sábado, 14 de junho de 2014

BIBLIOGRAFIA - INDICAÇÕES DE LIVROS SOBRE INVESTIMENTO - PARTE 1

                Olá colegas!  A colega Paris2022  perguntou sobre alguma indicação bibliográfica. Vou fazer um passeio sobre os livros de finanças em português, mas também em Inglês (infelizmente a literatura de mais profundidade apenas em língua inglesa). Alguns dos livros citados eu não li, mas como já vi referências sobre eles, irei citá-los mesmo assim.

LIVROS  PARA QUEM PENSA CONSIGO MESMO “DO QUE ELES ESTÃO FALANDO?”

                Aqui são livros destinados a pessoas que nunca pensaram seriamente sobre educação financeira. Provavelmente, essa é a fase mais importante da educação financeira de uma pessoa. É o momento que vários insights serão formados, que a pessoa poderá perceber que altos salários não necessariamente redundam em altos patrimônios, e que devemos concentrar em ter ativos, não passivos. São vários livros nessa linha, cito alguns:




- “Pai rico, Pai pobre” de Robert T. Kiyosaki
É um livro criticado por alguns pela ausência de profundidade. Entretanto, um livro desses tem que ser tudo, menos profundo. É um bom livro para as pessoas começarem a meditar sobre atitudes financeiras mais inteligentes.

- “Investimentos” de Mauro Halfed
Esse é um livro diferente do “Pai Rico, Pai Pobre”, e foca mais em explicar alguns veículos financeiros, não tem a pretensão de discorrer sobre conceitos mais gerais como o livro citado.  É um livro interessante e pode ser lido em algumas horas. O autor sempre comenta na CBN sobre finanças (quando vai se aprendendo um pouco mais sobre finanças, percebe que o comentarista às vezes fala algumas bobagens, mas como educação financeira os comentários são bons).




- livros Conrado Navarro
Depois do Mauro, o Conrado é o mais conhecido educador financeiro. Há vários livros dele, eu li apenas metade de um, não me lembro qual, quando estava na livraria esperando alguma coisa. São livros razoáveis para quem está começando a jornada em educação financeira.




- “O milionário mora ao lado” de Stanley e Danko
Este livro eu nunca li, mas há pessoas que falam bem a respeito. Pretendo ler, pois pelo que li em algum lugar é mais um estudo sociológico do que um livro na linha de “Pai Rico, e Pai Pobre” – que não tenho nenhuma vontade de ler mais algo parecido.

                

     
          Há muitos outros livros nesse nicho. Não há qualquer necessidade de ler mais de dois ou três livros nessa categoria.


LIVROS PARA INICIANTES


                Aqui já são livros para quem já aprendeu a importância das finanças em sua vida, e quer começar a desvendar o mundo aparentemente complexo por trás de números e nomes complicados como Fundos Imobiliários, Debêntures, derivativos, etc. Há muitos livros para se ler também, e felizmente livros em português.




- “Investindo em Small Caps” de Anderson Lueders
Esse é o livro do amigo Anderson. Já li duas vezes, e é muito bem escrito e organizado. Aqui, a pessoa pode ter um primeiro contato com métricas fundamentalistas (P/L,P/VP, margens, etc) de uma maneira fácil de compreender. É um bom ponto de começo, antes de ler outros livros.





- “O Investidor Inteligente” de Benjamim Graham
                Esse aqui é um clássico da década de 60. Deveria ser lido por todos que querem investir, principalmente de forma ativa. O autor foi o primeiro, pelo menos de forma sistemática, a analisar ações por meio de filtros prévios fundamentalistas, e a considerar que as ações poderiam ter preços justos, o que leva a ações estarem sobre ou sub avaliadas. O seu grande livro é “Security Analyses” escrito na década de 30, porém este livro é mais técnico e não possui tradução para o português. 




- “Ações comuns, Lucros extraordinários” de Philip Fischer
                Esse é um  livro clássico de Philip Fischer da década de 50. Para quem não sabe, Fischer foi um dos mentores de W.Buffett. Foi dele que o nosso amigo de Omaha veio com a máxima “empresas com vantagens competitivas a preços razoáveis”.  O Graham queria comprar ações baratas, o Fischer não se importava em pagar múltiplos esticados, mas não muito, se a empresa fosse, baseado em seus critérios que são bem objetivos (não é algo meio que subjetivo de dizer que uma empresa é simplesmente "boa" e deve a atender a critérios do investidor, sem especificar quais seriam estes), muito boa. O Buffett resolveu pegar o melhor dos dois mentores, e veio com empresas com vantagens competitivas a preços razoáveis (atenção, não a qualquer preço).
Ótimo livro. Recomendo a leitura.


- Faça Fortuna com ações, antes que seja tarde” de Décio Bazin e “O mercado acionário em 25 episódios” do Paulo Portinho
                Eu não li esses dois livros (apenas uma parte do livro do portinho). Entretanto, sempre ouvi falar muito bem desses livros, e creio que seja uma boa leitura. O portinho possui um blog, e é um cara que entende bastante sobre o mercado. Os livros, pelo que já ouvi falar, tratam do mercado acionário com uma abordagem simples para quem ainda não está habituado.






- “Warren Buffett e análise de balanços” de Mary Buffet
Este é um livro simples que se pode ler em duas horas. É interessante para quem nunca se deparou com uma balanço de uma empresa e nunca teve que refletir a respeito. Porém, este livro está longe, em minha opinião é claro, de ensinar qualquer estratégia que já não esteja devidamente precificada. Basta refletirmos se a leitura de um livro em duas horas seria suficiente para descobrimos “jóias” escondidas no mercado acionário, com suas vantagens competitivas duráveis a preços razoáveis. Parece-me que estaríamos nos auto-enganando. As coisas são simples, mas não tão simples.  Entretanto, é um bom livro para quem está começando a ler sobre investimentos.




- “O jeito Peter Lynch de investir” de Peter Lynch
                Eu não li esse livro, mas pretendo.  O nosso amigo Além da Poupança gosta bastante dele. Pelo pouco que sei o Lynch gosta de empresas de crescimento com desconto nos múltiplos (e quem não gosta?), o que na verdade nada mais é do que empresas com PEG  (PRICE/ERNIGNS/GROWTH) baixo. Deve ser uma boa leitura.





Há inúmeros outros livros como “Bola de Neve”, “O Jeito Ken Fischer de investir”, etc. Entretanto, a partir de certa leitura, os livros talvez começarão a se tornar repetitivos. Logo, não há necessidade de ler todos os livros aqui listados.


