segunda-feira, 4 de março de 2019

SÉRIE OTIMIZAÇÃO DE SAÚDE - A BALELA NUTRICIONAL - QUANDO A ASSOCIAÇÃO É DESMENTIDA POR UM EXPERIMENTO (CAFÉ DA MANHÃ)


            Se você não leu, e principalmente não entendeu corretamente, a diferença entre associação e causalidade em estudos científicos, sugiro a leitura do primeiro artigo dessa série. Neste artigo, iremos aprofundar um pouco mais a questão.

                Abaixo uma ilustração de como deveria funcionar a ciência:



                Alguém faz uma observação sobre algum acontecimento da natureza. Elabora-se uma hipótese, que em alguns casos pode ser lindamente formulada, para explicar o fenômeno observado. Uma hipótese, porém,  só pode ser considerada acertada se ela for testada empiricamente. A Teoria da Relatividade Geral de Einstein, por exemplo, só começou a ser aceita quando foi possível fazer um experimento para colocá-la a prova ( um desses experimentos, poucas pessoas sabem, foi feito no Ceará em 1919, se não me engano).  Isso vale para qualquer campo do conhecimento. Alguns campos são muito mais fáceis de se fazer experimentos, outros nem tanto (pense em experimentos sociais ou econômicos).

                Como experimentos devem ser feitos (e aqui vou começar a restringir o alcance para assuntos relacionados à medicina e a saúde em geral)? Tentando-se isolar variáveis. Imagine-se que alguém quer fazer um experimento para testar um tratamento em relação ao câncer. Separam-se aleatoriamente um número razoável de pessoas que possuem câncer em dois grupos. Num deles, o grupo controle, nada se faz de diferente. No outro, o grupo experimental, se fornece seis drogas quimioterápicas, radiação, mudança de alimentação, contato com animais e doses diárias de vídeos de “filosofia” do Olavo de Carvalho.

                No final de um determinado tempo, vê-se que o tratamento deu certo. As pessoas do grupo experimental tiveram uma sobrevida média maior do que o grupo controle. Porém, o que se descobriu com esse tratamento? Rigorosamente, não muita coisa. Foram as seis drogas quimioterápicas que fizeram efeito, ou foram apenas quatro que tiveram um efeito real? Ou foi a radiação junto com mudança de alimentação? Será que foram os vídeos de “filosofia” do Olavo de Carvalho? Não se pode saber, pois não se isolou uma variável.  Sendo assim, esse não é um experimento errado, ou falho, ele apenas não agrega muito conhecimento na questão de melhoria de vida de pacientes de câncer, porque a única conclusão que se pode chegar é que um tratamento com seis drogas, que envolve radiação, uma mudança de alimentação, contato com animais no sentido literal e figurado é melhor do que tratamento nenhum.

                Esse exemplo serve apenas para demonstrar que um experimento pode ser bem conduzido ou não, e acreditem, prezados leitores, existem inúmeros experimentos que são extremamente mal conduzidos.

                Voltando ao nosso quadro inicial, tudo começa com uma observação e a geração de uma hipótese. Como dito no primeiro artigo dessa série, os estudos observacionais feitos em nutrição médica são baseados em questionários de freqüência alimentar. É mais ou menos assim que funciona: 1) um grupo grande de pessoas responde  um questionário, que em muitos casos envolve mais de uma centena de perguntas, no começo do estudo; 2) dependendo do estudo, esse questionário é repetido alguns anos depois; 3) depois de um determinado prazo procuram-se achar associações, e podem existir centenas delas, como quem come mais carne vermelha tem mais casos de câncer de cólon ou quem come mais frutas tem menos eventos cardíacos, por exemplo.  São chamados estudos observacionais, pois eles apenas observam o que ocorre na vida das pessoas, não há nenhuma interferência como num experimento.

                A própria metodologia desses estudos é absurdamente falha. Imagine responder um questionário de mais de 100 perguntas sobre o que você comeu nos últimos quatro anos (o que é o comum nesses estudos). A chance do que é reportado não corresponder à realidade é imensa. A coisa é tão grave que a mídia há alguns meses noticiou um estudo observacional que que dietas Low Carb encurtariam a vida em quatro anos.  Evidentemente, um estudo observacional não poderia provar que alguma coisa encurta a vida (que pressupõe uma relação causal), e as manchetes jornalísticas quase sempre estão erradas nesse ponto, mas para além disso o estudo parecia um queijo suíço de tantas falhas que ele continha. Porém, o ponto não é nem esse. Eu fui olhar o estudo em si, e nos anexos havia a informação, pela resposta das pessoas ao questionário, que o consumo médio diário de caloria era da ordem de 1.600 calorias.

