domingo, 13 de setembro de 2015

SOBRE LIBERDADE, TRIBUTOS E OUTRAS QUESTÕES

     Olá, colegas. Fiquei hoje 9 horas dentro de um cruzeiro para voltar ao Melbourne saindo da Tasmânia. Isso me deu tempo para atualizar minha planilha de gastos da viagem, dar uma "limpada" nas fotos, pensar e analizar mais calmamente uma proposta que recebi na minha operação imobiliária de maior monta (foram me oferecidos cinco bens diversos, além de dinheiro), para definir o roteiro para o deserto e a Great Ocean Road (dizem que é a estrada mais bonita do mundo, vamos ver) e para escrever um pouco. Neste artigo, resolvi fazer algo um pouco diferente. Resolvi condensar minhas opiniões sobre diversos tópicos. Iria fazer sobre muitos tópicos, mas o texto assim ficaria longo demais e talvez cansativo. Sendo assim, no presente artigo irei tratar sobre algumas questões políticas. Não há entre os diversos tópicos uma sequência, apesar de existir entre eles um fio condutor. Todas as opiniões aqui contidas já se fizeram presente em algum texto anterior, ou algum comentário, mas às vezes é bom sistematizar. Advirto que o texto pode ser um pouco detalhista em algumas questões, mas não há como abordar seriamente, sem cair em reducionismo simplistas ou simplesmente opiniões equivocadas, assuntos tão complexos sem a existência de uma reflexão mais pausada. Aliás, um tema interessante para se escrever é sobre a mudança física que está ocorrendo nos nossos cérebros (não sei se já abordei o conceito de neuroplasticidade nesse blog) em tempos de mídias sociais, pessoas multitarefas, etc. Uma das principais consequências é a perda gradativa neuronal  das pessoas se concentrarem em apenas uma tarefa ou compreenderem textos mais densos. Isso vem ocorrendo e há diversas pesquisas mostrando isso. Logo, precisamos ter atenção de como estamos tratando o nosso próprio cérebro. Porém, deixo essa questão para uma outra hora.


DIREITA E ESQUEDA EM TERMOS DE ROTULAÇÃO POLÍTICA

     Já disse algumas vezes que acho a rotulação política entre esquerda e direita uma verdadeira bobagem. Aliás, o próprio ato de rotular (ver meu artigo específico sobre o tema a racionalidade no ato de rotular e o seu lado mais sombrio) nesse contexto é a saída mais preguiçosa, ineficiente e superficial de se abordar a questão. Para mim existem problemas humanos a ser resolvidos. Como garantir que as crianças não morram precocemente? Como ordenar o trânsito? Como se relacionar com países mais ricos? Países mais pobres? Países miseráveis? Como tratar o problema dos refugiados? Como tratar o problema da miséria extrema em algumas regiões do mundo? Regular ou não o uso de energia nuclear? E o lixo tóxico, como lidar com ele? A lista de questões é imensa. Sempre haverá divergências de como endereçar uma determinada questão, mas rotular interlocutores como de esquerda e direita é a pior forma de se pensar.

   Primeiramente, pois essa forma de se posicionar é  profundamente anti-científica e quase sempre esbarra em argumentos falaciosos. Em segundo lugar, pois, e isso as pessoas que fazem isso gostam de ignorar, uma pessoa que é classificada como direita, pode ter uma opinião diferente de alguém rotulado como de esquerda em relação a tributos, mas ambos podem ter a mesma opinião a respeito de aborto. Quando se coloca um rótulo, muitas pessoas parecem que baixam uma burca sobre o seu cérebro e a capacidade humana de refletir, o que para mim é lamentável.

   “Mas, você Soul, é de direita ou esquerda?”. Quem ainda possa pensar assim é porque não leu os últimos dois parágrafos, ou porque o sistema1, a forma mais instantânea e primitiva do nosso cérebro decodificar a realidade, precisa desesperadamente de uma resposta simples. Eu não sou nem uma coisa, nem outra. Eu sou um ser humano como todos os leitores desse blog. Não existe o problema americano, o problema chinês, o problema negro, o problema socialista, existem problemas humanos. Durante a história muitas formas foram tentadas para se resolver os diversos problemas. Algumas foram um fracasso. Outras um retumbante fracasso. Outras foram um sucesso. Algumas outras um grande sucesso. Não há sentido, pois isso também seria uma forma de se posicionar contrária à racionalidade que nos trouxe tantas conquistas humanas, em defender ideias ou condutas que simplesmente não deram certo. Além do mais, usar uma forma de diferenciação criada no auge da revolução francesa que ocorreu há mais de 200 anos (diferenciação essa que simplesmente indicava quem se sentava à esquerda ou à direita da mesa diretora da recém-criada assembléia) para enfrentarmos problemas,  que não podiam nem ser imaginados quando a expressão foi cunhada, uma verdadeira tolice sem sentido.

TRIBUTOS

    O que eu penso sobre tributos foi de maneira resumida colocada neste artigo a inevitável tributação de sua renda. Antes de mais nada, impostos, de maneira técnica, são uma espécie de tributo. Assim, se quisermos nos referir a carga tributária brasileira, o nome correto é tributo e não impostos. A diferenciação pode não ter muita importância no sentido mais abstrato, mas ela é crucial juridicamente, pois há diferenças no tratamento jurídico entre impostos, taxas e contribuição de melhoria (todas essa categorias são tributos). 

   Deixando a tecnicidade de lado, o fato é que se você não for um anarquista do modo mais conhecido, ou um anarco-capitalista, você concorda com a existência de tributos. É impossível do ponto de vista lógico discordar dessa afirmação.  Assim como  afirmar que o brasileiro é o pior do Brasil, ser brasileiro e não se achar o pior do Brasil ser completamente ilógico, não bastando, a toda evidência, argumentos fajutos que não resistem em pé a um sopro argumentativo, dizer que não quer pagar tributos e não ser anarquista não faz sentido do ponto de vista da lógica. Se você ainda pensa que é possível, basta ler sobre silogismo, ou o artigo que eu escrevi a respeito.

    Portanto, a não ser que você seja anarquista, os tributos deverão existir. A questão será sobre a intensidade dos mesmos, e quem na sociedade deve arcar com o pagamento de tributos. O problema não é sobre se eles devem ou não existir.

ANARCOCAPITALISMO 

   Já escrevi sobre esse tema nesse artigo o ato de fé de algumas idéias: anarcocapitaslismo. De lá para cá li diversos artigos a respeito. Com a devida vênia, alguns artigos escritos no IMB por doutores de economia possuem uma fragilidade para além da compreensão. Vou escrever um artigo específico sobre isso, principalmente a ideia de privatização total de todos os bens como a panacéia de todos os problemas. O último artigo recente que li lá colocava a privatização de todos os bens como a solução para o problema dos refugiados. What? Só pode ser brincadeira. 

   A ideia básica é que com a privatização total dos bens, e por via de consequência a extinção do Estado,  todos os bens são possuídos por alguém e isso de alguma maneira faria desaparecer  todos os problemas e conflitos humanos, eles simplesmente tenderiam  a não mais existir. Não estou brincando, esse é o argumento central de muitos textos escritos por doutores em economia de diversas universidades. Correto. Como premissa básica, os artigos dizem que a propriedade deve ter sido adquirida de forma original de maneira justa e sem violência. Assim como as aquisições derivadas devem ser fruto de contratos entre seres humanos autônomos. Correto. Isso é pensamento mágico, não é pensamento filosófico, muito menos para se ter um pilar principiológico consistente de uma forma de pensar o mundo.

  Como escreveu Hegel, a história humana é um livro repleto de sangue. A própria Bíblia no antigo testamento, que aliás é um livro bem cruel, narra diversos massacres de povos e tomadas de territórios. É impossível estabelecer com qualquer precisão qualquer aquisição originária pacífica para a esmagadora maioria do que hoje chamamos cidades. Pelo contrário, é muito bem documentada a violência como se deu algumas consolidações. Logo, se torna impossível a privatização total dos bens sem aceitar que houve violência e injustiça na aquisição original de muito deles. Eles tratam dessa questão nos escritos? Não, como qualquer questão inconveniente, eles simplesmente ignoram ou dizem que eventuais problemas serão resolvidos por uma polícia privada e por um sistema judiciário privado. 

