quarta-feira, 22 de março de 2017

UM TEATRO TRAGICÔMICO

Dois Revoltados, Um Parvo, Um Sábio e um Burro Falante

Revoltado: São todos uns vermes! Idiotas!

Revoltado 2: O que aconteceu, colega?

Revoltado :Você não acredita! Estava lendo sobre a história de um homem e uma mulher que diziam levar uma vida feliz, diziam que achavam satisfação para coisas além do dinheiro!

Revoltado 2: Haha, que piada.

Revoltado: Comunistas idiotas, isso sim! Debocham da família, da religião cristã, não passam de parasitas esquerdistas imundos.

Parvo: Comunismo? Comunismo???? A América é o maior país de todos!

Burro: Existe um país chamado América? Pensei que fosse um continente, melhor dizendo três continentes…

Parvo: (…)

Sábio: Essa cultura da satisfação hoje em dia, nada mais é do que um cliché que mostra quão irracionais estão as nossas crenças. Idiotas que são basicamente guiados pela mensagem de Hollywood, e…

Parvo: Hollywood? Hollywood??? Hollywood! A América é o maior país de todos!

Sábio: Como ia dizendo, essa cultura plastificada vinda de Hollywood transforma o populacho em zumbis. Emoção, ora o que isso significa? Nada! O que importa é a nossa racionalidade, nossos modelos baseados em métodos estatísticos de fazer escolhas para tudo na vida, e…

Burro: Ó Grande Sábio, você escolheu a sua mulher usando métodos estatísticos pesando os prós e contras?

Sábio: Primeiramente, você é um burro, como ousa me interromper? Em segundo lugar, eu não tenho mulher, pois os algoritmos colocados na modelagem para a escolha de uma mulher levaram-me a…

Burro: Ah, Entendi. E Parvo você parece aquela história de “quatro é bom dois é ruim”.

Parvo: O quê?

Burro: Orwell.

Parvo: Hã?

Burro: Deixa para lá.


O Homem é avistado


Revoltado: Que audácia! Olhe o sujeito de quem eu estava falando!

Revoltado 2: Idiota, olha só para ele, dá para ver que é um arrematado imbecil!

Burro: Esses adjetivos proferidos a um homem que nem conhecem são condizentes com os ideais cristãos de respeito ao próximo?

Revoltados em coro: Cale a Boca Burro!!

Sábio: Burro, seu animal insolente. Como pode trazer o cristianismo para essa discussão? Você não sabe que…

Burro: Apenas quis saber se a ofensa gratuita faz parte dos ideais cristãos já que há poucos minutos eles disseram que o Homem que disse que havia satisfação para além do dinheiro era contra os valores cristãos.

Sábio: Seu Burro! Pare de me interromper! O Cristianismo é baseado no cálculo de variáveis complexas, fazendo assim a construção de um código moral complexo onde as emoções tem um lugar secundário porque…

Burro: Não é atribuído ao Messias a ideia de que devemos Amar, ou menos tentar, Amar o próximo? O Amor não é uma emoção?

Sábio: Que Heresia!

Revoltado: Quanta bobagem! Além do mais, aquele sujeito é um comunista imundo, ateu portanto!

Parvo: Comunismo? Comunismo??? Comunismo! A América é o melhor país do mundo!

Burro: Ah, não.



O Homem entra no Recinto:


Revoltado: Seu idiota, esquerdista, comunista, maoísta!!!

Homem: Você me conhece? 

Revoltado2: Cínico!

Homem: O quê?

Revoltado: Dizer que pode haver mais satisfação na vida para além do dinheiro! Uma idiotia dita por um arrematado idiota!

Homem: Hum. Pense nos três momentos mais felizes da sua vida, algum deles envolveu dinheiro ou melhor dizendo muito dinheiro?

Revoltado: Não desvie de assunto! Conheço bem essas artimanhas sofistas!

Homem: Você sabe o que é um sofisma e quem eram os sofistas?

Revoltado: Não desvie de assunto!

Revoltado2: Você não tem vergonha de se posicionar contra a família, contra os valores cristãos, contra o capitalismo?

Homem: E quando eu fiz isso? Ei, você. É você que se diz sábio e defensor da razão, pode me dizer sobre o que esses senhores estão dizendo de uma forma clara, objetiva e racional?

Sábio: Os modelos estatísticos de regressão num sistema complexo fazem com que as variáveis sejam classificadas como intangíveis e…

Homem: Você poderia responder objetivamente ao meu questionamento?

Revoltado2: É um mal-educado mesmo! Além de esquerdista não respeita a opinião dos outros. 

Homem: Como?

Revoltado: É isso que ouviu!

Homem: Fiz algum mal a vocês?

Revoltado: Isso não vem ao caso. É por causa de pessoas como você que a sociedade é dividida entre parasitas e homens virtuosos.

Homem: Deixa eu adivinhar, vocês fazem parte do grupo dos homens virtuosos?

Revoltado2: É claro que sim!

Homem: Posso saber o motivo?

Sábio: Nós defendemos os valores familiares, cristãos e do capitalismo!

Homem: Posso saber por qual motivo vocês ficam repetindo capitalismo, comunismo a esmo?

(…)

Homem: Há algum grande pensador da história da humanidade que disse que a finalidade última de uma boa vida era o dinheiro em si?

Revoltado2: Sofista!

Homem: A afirmação de que há satisfação para além do dinheiro, de alguma maneira aquiesce ou vilipendia com algum sistema econômico como socialismo ou capitalismo?

(…)

Homem: Desde quando a ofensa gratuita pode ser associada com a defesa de valores familiares e cristãos? Não foi Cristo que passou a ideia de que deveríamos respeitar aos próximos, na célebre passagem da história de Madalena?

Burro: Eu já perguntei isso.

Revoltado, Revoltado2 e Sábio em coro: Que heresia!  Além do mais você é um comunista, ateu portanto. Como ousa falar sobre religião?

Parvo: Comunismo? Comunismo??? Comunismo! A América é o maior país do mundo!

Homem: ?