                Meus prezados leitores, a média de consumo diário de um americano (foi um estudo com uma base de dados americana) é na ordem de 2.500 calorias diária. Sabe qual a chance da média de  um grupo de milhares de pessoas terem um consumo de 1.600 calorias diárias nos EUA? Próximo de zero. É óbvio e evidente que as pessoas reportaram muito menos do que efetivamente comiam, ou seja, a própria observação, a coleta de dados, foi falha.

                Mesmo que não existissem essas falhas gritantes, um estudo observacional apenas “observa”, ele apenas levanta hipóteses que devem ser testadas em experimentos. Entender isso é fundamental para compreender o estado de saúde atual do mundo. Sério. É essa ordem de magnitude de importância.

                "Por qual motivo, Soul?" Muitas pessoas ficam confusas sobre as recomendações do que é saudável ou não comer. Elas são levadas a crer que a evidência científica está mudando a toda hora, mas isso não é verdade, aliás está muito longe de ser verdade. O que de fato, infelizmente, ocorreu, e ainda ocorre, é que a esmagadora maioria das recomendações nutricionais foi baseada em evidência científica fraca, isso quando havia qualquer evidência científica para respaldar uma recomendação.

                Repito novamente que entender isso é fundamental para entender a crise de saúde que nos encontramos atualmente. Talvez isso seja (talvez não com certeza o é,) muito mais importante do que terrorismo, reformas da previdência, investimentos, etc.

                Digo isso, pois um comentário feito no primeiro artigo sobre o tema demonstra bem a total confusão que nos colocamos ao basear recomendações de saúde em evidências fraquíssimas (estudos observacionais com falhas metodológicas e um inúmero imenso de variáveis de confusão). Esse foi parte do comentário:



"E aqui não me refiro às variáveis ocultas como no caso do tubarão e do sorvete, mas de teses cientificamente defensáveis, por exemplo: a produção de hidrocarbonetos aromáticos no preparo de carnes, bem como as altas concentrações de ferro na carne vermelha. 


Isso, obviamente, não comprova o nexo causal entre o consumo de carne e o CCR. Contudo, estamos falando de uma relação não necessariamente causal que justificaria a diretriz atual que manda restringir o consumo da carne vermelha, ao contrário do caso tubarão e sorvete, na qual o calor apresenta-se como uma variável independente. "


                Pela terceira vez reitero que esse ponto é fundamental. O colega no comentário disse que realmente não há nenhum estudo experimental comprovando que o consumo de carne vermelha causa um aumento nos casos de câncer de cólon. Porém, ao contrário do exemplo dado de mera associação entre sorvetes e tubarão (ler o primeiro artigo da série para entender), haveria mecanismos científicos que poderiam explicar o motivo do consumo de carne levar ao aumento dos casos de câncer: a produção de hidrocarbonetos aromáticos, principalmente quando se torra a carne e a alta concentração de ferro (imagino que ele esteja se referindo ao ferro heme que é muito mais facilmente absorvido pelo nosso organismo) presente na carne vermelha.

                Até essa parte estou 100% de acordo. Num futuro artigo irei falar especificamente sobre um marcador de ferro chamado ferritina, e como os níveis laboratoriais estão longe de ser otimizados, e uma forma simples de ter níveis ótimos de ferritina no sangue. Pode ser que realmente o consumo de carne vermelha que possui uma espécie de ferro altamente absorvível no organismo humano de alguma maneira, por algum mecanismo, contribua para o aumento dos casos de câncer. É uma hipótese a se considerar sem dúvida.

                Porém, no parágrafo seguinte, vem o salto de fé, o “salto epistemológico” que provavelmente causou muito mais danos e sofrimento humano do que o nazismo, socialismo e fascismo combinados.  O salto é esse : “Contudo, estamos falando de uma relação não necessariamente causal que justificaria a diretriz atual que manda restringir o consumo da carne vermelha

            Já viram o fabuloso filme “Bastardos Inglórios”? Se sim, vão lembrar que há uma cena do Hitler dizendo “Nein, Nein, Nein!”. Seria minha resposta ao prezado leitor “Não, Não, não e mais uma centena de nãos!”. Não!

                Percebam prezados leitores, passamos de uma observação que carne vermelha estaria associada a um aumento do câncer de cólon, para uma hipótese de porque isso poderia ocorrer (presença de ferro heme) por algum mecanismo biológico, para uma recomendação de autoridades governamentais ou não, sobre restrição do consumo de carne.  Isso está flagrantemente errado. E, infelizmente, foi isso que fizeram na década de 70, resolveram mudar a forma como as pessoas se alimentavam, fazendo recomendações nutricionais baseadas em estudos que apenas mostravam associações, sem que houvesse qualquer experimento científico. Na verdade, houve um grande experimento científico em toda população, e as taxas de obesidade, doenças crônicas, e piora na qualidade de vida mostram que esse experimento falhou miseravelmente.