   A pergunta natural a se fazer é como serão estruturadas polícias particulares e tribunais particulares. Também não há resposta. Ora, se todos os habitantes de uma sociedade se comprometem a respeitar as decisões de um tribunal particular, não há qualquer problema lógico, nem prático. Agora, se o sujeito X diz que a propriedade A é sua, sendo que o sujeito Y diz a mesma coisa, um conflito humano foi gerado. Se O sujeito X, ao contrário do sujeito Y,  em nenhum momento se submeteu voluntariamente a empresa julgadora “Conto de Fábula Anarcocapistalista”, pode esse tribunal dar qualquer decisão válida sobre X e a sua reclamação sobre a propriedade A? É evidente que não. E sobre as polícias privadas? Cada um poderá montar uma empresa de polícia? Como não haverá conflito entre polícias privadas? E como poderá se garantir que algum grupo financeiro poderoso simplesmente pela força monte uma polícia privada poderosa para fazer o que bem entender? Também não há nenhuma resposta sobre esse tópico. É evidente também que a mesma objeção pode ser apontada em relação ao Estado, e é por isso que autores como Hobbes, Locke, Rousseau, entre outros, estabeleceram as fundações da “ciência" política, baseando a existência do Estado num contrato social. É claro que esse contrato nunca existiu de fato, mas até hoje não se veio com uma ideia melhor de como se resolver os diversos conflitos humanos sem degenerar para o caos completo.

   Aliás, a ideia central do anarcocapitaslismo, a inexistência de Estado e a existência de forças particulares para a manutenção de uma mínima ordem, já foi tentada diversas vezes na história humana. Provou-se um fracasso tão grande ou maior do que os Estados socialistas do século 20. Aliás, foi o surgimento do Estado moderno que permitiu que houvesse uma normalidade institucional mínima, o que permitiu por seu turno o lançamento de raízes para o brutal desenvolvimento econômico e produtivo humano.

   
TAMANHO DO ESTADO E LIBERDADE

    
    Se temos que pagar tributos, e o anarcocapitalismo parece ser uma fábula ideológica, a próxima pergunta é qual deve ser o tamanho do Estado. Para começar a conversa, sim é verdade que ao pagar tributos o Estado está de certa maneira cerceando a sua liberdade, e se apropriando de parte do seu trabalho. Isso é evidente.  Porém, a liberdade é o único bem com o qual devemos nos preocupar? Se a resposta for sim, então você necessariamente deve ser anarcocapitalista e ser capaz de responder as diversas questões levantadas no tópico anterior.  Permitam-me falar brevemente sobre liberdade.

   Já ouviu aquela definição que a sua liberdade vai até onde começa a liberdade do outro? Ou defensores “libertários" afirmando que a liberdade não pode ser exercida prejudicando direito de outros? Com todo o respeito, isso não é liberdade. Liberdade é fazer o que ser quer, na hora que se quer e como se quer, independente dos interesses, direitos, e sentimentos de outros seres humanos. Isso é ser 100% livre.  “Não, isso não é liberdade!” alguém pode estar pensando. Sim, isso é ser completamente livre. Porém, dá para imaginar que numa sociedade onde todos agissem assim em pouco tempo se tornaria o completo caos. Portanto, mesmo que as pessoas que assim se comportam não percebam conscientemente, ao falar que a liberdade deve ser exercitada respeitando o interesses de outras pessoas, está se a dizer que a liberdade não é o único bem importante. Essa também é uma falha puramente lógica no pensamento de pessoas que declaram que a liberdade é o único bem humano, colocando-se acima de qualquer outra consideração. A própria definição de liberdade comumente aceita já é contrária a esse tipo de entendimento.

   Portanto, parece claro que em algum momento devemos ceder um pouco dos nossos 100% de liberdade, para que a vida possa existir de uma maneira minimamente aceitável. Logo, voltando ao primeiro parágrafo, sim ao se pagar tributos está se abrindo mão de liberdade, mas isso em nada nos transforma em escravos, como alguns argumentos tentam colocar a situação sobre esta perspectiva. Assim, quanto maior a tributação menor é a liberdade. Logo, parece evidente que é uma questão de ajuste entre liberdade e outros interesses, e não um jogo de 100% liberdade ou nenhuma liberdade.

   É evidente que a liberdade é algo extremamente precioso aos seres humanos. Qualquer regime que tenta suprimir as liberdades individuais de maneira extrema está fadado ao fracasso, como todos os regimes totalitários são um exemplo histórico. A liberdade não é apenas importante para termos uma boa vida, mas ela também o é importante para a economia. É bem conhecido o gráfico que correlaciona liberdade econômica  com prosperidade financeira. Negar isso é negar o óbvio. Por isso, eu fico estarrecido, e de certa forma acho risível, alguns comentários que tentam me “ensinar" isso. Isso é evidente, e nunca foi dito o contrário nesse espaço. Quando se tem liberdade para criar, para empreender, para negociar, é evidente que isso traz prosperidade econômica. Num local onde há diversos entraves para se empreender, fica claro também que as pessoas não terão tantos incentivos financeiros para serem criativas.

   Assim, o ser humano precisa de liberdade para ser realizado e a economia precisa ser livre para que haja prosperidade econômica. Talvez por isso algumas pessoas advoguem o fim do Estado e uma sociedade 100% livre. Porém, como explicitado em outros tópicos, isso não nos levaria a um nirvana enquanto seres humanos, mas talvez a caos, violência e miséria. E por que isso ocorre?

   Amigos, as relações na natureza são de equilíbrio e não de dominância. Quando um ecossistema está em equilíbrio, o termo científico é clímax. Isso mesmo, quando há equilíbrio entre as diversas espécies de um local, chama-se isso de clímax. Portanto, se você atingiu o clímax da sua vida, no ato sexual, num relacionamento, na carreira, saiba que essa palavra é derivada do estágio natural de perfeito equilíbrio entre diversas entidades num ecossistema. Quando uma espécie, e isso é muito normal em espécies que são introduzidas em ambientes onde elas previamente não existiam, se torna preponderante não há clímax, mas sim declínio da diversidade do ecossistema, ou talvez poderia se dizer anti-clímax. Tudo na vida é equilíbrio, e foi isso que Buda percebeu quando meditava depois de ficar dias e dias sem comer. Ele viu um professor ensinando ao aluno que a corda de um instrumento musical não poderia estar muito firme, pois se isso acontecesse ela poderia arrebentar ao ser tocada. Ela não poderia também estar muito frouxa, pois senão não tocaria. Isso deu o “estalo" para Buda criar a sua maravilhosa doutrina de iluminação por meio do “sagrado caminho do meio”. 

   Logo, levar a liberdade humana a um extremo não produz sociedades equilibradas e harmônicas. Isso é biológico. Nós não evoluímos enquanto espécie de maneira isolada, nós evoluímos em comunidades, e para viver em comunidades nós não podemos ser completamente livres para fazer o que bem entendermos. Isso releva que as relações não são necessariamente lineares, elas quase nunca o são. Uma relação linear é quando você mexe em algo e isso ocasiona uma mudança numa mesma direção (ou direção oposta) em alguma outra coisa sempre. É difícil achar isso em relações humanas e até mesmo no nosso próprio corpo. Pensemos em algo vital para o ser humano (não, não é dinheiro): água. Quanto mais você consome água, mais isso ocasiona efeitos positivos em seu organismo. Porém, há um determinado montante de água (a partir dos dois litros diários) que a ingestão de água começa a ser nociva ao nosso organismo, podendo levá-lo mesmo a morte. Logo, o consumo de água e sua relação com saúde humana não é linear, pois a partir de certo ingestão de água, os efeitos se tornam negativos ao organismo. 

  Pensem na educação das crianças, facilita se você tem filhos. Você pode criar um filho dizendo apenas “não" para o que ele pede? Não.  Você pode criar um filho dizendo apenas “sim" para o que ele pede? Não. Logo, educar uma criança é uma relação não-linear. Se fosse linear, bastaria dizer “sim" ou “não" para todos os pedidos da criança. Qualquer pai pode atestar que isso é a receita para o desastre.

   Podem pensar em qualquer coisa. Relações familiares, amorosas, o que vocês imaginarem, quase sempre as relações serão não-lineares. É por isso que conviver em sociedades com outros seres humanos é difícil. É por isso que soluções simplistas geralmente são incompletas. É por isso também que quando se traz à tona o exemplo dos Estados Escandinavos, a gritaria é geral em quase todos os espectros ideológicos.

   De alguma maneira, a população desses países conseguiu alcançar níveis altíssimos de vida e satisfação. Como se sabe? Se pegarmos o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), os países escandinavos aparecem na liderança. Como o índice leva em conta índices de escolaridade e saúde, podemos concluir que são populações saudáveis e educadas. A ONU também possui um INDEX sobre felicidade. É muito interessante e o relatório possui quase centenas de páginas. Muitas pessoas dizem que medir felicidade é um exercício inútil, isso para mim só faz sentido numa sociedade doente. Ora, 99 em cada 100 pessoas dirão que o objetivo primordial da vida é ser feliz e se sentir realizado. Se isso é verdade, ignorar o assunto felicidade, e não tentar entendê-lo, não faz o menor sentido. Analisar instrumentos complexos de dívida faz sentido. Analisar felicidade não faz sentido. Com a devida vênia, é a última frase que não faz o menor sentido.  O INDEX da ONU leva em conta inúmeras questões. A liberdade é uma delas. Não se pode ser feliz, se a pessoa não possui liberdade. Porém, apenas liberdade não é suficiente para se ter uma vida plena. Se não me engano, há questões sobre a harmonia de se viver na comunidade entre muitas outras questões.  Os países escandinavos aparecem no topo da lista dos países mais felizes. A Dinamarca, na última pesquisa, foi eleito o pais mais feliz, isso de acordo com a resposta dos próprios dinamarqueses, do mundo. A Dinamarca também é o país com maior carga tributária do mundo de quase 50% do PIB. Ou seja, metade do que é produzido lá é apropriado pelo Estado. 