LIVROS INTERMEDIÁRIOS

                Estes já são livros para quem compreendeu os fundamentos do funcionamento do mercado de capitais e seus conceitos básicos e deseja se aprofundar em temas um pouco mais complexos. Há alguns livros traduzidos para o português, mas boa parte da literatura é em língua inglesa.




“Investindo em ações no longo prazo” do Jeremy Siegel
                Este é um livro interessante do professor Jeremy Siegel. Muitos dados são apresentados, e é muito trabalhado no livro a questão de prêmio pelo risco (equity premium se falarmos do mercado acionário). É uma boa leitura para se acostumar com alguns dados históricos do mercado.






- “Valuation – Como precificar ações” do Alexandre Póvoa
                Este é o único livro brasileiro nessa categoria. Foi escrito por um gestor financeiro de banco, se não me engano. Aborda a forma de tentar encontrar o valor intrínseco de uma ação de uma forma bem didática. O livro é bacana, e a primeira parte é dedicada a análise de alguns filtros fundamentalistas, sendo que o restante do livro é devotado a valuation.






-“ All About Asset Allocation”  do Richard Ferri
                 Um ótimo livro que trata sobre alocação de ativos. Por qual motivo matemático e lógico devemos diversificar? O livro tenta responder essa pergunta, e por meio da introdução de conceitos como fronteira eficiente, volatilidade dos retornos, portfólio otimizados, muitos conceitos interessantes são apreendidos.







- “The Intelligente Asset Allocator”  do Willian Berstein
                Livro que também trata sobre asset allocation do conhecido Berstein.  É um livro um pouco mais aprofundado do que o de Ferri, com alguns insights bem interessantes. Creio que a leitura de ambos os livros é suficiente para se ter uma boa noção do cabedal teórico do asset allocation.








-  “The Quest for Alpha” do Larry E. Swedroe
                Esse é um livro bacana que foca única e exclusivamente em analisar se a busca por alpha (termo utilizado no mercado financeiro para retornos em excesso, depois de ajustado pelo risco, sobre um determinado benchmarket) produz resultados ou não. O autor analisa dezenas de estudos sobre fundos de pensão, fundos hedge, fundos de investimento e investidores individuais. Os dados são aterradores de como uma estratégia ativa é derrotada, por larga vantagem, por uma simples gestão passiva. Em relação aos investidores não profissionais então (pessoas físicas)  a diferença é absurda. Todos aqueles que acreditam no mantra da gestão ativa como escolher “boas empresas” deveriam ler este livro para ao menos refletirem para saber se horas dedicadas a análise de empresas e balanços realmente produz algum resultado satisfatório, principalmente se levarmos em conta o custo de oportunidade.


-  “A random Walk Down Wall Street”  do Burton G. Malkiel
                O livro é um clássico da década de 70. É uma leitura bem bacana sobre diversas teorias, sobre mercados eficientes, sobre como analisar P/L de uma maneira mais profunda, sobre como graus de precificação elevados podem alterar retornos esperados (algo bem mais complexo que é tratado de forma mais sistemática em  livros mais avançados) e muitos outros tópicos. Recomendo bastante a leitura.






- “What Has worked in investing” – paper da Tweedy and Browne company
                Esse é um paper interessantíssimo feito por uma firma de investimento acerca do que tem provado ser a melhor forma de se investir. O paper advoga os retornos superiores de uma estratégia baseada em valor, baseando-se para tanto em dezenas de estudos feitos em diversas partes do mundo. É muito interessante mesmo, principalmente para mim o estudo que trata de yield e payout, que para mim é um dos grandes filtros fundamentalistas que atualmente eu dou grande prevalência.


-  “Value Averaging” do Michael E. Edleson
                Não, colegas, comprar sem se importar com o preço não é algo nem remotamente novo. São estratégias há muito tempo conhecidas como DCA (dollar cost averaging – a todo período pré-determinado compra-se o mesmo valor em dólar – no nosso caso seria em reais) ou Value Averaging (a cada período se faz com que o investimento cresça por um determinado valor pré-determinado). O livro creio que é de muita valia para quem quer comprar sem olhar a cotação (apesar de funcionar melhor com ETF), pois o DCA é até razoavelmente conhecido, mas o value averaging não, e esta forma de investir produz retornos maiores do que um simples DCA. O autor trabalha muitas variáveis, e é uma leitura interessante.



-“Mitos de Investimento” do Damodaran
                É um livro bem interessante e aborda alguns “mitos” de investimento, como vale a pena investir em empresas com baixo P/L e baixo P/VP? A estratégia contrária (ou seja comprar quando caiu ou vender quando subiu) possui alguma vantagem? É um livro relativamente simples, mas bacana por tentar abordar essas perguntas usuais de uma maneira mais sistemática.

           


 Há muitos outros livros nesta categoria. O Berstein tem inúmeros (Against the Gods,  The investor´s Manifesto, etc), por exemplo, e há vários outros autores. Meu intuito não foi fazer uma revisão completa, até porque seria humanamente impossível, mas apenas apontar alguns livros para se dar uma panorâmica um pouco mais completa dos mercados financeiros.


                É isso aí, na continuação falo de livros avançados, livros sobre finanças, mas com outros enfoques e um pouco sobre literatura em FII.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

COPA - COMEÇAMOS MAL...


                Colegas, estava terminando o meu artigo sobre recomendações de leitura, mas depois dos acontecimentos de ontem, resolvi escrever sobre minha visão. Vou escrever sobre três fatos que infelizmente para mim denotam muitas características atuais da nossa sociedade brasileira.

                Primeiramente, foi o quase “boicote” para algo simplesmente fabuloso. Refiro-me ao exoesqueleto fruto do trabalho da equipe do professor Miguel Nicolelis. Para quem não sabe, este cientista é o mais cotado para ser o primeiro brasileiro a ganhar um prêmio Nobel, e se o fizer será na área da ciências, e não em prêmio como de literatura e paz (que são importantíssimos, e geralmente são os únicos prêmios que pessoas de países mais pobres ganham). O trabalho dele é interessantíssimo e está na vanguarda da ciência. Ele trabalha a interface homem-máquina, e este brasileiro pode dar contribuições absolutamente fabulosas para a humanidade.  Além do mais, Nicolelis possui um projeto educacional interessantíssimo sendo realizado no Nordeste. A ideia dele é levar ensino de alta qualidade para regiões carentes educacionalmente falando. Em suma, o cara é um brasileiro para se ter orgulho e tirar o chapéu.