Burro: Here we go again…


Homem: Por incrível que pareça, num mundo de parvos, revoltados e sábios de araque, o fato de um burro falar não é o que mais me chama atenção.

quinta-feira, 16 de março de 2017

MINHA ALEGRIA AO RECEBER UM E-MAIL DE UM LEITOR

Olá, colegas. Depois de passar uma semana no belo estado do Mato Grosso, estava pensando em escrever sobre algumas experiências humanas interessantes que tive por lá. Porém, irei fazer um breve texto sobre um e-mail que recebi.

 Um colega que acompanhava o Blog me pediu há uns três anos se ele poderia me conhecer, já que estaria viajando do Rio de Janeiro para a cidade onde moro. Respondi que não teria problemas, e fiz alguns passeios juntos com ele e sua namorada. No final de semana que ele esteve por aqui, conversei bastante com o mesmo. 

 Ele era, e ainda o é, bastante jovem. Lembro-me de conversar sobre algumas questões bem profundas com ele enquanto saboreávamos uma das melhores pizzas do mundo. Ele tinha muitas dúvidas. Trabalhava numa empresa, fazia pequenos trades com ação, não sabia se queria uma Independência Financeira apenas daqui vários e vários anos, não sabia qual rumo queria dar a vida.

Todos esses questionamentos são normais para um jovem. São normais para mim que não sou tão jovem. E não deveriam ser anormais para quem é mais velho. No último artigo que escrevi, perguntaram-me o que eu tinha a dizer sobre a eleição da França. A minha resposta foi que eu não tinha muito o que dizer, pois sabia pouco ou nada sobre o assunto.

 Um leitor, então, de certo modo contrariado, disse que eu não teria posição em quase nada. Esse é o mundo fácil da certeza. O mundo confortável das ideias prontas sobre tudo. Dá para perceber que o papel da dúvida e do simples ato de dizer “Eu Não Sei” são  elementos centrais no meu entendimento para uma vida bem vivida.

 A última vez que falei com esse rapaz foi há mais de um ano,. Na ocasião, ele me perguntou se deveria comprar um imóvel no Rio de Janeiro ou ir para um curso de Intercâmbio na Irlanda. Desde então, nunca mais tive nenhuma resposta. O que ele resolveu? Este é o e-mail que ele me enviou:

"Grande Surfer!
Como estão as coisas, meu amigo? Esse ano ainda não acompanhei o blog, está por onde?

Lembra aquela conversa de quase 1 ano atrás?
Então, larguei tudo e optei pelo intercâmbio, daqui 3 dias eu embarco pra Irlanda. Ficarei por lá esse ano, se tiver pela Europa dá um alô!

E gostaria de te apresentar meu novo projeto: (vídeo you tube)

Você é uma inspiração e fez parte desse processo. Mesmo que não saiba, sua forma de pensar e seu estilo de vida me ajudaram a formar quem eu sou e o que eu quero daqui pra frente.

Grande abraço para vocês!"

  Fiquei muito contente com o teor do e-mail. Apesar das inúmeras dúvidas que possamos ter sobre quem somos e o que queremos, há alguns fio condutores que parecem ser muito parecidos seja para um Chinês, para um Brasileiro ou um  ser humano que habitou a Europa no século XIV. Muitos autores, atores, escritores, pensadores de alguma maneira expressaram de forma artística ou não, de forma brilhante ou não, o que de certa maneira torna a vida humana mais digna e contente.

 Perceber que este jovem está aprendendo e apreendendo isto no mundo foi o que me deixou mais contente. Sermos alegres, procurarmos ter bons amigos, estarmos dispostos a nos desafiar parecem ser os ingredientes para uma vida significativa.

  Seja você um empresário, um brasileiro frustrado que quer emigrar, um ator de filme pornô, um servidor público, ou qualquer outra coisa que possamos pensar, a alegria, a amizade e a busca perene pelas belezas do conhecimento e do mundo são caminhos que apontam para uma boa vida.

 É difícil algumas, talvez a maioria, das pessoas perceberem isso. Perguntam-me diversas vezes neste blog “Soul, por qual motivo você continua respondendo certos comentários ofensivos e de baixo valor argumentativo?”. Inúmeras pessoas já me fizeram esse questionamento. A verdade é que acredito que  boa parte das pessoas com comentários ofensivos infelizmente possuem uma visão um tanto quanto limitada sobre a vida, e elas nem mesmo percebem o mal  que isso pode fazer para elas próprias. Com o simples ato de responder a um comentário deste tipo, eu creio de alguma maneira estar ajudando essas pessoas, mesmo que elas por ventura não percebam.


  Por isso, colegas, seja em qualquer lugar do mundo, ou exercendo qualquer profissão, fica o meu desejo que a Alegria, a Empatia e o Sentimento de Assombro para as belezas e tristezas do mundo entrem na sua vida. É o que parece estar ocorrendo com o meu amigo carioca, e fico feliz de ter uma participação singela nesse processo. 

 E fico contente por orgulho, vaidade? Talvez, quem pode responder a uma pergunta como essa com elevado grau de certeza? Entretanto, para mim um bom objetivo de vida é poder de certa maneira ajudar outras pessoas em alguma coisa. 

 Uns tratam de pessoas doentes. Outros vão para países distantes combater doenças que já foram erradicadas de países mais ricos. Outros criam atividades produtivas e ajudam outros seres humanos a poder vencer as necessidades financeiras que a vida apresenta. Outros interpretam filmes ou peças de teatro magníficas que ajudam a refletir sobre o mistério da existência. Eu, infelizmente ou não, não sei ao certo no que a minha existência possa estar contribuindo para outros seres humanos.

 Portanto, fico sim satisfeito quando alguns colegas me escrevem dizendo que os meus escritos de alguma maneira os ajudaram em alguma coisa na vida. Ah, o vídeo abaixo é o que ele menciona no e-mail escrito para mim.