                Mas, Soul, qual é o mal inerentemente nisso?” O problema, amigo leitor, é que em nutrição se alguma coisa é retirada outra deve ser adicionada. Se a gordura é retirada dos alimentos, alguma coisa precisa ser adicionada em troca, e não é à toa que a “gordurofobia” que nasceu desse salto epistemológico entre uma hipótese para uma recomendação fez com que o consumo de açúcar e de produtos industrializados disparasse.

                As recomendações nutricionais nunca foram embasadas em evidências científicas sólidas, portanto, prezados leitores, não é que a ciência fica toda hora dizendo uma coisa, não, foi o uso político de estudos observacionais, muitos deles mal feitos, que criou essa confusão toda em que nos metemos enquanto sociedade.    

                Encaminho-me para o final desse artigo dando um exemplo concreto (e há inúmeros outros). Uma meta-análise é um estudo científico que procura agrupar outros estudos científicos, fazendo a análise dos mesmos. Imagine que existam 10 estudos observacionais sobre o efeito que não comer café da manhã possui sobre o ganho ou perda de peso. Uma meta-análise desses estudos vai pegar todos os dados dessas pesquisas, e por meio de métodos estatísticos, chegar a uma conclusão sobre o que esses dez estudos concluíram.

                Quem nunca ouviu? “É preciso tomar café da manhã, menino!” Quantas vezes não ouvi isso de minha mãe. Ou quando uma nutricionista é entrevistada “sim, o café da manhã e a refeição mais importante do dia, não se pode pular de jeito nenhum”. Um médico falou essa pérola para a minha mulher antes dela engravidar. É óbvio, é conhecimento comum, é como “coma fibras para melhorar sua função intestinal” (obs: não há provas que isso seja verdadeiro), ou frutas para ser saudável.

                Imagina até um profissional de saúde citando a conclusão desse  estudo do ano de 2011 (uma meta-análise de estudos observacionais sobre o tema):
               
                This meta-analysis suggests that a positive association between skipping breakfast and overweight and obesity is globally observed regardless of cultural diversity among countries. Promoting the eating of breakfast in all populations may be beneficial.
(Essa meta-análise sugere que uma associação positiva entre pular o café da manhã e sobrepeso e obesidade é globalmente observada, independente da diversidade cultural entre países. Promover o consumo de café da manhã em todas as populações pode ser benéfico


                Uau. Potente, uma meta-análise dizendo isso. Porém, é apenas uma hipótese que não comer café da manhã causa um ganho de peso e obesidade. E os cientistas testaram essa hipótese. Será que essa associação se mostrou verdadeira? 

     O maior nível de evidência científica é uma meta-análise entre experimentos clínicos. Foram ao longo dos anos realizados diversos experimentos. Ou seja, a um grupo aleatoriamente divido pedia para não se comer café da manhã (grupo experimental) e a outro pedia para se comer café da manhã normalmente. Essa meta-análise do ano de 2019 pegou 13 experimentos desse tipo, não dois ou três, mas treze experimentos controlados. O resultado?


Conclusion This study suggests that the addition of breakfast might not be a good strategy for weight loss, regardless of established breakfast habit. Caution is needed when recommending breakfast for weight loss in adults, as it could have the opposite effect. Further randomised controlled trials of high quality are needed to examine the role of breakfast eating in the approach to weight management.
(Conclusão: Esse estudo sugere que a adição de café da manhã pode não ser uma boa estratégia para a perda de peso, independentemente do hábito estabelecido de comer café da manhã. Cautela é necessária quando recomendado café da manhã para a perda de peso em adultos, já que isso poderia ter o efeito oposto. Mais experimentos ramdomizados de alta qualidade são necessários para examinar o papel de comer café da manhã no manejo do controle de peso)


                Auch! Mas é o oposto do que a meta-análise dos estudos observacionais de 2011 concluiu. Não é algo como um pouco diferente, é literalmente o oposto. A hipótese de que não comer café da manhã causa ganho de peso não é só falsa, como aparentemente é o oposto que ocorre (quem não toma café da manhã tende a perder peso).

      Vejam, não é que a ciência mudou em relação a hipótese de se comer ou não café da manhã para fins de perda de peso. Não. Nunca existiu a evidência científica robusta sobre a hipótese. O que existia era apenas uma hipótese que se mostrou falsa, independentemente do que o seu nutricionista ache ou pense.

