segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

ALGUÉM REALMENTE LEU TALEB? IRÃ E OS EFEITOS DE SEGUNDA E TERCEIRA ORDEM


Será que alguém realmente leu Taleb? Para quem não conhece, Nicholas Nassim Taleb é um escritor que escreve sobre vários assuntos relacionados à incerteza. Ele ficou muito famoso especialmente pelo seu livro chamado “A Lógica do Cisne Negro”. É preciso ler Taleb? Evidentemente que não. Alimentar-se bem, ter boas relações sociais e dormir bem são os atos que eu colocaria como essenciais para uma boa vida, não a leitura de um autor específico. Ele é um grande ser humano? Sinceramente, não sei. Pelos escritos e algumas palestras que eu vi dele, há um certo ar de superioridade que realmente não me agrada, como se apenas ele guardasse as chaves para os mistérios humanos, porém não dá para saber como ele é sem conhecê-lo pessoalmente, assim como com qualquer pessoa. Se não é necessário a leitura desse escritor, se eu acredito que ele tem certas características pessoais não tão positivas, por qual o motivo o título do presente artigo? Por qual motivo perder tempo com isso?

O cito, pois Taleb virou para muitas pessoas que gostam de finanças, ou comentam sobre política, uma espécie de norte intelectual. Além do mais, como ele diz que gosta muito do libertarianismo, bem como autores da escola austríaca de economia, e como esses temas estão em voga, ao menos em relação a pessoas que gostam de finanças, ele acaba sendo bastante citado. Aliás, sobre isso, ele tem uma ideia muito interessante sobre como deveríamos nos comportar e como essa ótica esquerda x direita é um tanto quanto tola. Ele diz que no nível familiar devemos ser comunistas, em nossa comunidade socialistas, a nível municipal progressistas-democratas, em nível estadual conservadores-republicanos e em nível federal libertários. Essa forma de ver o mundo é tão mais inteligente e complexa e faz tão mais sentido, que é uma pena essa ideia dele não ser tão discutida e analisada. Entretanto, sistemas de governos não é o foco desse artigo, e nem o motivo de trazer esse autor à baila.

Taleb bate muito na tecla, em vários dos seus livros, que interferências em sistemas complexos levam não só a consequências de primeira ordem, mas especialmente a consequências de segunda e terceira ordem.  As consequências de primeira ordem costumam ser mais previsíveis, porém as consequências de segunda e especialmente terceira ordem não são nada previsíveis e muitas vezes fogem a qualquer controle de uma análise prévia. Esse é o principal argumento do Taleb, por exemplo, para que governos interfiram o mínimo num sistema complexo como é a economia. Quer-se controlar a inflação, congela-se o preço da gasolina, por exemplo. Num primeiro momento, o efeito de primeira ordem (controle da inflação) pode acontecer, mas a interferência (congelamento de preços) pode ocasionar uma pletora de consequências imprevisíveis. Portanto, a melhor coisa a se fazer em sistemas complexos é deixar eles mesmos se auto-regularem e evitar ao máximo interferências externas.

Taleb, até porque libanês, é especialmente vocal a respeito de interferências militares, ainda mais em regiões extremamente complexas do ponto de vista geopolítico.  As intervenções quase sempre, ou talvez sempre, causam muito mais malefícios do que benefícios. Geralmente, o motivo da intervenção faz sentido, mas quase sempre se ignora que os efeitos secundários e terciários são imprevisíveis e podem produzir resultados ainda piores na situação do que se não houvesse a intervenção. 

Líbia. Governada por um ditador chamado Muamar Al- Gaddafi por décadas. Ele assassinava opositores, tinha harém de mulheres e cometia os atos grotescos piores possíveis. Porém, esse mesmo crápula, manteve um país basicamente tribal unido, a Líbia tinha um dos maiores IDHs da África, ele abriu mão de ter armas nucleares e nos últimos anos de seu governo a Líbia se comportava como um país razoavelmente “normal” nas relações internacionais. Manifestações populares emergiram pegando carona na primavera árabe, o ditador reprimiu duramente o dissenso político, a situação degringolou, uma coalização internacional atacou a Líbia e as forças de Gaddafi, e este acabou sendo capturado por rebeldes e morto. E o que é a Líbia hoje? Basicamente, uma terra sem lei. Grupos terroristas se instalaram no país. Há comércios de escravos em alguns lugares, como se estivéssemos no século XV. Não há qualquer futuro pacífico de uma sociedade minimamente organizada na Líbia no curto e médio prazo. Depois da intervenção a vida dos líbios piorou e o mundo ficou mais inseguro, não mais seguro.

Trump resolveu assassinar o maior general iraniano. Virou manchete no mundo, amigos meus comentaram o incidente. Todos correm para ter uma opinião. Eu não sou especialista em Irã, mas como tive o privilégio de passar mais de um mês nesse país espetacular, convivendo e muitas vezes dormindo na casa de locais das mais variadas classes sociais, posso comentar um pouco. 

Primeiramente, o Irã não tem nada a ver com o Iraque, inclusive são países com matrizes culturais completamente distintas. Iranianos não são árabes, e é uma grande ofensa no Irã você confundi-los com árabes. Iranianos, ao menos o maior grupo étnico, são herdeiros dos grandes impérios persas. Estes foram os primeiros grandes impérios territoriais-culturais que a humanidade presenciou. O Irã é fonte de uma história milenar riquíssima, cheio de cultura, cidades históricas e especialmente um povo muito orgulhoso de suas origens. Até mesmo comentadores políticos talvez não saibam que o Irã é uma panela cultural, sendo que a segunda etnia mais numerosa no país é na verdade de origem Turca-Azeri (Arzebaijão) e que o atual líder supremo religioso (Khamenei) não é persa, mas turco-azeri.

O Irã é um pais de classe média com uma renda per capta um pouco menor do que o Brasil, ou seja, eles são parecidos economicamente nesse sentido com a gente. Tehran é uma cidade vibrante e caótica como São Paulo. Possui uma classe média que está de “saco cheio” do governo, e só quer um pouco mais de prosperidade econômica e liberdade. As jovens em Tehran usam o Hijab (lenço na cabeça obrigatório de ser usado, inclusive por estrangeiros) com quase todo o cabelo a mostra, numa forma de protesto e de sinal de mudanças dos tempos. As mulheres de classe média são ativas, trabalham, são médicas e participam das decisões da família, assim como qualquer mulher no Brasil.

