Acho que este senhor ainda será objeto de alguns outros artigos neste espaço. Também pudera, ele é uma figura espalhafatosa sentada na cadeira, pelo menos por enquanto, da nação mais poderosa do planeta.
O primeiro artigo sobre o Trump foi escrito logo depois da sua vitória na eleição: Trump: Vigor da Democracia Americana, Golpe nas Gerações Futuras e Uncharted Reefs. Basicamente, o artigo dizia que pairava uma grande interrogação no ar sobre o que ele poderia representar para os EUA e para o mundo em si. Fiz até mesmo uma analogia com Uncharted Reefs, e modéstia a parte, creio que foi uma boa analogia para o período anterior a 20 de janeiro de 2017, data de sua posse como Presidente dos EUA.
Naquele artigo, e em muitas outras análises feitas pela mídia, quase todos falavam algo como “O Trump vai ser muito mais pé no chão, aquilo tudo que ele falou na campanha foi um grande jogo de cena”. Para as pessoas que assim pensavam, eu apenas refletia que (a) ele foi um grande trapaceiro eleitoral, fazendo as mentiras eleitorais da Dilma Roussef no nosso Brasil parecerem coisa de criança e (b) por qual motivo um sujeito embevecido de si mesmo, bilionário, que fez uma campanha como um outsider completo do sistema político iria ser facilmente “controlável”.
Para “a”, como há uma grande correlação positiva entre quem nutria, ou ainda nutre, simpatia por Trump e desprezava o “estelionato eleitoral” de Dilma, fica apenas uma grande incoerência lógica. Como desprezar um determinado ato, e de outro lado relevar o mesmíssimo ato?
Não consigo vislumbrar respostas que não sejam cegueira, ou hipocrisia. Vejam, aqui não se trata de defesa de Dilma, repúdio a Trump, ou o que quer que seja. Apenas a constatação de um fato de que se alguém abominava a mentira eleitoral de Dilma, algo que eu com certeza abomino, a lógica e o bom-senso deveriam fazer com que se abominasse um eventual descompasso absoluto entre o que Trump disse nas eleições e o que ele por ventura viesse a fazer como Presidente.
Sobre “b” ainda gostaria de ouvir algum argumento bem construído de por qual motivo alguém com bilhões e bilhões de dólares, com um ego do tamanha do mundo, sendo Presidente dos EUA depois de ganhar uma eleição que há um ano todos consideravam que era como a Nova Zelândia ganhar uma Copa do Mundo de Futebol (ou seja possível estatisticamente, mas impossível na prática) seria de alguma maneira colocado “sob controle”. Sério, eu gostaria de entender por que um sujeito como Trump vai se sujeitar a alguma coisa.
“E as instituições americanas Soul?”. Sim, a diferença entre um Trump e um Mussolini, ou qualquer outro ditador que seja atual, é que entre os seus desejos e a concretização dos mesmos há instituições americanas fortes. Não é à toa que os EUA são o que são. Um país só chega nesse nível, quando a independência e qualidade de suas instituições são muito bem estabelecidas. Eu ainda quero ler o trabalho, ao menos algum livro mais conhecido, do economista Douglass North (ganhador de “nobel" de economia) sobre o papel fundamental das instituições no desenvolvimento de uma nação.
Quando escrevo sobre temas políticos, ou sobre o meu temor em relação ao que estamos fazendo com o Brasil, a minha maior preocupação é sobre os efeitos a médio e longo prazo em nossas ainda frágeis instituições. Simplesmente ninguém sabe. Acho que tomamos passos que não sabemos bem o que pode ocasionar com nossas instituições a longo prazo.
Essa é a maior barreira dos EUA contra Trump: suas instituições. É evidente que ele pode, e provavelmente vai, fazer um mal danado a muita gente, mas há limites, e os limites são os estabelecidos na Lei e principalmente na Constituição Americana. Uma prova disso é a decisão de uma Juíza Federal mandando liberar os refugiados detidos em aeroportos, pegos de surpresa, com o decreto presidencial barrando a entrada de refugiados e pessoas de sete nacionalidades.