Vídeo do colega leitor



 Um grande abraço a todos!

domingo, 5 de março de 2017

DIRETA X ESQUERDA: A MULETA ARGUMENTATIVA

Olá, colegas. Às vezes construo alguns textos baseado em comentários feitos no espaço deste blog. Acho bacana quando isso ocorre. Primeiramente, pois é uma forma de uma troca de ideia genuína com alguma pessoa que por ventura se sentiu compelida a escrever um comentário. Além do mais, eu particularmente gosto quando um comentário pode ser o pontapé provocativo para uma reflexão.

 No meu último artigo A Ameaça do Globalismo ou A Ameaça à Nossa Inteligência, um dos últimos comentários foi o seguinte:

"Soul, entendo sua visao de nao aderir a extremismos em um momento político tao polarizado, mas nomes e conceitos sao criados na tentativa de organizar e registrar o pensamento. Sua relutância em aceitar as denominaçoes direita e esquerda na política parece-me exagerada. Inevitável distinguir ideologias tao distintas quando nos referimos a políticos como Bolsonaro e Marcelo Freixo, por exemplo. Impossível aglutinar conceitualmente duas visoes de mundo tao díspares. Constatar a existência de campos políticos antagônicos, nao significa a obrigatoriedade de pensar sempre de acordo com um desses campos. Negar que existem visoes mais conservadoras e outras mais progressistas no contexto social, que acabam se refletindo no âmbito político-partidário, significa desconsiderar a ciência política, em última análise. Nao significa que você tenha que adotar a bandeira da direita ou da esquerda, nem que as movimentaçoes partidárias sejam sempre coerentes com o espectro político a que dizem pertencer. Quando afirmo que sou totalmente contrário aos ideais defendidos por um Bolsonaro, acho razoável concluir que nao comungo dos pensamentos inerentes ao simpatizantes da extrema-direita.Concordo que rotular pode desaguar em preconceitos e diminuir o entendimento de temas complexos ,mas as divisoes em esquerda, extrema-esquerda, centro, direita e extrema- direita, ajudam a entender a política. Nomear, conceituar, nao significa rotular. Abraço. “

 O comentário, sobre minha perspectiva, é bom e aborda o  tema de maneira sensata. Afinal, qual é o problema de fazer divisões no espectro político? O que há de errado em rotular (para mim é um sinônimo para nomear) determinadas posições políticas como de esquerda ou direita? Há algum motivo para eu me contrapor a essa distinção?

 Vamos iniciar pelo começo. Olhe a realidade. “Como assim olhar a realidade, Soul? O que é a realidade?”. Boa resposta prezado leitor imaginário. Vamos não nos preocupar com a profunda questão de “O que é a realidade?”. Melhor, vamos partir de uma definição estreita de realidade como algo natural para nós seres humanos: as coisas que existem.

 O universo, de novo não entrarei em eventuais outras questões reflexivas sobre o tema, existe. Como ele existe? Ele existe de maneira única. Todas as manifestações da realidade são manifestações de uma realidade única. “Soul, acho que você está complicado demais, algo que era para ser simples”, nem tanto caro amigo. 

 Se o Universo, se a realidade, existe de uma única forma, por qual motivo nomeamos coisas, construímos matérias científicas separadas ? Simplesmente, porque apenas assim nosso cérebro consegue apreender de forma mais fácil a realidade. Você pode ver o ato de um rato se movendo na rua como um fenômeno físico, químico ou biológico, ou quem sabe pelo ponto de vista de saúde pública humana, mas a realidade de um rato se movendo é única.

 As separações que os humanos fazem entre física, química, bio-química, etc, são apenas formas de se analisar a realidade de uma maneira mais compreensiva para nosso cérebro. Obviamente, isso não é ruim, isso é ótimo, pois nos permite saber mais do universo de uma forma que seja compreensível para nossa mente. Afinal, nossa compreensão, nosso cérebro é limitado. Portanto, faz sentido que o conhecimento humano seja dividido numa disciplina de pessoas que se interessem por física, ou noutra matéria de pessoas que se interessem por química.

 Porém, como a realidade é única, parece evidente que essa forma de tentar apreender o mundo pode produzir uma visão fragmentada da realidade, que muitas vezes pode estar muito longe do que a realidade realmente é (também não discutirei se o ser humano realmente pode compreender a realidade como ela é, eu creio que não). 

 A discussão visão fragmentada x visão holística sempre esteve presente em muitos debates. Se a especialização é produtiva em muitos sentidos, como fazer com que essa especialização não se torne uma fragmentação nefasta? Não há respostas, e eu mesmo não sei como me colocar diante desse dilema. Tendo a dar preferência a uma visão mais geral sobre tudo, mas isso obviamente faz com que eu perca os benefícios de um conhecimento mais especializado, o que às vezes me faz falta. Por seu turno, alguém com um alto conhecimento especializado pode ter dificuldades de enxergar com mais clareza questões que são triviais se olhadas por uma perspectiva mais ampla.

  Por mais que tenha colocado a reflexão do último parágrafo, é evidente os diversos avanços tecnológicos, econômicos e de conhecimento que a especialização do saber trouxe. É inegável. Se assim o é, por qual motivo eu me oponho tão fortemente a essa dicotomia, sem sentido para mim, entre esquerda x direita quando se discute assuntos políticos?

  Vejam, prezados leitores, quando resolvemos estudar um fenômeno que é único em diversas formas separadas de saber como física e química, há um ganho evidente para o nosso entendimento. Consigo vislumbrar por qual motivo se tem uma aula de física, e depois outra separada de química quando estamos no colegial. 

 Agora, apesar de já ter tentado, eu não consigo vislumbrar qual é a vantagem que se ganha ao discutir um assunto sobre a ótica da categorização de direita e esquerda. Pior, além de não ver vantagem, eu percebo, assim como notado pelo leitor, que há uma tendência muito forte para que haja uma piora na compreensão das coisas, quando se adota essa forma de rotular a realidade.