Index da ONU sobre felicidade. Salta aos olhos que os países escandinavos ocupam as primeiras posições.

   Para um “libertário" a Dinamarca deveria ser o inferno na terra, pois lá teoricamente as pessoas são mais escravizadas e diminuídas em sua liberdade. Entretanto, os Dinamarqueses, ao lado dos demais países escandinavos, são os mais educados, saudáveis (métrica IDH) e felizes do mundo (métrica INDEX felicidade ONU). O que está acontecendo aqui? Como explicar isso? Muitos tentaram ao se referir ao tema como o “Mito Escandinavo”. Os argumentos são os seguintes:

1 - Os países escandinavos não são socialistas do estilo marxista. - Ora, quem seria insano de dizer uma insanidade dessas? 

2 - Os países escandinavos possuem grande liberdade econômica - Claro que possuem. Esse é um dos caminhos para a prosperidade econômica, como abordado no começo desse tópico.

3 - Os países escandinavos fizeram reformas nos anos 80 (sempre citam a Suécia como exemplo) para diminuir a tributação e o tamanho do Estado - Colegas, isso chama-se inteligência conjugada com adaptação humana. Se algo não está dando certo, se uma tributação muito elevada está levando a um desincentivo econômico ou problemas fiscais, a única coisa prudente a se fazer é mudar. Entretanto, isso não quer dizer que tudo será mudado, como tudo não foi mudado nos países escandinavos,  e essa é a mania de muitas pessoas acharem que as relações são lineares e simples. 
  
   Nenhum desses argumentos é forte, e nenhum desses argumentos explica o que acontece por lá, simplesmente porque ignoram o fato biológico de que sociedades estáveis e saudáveis são aquelas que estão em equilíbrio. Como em ecossistemas naturais, o equilíbrio é dinâmico e não estático, e mudanças sempre ocorrem (o que explica o tópico 3). Não aceitar mudanças é o caminho mais rápido para o fracasso e decadência. 

   Mas, se os dinamarqueses dão metade do que produzem para o Estado, se a liberdade deles é tolhida, como eles podem ser felizes? Talvez a explicação esteja no fato de que para sermos felizes não é apenas necessário liberdade, ou sucesso individual. Para sermos realmente realizados enquanto seres humanos, precisamos viver em comunidades onde a esmagadora maioria dos indivíduos não esteja passando por situação de penúria humana, onde haja sociedades equilibradas e não desequilibradas. Isso também explica porque as pessoas não entendem como desigualdades extremas podem produzir sociedades violentas e desorganizadas. Isso também quase sempre é ignorado.

  Não acredita? Comunidades rurais quase sempre são muito mais pobres do que comunidades urbanizadas. Porém, a violência humana quase sempre se manifesta com uma intensidade muito mais cruel e forte em aglomerados urbanos, e isso quase sempre tem a ver com um grau intenso de desigualdade que ocorre numa grande cidade que seja disfuncional, e o nosso continente é pródigo na criação desse tipo de aglomerado humano. Isso é muito bem documentado.

     “Então, na sua opinião, o caminho é taxar a sociedade em níveis escandinavos?”. Não, necessariamente. Como dito no começo desse artigo, eu acredito que haja problemas humanos que necessitam de soluções humanas que podem variar de sociedade para sociedade, de tempo histórico para tempo histórico. Por exemplo, eu não acredito que o Estado deva ter participação em empresas, mesmo de energia. Assim, eu seria favorável a privatização da Petrobrás. Entretanto, aparentemente na Noruega o formato de uma empresa estatal no ramo de petróleo deu certo. Pode ter dado certo lá, mas não acho que seja o caminho para o Brasil. Uma carga tributária maior parece ser um impeditivo para o crescimento de países com renda baixa ou média. Assim, isso pode explicar o motivo da economia brasileira ter um potencial de crescimento baixo. Logo, a carga tributária brasileira deveria ser menor, pois temos que reconhecer que nosso momento histórico é diferente de países mais ricos. Agora, por outro lado, não creio fazer sentido que num país rico como os EUA, 40 a 50 milhões de pessoas não sejam seguradas por nenhum plano de saúde público ou particular, pelo simples motivo de serem pobres. Os exemplos e questões são muitos e não acho que nenhum “modelo" possa ser implantado num país para o outro. Cada país possui a sua cultura, história, forças, fraquezas. O que se pode é olhar para o exterior e observar o que diversas nações e sociedades fizeram para enfrentar a mais variada gama de problemas.


 Encerro esse tópico, concluindo que a liberdade humana e econômica são essenciais, mas não é o único atributo para se construir vidas e sociedades saudáveis. Como devemos organizarmos, com menos tributos, mais tributos, menos Estado, mais Estado, para mim vai depender do estágio de desenvolvimento humano de cada sociedade, do tempo histórico, e nunca poderemos dar uma resposta categórica definitiva, pois para mim o equilíbrio sempre será dinâmico. Não podemos ter comprometimento com erro ou com soluções que não foram eficazes.


   Iria continuar, mas o artigo já está relativamente grande. Num próximo, irei comentar sobre o que penso ser os problemas do Brasil e eventuais propostas para minorá-los. Num outro, posso falar sobre tópicos sobre o que acho de investimentos, gestão ativa, independência financeira, risco financeiro, etc.

Soulsurfer em momento de clímax!  Blackdown Tableland National Park - Austrália. Esse parque nacional é completamente fora do beaten track. Não tinha absolutamente ninguém no parque. Dormirmos no meio da floresta, fizemos uma trilha para uma cachoeira lindíssima sagrada para os aborígenes e ainda fomos agraciados com dias de sol nessa paisagem alucinante.


  Abraço a todos!


sábado, 12 de setembro de 2015

MEU VIZINHO SURFISTA

  Olá, colegas. Estou com muitos artigos feitos pela metade, porém resolvi escrever esse breve texto. O tema não será sobre o Brasil e o fabuloso museu de grandes novidades ( a absurda ideia de uma intervenção militar), ou sobre a viagem, ou sobre a perda do grau de investimento. Não, o assunto hoje será sobre um ser humano com o qual eu tive o prazer de conviver por um ano.

  Antes de morar no meu atual imóvel, eu alugava uma casa. Eram na verdade quatro casas uma grudada na outra. Quando morei lá em 2008 na segunda casa, um surfista profissional morava na terceira casa, ou seja éramos vizinhos de parede. Ele tinha esposa e dois filhos, e não preciso dizer, devido ao fato de serem casas geminadas, que eu podia escutar o ritmo familiar dele se desenrolando durante o dia, indo desde o despertador tocando, passando pelo café da manhã das crianças, chegando com a volta da escola das mesmas e terminando com o barulho de televisão de algum programa. Hoje em dia, onde vivo eu não escuto absolutamente nada dos meus vizinhos, e o tamanho do imóvel é relativamente bem maior. Tempos ruins em 2008 então? Uma casa menor, ouvindo a vida dos vizinhos? Não, pelo contrário, foi um grande ano da minha vida, e esse surfista profissional possui a sua contribuição nisso.

   Quantas vezes eu não acordei com a animação dele se preparando para surfar. Quando ele levantava bem cedo feliz, sabia que tinha que vencer a preguiça e me preparar para ir surfar junto. E o privilégio de um surfista com habilidades limitadas ir surfar junto de um profissional que já tinha chegado ao WCT (para quem não sabe é como se fosse a UEFA Champions League do Surf, mal comparando. É a elite mundial do surf) e enfrentado lendas não só do surf em especial, mas como do esporte em geral, como Kelly Slater? Para mim era um grande prazer.
  

  Quem não está habituado com o mundo do surf, às vezes pode se surpreender com o grau de competitividade, e muitas vezes agressividade verbal e até mesmo física, que acontece entre os surfistas. Para a esmagadora maioria dos surfistas faz sentido dizer quem é “prego”, “Haole”, “Pro”, etc. Esse tipo de comportamento, em minha opinião é claro, estraga um pouco a experiência que é surfar, além de ser um pouco sem sentido. Se você não é um surfista profissional, se não ganha dinheiro com isso, que diferença faz se você é bom, ruim, tube rider, ou qualquer outra definição? Para mim a essência não só do surf, mas como da vida em geral, é a possibilidade de se fazer amigos e se divertir enquanto se tem saúde. A vida é muito melhor quando se tem amigos, e sempre é bom conhecer e interagir com novas pessoas. Entretanto, boa parte dos surfistas, e por que não dizer dos seres humanos, não pensa e age dessa forma. Logo, seria natural que um surfista como o meu vizinho se achasse o maioral, não desse bola para ninguém na água e desprezasse quem, como eu, se esforça para pegar algumas boas ondas.