A medida é claramente contrária a tratados internacionais e ao próprio espírito dos EUA, uma terra que sempre foi reconhecida como um lugar onde pessoas poderiam prosperar e encontrar refúgio de perseguições políticas, religiosas ou étnicas de outros lugares do mundo. Aliás, foi assim que o país prosperou.
O Decreto do Trump sobre imigração foi tão insensato que ele proibia a entrada de quem tinha visto de estudante ou até mesmo green card. Imagine, milhares de estudantes universitários que não poderiam continuar os seus estudos, ou até mesmo estrangeiros (desses sete países) com visto permanente não poderiam entrar nos EUA. Imagine você aí todo pimpão, pagou de $500.000,00 - U$1.000.000,00 por um visto de investidor, ou tem um visto de estudante para estudar numa universidade, proibido de entrar no país por causa do seu país de origem. Vai que o Trump resolve se estranhar com o Brasil.
A medida foi tão estapafúrdia que o próprio partido Republicano, mesmo com um presidente do próprio partido com pouco mais de 10 dias de mandato, criticou pesadamente a proibição de entrada de pessoas com alguma forma de visto permanente e a Casa Branca teve que voltar atrás.
Esta medida apenas prova que ele é um demagogo, um populista a La Chavez, sim o Chavez que tantos criticam, que não precisa apoiar os seus atos em fatos. Aliás, fatos é algo com o qual Donald Trump não dá a mínima. E o que me causa mais estarrecimento é que numa sociedade onde o conhecimento é a chave para a prosperidade econômica, muitas pessoas estão simplesmente abandonando os fatos. Fatos são facilmente descartados se de alguma maneira confrontam uma determinada visão de mundo. Isso é uma aberração. Visões de mundo deveriam ser guiadas por fatos.
Se Trump, apesar de ser ilegal de acordo com a Lei Internacional, quisesse discriminar por país de origem para “combater o terrorismo” a entrada de certas nacionalidades, o país número um da lista deveria ser a Arábia Saudita.
A esmagadora maioria dos terroristas do 11 de setembro era Árabe. Evidentemente, a Arábia Saudita ficou de fora. E por que ficou de fora? Porque fatos e a realidade não importam, o que importa é alimentar o medo da minoria dos americanos que o elegeu. Sim, Minoria, ele é o legítimo presidente eleito pela regra do colégio eleitoral, e aqui nem discuto isso, mas ele não foi eleito pela maioria dos votos, aliás a diferença a menor foi bem significativa.
Não se trata de combater terroristas. Aliás, é bem capaz que isso apenas alimente mais a retórica de grupos terroristas, trata-se apenas de instilar medo por meio de medidas populistas, ao melhor estilo do livro “1984”, é o duplo-pensar, o pensar que frio é quente, e não ver qualquer problema nisso. Aliás, um porta-voz da Casa Branca ao ser questionado sobre um fato, retrucou que ele gostaria de apresentar Fatos Alternativos. Fatos Alternativos? Se isto não é o doublethinking do 1984 eu nem sei o que poderia ser.
O Populismo simples e barato de dizer que os mexicanos irão pagar por um muro a ser completado na fronteira dos EUA com o México, e que se os Mexicanos não pagassem, poderia ser instituído uma tarifa sobre as exportações mexicanas. Isso simplesmente é falso e uma grande bobagem, e o Instituto Mises explicou o simples motivo neste artigo
O amadorismo é gritante. Como o atual Secretario de Estado que disse que os EUA poderiam barrar o acesso da China a ilhas artificiais que ela está construindo no conturbado e disputado Mar do Sul da China (se quiserem ler algo a respeito aqui). A afirmação parece ter saído de de um blog amador. Sério.
