sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

INDEPENDÊNCIA FINANCEIRA


Olá, prezados leitores.  Independência Financeira, a expressão mágica que cativa a tantos que frequentam esse espaço. Traduziram uma expressão do inglês, e adicionaram Aposentadoria Precoce à expressão mágica (Para quem não conhece, FIRE - Financial Independe Retire Early. Eu pessoalmente sempre achei uma bobagem traduzir essa expressão para o português). Lendo na última semana  alguns artigos, foram levantados questionamentos se vale a pena parar de trabalhar, especialmente pelo conhecido blogueiro Corey. Pessoas escreveram artigos tentando colocar outras perspectivas, comentários dos mais variados foram escritos, e eu resolvi falar sobre o assunto.

Por qual motivo? Porque o acho extremamente interessante atualmente? Não, por mim estava mais a fim de falar sobre o hormônio insulina, e minhas experiências de meses com o uso de um monitor contínuo de glicose implantado em meu braço.  Mas, deixo esse assunto relacionado ao tema de “biohacking” para outra oportunidade.

NUANCE. Sim, em letras garrafais, nuance. Por qual motivo diversos textos meus se esforçavam, ao menos na época que possuía mais empolgação com esse espaço, a falar sobre nuances? Porque a vida é complexa e cheia de nuances. Simples assim. Foram tantos e tantos artigos nesse espaço tendo essa temática como pano de fundo. O último, por exemplo, sobre o Irã e o escritor Taleb, é um texto basicamente sobre nuance.

Quando se descobre que quase tudo na realidade possui camadas de complexidade, a vida se torna mais difícil, mas muito mais interessante. Não existem respostas simples para questões existenciais complexas que atormentam pensadores há milhares de anos, meus amigos leitores.  Porém, há alguns caminhos.

Algum tempo atrás escrevi sobre o ranking da ONU de felicidade dos países. Quase ninguém conhece, alguns que ouvem a respeito criticam sem saber do que se trata, quem procura conhecer um pouco vê que é uma métrica extremamente interessante. Não vou entrar em detalhes, mas basicamente são analisados os seguintes parâmetros: a) renda; b) liberdade; c) coesão social; d) generosidade entre membros da comunidade e e) qualidade da saúde da população.

Sim, os leitores libertários, ou aqueles que gostam e defendem a liberdade, tem razão, ou parcial razão. Uma vida sem a possibilidade de fazer escolhas livres, sejam econômicas ou políticas, é uma vida empobrecida. Porém, tudo se resume a isso? Pessoas fazendo escolhas livres? Ou isso é uma descrição incompleta da realidade?

Sim, os leitores com viés chamado “progressista”, tem razão, ou parcial razão. Sentimentos como generosidade, coesão social provocada por uma sociedade que não possua muitas fraturas e diferenças abissais entre os seus membros, também provocam bem-estar humano, e por via de consequência felicidade. Porém, será que com apenas generosidade é possível fazer uma empresa de aviação comercial operar 2000 voos diários pelo mundo afora ou é necessário incentivo econômico? Será que os seres humanos não precisam ser desafiados e recompensados de maneira diversa?

Sim, os leitores que querem mais e mais dinheiro, possuem razão, ou ao menos uma razão parcial. Países com maior renda possuem populações mais felizes. Stress financeiro é uma fonte enorme de ansiedade, transtornos pessoais, desequilíbrios mentais, ou seja, de uma vida mais infeliz. Porém, a solução para os problemas da vida é mais e mais crescimento econômico apenas? Para alguém que possui R$ 20 milhões, ganhar mais R$ 10 milhões irá resolver os seus problemas existenciais? Seus problemas familiares? O seu filho passará a não consumir cocaína por causa disso? Parece-me evidente que a vida é muito mais do que isso, e que há um limite a partir do qual mais dinheiro não se transforma em mais satisfação ou bem-estar, e há uma tonelada de estudos científicos mostrando exatamente isso.

Por fim, eu tenho razão nos últimos 12-18 meses, ou pelo menos parcial razão, de refletir que o nosso principal bem é um corpo saudável. Do que adiante liberdade, dinheiro e generosidade alheia, se estou fraco, sem saúde, doente, sem a possibilidade de fazer movimentos mínimos, sem a possibilidade de aproveitar o que a vida oferece?  Mas, uma saúde otimizada, um corpo forte, no meio de uma sociedade enfraquecida, com problemas financeiros, e sem generosidade ou coesão social, poderá atingir todo o seu potencial? Do que adianta estar saudável se sua família está adoecendo?

Logo, a vida é composta por uma série de circunstâncias, algumas sobre nosso controle, outras nem tanto, das mais variadas formas e sabores, e é o conjunto dessas circunstâncias que fazem uma vida ser melhor, ou não, vivida.

Portanto, se tornar independente financeiramente, é uma parte apenas de um grande emaranhado. A melhor independência financeira não é ter um monte de dinheiro, mas sim “fazer o seu trabalho como se fossem férias”.  Achar algo significativo, algo que produza valor para si próprio e para outros.  Ter dinheiro apenas facilita que esse algo significativo não necessariamente daí precisa estar atrelado a um retorno financeiro. Um músico pode amar o que faz, mas ele tem contas a pagar, tem desejos de consumo, e é necessário um retorno financeiro. Um músico com alguns milhões pode se dedicar à sua paixão sem ter essa preocupação. Por outro lado, um músico com alguns milhões talvez não tenha a sede e o apetite que um músico que depende a sua vida do retorno de sua arte disso possui. É complicado, e não há certo ou errado.

Possuir dinheiro, perder a necessidade de trabalhar para alguém, não vai transformar um relacionamento ruim num relacionamento maravilhoso. Não vai fazer com que o seu filho o respeite mais, ou que você ache a iluminação. Não. Porém, pode dar o tempo suficiente para que essas transformações sejam mais factíveis de ocorrer, pois tudo que vale a pena na vida quase sempre envolve esforço. Criar um relacionamento forte com o seu filho exige tempo e esforço. Tornar-se faixa preta de Jiu Jitsu exige esforço e tempo. E, como já dito diversas vezes nesse espaço, e parafraseando o grande ex-presidente Mujica, “TEMPO NÃO SE GANHA, TEMPO SE GASTA”

Em relação ao tempo, todos nós somos consumidores.  Possuir certa quantidade de dinheiro, apenas possibilita que uma fração maior de tempo possa ser dedicada para que inúmeras transformações positivas possam ocorrer na vida.  Ter dinheiro não garante que essas transformações ocorreram, apenas possibilita, se a pessoa for sábia, a um uso mais consciente da sua poupança de tempo.