É o mundo ideal para mulheres? Claro que não. Não estamos falando da Austrália ou Finlândia. Mas dentro do mundo muçulmano, com certeza a situação da mulher é muito melhor, mais muito melhor no Irã do que na Arábia Saudita. Aliás, em tudo o Irã é um modelo muito mais moderado e sensato para o mundo muçulmano do que a Arábia Saudita. 

A não ser que a pessoa tenha passado um tempo no Irã, dificilmente se sabe o que a guerra Irã-Iraque de 1980-1988 significa para os iranianos. Quem já viajou pela Rússia, especialmente o seu vasto interior, sabe que os russos chamam a segunda guerra mundial de “A Grande Guerra Patriótica”. Essa guerra aconteceu entre 1941-1945. Portanto, e essa é uma das maravilhas de se viajar e realmente mergulhar nem que seja um pouco na vida de um país diferente, a percepção russa sobre a guerra é completamente diferente da nossa percepção da Segunda Guerra Mundial. Isso já tinha ficado claro para mim quando visitei o Vietnã há 12 anos, e descobri que a guerra lá era chamada de “Guerra Americana” e não como conhecemos “Guerra do Vietnã”, pois para os vietnamitas a guerra foi uma agressão injustificada dos americanos, e foi mesmo. 

O Irã em 1980 estava à beira de convulsões sociais. Havia se passado a revolução de 1979, uma revolução que contou com comunistas, republicanos e islamitas iniciada para acabar com a última dinastia de reis iranianos. Por acontecimentos do destino, os islamistas tomaram preponderância, e tornaram a revolução de 1979 numa revolução religiosa, mesmo que inicialmente ela não tivesse esse propósito (fato este também ignorado por muitos comentadores políticos).  

O Irã, até pela sua história riquíssima, possui elites letradas, mas também camadas populares mais conservadoras. O fato é que em 1980 não se sabia ao certo se o regime teocrático manteria-se por muito tempo. Então, com ajuda financeira e militar dos EUA, o Iraque invade territorialmente o Irã para tomar os campos de petróleo do sul do pais. Aproveitando-se da fraqueza política e militar do Irã naquele momento, o Iraque (que é muito menor e menos populoso) consegue vitórias militares fáceis e toma parte do sul do Irã. 

Depois desse fato, onde havia divisão, surgiu união. Os iranianos se uniram, ao menos boa parte deles, o regime teocrático conseguiu a legitimidade que precisava, e com muito esforço em vidas humanas, o Irã conseguiu impedir o avanço das tropas iraquianas, bem como expulsar essas tropas do Irã. As histórias dos combatentes iranianos em nada deixa a dever em bravura e determinação do que histórias de desembarque na Normandia no famoso  dia D. Dezenas de milhares de iranianos sabiam que iriam morrer, mas mesmo assim alistavam-se para defender o seu país. Por coincidência ou não, a guerra Irã-Iraque é conhecida no Irã como “A Guerra Patriótica”. Assim como na Rússia que em qualquer vilarejo há homenagens aos soldados russos da grande guerra patriótica, no Irã em qualquer cidade há homenagens aos chamados mártires da guerra de 1980-1988. É um evento doloroso para os iranianos. 



Por que falar tudo isso? Pois sem entender minimamente a história e algumas nuances, é fácil se perder em análises generalistas opacas. Eu não conhecia o general assassinado, mas li que ele era considerado um grande herói na guerra de 1980-1988. Se ele realmente era um herói nacional por causa dessa guerra, a comoção do país pelo seu assassinato com certeza não é algo fingido ou manobrado pelo governo. 

Ao se matar um general tão importante, Trump interveio num sistema complexo, muitas vezes mais complexo do que era o Iraque de Saddam em 2003 quando começou os bombardeios americanos. As consequências secundárias, terciárias e talvez de quarta ordem (daqui 10-15 anos) são completamente imprevisíveis. Um fato imprevisível já ocorreu. De maneira alucinada, a própria guarda revolucionária derrubou um avião comercial por engano. Não apenas iranianos morreram, mas também dezenas de canadenses. Qual impacto isso vai ter no governo, no ânimo das pessoas? Um país tão importante como o Irã é aconselhável uma ruptura drástica de poder depois de tantos anos? Se o Irã, com seus 70 milhões de habitantes, degenerasse em caos, o que não aconteceria com uma região que já está caótica, e com o mundo? E um passo mal calculado pelo regime iraniano, e uma retaliação americana, onde poderia levar o mundo? E se o assassinato desse general não unir as forças políticas do país e o regime se manter por mais dezenas de anos? E os efeitos que não se pode prever e que serão resultados desse ato daqui 2, 3 , 5 anos?

Ao ler e ouvir alguns comentários, parece que realmente as pessoas que dizem gostar de Taleb não o leram, ou passaram batido uma das partes principais sobre o desastre que é a intervenção, especialmente com força, em sistemas complexos. 

Esse vídeo de apenas cinco minutos da história do Irã é fantástico. Eu o vi várias vezes quando estava lá, até para poder entender um pouco mais da história das diversas cidades que eu visite. Mesmo que você não tenha interesse no Irã, o vídeo é muito bem produzido.

Um grande abraço a todos!


40 comentários:

  1. https://revistaopera.com.br/2020/01/05/o-assassinato-de-soleimani-ee-o-futuro-do-conflito/

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    1. Grato pelo Link.
      "Soleimani nasceu em março de 1957, de uma pobre família rural na província de Kerman, província de estepes desérticas rasgadas por cadeias montanhosas no vilarejo de Qanat-e Malek."
      Visitei a região de Kerman. É um lugar bem especial. Fiquei na casa de iranianos de classe média. Visitei o deserto mais quente do mundo (no verão passa de 60 graus, mas fui no inverno). Nenhum ocidental. Nenhum turista. Maravilha de viagem.