Como alguém num cargo desses pode falar uma bobagem dessas? Primeiramente, que qualquer ato de bloquear o acesso da China a estas ilhas levará a um conflito armado de grande escala com a China, pura e simplesmente. Em segundo lugar, os EUA pleiteam direito de passagem por este mesmo Mar, como eles poderiam bloquear o acesso da China e quererem direito de passagem? Ou seja, não faz sentido. Porém, o secretario de defesa ao ser sabatinado soltou essa pérola.
Repito o que já disse aqui. No Brasil, tudo bem. Estamos acostumados. Milhões se transformam em Bilhões ou vive-versa. O que é 2%, alguém fala que é 20% e muitos nem percebem a diferença. Políticos muitas vezes com nenhuma instrução. É normal. Contudo, num país como os EUA isso começar a acontecer é muito preocupante mesmo.
Agora, Trump está sendo coerente com o que ele disse que iria fazer. Nisso, apesar da seriedade da coisa, merece elogio, por que não? Um político que realmente está fazendo literalmente o que ele disse que iria fazer.
Portanto, assim sendo, ele se afasta de Dilma Roussef e seu “estelionato eleitoral”, e se parece como um populista-demagogo que estamos bem acostumados na América Latina. A grande novidade é uma figura dessas como presidente dos EUA. Espero que as instituições americanas possam mostrar a sua força e que o mal que ele irá ocasionar não seja grave demais.
No final, ele só será uma grande decepção a quem votou nele. Ele recebeu, segundo estimativas, três milhões de votos a menos. O grosso de sua votação veio de brancos sem educação superior, ou seja, a sua votação expressiva veio de uma parcela com pouca educação na sociedade americana. Até aí nenhum problema, nenhum problema mesmo.
Porém, recordam a contradição lógica apontada no começo do texto? Aqui há mais uma. Tendo em vista a correlação positiva apontada no texto entre quem nutria, ou ainda nutre admiração pelo Trump e o fato de não gostar dos últimos governantes do Brasil, se a pessoa questiona que o Norte-Nordeste do país "sem educação" elegeu o PT nas últimas eleições, o mesmo questionamento teria que ser feito sobre a população com menos educação que elegeu o Trump. É literalmente a mesma coisa. O não reconhecimento disso é apenas cegueira ou hipocrisia.
É compreensível. No Norte-Nordeste há uma grande presença de programas sociais, assim vários cientistas políticos diziam que o voto dessas populações era racional, pois eles estavam votando pensando em seus interesses. Nos EUA, um populista prometeu trazer empregos de volta, construir iphones em solo americano, e fazer o país grandioso de novo. Grandioso para a grande parcela de classe média branca que vê o seu rendimento real estagnado por décadas, e pela primeira vez na história observa a geração atual numa situação pior do que a geração anterior. Assim, de certa forma é racional o voto a alguém que promete que a era de prosperidade irá retornar.
Assim, como os eleitores do Norte-Nordeste muito provavelmente estão decepcionados com o descalabro fiscal, moral e financeiro que o governo do PT legou ao país, os eleitores do Trump com o tempo ficarão decepcionados. Há milhões e milhões de pessoas extremamente educadas e bem formadas em países mais pobres dispostas a ganhar muito menos do que um americano médio ganha. Um americano médio sem instrução não poderá competir contra essas pessoas no médio-longo prazo, assim a sua qualidade de vida não irá aumentar com interferência governamental. A sua qualidade de vida só irá aumentar se ele se qualificar, se ele se tornar capaz de gerar mais valor a um mundo cada vez mais interconectado. E isso não irá acontecer taxando produtos estrangeiros, criando barreiras comerciais ou se envolvendo em conflitos armados desnecessários.
Trump, o demagogo que não é um ditador, pois está num país com instituições sólidas e fortes. O Populista que é coerente com o seu discurso de campanha. Uma figura que com certeza traz e trará ainda ao mundo muitas notícias.
Trump, o demagogo que não é um ditador, pois está num país com instituições sólidas e fortes. O Populista que é coerente com o seu discurso de campanha. Uma figura que com certeza traz e trará ainda ao mundo muitas notícias.
Um abraço a todos!