Você, prezado leitor, se possui quase 40 anos, não apenas possui mais uns 40-45 anos (se tudo der certo) de vida, mas como você já morreu 40 anos. A morte já ocorreu para você prezado leitor, e ela ocorre dia após dia.  Tic Tac, Tic Tac, o seu encontro com ela fica cada vez mais próximo. O seu tempo cada vez diminui mais, e não o contrário.

A solução para esta angústia existencial é viver. Viver bem. Viver da melhor maneira possível. Dia após dia, semana após semana, esse é o meu objetivo. Alguns dias eu vou muito mal. Brigo com a minha mulher. Perco tempo com alguma bobagem. Alguns dias eu vou muito bem. Leio um brilhante artigo científico, consigo acordar cedo e pegar onda sem roupa de borracha, troco apenas sorrisos com a minha mulher, aproveito essa frase incrível do desenvolvimento com a minha filha de um ano,  faço exercício intenso, como uma pizza deliciosa, encontro com amigos. Uau, isso sim é um dia bem vivido.

Tic, Tac. Viva, meu amigo prezado leitor. Lembre-se que a vida é complexa, as questões quase nunca são simples , e a nuance é a que traz cor e sentido para a realidade que nos cerca. A independência financeira é um instrumento para atingir uma boa vida. Eliminar o stress financeiro e o desperdício de tempo e energia em atividades não tão satisfatórias realizadas apenas por dinheiro, é um grande salto de qualidade de vida. É o único instrumento? Claro que não. Dizer bom dia para os seus vizinhos e construir uma boa relação com os mesmos é outro. Encontrar significado e sentido é mais um. Há tantos outros. O dinheiro e a independência financeira são apenas instrumentos, nunca fins em si mesmos. E eles são apenas uma ferramenta entre tantas outras.

Fácil? Não. Complicado? Muitas vezes. Desafiador? Sem dúvidas. Essa é a vida, essa é a minha vida, essa é a sua vida. Somos protagonistas das nossas próprias tramas, num grande teatro onde não há ensaios, e onde a peça sempre se desenrola no aqui e agora. Cabe a nós tentar ser os melhores protagonistas possíveis desse nosso drama, até que as cortinas abaixem definitivamente.



segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

ALGUÉM REALMENTE LEU TALEB? IRÃ E OS EFEITOS DE SEGUNDA E TERCEIRA ORDEM


Será que alguém realmente leu Taleb? Para quem não conhece, Nicholas Nassim Taleb é um escritor que escreve sobre vários assuntos relacionados à incerteza. Ele ficou muito famoso especialmente pelo seu livro chamado “A Lógica do Cisne Negro”. É preciso ler Taleb? Evidentemente que não. Alimentar-se bem, ter boas relações sociais e dormir bem são os atos que eu colocaria como essenciais para uma boa vida, não a leitura de um autor específico. Ele é um grande ser humano? Sinceramente, não sei. Pelos escritos e algumas palestras que eu vi dele, há um certo ar de superioridade que realmente não me agrada, como se apenas ele guardasse as chaves para os mistérios humanos, porém não dá para saber como ele é sem conhecê-lo pessoalmente, assim como com qualquer pessoa. Se não é necessário a leitura desse escritor, se eu acredito que ele tem certas características pessoais não tão positivas, por qual o motivo o título do presente artigo? Por qual motivo perder tempo com isso?

O cito, pois Taleb virou para muitas pessoas que gostam de finanças, ou comentam sobre política, uma espécie de norte intelectual. Além do mais, como ele diz que gosta muito do libertarianismo, bem como autores da escola austríaca de economia, e como esses temas estão em voga, ao menos em relação a pessoas que gostam de finanças, ele acaba sendo bastante citado. Aliás, sobre isso, ele tem uma ideia muito interessante sobre como deveríamos nos comportar e como essa ótica esquerda x direita é um tanto quanto tola. Ele diz que no nível familiar devemos ser comunistas, em nossa comunidade socialistas, a nível municipal progressistas-democratas, em nível estadual conservadores-republicanos e em nível federal libertários. Essa forma de ver o mundo é tão mais inteligente e complexa e faz tão mais sentido, que é uma pena essa ideia dele não ser tão discutida e analisada. Entretanto, sistemas de governos não é o foco desse artigo, e nem o motivo de trazer esse autor à baila.

Taleb bate muito na tecla, em vários dos seus livros, que interferências em sistemas complexos levam não só a consequências de primeira ordem, mas especialmente a consequências de segunda e terceira ordem.  As consequências de primeira ordem costumam ser mais previsíveis, porém as consequências de segunda e especialmente terceira ordem não são nada previsíveis e muitas vezes fogem a qualquer controle de uma análise prévia. Esse é o principal argumento do Taleb, por exemplo, para que governos interfiram o mínimo num sistema complexo como é a economia. Quer-se controlar a inflação, congela-se o preço da gasolina, por exemplo. Num primeiro momento, o efeito de primeira ordem (controle da inflação) pode acontecer, mas a interferência (congelamento de preços) pode ocasionar uma pletora de consequências imprevisíveis. Portanto, a melhor coisa a se fazer em sistemas complexos é deixar eles mesmos se auto-regularem e evitar ao máximo interferências externas.

Taleb, até porque libanês, é especialmente vocal a respeito de interferências militares, ainda mais em regiões extremamente complexas do ponto de vista geopolítico.  As intervenções quase sempre, ou talvez sempre, causam muito mais malefícios do que benefícios. Geralmente, o motivo da intervenção faz sentido, mas quase sempre se ignora que os efeitos secundários e terciários são imprevisíveis e podem produzir resultados ainda piores na situação do que se não houvesse a intervenção. 

Líbia. Governada por um ditador chamado Muamar Al- Gaddafi por décadas. Ele assassinava opositores, tinha harém de mulheres e cometia os atos grotescos piores possíveis. Porém, esse mesmo crápula, manteve um país basicamente tribal unido, a Líbia tinha um dos maiores IDHs da África, ele abriu mão de ter armas nucleares e nos últimos anos de seu governo a Líbia se comportava como um país razoavelmente “normal” nas relações internacionais. Manifestações populares emergiram pegando carona na primavera árabe, o ditador reprimiu duramente o dissenso político, a situação degringolou, uma coalização internacional atacou a Líbia e as forças de Gaddafi, e este acabou sendo capturado por rebeldes e morto. E o que é a Líbia hoje? Basicamente, uma terra sem lei. Grupos terroristas se instalaram no país. Há comércios de escravos em alguns lugares, como se estivéssemos no século XV. Não há qualquer futuro pacífico de uma sociedade minimamente organizada na Líbia no curto e médio prazo. Depois da intervenção a vida dos líbios piorou e o mundo ficou mais inseguro, não mais seguro.