                                              Miguel Nicolelis, grande cientista brasileiro

                Pois bem, lembro de uma entrevista dele no roda viva da TV cultura há uns anos atrás, ele dizendo que se empenharia bastante para fazer com que um tetraplégico desse o pontapé inicial para a copa do mundo usando um exoesqueleto montado por sua equipe. Para mim, esse seria o auge da abertura da copa, mostrar para o mundo que o Brasil estava mudando, que nós somos capazes de produzir conhecimento científico de alta qualidade. Para minha completa frustração, não só esse ato sensacional não foi destaque, como ele não foi sequer televisionado.  Isso me deu uma tremenda tristeza.  Ficamos uns bons cinco minutos mostrando uma música chata e repetitiva (logo  nós que possuímos uma riqueza musical que nenhum outro país do mundo tem), com dois estrangeiros cantando em inglês em PlayBack, e uma brasileira rebolando até o chão. Ficou muito claro para o que os brasileiros dão importância e relevo, e a ciência e o conhecimento não estão nem de longe em primeiro plano.

Experiência fantástica. Há centenas de eletrodos conectados ao cérebro do rapaz, esses dispositivos "traduzem" a atividade eletromagnética do cérebro para estímulos que movimentam um exoesqueleto mecânico.

                O segundo fato lamentável foi o coro xingando com palavras de baixo calão a presidente da república. Ah, Soul, eu não gosto do PT, não gosto do governo, para mim estão fazendo um monte de bobagem, fazendo o Brasil retroceder, tem que protestar mesmo. Colega, eu tendo a concordar com quase tudo.  Creio que temos, enquanto sociedade e cidadãos, que mostrar nosso descontentamento.  Porém, há uma grande distância entre falta de respeito e baixo nível com um protesto legítimo.  Gostemos ou não, a Presidente Dilma estava naquela solenidade representando o Brasil.  Receber vaias seria do jogo democrático, ofender com xingamentos apenas demonstra com nós estamos regredindo no debate político no Brasil a olhos vistos.

                No filme tróia, quando o Rei de Tróia vai pedir a Aquiles que devolva o corpo do seu filho Hector para que ele possa ter um enterro digno, Aquiles diz que se ele entregasse o corpo do filho do rei, isso não representaria que eles não voltariam a ser inimigos no outro dia. O rei responde que eles continuariam sendo inimigos mesmo naquela oportunidade, mas que mesmo entre inimigos deve haver respeito. Se é necessário haver respeito mesmo entre inimigos de guerra, e é por isso que existe uma convenção internacional sobre condutas aceitáveis ou não na guerra – A Convenção de Genebra-, é mais claro ainda que deve haver respeito entre adversários políticos. Quando  o respeito é perdido, a possibilidade de diálogo diminui. Se o diálogo não é mais possível, a única forma de resolução de conflitos é pela violência. Se o conflito é grande e a sociedade é polarizada, isso descamba em guerra civil.

                Portanto, o respeito é fundamental para evoluirmos enquanto humanos e sociedade. O fato de alguns brasileiros terem xingado a própria presidente para todo o mundo assistir, apenas demonstra  a agressividade cada vez mais latente em nossa sociedade, bem como um total despreparo para conviver com o outro, algo que é cada vez mais fundamental em sociedades urbanas cada vez mais complexas. Eu imagino o exemplo que um pai ou uma mãe deram ontem ao xingar uma pessoa na frente de seus filhos. É assim que queremos construir um país melhor?

                Não gosta do governo, ou do partido que está no poder? Ótimo. Em outubro teremos eleições, participe do processo, tente influenciar positivamente outras pessoas, procure se informar. A polarização crescente do nosso debate político (coxinhas x petralhas, PIG, imprensa golpista, etc, etc) com críticas de caráter unicamente subjetivo (que são verdadeiras falácias) e não discussões de idéias apenas vai produzir um país pior.  Precisamos voltar a debater idéias no Brasil, se quisermos superar o desafio da renda média, como bem ilustrado pelo Troll no seu último artigo, e caminhar para um desenvolvimento social, econômico e humano desse país.

                Por fim, sabemos que o futebol brasileiro sempre foi de “malandragem”. Boa parte das pessoas até mesmo enaltece esse comportamento. Porém, convenhamos que isso não é das práticas éticas mais recomendadas. O jogador Fred ao simular um pênalti mostra que a tendência do brasileiro de se aproveitar da ingenuidade, credulidade ou erro de outras pessoas ainda está bem viva entre nós.  Ah, Soulsurfer, é do jogo, isso é viagem sua. Sim, pode ser do nosso jogo, mas não é algo comum de ocorrer em outros países, principalmente os europeus.  O problema é saber se esse tipo de comportamento não pode ser um mau exemplo para muitas outras pessoas que podem associar que é justificável certas atitudes de caráter ético duvidoso para obter algum fim específico. Como desejar transparência e seriedade na política, se talvez nós não nos comportamos assim no dia a dia? Tal fato se mostrado para todo mundo numa abertura de copa do mundo, apenas escancara o problema.

Fred desabando como um saco de batatas largado sobre a influência da gravidade. Precisamos realmente disso?

                Enfim, colegas, não gostei muito do que eu vi na abertura da copa. Vamos ver como se desenrola o resto do campeonato.


          Abraço a todos!

quarta-feira, 11 de junho de 2014

REFLEXÃO - VIDA, A PERGUNTA FUNDAMENTAL

                Olá amigos! Soulsurfer um pouco baleado por uma cirurgia feita na segunda-feira. Ficar de molho por alguns dias. Resolvi escrever, mas não vou me alongar muito em nenhum tópico. O pequeno artigo de hoje é sobre uma reflexão fundamental na vida de qualquer pessoa.

                Há um monge budista vietnamita chamado Thich Nhat Hanh que eu admiro bastante. Perguntaram para ele o que ele achava sobre a condição humana atual. A resposta dele foi  simples e brilhante ao mesmo tempo, e foi contada em forma de uma pequena história. Havia um homem cavalgando muito rápido sobre uma estrada. Um amigo deste homem intrigado por qual motivo o mesmo cavalgava de maneira tão rápida, perguntou para onde ele estava indo, sendo que o homem respondeu “não sei”, “pergunte ao cavalo”. Essa descrição, meus amigos, foi a mais perfeita que já vi sobre a condição humana atual.

                Você sabe onde está indo, ou está sendo conduzido de maneira inconsciente pelo cavalo (uma metáfora para a vida)? Os valores que você busca são seus, ou de alguma maneira foram aceitos acriticamente? Para responder a essa dúvida fundamental, eu criei a seguinte pergunta e exercício mental: SE EU TIVESSE APENAS MAIS TRÊS ANOS DE VIDA, A MINHA VIDA MUDARIA  COMPLETAMENTE, MUITO OU  POUCO?

