quinta-feira, 6 de abril de 2017

O ASSUNTO IGNORADO POR QUASE TODOS: EXTERNALIZAÇÃO DOS CUSTOS

 Você, prezado leitor, possui um terreno onde está edificada a sua casa. O seu vizinho, com o qual até aquele momento você possui relações amistosas, decide vender água de coco. Ele monta um plano de negócios, observa os custos que irá incorrer e qual  a margem de lucro poderá obter se vender um coco por R$4,00. 

 Ele chegou nesse preço depois de observar vários lugares onde o mesmo produto é vendido a R$5,00. O seu vizinho então pensa “calculei os custos, estou empreendendo, vou ter lucro, está tudo certo”. Porém, ele percebe que deixou um custo de fora: a retirada dos cocos usados de seu terreno. Ele imagina se o negócio der certo, e vender centenas e centenas de cocos, uma hora será insuportável  a montanha de “lixo" que irá se acumular. Não há caminhão de lixo da prefeitura, mas um transporte privado de recolhimento de lixo onde se paga uma determinada taxa por uma determinada faixa de peso de lixo.

 Ele, diligentemente, entra no site da empresa privada de recolhimento de lixo, e percebe que se contratar o serviço, baseado nas suas estimativas de vendas semanais,  os custos para vender um coco subiriam para R$5,30, tornando o preço do produto quase inviável. O que fazer? Desistir do empreendimento? Não, o seu vizinho resolve tocar o negócio. A solução encontrada por ele é simplesmente jogar os cocos usados em seu terreno. Ele reflete “e o meu vizinho que se vire para tirar os cocos”. 

 “Ah, Soul, que solução esdrúxula! Nunca eu iria aceitar o meu vizinho despejando um monte de coco no meu terreno”. Não né? O exemplo é absurdo. Pois mesmo que seja absurdo, seja bem-vindo ao problema não discutido, ignorado consciente e inconscientemente pela esmagadora maioria de economistas, políticos e empreendedores: a externalização dos custos de produção.

 O que a palavra externalizar a grosso modo significa em economia? É o ato de retirar ou omitir da cadeia produtiva custos para a produção, fabricação de alguma coisa ou serviço. Pode haver efeitos positivos externalizados, e há vários exemplos, mas aqui irei me ater apenas aos efeitos negativos da externalização dos custos.

 No exemplo, hipotético espero, do seu vizinho prezado leitor, fica claro que se ele fosse internalizar todos os custos para a venda do produto almejado, o preço não seria competitivo. Pagar para uma empresa transportar os cocos já utilizados seria um custo que tornaria quase proibitivo o negócio. Quando ele decide jogar os cocos em seu terreno, ele simplesmente está retirando esses custos da cadeia produtiva, e externalizando para você. Entretanto, o custo não desapareceu. Ele simplesmente foi retirado da cadeia produtiva. O que isso ocasiona? Além da injustiça de alguém não ligado a cadeia produtiva suportar o custo, no caso você prezado leitor, isso faz com que o seu vizinho possa vender o coco a R$ 4,00, um preço que não captura todos os custos, ou seja um preço artificial, ou melhor dizendo, um preço subsidiado pelos outros.

  É incrível ver tantas pessoas defendendo a livre-iniciativa, culpando o governo por dar subsídios das mais variadas ordens, e simplesmente dando de costas, não se interessando, pelo  enorme subsídio que é a externalização de custos.  O exemplo do coco não é hipotético, ele é bem real. Quem você acha que está pagando os caminhões de lixo da prefeitura para recolher os cocos usados? Sim, você acertou, todos nós. Sendo assim, o preço dos cocos vendidos em sua cidade muito provavelmente são subsidiados por uma imensa maioria que não consome ou não tem interesse em consumir água de coco. 

  Não preciso dizer que a externalização dos custos não é a exceção, mas a norma nos nossos processos produtivos atualmente. Sabe quem também concorda com esse ponto de vista? Roger Scruton. Quem é esse Senhor? Um dos grandes intelectuais conservadores da Inglaterra. No livro “Como ser um conservador” ele faz duras observações nos capítulos “a verdade do capitalismo” e “a verdade do ambientalismo” sobre a externalização dos custos, e como isso perverte toda a lógica e funcionamento de uma sociedade livre.

 Quando esse tema é abordado, muitas vezes há respostas emocionadas, algumas até mesmo histriônicas. Quando escrevi o “conto" “Quem Quer a Verdade?”, um colega por e-mail disse que a minha escrita parecia a do Pravda. Uau. Neste texto, de maneira irônica, realçava o fato de comidas com alto teor de gordura saturada, sal e açúcar terem efeitos nocivos, principalmente em crianças.  

 E não é verdade? Quando fiquei um tempo na Califórnia, eu me assustei com a obesidade. Havia pessoas que estavam quase sem forma, era uma gordura extremamente mole. O fato interessante é que a maioria das pessoas que via nessa condição eram latinos e negros, e quase sempre quando tomava ônibus. Quando ia para bairros elegantes como “La Jolla”, não presenciava casos de obesidade mórbidos. Se era assim na Califórnia, como não deve ser no Texas? 

 Pareceu-me claro que a comida barata consumida pelas pessoas mais pobres de San Diego era apenas artificialmente barata. Os custos de saúde, mobilidade, perda de produtividade, eram simplesmente externalizados. Todos os custos ao se vender “junk food” não eram internalizados no processo de produção.  