                Entenderam prezados leitores o perigo de se fazer recomendações baseado em evidências fragilíssimas? O mal que isso não pode ocasionar? Foi exatamente o que ocorreu com nossas sociedades nos últimos 40 anos. O mais incrível é que você continuará ouvindo de profissionais de saúde que é “loucura pular o café da manhã”.  Você pode até argumentar "mas e a meta-análise de 2019 sobre experimentos controlados que concluiu o oposto?" E é possível que o profissional dê de ombros, e não entenda nem mesmo a diferença entre uma associação e uma relação causal, e mantenha-se na afirmação errônea sobre café da manhã.

                É isso, colegas. Esse artigo junto com o primeiro, e mais um que produzirei sobre riscos relativos e absolutos já serão uma boa base para se navegar sobre o arsenal de bobagens que são ditas por aí.

                Um abraço!

24 comentários:

  1. Bom dia soul, o link para a meta-analise de 2019 está incorreto. Corrige aí.

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  2. Soul,

    Acho essa série excelente e algo que deve continuar. Há alguns meses, eu pensei em sugerir exatamente que você passasse a pesquisar sobre níveis de evidência e MBE quando você iniciou a sua busca por mais saúde.

    Gostaria de adicionar alguns pontos. Apesar de ser uma meta-análise de RCTs, ela de fato ainda não é tão forte como você deve ter percebido. O pool total agregado foi baixo. Os estudos tinham alto risco de viés. E por fim, parecem ter sido feitos com populações "especiais". Não li completamente essa revisão, mas foram aceitos pessoas com sobrepeso e obesidade, uma população diferenciada. Uma mesma intervenção pode ser positiva para a população em geral e negativa para um subgrupo. Por exemplo, exercício físico para população geral e cardiopatas (a partir de um certo nível).

    Logo, de fato, mesmo com essa meta-análise ainda não é algo que está sacramentado.

    Há algo que você não disse, mas que pode ser mal interpretado. Plausibilidade biológica não é algo que deve ser completamente descartado, como você deve bem saber tendo citado os postulados de Hill. De fato, é apenas um start de uma hipótese geralmente, mas as vezes é a única coisa que temos. E, assim, é comum na medicina recomendar algo apenas por plausibilidade biológica, mesmo sem evidências, em especial, quando não há evidências de meleficência. A medicina é um ramo que depende bem mais da indução do que da dedução e portanto necessita de tempo para condução de tais estudos. Infelizmente, há enfermos todos os dias morrendo e sofrendo, acaba sendo imperativo usar algo que ainda não teve uma meta-análise na cochrane com RCT quádruplo-cego.

    Sou médico e uma das partes que mais gosto é exatamente a MBE, mesmo aos pacientes leigos, explico de forma sumária VPP, VPN, sensibilidade, especificidade, likelihood ratio... com o objetivo de que se eduquem. Portanto, os pontos que adicionei acima não são, de forma alguma, para argumentar contra a necessidade da difusão desse conhecimento.

    PS: lembrei-me ao terminar de escrever que há agora um pequeno movimento chamado Science Based Medicine, a explanação seria longa e basicamente posso dizer que discordo da necessidade desse movimento, mas uma frase de um de seus defensores sumariza bem o adendo que tentei fazer: "para os defensores da MBE, não como saber se furar o olho com um lápis causa cegueira ou cura o câncer, pois não revisões sistemáticas".

    PS2: friso novamente, que em um espectro dicotômico, estamos em um ponto que certamente necessitamos de mais apreço por evidências. Entretanto é importante ficar atento para que não ultrapassemos o para o outro lado.