   Entretanto, o meu vizinho era um surfista diferente. Ele não só fazia questão de dividir a experiência de surfar com outras pessoas, como ficava feliz e animado quando outros surfistas (eu incluso), que não chegavam nem próximo dele no nível de habilidade, acertavam alguma boa manobra ou pegavam uma boa onda. Lembro até hoje, passados quase sete anos, o meu vizinho vibrando com uma manobra boa que consegui fazer, boa para mim, pois para ele, pelo nível de surf dele, seria considerado uma manobra mais ou menos, mais para menos provavelmente. A alegria dele, naquele momento, não era forçada, não era falsa, era absolutamente genuína.  Isso para mim é uma característica notável que uma pessoa pode ter. Eu não me impressiono com dinheiro, fama, poder ou habilidades em algum esporte, principalmente quando tentam fazer disso alguma vantagem em relação a outras pessoas.  Essa minha característica intriga muitos . Se alguém me dizer que tem 800 milhões de dólares na conta, provavelmente eu responderia “e?”. Se alguém me dissesse que é um baita de um surfista, provavelmente eu responderia “e?”. Se alguém me dissesse que é um político poderoso, provavelmente eu responderia “e?”. Essa, ainda bem, foi a criação que eu recebi dos meus pais de não dar importância para essas coisas ao se diferenciar seres humanos. Contudo, eu me impressiono quando vejo pessoas gentis, humildes e que possuem a bela qualidade de se comprazer com o prazer alheio, principalmente num mundo onde relações agressivas parece ser infelizmente a tônica. Se a pessoa consegue agir dessa maneira num campo onde é muito melhor do que a esmagadora maioria, o meu espanto e admiração aumentam exponencialmente.

   Assim, conviver por um ano com uma pessoa tão humilde e alegre foi o verdadeiro privilégio para mim. Com o decorrer do tempo, o fato de ele ser um surfista tão bom virou apenas um detalhe, já que conviver com alguém tão bacana era muito mais importante. O meu contato com ele foi de apenas um ano. Logo, não posso afirmar se ele tomou decisões financeiras acertadas ou não na vida. Não posso afirmar se ele por ventura não possa ter tido atitudes ruins com outros humanos na vida. Aliás, creio que nem sobre mim mesmo eu posso fazer juízos categóricos, quanto menos de uma pessoa que convivi por tão pouco tempo. Porém, eu posso afirmar que no ano que eu convivi com esse surfista, ele não me ensinou habilidades especiais para o surf (talvez eu tenha evoluído um pouco olhando ele surfar tantas vezes), mas com certeza me fez refletir e sentir que é muito bom conviver com pessoas alegres e humildes. 

   O nome dele é Fabio Carlos da Silva, ou como era conhecido na região “O Fabinho”. Infelizmente, ele se encontra com problemas de saúde e não possui condições financeiras suficientes para fazer frente aos custos altos que a medicina moderna hoje impõe. A esposa dele, uma ótima pessoa também, pede ajuda financeira para que sejam feitos exames e comprados remédios. Como sei que há alguns surfistas que frequentam esse espaço, fica aqui a oportunidade para poder ajudar um dos grandes nomes do surf nacional, que com certeza pavimentou e ajudou que toda essa nova geração de surfistas brasileiros, também conhecidos como Brazilian Storm, pudesse existir. 

   Quem me conhece sabe que procuro tratar de temais mais gerais, abstratos e filosóficos. Entretanto, ao ver a foto do Fabinho acamado esperando ser atendido num hospital público realmente fiquei bem triste, principalmente porque ele é ainda muito jovem. Se alguém puder ajudar, ajude. Se não puder ajudar, não ajude. Há tantas organizações, tantos problemas no mundo, que eu não gosto de taxar pessoas que por ventura não se interesse por causas pessoais ou humanitárias. Cada pessoa tem o seu jeito próprio de ver o mundo, e a generosidade deve ser algo espontâneo, não imposto ou coagido. Entretanto, a generosidade, que obviamente não precisa ser apenas financeira - quantas pessoas generosas eu conheço que não necessariamente contribuem para alguma causa, mas no jeito de ser com outras pessoas mostram uma grande evolução enquanto seres humanos - é algo que faz bem para quem recebe, mas principalmente para quem pratica.  Seja com o Fabinho, seja com a maravilhosa organização Médico sem Fronteiras, com a escola de sua esquina, ou qualquer outra pessoa ou instituição, procure praticar um pouco de generosidade, faz muito bem.

   É isso colegas. Ao Fabinho e a sua família eu só posso desejar o melhor. Estarei torcendo do outro lado do mundo por sua recuperação. Quem porventura quiser ajudar com alguma coisa, esses são os dados: CEF - Agência 1570 - Operação 13 - Conta Poupança 00036131-3 - Fabio Carlos da Silva - CPF - 461320403-82 (reportagem sobre a situação do Fabinho)


Pensei em colocar a triste foto do Fabinho acamado no corredor do hospital. Não, não é assim que eu lembro dele. Pensei então em colocar alguma foto dele dando alguma manobra forte. Não, também não é assim que eu lembro dele. Por fim, achei essa foto. É exatamente assim que eu lembro dele. Um sujeito sempre sorridente e gentil, uma energia muito bacana. Um dia ele me disse que gostaria de ensinar crianças a surfar no seu Estado do Ceará. Torço muito pela sua recuperação, amigo, para que não só possa ensinar surf para as crianças um dia, mas principalmente para que possa passar essa sua alegria e humildade para elas.



Abraço a todos!

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

FURO - IDENTIDADE, LOCAL E PROFISSÃO DO BLOGUEIRO COREY DESCOBERTA

   Olá, colegas. Hoje não escrevo sobre nada reflexivo, venho apenas relatar que descobri a identidade do blogueiro Corey. Não pude acreditar quando fui confrontado com a realidade, mas o Corey vem enganando a todos os blogueiros e a comunidade da blogosfera. "Não é possível, Soul! Como pode?" Pois é, mas aconteceu. Imagino a decepção de milhares de leitores, tendo em vista que o blog do Corey é um dos mais populares daquilo que se convencionou chamar de "Blogosfera Financeira".

   Como eu descobri? Bom, estou numa cidadezinha na Tasmânia, e ao entrar no supermercado para as compras diárias usuais, fui surpreendido ao ser atendido por um dos caixas. O nome era Corey, e na tela do computador aparecia "Hi, my name is Corey". Indaguei na hora: "Corey, é você? O que está fazendo aqui?". Ele tentou negar, disse que não sabia português e não estava me entendendo, mas no final acabou confessando que era mesmo o Corey. Na verdade, ele já tinha emigrado e escolheu a maravilhosa, sensacional, deslumbrante, Tasmânia. "Ao invés de ganhar 8-10 dólares por hora nos EUA", ele me disse, "resolvi vir para o outro lado do mundo ganhar 25 dólares por hora". Perguntei se ele estava satisfeito, ele me assentiu com um sonoro "YES!". Salientou que a vida numa cidadezinha da Tasmânia era bem aprazível, que podia andar tranquilo pela rua, e, pasmem, inclusive deixava as portas de casa abertas quando saia de sua residência. Enfim, ele parecia realizado.

   Portanto, colegas, o Corey já emigrou e realizou o seu objetivo de ir morar num país com grande desenvolvimento econômico, humano e social. Assim, não se decepcione leitor que aprecia as postagens do Corey, apesar dele não ter contado sobre a sua situação atual, o fato é que ele está contente e realizou o sonho, motivo que deveria deixar a todos satisfeitos.

  Não acredita? Tenho prova. Como diz o brocardo jurídico "Não adianta alegar e não provar. Alegar e não provar é a mesma coisa que nada alegar", a prova é essencial para apoiarmos as nossas alegações, como qualquer pessoa familiarizada com o método científico sabe. Então, em primeira mão, foto do blogueiro Corey em sua nova vida:

Aí está. Reparem no Crachá e no monitor. 

  Não sabem o que o Corey foi fazer na Tasmânia? Bom, apreciem os motivos nas fotos abaixo tiradas no dia de hoje  na trilha absurdamente incrível, sensacional, fantástica, inesquecível e quase solitária de 12km que eu e a Sra. Soulsurfer fizemos a menos de 100km de onde o Corey atualmente vive.


O que dizer disso? Andar na neve no meio de montanhas gigantescas e sem ninguém?