 Assim, ficou claro para mim, que essas empresas estavam nada mais nada menos do que sendo subsidiadas com uma quantidade de dinheiro enorme por outras pessoas que não tinham qualquer relação com essas empresas.  Os lucros distribuídos para os eventuais acionistas destas empresas nada mais são do que lucros artificiais que só existem porque os custos estão sendo externalizados.

  “Como assim Soul?” Quando comecei o meu trabalho como Procurador, deparei-me com alguns casos de pessoas pedindo auxílio a União pelo fato de se sentirem incapacitadas pelo uso contínuo de cigarro. Lembro-me claramente de refletir na época algo como: por qual motivo a sociedade deve arcar pelo mau hábito dessas pessoas? De outro lado, é ético negar ajuda a uma pessoa necessitada com grave problema de saúde? Problemas que seres humanos reais tem que lidar no seu dia a dia.

  Claramente, as empresas que produzem cigarros externalizaram os custos de sustentar pessoas que tinham ficado incapacitas pelo uso dos produtos que elas fabricam. Esse custo seria agora de toda sociedade. Se assim o é, os lucros distribuídos por essas empresas só são possíveis se a sociedade como um todo subsidiá-los. 

 Ora, isso é claramente uma afronta ao livre comércio, e à liberdade de outras pessoas. Eu não quero subsidiar lucro de uma empresa de cigarro. A externalização dos custos está presente em quase tudo. Os grandes custos estão sendo todos externalizados para as gerações vindouras, num comportamento completamente antiético das gerações presentes para aqueles que não nasceram.

 Eu fiquei bastante surpreendido ao perceber que o Sr. Roger Scruton pensa exatamente a mesma coisa. Para ele um dos comportamentos mais nocivos é quando a geração atual simplesmente não leva em consideração os interesses das gerações que ainda estão por vir.

 É isso, colegas. O tema é vasto, e espero voltar ao mesmo em outros artigos.

Um bom livro, muito bem escrito. Como seria bom se "conservadores de araque" pudessem ler um livro como esse e refinar um pouco mais os seus argumentos, e refletirem que suas posições muitas vezes simplesmente são fracas e verdadeiras bobagens, e não necessariamente representam o pensamento conservador (obs: ainda acredito que o termo conservador é algo sem sentido semântico, o próprio autor do livro relata isso ao dizer que o conservador não pode ignorar as mudanças).



  Um abraço!

segunda-feira, 3 de abril de 2017

PRESENCIANDO UM SKY BURIAL TIBETANO - UMA EXPERIÊNCIA MARCANTE


 Estava frio. Muito frio. Na noite anterior, nossos celulares marcavam -10 graus Celsius. Também pudera estávamos a 4.000 metros de altitude, na cidade de Litang no extremo oeste da província Chinesa de Sichuan. Era uma região tibetana, e a região autônoma do Tibet estava a poucos quilômetros dali.  

 “Que horas são?” pergunto a minha companheira, “cinco e meia” é a resposta, “você quer realmente ir?” indago, “Sim, por que não?” ela diz tentando disfarçar a vontade de continuar na cama.

  Na noite anterior, tinha perguntado ao dono da pousada, que por uma sorte incrível falava um pouco de inglês, se era verdade que um estrangeiro-turista poderia observar o ritual, e se ele realmente aconteceria amanhã de manhã. Ele tinha anotado um endereço escrito em tibetano, não sabia se no outro dia haveria, mas se ocorresse lá seria o local. Penso comigo mesmo “como as letras tibetana são bonitas, talvez é o idioma escrito mais bonito que já vi”.

  Saímos nas ruas gélidas de Litang a procura de um taxista ou alguém disposto a nos levar. Acenamos para um carro, demos o endereço escrito na língua local, perguntamos em Mandarim quanto custava,  e ele responde também em Mandarim 10 Yuan. Penso em negociar o preço, mas são menos de dois dólares e está muito frio. 

  A corrida de táxi dura alguns minutos, e por meio de vielas e monges que se encaminham para as suas preces matinais, chegamos aos limites da cidade num local com muitas bandeiras tibetana de oração. O Taxista apenas faz um sinal com a cabeça que este é o local. Saímos do carro e começamos a perambular pelo lugar.

 “Será que este é o local correto?”, indago a minha companheira, e ela responde “como é que vou saber?”. Alguns minutos se passam, e depois de andar algumas centenas de metros avistamos ao longe um grupo de homens em torno de uma fogueira. Por uns instantes ficamos apenas observando, até que um deles fez sinal para nos aproximarmos.

 Com uma certa cautela fomos caminhando em direção ao grupo, e ao chegarmos lá fomos recebidos com sorrisos e com o tradicional chá de manteiga feito de leite de Yak, uma espécie de animal que parece um boi cabeludo e mais parrudo. O gosto é salgado, ao contrário do chá mais adocicado servido em algumas outras regiões mais turísticas de Sichuan, demonstrando que é um autêntico chá tibetano.

  Nenhum falava Inglês no grupo, apenas um ou outro arriscava uma palavra. Alguns estavam trajando roupas típicas tibetanas, e era incrível perceber quão diferentes eles eram dos chineses da etnia Han, a etnia predominante em toda China. 