Trump resolveu assassinar o maior general iraniano. Virou manchete no mundo, amigos meus comentaram o incidente. Todos correm para ter uma opinião. Eu não sou especialista em Irã, mas como tive o privilégio de passar mais de um mês nesse país espetacular, convivendo e muitas vezes dormindo na casa de locais das mais variadas classes sociais, posso comentar um pouco. 

Primeiramente, o Irã não tem nada a ver com o Iraque, inclusive são países com matrizes culturais completamente distintas. Iranianos não são árabes, e é uma grande ofensa no Irã você confundi-los com árabes. Iranianos, ao menos o maior grupo étnico, são herdeiros dos grandes impérios persas. Estes foram os primeiros grandes impérios territoriais-culturais que a humanidade presenciou. O Irã é fonte de uma história milenar riquíssima, cheio de cultura, cidades históricas e especialmente um povo muito orgulhoso de suas origens. Até mesmo comentadores políticos talvez não saibam que o Irã é uma panela cultural, sendo que a segunda etnia mais numerosa no país é na verdade de origem Turca-Azeri (Arzebaijão) e que o atual líder supremo religioso (Khamenei) não é persa, mas turco-azeri.

O Irã é um pais de classe média com uma renda per capta um pouco menor do que o Brasil, ou seja, eles são parecidos economicamente nesse sentido com a gente. Tehran é uma cidade vibrante e caótica como São Paulo. Possui uma classe média que está de “saco cheio” do governo, e só quer um pouco mais de prosperidade econômica e liberdade. As jovens em Tehran usam o Hijab (lenço na cabeça obrigatório de ser usado, inclusive por estrangeiros) com quase todo o cabelo a mostra, numa forma de protesto e de sinal de mudanças dos tempos. As mulheres de classe média são ativas, trabalham, são médicas e participam das decisões da família, assim como qualquer mulher no Brasil.

É o mundo ideal para mulheres? Claro que não. Não estamos falando da Austrália ou Finlândia. Mas dentro do mundo muçulmano, com certeza a situação da mulher é muito melhor, mais muito melhor no Irã do que na Arábia Saudita. Aliás, em tudo o Irã é um modelo muito mais moderado e sensato para o mundo muçulmano do que a Arábia Saudita. 

A não ser que a pessoa tenha passado um tempo no Irã, dificilmente se sabe o que a guerra Irã-Iraque de 1980-1988 significa para os iranianos. Quem já viajou pela Rússia, especialmente o seu vasto interior, sabe que os russos chamam a segunda guerra mundial de “A Grande Guerra Patriótica”. Essa guerra aconteceu entre 1941-1945. Portanto, e essa é uma das maravilhas de se viajar e realmente mergulhar nem que seja um pouco na vida de um país diferente, a percepção russa sobre a guerra é completamente diferente da nossa percepção da Segunda Guerra Mundial. Isso já tinha ficado claro para mim quando visitei o Vietnã há 12 anos, e descobri que a guerra lá era chamada de “Guerra Americana” e não como conhecemos “Guerra do Vietnã”, pois para os vietnamitas a guerra foi uma agressão injustificada dos americanos, e foi mesmo. 

O Irã em 1980 estava à beira de convulsões sociais. Havia se passado a revolução de 1979, uma revolução que contou com comunistas, republicanos e islamitas iniciada para acabar com a última dinastia de reis iranianos. Por acontecimentos do destino, os islamistas tomaram preponderância, e tornaram a revolução de 1979 numa revolução religiosa, mesmo que inicialmente ela não tivesse esse propósito (fato este também ignorado por muitos comentadores políticos).  

O Irã, até pela sua história riquíssima, possui elites letradas, mas também camadas populares mais conservadoras. O fato é que em 1980 não se sabia ao certo se o regime teocrático manteria-se por muito tempo. Então, com ajuda financeira e militar dos EUA, o Iraque invade territorialmente o Irã para tomar os campos de petróleo do sul do pais. Aproveitando-se da fraqueza política e militar do Irã naquele momento, o Iraque (que é muito menor e menos populoso) consegue vitórias militares fáceis e toma parte do sul do Irã. 

Depois desse fato, onde havia divisão, surgiu união. Os iranianos se uniram, ao menos boa parte deles, o regime teocrático conseguiu a legitimidade que precisava, e com muito esforço em vidas humanas, o Irã conseguiu impedir o avanço das tropas iraquianas, bem como expulsar essas tropas do Irã. As histórias dos combatentes iranianos em nada deixa a dever em bravura e determinação do que histórias de desembarque na Normandia no famoso  dia D. Dezenas de milhares de iranianos sabiam que iriam morrer, mas mesmo assim alistavam-se para defender o seu país. Por coincidência ou não, a guerra Irã-Iraque é conhecida no Irã como “A Guerra Patriótica”. Assim como na Rússia que em qualquer vilarejo há homenagens aos soldados russos da grande guerra patriótica, no Irã em qualquer cidade há homenagens aos chamados mártires da guerra de 1980-1988. É um evento doloroso para os iranianos. 



Por que falar tudo isso? Pois sem entender minimamente a história e algumas nuances, é fácil se perder em análises generalistas opacas. Eu não conhecia o general assassinado, mas li que ele era considerado um grande herói na guerra de 1980-1988. Se ele realmente era um herói nacional por causa dessa guerra, a comoção do país pelo seu assassinato com certeza não é algo fingido ou manobrado pelo governo. 

Ao se matar um general tão importante, Trump interveio num sistema complexo, muitas vezes mais complexo do que era o Iraque de Saddam em 2003 quando começou os bombardeios americanos. As consequências secundárias, terciárias e talvez de quarta ordem (daqui 10-15 anos) são completamente imprevisíveis. Um fato imprevisível já ocorreu. De maneira alucinada, a própria guarda revolucionária derrubou um avião comercial por engano. Não apenas iranianos morreram, mas também dezenas de canadenses. Qual impacto isso vai ter no governo, no ânimo das pessoas? Um país tão importante como o Irã é aconselhável uma ruptura drástica de poder depois de tantos anos? Se o Irã, com seus 70 milhões de habitantes, degenerasse em caos, o que não aconteceria com uma região que já está caótica, e com o mundo? E um passo mal calculado pelo regime iraniano, e uma retaliação americana, onde poderia levar o mundo? E se o assassinato desse general não unir as forças políticas do país e o regime se manter por mais dezenas de anos? E os efeitos que não se pode prever e que serão resultados desse ato daqui 2, 3 , 5 anos?