Incrível Cradle Mountain! Um dos lugares, e olha que já vi vários, mais fantásticos do planeta terra.

Lagos diferentes (só hoje vi mais de cinco diferentes, mas este foi o mais lindo), vida selvagem , incrível mundo! Aos que gostaram das fotos, irei com certeza falar sobre esse dia especial, dias, pois ontem também passei nesse parque, só a história da noite de ontem acampando  e tudo que aconteceu foi incrível também.


   Brincadeiras à parte colegas (não sabem como fiquei sem jeito de pedir para bater uma foto do caixa de supermercado, tive que inventar uma baita história, mas creio que fiz o dia do rapaz mais feliz), temos que aprender a ficar contentes com a felicidade dos outros, aliás esse é um dos ensinamentos mais profundos e bonitos da Cabala Judaica. Eu desejo sempre que todos alcancem os seus objetivos, desde que não sejam ignóbeis é claro. Assim, a vida fica muito melhor, e mais leve pois é bom se sentir bem com a felicidade alheia. Mesmo pessoas que eventualmente até mesmo me ofenderam (e não são poucas), eu nada desejo de mal, pelo contrário, espero que sejam realizadas e consigam alcançar paz de espírito em suas jornadas pela vida. As pessoas não se devem levar tão a sério, e nem ficar tão incomodadas com opiniões ou posturas alheias. Eu, por exemplo, sempre serei crítico de ideias, sempre procurarei enxergar mais do que verdades auto-evidentes, mesmo que com eventuais falhas e erros de julgamento que por ventura cometa, pois só assim evoluímos enquanto cidadãos, indivíduos e seres humanos. Entretanto, isso nunca será motivo da minha parte para não torcer por outros, ou de alguma maneira deixar o meu coração pesado com rancor, ódio e ressentimento. Acreditem, caros leitores, isso não nos leva a nenhum lugar, quanto mais leve nos tornamos, mais simples e agradável é a nossa vida.

   Grande abraço a todos!

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

BRASIL - HOMEGANEM, SILOGISMO, ERRO E PROVOCAÇÃO

“Ai de mim, Ai de mim, Provocações!”, era assim que começava o brilhante programa “Provocações" do brilhante Antônio Abujamra. Antes de mais nada, saudações a todos os leitores do blog pensamentos financeiros. Soube que o Abujamra morreu. Não fiquei triste. A morte vem para todos, e quando se morre com mais de 80 anos dando a contribuição que esse Sr. deu, não há motivos para a morte ser encarada com extrema tristeza. Quando alguém jovem morre, aí sim é uma lástima, ou quando o personagem interpretado por Brad Pitt no sensacional filme “A incrível história de Benjamin Button” fala que a morte não parecia natural ao ver centenas de corpos boiando depois de uma batalha naval na segunda guerra mundial. Quem não conhece nem o Abujamra, nem o programa “Provocações”, vale a pena dar uma olhada.  

Homenagem ao talentoso e único Abujamra.


  O programa era uma das únicas coisas inteligentes produzidas pela televisão brasileira. Eu me divertia com as entrevistas dele, com as reflexões e tiradas que ele costumava produzir (nos últimos anos, ele já estava mais debilitado e o vigor não era o mesmo).  O show chamava-se "Provocações", pois literalmente o objetivo era provocar o entrevistado e o telespectador, provocações de reflexões sobre a vida e algumas “verdades" tidas como auto-evidentes. Nada mais distante da pasmaceira intelectual que impregna a nossa sociedade e os debates. Aliás, não há debates. Cada vez mais me espanto da incapacidade das pessoas conseguirem manter diálogos com pessoas de ideias antagônicas. Não há possibilidade de construir um país sério assim, não mesmo. Eu também adorava a parte final do programa onde dele declamava poesias lindíssimas, e ele tinha uma voz espetacular, tanto que a voz dele aparecia em inúmeras propagandas de televisão. Portanto, esse breve artigo é uma homenagem ao grande Abujamra e como não poderia deixar de ser o texto terá uma provocação.

Uma boa música é sempre bom para acompanhar uma leitura. Tenho certeza que Abujamra concordaria, como na música, que não devemos entregar a parte doce da nossa vida para homens de vidas vadias e vazias, e sempre que possível cutucar a ferida dos homens de olhos sombrios.

  Comecemos por uma regra de lógica e depois por um erro de julgamento. Já ouviu falar de silogismo, não? Bom, um silogismo nada mais é do que lógica pura em ação. O clássico silogismo Aristotélico é um exemplo simples de entender:
Premissa A - Todo homem é mortal
Premissa B - Aristoteles é um homem
Conclusão silogística - Aristoteles é mortal

  É impossível discordar da conclusão sem ferir um princípio básico de lógica. Portanto, quem comete erros desse tipo, comete um dos erros mais simples de argumentação. Prosseguimos com um erro de julgamento. Um dos pensadores  brasileiros atuais que mais admiro, talvez é o que eu mais admiro, chama-se Eduardo Giannetti. Já indiquei diversos livros dele. Se quer ler algo interessante, leia os livros do Eduardo. Um deles é magnífico e chama-se o “Auto-Engano”. Nele, o autor discorre de maneira magnífica, com exemplos científicos e filosóficos, da tendência do ser humano, em nível consciente e inconsciente, em se auto-enganar, quase sempre sobre supostas qualidades auto-atribuídas. Leitura mais do que recomendada. O nosso erro de julgamento, a nossa inclinação em se auto-enganar,  é muito conhecido por economistas que atuam e estudam a área de finanças comportamentais, bem como por estudiosos da área de como os seres humanos tomam decisões (tema diversas vezes abordado por aqui). É comum em perguntas como “você se considera um motorista acima da média?” ou “ um amante acima da média?”, 90-95% das pessoas invariavelmente respondem que sim, elas se consideram acima da média. Porém, o resultado não faz sentido, pois 95% das pessoas não podem estar acima da média, isso seria outro erro de lógica simples, como se enganar com silogismos.  Pesquisa após pesquisa, fica evidente que o ser humano tende a ter um visão muito otimista de si mesmo, e muito pessimista de outras pessoas. Essa forma de raciocinar pode ser interessante em momentos onde se faz necessária uma melhora da auto-estima, mas pode levar a resultados desastrosos em alguns campos, e finanças é o maior exemplo disso. Assim, muito provavelmente, caro leitor, você não está acima da média na esmagadora maioria das coisas.


Um pequeno grande livro. É impressionante a forma como Eduardo Giannetti discorre sobre "verdades" que aceitamos como evidentes. 


  Tendo discorrido brevemente sobre os dois tópicos, a provocação, homenageado o querido Abujamra, pode ser feita. Há no Brasil, e principalmente por quem lida com dinheiro ou pensa sobre dinheiro (blogs de finança incluso), uma tendência de se dizer que o pior do Brasil é o brasileiro. Pois bem. Assim, façamos o silogismo com uma pessoa brasileira chamada Y que pensa assim.
Premissa A - O pior do Brasil é o Brasileiro
Premissa B - Y é brasileiro
Conclusão silogística - Y é o pior que há no Brasil.

 Portanto, colega, se você realmente acredita na ideia, a única conclusão possível é que você é o pior que existe no Brasil. Se assim o é, alguns desdobramentos forçosamente ocorre. Em primeiro lugar, não se exporte para nenhum outro lugar. Uma regra costumeira de relações internacionais é que um país não deve exportar o que há de pior para outro país. É por isso que  quando um país exporta o seu lixo hospitalar para outro país, por exemplo, a comunidade internacional reage com repulsa. Há uma ideia de que o pior que um país possui deve ser lidado internamente. Portanto, se você, que acredita na frase, é o pior que existe no seu país não seja um verdadeiro “presente de grego” para outros povos. Em segundo lugar, se você é o pior que existe no seu país, por qual motivo não tentar melhorar a si mesmo e por via de consequência acabar melhorando o seu próprio país? Se o maior problema é você, então alguma solução para a melhora do estado de coisas do seu país passa necessariamente por uma melhora individual.

  Alguém pode protestar “não, eu não sou o pior que há no Brasil, pelo contrário, pois eu….- colocar qualquer justificativa”. Chegamos aqui no erro de julgamento. É muito comum a frase “eu não sou racista, mas…” ou “eu não sou machista, mas…” ou “eu não sou xenófobo, mas…”, aliás visitando a galeria nacional em Canberra (capital australiana) no setor de arte aborígene vi um quadro muito bacana  que mostrava o quão patética é essa forma de se colocar no mundo. Portanto, a pessoa sempre pode se excluir de um determinado grupo da qual pertence atribuindo-se alguma qualidade que a destaque da média desse grupo. Assim, Y dirá que mesmo sendo brasileiro, ele é diferente da maioria dos brasileiros, pois ele possui alguma qualidade que o destaque dos demais brasileiros. Assim, ele pode ser pagador de impostos, um empreendedor que cria empregos, um servidor público que presta um grande serviço a nação indo atrás de empreendedores que não pagam tributos, ele pode ser um filiado de um sindicato de empregados, ele pode ser qualquer coisa de direita, esquerda, do meio, da diagonal, pois qualquer argumento serve para fins da pessoa achar que está acima da média ou fora das características negativas de um grupo que ela originalmente pertence.