  Por meio de sorrisos, gestos e olhares, tentávamos nos comunicar. O gosto do chá era muito forte, mas junto com o calor da fogueira fazia o frio ficar um pouco mais suportável. Um dos tibetanos saca um faca enorme e coloca um pedaço que parece uma costela seca no chão. Ele corta então alguns pedaços e nos oferece. A Sra. Soulsurfer faz menção de não aceitar, apenas digo com os olhos “aceite”

 Coloco na boca, e um gosto de osso com gordura instantaneamente percorre o meu corpo. “Nossa, que coisa ruim!” quase exclamo em português, mas seguro o meu ímpeto. Minha companheira ao observar minha reação, sorrateiramente coloca os pedaços recebidos em sua calça sem que nenhum dos homens no grupo perceba. 

 Em que pese o gosto, retribuo com sorrisos e agradecimentos a hospitalidade e gentileza daqueles homens. Mesmo depois de uns 15-20 minutos em volta da fogueira, ainda não sabemos se alguma coisa irá ocorrer, e o que aqueles homens estão fazendo ali.

 De repente, três homens do grupo saem sem falar nada e se dirigem a um carro. Nós já estávamos fazendo menção de ir embora também, quando um dos tibetanos apenas deu a entender para que aguardássemos. Alguns instantes depois, o carro parou  uns quinhentos metros onde estávamos, e eu pela primeira vez reparei nos abutres um pouco mais longe. “Será que vai ocorrer mesmo?”.

  Foi quando vi uma forma branca, mole, parecendo um boneco ser colocada ao chão. “Será que é isto mesmo que estou pensando?”, sim, era. Nunca tinha visto um cadáver, e lá estava ele a uns 500 metros de distância. A visão daquilo me deixa um pouco inquieto. “Então é isso que nos transformamos, esse é o destino final de todos? Reis, escravos, magnatas, pobres, famosos, é assim que ficamos quando chega a nossa hora”?

 Os budistas tibetanos acreditam que tudo deve retornar a natureza e que o nosso corpo é transitório, assim como tudo na vida. Sendo assim, em muitas regiões tibetanas, não se costuma enterrar ou cremar os corpos, o que é encarado como um desperdício, mas sim oferecer os falecidos a abutres, o que é visto como um ato de generosidade. Nós ocidentais conhecemos essa prática como SKY BURIAL. Os Tibetanos conhecem como བྱ་གཏོར.  Não é esplêndida a escrita tibetana?

  Meses depois, iria conhecer algumas torres do silêncio no Irã, onde praticantes da religião zooroastra também ofereciam os corpos aos abutres. Porém, há mais de um milênio a religião zooroastra não é a dominante na Persia, e creio que desde da década de 50 os zooroastras não utilizam as torres do silêncio.

  Dois homens então começaram, pelo que pude distinguir a distância, a fazer cortes no corpo. Mais e mais abutres chegavam. Os homens então se afastam do corpo, e dezenas de abutres quase que instantaneamente se atiram em direção ao corpo.

  Em torno de um, ou talvez dois, minuto vejo apenas ossos. Não sei bem se são apenas ossos, pela distância. Eu não sei bem o que pensar. Não sei talvez se quero refletir sobre o que está acontecendo. Os acontecimentos foram tão rápidos que quase nem pude saber ao certo o que estava ocorrendo.

 Alguns tibetanos acenam para nós que podemos nos aproximar da cerimônia, eu agradeço com educação, mas digo com a cabeça que não faço questão. Olho para a minha companheira e ela também não sabe muito bem o que falar ou pensar. Apenas me diz que gostaria de ir embora, sinto que aquela experiência está sendo muito forte para ela.

 Nos despedimos do grupo, agradecendo pela hospitalidade e por permitirem que ficássemos no local. Caminhamos em direção a cidade, evitando olhar para trás. O que aconteceu está muito além da cultura onde nasci e fui criado. Eles estão certos ao fazer isso? Será que não é um conceito bonito de generosidade para com a vida na terra, de que após a morte o nosso corpo não representa mais nada? Ou será que é uma profanação do corpo humano?

 Eu, sinceramente, não sei. Aliás, quem sou eu para julgar algo desse tipo. Uma das coisas que anos viajando me ensinou é tentar ao máximo observar fatos e acontecimentos sem necessariamente ter uma máquina julgadora mental a todo instante, principalmente julgando de acordo com conceitos e preceitos nos quais fui criado, e que não necessariamente representam a verdade ou a melhor visão de mundo.

 Na verdade, o mundo é  tão diverso, que quanto mais o conhecemos, mais humildes ficamos a respeito de quanto achamos que sabemos.  É impossível apreender este conceito apenas lendo, ou vendo documentários ou opiniões de outras pessoas. 

  Um dos maiores antídotos contra o ódio e contra a ignorância é de conhecer o outro.  Com viagens longas, para locais que nem imaginamos que existam em nossas labutas diárias, a nossa visão de mundo, que para muitos é tão estática e certa, é colocada em cheque. Não se pode ignorar a realidade quando ela se apresenta de forma tão clara e nítida aos seus olhos. 

  Com um coração sem julgamentos, andamos alguns quilômetros até chegarmos em nossa pousada. O que penso de tudo que ocorreu é algo meu, assim como o são as reflexões de minha companheira a respeito. Não faço questão de julgar se é certo ou errado esta prática específica cultural tibetana, mas posso sim me sentir feliz de ter recebido a hospitalidade de outros seres humanos, e isso é motivo mais do que suficiente para que o coração se aqueça, apesar do frio intenso das ruas de Litang.