                Por que razão escolheu o prazo de três anos Soul? Se o prazo fosse muito curto como um mês, parece-me claro que a vida iria modificar radicalmente, por mais satisfeita que a pessoa pudesse estar com a sua vida, afinal seria apenas mais um mês de existência. Se o prazo fosse muito longo, como 10/15 anos, uma pessoa não satisfeita com a sua vida poderia talvez continuar na mesma rotina, já que o mal morte ainda estaria localizado num futuro longínquo

             Logo, três anos não é um prazo longo, se fosse a sua vida em jogo, mas também não é um prazo curto. Portanto, assim evitam-se extremos de hedonismo radicalizado, no caso de prazos muito curtos, e imobilismo, no caso de prazos muito longos. Se a alguém fossem dados apenas mais três anos de vida, essa pessoa teria que refletir profundamente sobre os seus relacionamentos, seus objetivos, seu trabalho, enfim sua vida na totalidade.

                E você? Mudaria completamente a sua vida? Então, amigo, sua vida não está equilibrada, e quem, infelizmente, está conduzindo a sua vida é o cavalo, não você. Mudaria algumas coisas, mas no cômputo geral seguiria o rumo que tem tomado? Parabéns, isso mostra que você tem uma vida razoavelmente plena, precisando talvez de alguns ajustes apenas.  Foi ao fazer essa pergunta há alguns anos atrás que percebi que minha vida precisava de mais reflexão, e que precisava fazer ajustes para ter uma vida mais satisfeita comigo mesmo.

                Fica aqui a provocação, não esquecendo nunca que talvez daqui a três anos não estejamos vivos, e nunca é cedo demais para refletir sobre quem realmente está no controle das nossas vidas, bem como para onde nós realmente desejamos ir.

                                         Um grande homem: Thich Nhat Hanh

             Grande abraço a todos!


quarta-feira, 28 de maio de 2014

SERVIÇO PÚBLICO - TUDO O QUE VOCÊ NUNCA QUIS SABER

                 Olá, colegas! Depois de um artigo mais técnico, vou escrever sobre algo mais tranqüilo e pouco abordado. É claro que as visões externadas são eminentemente pessoais. E aí, serviço público é a panaceia para todos os seus males? Vamos falar sobre os vários aspectos do tema.

                Ser um Juiz Federal, ou um promotor, quem não gostaria? Dois meses de férias, mais o recesso de final de ano, salário bruto na ordem de 22/23 mil, respeito, reconhecimento social, diversas vantagens funcionais. É o suprassumo da atividade profissional, o desejo de tantos. A outra moeda de cargos tão prestigiosos é que são carreiras que envolvem muita responsabilidade, pois se mexe com interesses relevantes de toda a sociedade. Entretanto, os cargos públicos nessas profissão são a minoria da minoria. A massa dos servidores públicos muito provavelmente se ocupa de funções eminentemente burocráticas.

                Quais são as vantagens de se trabalhar para o Estado Brasileiro em suas três esferas (com maiores vantagens em média para os funcionários da esfera federal)? Essa é fácil Soul! Estabilidade, segurança, cargas horárias não tão pesadas como na iniciativa privada e salários em média mais altos. Poxa, segurança e salário mais alto? Nós que gostamos de finanças já estranhamos essa equação, pois, e o tema do artigo anterior foi exatamente sobre isso, se há segurança o salário deveria ser mais baixo, se a insegurança é maior o salário deveria ser mais alto. Aqui, já encontramos algo diferente, o “almoço grátis” do serviço público brasileiro onde a segurança é, em média, mais premiada do que a insegurança da iniciativa privada.

                Não é à toa que os serviços públicos são um verdadeiro ímã para tanta gente e com razão. Há casos de cargos de analistas, com função não tão complexa, recebendo salários que engenheiros com alta especialização às vezes não ganham na iniciativa privada. Aqui, colegas, o nosso sistema se mostra muito ineficiente na alocação de recursos na sociedade.  Soul, você ta querendo dizer que os servidores públicos devem ganhar pouco, mas você não trabalha para o governo? Não, o meu ponto não é esse. A toda evidência os serviços públicos são essenciais em qualquer país. A polícia parou em Recife e um estado de guerra de todos contra todos (como diria o querido filósofo político do século XVII Hobbes) se instalou. Quer uma sociedade sem um Judiciário independente? Até você ser acusado injustamente de algo que não cometeu.  Logo, são necessários serviços públicos, e é necessário que haja pessoas qualificadas para exercer essas funções.

                Porém, e o século passado nos mostrou claramente, a inovação, a criação de riqueza, vem de atividades eminentemente privadas.  Logo, faz sentido que as iniciativas privadas sejam incentivadas, inclusive financeiramente, para que um país possa prosperar. Se todas as pessoas preparadas de um país resolverem trabalhar para o Estado, por causa de incentivos exagerados para o serviço público, me parece claro que teremos um problema na criação de riqueza e no empreendedorismo de qualidade na  nação. Mas, o meu artigo não é sobre alocação de recursos numa sociedade, é sobre os aspectos pouco comentados do serviço público, principalmente para quem nunca fez parte da “Máquina”.

                Antes de adentrar mais no assunto, faço uma pequena digressão. Há um livro, já citado por mim no meu primeiro artigo http://pensamentosfinanceiros.blogspot.com.br/2014/01/ola-todos-mais-um-blogsobre-financas.html, chamado positivamente irracional que descreve uma experiência interessantíssima. Cientistas dividiram pessoas  em dois grupos. Aos dois grupos foram dados bonecos tipo LEGO para serem montados. Para o primeiro boneco montado seria pago um dólar, no segundo boneco 90 centavos de dólar, e assim sucessivamente. Logo, a utilidade financeira para cada boneco montado ia caindo à medida que mais bonecos fossem montados. A diferença fundamental entre os dois grupos, é que um grupo não teria os bonecos desmontados, ou seja os bonecos iriam ficar um ao lado do outro, já no outro grupo a cada boneco montado o mesmo ia ser desmontado.  O resultado excepcional encontrado foi que o primeiro grupo montou uma média muito maior de bonecos do que  o segundo grupo, creio que a desproporção foi mais de 100%.

               Livro muito bacana, recomendo a leitura, já que a mesma é fácil e agradável.

                Esse Soulsurfer, o que ficar montando bonecos LEGO tem remotamente a ver com serviço público? Amigos, essa experiência é a demonstração cabal de que o ser humano precisa de sentido em qualquer atividade produtiva. O  fato dos pesquisadores desmontarem os bonecos na frente da pessoa que tinha acabado de montar o mesmo, o simples fato da pessoa ver o seu trabalho (por mais simples que fosse como montar um boneco) sendo destruído, e não vendo nenhum resultado prático, mesmo que ela estivesse sendo remunerada para realizar a atividade, fez com que a mesma se desinteressasse pela tarefa num grau muito mais intenso do que uma pessoa do outro grupo.  Isso mostra que o sentido na atividade era tão ou mais importante do que a remuneração obtida pela atividade.  Isso é um resultado para pararmos e pensarmos bastante sobre nossas vidas e o que estamos fazendo com elas.