      "Soleimani frequentava zourkhanehs, ginásios que seguem o sistema tradicional de treinamento de guerreiros persas e que mistura aspectos culturais pré-islâmicos (na religião: zoroastrismo, mitraísmo e gnosticismo; incluindo a leitura de poemas gnósticos acompanhados por tambor) e islâmicos (incluindo elementos do sufismo, misticismo islâmico); o treinamento inclui música, força, calistenia e lutas."

      Visitei um lugar desses. É muito interessante. Uma mistura de crossfit, com levantamentos funcionais, levantamento de peso, oração, música, etc. Muito interessante mesmo, treinaria num lugar desses no Brasil, amarradão.

      O artigo é muito extenso e li partes dele. Mas, obrigado pelo link, especialmente por me lembrar desses centros de treinamento.

      Abs

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  2. Muito interessante o post e a questão dos efeitos de n ordens.

    Coincidentemente hoje estava ouvindo um podcast do Planet Monet que trouxe um exemplo que tem a ver com isso. Foi o episódio "The cost of free doughnuts" [1].

    Resumindo a estória: Sempre que perguntam pros veteranos americanos o que acham da cruz vermelha, eles dizem que não gostam por conta dos donuts.

    Foram ver a estória: A cruz vermelha prestava alguns serviços de graça pra quem estava servindo (corte de cabelo etc) e também fornecia café e rosquinhas de graça. Na segunda guerra, passaram a cobrar por isso, o que gerou um sentimento negativo por parte dos soldados que perdura até hoje.

    Segundo o pessoal da cruz vermelha, o que aconteceu foi que eles não queriam cobrar por isso, mas o secretário americano da guerra pediu para que o fizessem (os ingleses pagavam no acampamento deles - não pra cruz vermelha, pra outro -, aí pra não gerar ciumeira, o secretário pediu pra cobrar dos americanos). A cruz vermelha o fez, por um preço bem baixo (2 centavos, não sei se no dinheiro daquela época ou no atual).

    Apesar disso, a cobrança foi por muito pouco tempo. E nesses quases 80 últimos anos, a grande parte dele não teve cobrança. Mas o trem pegou tão mal que até hoje se fala no assunto. Segundo o podcast, no FAQ da cruz vermelha tem essa história também (não achei).

    E aí fica a lição: nunca cobre por algo que você sempre deu de graça [1-2]. Tem efeitos negativos, que podem durar muito tempo e que você não pode prever (efeitos de segunda, terceira, n'éssima ordem?).

    [1] https://www.npr.org/2020/01/08/794592539/episode-386-the-cost-of-free-doughnuts

    [2] https://www.npr.org/sections/money/2012/07/13/156737801/the-cost-of-free-doughnuts-70-years-of-regret

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    1. Olá,
      Nunca ouvi falar desse podcast, é bom?
      História interessante hein!
      Mas é verdade, se tem algo que nosso cérebro é viciado é na palavra "grátis". Se tem algo que não gostamos, é quando esse algo "grátis" é retirado. Isso explica empreendimentos mal sucedidos, políticas sociais, etc, etc,
      Um abs!

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    2. Excelente. Gosto muito dele e do "hidden Brain", ambos na NPR.

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    3. Hidden Brain
      A conversation about life's unseen patterns

      Muito obrigado, não conhecia e foi o melhor "achado" da internet dos últimos tempos. Minhas noites como piloto ganharão um divertimento a mais. Esse blog é ouro!!!

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  3. Excelente.

    É lamentável que muitos brasileiros ainda tenham uma visão cheia de estereótipos sobre o Irã, é um país muito complexo.

    Confesso que aprendi muito em seu artigo.

    Abraços.

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    1. Olá, Poupador.
      É mais ou menos dizer que no Brasil só tem mulata sambando, macacos em árvores e todo mundo dançando como se não houvesse amanhã (ah, e favelas).
      Sabemos que isso seria uma visão míope e medíocre do Brasil em toda a sua complexidade. É mais ou menos o que ocorre com o Irã.
      Um abs!

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  4. Parabéns pelo texto!
    Como comentário adicional, descobri recentemente que o exemplo do cisne negro vem de Popper e não de Taleb. Quando li parte do livro A lógica do cisne negro (sendo sincero, confesso que cansei na metade do caminho) não conhecia Popper, então não sei se não foi destacado o suficiente no livro ou foi desatenção minha mesmo ;D.

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    1. Oie Amigo.
      Taleb sem faz questão de dizer que Popper é um ídolo intelectual dele, ele destaca bastante isso sim.
      A ideia de "cisnes negros" não é original do Taleb, aliás não sei se há alguma de original na obra dele. Porém, ele com certeza soube escrever livros interessantes voltados para um público mais moderno trazendo vários assuntos e os interligando. Nisso ele tem muito mérito.
      Abs!

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  5. Tsc., Tsc.
    Soulsurfer, meu caro Soulsurfer, tudo já foi previamente calculado e debatido, tudo não passa de atenção direcionada, para a população em geral só é mostrado o que os donos do mundo querem que seja visto, essa questão de consequências previsíveis e imprevisíveis é coisa de teórico que não conhece quem são os donos do mundo, seja qual for a resolução tudo já foi previamente estabelecido e aceitado por todos, perder tempo com o que acontece é bobagem, apenas sorria e acene, curta a viagem debaixo do sol de forma leve, não se preocupe com o Irã, Iraque, Trump, etc., tudo isso só serve para te desviar do verdadeiro objetivo.

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    1. Olá, amigo.
      Sua mensagem tem ironia e sabedoria. É possível realmente que a gente veja o que querem que seja visto. Porém, acredito que com a disseminação das narrativas pela tecnologia, isso está se tornando cada vez mais complicado de ser feito. Mas realmente é uma possibilidade.
      Sobre se preocupar com os verdadeiros objetivos, com certeza meu amigo, Trump, Bolsonaro, geopolítica mundial não tiram o meu sono, nem o meu foco. Porém, eu gosto de assuntos internacionais, e como gostei muito do Irã o que acontece com aquele país é do meu interesse.
      Agora, não concordo que consequências imprevisíveis seja "coisa de teórico". Mas essa é a minha opinião apenas.
      Um abs!