                                                                  Eu e os Tibetanos


  Grande Abraço!



segunda-feira, 27 de março de 2017

A SEGURANÇA DOS GOVERNADOS DEPENDE DA INSEGURANÇA FUTURA DOS GOVERNANTES

Olá, colegas. Antes de mais nada, nos últimos dias tenho escrito um texto por dia. Fui um pouco motivado pela leitura do livro o “Poder do Hábito”. Sempre pensei que fosse um livro mais superficial, mas fui surpreendido pela qualidade da obra.  Também resolvi experimentar outras formas de escrever. Fazendo textos mais satíricos, tentando trabalhar novas formas de construção, usando o diálogo como forma de expressão. Foi uma experimentação. Fiquei surpreendido como algumas pessoas ficam desconcertadas com novas formas de texto. Acho um processo pessoal importante a experimentação. Quem quiser olhar os textos, basta ver ao lado nos artigos escritos em março.


  A frase que dá título ao presente artigo foi dita para mim pelo meu pai há uns 15 anos. Ele por sua vez disse que a tinha lido num artigo escrito por um pensador estrangeiro. Ela resume de forma magistral como podemos pensar nossos sistemas políticos. Vou além, ela pode ser aplicada a quase tudo relacionado a relacionamentos humanos.

 Qual o sentido da frase? É simples. Se governantes são seguros em relação ao seu futuro político, há uma probabilidade muito grande para que haja abuso do poder no momento presente, com consequências deletérias para os governados no presente. Talvez fazendo uma associação como funciona, ou deveria funcionar, um mercado livre fique mais fácil a compreensão.

 Num mercado livre, a competição, ou seja a insegurança das empresas no futuro, fará com que sempre haja uma busca por uma melhora contínua nos processos. A busca pela eficiência, isso é fazer mais com menos, será quase que uma questão de sobrevivência para os agentes econômicos. Uma empresa bem consolidada no presente poderá simplesmente quebrar no futuro se houver uma acomodação grande ou uma perda de eficiência significativa. Logo, a insegurança das empresas no futuro, representa uma maior segurança para os consumidores no presente, que terão empresas sempre buscando ofertar melhores produtos e serviços.

  Por seu turno, se uma empresa possui um monopólio concedido pelo Estado , por exemplo,  é lícito presumir que essa empresa não temerá muito pelo seu futuro. Se assim o é,  muito provavelmente ela não terá muitos incentivos para ser cada vez mais eficiente no presente. Logo, a segurança da empresa, nesse contexto, em relação ao seu futuro financeiro, fará com que a vida para os consumidores do presente seja pior na forma de piores serviços e produtos prestados.

 Boa parte dos artigos do Instituto Mises Brasil falam sobre isso. É um dos conceitos fundamentais de toda teoria defendida por lá. E faz todo o sentido. Porém, a nossa vida é muito mais ampla do que relações de consumo. Eu não creio que é a melhor forma de  analisar o mundo pensar que todas as relações humanas possam ser resumidas a relações de consumo e produção. Ou, mesmo admitindo que haja relações distintas, usar a mesma forma de pensar para fenômenos completamente distintos. Apesar desse contraponto, fica evidente que faz todo o sentido de que mercados onde haja mais incerteza no futuro, as empresas tenderão a ser mais eficientes no presente, fazendo com que haja ganhos para os consumidores.

  Pense agora no seu relacionamento, caso você tenha um. Pense num casamento há 100 anos, onde o divórcio não existia, e havia uma pressão enorme sobre a mulher casada. A certeza por parte do marido sobre o futuro do casamento, com certeza levava a comportamentos que não prezavam de maneira mais intensa os interesses da esposa no presente. 

 Hoje em dia, onde as mulheres podem se divorciar quando quiserem, podem trair com muito mais facilidade sem uma pressão social enorme como existia há 100 anos, ou seja a incerteza por parte dos homens na manutenção do relacionamento no futuro, faz com que os maridos tenham que se esforçar mais para levar os interesses da esposa no presente com mais atenção. É mais ou menos o que consta no adágio popular “ Quem não dá assistência, abre para a concorrência”.

  Esse raciocínio pode ser levado para muitas esferas da nossa vida. Porém, volto aqui para a política.  Algo que acho bem interessante é observar alguns discursos de Stalin, principalmente a parte dos aplausos. O vídeo de menos de um minuto abaixo é apenas um exemplo:





  Um sujeito desse evidentemente não tinha qualquer receio sobre o seu futuro, e hoje nós sabemos o que aconteceu com os seus governados. Porém, o que Stalin fez nos causa repulsa não porque ele tenha sido o único sádico da história, isso está muito longe de ser verdade, mas porque aconteceu há pouco tempo. O meu pai era vivo quando ele deu esse discurso, e para nós que vivemos em sociedades razoavelmente estáveis e democráticas, a sombra de um Stalin é de certa forma perturbadora.

  O abuso total e completo do poder, como feito por Stalin, era a norma, não a excessão no mundo. Sempre quando leio sobre a história, nem que de forma superficial, sobre um país  que visito, fico abismado com o grau de violência e arbitrariedade que existiam há centenas de anos. Massacres de dezenas de milhares era algo comum. Governantes despóticos e poderosos podiam fazer o que bem entendessem. 

 Assistindo  ao primeiro episódio da série Marco Polo no Netflix, fiquei imaginando que o poder de um Trump ou de um Obama não é nada perto do que Kublai Khan poderia fazer com os seus súditos. Não havia qualquer incerteza no futuro para o grande Khan, o mesmo não se pode dizer dos presidentes mais recente e atual dos EUA.