  Por qual motivo? Primeiramente, porque os campos de separação de disciplinas como Física e Química possuem um motivo, possuem os seus pressupostos e servem a um objetivo. As divisões que se fazem entre direita x esquerda, por seu turno, parecem-me arbitrárias , produzindo muitas vezes “monstrengos ideológicos”, que não ajudam os humanos a responder questões específicas e relevantes.

 É preciso notar que a nomenclatura direta e esquerda vem da época do pós-revolução francesa, e simplesmente diz respeito ao lado na Assembléia Constituinte que determinados grupos se sentavam.  As pessoas que sentavam à esquerda  eram consideradas mais “radicais" do que as pessoas sentadas à direita que eram consideradas menos “radicais”.

 De lá surgiram diversas nomenclaturas como progressistas e conservadores, por exemplo. Paremos para pensar nessas rotulações. 

 Apesar do princípio da conservação de energia ser um dos mais caros à Física Moderna, a forma como essa energia se organiza nunca é estanque. Ter uma visão de que a realidade se conserva indefinidamente além de ser completamente errada, é desarrazoada. Se as coisas se conservassem do jeito que são para sempre, eu não estaria escrevendo nada muito menos num dispositivo tecnológico como um computador, pois é bem provável que nem vida existia no planeta terra.

  Portanto, para que uma pessoa seja conservadora ela necessariamente tem que admitir o progresso, ou a mudança, ou qualquer termos que queiramos colocar. Se assim o é, se o próprio termo se torna uma contradição em si, de qual valia esse termo (ao contrário da física e da química) pode nos ajudar a compreender a realidade?

  Por outro lado, quem se interessa um pouco sobre biologia, sabe que as espécies evoluem num ritmo muito, mais muito lento. Quase todas as modificações ao estado atual, ou seja ao conservadorismo, são nocivas à sobrevivência do indivíduo, e quase todas elas não tem nenhum impacto na espécie.  Isso é evidente. 

 Se uma espécie possui uma determinado aparelho respiratório que é apropriado para a sobrevivência num determinado local do planeta, por exemplo, qualquer modificação na constituição genética desse aparelho (seja por meio de mutações por agentes externos, seja por meio de recombinações de genes) quase sempre levará o organismo a falecer. Como o organismo não irá gerar descendentes, a modificação ocorrida (progresso) não irá modificar em nada a espécie. Portanto, qualquer pessoa que seja “progressista” precisa admitir que a conservação é a norma, não a exceção quando falamos em seres vivos. Se assim o é, qual é o sentido de se atribuir um termo que por si só pode ser contraditório?

 Tanto o conservadorismo e o progresso são facetas não só da humanidade, mas da vida na terra como um todo. E onde essa digressão me leva? Ao ponto de que temos que começar a nos preocupar com os problemas objetivos que se colocam e não como eventualmente de forma arbitrária rotulamos pessoas ou ideias. Exemplos Práticos? Claro.

 Parece-me evidente que não há motivo para modificarmos como os bebês são alimentados por leite materno. Sou um conservador. Por outro lado, creio que há motivos de pensarmos como criamos animais para consumo humano. Progressista. Creio que não há motivos de porque não admitirmos que seres humanos podem se apaixonar ou amar de diversas formas, e não necessariamente apenas a fórmula mais tradicional Homem e Mulher. Progressista. Por outro lado, creio que a relação de Pai e Filho, por mais amorosa que possa ser, possui e deve possuir uma dimensão de autoridade e respeito. Conservador. Então, afinal, eu sou conservador ou progressista? Não sou uma coisa nem outra, ou talvez seja as duas ao mesmo tempo. A mim me parece evidente que essa nomenclatura não ajuda a nada.

 Se fosse só este problema, inutilidade da rotulação, nem me importaria. O grande problema é que a rotulação direta x esquerda, pelo menos a praticada pela esmagadora maioria das pessoas, serve como uma muleta argumentativa e uma forma de não-pensar.  No mesmo texto citado, houve outro comentário que resume bem o nível do debate:

"soulsurfer, sempre atacando rótulos "esquerda X direita", mas sempre se aliando aos pensamentos da esquerda - e esquerda caviar.
Não importa se você se autoproclama de direita/esquerda/centro, porém, se você fala como um porco, anda como um porco, fala como um porco e age como um porco, podemos presumir com razoável margem de certeza que você é um porco.

 O tópico central do artigo era a unificação da humanidade. Um tema interessante. Observem que o argumento do comentador não diz se acha se está havendo uma integração maior ou não da humanidade. Se isso é um fenômeno histórico de longa data ou não. Quais os motivos  de porque essa unificação, ou não, estaria acontecendo. Não. A muleta argumentativa entrou em cena: "toda a temática que você traz à baila não importa, você é de esquerda, e ponto final.”

 A pobreza e a fraqueza dessa forma de ver o mundo parecem-me evidentes por si só. E elas são desencadeadas, no meu sentir, pela necessidade de se colocar um rótulo que faça com que a realidade seja mais simples, ao menos na percepção da pessoa, do que ela necessariamente é.  É uma simplificação causada não pelo conhecimento, pela sagacidade da reflexão, mas sim pelo empobrecimento e pela ignorância.

 Dizer que uma determinada visão é de esquerda ou direita, não vai ajudar a humanidade achar uma solução para o aumento da acidificação dos oceanos. Para quem não sabe, há uma catástrofe acontecendo com os nossos oceanos, se o aumento do efeito estufa é bem debatido e em voga na mídia, a consequência gêmea do aumento dos níveis de CO2 absorvidos pelo oceano é quase nunca nem mesmo mencionado. O que vai nos ajudar a resolver, ou minorar esse problema, passa muito ao largo de definições como esquerda ou direta. 

  O que fazer com lixos radiativos? O que fazer com a crise humana ocasionada por fluxos migratórios oriundos de conflitos armados? Dizer que alguém é de direita ou esquerda apenas fará com que o debate fique turvo e não saia do lugar. Qualquer um pode dizer que é correto que não sejam aceitos refugiados por países mais ricos, e que as populações locais que encontrem um jeito de encarar o problema. Como qualquer um pode dizer que fechar os olhos para o problema é apenas um ato de desumanidade que pode dizer muitas coisas sobre nós mesmos. Dizer que uma posição é de direita ou esquerda nesse sentido não traz qualquer benefício ao debate, muito menos se pensarmos que este é um problema do século 21 sendo abordado com uma nomenclatura do século 18.