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  6. Eu li sei artigo e entendo seu ponto de vista.
    Minha opinião:
    1° Se os EUA resolvessem parar de intervir na região, Rússia e China é que tentariam influenciar a região. A Rússia já faz isso.
    2° Mesmo num hipotético em que as grandes potências deixassem a região em "paz", eles viveriam em guerra por se odeiam. Não os povos, mas os gângster ou chefes de facções que governam os países daquela região.
    3° Está mais do que provado que o Irã arma e financia grupos terroristas e que usa esses grupos para atacar inimigos.
    Não há santos. As potências ocidentais a décadas interferem naquela região, que diga se de passagem nunca foi pacífica.
    4° Eu acho sim, minha leiga opinião, que os EUA acertaram ao matar o tal General.
    A melhor abordagem sobre o Irã é mantê-los sobre pressão. Uma guerra aberta não seria vantajosa para nenhum dos lados: custaria caro em recursos financeiros e humanos para EUA e aliados da região e seria o fim do regime iraniano.
    Veja, apesar de toda retórica, o Irã respondeu com um ataque combinado diplomaticamente. Foi cometido um "erro" estúpido. Uma tragédia para os familiares dos que estavam no avião. Há manifestações no Irã, mas não acredito que isso derrubará o governo.
    Eu prefiro os EUA com bases espalhadas no golfo persico que a Rússia ou China dominando aquela região.

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    1. Olá, amigo. Todos os seus pontos são interessantes e fazem todo o sentido.
      1 - Sim, há um jogo de interesse para todos os lados. Porém, os chineses tendem a ser mais pragmáticos e não se importarem tanto com os regimes locais, o que fazem com suas populações. Já os EUA, ao menos no ideal, protegiam os seus interesses, mas também se interessavam em colocar alguns limites em regimes ditatoriais. O problema é chamar o Irã numa ameaça, e dizer que é terrorista, e ter como aliado estratégico a Arábia Saudita, essa sim que financia grupos terroristas mundo a fora.
      2 - Não sei, amigo. Eles vivem lado a lado há centenas de anos, em alguns casos milhares de anos. O Irã precisa construir o seu próprio estado moderno, os iranianos precisam fazer isso, não será com uma mudança brusca de regime em minha opinião.
      3 - A depender do lugar um grupo terrorista vira grupo de luta pela liberdade. Tudo depende do ponto de vista. Atacar alvos civis com drones, o que os EUA fez e faz no Yemen e em outros lugares por exemplo, também são atos terroristas. A palavra terrorismo foi banalizada, ou pior, terroristas sempre são os inimigos. Agora, sim, o Irã apóia aliados na região, pois existe uma batalha de influência entre o Irã e a Arábia Saudita, e vai por mim amigo, o mundo sairia ganhando se o Irã tivesse mais influência na região do que a Arábia.
      Quando estive em 2016, os iranianos estavam abrindo o seu país, ansiosos por turistas, para mostrar as suas belezas, para mostrar que é um país pacífico com história e cultura. O acordo do Obama estava em vigência, o regime aos poucos estava mudando. Agora pergunte para um saudita se ele faz questão de mostrar o país dele, ou se a Arábia Saudita quer se abrir para o mundo.
      4 - Eu não tenho opinião, aliás minha opinião é a do texto, que esse evento causará muitos efeitos de segunda e terceira ordem que só daqui alguns anos poderemos analisar.

      Um abs!

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    2. Verdade Soul, nenhum país melhora com mudanças bruscas. Guardadas as devidas proporções (muito díspares, ressalvo), tanto a implantação do regime republicano no Brasil quanto a redemocratização bruscas trouxeram consigo falhas que atrapalham o desenvolvimento do nosso país.

      Uma mudança brusca de regime no Irã traria um desquilíbrio ainda maior no país e na região - como ocorreu com o Afeganistão. E isso não seria positivo para ninguém.

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    3. Obrigado pelo texto e pela visão cuidadosa a respeito da questão. É cada vez mais raro nesse tipo de discussão ver a complexidade das relações e partes envolvidas serem levadas em conta, o que por fim traz pontos de vista realmente diferentes daquilo que vemos usualmente. Parabéns pelo blog. Tem sido muito interessante e diferenciado, obrigado pelo aprendizado.

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    4. O problema não é o terrorismo do Irã, o problema é o terrorismo do Irã contra os USA, visto que aliados do USA e as proprias potencias ocidentais praticam terrorismo.

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  7. Ótimo texto.

    Uma das maiores hipocrisias da história moderna é a relação dos EUA (e seus apoiadores) com o oriente médio. A guerra ao terrorismo fecha os olhos à Arábia Saudita, um dos países mais escrotos no tratamento a mulheres e minorias. Não dá pra passar pano, o islã wahabista é extremamente incompatível com nossos princípios republicanos e democráticos.

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  8. Com essa questão do Irã, definitivamente deixo de conversar sobre política com os outros. É impressionante como todo mundo é especialista. Reacionários e tiozões da nova direita brasileira apelam para as fake news; a galerinha ativista de sofá das redes sociais apelam para a lacração. É inconveniente demais. Há uns 10 anos atrás já existiam opiniões diferentes, mas agora, as pessoas se polarizaram de uma forma tóxica. Percebo que isso é muito característico aqui do Brasil. Para manter minha sanidade mental deixei de ver TV e ter redes sociais, a manipulação é grande e o "tribunal" da internet é insuportável. Geralmente são jovens reacionários (direita) e revolucionários (esquerda) que querem mudar o mundo com suas ideias mas não lavam um copo para ajudar a mãe e o pai em casa. Assim como o pai adúltero que apoia a família tradicional é hipócrita, o socialista que usa iPhone e só consome filmes e músicas dos EUA, depois vocifera contra o país também é

    Existem muitos preconceitos tanto com o Irã quanto com os EUA; o problema é que todo mundo sabe de política, relações internacionais, todo mundo quer palpitar. Eu mesmo estou pesquisando sobre a história dessa relação tumultuosa entre os dois países. Enquanto isso me recuso a discutir qualquer coisa sobre política vindo de mancebos que sequer arranjaram o primeiro emprego ou tiozões bolsonaristas insuportáveis (se bem que é mais fácil falar de política com quem é mais à direita; geralmente o pessoal da esquerda quer sempre estar certo, sempre quer lacrar, mesmo sendo um crítico do atual governo sou tachado mais de fascista do que de comunista; isso vem de pessoas que sabem há mais de 10 anos sobre minhas ideias políticas - voltadas para o liberal e direita moderada). Eu não sei o que aconteceu nessa década para as pessoas ficarem tão idiotas e insuportáveis quando o assunto é política. Acredito que as redes sociais tem muita culpa nesse processo.