  Logo, a minha, a sua, a nossa segurança, depende de sistemas políticos onde o futuro dos atuais mandatários seja incerto.  E algumas coisas contribuem para essa incerteza. A existência de pluralidade de pensamentos e de espectros políticos é uma delas. Num lugar onde não há dissidência política, de forma muito severa como na Coréia do Norte, e de forma mais branda como em Cuba (para citar dois exemplos que alguns  leitores desse espaço adoram falar), a incerteza do futuro dos poderosos é muito menor. Logo, a arbitrariedade no presente é muito maior.

 Não é à toa que esse espaço prima pela racionalidade no debate, não pela rotulação. Pessoas são diferentes. Há testes psicológicos que mostram isso. Há pessoas mais introvertidas, outras mais extrovertidas. Há pessoas com laços maiores com um determinado grupo, em que pese considerações como justiça por exemplo, outras pessoas já não agem desse modo. Há uma cacofonia de vozes e opiniões. Nós temos que saber conviver com isso, e para mim, por mais que seja um sistema com as mais diferentes falhas, a Democracia e o Estado Democrático de Direito são os melhores instrumentos para acomodarmos esse choque permanente. É um equilíbrio dinâmico ou um “equilíbrio instável”.

  O que muitos não percebem é que a sua própria segurança depende da existência de pessoas que pensem diferente. Isso é muito difícil de conceber e aceitar, eu admito. É por isso que muitas pessoas procuram o caminho mais fácil que é se fechar em suas concepções de mundo, invertendo o significado da famosa frase atribuída a Sócrates de que “Conheço uma gota, ignoro um oceano”. Quando se fecha para as diversas visões que existem sobre mundo, comportamento humano, etc, as pessoas na verdade estão implicitamente dizendo que “Ignoro uma gota, conheço o oceano”.

  O que se sabe, pelo menos pelo decurso da história, é que quase sempre houve grupos que dominaram uma grande maioria, muitas vezes de forma violenta. O poder de uns sobre muitos sempre foi a tônica. Logo, precisamos admitir que há uma tendência humana do poder ser abusado. Até pouquíssimo tempo essa era a norma, o que nós vivemos hoje em dia com poderes políticos limitados, respeito a direitos fundamentais mínimos, é uma completa exceção na história da humanidade.
  

  Isso independe do tamanho do Estado. O tamanho do Estado, ou do governo, nunca foi uma medida de maior ou menor liberdade dos súditos. Essa afirmação pode chocar ou irritar alguns ideólogos que pregam que quanto maior o Estado, menor a liberdade humana. Quanto maior a tributação, maior a “escravização” de um povo. Isso não se sustenta a uma breve análise dos números e dos próprios fatos históricos.

 Quando um blogueiro do qual eu gosto bastante repetiu essa ideia nos comentários de um outro artigo que eu tinha escrito, ele talvez possa ter ficado surpreendido que os países com menor carga tributária do Mundo são países onde a liberdade é muito restrita. Arábia Saudita, Guiné, e outros países “difíceis" estão entre os de menor carga tributária. Por outro lado, países extremamente livres, educados e saudáveis (pelas métricas do IDH) estão entre os de maiores cargas tributárias do mundo.

  Fique claro que aqui não é uma defesa de tributos ou de mais Estado, e nem o contrário de menos tributos e menos Estado, mas apenas uma constatação factual de que Estados com pouquíssimo peso no PIB podem ser totalitários, enquanto outros com grande participação, não. 

 Além do mais, na história da humanidade  , se fosse possível medir a carga tributária em períodos distantes de tempo no passado, é quase certo que há 500 anos ela seria muito menor do que é hoje. O Imposto de Renda é uma criação recente, por exemplo. Apesar disso, quem você acha que é mais livre, um cidadão inglês no ano de 2017, ou um camponês da Inglaterra no século 15?

  Logo, com Estados Grandes ou não, com ideologias das mais variadas possíveis, momentos históricos diversos, a tendência é que grupos pequenos abusem do poder. Quanto maior a segurança desses grupos sobre futuro, maior será a insegurança da maioria. Quanto menor a segurança desses grupos sobre o futuro, maior a segurança da maioria. Lembrem-se disso, prezados leitores.


  Um abraço!

sábado, 25 de março de 2017

O TEMPO NÃO FOI, NÃO É E NUNCA SERÁ O SEU ALIADO EM NADA

Olá, colegas. Tempo. O que é o tempo? “Como assim, Soul?”. Saibam que algo intrinsicamente natural para nós seres humanos como o tempo, não é algo tão claro para a ciência. O que é o tempo, se ele possui uma direção, por qual motivo ele existe, são questões que cientistas sérios, e filósofos também, tentam refletir.

 Estas reflexões são espetaculares, no meu entendimento. Uns, quiçá  uma grande maioria, talvez pensem que é uma grande perda de tempo (sem ironias). Preciso pagar o IPTU do ano, em qual fundo imobiliário investir, estou interessado na colega do trabalho, ou qualquer outro pensamento que percorre a cabeça de centenas de milhões de pessoas em suas rotinas. O que saber o que é o tempo, ou se ele possui uma direção, será útil na minha vida? Aliás, poderia haver algo mais inútil do que isso? Muitos podem pensar.