Ao ler e ouvir alguns comentários, parece que realmente as pessoas que dizem gostar de Taleb não o leram, ou passaram batido uma das partes principais sobre o desastre que é a intervenção, especialmente com força, em sistemas complexos. 

Esse vídeo de apenas cinco minutos da história do Irã é fantástico. Eu o vi várias vezes quando estava lá, até para poder entender um pouco mais da história das diversas cidades que eu visite. Mesmo que você não tenha interesse no Irã, o vídeo é muito bem produzido.

Um grande abraço a todos!


quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

A DÁDIVA DO PRESENTE


Eu gosto de assistir animações.  Há algumas muito bonitas e bem construídas. Uma das últimas que assisti chama-se “Divertida Mente”  e chorei algumas vezes, especialmente por causa da minha pequena filha e das lembranças e sentimentos que o filme evocou em mim.

 Há uma animação chamada “Kung Fu Panda” que é realmente muito bacana. Trata-se da história de um urso Panda que gostaria de aprender kung fu, só que ele é lento, gordo e desajeitado.  Porém, por algum mistério cósmico, ele é o apontado para ser o novo “Dragão Guerreiro”. O mestre treinador, um rato, deve então treiná-lo para ser o grande lutador de kung fu.  Entretanto, o urso panda não consegue evoluir e só se mete em trapalhadas, e no meio do filme, o mestre resolve pedir conselhos para o “mestre dos mestres” uma tartaruga de fala e movimentos lentos.

Numa das cenas mais bonitas que eu já vi, a tartaruga fala sobre a vida, sobre a paciência, sobre como as pessoas que menos esperamos podem nos surpreender positivamente e também fala isso:


Não se pode duvidar da simplicidade e profundidade dessas palavras. Tanto é verdade que é um ensinamento central em muitas doutrinas filosóficas ou espirituais. Sim, com memes, com um acúmulo de informação e livros, podemos banalizar um ensinamento poderoso como este, é verdade. Sinto que essa é uma lição fácil de entender, extremamente difícil de viver de acordo, pois tudo à nossa volta, especialmente em ambientes urbanos, nos distrai da realidade presente. Sempre almejamos algo, sempre nos lembramos de algo.

Bebês. Minha filha fez um ano recentemente.  Há algo de extraordinário com crianças pequenas, e qualquer pai, ou mãe, pode atestar esse fato. Uma das palestras mais interessantes que já vi foi de uma pesquisadora que comparou o cérebro de crianças ao cérebro de pessoas que utilizam substâncias psicodélicas como psilocibina ou DMT.  As crianças aparentemente não possuem restrições e fazem conexões entre várias partes do cérebro que nós adultos não mais fazemos, a não ser em estados meditativos profundos ou com o uso de substâncias psicodélicas.  Cores ganham sons, sons ganham cheiro e a forma de perceber a realidade se torna radicalmente diferente.

É claro que não se pode saber ao certo, mas tudo leva a crer que bebês vivem o momento presente com uma intensidade de dar inveja a qualquer grande meditador.  A diversão, tristeza, alegria e frustração são intensas e direcionadas a sensações do momento presente.  Os bebês, e talvez alguns poucos seres humanos mais iluminados, são o exemplo melhor acabado de como viver a dádiva que é o momento presente.

Proporcionar infâncias felizes é a maior responsabilidade dos pais, e da sociedade como um todo. Quando minha filha gargalha, eu não penso se ela vai lembrar-se desse momento ou se isso vai ajudar ela a ser uma criança mais inteligente, ou se por causa disso ela vai ter mais condições de ser uma pesquisadora numa universidade de prestígio dos EUA. Não. A gargalhada dela significa que o momento presente dela, e por via de consequência o meu, está sendo significativo, independentemente se isso irá acarretar ou não alguma consequência positiva no futuro. Estamos experimentando a dádiva de estar vivos e conectados com a única realidade que realmente existe. É uma lição de como viver a vida, e sou grato por ter uma filha e passar por essa experiência.

Obrigado vida. Obrigado filha.

Obs: agradeço aos leitores pelas sugestões de perguntas para o livro. O capítulo estava com 18 questões e 35 folhas, e há dois dias acabei de (re)escrevê-lo e agora possui 30 questões e 65 folhas. Foi de grande valia a participação de vocês, obrigado.
obs1: a pesquisadora citada no texto chama-se Alison Gopnik, ela tem um livro conhecido chamado "The Philosophical Baby". Essa é a palestra: https://www.youtube.com/watch?v=v2VzRMevUXg&t=1806s. Nela também está um pesquisador inglês conhecido sobre psicodélicos.
obs2: Se o tema sobre consciência e psicodélicos interessar alguém, o famoso escritor Michael Pollan (escritor do já clássico "O Dilema do Onívoro") recentemente lançou um livro sobre o tema chamado "Como Mudar a Sua Mente". O livro é fantástico. Conta a história recente dos psicodélicos, os vários estudos científicos da década de 50, o frenesi da década de 60, o banimento da década de 70, a retomada dos estudos na primeira década desse estudo e a explosão dos estudos nos anos recentes (tratamento de stress pós-traumático especialmente em veteranos de guerra, cuidado paliativo em pacientes com câncer em estado terminal, manejo para cura de vício em bebidas e drogas e muitas outras finalidades).

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

LIVRO LEILÃO DE IMÓVEIS - PERGUNTAS - SUGESTÃO DE LEITORES


Olá, prezados leitores. Sim, a enrolação foi e está sendo grande. Já falei sobre esse tópico algumas vezes no blog, mas resolvi fechar um ciclo: terminar de escrever um livro sobre leilão de imóveis. De vez em quando, eu participo de uma reunião de homens chamado “Brotherhood”. Nos encontros, se discutem temas como vulnerabilidade, sagrado masculino e feminino, empatia, entre um monte de outros temas. As conversas se dão em roda, depois de uma janta preparada pelos participantes, há cantos em sintonia, e como o rapaz que é uma espécie de coordenador é descendente de tupis guaranis, a parte final foi uma espécie de meditação coletiva em torno de uma fogueira.