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    1. Olá, amigo. Tendo a concordar em linhas gerais com o seu comentário.
      Um abs!

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  9. Uma pequeníssima contribuição:

    Nas escolas de altos estudos militares (aquelas que formam conandantes e oficiais quase ascendendo ao generalato) são realizados diversos exercícios que buscam exatamente desenvolver o planejamento dos eventos de segunda e terceira ordem.

    Funciona como um jogo de tabuleiro, onde um juíz externo (muitas vezes um civil convidado como um acadêmico, um diplomata ou mesmo um jornalista) introduz alguma aleatoriedade ao exercício.

    Começa com um cenário como "o pais vermelho está com problemas politicos e uma onda de refugiados está entrando na fronteira norte do país verde" e uma missão atribuída como "planeje uma missão de acolhida aos refugiados".

    A função dos juízes é criar alteracoe como "uma epidemia de cólera se instalou no posto de triagem" ou "há uma onda xenófoba no país verde e diversos casos de agressões foram registrados" coisas assim.

    Os alunos então são incitados a pensar em aspectos logisticos, sanitarios, legais, cibernéticos, de comunicação social, relações internacionais, financeiros, etc.

    Outros estímulos tb podem surgir dos "red team leaders" que vc já abordou em algum outro texto.

    É bem interessante. Penso que você seria um excelente juíz para um exercicio desses.

    Nota: em situações reais as coisas são bem diferentes, claro, mas o treinamento é bem útil e os resultados bem visíveis. Nem por isso, as intervenções são desejadas.... todoa conhecem o risco e sabem que normalmente os efeitos colaterais são mais noticiados que todo o bem eventualmente feito.

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    1. Olá, colega. Coloque interessante nisso. Adoraria ter tido minha formação num centro de treinamento desses. Adoraria que minha filha pudesse ser ensinada assim. Isso serve para um monte de coisa, empreender nos tempos atuais, por exemplo, onde o cenário pode ser volátil, é preciso pensar estrategicamente em cenários que vão mudando ao longo do tempo.
      Compare um cenário desses, complicado e desafiador, com o que temos nas nossas escolas de hoje ou com o nível de argumentação encontrado por aí. Parece que se está a falar de dois universos distintos.

      Eu acho que a prática auxilia e muito enfrentar situações inesperadas. Aliás é assim que forças especiais são treinadas. Cada situação será diferente, e muitas vezes aleatórias, mas apesar disso eles são treinados para ter a postura física e mental adequada para encarar esses desafios.

      Um abs

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  10. Caro Soulsurfer,
    fico espantado com a tua facilidade de explanar de forma didática!
    O texto mistura história, opinião e teoria de uma maneira deliciosa de ler! Os teus comentários e dos leitores são muito ricos, diferentemente do que normalmente encontramos na rede.
    Vida longa ao teu blog!!!
    Abração.

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  11. Belo post Soul. E belo vídeo com destaque para a trilha sonora.
    Pelo visto no vídeo, a humanidade está sempre em transformação e tudo isso do vídeo foi feito na base da espada, sangue, pilhagem, estupros, escravização dos povos conquistados e muita, muita coisa ruim.

    Eu vi um documentário sobre o Kadafi no netflix, ele enlouqueceu aos poucos. Em dada fase de sua vida, ele entrava nas escolas, apontava as meninas que queria estuprar, e no final da tarde os guardas as levavam para ele.

    Já o iraniano abatido por um drone, vi alguns posts no facebook dizendo que ele era o autor de um atentado na argentina que matou 84 pessoas. E também nunca teremos todas as informações que a CIA tinha dele, o que ele planejava contra os EUA. O papel do Trump não é defender o mundo, e sim apenas os EUA, vidas americanas como assim eles chamam.

    A nossa equação temporal e nossa vida limitada em 100 anos não nos fazem ver que a história da humanidade é uma eterna guerra pela busca do poder, território e dinheiro. Aqui mesmo na cidade que eu moro, já mataram mais de 40 pessoas em Janeiro de 2020 (apenas nos primeiros 14 dias). O Brasil também vive sua guerra urbana velada.

    Sobre esses efeitos de segunda e terceira ordem: Bem, imagine que vc tem um vizinho que todo dia fica bêbado, bate na mulher e nos 5 filhos, todos os dias, um belo dia ele mata o cachorro, outro dia ele mata um filho, e continua batendo nos outros, mas ele sustenta a casa e deixa a casa coesa. Não sei até onde temos que ir na intervenção externa, mas é difícil ver uma coisa ao nosso lado degringolar e não fazer nada, veja o caso de 6 décadas de ditadura militar cubana ou mesmo do genocídio venezuelano acontecendo nesse momento na nossa cara. Os países estáveis e pacíficos não deveriam intervir? Veja o caso de Ruanda em 94 ou no Sudão desde 10 anos atrás...

    Enfim, nossa vida é muito curta, os grande conflitos da humanidade atravessam os séculos e mesmo aqui vivemos a nossa guerra urbana e temos nossos carros blindados. O mundo é mesmo cheio de problemas infinitos e ainda temos os nossos próprios problemas.

    As crianças do vizinho violento ficariam bem sem o pai? Talvez sim ou talvez morressem de fome logo de uma vez, talvez a mulher se matasse se ele fosse morto ou preso, e matasse os outros filhos tb pra eles não sofrerem. São muitos destinos possíveis.

    Vc viu o filme da Angelina Jolie no netfliz? First the killed my father?
    Eu gostei bastante.

    Um abraço.