  Portanto, respondendo ao colega do comentário que desencadeou esse texto, eu não creio que haja qualquer ganho para o entendimento da realidade na divisão feita entre direta x esquerda. Pelo contrário, acho que há apenas a criação de uma opacidade desnecessária no melhor cenário. No pior cenário, como acontece muito em nosso país, essa divisão cria legiões de pessoas que baseando nesses critérios de classificação param de pensar, refletir, enchem os seus corações de rancor e ódio, e não contribuem com absolutamente nada de útil para o debate.


  Um abraço a todos!

sexta-feira, 3 de março de 2017

A AMEAÇA DO GLOBALISMO OU A AMEAÇA À NOSSA INTELIGÊNCIA

O Globalismo é uma ameaça à civilização ocidental de matriz judaica-cristã. Alguém já ouviu essa frase? Infelizmente, ela se tornou um chavão, repetida por muitas pessoas sem qualquer reflexão crítica sobre princípios os mais elementares possível.

 Eu desconhecia o uso desse termo “Globalismo”, mas aparentemente ele caiu nas graças de muitas pessoas. É um termo que das muitas vezes que vi utilizado é vazio, não diz absolutamente nada, e serve apenas como uma “desculpa intelectual” para não se pensar sobre um problema específico.

 Quem lê os meus textos, sabe que acho uma verdadeira bobagem a distinção Direita - Esquerda no campo da política, o grau de insanidade chega a um patamar alto quando tentamos responder a problemas humanos do século 21 levando em conta uma terminologia conceitual que data de mais de 200 anos, quando o mundo era um lugar muito diferente do que é hoje, ao menos em termos culturais e tecnológicos. 

 Entretanto, sabedor que esse é um atalho usado pelo cérebro, pelo sistema mais instintivo e menos racional, tenho que me render que, ao que tudo indica, esse tipo de distinção ainda continuará a ser utilizada enquanto eu estiver vivo na maioria dos debates públicos. Assim seja. 

 Fiz esse adendo, pois a “Globalização”, fenômeno bastante antigo, mas que veio à tona com mais força com os avanços espetaculares da tecnologia na últimas décadas, sempre foi alvo do que costuma se denominar “Esquerda Política”. Agora, o “Globalismo" parece ser o alvo do que costuma se denominar “Direita Política”. Contradição? Evidentemente que sim, mas tenho certeza que há argumentos de ambos os lados para dizer que não.

 Disse no começo desse texto que é um termo vazio, pois ele pode ser aplicado a absolutamente tudo. Para saber o motivo sugiro a leitura do meu artigo Argumentos Fajutos. Por exemplo, não sei por qual motivo perdi o meu tempo, mas depois de ver um link para um vídeo que falava sobre veganismo de um blog de finanças, resolvi assistir (esse é o endereço do vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=JMfYnazO6f0). 

 O vídeo é uma verdadeira lástima, seja pelas ideias, seja pela agressividade do locutor. É um Non-Sense do começo ao fim. Porém, como “salvar" um vídeo sem eira nem beira, com algum argumento final? Fácil, muito fácil. Pegue um argumento que se encaixa em qualquer coisa, e voialá, o discurso está feito. Qual foi a saída do locutor do vídeo? De alguma maneira o Veganismo estava ligado com o Globalismo e o Marxismo Cultural (outro argumento fajuto que vem sendo utilizado para justificar qualquer argumento), numa conspiração para colocar em cheque a moral e ética judaica-cristã. Vixe.

 Resolvi então procurar no Guru de muitos, tido por alguns como o maior intelectual (não como um intelectual, mas como o maior, um locutor esportivo conhecido diria “Que Fase Brasil! Que Fase!”) do Brasil, o Sr. Olavo Carvalho. Assisti a uns 20-25 minutos de um vídeo, e sinceramente fiquei sem entender o que de tão brilhante tem as ideias desse Sr. Porém, para entender o que acontece, resolvi ler um artigo de sua autoria sobre o tema ("A Revolução Globalista"). Com a palavra, o Sr. Olavo:

"Que o globalismo é um processo revolucionário, não há como negar. E é o processo mais vasto e ambicioso de todos. Ele abrange a mutação radical não só das estruturas de poder, mas da sociedade, da educação, da moral, e até das reações mais íntimas da alma humana. É um projeto civilizacional completo e sua demanda de poder é a mais alta e voraz que já se viu. Tantos são os aspectos que o compõem, tal a multiplicidade de movimentos que ele abrange, que sua própria unidade escapa ao horizonte de visão de muitos liberais e conservadores, levando-os a tomar decisões desastradas e suicidas no momento mesmo em que se esforçam para deter o avanço da "esquerda". A idéia do livre comércio, por exemplo, que é tão cara ao conservadorismo tradicional (e até a mim mesmo), tem sido usada como instrumento para destruir as soberanias nacionais e construir sobre suas ruínas um onipotente Levitar universal. Um princípio certo sempre pode ser usado da maneira errada. Se nos apegamos à letra do princípio, sem reparar nas ambigüidades estratégicas e geopolíticas envolvidas na sua aplicação, contribuímos para que a idéia criada para ser instrumento da liberdade se torne uma ferramenta para a construção da tirania."


 O Globalismo é um processo revolucionário, segundo palavras do autor, o mais vasto e ambicioso de todos. Não fica claro quem estaria por trás de algo tão ambicioso e grandioso, uma elite dominante prestes a subjugar a todos? Extraterrestres que querem fazer que os preceitos morais da civilização judaica-cristã (que deve corresponder a uns 15-20% da população humana se muito) se enfraqueçam, pois assim eles poderiam se lançar numa guerra vitoriosa para escravizar toda a espécie humana? Quem poderá saber?