 É uma crítica justa e razoável. Para mim, entretanto, a capacidade de se refletir sobre o que é o tempo, e ir além disso questionar se a nossa noção de tempo é correta ou faz sentido, é que torna a nossa espécie Homo Sapiens tão fabulosa. O que nos torna únicos e preciosos. Dentre vários motivos da minha admiração por Einstein, um deles, talvez o maior, é como ele pôde desafiar noções tão triviais da realidade como Tempo e Espaço

 Como alguém usando simplesmente o raciocínio, o intelecto, pôde refletir sobre o tempo e o espaço de uma forma complemente não-natural para nosso cérebro que evoluiu em nossos ancestrais há milhões de anos, e em nossa espécie nos últimos 200 mil anos? É espetacular. Mais incrível do que isso para mim apenas o amor e a compaixão.

 Porém, esse texto não irá discorrer sobre o Tempo de uma forma tão mais profunda. Não, será sobre a nossa noção natural e arraigada de que o tempo existe, e ele sempre vai para frente. 

 Lendo um artigo hoje de manhã, reparei com uma frase e ideia de que “o tempo seria o seu aliado”. Colegas, o tempo nunca foi, não é e nunca será o seu aliado. Pensemos em termos financeiros. 

 O capital é algo que se pode acumular. Quando alguém recebe um salário, pode fazer, depois de satisfeitas as necessidades básicas humanas, decidir se esta renda se tornará mais consumo ou capital. Logo, se a pessoa decidir poupar, que nada mais é do que destinar uma parcela da sua renda para a formação de capital, ao longo do tempo é de se esperar que a mesma acumule capital. Quanto maior for o tempo, muito maior será o capital

 Quem já não leu alguma passagem de algum texto dizendo “ Se um dólar fosse aplicado em 1735 com uma taxa de juros de 7%, hoje seria possível comprar toda NY com o dinheiro acumulado”.

 Não se esqueçam que “os juros sobre juros” nada mais são do que a renda sendo poupada para acúmulo de mais capital. Se um investidor recebe um dividendo de R$ 1.000,00, cabe a ele a decisão , dessa renda que é de um capital anteriormente acumulado, de consumir ou poupar para aumentar ainda mais o capital. Os juros sobre juros , em finanças, nada mais são do que uma decisão de poupança sobre consumo. 

  A passagem de tempo na acumulação de patrimônio é algo lógico. Quanto mais tempo se tiver disponível, mais patrimônio poder-se-á acumular pelo destino de uma parte da renda, seja do trabalho ou proveniente de capital previamente acumulado, para poupança.

  E o tempo? Abaixo um vídeo do ex-presidente do Uruguai. É curto,um pouco mais de um minuto. Recomendo fortemente que se assista para que o resto do texto se torne mais compreensível. Por fim, há muitas ideias neste um minuto e meio de vídeo ( e não precisa se concordar com nenhuma delas), mas concentrem-se apenas nos últimos 20-25 segundos.





  Seja qual espectro ideológico sobre política ou economia que mais lhe agrade, seja qual tipo de misticismo você se identifique mais, seja qual for a sua orientação sexual. A Verdade é que tempo não se economiza,  o tempo só pode ser gasto. Não podemos acumular tempo, assim como fazermos com o patrimônio, só podemos consumir o tempo. Não há meio termo. Em matéria de tempo, todos os seres humanos, e seres vivos como um todo, são consumidores, nunca poupadores.


  Esta é uma verdade fácil de ser apreendida, difícil de ser completamente entendida. Mais difícil ainda é levar uma vida de acordo com este ensinamento. O que se mais vê, e basta abrir os olhos e observar a realidade que nos cerca, para vermos pessoas achando que o tempo não é gasto, e que além de tudo ele não é infinito.

 O nosso tempo de vida nessa terra, amigos, é deveras finito. Talvez nossos descendentes daqui 200 anos possam viver milênios. Quem sabe o que pode acontecer com o conhecimento humano até lá. Assim, a ligação dessas futuras gerações de humanos ( e eu tenho dúvidas se poderemos dizer que são humanos como nós) com o tempo pode vir a ser radicalmente diferente. Porém, para nós seres humanos no ano de 2017, o nosso tempo é finito.

 Quando se tem algo que é imprescindível, que não é renovável (ou seja só se pode consumir) e finito, faz sentido que a utilização desse insumo seja feito da melhor maneira possível, não é mesmo? 

 Se sofri um acidente aéreo, e me encontro no meio do deserto do Gobi na Mongólia sozinho com apenas um litro de água, faria sentido usar o líquido para escovar o meu dente? Pensemos. A Água é vital para a nossa sobrevivência, ela na situação é extremamente finita  (apenas um litro) e eu não sei quantos dias terei pela frente no deserto, faria sentido desperdiçá-la? Não faria qualquer sentido.

  Se assim o é, por qual motivo tantas pessoas desperdiçam o seu finito tempo nessa terra? Por qual motivo gastamos algo tão precioso e finito para metaforicamente “escovar os dentes no meio do deserto?”. Evidentemente, essa é uma questão que cada um deve responder para si mesmo. 

  Logo, o Tempo não é o seu aliado, nunca será. O tempo é algo que apenas diminui, que a cada dia consumimos. A cada dia vivido, diminui o nosso tempo aqui na terra. Não o contrário. A cada Real (ou dólares, ou euros) poupado, aumenta-se o patrimônio. Com o tempo isso não acontece.