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    1. Olá, Frugal, meu amigo, como vai?
      Que salada hein! hehe
      a) A sua comparação de um pai que se torna violento e vai agredindo as pessoas ao pouco com a intervenção militar de uma potência estrangeira em sistemas complexos é meio sem sentido, em minha opinião. É evidente que a integridade física e mental dos filhos precisa ser preservada. É por isso que existem leis, sistema judiciário, política, etc, etc. Isso em absolutamente nada se compara com a intervenção militar estrangeira.

      b) "O papel do Trump não é defender o mundo, e sim apenas os EUA, vidas americanas como assim eles chamam." A questão é se o ato dele tornou isso mais provável ou não. Pelo histórico de intervenções anteriores isso mostra que a resposta é um sonoro NÃO.

      c) Posts de facebook, ainda mais em mídias sociais cada vez mais controladas por algoritmos para transformar o seu feed, aproveitando-se da vulnerabilidade de nossos cérebros, num grande "eco chamber" não me parece ser uma fonte fidedigna e boa de conhecimento. Mas, sim, como um anônimo disse acima, nós mortais nunca saberemos todas as informações, interesses, etc.

      d) Nossa equação temporal talvez não consiga que nosso cérebro entenda 13.7 bilhões de anos e o que isso significa (a idade estimada do universo). Ou o que significa dezenas de milhões de anos em termos de evolução. Agora a sua afirmação "não nos fazem ver que a história da humanidade é uma eterna guerra pela busca do poder, território e dinheiro" não é verdadeiro. Nós só conseguimos, como vários pensadores tem frases num sentido exatamente igual ao seu.
      E, sim, o Brasil vive uma guerra urbana velada, boa parte dela é direcionada às pessoas mais pobres, quase sempre negros e jovens na faixa dos 15 aos 30 anos. Não é achismo, é estatística mesmo do mapa da violência no Brasil. Se não me engano, na faixa jovem, negra e pobre, a taxa de homicídios é de 200 a cada 100 mil. Para uma faixa como a minha (branco, rico e 40 anos) deve ser algo entre 0.2-0.3 a cada 100 mil.

      e) Sobre intervenções. Sim, você disse Ruanda em 1994. Esse era um caso que as nações deveriam ter intervindo. Se há uma situação que efeitos de segunda ou terceira ordem perdem importância, ou relevância, em relação a intervenções militares, é quando há um genocídio em larga escala acontecendo. O outro lado sempre diz que é difícil reconhecer um genocídio no momento que ele está ocorrendo, e que no caso de Ruanda ele foi rápido demais (800 mil mortos em 3 meses). Mas, havia sinais claros de que algo sinistro estava acontecendo, e o documentário-filme sobre o general canadense chefe da missão militar da ONU no país mostra bem isso. A inação das grandes potências em DARFUR, por exemplo, também mostra bastante sobre o que ocorre na geopolítica.

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    2. g) A sua comparação velada, ou não tão implícita sim, sobre a necessidade de uma intervenção militar em Ruanda em 1994 com uma possível intervenção militar na Venezuela ou em Cuba (pelas expressões utilizadas por você) não tem pé nem cabeça, e mostra que você está realmente numa eco chamber no seu dia a dia e não está nem percebendo. Como é que é, você está comparando com país onde uma etnia massacrou a facadas 800 mil pessoas em 3 meses com um país (Venezuela) que está passando por uma situação econômica terrível? E ainda chama isso de genocídio? Meu amigo, não banalize a palavra genocídio, até porque ela é o sinal de quando a humanidade deve fazer alguma coisa de forma conjunta em relação a uma situação grave. Você ao menos sabe qual é a definição de genocídio?
      g.1) Pelo seu raciocínio, sempre que uma população local sofrer com um governo ruim ou despótico, uma das soluções possíveis é a intervenção militar estrangeira. Isso não tem qualquer cabimento. Se você for coerente, e souber um pouco dos seguintes países, concordaria com intervenções militares em: Uzbequistão, Turcomenistão, Coréia do Norte, Myanmar, Sudão, Egito, Venezuela, isso apenas para começar a brincadeira. É isso mesmo?
      g.2) Se for é uma insanidade sem tamanho. Recomendo a releitura do texto, especialmente na parte sobre a Líbia. Uma intervenção militar estrangeira na Venezuela seria um desastre total e completo, com consequências negativas imensas para o Brasil.

      h) Sim, frugal, eu vi. Eu li o livro em 2008 na primeira vez que estive no cambodja. Visitei os Killing Fieds (tem até artigo meu sobre isso) quando quase não havia nenhum turista, bem como a prisão S-21. Na minha segunda vez no Cambodja no início de 2016, na cidade de Kampot (se não me engano), a Angelina Jolie estava filmando uma cena do filme e por isso várias ruas estavam fechadas.
      h.1) Por fim, você sabe que o extermínio cambodjano pelo Khmer Vermelho foi um típico efeito de segunda-terceira ordem de uma agressão militar estrangeira.
      O Vietnã do norte usava uma rota que passava pelo Cambodja na direção da guerra de guerrilha no Vietnã do Sul. Os EUA, sob o governo de Nixon, resolveu então fazer uma guerra secreta no Cambodja e Laos. A quantidade de bomba jogadas nesses dois países supera a quantidade de bombas lançadas em toda segunda guerra mundial. Por causa dos bombardeios da destruição, especialmente no interior, e das mortes, uma guerrilha maoísta-comunista que quase não possuía força no começo da década de 70 foi ganhando cada vez mais simpatizantes e soldados, até que culminou na tomada da capital Phnom Penh em 1975. A população num primeiro momento saudou o Khmer Vermelho quando eles entraram na cidade, não havia qualquer medo e não se sabia o destino sinistro desse pobre país.
      Não sei se sabe também, foi o Vietnã comunista que invadiu o cambodja em 79 e tirou o Khmer Vermelho do poder e acabou com a matança.
      Portanto, frugal, uma intervenção militar dos EUA no início da década de 70 está diretamente associado com a ascensão do Khmer Vermelho e da morte de aproximadamente 2 milhões de Cambodjanos.
      Será que Nixon queria que isso acontece ou foi previsto? Parece-me evidente que não, mas esse é o ponto do meu artigo, e dos escritos de Taleb sobre o tema.