 Amigos receosos com o Globalismo, desculpe informá-los, mas a Humanidade vem se unificando há muito, mais muito tempo. A unificação da humanidade é um processo claro no curso da história. O muito bom livro “Sapiens" conta no capítulos 9 a 14 como a humanidade, de agrupamentos completamente fragmentados de 6-7 mil anos atrás, vem se unificando de maneira espantosa, principalmente nos últimos séculos.

Um livro muito interessante e extremamente bem escrito. Fez-me pensar bastante sobre vários temas. São este tipo de livro que nos fazem evoluir, quando questionam ideias arraigadas ou nos fazem refletir sobre aspectos que nem imaginavam.

 Você ficaria surpreendido se eu disser que um ser humano morando em Jakarta usa dinheiro, provavelmente possui uma religião monoteísta, acessa a Internet, sabe o que é NBA, utiliza o mesmo sistema métrico, vive sobre uma entidade abstrata conhecida como Estado Nacional chamado Indonésia e fala uma língua compartilhada por dezenas e dezenas de milhões de pessoas. Soou estranho para você? Não né. Bem-vindo a uma humanidade cada vez mais unificada.

 Infelizmente, ou felizmente (dependendo de como se analisa), a diversidade cultural humana aos poucos vai se esvaindo. Dezenas de línguas vão se extinguindo com o passar do tempo. Não há povos mais isolados uns dos outros, talvez apenas alguns milhares de humanos (dentre um universo de bilhões). Culinária, artesanato, cultura, de uma miscelânea de etnias e povos vão se enfraquecendo, pois a força que unifica a humanidade é muito forte, quase impossível de se opor a ela.


Os Maias nunca souberam dos Persas. Já pararam para pensar nisso, meus amigos? Um Império Poderoso como os Maias nunca fez a menor ideia que existia um outro Império Poderoso na antiga Pérsia. Para mim isso é incrível, se pensarmos como o mundo é hoje em dia. É como dizer que a Rússia não Sabe da Existência dos EUA. Fica evidente como o nosso planeta ficou muito menor do que era há centenas de anos, e muito mais menor do que era há milênios. Esse processo de “encurtamento" nada mais é do que a Unificação da Humanidade. 

  Portanto, o Sr. Olavo de Carvalho acerta ao dizer que a Unificação, Globalização, Globalismo, ou qualquer nome que queiramos dar a este processo é :

"a mutação radical não só das estruturas de poder, mas da sociedade, da educação, da moral, e até das reações mais íntimas da alma humana."


 Não tenho a menor dúvida que a educação, as estruturas de poder, a nossa moral estão sendo modificadas por essa unificação cada vez mais intensa, e não tenho a menor dúvida que isso vem ocorrendo há milênios e de forma mais acentuada nos últimos séculos. Não falo sobre a "Alma", pois evidentemente só podemos falar de “alma" num sentido figurado num debate. 

 Não tenho dúvida que as relações de poder, educação e moral dos povos nativos da parte central do México, os Astecas, foram muito modificadas com esse processo de “encurtamento” do mundo com a chegada da "civilização ocidental". Não tenho dúvida que a Internet vem solapando estruturas de poder que outrora eram arraigadas. 

 Prezados leitores, o tema é vasto e amplo (a Unificação da Humanidade). Recomendo a reflexão e a leitura, que irão tomar toda uma vida, mas que a cada passo faz com que a nossa compreensão aumente, mesmo aumentando a nossa ignorância geral. Agora, usar um termo “Globalismo" como muitas pessoas fazem hoje em dia como quase que um Não-Argumento ou um Argumento que se encaixa para tudo, e que quase nunca faz qualquer sentido, não é uma das posturas mais sensatas e inteligentes. 

 Por último, não o Veganismo não é uma conspiração Marxista Cultural de cunho Globalista para destruir os ditames da fé cristã. Na verdade, é uma conspiração arquitetada por bois e porcos modificados geneticamente que se tornaram muito inteligentes. Eles saíram foram de controle humano, e conseguiram por meio de artifícios argumentativos, convencer humanos incautos para a causa deles. Todo cuidado é pouco com esses animais.


 Abraço!

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

TRIBUTAÇÃO DE RENDIMENTOS NO EXTERIOR - UM GUIA PRÁTICO

 Olá, colegas. O tema abordado no presente artigo creio que será um dos primeiros escritos em português. Há muitas boas contribuições no blog investidor internacional sobre o tema Tributação no Exterior, mas, até pela complexidade do tema, ainda há muitas lacunas, pois quase ninguém escreve sobre esse tipo de tema em terras brasileiras.

 Quem gostou do artigo Um Roteiro Prático para o Investimento no Exterior, talvez venha a gostar deste também. O artigo irá tratar sobre a tributação de renda em investimentos no exterior. O tema não é simples, e talvez eu possa estar simplificando demasiadamente, e no processo cometendo algum erro conceitual, mas creio que o artigo será de valia para que se possa a entender como refletir sobre a tributação de rendimentos no exterior. Não se abordará a tributação de ganho de capital, mas apenas a tributação sobre renda e rendimentos de ativos financeiros localizados no exterior.

  Como já dito em outra oportunidade, eu creio que o investimento via ETFs que procuram aderir a um determinado índice a melhor forma para um investidor amador brasileiro investir no exterior. Sendo assim, focarei prioritariamente na tributação de renda quando se investe em fundos de investimento como ETFs.


OS TRÊS NÍVES DE TRIBUTAÇÃO


  A complicação começa aqui. Não há nenhum texto dizendo de forma clara e didática que há três níveis de tributação ao se investir no exterior. Quando se compra uma ação no Brasil, por exemplo,  o investidor brasileiro precisa apenas se preocupar com um nível de tributação: quanto o governo brasileiro irá cobrar, ou eventualmente isentar como acontece com alguns rendimentos, da renda auferida pelo investidor. Não há nenhuma outra preocupação, pois ao contrário dos EUA, o Imposto de Renda é apenas um tributo federal, não podendo Estados Brasileiros instituírem Imposto de Renda estadual.