  Portanto, não se auto-enganem, queridos leitores, achando que o tempo é seu aliado na acumulação de riqueza, pois ele não o é. A acumulação de riqueza nada mais é do que uma troca por tempo. Você pode até considerá-lo aliado, mas ele cobrará o seu preço por essa "aliança", e em alguns casos o preço será extremamente alto.

  Como algumas pessoas gostam de tirar conclusões precipitadas, ou gostam apenas de reafirmar suas ideias prévias, essa simples constatação em nada quer dizer que há algo de errado em acumular patrimônio. Não há qualquer juízo de valor, mas apenas um juízo de fato.

  Além do mais, muitos empreendimentos humanos necessitam tempo, ou seja, necessitam que gastemos o nosso precioso e finito recurso em alguma coisa. Quer ser um médico? Você terá que gastar o seu tempo para estudar bastante. Quer conhecer a Mongólia? Você terá que gastar o seu tempo com isso. Quer acumular uma determinada quantidade de patrimônio, você terá que gastar o seu tempo com isso.

  Percebe-se que não é uma questão de se desesperar com o conceito de que a cada segundo que respiramos, é um segundo a menos de vida, e de alguma forma isso nos paralisar. Não, prezados leitores. Isso serve para que possamos tentar, de forma consciente, tomar as rédeas das nossas vidas. 

 O que pretendo dizer com isso? Para mim nada mais é do que saber de forma consciente com quais empreendimentos, dentre uma gama quase infinita, gostaríamos de gastar o nosso tempo. E destes empreendimentos quais deles podem nos trazer uma maior satisfação.

  Essa reflexão é vital. No que toca aos investimentos, ela é de extrema importância. Como é muito fácil hoje em dia simular retornos para muitos anos no futuro, muitos talvez possam não se dar conta de que aquele gráfico quase que exponencial para o futuro, deveria ser contrabalançado com outro em declínio, que é o seu tempo de vida nessa terra. É uma troca. Talvez alguém queira atingir 100 milhões, ou 1  bilhão de dólares, quem sabe. Não há nada de mal na escolha em si, desde que ela seja tomada de forma consciente, e desde que esse acúmulo de alguma maneira guarde uma coerência com os anseios, mais uma vez repito conscientes, dessa pessoa do que seja uma boa vida, ou seja satisfeita e plena.

  Uma outra coisa interessante sobre o Tempo de vida Humano, é que ele, ao contrário do capital, possui qualidades diversas. Isso é uma constatação meramente biológica. O meu pai de quase 80 anos, nunca voltará a ter a vitalidade de quando ele tinha oito anos. Aliás, ele possui um quadro pendurado no apartamento onde vive, retratando uma cena da infância dele num município do interior de Pernambuco. O quadro é ele jogando bola de gude com outras crianças. Não adianta, aquele tempo nunca mais voltará. Simplesmente passou. A saúde dele nunca será mais como a criança que ele foi há 70 anos.

  Portanto, a nossa vitalidade diminui. A nossa saúde piora. Logo, a quantidade do tempo que gastamos na terra em certa medida é diferente na qualidade. Não é a mesma coisa que um dólar, por exemplo. Um dólar é um dólar, não há nada de qualitativo melhor ou pior entre dólares. 

  Os meus últimos dois parágrafos não significam que a nossa vida como um todo piora com a diminuição do nosso tempo na terra. Claro que não. O que se tem de vitalidade na juventude, ganha-se em maturidade em fases mais avançadas. Podemos ser felizes como crianças, jovens , adultos e idosos. Podemos ser infelizes enquanto jovens, mas felizes enquanto idosos. Podemos ser felizes enquanto jovens e insatisfeitos quando idosos. Porém, a nossa vitalidade física e biológica vai diminuindo cada vez mais, e a partir de certo ponto a queda é expressiva. 

  Portanto, além de termos um recurso finito que devemos escolher bem com o que gastar, este recurso tende a ser qualitativamente diferente com o passar do tempo, o que faz com que nossas escolhas no presente sejam ainda mais importantes e a nossa reflexão sobre como gastar o nosso tempo ainda mais fundamental.

 Portanto, colegas, tempo não se poupa. Tempo se gasta. Vida não se multiplica, ela se esvai. O Tempo nunca será o seu aliado. Somos humanos, fazemos planos, temos ambições, sonhos e projetos. Tudo isso demandará nosso tempo. Nosso recurso finito e precioso. Cabe a cada um tomar decisões conscientes como deseja gastar esse insumo.

  Quando pensar em Tempo, não pense nele como um aliado. Pense no tempo como se ele fosse água e estivesse no meio de um deserto. Você não vai querer desperdiçá-lo à toa, não é mesmo? Não faça o mesmo com o seu tempo de vida.

Já que falei de Mongólia e Tempo, nada melhor do que um exemplo. No meu lado esquerdo a poucos metros estava a Rússia. No meu lado direito (montanha nevada) estava a China. Nas minhas costas o Cazaquistão. Estava no ponto mais Oeste da Mongólia. Uma região absurdamente linda, remota e desolada. Gastamos 12 horas, muito esforço físico, para chegarmos no topo da montanha (estávamos descansando, preparando para o assalto final) a mais de 4 mil metros, com um percurso muito difícil mesmo. Esse foi um tempo muito bem gasto.