      Abs
      Abs

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  12. Meu amigo, o que está acontecendo na Venezuela, não é nem de longe o que está na mídia e nos jornais. Os números publicados não devem ser nem 1/10 ou muito menos do que o que está acontecendo lá. Se não é genocídio não sei o nome, nunca se matou tanto naquele país e por ação direta do governo. A mortandade não está maior pq milhões já fugiram pra Colômbia, Brasil, resto da América Latina e até Espanha e EUA, esses últimos apenas a classe média, os mais pobres vieram para cá. Eu já tive aqui muito contato com Venezuelano e a situação lá não é de crise econômica, é de genocídio mesmo, além do aumento explosivo dos crimes (simplesmente não tem mais polícia lá, nada, zero), a polícia de lá agora só serve ao governo, não serve mais aos populares. Em Caracas quem pode andar armado, anda, a cidade virou uma zona de guerra urbana. Os hospitais estão parados. De resto é só fome e o comércio fechado, praticamente todas as lojas fecharam. Então veja quantas pessoas estão morrendo todos os dias de fome, doenças comuns, bandidagem solta, milícias do governo assassinanto dissidentes e opositores diariamente e todo o colapso social restante.

    Agora quando essa caixa preta for revelada o mundo vai ver o que está acontecendo lá.

    A comparação com o vizinho é simples e mostra a nossa passividade ou inação frente ao terror.

    Na Coréia do Norte existem campos de concentração até hoje, bem semelhantes aos nazistas, e a humanidade tolera. Eu não quis afirmar que valido toda e qualquer ação externa em algum país em grande crise ou sem direitos humanos algum, como é o caso de Cuba, Venezuela, Sudão e Coréia do Norte, nesse momento, só questionei se a humanidade está acertando mesmo em ser tão omissa.

    Abraço!

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    1. Olá, Frugal.
      Sobre a Venezuela não posso opinar se o que aparece não é nem 10% do que ocorre. O que se sabe é que uma crise econômica enorme se abateu sobre um governo despótico que já passou da hora de cair.
      Genocídio é quando uma etnia tenta eliminar outra etnia deliberadamente, e isso está longe, ao menos o que tudo indica, de estar acontecendo na Venezuela.
      Sim, amigo, quando crises econômicas enormes se abatem sobre lugares as pessoas fogem do país mesmo. Porém, refugiados vindo da Venezuela em nada se assemelham a refugiados vindo do confronto da Síria. Já conversamos diversas vezes no whatsapp meu amigo sobre a necessidade de se atentar as nuances, e sobre o perigo do viés de confirmação.

      Meu amigo, Venezuela, Cuba, Sudão e Coréia do Norte são em tudo diferentes, e é difícil fizer que não existem nenhum direito humano respeitado em Cuba, por exemplo. Há uma diferença gigantesca em dizer que cubanos morando na ilha não gozam das liberdades de um americano e que o governo é autoritário, e dizer que nenhum direito humano é respeitado nesse país. Mais sobriedade e racionalidade e menos passionalidade, meu amigo.

      Frugal, pessoas mais competentes do que eu eu você, ao menos nesse assunto, passam ou passaram anos refletindo sobre o que se deve ou não fazer, sobre custos ou não de intervenções humanitárias. Eu acho que a ONU deveria ter um braço armado bem equipado e poderia intervir pontualmente em situações de grave crise humanitária, mas algumas pessoas hoje em dia chamam isso de globalismo ou sei lá mais o que. Porém, intervenções para derrubar regimes, ainda mais quando há interesses políticos e financeiros por trás, essas costumam gerar efeitos de segunda e terceira ordem.
      Enquanto você realmente não parar e refletir sobre o que aconteceu na Líbia, Iraque, etc, creio que está perdendo uma ótima oportunidade de aprendizado.

      Um abraço!

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  13. Nossa, bem interessante.
    Eu sempre achei isso tudo muito óbvio!! Juro!! E nunca li Taleb (não o li ainda, pois Antifrágil está aqui na minha pratelereira aguardando a sua vez na fila atrás de outros).


    Veja... na tentativa de engrandecer nosso raciocínio, eu complemento o seguinte sobre o que ele afirma em relação a “evitar ao máximo intereferências externas” e confronto-o com o seu próprio conceito no que tange aos problemas de segunda e terceira ordens.

    Foi dito o seguinte no texto: “Num primeiro momento, o efeito de primeira ordem (controle da inflação) pode acontecer, mas a interferência (congelamento de preços) pode ocasionar uma pletora de consequências imprevisíveis.”

    Logo depois temos a conclusão seguinte: “Portanto, a melhor coisa a se fazer em sistemas complexos é deixar eles mesmos se auto-regularem e evitar ao máximo interferências externas.”


    O que temos quando falamos em "deixar o sistema , como o próprio mercado, por exemplo, se auto-regular" é o seguinte:
    Efeito imediato de primeira ordem esperado na teoria: aumento de concorrência com melhor preço de serviço e melhor produto oferecidos ao consumidor.
    Temos um porém: a concorrência gera cansaço desnecessário no empresário e ele prefere negociar uma fusão para se tornar maior, formar um cartel/oligopólio ou engolir o concorrente, comprando-o. Tudo tão somente para manter sua margem alta.
    Portanto, há um problema de segunda ordem aqui: a concorrência nesse sistema complexo que se auto-regulou existe apenas de forma simulada e o consumidor se vê obrigado a aceitar o preço maior oferecido pelo dono do capital.

    Desregulamentando toda relação do mercado, por exemplo, e leis "que atrapalham (nossa interferência externa)" o empresário, com a legislação trabalhista, vamos ter uma facilidade para dispensar funcionários (esse é somente um dos efeitos).

    Esi que surge uma consequência antes imprevista, que podemos, pelo texto, denominar de problema de terceira ordem: chega o ponto em que subliminarmente o dono do capital, com a faca no pescoço do trabalhador, pergunta-lhe: "Você prefere ser demitido ou ganhar 50% menos?" E o trabalhador se vê obrigado, em meio a tantas contas a pagar, a responder "eu prefiro ganhar menos". Bingo! Conseguimos o que nós queríamos! Forçamos uma pessoa à se tornar uma prisioneira. Ela nunca terá escolha! Aumentamos nossa margem de lucro, damos uma migalha ao cidadão dizendo “ou é isso ou nada” e ficamos no domínio da situação, para sempre.