É incrível quando vem pessoas novas e nunca pararam para refletir a respeito dos diversos temas, ou, por causa da forma que nossa sociedade trata esses temas, nunca se sentiu num ambiente que assuntos tão essenciais para uma boa vida pudessem ser discutidos de forma franca e de boa-fé. É possível às vezes também perceber como questões pessoais das mais simples às vezes são tão prevalentes em algumas pessoas pelo simples fato delas nunca terem refletido a respeito sobre outra prisma. Raiva, frustração, medo, desejos e imposições sexuais, papel do homem na sociedade, na família, etc, etc. E é bem bacana ver que uma simples conversa de algumas horas, alguns gestos como cantar com outros, olhares de respeito, podem realmente transformar a pessoa, ou ao menos colocar numa boa direção para uma mudança positiva em sua vida.

            Por causa da paternidade, eu vou poucas vezes a esses encontros. Entretanto, quando vou, sempre saio com bons insights e com uma “boa energia”. Nas rodas de conversa, só é permitido um falar, e o outro que vai falar em seguida não quer contestar a fala anterior, mas apenas colocar a sua própria visão. Eu acredito muito em debates genuínos e sinceros de ideias, mas é muito interessante quando você se despe dessa postura e apenas ouve o que os outros têm a dizer. Enfim, só falo tudo isso, pois o tema final da conversa do último “Brotherhood” do ano foi rituais e fechamento de ciclos. A discussão sobre rituais, ainda mais vindo de um descendente indígena, foi bem interessante e instrutiva, mas foi sobre o fim de ciclos que deu um clique maior. 

Foi dito por um rapaz sobre a experiência de um pesquisador australiano sobre como comunidades aborígenes são diferentes na forma de pensar sobre projetos. Ao invés de duas fases como planejar e executar, geralmente comunidades aborígenes trabalham com quatro fases: sonhar (muitas vezes coletivamente), planejar, executar e celebrar. Eu achei incrível refletir sobre a celebração no fim de um ciclo. Eu sou um cara, comparado com o padrão vigente à minha volta, bem tranquilo e relaxado. Porém, é incrível como minha mente passa de uma função à outra, muitas vezes não celebrando o fim de um projeto/ciclo, antes de se preparar para mais uma empreitada.

Enfim, toda essa conversa me fez perceber que eu preciso fechar esse ciclo de escrever pelo menos um livro, e que com certeza eu celebrarei o resultado, para que possa estar pronto para sonhar com mais um projeto.

O livro está quase pronto (pelo menos do ponto de vista da escrita), e possui umas 500-550 páginas. Não há nada parecido escrito em português, e imagino que possa ser útil para advogados, juízes, leigos, interessados em leilão, apenas curiosos.  Quero agradecer aqui publicamente um leitor que me mandou um e-mail (e ainda não respondi, o que peço desculpas) que gentilmente me encorajou a terminar o projeto e inclusive fez uma revisão de português de uma pequena parte do livro que disponibilizei nesse blog há um tempo. Obrigado, amigo. O seu e-mail uns 40 dias atrás foi um incentivo para eu retomar, apesar de toda a “correria” que é ser um pai presente, esse projeto.

Pois bem. O livro será dividido em Três partes, mais ou menos assim:

PARTE I – 120-120 páginas
- Introdução. – 15 páginas
- Conceitos Fundamentais de Finanças – 25 páginas
- Finanças Comportamentais aplicadas à leilão de imóveis – 30 páginas
- Conceitos Fundamentais de Direito Imobiliário – 35 páginas
- Direitos Reais de Garantia – 15 páginas

PARTE II – (essa é a parte mais difícil para leigos, mas tentei deixar o mais claro possível) – 270-280 páginas
- O Leilão Extrajudicial – 90 páginas
- Defesas do Devedor em relação a um leilão extrajudicial – 35 páginas
- O Leilão Judicial – 140 páginas
- Leilão Judicial x Extrajudicial – 15 páginas
E mais umas 40-50 páginas de anexo em decisões judiciais que resolvi tirar do corpo da obra e colocar num anexo para quem tiver interesse, conforme sugestão de um leitor desse blog.

PARTE III – ASPECTOS PRÁTICOS 130-140 páginas
- Casos Práticos e Análise – algo em torno de umas 40 páginas (fiquei feliz que já tinha escrito algo em torno de 30 páginas e nem me lembrava)
- Acordo de Desocupação Voluntária – 25 páginas
- Perguntas e Respostas – Umas 30-35 páginas (razão desse post)
- Pós-Leilão. Venda. Reforma. Corretores – Ainda não escrito (creio que umas 20-25 páginas)
- É Ético comprar imóveis em leilão? (umas 15-20 páginas) – ainda não escrito

            É isso. Ainda não decidi se vou fazer um curso de vídeos aulas, ou simplesmente publicar o livro. Tem um monte de coisa para fazer e não faço a mínima ideia ainda como irei proceder: fazer imagens e diagramas, revisão do português, edição, diagramação, etc, etc.

            Se você prezado leitor, quiser ajudar (e muitos leitores foram de extrema valia) olhe as perguntas abaixo e veja se existe alguma dúvida que você por ventura possa ter que não está nas indagações abaixo. Esse capítulo é como uma série de perguntas e respostas que fui colecionando ao longo dos anos, quase todas as respostas para as perguntas estão no decorrer do livro de forma mais técnica e minuciosa, mas achei interessante fazer um capítulo apenas com as perguntas específicas.


1)      Como Saber Dívidas de IPTU e Condomínio? Quais Dívidas Poderão Ser De Responsabilidade Do Arrematante?
2)      Quais São Os Outros Custos Na Compra De Um Imóvel Em Leilão? O ITBI, A Escritura E O Registro Imobiliário
3)      Quais São As Melhores Estratégias Para Se Dar Lance Num Leilão?
4)      Qual A Periodicidade Para O Monitoramento De Leilões? Como Saber Se É O Momento Adequado?
5)      Comprar Qual Tipo De Imóvel? Casa, Apartamento ou Terreno?
6)      Quanto É Necessário De Dinheiro Acumulado Para Participar De Um Leilão?

7)      Comprar Um Imóvel Leiloado Para Moradia É Uma Boa Ideia?

8)      Qual É Uma Boa Margem De Lucro De Um Leilão?
9)      O que Pode Dar Errado? É Possível Perder O Dinheiro?
10)  Quanto Tempo Para Tomar Posse Do Imóvel Arrematado? Se Houver Uma Família Ocupando Leva Mais Tempo?
11)  Qual É O Menor Preço Que Se Pode Pagar Num Imóvel Leiloado (preço vil)?
12)  Quanto Se Paga De Imposto Na Venda Do Imóvel Arrematado Em Leilão? E Se a Arrematação For Feita Via Pessoa Jurídica?
13)  Funcionários públicos de qualquer ente federativo e qualquer Poder podem participar de leilões judiciais? Em quais casos são proibidos?

