfer, acredito que ao reconhecermos que nossos debatedores e contendores são tão humanos como  a gente, ao analisarmos que eles possuem pontos fortes e fracos assim como nós, fica muito mais fácil criar laços de empatia. Empatia é a maneira mais eficaz e fácil de criar relações mais construtivas e vidas mais significativas. É a maneira mais fácil também de diminuir conflitos agressivos e comportamentos de ódio.


                Seja qual for o argumento a se utilizar, a análise e a compreensão das posições e atitudes de outros é fundamental para que possamos traçar estratégias mais efetivas no dia a dia numa gama variada de atividades e situações. Logo, se para você as frases do primeiro parágrafo fazem total sentido, se “conhece-te a ti mesmo” parece um dos conselhos mais sensatos já proferidos, a extensão lógica disso é o esforço para entender e compreender as fraquezas e forças de oponentes ideológicos, profissionais, amorosos, esportivos, etc.

                Difícil? Para mim, e creio que essa é uma das minhas qualidades, não é nem um pouco. Porém, talvez isso se deve há vários anos de reflexão e tentativa e erro. Para muitas pessoas esse tipo de conduta pode ser um desafio e tanto.  Em última instância cabe a cada um decidir como quer se portar na vida, mas saiba que a ignorância seja de si mesmo ou dos outros sempre cobra um preço, e em muitos casos ele não é nada barato.

                Um abraço a todos!