   
"Eu não sou racista, mas os aborígenes bebem muito...Eu não sou racista, mas porque eles não aceitam a nossa forma de viver? Eu não sou racista, mas..." Sei. (Imagem da galeria aborígene da bela Galeria Nacional em Camberra). Aliás, se teve algum povo que se deu muito mal e foi completamente espoliado foi os aborígenes.Irei escrever sobre isso e a fragilidade conceitual e principiológica de algumas ideologias.


 Portanto, agora o silogismo quebrado fica assim:

Premissa A - O pior do Brasil é o Brasileiro
Premissa B - Y é brasileiro
Premissa C - Apesar de Y ser brasileiro, há algo que o diferencia da essência de ser brasileiro da premissa A
Conclusão nada silogística - Y não é  pior que há no Brasil.

  
   Entretanto, essa é a mesmíssima situação das pesquisas que mostram que 95% das pessoas acham que são melhores que a média em matéria de direção, sexo, inteligência, etc. Há um erro claro de julgamento aí, e pode ser que seja a nossa tendência de se auto-enganar. Sempre haverá pessoas que são acima da média, assim é possível argumentar em casos especiais que um indivíduo brasileiro é muito acima da média dos demais brasileiros. Não há nenhum problema nisso e pode ser o caso de alguns leitores. Porém, quando muitas pessoas dizem estar acima da média, como parece ser o caso, o problema de lógica fica claro. Ou, sempre é possível que haja um exercício sincero de auto-análise, não há problema nenhum e a pessoa realmente acha que ela mesma é o que tem de pior no Brasil. Ora, a pessoa ao admitir isso é muito mais coerente e lógica.

   É isso colegas, o raciocínio, a ciência, a filosofia, servem para que questionemos o nosso mundo e as nossas convicções como muitas vezes escrevi a respeito. Você não "pensa fora da caixa", pois não consome roupas de marca, ou se veste bem, ou sabe que deve gastar menos do que ganha, ou porque chegou a conclusão que o dinheiro não é a última finalidade da vida ou porque "descobriu" que o focar em alguma atividade é um dos ingredientes de muitas pessoas destacadas em suas áreas. Isso  são pensamentos triviais, nada mais do que isso. Quem realmente “pensa fora da caixa” é alguém como Eistein que simplesmente questionou a noção mais elementar humana sobre a realidade: tempo e espaço. Uau, isso sim é ser revolucionário na forma de pensar. Ou um exemplo fora das ciências, um economista com formação acadêmica de ponta em universidades de países ricos raciocinar que miseráveis de seu país miserável poderiam receber microcréditos e com isso melhorar de vida (Yunus), isso sim também é ser revolucionário no pensar. Logo, é muito provável que o seu e o meu pensamento estejam apenas na média, não possuam absolutamente nada de novo ou de extraordinário. Eu não tenho qualquer problema com isso. E você caro leitor? Porém, não é por causa disso que você vai deixar a parte mais doce da sua vida na mesa dos homens de vida vadia e vazia, como já diz a bela música de Chico Buarque.

  Espero ter feito uma boa provocação ao estilo Abujamra, a quem eu dedico este artigo.

Adeus Abujamra! Agradeço todas as belas provocações que perguntas suas como "o que é a vida?", "a beleza te faz chorar?" e tantas outras tiveram em minha vida.


Abraço a todos!



segunda-feira, 24 de agosto de 2015

FILMES - COSMÓPOLIS

 Olá, colegas! Hoje, escrevo sobre algo diferente. Irei comentar um filme. A sétima arte é algo que gosto muito, é um dos meus hobbies favoritos. Confesso que não entendo muito sobre técnica, não sei analisar um filme como crítico de cinema. Entretanto, tenho uma verdadeira paixão pelo cinema. Quando estou numa vida mais rotineira, tenho o costume de ir algumas vezes por semana ao cinema, principalmente em baixa temporada quando há vários dias com preços de ingresso em conta. Sim, eu adoro ir ao cinema. Para mim há algo de mágico na sensação de ver um filme numa tela imensa. Alugar um filme ou ver na televisão não é a mesma experiência para mim, longe disso. Assim, o tópico filmes é algo que chama bastante minha atenção. Irei fazer um breve relato de um filme que gosto bastante: Cosmópolis.

Um filme que não ficou muito conhecido e agradou, a julgar pela reação no cinema, a poucas pessoas (eu me incluo nelas)


  Primeiramente, é preciso dizer que é um filme diferente, bem diferente. Não é de fácil interpretação, principalmente para quem não está familiarizado com alguns conceitos de física e finanças. Aliás, sem esse prévio conhecimento, o filme perde e muito o sentido. Deve ser por isso que quando eu vi no cinema, as poucas pessoas que estavam na sala bateram palmas quando o filme acabou e era visível que davam risada de nervosas, achando o filme muito ruim, pois a história aparentemente não fazia sentido. Isso é comum com filmes assim. Outro filme, excepcional por sinal, “A Árvore da Vida” teve a mesma reação do público. Quase ninguém entendeu partes centrais do filme, nem mesmo críticos de cinema, pois envolvia conhecimentos prévios de cosmologia, e até mesmo sobre o ciclo de vida e morte de estrelas (assunto absurdamente fascinante sobre o qual quero escrever qualquer dia).  Entretanto, o filme tem tantos insights bacanas, que foi necessário explicar algumas partes para a Sra. Soulsurfer quando alugamos o filme para ver novamente, para que o filme pudesse ser melhor apreciado.


  Não irei fazer aqui uma resenha, até porque seria difícil, nem mesmo dar minha opinião. Vou, talvez de uma forma caótica falar de trechos do filme. A primeira parte que me chama atenção é quando o protagonista entra num táxi onde esta a sua noiva e a mesma pergunta de qual país deve ser o motorista, de onde ele vem. O protagonista responde secamente: “ele vem do horror e do desespero”. É a mais pura verdade. Retrata com uma simples frase a história de vida de milhões de imigrantes de lugares onde o desespero é a tônico, muitas vezes fugindo do horror de uma violência extrema, guerras civis sangrentas ou simplesmente fome.

  Numa outra cena, e aqui começa a ficar interessante, o protagonista tem um diálogo muito interessante com um suposto adolescente “nerd”. Na verdade, ele nada mais é do que um quant. Quant são pessoas com extremo preparo em física e matemática que vão para o setor financeiro tentar achar modelos complexos de precificado de ativos e de arbitragem na busca incessante por alpha (termo técnico para retorno em excesso ao mercado depois de ajustado pelo risco da estratégia). O diálogo fala sobre tempo, e como o tempo hoje em dia escraviza as nossas vidas, bem como cada vez mais frações diminutas de tempo vão se tornando importante. Aqui se fala indiretamente sobre operações chamadas High Frequency Trade, ou HFT, realizadas por supercomputadores em frações de segundo. Toda a conversa de finanças se desenvolve pois o protagonista é um jovem bilionário que fez uma aposta alavancada no dia que a moeda chinesa iria se desvalorizar. Ele apostou toda a sua fortuna, mas no decorrer do filme não parece nem um pouco preocupado com isso.

  Numa outra cena, dentro da limousine (o filme quase todo se passa dentro do carro), uma prostitua começa a conversar com o protagonista sobre uma igreja e obras de arte. Ele então diz que quer comprar as obras de arte, e ela fala que não se pode querer comprar a história humana, numa discussão interessante sobre se a humanidade possui bens coletivos que não deveriam ser apropriados para uso exclusivamente privado.

   Após quebrar, porque a aposta alavancada contra a desvalorização da moeda chinesa não ter dado certo, o protagonista vai jantar com a sua noiva. Aliás, ela é o antítese dele. Enquanto ele representaria a ultramodernidade, ela parece mais uma sábia saída da academia de Platão. Ele então fala para ela “finalmente estou livre”. Ela replica: “Livre para fazer o que? Empobrecer e morrer?” Que raio de liberdade é essa onde as pessoas vão de extremos a extremos sem a necessária temperança? 