  Agora, pense num investidor brasileiro que compra um ETF sediado nos EUA e que investe apenas em ações alemães. Como fica a tributação? Quem cobra o que? É apenas o governo brasileiro (domicílio do investidor), ou é o governo dos EUA (domicílio do fundo de investimento) ou seria o governo alemão (domicílio das empresas que geram a renda)? Se você respondeu que todos os governos podem vir a abocanhar parte do seu rendimento, você respondeu corretamente. 

 "Tá de brincadeira Soul? Posso vir a ser tributado três vezes na mesma renda?” alguém pode estar pensando. A resposta é sim.

 Se pararmos para pensar, vemos que no exemplo dado, há três componentes: o domicílio do investidor, o domicílio do fundo e o domicílio de onde a renda está sendo efetivamente gerada. Logo, se pararmos para refletir mais atentamente, fica claro que há três níveis potenciais de tributação, sendo que o Governo Brasileiro é apenas um deles, não o único.


 A TRIBUTAÇÃO NA FONTE OU WITHHOLDING TAX


 Toda vez que você, prezado leitor, se deparar com a expressão withholding tax, significa que o tributo será cobrado na fonte do rendimento. Nós brasileiros estamos acostumados com tributos cobrados na fonte, então não há qualquer problema de lidarmos com esse conceito. 

 Apesar do conceito ser de fácil apreensão, eu demorei a entender um pouco o que era os 30% retidos pelo governo americano nos rendimentos auferidos por brasileiros oriundos de ativos financeiros sediados nos EUA. Esses 30% eram cobrados quando a companhia A, que faz parte da alocação de algum ETF por exemplo, distribuia para o fundo, ou esses 30% eram uma cobrança a mais pelo simples fato de ser não-residente, sendo que a empresa ainda iria pagar tributos ao distribuir dividendos para o ETF? Demorou um pouco até eu ter uma ideia mais clara em minha mente.

 Por que falar dos EUA? Seja para o bem, o para o mal, os EUA correspondem a grosso modo a 50% da capitalização do valor de mercado das companhias negociadas em bolsa de valores. Sendo assim, qualquer investimento no exterior sem incluir ativos sediados de alguma forma nos EUA é um pouco capenga, pois deixa de fora metade do “valor" dos ativos mundiais, além de deixar de aplicar numa economia que é bastante forte e dinâmica. 

 Sendo assim, os EUA necessariamente são, ou ao menos deveria ser,  o foco de qualquer estratégia de investimento no exterior. Infelizmente, os EUA não recebem de tão braços abertos investidores estrangeiros do ponto de vista tributário.

 Pelo simples fato de um investidor ser um NRA (ou seja um não residente fiscal dos EUA), o governo americano irá cobrar 30% na fonte de qualquer rendimento auferido pelo investidor proveniente de ativos financeiros sediados nos EUA. Não há escapatória. Não adianta estar sediado em paraíso fiscal, aliás é até pior, se não for residente haverá cobrança de 30% na fonte do rendimento auferido no exterior.

  “Soul, e como fica aquela história do outro artigo sobre investir em fundos na Irlanda? Se vai haver cobrança de 30%, por qual motivo se preocupar então sobre o domicílio do fundo?” um leitor mais atente pode estar perguntando.


ACORDOS DE COMPENSAÇÃO TRIBUTÁRIA E ACORDOS ESPECÍFICOS DE TRIBUTAÇÃO


  Sob o risco de falar sobre algo que não tenho muito conhecimento, creio que há a existência de três situações quando se trata de tributação internacional, ou seja, quando há a possibilidade de dois Estados Tributarem o mesmo rendimento:

A - Não há nenhuma regra ou tratado entre os dois países.

B -Há regra que prevê a compensação do pagamento de tributo feito num determinado país - Acordo de Compensação;

C -Há um acordo de “cavalheiros" entre os dois países para que haja o pagamento de menos tributo, quando envolve a tributação de algum cidadão de um dos países no território do outro - Acordo Específico de Tributação.


 A situação “A" é a pior de todas. Vamos supor que um brasileiro invista num ETF dos EUA e recebe um determinado rendimento. Caso o Brasil não tivesse nenhum tratado com os EUA, os Yankees poderiam cobrar 30% sobre o rendimento auferido, pelo simples fato de você ser um Não-Residente, e o governo brasileiro cobrar 27.5% a mais. Imaginem pagar quase 60% de tributo no recebimento de dividendos? 

 Felizmente, a situação do Brasil com os EUA é a descrita na letra “B” . Há acordo de compensação tributária, logo os 30% cobrados na fonte pelo EUA podem ser compensados quando do pagamento do Imposto de Renda para o governo brasileiro. Como não há faixa de tributação superior a 27.5% no Brasil, nada será devido ao governo brasileiro. 

 A situação “C" é a melhor possível.  Infelizmente, o Brasil não tem acordo com os EUA que permita a redução do tributo retido na fonte pelos EUA. Porém, a Irlanda possui acordo com os EUA de tratamento tributário diferenciado. E para o caso em análise qual é a consequência prática? O acordo EUA-Irlanda prevê que os investidores residentes na Irlanda serão taxados em 15% na fonte sobre os rendimentos distribuídos por ativos domiciliados nos EUA, e não os 30% padrão para países que não possuem um acordo específico de tributação com os EUA (o caso do Brasil).

 Logo, essa é a vantagem de  investir em ativos americanos via um ETF domiciliado na Irlanda, ou em algum outro país que possa ter um acordo de tributação semelhante com os EUA: a diminuição do imposto de renda retido pelo governo americano.

 Porém, é bom observar que um investidor brasileiro terá que pagar Imposto de Renda para o governo brasileiro se o ETF sediado na Irlanda distribuir dividendos.


EXEMPLOS PRÁTICOS DOS TRÊS NÍVEIS DE TRIBUTAÇÃO


  Vamos analisar exemplos práticos. Um ETF que tenta replicar o índice S&P500. 