14)  Advogado, como escolher um? Quanto Custa?

15)  É Importante Ler O Edital Do Leilão?

16)  Venda Direta, o que é? Melhor ou Pior do que comprar em Leilão?
17)  É recomendável comprar imóvel em leilão de forma alavancada?
18)  Como Funciona O Leilão De Direitos Creditórios?
19)  O Autor Do Livro Já Sofreu Algum Prejuízo Comprando Imóvel Em Leilão?


É isso aí, um grande abraço!

domingo, 13 de outubro de 2019

UM HOMEM SAUDÁVEL POSSUI MIL DESEJOS, UM HOMEM DOENTE APENAS UM


Eu estava há mais ou menos um mês ouvindo uma entrevista interessantíssima do Joe Rogan com Naval Ravikant (um grande investidor em start-ups), quando o entrevistado citou uma frase de uma força profunda: “A Healthy person has a thousand wishes, a sick person has one. Eu não sei se é algum provérbio, se algum sábio disse isso, mas ela possui uma verdade fundamental sobre a existência humana.

Provérbio Indiano? Não sei, não fui atrás para pesquisar, mas que é uma verdade fundamental da existência humana, ah, isso é.

                Eu, ainda bem, sempre tive um sistema imunológico forte (talvez por ter sido amamentado e amado quando criança, quem sabe?), é muito difícil eu ficar doente. Lembro, porém, no ano de 2003 fiz uma viagem com a minha mãe para a região de Bonito e do Pantanal do Mato Grosso. Lugares fantásticos. No final da viagem, entretanto, fui acometido por uma dor de barriga forte.  Tudo que era colorido perdeu a cor naqueles últimos dias. É impressionante o que uma dor forte faz com a pessoa, como a vida fica muito mais difícil, como tudo ao redor parece não fazer sentido. Apenas consigo imaginar as pessoas que sentem dores intensas todos os dias, o martírio que não deve ser.

                Sim, uma pessoa saudável tem milhares de desejos, uma pessoa doente apenas um.  Aos vinte e pouco anos, isso parece algo distante.  Quase todos dessa idade possuem uma boa saúde. O corpo humano é tão fantástico que ele consegue aguentar agressões vindas de dietas horríveis, noites mal dormidas, stress, falta de exercício físico, sem que o corpo colapse quando se é jovem. O sistema de reparo (melhor dizendo os centenas de caminhos metabólicos de reparo) do corpo funciona a todo vapor.

                É verdade que o estilo de vida atual é tão anti-natural, que até mesmo jovens estão ficando doentes e frágeis. Imagina essas pessoas aos 50-60 anos, qual não será a qualidade de vida delas.  Eu já não tenho mais 20 anos, mas sim quase 40. Sinto diferença já de como eu era há 20 anos, e imagino que se eu chegar aos 50, a diferença será ainda mais aguda. Isso mesmo estando treinando forte, com um físico razoavelmente torneado (é a primeira vez que os six pack aparecem em mim).

                Há mais ou menos 18 meses mergulhei fundo no universo da nutrição, otimização de vida, marcadores de saúde, etc.  Para um não profissional e sem treinamento formal, posso falar que realmente fui e estou indo fundo. Já devo ter lido dezenas, quiçá, centenas de papers científicos. Um paper científico não é aquele artigo de blog ou livro escrito para agradar o leitor, geralmente é uma leitura árida, com termos técnicos incompreensíveis para quem não é da área (o que faz com que se precise pesquisar ainda mais para poder entender).  Li também centenas de artigos, dezenas de livros, ouvi centenas de horas de podcast com cientistas, pesquisadores, informação de alto nível.

                Tem sido uma jornada e tanto. Já pensei em fazer medicina, mas desisti. Meu amigo blogueiro Frugal falou “por que não faz nutrição?” e passou pela minha cabeça tentar fazer esse curso numa universidade como a Universidade da Califórnia de San Diego. O campus dessa universidade é na frente da praia de La Jolla, o lugar é simplesmente fantástico, além de ser uma universidade TOP. Imagina voltar a estudar animado num lugar como esse, criando minha filha numa das cidades mais fantásticas que já conheci? Porém, não sei se é caro, se eu teria condições de entrar, etc, etc. Mas isso mostra que o caminho de tentativa de melhorar a compreensão do meu corpo realmente me levou por uma jornada incrível de conhecimento.

Uau, imagine voltar a estudar numa universidade como essa, tendo um enorme interesse pela matéria?

                Nessa minha busca por conhecimento, cada vez fui mais reparando como vivemos numa sociedade com hábitos de certa maneira doentios, como prestamos muita atenção em coisas que não tem tanto valor, e como simplesmente ignoramos aspectos fundamentais de nossa vida.  Algo como a frase de Oscar Wilde de que nem tudo que tem preço possui valor, e nem tudo que tem valor possui preço, e muitas pessoas são cegas a isso.



                O fato mais assustador, porém, é como as pessoas não tomam responsabilidade de sua saúde, como acreditam cegamente nos profissionais de saúde, e como muitos destes não estão preparados nem para diagnosticar problemas de saúde evidentes.  Tome-se como o exemplo o hormônio insulina. Ou, melhor dizendo, a resistência à insulina, ou síndrome metabólica. 

                Numa pesquisa feita nos EUA, chegou-se a conclusão que pelos parâmetros de saúde metabólica, apenas 12 em cada 100 americanos eram saudáveis. Sim, 88% da população americana não possui um metabolismo saudável. Isso sim é uma crise sem precedentes, isso sim mostra a decadência de um povo, isso sim é “o que tem valor, mas não necessariamente preço”.  Aliás, nem a última frase possui sentido, pois os gastos de saúde com certeza serão um enorme estorvo para os americanos, seja num sistema de saúde público, seja num sistema de saúde privado. A política  de saúde pública, ou privada, ou individual, mais barata para um indivíduo e uma sociedade como um todo é apostar na qualidade de vida e em hábitos saudáveis.

                Eu imagino que os números brasileiros possam ser melhores, mas não muito melhores.  Se assim o é, por que raios quase nenhum médico pede nem mesmo um exame de insulina de jejum? O correto, e todos deveriam fazer, especialmente depois dos 35 anos, é medir a insulina depois de uma carga de glicose e fazer a sua curva. Esse exame criado pelo grande Dr. Kraft é a forma mais certeira de detectar com antecedência que está em maior risco de desenvolver complicações metabólicas. Dr. Kraft fez milhares de testes e descobriu que se este teste fosse rotineiro, isso na década de 70 (de lá para cá o problema só piorou), algo em torno de 75-80% das pessoas poderiam ser consideradas com diabetes, o que ele chamou "diabetes in situ". Porém,  quem faz esse exame? Qual médico pede esse exame? Eu nunca vi ninguém. Eu, por exemplo,  já fiz duas vezes.