                Se pessoas ficaram frustradas a ver simples bonecos sendo desmontados, imagina o grau de dano que uma atividade repetitiva onde a pessoa não vê nenhum significado naquilo que faz pode causar a uma pessoa no longo prazo, depois de 25/30 anos realizando essa mesma atividade? Eu creio que as frustrações podem ser profundas.  A  maioria das atividades de serviço público envolve pessoas fazendo atividades repetitivas onde às vezes é muito difícil se extrair um sentido mais profundo naquela tarefa. Isso para mim é a causa de grande frustração de muitas pessoas no serviço público, e a causa da maioria das lutas dos servidores ser focada  quase que exclusivamente por aumento de salário.

                Não é brincadeira, a quantidade de pessoas frustradas que eu já conheci é enorme. A quantidade de pessoas que apenas pensam na aposentadoria, mesmo faltando 10/15 anos é gigantesca. Como essas pessoas às vezes não conseguem extrair um sentido mais profundo do seu trabalho, o foco é quase sempre  apenas para aumentar o salário. Para mim é a mesma fuga que a sociedade moderna dá para todas as suas frustrações e ansiedades: cada vez mais consumo. Está triste? Compre um IPAD. Não se relaciona bem com sua comunidade? Compre um carro de 100 mil reais (e nós que entendemos um pouco de finanças sabemos como um carro caro, num patrimônio pequeno, pode ser uma verdadeira draga financeira).  Portanto, é muito normal ver pessoas com salários muito razoáveis para padrões brasileiros descontentes e frustradas no serviço publico.

                Por isso, qualquer jovem com uma boa formação acadêmica, com um gás de querer aprender e fazer, deve, em minha opinião, ponderar esse aspecto do serviço público.  Além do mais, o serviço público pode ser lugar para climas desagradáveis de trabalho.  Isto num primeiro momento não parece fazer sentido, pois todos são estáveis, todos tem o salário garantido e não haveria razão para ter um clima ruim de trabalho num ambiente sem a competição natural da iniciativa privada. Porém, em alguns casos, a história pode ser outra.

                Talvez como, apesar dos salários e estabilidade, há uma frustração grande em muitos servidores, isso cria um ambiente propício para a deterioração do  ambiente de trabalho.  Muitas chefias no serviço público são eminentemente políticas e não necessariamente lá estão por competência técnica, e ao lado dessas chefias sempre orbitam as pessoas “leais ao poder”, mesmo que o cargo de chefia seja um nível hierárquico baixo (eu fico só imaginando o "puxa-saquismo" que não deve ser nos altos cargos de poder). Pegue pessoas frustradas por não ver sentido naquilo que fazem que só pensam na aposentadoria daqui 20 anos no futuro, chefias políticas, pessoas que querem apenas agradas essas mesmas chefias, e a possibilidade de se criar um ambiente de trabalho insalubre do ponto de vista emocional está formada.

                Há diversas pesquisas que mostram que altos salários não é o principal fator de satisfação numa atividade profissional, a título de exemplo cito apenas uma http://www.administradores.com.br/noticias/carreira/jovens-da-geracao-y-preferem-oportunidades-em-empresas-internacionais-a-altos-salarios/56443/.  É claro que salário é importante, mas a partir de um limite, o salário começa a ter, para usar um jargão econômico, uma utilidade marginal cada  vez menor, sendo que outros aspectos se tornam muito mais importantes.  Deve ser por isso, e não sou sociólogo ou psicólogo mas arrisco um palpite, que em países ricos como Austrália, Noruega, Nova Zelândia as pessoas são mais felizes.  Nesses lugares, não é preciso ser médico, advogado, engenheiro, servidor público, para ter uma vida digna. Talvez outras profissões mais “alternativas” ofereçam a possibilidade de se ganhar um salário menor do que um advogado bem sucedido, por exemplo, mas mesmo assim suficiente para ser ter as necessidades atendidas. Não há nada de errado em querer seguir essas profissões mais tradicionais, pelo contrário,  o que parece ser errado no nosso país é apenas essas profissões trazerem um retorno financeiro razoável para se ter uma vida digna.

                Afinal, depois de ter um teto e comida garantidos, não é muito melhor acharmos algo para fazer que nos deixe satisfeito intelectual e emocionalmente? Eu creio que sim.   Portanto, amigos, é claro que não há só frustração e intrigas no serviço público, é evidente que muitas pessoas são satisfeitas, e essas são sortudas já que podem ganhar bem e ter estabilidade. É claro também que os problemas apontados por mim podem ocorrer também na iniciativa privada, obviamente não são exclusividade do setor público. Meu artigo serve apenas para fazer o contraponto, pois é sempre bom termos diversas perspectivas sobre os mais variados temas.

             Sempre é bom ouvir um clássico! E algo melhor do que um Led live?


           Grande abraço a todos!


segunda-feira, 26 de maio de 2014

AÇÕES - OS TRÊS FATORES DE RISCO DE FAMA&FRENCH


            Olá colegas! Hoje, meu artigo irá focar num tema de razoável complexidade e de muita importância para o mercado acionário: os três fatores de risco de Fama e French. Antes de tratar do tema propriamente dito, gostaria de fazer algumas observações.

            Eu sou um profundo admirador do método científico. Creio que por meio deste método premissas podem ser postas a prova, e o conhecimento pode genuinamente evoluir, aliás, esse é um dos temas centrais do meu último post http://pensamentosfinanceiros.blogspot.com.br/2014/05/reflexoes-os-tres-golpes-da-ciencia.html

                Sendo assim, eu não creio que o mercado acionário seja imune a estudos realizados pela academia, muito pelo contrário. Ah, Soulsurfer, o W.Buffett não é da academia, despreza esses estudos, e ganha um monte de dinheiro. Olha, não sou amigo pessoal do W.Buffet então não posso ter certeza, mas é muito difícil que um dos maiores investidores de todos os tempos ignore a lógica ou estudos rigorosos sobre o mercado. A toda evidência, e nisso concordo com o Buffett, complexidade nos mercados financeiros não necessariamente quer dizer verdade ou sabedoria, mas isso, amigos, é conhecido desde o século XIV, quando um frade franciscano chamado Guilherme de Ockham anunciou o célebre princípio lógico, que depois viria ser adotado pelo método científico moderno, de que "Se em tudo o mais forem idênticas as várias explicações de um fenômeno, a mais simples é a melhor" (ver http://pt.wikipedia.org/wiki/Navalha_de_Occam).  . Portanto, complexidade desnecessária a toda evidência não deve ser confundida com verdade ou sabedoria sobre qualquer tema. Entretanto, isso não quer dizer que a complexidade não possa existir, aliás matemática e física usada pelos cientistas hoje em dia são extremamente complexas.