A) IUSA - iShares S&P 500 UCITS ETF (informações aqui)

 Fundo sediado na Irlanda, investindo em companhias que fazem parte do índice S&P500. Esse fundo possui uma taxa de administração de 0,4% aa e distribui rendimentos a cada três meses.

COMPANHIAS - ——L1—— FUNDO ——L2——-INVESTIDOR———L3—— GOVERNO BRASILEIRO


Nível de Tributação 1 (L1) - COMPANHIAS PARA O FUNDO = 15%

 As companhias americanas ao distribuir dividendos para o fundo recolhem na fonte 15%, já que o investidor que estará recebendo os dividendos é residente num país que possui acordo específico de tributação com os EUA. 

Nível de Tributação 2 (L2):  FUNDO PARA O INVESTIDOR =  0%

 A Irlanda não cobra qualquer tributo na fonte sobre a renda de rendimentos ou de ganho de capital. Assim, nesse caso, a tributação será de 0%.


Nível de Tributação (L3) - INVESTIDOR PARA O GOVERNO BRASILEIRO - DEPENDE DA FAIXA DE RENDIMENTO

 O Brasil não possui acordo específico de alguma vantagem tributário para com a Irlanda, porém é possível compensar eventual tributo já pago pelo fundo (neste caso o L1). Logo, a depender da faixa de rendimentos tributáveis do investidor, a renda auferida será isenta ou poderá pagar até 27,5%, compensando-se os eventuais valores pagos de tributo.


B) VOO -  Vanguard S&P 500 ETF (informações aqui)
  
 Fundo sediado nos EUA, investindo em companhias que fazem parte do índice S&P500. Esse fundo possui uma taxa de administração de  incríveis 0,05% aa e distribui rendimentos a cada três meses.


COMPANHIAS - ——L1—— FUNDO ——L2——-INVESTIDOR———L3—— GOVERNO BRASILEIRO

Nível de Tributação 1 (L1) - COMPANHIAS PARA O FUNDO = 0%

As companhias americanas ao distribuir dividendos para o fundo  não retêm nenhum imposto na fonte, já que o investidor que estará recebendo os dividendos é um fundo sediado nos EUA.

Nível de Tributação 2 (L2):  FUNDO PARA O INVESTIDOR = 30%

 Os EUA cobram 30% na fonte, já que o investidor no ETF é um Não-Residente sem qualquer acordo de tributação reduzida com os EUA.

Nível de Tributação (L3) - INVESTIDOR PARA O GOVERNO BRASILEIRO = 0%


Não será devido nenhum imposto para o governo brasileiro, pois não há imposto de renda que chegue a 30% no Brasil, e o nosso país possui acordo de compensação tributária.


O que se conclui? Quando há pagamento de dividendos, e o investidor brasileiro está na faixa de pagamento dos 27.5%, e a esmagadora maioria dos ativos está sediada nos EUA, não há quase nenhuma vantagem tributária em comprar fundos sediados na Irlanda. 

 No presente exemplo, ao contrário, como o yield está em níveis baixos, a taxa de administração de apenas 0,05% do fundo sediado nos EUA fará com que se tenha um retorno maior comprando o ETF VOO do que o ETF IUSA sediado na Irlanda.

  Por qual motivo sublinhei a frase no penúltimo parágrafo? Quando um ETF sediado nos EUA investe em empresas não sediadas nos EUA,  um investidor brasileiro possuir um ETF desse tipo é extremamente ineficiente do ponto de vista tributário. Por qual motivo?

 Como as empresas estarão sediadas no exterior, as empresas reterão Imposto de Renda na fonte quando forem distribuir rendimentos para o ETF sediado no exterior (Nível L1 de tributação). Quanto? Isso vai variar onde a empresa está sediada. Quando o ETF for distribuir o rendimento para o investidor Brasileiro, o governo americano irá abocanhar mais 30% sobre o que for distribuído (Nível L2 de distribuição). A mordida é grande. 

 Portanto, quando se investe em ativos que distribuem rendimentos localizados em países diversos dos EUA, faz todo o sentido optar por fundos sediados na Irlanda, pois o país não cobra nada na fonte de rendimentos distribuídos para não-residentes.


E ONDE ENTRA A OFFSHORE NESSE EMARANHADO TODO?


 Muito se fala de offshore, sobre as vantagens tributárias, mas não se sabe ao certo quais seriam estas. No caso de recebimento de rendimentos, a vantagem de uma offshore sediada num paraíso fiscal é que o último nível de tributação geralmente é de 0%.

 Vamos analisar o caso do IUSA de novo da perspectiva de um investidor que possui uma Offshore sediada em algum “paraíso fiscal”.


COMPANHIAS - ——L1—— FUNDO ——L2——-INVESTIDOR———L3—— GOVERNO DO PARAÍSO FISCAL


Nível de Tributação 1 (L1) - COMPANHIAS PARA O FUNDO = 15%

 As companhias americanas ao distribuir dividendos para o fundo recolhem na fonte 15%, já que o investidor que estará recebendo os dividendos é residente num país que possui acordo específico de tributação com os EUA. 

Nível de Tributação 2 (L2):  FUNDO PARA O INVESTIDOR =  0%

A Irlanda não cobra qualquer tributo na fonte sobre a renda de rendimentos ou de ganho de capital. Assim, nesse caso, a tributação será de 0%.

Nível de Tributação (L3) - INVESTIDOR PARA O GOVERNO DO PARAÍSO FISCAL - 0%

 Geralmente, países considerados paraísos fiscais não tributam rendimentos e ganho de capital oriundos do exterior. Logo, enquanto a Offshore não faz nenhuma distribuição para o sócio brasileiro, os rendimentos serão isentos de imposto de renda e poderão ser reinvestidos na compra de mais ativos.


CONCLUSÃO


  Esse artigo está longe de ser uma explicação minuciosa de como funciona os meandros da tributação internacional, porém creio que ele pode vir a ser uma ferramenta importante para que os leitores possam se aprofundar e criar o modelo mental de como um correto planejamento tributário é importante quando se pensa em investir no exterior.


 Um grande abraço a todos!