Se você não for o Padrão I de resposta insulínica a um teste de tolerância de glicose , você está rumando para inúmeros problemas de saúde na sua segunda etapa de vida (45-85 anos).


                Portanto, as pessoas, principalmente depois dos 35 anos, vão andando por aí, sem fazer a mínima noção de como a saúde delas realmente está.  As pessoas se enganam que uma pessoa saudável ou não se pode perceber apenas pelo peso. Isso é um erro, e dos mais grosseiros.  Sim, a obesidade se correlaciona com inúmeras doenças, mas cada vez mais acredito que a obesidade é um mecanismo de defesa do nosso corpo contra às agressões externas. Na verdade, a adiposidade subcutânea é protetora, o grande problema é adiposidade dentro de nossos órgãos, chamada visceral.  Pessoas obesas tendem a ter as duas, mas pessoas “dentro do peso” podem tranquilamente ter gordura visceral, são os chamados TOFI (Thin Outside Fat Inside – Magro por fora Gordo Por dentro).

                É possível até mesmo que algumas pessoas obesas possuam na sua maioria adiposidade apenas subcutânea, sem muitos malefícios metabólicos.  Aliás, pesquisadores acham que esse é um dos motivos da diabetes estar explodindo em países asiáticos como a China e Índia. Brancos de origem européia parecem ter mais “capacidade” de acúmulo de gordura subcutânea, enquanto orientais possuem uma “capacidade” muito menor. Logo, asiáticos são muito mais suscetíveis ao acúmulo de gordura visceral.

                Bom, isso foi apenas uma digressão sobre insulina e adiposidade. Eu testo algo em torno de 50-60 parâmetros a cada seis meses em mim.  Aliás, é um médico leitor desse blog que faz os pedidos para mim, o que eu agradeço bastante. Na última bateria de exame, resolvi checar um marcador chamado Lp(a) ou Little P(a). Quase ninguém checa, ainda mais no Brasil, esse marcador. O que ele é? Bom,  vou tentar explicar de forma muito resumida.

                Existem substância hidrofílicas e hidrofóbicas. As primeiras conseguem “navegar” sem dificuldades em meio aquoso, as segundas não. Já ouviu falar de vitaminas lipossolúveis?  São vitaminas hidrofóbicas, elas não conseguem circular no nosso sangue livremente. As vitaminas A, E e K são lipossolúveis.  O colesterol, por exemplo, é uma molécula que tende a ser hidrofóbica (na verdade, é um pouco mais complexo do que isso, pois o colesteril-ester, ou seja o colesterol esterificado é hidrofóbico, e o colesterol livre é moderadamente hidrofílico ,mas deixemos essa minúcia de lado)

Demorou para eu aprender sozinho. O colesterol é essa estrutura com quatro anéis e uma cauda saindo no carbono número 18 se não me engano. No carbono 3, há um grupo OH. Esse grupo faz com que a molécula seja um pouco hidrofílica, é o chamado free colesterol. Porém, para ser transportado no centro de lipoproteínas o colesterol precisa ser esterficado. Esterificar é apenas substituir o grupo OH no carbono número 3 por um ácido graxo, o que torna a molécula de colesterol daí completamente hidrofóbica.

                O colesterol é uma molécula vital.  As membranas de todas as células possuem colesterol. Vários hormônios possuem o colesterol como precursor. Nossos neurônios para funcionar apropriadamente precisam de colesterol. Como o colesterol é hidrofóbico, ele não pode “navegar” livremente no sangue, ele pega “carona” no que chamamos de lipoproteínas.

                O que são Lipoproteínas? É uma mistura de lipídios com proteínas, sendo que a proteína geralmente é a parte hidrofílica e uma espécie de manto, ou seja, o que permite a “navegação” no sangue, sendo que os lipídios mais hidrofóbicos como o colesterol estereficado é transportado no centro da lipoproteína.

                Existem diversos tipos de lipoproteína, sendo o LDL (Low Dense lipoprotein) e o HDL (High Density Lipoprotein) os mais conhecidos (há diversos outros VLDL, IDL, Chylmicrons e subtipos de LDL  e HDL – pré-beta HDL, HDL2, HDL3, etc). Como curiosidade, uma lipoproteína como o HDL é mais densa, pois ela possui mais proteínas e menos lipídios, e como o peso molecular de proteínas geralmente é muito maior do que lipídios, isso confere ao HDL uma maior densidade, ao contrário do LDL.

Uma conceituação artística de uma Lipoproteína

                Quando se começa a estudar um pouco mais colesterol, e o assunto é extremamente complexo, o que chamaria de grau zero sobre colesterol e transporte de lipídios (o grau menos um é o que a gente lê em blogs de saúde ou no em conversas de dia a dia), é que não existe colesterol “bom” ou “ruim”, o que existe são lipoproteínas diversas que carregam o mesmo colesterol. Portanto, o colesterol chamado de “ruim” carregado numa lipoproteína LDL é rigorosamente a mesma molécula do colesterol “bom” carregado numa lipoproteína de HDL.

                Existem uma variedade enorme de proteínas em cada Lipoproteína, num HDL já foram catalogados mais de 100 proteínas diversas. As principais são APOE, APOC-II, APOC-III, APOA-1, APOA-2 e APOB100. Cada uma possui uma função específica, e foram necessários alguns papers e entrevistas para eu entender o esboço geral da coisa.

Depois de muitas horas de quebra-cabeça, posso dizer que entendo, ao menos de um ponto superficial, todas as setas dessa esquematização, e sei o que representa todas as letras (SRB1, ABCA1, LCAT, CETP, etc). A coisa é alguns graus mais complexo do que se ouve de LDL"ruim"e HDL "bom"

                A proteína APOB100 seria a mais importante na família das lipoproteínas LDL. Se a coisa não fosse complica o bastante, há ainda outra proteína que pode-se ligar a algumas lipoproteínas que possuem a APOB100, e ela se chama apo(a) (em minúsculo, para diferenciar da APOA-1 presente em HDL).  E aqui, depois de um resumo gigantesco, chegamos ao meu exame da Lp(a) que é um exame que tenta de maneira aproximada medir a quantidade de apo(a) num determinado indivíduo.