            Ok, mas qual é o seu ponto Soul? A questão é que eu vejo em alguns lugares uma certa desconfiança ou “ojeriza” por pesquisas acadêmicas, sendo que em muitas vezes não há qualquer fundamento lógico para essa postura, mas apenas premissas que são aprendidas e apreendidas em algum livro ou site, e de certa forma se tornam “verdades” que não podem ser questionadas.  Obviamente, não concordo com essa forma de ver os mercados, e muito menos a vida. Uma pesquisa pode ser falha, um campo de estudo pode ser difícil de ser estudado objetivamente, mas isso não quer dizer que devemos simplesmente ignorar tentativas de trazer luz sobre qualquer tema, e não há motivos para o mercado acionário fugir dessa lógica.

            Um outro ponto importante é o fato de como uma pesquisa deve ser encarada. Pesquisas envolvendo o mercado acionário geralmente funcionam da seguinte maneira: pegam-se milhares de empresas, dividem-se essas empresas em grupos (geralmente por decile - 10 partes iguais) de acordo com o parâmetro a ser analisado (P/L, P/VP, ROE, tamanho, etc) e geralmente se rebalanceia a carteira anualmente e no final do período analisado se mede os resultados. Exemplo hipotético: alguma pesquisa quer mostrar que o tamanho da empresa possui uma correlação negativa com os retornos. O pesquisador escolhe os dados (vamos supor o mercado brasileiro com 300 ações), o período a ser abrangido (vamos dizer 10 anos), divide essas 300 ações em grupos de 30 ações de acordo com o tamanho da empresa, a cada ano se ajusta os grupos (uma empresa que era do grupo 9 por ter aumentado de preço, e via de consequência valor de mercado, passa para o grupo 8, por exemplo), e no final chega-se aos retornos de cada grupo.

            Pode-se perceber que essa estratégia de análise ignora custos de transação e  custos de impostos (há algumas pesquisas que fazem essas análises considerando tudo isso, mas são a minoria). Além do mais, um investidor amador não tem condições de seguir a risca qualquer pesquisa, pois evidentemente é difícil comprar tantas ações e ficar rebalanceando todo o ano. Apesar desses problemas evidentes, essas pesquisas são válidas, pois elas apontam alguns caminhos, algumas facetas do mercado acionário. Não se pode  cegamente apostar nos resultados de uma determinada pesquisa (até porque elas se utilizam de dados históricos, e nada garante que retornos passados irão se assemelhar a retornos futuros), mas ela pode sim apontar alguns fenômenos, e algumas idéias para como melhor gerir o patrimônio e uma alocação eficiente de portfólio para uma determinada pessoa. Colocados esses dois pontos, posso discorrer um pouco sobre o tema do artigo propriamente dito.

            A Moderna Teoria do Porfólio (MPT) é baseada na assunção de que os riscos explicam os retornos esperados, se alguém quer mais retornos tem que se submeter a mais riscos. Além do mais, risco é conceituado como variabilidade dos retornos, ou mais tecnicamente o desvio-padrão dos mesmos. Para se medir riscos e retornos de um ativo em relação ao mercado como um todo, criou-se um coeficiente chamado Beta (representado pela letra grega β). O Beta do mercado é por definição 1. Os Betas dos ativos específicos podem ser maiores ou menores do que 1. O que isso quer dizer? Se um ativo tem β  =2, isso quer dizer se o mercado subir 10%, o ativo tende a subir 20%, sendo o mesmo verdadeiro para retornos negativos. Se um ativo possui  β= 0,5, quer dizer se o mercado cair 10%, o ativo tende a cair apenas 5%. Logo, beta menores significam volatilidade de retornos menores, logo tendem a fornecer resultados menores. Por seu turno beta maiores tendem a ter uma volatilidade maior, e um retorno associado maior.

            Há diversas críticas que podem ser feitas a essa forma de pensar o mercado, bem como a forma de definir risco como volatilidade dos retornos. Aqui há um artigo interessante que faz isso http://www.travismorien.com/FAQ/portfolios/mptcriticism.htm.

            Até 1992 no campo acadêmico, e de finanças nas grandes firmas de investimento, essa era a sabedoria reinante: o  β de um ativo era o que explicava as relações de risco x retorno do mercado acionário. Porém nesse ano, os Professores Eugene Fama and Kenneth French publicaram um artigo que viria a modificar o entendimento dominante sobre risco e retorno dos mercados, o famoso artigo: “The Cross-Section Of Expected Stock Returns”. O artigo pode ser acessado aqui http://www.bengrahaminvesting.ca/Research/Papers/French/The_Cross-Section_of_Expected_Stock_Returns.pdf.  Não é uma leitura fácil, pelo menos eu não achei, para quem não domina razoavelmente a língua inglesa, nem para quem não tem alguns conceitos básicos sobre mercado razoavelmente dominados, bem como sobre estatística.  Não vou esmiuçar os detalhes do artigo, até porque não tenho competência técnica para tanto, mas apenas apontar os resultados encontrados por esse estudo.

            O estudo pegou empresas listadas na NYSE e NASDAQ e dividiu-as em 10 grupos pelo tamanho de mercado (size). Dentro de cada um dos 10 grupos divididos previamente, se dividiu em 10 subgrupos pelo β .  Foi feito isso, pois os autores queriam separar os efeitos do tamanho, dos efeitos do β de cada grupo. O mesmo procedimento foi feito, mas agora separando as empresas por grupos de BE/ME (Book Equity/Market Equity, é a mesma coisa do que o P/VP, mas invertido, ou seja, VP/P. Sendo assim, quanto maior o múltiplo, mais descontada estaria a ação) e depois em subgrupos pelo β  .  Mediram então os retornos entre 1962 a 1991 dos variados grupos formados (um período longo de tempo, como deve ser em pesquisas desse tipo. Períodos de dez anos costumam não ter tanta relevância estatística, comparar rentabilidades em períodos de 1 ano, meses, então, não possui nenhuma relevância estatística).

            Os autores, depois de aplicar algumas técnicas estatísticas de regressão, chegaram a surpreendente conclusão (pelo menos para o mundo financeiro) que o β não tinha poder explicativo sobre os retornos.  Os retornos eram explicados basicamente por duas variáveis: tamanho e BE/ME. Os retornos se mostraram negativamente correlacionados com o tamanho, ou seja,  quanto maior a capitalização da empresa menor o retorno, e uma correlação positiva do BE/ME com os retornos. Os dois gráficos mostra de forma esquemática as descobertas. No primeiro, uma simples representação dos fatores de retorno. No segundo, a diferença entre os quatro tipos de portfólios e os retornos em quase 70 anos .