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    1. Max, primeiramente obrigado pelo instrutivo comentário.
      a) Sim, a meta-análise de RCT diz claramente que ela possui limitações, mas isso qualquer estudo que se preze deve dizer.
      b) Você está absolutamente certo que estudos podem selecionar pessoas que representam apenas um subgrupo de uma população geral, e não necessariamente os resultados desse subgrupo se aplicam necessariamente à população geral. Isso é um grande problema, realmente.
      c) Porém, em que pese essas limitações, o simples fato é que no caso específico do café da manhã, o "burden of proof" está com quem diz o contrário da referida meta-análise, e é apenas um exemplo a mais de quando a epidemiologia nutricional colide com ensaios clínicos.
      d) Claro, plausibilidade biológica é um dos critérios de Hill. Concordo plenamente. Quem vai bancar um RCT bem-feito e controlado para testar a hipótese se o consumo de carne vermelha aumenta a incidência de câncer de cólon? É difícil mesmo. Porém, quando se faz recomendações baseado apenas em estudos observacionais e uma pretensa probabilidade biológica, nos colocamos em problemas, principalmente se são recomendações nutricionais. Veja o caso de radiação e exames de TC, por exemplo. Eu, por imperícia médica, fui submetido a 4 TC de abdômen total para acompanhamento de um cisto na adrenal não funcionante. Submeti a esses exames no curso de 10 anos, e faz 9 anos que não faço um exame desses, pois o controle pode se dar por um simples US. Eu fui pesquisar um pouco mais a fundo, e vi que há uma grande discordância se a radiação de baixa intensidade realmente é cumulativa, ou se há um limite mínimo (e todos os exames de imagem estariam bem abaixo desse limite mínimo). Há plausibilidade biológica nos dois argumentos. Porém, mesmo não havendo um RCT para saber quem está certo, é prudente se recomendar que só se use TC com radiação para casos onde realmente se faz necessário esse exame.
      Porém, o caso de recomendações nutricionais é bem diferente. Recomenda, baseado-se em estudos observacionais a retirada da carne, por um pretenso mecanismo biológico, e não se atém que a carne é um dos alimentos mais densos nutricionalmente, e que boa parte das pessoas vai substituir simplesmente por amido e farináceos, por exemplo.
      e) Eu sei, colega. Comentários como o seu são muito apreciados nesse espaço, é o que enriquece o meu blog.

      Um abraço!


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  3. Não sei se você já conhece, mas recomendo muito sobre esse tema o blog
    http://medicinabaseadaemevidencias.blogspot.com/?m=1

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    1. Olá, colega.
      Conheço sim, mas mesmo assim obrigado.
      Um abs!

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  4. Parabéns pelo seu esforço em disseminar um pouco de conhecimento metodológico. Em um mundo onde ler ou escrever mais do que poucas linhas parece ser cada vez mais raro, o número de correlações espúrias difundidas como leis universais tendem a crescer e a causar danos igualmente crescentes.

    Uma dúvida sobre o seu artigo, não entendi que o artigo com a meta-análise sobre os estudos observacionais de 2011 concluiu que a recomendação do café da manhã leva ao ganho de peso, o que seria o oposto das conclusões dos estudos de 2011, mas sim que não é possível se chegar a conclusão nenhuma sem que novos estudos randomizados sejam realizados sobre a questão.

    Por fim, uma vez que é extremamente raro (isso se existir algum) haver estudos na área nutricional que atenda os critérios mínimos para que se comprove haver uma relação causal entre duas variáveis, qual metodologia e variáveis você utiliza para tomar suas decisões sobre hábitos alimentares?

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    1. Olá, Rafael.
      a) Pelo final. Acho que você quis dizer que a meta-análise de experimentos disse que seriam necessários mais e melhores experimentos. Isso é a forma quase que genérica que qualquer estudo termina: "achamos isso, mas sempre é bom realizar mais e melhores estudos sobre o assunto". O fato é que os experimentos tornaram a hipótese baseada em apenas estudos observacionais falsa. Se num futuro vier um grande experimento de longa duração mostrando que os experimentos anteriores não captaram bem o fenômeno biológico, aí poderia se voltar a dizer sobre café da manhã e perda ou ganho de peso. Porém, a chance disso ocorrer é diminuta, e a evidência atual é contrária a maioria das recomendações de nutricionistas.

      b) Sim, Rafael, o dano é crescente e enorme da difusão de conhecimentos equivocados.

      c) O colega médico acima ele foi no ponto. Apesar de eu não ser médico, e muito menos cientista, concordo com ele que não se pode esperar que haja RCT (ramdomized control trial) para tudo. Além do mais, o maior experimento para você é você mesmo. Se você me falar que comer morangos todos os dias melhora o seu humor, isso é anedótico para a ciência, mas para você é o único experimento que faz sentido. Costuma se brincar que esses experimentos são n=1 (ou seja você mesmo).
      Tudo é uma questão de tentativa e erro. Há questões óbvias nutricionais que deveriam ser adotadas por todos, mas há particularidades individuais. Há pessoas que são tolerantes a carboidratos, mas boa parte das pessoas não o são. Há pessoas que possuem determinados genes que o consumo de gordura saturada realmente pode aumentar e muito os níveis de colesterol. As variações são enormes.
      Irei escrever ainda bastante sobre isso.
      Um abraço!

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    2. Obrigado pelo retorno.

      Abraço!

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  5. Olá, como vai?
    Ótimo post! Como habitualmente.
    Além disso, recentemente foi doar sangue ou levar sua esposa para doar leite materno na Santa Casa?
    Abração e sucesso sempre!
    Marcos.