   Agora, a parte final do filme é a mais fantástica e a que mais “indigna" as pessoas pela aparente falta de sentido. O protagonista acaba num apartamento de um conjunto residencial e alguém aparentemente quer matá-lo. Esse alguém é um antigo quant que trabalhou para ele tentando modelar as flutuações do Bath (moeda Tailandesa), mas toda vez que chegava perto de encontrar algo esbarrava em alguma pequena imperfeição que impedia de “descobrir" o segredo da moeda. Num primeiro momento, ele ficou obsessivo com essa imperfeição, mas depois aceitou a beleza da mesma. Esse parágrafo pode parecer sem sentido, mas ele trata de uma ideia muito bacana de que talvez a natureza não seja perfeita, no sentido de simetria (quando se fala em perfeição em física, geralmente se está a falar em simetria).  Há um livro que trata sobre isso, do ponto de vista da física de partículas, chamado Criação Imperfeita, um excelente livro por sinal. Por exemplo, eu, você, o computador que escrevo, todo o nosso universo só veio a existir, pois houve uma “imperfeição" original de uma partícula a mais de matéria em relação a uma partícula de anti-matéria na proporção de 1 para 1 bilhão. Isso é uma imperfeição minúscula (para se ter ideia medidos a quantidade de CO2 na atmosfera em partes por milhão, não por bilhão), mas que proporcionou que tudo viesse a existir. O físico Marcelo Gleiser argumenta então que devemos abraçar a imperfeição, pois ela faz parte do nosso universo e das nossas vidas. 

Um belíssimo livro sobre física de partículas, o universo e no fundo sobre nós mesmos. 



   Enfim, colegas, é um filme muito diferente, mas para mim é um filme que me faz sempre refletir bastante. Um grande abraço a todos!

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

FII X IMÓVEIS PRÓPRIOS - INCONGRUÊNCIAS NO PENSAR E NO PRECIFICAR A VACÂNCIA E DEMAIS RISCOS

Olá, amigos. As histórias da viagem estão começando a ficar muito acumuladas. Hoje mesmo visitei uma atração incrível. Na verdade, é uma atração que deveria fazer parte de qualquer lista de destinos internacionais. Estou falando das maravilhosas Jenolan Caves (alias, enquanto escrevo essas linhas estou me preparando para dormir no parque nacional, está muito frio e não tem absolutamente ninguém no lugar, os termômetros devem ir para o negativo durante a noite e um possum - parece um rato só que umas 10 vezes maior - enorme acabou de passar atrás do meu banco muito perto de mim) . Preciso começar a escrever novamente sobre a viagem, até porque quero que essas histórias sejam o esqueleto de um livro que penso em escrever. Dizem que um homem deve “plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro”. O filho deixarei mais para o futuro, quem sabe não seja a hora de escrever um livro sobre as minhas experiências? Vamos ver. Anyway, prossigo, como no tema do artigo anterior, a falar de imóveis.

As impressionantes Jenolan Caves. Uma atração extraordinária, adoro quando sou surpreendido por algo como essas cavernas. Dizem que este parque possui as cavernas mais lindas do mundo. 


   Vou abordar algo que creio ser um dos maiores equívocos em relação à precipitação de Fundos de Investimento Imobiliário, mostrando a incoerência de uma certa forma de ver esses instrumentos, como a total e completa contradição de como geralmente as pessoas em geral, e os investidores em especial, se compartam em relação a imóveis próprios para renda.

  Pego aqui o gancho de um comentário pertinente feito por um anônimo no meu artigo anterior a se referir sobre alguns riscos de se investir em imóveis próprios para renda. Chamo atenção aqui a dois desses riscos: o risco de vacância e o risco de inadimplência. Analisemos esses dois riscos com mais vagar em relação a imóveis e em relação a Fundos Imobiliários, caros leitores. Comecemos com  o risco de inadimplência.

  O risco de inadimplência está presente muito fortemente no mercado de dívidas (ou renda fixa na maioria dos casos), aliás é o maior risco envolvido dessa espécie de ativo, pois se o devedor não pagar, o ativo, e se não tiver havido pagamentos  periódicos ao longo da duração do título, o valor vai a zero. Sim, se você emprestou dinheiro para uma empresa via debênture incentivada, por exemplo, atraído pelo retorno maior do que o tesouro direto e pela ausência de Imposto de Renda, e se essa empresa falir, muito provavelmente todo o dinheiro investido será perdido (é muito difícil sobrar dinheiro para credores quirografários, que é o caso de quem empresta via debênture, num concurso de credores de uma empresa falida). Logo, esse tipo de risco é central para qualquer análise de compra de uma dívida. Esse risco também se faz presente no mercado imobiliário de renda. Se o locatário de uma sala comercial pequena ou uma grande empresa locatária de algum imóvel pertencente a algum FII não pagarem, o dono ou os quotistas terão prejuízo. Porém, o risco aqui é bem diferente do mercado de dívidas, pois o ativo não vai a zero se não houver pagamento, aliás absolutamente nada acontece com o ativo e a sua capacidade de geração de renda. Esse ponto é óbvio, mas extremamente importante para entendermos o erro de precipitação de vacância em FII.

   Talvez poucos leitores desse blog já tiveram a experiência de alugar um imóvel próprio para alguém. Aliás, sugiro a leitura da série do amigo Investidor 65 onde ele relata a sua experiência com o portfólio imobiliário próprio dele. Além dele ser um blogueiro bem simpático, recomendo a leitura, pois ela é meio que única na blogosfera. Entretanto, muitas pessoas que comentam no blog do Tetzner (para quem não conhece, talvez seja o site mais popular do Brasil sobre Fundos Imobiliários) têm experiência em alugar imóveis próprios. Qual é o diagnóstico na esmagadora maioria dos casos? Muita dor de cabeça com locatário. E uma das fontes de preocupação é sem dúvidas a inadimplência. Não é à toa que quando uma pessoa vai alugar um apartamento, por exemplo, geralmente se faz um monte de exigências, tendo imobiliárias que pedem até mesmo a declaração de Imposto de Renda (o que para mim é abusivo).  O risco de inadimplência também existe nos Fundos Imobiliários, mas além dele ser mais improvável, pois é difícil pensar que uma grande empresa deixará de pagar aluguel, ele é muito mais mitigado. Sobre a mitigação deixarei para falar no próximo parágrafo, sobre a menor probabilidade isso parece claro quando se aluga algum espaço comercial para grandes empresas. Alguém imagina a Ambev dando calote de algumas centenas de milhares de reais num eventual imóvel que ela alugue? É bem mais improvável do que o sujeito X deixar de pagar o aluguel de um apartamento de dois quartos alugado em Curitiba, por exemplo. Se é menos provável, quer dizer que os fluxos de renda de um FII são menos arriscados do que o fluxo de renda de um imóvel alugado para pessoa física. Se assim o é, e isso é apenas a aplicação do conceito entre risco x retorno, o yield dos FII deveriam ser menores do que o yield de locação residencial, ou comercial, para pessoas físicas. Não é isso o que ocorre, e para mim isso é uma inconsistência. 
   
  Entro agora no demo da mitigação do risco, e aqui já se pode falar do risco de vacância. Uma vez um colega veio falando sobre o risco de um prédio cair num FII, sendo isso, não sei, um “cisne negro” ou um “cisne cinza” ou qualquer cor que algum leitor imaginativo possa pensar. Tirando o detalhe de que prédios são segurados contra sinistros e de que o terreno às vezes equivale a uma parcela significativa do valor do imóvel, o simples fato é um Fundo Imobiliário como o BRCR, KNRI, HGRE, HGLG, entre tantos outros, possuem inúmeros imóveis. Assim, seria preciso imaginar uma queda sucessiva de prédios para que o “risco" queda de prédios sem seguro pudesse aniquilar o patrimônio de um FII. Agora imaginem se um investidor possui dezenas de FII, isso fará com que esse investidor seja proprietário, nem que de uma fração minúscula, de centenas de imóveis. Assim, a não ser que haja uma guerra civil sangrenta como a que está acontecendo na Síria, ou algum evento do tipo apocalíptico, fica difícil imaginar centenas de prédios desmoronando. Assim, o “risco" queda de prédio é quase que neutralizado, pois se o prédio cair, se ele não tiver seguro, e de alguma forma o terreno desaparecer, isso representará uma fração do patrimônio do investidor. Agora, o “risco” de um imóvel desabar é muito mais acentuado para quem possui apenas um único imóvel próprio para aluguel. Se ocorrer algum sinistro no imóvel, e o mesmo não estiver segurado, as perdas podem ser substanciais e dolorosas para o investidor.  O mesmíssimo raciocínio se aplica aos riscos de inadimplência e vacância.