O gráfico mostra esquematicamente os achados. Empresas menores tendem e de valor tendem a possuir maiores expectativas de retorno.
O gráfico mostra quatro grupos: Ações com tamanho de capitalização menor de valor e de crescimento e ações de grande capitalização de mercado de valor e de crescimento no período entre 1928 a 2007. É evidente o retorno muito maior das empresas small value, bem como das empresas large value, o que parece confirmar os estudos seminais de Fama&French sobre prêmios de valor e de tamanho. A diferença entre 1 dólar investido em small value e large growth é de simplesmente 46 vezes. Logo,  U$ 1  se transformou em U$ 46.000 num caso e "apenas" U$ 1.000 no outro.

            Ok. Soul, mas se os retornos das ações estão associados a dois fatores (tamanho e desconto no Valor Patrimonial), o que significa o título do seu Post os TRÊS fatores de risco de Fama&French?  Para entendermos melhor esse ponto, é preciso falar em Equity Premium e sobre os quatros fatores de retorno do investimentos em ações (não desanime, pois não é confuso como aparentemente possa parecer).

            O Equity Premium nada mais é do que o retorno a mais sobre o ativo “livre de risco” esperado por investir no mercado acionário.  Não adianta fugir, qualquer análise financeira passa pelo conceito de ativo “livre de risco”, que geralmente  é a taxa que os governos pagam para se endividar. No caso dos EUA, são os títulos T-BILL de maturação menor do que um ano, e no caso do Brasil a taxa SELIC.  Obviamente, nenhum ativo é livre de risco, NADA garante que os EUA, e principalmente o Brasil, não pode um dia eventualmente dar um calote na sua dívida. É possível, mas no contexto atual improvável, pois isso ocasionaria uma mudança radical de como os mercados financeiros são estruturados, no caso americano é claro. Além do mais, ao investir num título do governo você terá uma renda fixa (lembram-se do conceito de renda fixa e variável discutido nesse artigo http://pensamentosfinanceiros.blogspot.com.br/2014/04/investimentos-vamos-falar-sobre-o-pl.html), ao contrário de uma renda que pode variar para menos num investimento feito em ações.  Sendo assim, o ativo “livre de risco” é aquele que o investidor sempre deve ter em mente ao realizar investimentos em renda variável.

            Apenas uma reflexão rápida. Se a taxa do ativo "livre de risco" for alta demais, os demais ativos deverão proporcionar um retorno muito bom para compensar o investimento. Como os ativos ficam atrativos? Diminuindo de preço, a mecânica é idêntica a precificação de títulos pré-fixados. Quando os juros são baixos demais, os ativos não precisam fornecer um retorno muito forte.  Se a rentabilidade não precisa ser tão alta, os ativos possuem espaço para crescer, e em muitos casos em níveis irrealistas de preços. Os títulos de curto prazo do governo americano estão rendendo atualmente próximo de 0% aa (isso mesmo, você não entendeu errado). Apenas com essa informação (e a média dos juros de curto prazo nos EUA historicamente sempre foi muito maior do que isso),  mesmo sem conhecer os dados, eu chutaria que o mercado acionário americano encontra-se em níveis altos de precificação.  Por coincidência, ou não, as bolsas internacionais quebram topos históricos, mesmo com um mundo com uma atividade econômica fraca nos últimos anos. Para mais esclarecimentos, leia qualquer artigo do excepcional site Finanças Inteligentes (se você ainda não conhece, está no meu blogroll).

            Portanto, para um investimento em um ativo mais arriscado do que o ativo “livre de risco” fazer sentido do ponto de vista financeiro, este mesmo ativo precisa ter uma expectativa de retorno superior ao ativo “livre de risco”. Vejam, coloquei expectativa. Isso não quer dizer que necessariamente irá ocorrer, mas apenas que um investidor pode ter a expectativa de que, principalmente em períodos longos de tempo, será recompensado por escolher um ativo mais arriscado. Sendo assim, o prêmio acionário (Equity Premium) é o retorno esperado a mais sobre o ativo livre de risco que alguém pode esperar ser remunerado por se expor ao mercado acionário.  A existência de Equity Premium é muito bem documentada nos EUA, e nos países desenvolvidos nos últimos 100 anos, para períodos longos de tempo.  No excelente estudo da Credit Suisse internacional de 2009, pode-se ver que todos os mercados acionários exibiram prêmio sobre o mercado de títulos, bem como apresentaram crescimento real. O estudo pode ser acessado aqui http://topforeignstocks.com/wp-content/uploads/2009/02/2009-global-investment-returns-yearbook.pdf. Aliás, se alguém possui interesse em entender o mercado acionário de uma maneira um pouco mais profunda, recomendo todos os yearbook do Credit Suisse, são uma verdadeira aula de finanças e economia.

            Faço aqui mais uma breve reflexão. Como as taxas de juros no Brasil desde a implantação do plano real foram e continuam sendo muito altas, o mercado acionário brasileiro como um todo (é claro que empresas individuais podem ter retornos maiores e menores do que o mercado como um todo) apresentou um forte Equity Premium negativo desde a estabilização econômica. Portanto, entre 1994-2014 o mercado acionário rentabilizou muito menos do que a taxa do ativo “livre de risco”. Sendo assim, financeiramente olhando em retrospectiva, não fez nenhum sentido, sem a realização de timing no mercado, de ficar posicionado em ações nos últimos 20 anos. Para ser justo, nos últimos 10 anos houve prêmio acionário no mercado brasileiro. Isso se deve aos juros muito altos no primeiro mandato de FHC, e é um alerta que com juros altos tudo mais perde o interesse no mercado financeiro. Abaixo dois gráficos retirado do link http://www.minhaseconomias.com.br/blog/investimentos/vale-a-pena-investir-em-acoes-no-longo-prazo mostrando o prêmio negativo acionário brasileiro desde a estabilização monetária.

 Investindo pelo Lump sum (investimento tudo de uma vez) o resultado do bovespa foi bem inferior ao CDI nas últimas duas décadas.
Ah, eu compro aos poucos, uso o método X de investimento (colegas, usar o Dollar Cost Averaging ou qualquer técnica parecida é muito antiga e há décadas é tratada nos livros sobre finanças, não é nenhuma fórmula nova de investimento inventada há 5 anos na internet), o resultado iria ser negativo do mesmo jeito como mostrado no gráfico.