A LP(a) é essa proteína que parece um fio de telefone antigo acoplado numa Lipoproteína LDL (Apob100). A ligação se dá por um ligação dupla sulfídica o que torna o elo entre essas duas proteínas muito forte.  Se a coisa ainda não fosse complicada, cada apo(a) varia de indivíduo para indivíduo e isso altera o peso molecular e a concentração. Tecnicamente falando, há uma variação de isoformas (ou seja de formas), baseado no número de repetições de Kringles que ocorrem no Kringle IV - subtipo 2. Na imagem acima, no canto superior direito, o K4-II possui diversas cópias, e já o K4-II abaixo possui poucas repetições. Quanto menor o número de repetições, maior parece ser o risco de eventos cardíacos.

                E por qual motivo medir o Lp(a)? Porque essa proteína vem sendo associada em estudos epidemiológicos e genéticos (ramdomizações mendelianas) como um risco independente para doenças cardíacas. Em alguns casos, a depender da quantidade, os riscos são muito aumentados, na esfera de 100-150%.

                Não vou entrar em detalhes sobre a Lp(a), e olha que quando descobri que o meu nível era altíssimo eu mergulhei de cabeça em dezenas de papers sobre o tema,  mas é a “nova fronteira” em pesquisas médicas sobre lipídios e doenças do coração. O Lp(a) é determinado geneticamente, apesar de evidência anedóticas é muito difícil alterar a sua concentração, e não há qualquer tratamento atual que diminua a sua concentração drasticamente.

                Resolvi testar o meu nível de Lp(a) crente que, como a esmagadora maioria da população, seria baixo, pois nós temos a falsa sensação de que coisas desagradáveis não vão ocorrer com a gente, mas apenas com os outros. Lembro da minha sensação há 40 dias, quando eu abri o resultado do exame na tela do computador e vi o meu número. Eu simplesmente gelei, e uma sensação de pânico tomou conta de mim.  O meu número não era apenas maior do que o que é considerável aceitável,  mas era três vezes e meia maior.

                Foi um choque. Nos dias que se seguiram, eu tive uma sensação de “Dead Man Walking”, olhava para minha filha e imaginava se eu a veria com 15-20 anos, ou se morreria de algum evento cardíaco antes disso.  Entretanto, e aqui entra o “empoderamento” de saber por conta própria como pesquisar fontes sérias sobre o assunto, e foi o que fiz.

                Com o passar das semanas fiquei mais tranqüilo, até me consultei em Porto Alegre  com o famoso Dr. Souto (foi a primeira vez que paguei uma consulta na vida), e consolidei alguns conceitos sobre a minha situação.  O meu Lp(a) elevado não é uma “doença”, é um fator de risco apenas. Obesidade, hipertensão, tabagismo, história familiar de doença cardíaca, doença auto-imune (como artrite), resistência à insulina, sono de péssima qualidade, stress e diversos outros também são fatores de risco.  Sendo assim, se eu estiver bem relação a outros fatores de risco, e atualmente acredito que eu esteja muito bem, talvez esse fator de risco nunca venha a se manifestar e muito menos precocemente (isso é, antes dos 70-80 anos).

          Para se ter ideia, ser pré-diabético (algo que talvez metade dos brasileiros sejam), aumenta o risco de doenças cardíacas consideravelmente, talvez na faixa dos 300-400%.  Stress, por incrível que pareça, li um estudo feito na África do Sul que pessoas com alto grau de stress financeiro e na vida em geral, comparada com as com menos stress, tinham um risco aumentado de 1.200% para eventos cardíacos.

                Porém, a única forma de saber se uma pessoa apresenta doença cardíaca não é por meio dos fatores de risco, mas sim olhando diretamente se já houve alguma agressão nas artérias, especialmente as que abastecem o coração, as artérias coronarianas. E a forma mais simples de fazer, é fazer um exame de escore de cálcio. Foi o que fiz.

                Essa semana saiu o resultado, e quando o escore veio 0, um alívio percorreu o meu corpo. Ter um escore de cálcio de Zero para alguém com 39 anos é o normal. Porém, vai que eu tivesse um escore positivo, ou pior ainda, um escore de 150-250, eu estaria rumando ao desastre nos próximos 15-20 anos.

                Sim, eu trocaria algumas centenas de milhares de reais para ter uma Lp(a) bem diminuída, e se eu tivesse escore de cálcio positivo, eu trocaria centenas de milhares para ter um escore de cálcio zerado (a depender do escore de cálcio, eu trocaria milhões, todo o meu patrimônio).  Quando o espectro da mortalidade e doença se abate, a prioridade, os desejos diminuem para apenas um.
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                 Um escore de cálcio de zero não significa que não há risco, apenas significa que nos próximos 10-15 anos possuo um risco bem baixo de eventos cardíacos. Pretendo repetir esse exame com 46 anos, e torcer para que o escore permaneça zero.

Essa é uma tabela mostrando os riscos de acordo com o escore de cálcio. Significa que em média uma pessoa com zero possui uma chance menor do que 1% de nos próximos 10 anos sofrer um evento cardíaco. Já uma pessoa maior do que 400 possui 24%, ou seja 2.400% a mais de risco, se comparado  o meu fator de risco de Lp(a) some. Essa tabela é um pouco exagerada pelos estudos que já li, mas a diferença entre um CAC de zero e um CAC de 400 ou de 1000 para efeitos de risco, em quase todos os estudos é na faixa de 600 a 1000% de risco aumentado.

                E você, o que deveria fazer? Se você tem mais de 40 anos, você deveria medir a sua Lp(a) e fazer um escore de cálcio. Há uma chance em quatro de você possuir uma Lp(a) alta, e uma chance em 10 de possuir uma Lp(a) muito alta. Se 1000 pessoas lerem esse artigo, significa que 200-250 em média terão esse fator de risco aumentado, e 50-100 terão esse risco bem aumentado.

                Se você, ao contrário de mim, possui resistência insulina (o que é bem provável se você faz o que a média da população faz), se possui história na família de diabetes, se é estressado, você pode ser uma bomba relógio ambulante. O primeiro sintoma de um problema cardíaco para 30% das pessoas que sofrem desse mal é morte (daí o meu receio).  A pessoa com 40-45 anos, pode ter um CAC (escore de cálcio) de 400 e estar em extremo risco de um evento cardíaco sem saber disso.

                É isso meus prezados leitores, era um artigo que eu precisava escrever até como forma de “desabafo” interno meu.

Esse é o podcast que eu falei. Uma baita entrevista, Naval Ravikant é um baita pensador.

                Um abraço a todos!