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    1. Olá, Marcos.
      Valeu, amigo.
      Abs!

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    2. PARTE 1 DE 3

      Olá, querido colega! Tudo bem?

      "Valeu, amigo."
      Veja, dizer "valeu" deu o mesmo trabalho que responder "sim" ou "não".

      É no mínimo curioso ver alguém, que gosta de comentários fundamentados em seus posts, não responde uma simples pergunta. Mas tens tal liberdade, claro, malgrado me aguça a curiosidade por não ter respondido.

      Ao não responder, percebe ter se tornado vítima da armadilha que elogiou no último post (falo sobre as "respostas absurdas").

      Seu texto aplica-se não só a "respostas absurdas", mas também com "perguntas inesperadas (ou absurdas para uns, talvez, não sei)".

      Isso porque quando você foi indagado sobre algo simples e sincero, mas que nada tinha a ver com seu post, você teve alguma reação qualquer, mas não foi capaz de responder 'sim' ou 'não', sequer. Disse apenas "valeu, amigo", o que demanda o mesmo esforço, senão menos.

      Vejamos, rapidamente.

      POST ANTERIOR: "Portanto, indivíduos, textos e ideias que desafiam o sistema 1 costumam ser muito mais “desconfortáveis” às pessoas."
      - A pergunta inesperada desafiou o "seu sistema 1" causando-lhe um desconforto. Certo é que confortável você não se sentiu, pois você não respondeu. Afinal, quem se nega a responder uma pergunta “confortável”? (Oras, porque não? - eu indago a mim).

      POST ANTERIOR: "Num ambiente mais sério, aberto e inteligente, o desafio às crenças arraigadas no sistema 1 costuma levar ao progresso (...)"
      - Num ambiente mais sério, espera-se que perguntas simples e sinceras sejam respondidas. Correto, ok?
      No caso, a analogia que se faz é que se eu tivesse encontrado você e perguntado-lhe "Por favor, que horas são agora, meu colega?" você não teria respondido. Isso sem levantar uma provável insensibilidade, indiferença ou falta de educação. Ou talvez o cansaço e/ou mal humor daquele dia, quem sabe?

      POST ANTERIOR: Em ambientes mais fechados, menos inteligentes e mais brutalizados, o desafio ao sistema 1 costuma ser acompanhado por um fechamento total do sistema 2 (...)
      - Veja, parece que foi defrontado com uma pergunta que não esperava (ou não gostou) e simplesmente "se fechou", indiferentemente, como certas pessoas “menos inteligentes, brutalizadas”.
      Se houvesse uma justificativa, claro, eu compreenderia. Exemplo: “Colega, se sim ou se não, é um assunto da minha vida e não irei responder!” Nesse caso, ok. Ponto final. Compreendido de maneira tranquila e racional! Mas aqui há uma justificativa, ainda que grosseira para uma pergunta tão singela.
      Destaco que jamais faria uma pergunta sobre sua vida se você nunca tivesse abordado-a em algum post em seu blog. Apenas por isso perguntei, ok? (Apenas explicando que a pergunta foi feita com respeito).

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    3. PARTE 2 DE 3


      POST ANTERIOR: "(...) e um enraizamento ainda mais forte das idéias, costumes, valores, pré-concebidos que vem à mente de forma automática.
      - Bom, pelo seu post, essas pessoas “fechadas no sistema 2" permanecem enraizadas em seus costumes e valores de modo que, mesmo essa pessoa não tendo a intenção, ela seguirá a sua vida fechada por muito tempo.
      O maior medo que sua resposta traz é o seguinte: essas pessoas só não permanecem enraizadas, mas com as raízes ainda mais forte das suas ideias.
      Lado outro, creio que concordamos em um ponto: é simplesmente uma pena essas pessoas se enraizarem, e ainda de maneira mais forte, às suas ideias pré-concebidas.

      POST ANTERIOR: "Infelizmente, o Brasil caminha a passos largos para a segunda situação."
      - Se há pessoas inteligentes e com bom sendo ainda no mundo, esperamos que cada uma delas faça a sua parte. Mas infelizmente algumas pessoas, ainda que “inteligentes e com bom senso”, apenas lamentam. Aliás, pessoas que não fazem a sua parte podem ser consideradas “inteligentes e com bom sendo”? (carinha de pensamento do Whatsapp).

      POSTA ANTERIOR: "Estamos adentrando numa era das trevas, onde a idiotia e maluquice se transformaram em atributos venerados, sendo a inteligência e o bom senso zombados."
      - Zombam até de uma simples pergunta como "que horas são?", o que dirá a inteligência e o bom senso...