   Se um locatário não paga o aluguel de um imóvel alugado para o Senhor X, o fluxo do aluguel do imóvel cai 100%, e se o Sr.X tiver apenas um imóvel para renda, o seu fluxo vai a zero. A mesma coisa, com muito mais força, acontece em caso de vacância. Se o investidor for possuidor de apenas um apartamento para locação e o mesmo ficar vago, o que é muito normal, o seu fluxo de dinheiro vai a zero. E o que acontece com um Fundo Imobiliário? Seja em caso de inadimplência, ou de vacância, é muito difícil o fluxo de dinheiro de um FII ir a zero, principalmente se ele é proprietário de vários imóveis, ou um mesmo imóvel alugado para vários locatários, como é o caso de FII voltado para escritórios. O motivo? Simples. Não me parece ser um cenário provável que todos os locatários de um FII enorme como o HGRE, por exemplo, deixem de pagar os seus aluguéis ao mesmo tempo, ou que todos resolvam desocupar os imóveis no mesmo mês. Pode acontecer? Claro que pode. É provável? Não, não é. Agora, se o investidor possui centenas de imóveis de diversos setores (educacional, hospitalar, logística, industrial, shopping, escritórios, etc) via uma carteira de FII, é praticamente impossível que o fluxo de renda vá a zero. Teríamos que imaginar uma verdadeira depressão econômica profunda onde vários escritórios, shopping, galpões logísticos, etc,  fossem desocupado ao mesmo tempo. Se isso ocorrer, colegas, o que você acha que vai acontecer com as empresas listadas em bolsa? Como disse nesse artigo, os FII se beneficiam da prosperidade econômica do Brasil, mas também são afetados por um crise econômica. Agora, se as empresas não puderem mais pagar aluguel, isso quer dizer que os lucros irão diminuir ou simplesmente desaparecer. Se isso ocorre, o mercado acionário simplesmente colapsa. Se as empresas não lucrarem por um período prolongado de tempo, de onde irão virão os tributos para que o governo possa pagar a sua dívida? Se isso ocorrer, nem os títulos comprados do tesouro direto ficarão incólumes. Aliás, absolutamente nada ficaria sem sofrer, a não ser ativos que funcionam como reserva de valor como o ouro para todos os investidores, e o dólar para o caso de investidores brasileiros como nós.

   Logo, a chance de um fluxo ir a zero é remota numa carteira diversificada de FII, mas ele é relativamente alta para um investidor imobiliário de poucos ou apenas um imóvel próprio. Se assim o é, os FII deveriam ter um yield menor do que imóveis próprios para locação, mas eles não o tem, o que para mim é uma inconsistência do mercado.

   Sendo assim, a vacância é um risco muito menos impactante para um FII, e muito menor ainda para um investidor bem diversificado na classe de ativo, do que é para o proprietário de um imóvel próprio. Entretanto, não é assim que a absoluta esmagadora maioria dos investidores pensam e agem, o que não faz muito sentido do ponto de vista financeiro. Isso faz com que quando uma vacância é anunciada num FII a sua cotação despenque muitas vezes mais de 10%. Há lógica nisso? Eu creio que não. Vamos supor um FII que possua dezenas de imóveis e dezenas de contrato de locação pague uma renda e R$ 1,00 a quota. O yield, para fins de facilitar o exercício, é de 1% am, sendo assim a quota vale R$100,00. Num determinado momento, um locatário importante, responsável por 10% das receitas financeiras, anuncia que irá desocupar algum imóvel do fundo. Suponha-se também que o o yield médio de FII do setor seja de 1% am. O rendimento da cota irá cair para R$ 0,9, o que fará com que o yield caia para 0,9% am. Muitas pessoas, e são muitas mesmos, raciocinam que então a quota deverá cair para R$90,00, para compensar a vacância e para que o yield do fundo possa ficar no mesmo patamar de outros fundos do mesmo setor.  Isso não faz o menor sentido.

   Imaginem nobres leitores que a quota do nosso FII tenha caído de R$100,00 para R$90,00. Dois meses depois, o FII anuncia a locação do espaço vago, com quatro meses de carência, fazendo com que o rendimento retorne para R$1,00 a quota. Ora, a quota teria que subir novamente para R$100,00, para que o yield permanecesse em 1%. Porém, quem comprou a quota a R$90,00, teria um retorno em poucos meses de mais de 10%. Se nós pararmos para pensar, mesmo que o fundo ficasse 3 anos sem alugar o espaço vago, se a quota voltar ao patamar de 1% quando do aluguel, o retorno para quem comprou a quota a R$90,00 (uma estratégia também conhecida como comprar vacância) terá um retorno maior de quem permaneceu num fundo pagando 1% am durante todo o período. 

    Aliás, se aplicássemos a lógica, se o FII que distribui R$ 1,00, parasse de distribuir, a sua quota deveria ir a zero. Porém, não faz sentido, não é mesmo? Isso já aconteceu com diversos FII que pararam de distribuir rendimento, e a quota desabou até certo patamar, mostrando que aparentemente a vacância, ou a falta de fluxo, deve ser penalizada até um certo limite.  Porém, a miopia dos investidores que se desesperam com vacância fica mais evidente se formos comparar com o que ocorre em relação a imóveis próprios.

   Imaginem que o Sr. x comprou um sala comercial por R$ 400.000,00 , que já estava alugada pelo valor de R$ 2.400,00 por mês,  no ano de 2012. Um negócio normal não? Em março de 2015, o contrato de locação vence, e o locatário não renova. A renda do Sr. X com o imóvel vai a zero. Faria sentido ele vender a sala comercial por R$ 240.000,00 em abril de 2015 porque o imóvel está a dois meses sem dar nenhuma renda, pelo contrário está tendo despesa em IPTU, condomínio e luz, ou seja, o fluxo está negativo?  “Não, Soulsurfer, claro que não! Quem fizesse isso estaria queimando dinheiro!” pode pensar a maioria dos leitores. Se assim o é, por qual motivo o valor de uma quota de um FII deveria despencar 40% se o fluxo de renda diminuísse em 30 ou 40%, por exemplo? Por qual motivo um investidor pessoa física deveria pensar em vender essa cota? Vejam, no caso do FII é ainda mais inexplicável, pois o fluxo apenas diminuiu, não caiu a zero (na verdade negativo) como no caso de um único imóvel próprio.

   A verdade, colegas, é quem mexe com imóveis para renda sabe que a vacância e o inadimplemento vem junto com o pacote, fazem parte da vida normal de qualquer imóvel. Nenhum investidor em imóveis próprios vai para frente se ficar desesperado com vacância, inadimplência, ou pior ainda, com notícias sobre o mercado financeiro sobre as quais não possui qualquer controle ou influência. Pelo contrário, um investidor imobiliário para renda ficaria bem feliz de encontrar um Senhor X pela frente vendendo a sua sala comercial por R$ 240.000,00. Para valores inferiores a esse, podem ter certeza que terá muitas pessoas como eu próprio dispostas a comprar a sala para vendê-la num momento mais oportuno. 

    Logo, não se desespere com vacância num FII (inadimplência não é um problema usual em fundos). Preocupe-se em escolher bem os fundos imobiliários e montar uma boa estratégia para fundos imobiliários. Se uma determinada vacância ocorrer, veja se isso terá um impacto significativo no fundo, e mais importante na sua carteira como um todo. Procure avaliar se o imóvel possui condições ou não de superar eventual vacância, mas isso  na bem da verdade já deveria ter sido feito quando você estudar os fundos imobiliários que devem ocupar a sua carteira. O que é importante é ter bons fundos com bons imóveis. Vacâncias sempre irão ocorrer, mesmo em imóveis muito bons e extremamente bem localizados. Se por ventura uma vacância ocorrer, você achar que o imóvel é bom com boas perspectivas no médio prazo, então, e olha que eu não gosto de fazer isso aqui no blog, uma estratégia de comprar vacância talvez possa ser boa, desde que não prejudique a sua alocação em outras classes de ativo e nem exponha demais a um determinado segmento de FII ou a um determinado fundo. 


Uma pequena amostra da beleza das cavernas. Esta foto foi tirada no interior da Orient Cave. Há uma “sala" chamada Persian Chamber que é uma das coisas mais lindas que já vi na vida.



      Lembram-se do Possum passando atrás de mim na noite gelada? Pois então, o texto ficou pronto no dia de hoje. Quando escurei completamente ficou uma barulheira de animais, pudera estávamos no meio do mato. Lá pelas 11 da noite, sou acordado por um barulho de pancada no vidro bem atrás onde nós dormimos. Como bom brasileiro, já que estávamos completamente sozinhos, pensei na hora “caraca, vamos ser assaltados”, quando abri a cortina tinha um possum enorme estatelado no vidro olhando para mim. Nossa, que alívio. Acho que esses animais caem com frequência das árvores (eu vi um caindo num parque em Sydney). A lição a ser tirada é que quando se ouve um barulho no vidro do carro onde se está dormindo num parque nacional da Austrália, é mais provável que seja um possum caindo do céu do que um assaltante com uma arma em punho!

  
Hoje no café da manhã, um casal lindo de papagaios nos fez companhia. A integração de animais selvagens com seres humanos na Austrália é impressionante. Nunca vi nada parecido.

  É isso colegas, um grande abraço a todos!