            Depois dessas breves explicações, estamos prontos para falar sobre os quatro fatores de retorno do mercado acionário, e os três fatores de risco de FAMA&FRENCH. O retorno acionário deve ter dois fatores de retorno, e pode ter quatro fatores de retorno a depender do risco que algum investidor que correr:

1   1)   Retorno do ativo livre de risco – Aqui no Brasil já se vê uma distorção, pois há pessoas que recebem menos do que o ativo livre de risco ao investir na poupança. Sendo assim, investimento na poupança, tirando questões de reserva de emergência, não faz qualquer sentido no longo prazo;
2    2)  Retorno por investir no mercado acionário (primeiro fator de risco) – É o já discutido Equity Premium;
3    3)     Retorno por investir em empresas com menor capitalização (segundo fator de risco);
4   4) Retorno por investir em empresas descontadas em seus múltiplos, principalmente o BE/ME, ou P/VP (terceiro fator de risco);

       Creio que agora deve ter ficado claro quais são os três fatores de risco, e quais são os quatro fatores de  retorno por investir no mercado acionário. O primeiro fator de risco já abordamos ao falar sobre o equity premium, porém e os outros dois?

O segundo fator de risco é o tamanho da empresa. Necessário relembrar que o estudo achou correspondência entre maiores retornos quanto menores eram o valor de mercado das empresas. Entretanto, os autores atribuíram esse maior retorno a um maior risco, e tal conclusão faz sentido. Por mais que uma empresa menor possa ser bem administrada, é muito mais fácil uma empresa de capitalização de 200 milhões de dólares vir a falir, do que uma empresa de 200 bilhões de dólares.  Portanto, ao investir em empresas com menor capitalização, parece haver claramente um fator de risco. Risco deve ser recompensando (premissa básica de finanças) e os dados históricos confirmam que investir em empresas menores foi recompensado. Além do mais, é intuitivo, pensar que uma empresa de 200 milhões pode crescer para um bilhão de dólares se for extremamente bem administrada e tiver algum diferencial competitivo. É muito mais difícil imaginar uma empresa de 200 bilhões crescer para um trilhão de  dólares, por mais bem administrada que seja, pois obviamente a empresa se tornaria muito grande, às vezes até maior do que todo o mercado que atua. Logo, empresas menores tendem a ter uma perspectiva de rentabilização maior do acionista do que uma empresa muito grande em termos de capitalização.

O terceiro fator de risco é o mais polêmico de todos no mundo das finanças e da academia. O estudo de Fama&French apontou, aliás esse fator segundo regressões estatísticas feitas pelo estudo apresentou mais relevância do que o fator tamanho, que empresas com baixo P/VP , ou alto BE/ME, apresentaram retornos muito maiores do que empresas com alto P/VP, ou baixo BE/ME. Como explicar os resultados? Neste ponto, o mundo das finanças e os acadêmicos se dividem em dois grupos bem claros: a) os que acreditam que isso apenas mostra que os mercados são irracionais, e tendem a overreaction tanto em  Bull como em Bear Markets e b) empresas com baixo P/VP são empresas problemáticas, muito possivelmente com expectativas de lucros tímidas, sendo assim são mais arriscadas, e, portanto o retorno a mais obtido ao investir nessas empresas nada mais é do que o trade off de risco x retorno.

            Há diversos estudos, e num próximo post irei abordá-los, mostrando que o investimento em valor produziu resultados muito mais satisfatórios do que o investimento em crescimento, e quase sempre com menos risco de downside. Logo, se assim o é, as ações tendem a ter um comportamento de regressão à média, o que indica que há sim overreaction e irracionalidade, mesmo que seja parcial, nos mercados. Graham pensava assim (mesmo sem talvez pensar nestes termos, pois em sua época não existiam discussões tão técnicas), investidores em valor pensam assim e alguns acadêmicos também pensam assim.  Entretanto, a maioria dos acadêmicos é da opinião de que não há ineficiência, mas apenas remuneração pelo risco assumido de investir em empresas mais problemáticas.

E você, Soul, o que acha? Bom, eu no meu amadorismo e conhecimento parco,  tendo a achar que há em certa medida uma tendência de regressão à média, e ( principalmente pelos vários ensinamentos vindo das finanças comportamentais) que o investidor tende a ter uma reação exagerada. Se na maioria do tempo as reações não são tão exageradas, e a precificação costuma não apresentar grandes desvios, em períodos de pessimismo ou otimismo extremo, as reações podem ser extremamente exageradas, o que pode proporcionar oportunidades e riscos a depender de como o investidor irá se comportar. Logo, eu tendo a achar que o grupo do item "a" possui mais razão.

Estamos chegando ao fim desse artigo, e espero que os três fatores de risco tenham ficado claros para os meus valorosos leitores.  É necessário destacar que resultados semelhantes foram encontrados no mercado acionário internacional em variados estudos, cito aqui apenas um deles (mas há diversos outros): Value versus Growth: The  Internacional Evidence – Fama&French - 1998( http://www4.gsb.columbia.edu/filemgr?file_id=645730).

O leitor com um conhecimento mais técnico do tema irá perceber que deixei de fora a discussão sobre Momentum.  Nos estudos acadêmicos mais recentes há bastante discussão sobre a existência ou não de Momentum, ou seja, se os retornos podem ser correlacionados a movimentos anteriores no mercado acionário, ou se o mercado acionário possui um movimento Random Walk, completamente aleatório. Em termos mais simples, se o mercado acionário subiu ontem, qual é a chance de subir hoje? Isso é possível ser medido estatisticamente com testes de auto-correlação.  Os estudos apontam para a existência de Momentum em períodos curtos de tempo com dias, e meses. Esses achados podem dar mais suporte teórico para os investidores que gostam de fazer operações baseado em análise técnica de curto prazo.  Entretanto, o tema é muito específico, e creio não ser de tão grande interesse para investidores amadores.

 É isso colegas. Talvez não tenha sido um artigo tão fácil, procurei de alguma maneira, com todas as deficiências técnicas que possuo, passar os conhecimentos de estudos acadêmicos de alta complexidade, principalmente para mim sem formação em exatas. Creio que estes estudos podem trazer luz para nossa forma de investir, isso não quer dizer que temos que seguir cegamente ou que podemos replicar os estudos ou até mesmo que os resultados irão se repetir no mercado acionário brasileiro pelo período em que estivermos investidos. O mercado brasileiro é estranho, tanto que nem equity premium apresentou nos últimos 20 anos, mesmo a nossa economia e nosso PIB per capta crescendo enormemente (fruto da distorção que uma taxa de juros acarreta na economia e nos investimentos).  Porém, acredito que quanto mais informações e estudo um investidor possui, mais preparado o mesmo está para alcançar os seus objetivos financeiros e evitar erros muito grandes ao investir.

Grande abraço a todos!