      POST ANTERIOR: " Resta apenas torcer para que essa era desmiolada não dure tanto e os estragos não sejam tão profundos (...)"
      - Realmente algumas pessoas irão apenas torcer. Mas pessoas “inteligentes e com bom senso” sempre farão a sua parte. Seria muito ignóbil ficar “apenas torcendo”, não acha?

      POST ANTERIOR: “Deve ser muito difícil para algumas pessoas encaixarem tudo isso no sistema 1, e como o sistema 2 pode estar um pouco enferrujado, a dissonância é grande, assim como a reação emotiva.”
      - Interessante. Transmitindo esse parágrafo à pergunta feita e não respondida, eu reflito: “Será difícil para algumas pessoas (“do sistema 1”) responder uma simples e sincera pergunta (feita por alguém “do sistema 2”)? Bom, talvez sim! De repente, quem sabe, essa pessoa pode estar um pouco enferrujada e a dissonância foi grande, assim como a reação emotiva”.

      Aliás, se algumas pessoas não respondem uma simples e sincera pergunta, o que diremos quando adentrarmos em questionamentos religiosos, políticos, filosóficos, humanos e econômicos?

      Então imagine o cenário: se uma simples pergunta como “quanto são 2+2?”, “que horas são?”, “doou sangue recentemente?” é capaz de causar desconforto a alguém, projete perguntas complexas em assuntos onde cada um tem a sua razão e o seu próprio interesse por trás dessa razão. Pronto. O conflito está criado, pois a diferença de desconforto é abissal.

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    4. Parte 3 – fim

      Mas, como você disse, atualmente vivemos em uma maluquice, que chegou a níveis que impensáveis.

      Para finalizar, além de manter a pergunta anterior, agora eu perguntaria: “Porque não quis responder meu caro?”

      Evidentemente, eu não me espantaria se não houvesse resposta. É que pessoas do sistema 2 não agem com equilíbrio, inteligência e bom senso com perguntas inesperadas e se acham atacadas. Por isso não respondem.

      Elas tem tal liberdade, claro.

      Abraço e sucesso sempre!

      Marcos.

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    5. Nossa, ter uma resposta minha e um texto analisados assim é motivo de lisonjeio. Parece que você realmente foi impactado pelos textos.
      Veja, colega, como saber se a pessoa, que escreve no anonimato, está de boa ou má-fé. O texto, esse que você escreveu três longas mensagens, diz respeito a análise de estudos científicos e como diferenciar estudos associativos de estudos que podem apontar causa e efeito. Foi só sobre isso.
      Aí vem uma pergunta sobre se eu doei sangue ou se minha mulher foi doar leite no banco de leite, evidentemente a pergunta não foi feita de boa-fé, o que é muito normal, você, o marcos, ou quem quer que tenha perguntado isso, jamais faria uma pergunta dessa pessoalmente. Se a pessoa não tem coragem de fazer uma pergunta olhando diretamente, pois completamente descabida, mas apenas pelo anonimato da internet, é um indício de que realmente não devo dedicar o meu tempo a uma resposta, pois o que eu responder é indiferente, a pessoa não quer saber e ainda se esconde no anonimato.
      Imagina uma palestra sobre o tema que eu escrevi e alguém pergunta se a mulher do palestrante foi doar leite? Consegue imaginar? Eu não consigo, esse é um dos problemas de interações virtuais.
      Sobre a pergunta em si, eu doar sangue ou não. Algumas pessoas, talvez a mesma ou não, já me perguntaram isso diversas vezes nesse espaço, como numa tentativa de dizer “olha, você escreve para ter mais empatia, mas não doa sangue, goctha ya!”. Realmente precisa “desenhar” para ver como essa postura é medíocre? E sim, eu respondi umas 3 vezes que doar sangue é uma forma segura de abaixar os níveis de ferritinina para patamares ótimos, e a pessoa ainda pode ajudar outras pessoas. É uma situação ganha-ganha. Então, eu disse que apesar de ser uma situação ganha-ganha eu ainda não tinha doado sangue, mas tinha vontade. Ficar respondendo essa pergunta de sangue post sim, post não, é cansativo e chato.
      Logo, a sua longa peroração não tem nem sentido, pois construída sobre um falso argumento (sofisticamente equiparando uma pergunta banal “que horas são” com uma pergunta que já me foi feita diversas vezes, por pessoas anônimas que não tem qualquer interesse na resposta, e que eu já respondi diversas vezes, apesar de saber disso).
      Sim, colega, eu sei bem que posso entrar num loop infinito contigo aqui, e como diz o Sam Harris, isso não vai me trazer absolutamente nada positivo, além do mais que do outro lado há alguém realmente conversando e se expondo, e de outro há uma pessoa de forma anônima (o Sam Harris falava de discussões assim entre duas pessoas conhecidas, e a perda de tempo que isso provoca, se um dos interlocutores não está realmente interessado nas respostas dos outros, imagina então com um anônimo como o seu caso).
      Um abraço!