    Assim, a teoria boa de que invadir a Líbia por exemplo a tornaria melhor também serve a qualquer sistema, como esse do “libertarianismo”, que fala em deixar o sistema se auto-regular.
    A teoria do libertarianismo de que tudo se "autorregulará" é muito boa e com um marketing muito bem feito, enganando os menos atenciosos quanto aos “efeitos imprevisíveis”, esses de segunda e terceira ordens.

    Entretanto, a autorregulação e esse libertarianismo (ausência de interferência) tem também efeitos de inúmeras ordens imprevisíveis, possíveis de perceberem somente 15, 20 anos depois. E o final não é nada bom.

    É bonita a ideia, eu sei. E confesso que até dado momento eu mesmo já me seduzi por ela. Mas a verdade é que há muito mais um marketing fake do que realidade aplicada. Basta refletir um pouco mais profundamente e veremos.

    Entendeu o raciocínio? O que você acha desse ponto de vista? Taleb defende o libertarianismo mas não assume que aqui também haveria efeitos imprevisíveis de tantas ordens?
    Espero que eu tenha conseguido me expressar naquilo que eu pretendia dizer..
    Tentei ser sucinto para não ir longe demais


    Abraço

    Capitalista extremista.

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    1. Olá, colega.
      Meu amigo, seu texto será melhor endereçado num forum de discussão do Instituto Mises Brasil. Lá com certeza terão muitas respostas sobre os seus questionamentos.
      Sobre a minha opinião, eu em nenhum momento disse que concordo ou discordo com o Taleb nesse ponto. Aliás, não sei nem se tenho competência técnica para tanto.
      Agora, o ponto dele sobre interferências externas em um sistema tão complexo como é a geopolítica do oriente médio e o monte de efeitos inesperados, quase sempre negativos, que ocorrem algo com o qual eu concordo, até porque temos muitos exemplos históricos recentes.

      Um abs!

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    2. Consequências sempre haverá, fazendo ou não fazendo nada.
      Talvez, se os USA não tivessem matado o general, este poderia criar um conflito contra os americanos somente para poder assumir o poder no Irã. Você mesmo disse que ele é admirado por lá, imagina que belo pretexto isso não daria?
      A omissão dos bons é que faz crescer o mal.
      Esse general agora, poderá realizar um belo trabalho ao lado do Capeta.

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    3. Olá, colega. Sim, com certeza a omissão e nada fazer também é uma decisão, sem dúvidas.
      O general tentar assumir o poder na república islâmica do Irã? Parece-me uma hipótese que seria extremamente improvável, mas vai saber né.
      Um abs!

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  14. Caro Soulsurfer, obrigado pela atenção.

    Como você citou no texto uma situação de interferência na economia (controle da inflação) eu quis apresentar um ponto de vista a você, de quem eu gosto muito da forma de pensar e se expressar. E não ao Instituto Mises Brasil, que não me responderia ou o faria já de forma enviesada pela conveniência.

    Se a melhor coisa a se fazer em sistemas complexos é deixar eles mesmos se auto-regularem, não poderíamos ter algum efeito de terceira ordem imprevísivel com essa situação?

    Eu esperei ansiosamente que você respondesse o comentário refletindo sobre o assunto. Talvez eu não tenha me expressado muito bem e me desculpe pelos erros de português.

    De toda forma, muito obrigado pela atenção.

    Abraços!

    (em nenhum momento eu não afirmei que você concorda ou não com o Taleb - se assim pareceu, mil desculpas)

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    1. Colega, claro você pediu o meu posicionamento. Apenas enderecei ao IMB, pois lá esse tipo de pergunta é recorrente, e eles oferecem respostas. Eu não sou tão bem versado em economia como alguns dos participantes daquele espaço em específico.
      Se eu creio que a economia, um sistema complexo, deixado por si só pode ocasionar problemas, eu tendo a pensar que sim, por isso não sou anarcocapitalista, não penso que tributo é roubo e creio que os exemplos mais bem sucedidos de sociedades com bem-estar humano são dos países nórdicos + austrália e nova zelândia que possuem inúmeros serviços prestados pelo Estado. Também acredito que algumas áreas precisam ser reguladas como energia nuclear, por exemplo.
      Porém, eu acredito que em boa parte das questões, é melhor deixar os empreendedores acharem soluções criativas para os problemas, todos tendem a sair ganhando com isso.

      Um abs!

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  15. Este atual episódio foi o "ganha-ganha" para ambos os lados.

    Para Trump, por duas razões : uma matar alguém que julgavam importante (o tal general) e outra por desviar o foco do impeachment e fazer a velha tática de achar um inimigo comum de toda nação, para surgir como o mocinho que salva a pátria e ganha pontos com a opinião pública. (muito conveniente em ano eleitoral).
    Já vimos essa tática sendo usada pelos vecinos argentinos na decada de 80 quando frente às fragilidades da economia do governo militar, resolveram bradar "Malvinas argentinas" e inventaram a guerra. A população logo se esqueceu das mazelas e apoiaram os milicos contra o inimigo comum, no caso os ingleses.


    Do lado do Irã : se perdeu o grande herói, o governante iraniano ganhou pontos com a população ao ameaçar a maior nação do mundo e ao enviar um ataque contra instalações da mesma. Ora, encarou com coragem os EUA!

    Na vero : atacou bem mais ou menos, não matou ninguém, e assim satisfez a gregos (americanos) e troianos (iranianos).

    Deveria parar por aí, MAS aquela de derrubar o avião comercial pegou mal. A população do Irã foi às ruas protestar contra a inicial negativa do governo que tivesse culpa. Vamos ver se ESTE EVENTO DO AVIAO (e não o do general) trará consequencias ruins para o governo local.

    PS : Para ser sincero nem duvidaria se o tal ataque do Irã contra as instalações americanas não foi orquestrado pelos dois países como uma saída honrosa do Irã e como um evento sem óbitos americanos!

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    1. Olá, Guardião!
      Grato pelo comentário.
      Pois é, vai saber o que realmente aconteceu e vai acontecer.
      Um grande abraço!
      obs: sim, imagine se fosse nos EUA, o governo derrubando uma aeronave comercial por engano. Imagino que em uma semana o governo inteiro colapsava.

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