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  6. Interessante. Outra variável são as características únicas de cada um, então mesmo que um verdadeiro experimento traga uma forte evidência, é possível que não funcione para determinada pessoa.

    O ideal é cada um se automonitorar e ver o que funciona para si. Neste ponto discordo da afirmação de que os problemas de obesidade e saúde atuais são resultados de escolhas políticas ou coletivas baseadas em estudos ruins/não científicos, na verdade temos sim escolhas individuais que fomentam o desenvolvimento do mercado em determinado sentido, entretanto opções diferentes estão disponíveis.

    Sempre que como Mcdonalds ou Burguer king sinto como se tivesse levado um soco no estômago, por isso como um lanche desse no máximo 1 vez a cada 5 anos, todos sabem que aquilo faz mal, simplesmente pq não pode fazer bem, um lanche pequeno com um sabor artificial, uma quantidade inacreditável de calorias e sódio, além de nada de nutrientes... entretanto as filas nesses lugares são enormes, as pessoas na maioria esmagadora não estão nem aí para os estudos, a grande verdade é essa!

    Tudo se resume a sabor, preço, popularidade, propaganda, facilidade, quem se preocupa com a saúde de forma minimamente racional costuma tem uma saúde boa. Porém as pessoas não estão nem aí, fumam, usam drogas, não se exercitam, transam sem camisinha, bebem pra caramba, andam em alta velocidade, e tudo isso as "pesquisas" condenam.

    "contato com animais no sentido literal e figurado é melhor do que tratamento nenhum". hahahaha... boa.

    Valeu pelo artigo, abraço!

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    1. Olá, colega.
      -Com certeza, cada pessoa é um organismo único. Os estudos com certeza não conseguem captar a individualidade de cada ser.
      - Claro, amigo. Com certeza a escolha individual é importantíssima. Porém, raciocine comigo, eu mesmo achava que excesso de gordura fazia mal, que o pão integral era realmente integral, e que o óleo vegetal de soja não era uma mostruosidade química.
      Muitas dessas crenças foram sim encucadas na população baseadas em evidências fracas ou nenhuma evidência, o que com certeza estimulou comportamentos alimentares na população e nas próprias empresas.

      Porém, você tem razão, que muitas pessoas possuem um comportamento não alinhado com uma saúde ótima, seja por conveniência, vício, preço, propaganda, etc.

      Um abraço!

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  7. Massa a postagem! Parece que estou no blog do Dr Souto hahahaha

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    1. Olá, colega.
      Poxa, senti me lisonjeado ao ser comparado com o brilhante Dr. Souto.
      Abs

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  8. Muito bom esse seu texto, Soul! Realmente, parece que a ciência está "mudando" a toda hora com suas sugestões nutricionais, mas com certeza a falta de provas científicas é que induziam às asneiras. Quanto tempo não ouvimos que comer a gema do ovo causa aumento do colesterol ruim? Anos e anos pra isso ser desmistificado...

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    1. Olá, Leo.
      Primeiramente, não existe "colesterol ruim", todo o colesterol é rigorosamente o mesmo.
      O que as pessoas falam dizem respeito a lipoproteína que teoricamente seria ruim (LDL) que transporta o colesterol já que ele é hidrofóbico e não pode circular livremente no plasma.
      Sobre o consumo exógeno de colesterol aumentar a concentração sérica de colesterol, há muito (desde a década de 50) se sabe que o colesterol da dieta tem pouco impacto no colesterol sérico.
      Porém, há o que se chama os Hyper-responders que o colesterol na dieta realmente faz aumentar o colesterol no plasma, mas é a minoria das pessoas.
      Um abraço!

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  9. Já saiu outro estudo sugerindo que pular o café da manhã pode aumentar as chances de morte cardiovascular:

    http://www.onlinejacc.org/content/73/16/2025

    Esse povo é louco e não faz a menor ideia do que estão fazendo.

    O ramo da nutrição é onde o método científico é mais vilipendiado.

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    1. Olá, colega.
      É um estudo observacional epidemiológico com todos os problemas associados.
      Há ensaios clínicos sobre o tema, logo não faz sentido dar peso de evidência para um estudo associativo quando há uma meta-análise de ensaios clínicos.
      Abs!

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  10. SOul, estou com saudades dos seus textos. Volte logo. Abraço!

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