  Grande abraço!



sexta-feira, 24 de março de 2017

A VERGONHA DE ATLAS

"Dizia-se que Nat Taggart tinha enterrado a sua vida na ferrovia muitas vezes. Mas houve uma vez em que ele enterrou mais do que a vida. Precisando urgentemente de fundos, com a construção da ferrovia suspensa, ele jogou por três lances de escada abaixo um distinto cavalheiro que lhe fora oferecer empréstimos do governo. Depois ele empenhou a própria mulher num empréstimo que fez com um milionário que o odiava mas admirava a beleza de sua mulher. Repôs a dívida em tempo hábil e não perdeu o que dera como garantia. Tudo foi feito com o consentimento da esposa. Ela era uma mulher belíssima, descendente da mais nobre família de um estado sulista que havia sido deserdada pela família porque fugira para com casar com Nat Taggart quando ele era ainda apenas um pobre e jovem aventureiro." (A Revolta de Atlas, página 69, Livro 1)


UM POUCO ANTES


Nat Taggart: Boa Tarde.

Banqueiro: Boa Tarde.

Nat Taggart: O meu nome é Nat Taggart e estou aqui pois quero um empréstimo para poder construir um sistema de ferrovias que irá revolucionar os EUA e…

Banqueiro: Você é Nat Taggart?

Nat Taggart: Sim.

Banqueiro: The Nat Taggart?

Nat Taggart: Sim!

Banqueiro: Uau, você é o Nat Taggart que será o herói ancestral da heroína de um dos livros mais influentes da história de nosso país. Você será o modelo de moral, caráter e força de vontade que irá permear as mais de 1000 páginas. Você será a luz ética que sempre conduzirá a heroína Dagny Taggart nos seus percalços e lutas contra parasitas e homens de pouca ou nenhuma força moral. Você será a imagem da virtude, a virtude que um dia existiu, mas terá sido perdida por quase todos, a exceção de uns poucos iluminados, em tempos futuros.

Nat Taggart: Serei tudo isso? Dany Taggart? É parente? Qual livro?

Banqueiro: Sim, sim. Este livro, que será tão influente como a Bíblia para alguns, será escrito daqui uns 100 anos. 

Nat Taggart: Como é que? Como você pode saber?

Banqueiro dá de ombros.

Banqueiro: Sei lá, sou apenas um personagem criado, pergunte para o autor.

Nat Taggart: Como?

Banqueiro: Deixa para lá, como posso ser útil?

Nat Taggart: Bom, como ia dizendo, preciso de um empréstimo para seguir com o meu plano de construir uma ferrovia e mudar o nosso país para sempre!

Banqueiro: Sr. Nat Taggart, quanto o Sr. quer?

Nat Taggart: Dois Milhões de dólares.

Banqueiro: Isso é muito dinheiro para a nossa época. O Sr.Tem garantias para oferecer ?

Nat Taggart: Não.

Banqueiro: Agora estou lembrando. Não foi o Sr. que empurrou um distinto Sr. que ofereceu empréstimo do governo para a sua ferrovia?

Nat Taggart: Sim, fui eu.

Banqueiro: O pobre coitado não quebrou a coluna e está paralisado do pescoço para baixo?

Nat Taggart: Sim.

Banqueiro: O Sr. é o tipo de pessoa que gostamos de fazer negócios, mas não podemos oferecer essa quantidade de dinheiro sem que o Sr. possa oferecer uma garantia.

Nat Taggart: Veja, estava aqui pensando, sou casado com uma mulher lindíssima.

Banqueiro: E?

Nat Taggart: Veja, ela é uma mulher muito bonita, além de ter um corpo sensual. Além do mais, ela vem de uma família de muitas posses e tradicional do Sul.

Banqueiro: Uma daquelas famílias que explorava mão-de-obra escrava negra?

Nat Taggart: Evidentemente.

Banqueiro: São pessoas com o seu caráter moral que gostamos de negociar, Sr.Taggart. Mas, não entendi onde entra a beleza da sua esposa.

Nat Taggart: Olha, ela é muito bonita, prendada. Faz tudo que eu mando, se eu disser pula, ela pula, se eu disser se ofereça como garantia para um empréstimo bancário, ela se oferece.

Banqueiro: Ainda bem que não inventaram o feminismo na nossa época hein? hahaha!

Nat Taggart: hahaha!

Banqueiro: Mas Sr.Taggart, pelo que estou entendendo, você quer oferecer a sua mulher como garantia para um empréstimo bancário?

Nat Taggart: Quero sim.

Banqueiro: O Sr. não sabia que desde os primórdios do direito romano, há muitos e muitos séculos, a mudança das garantia para uma dívida das pessoas para o patrimônio dos devedores foi um dos grandes avanços da humanidade? Antigamente, antes dos romanos, era comum as pessoas se tornarem escravas por dívidas não pagas. Hoje em dia, esse tipo de coisa além de ser ilegal, causa um certo asco as pessoas normais.


Nat Taggart: Eu sei disso. Mas, eu sou um homem determinado a mudar o nosso mundo. Minha força de vontade é maior do que quase todos os homens somados. Minha força moral é tão grande, que talvez nem Alexandre poderia se comparar. E, veja, ela é muito bonita.

Banqueiro: Sr. Taggart, obviamente o Sr. é uma pessoa de força moral. Esse banco não se importa se você quase assassinou e deixou uma pessoa paralisada para sempre, pois não concordou com a oferta de negócios dele. Também não nos importamos sobre o que o Sr. acredita sobre a escravidão de outros seres humanos baseado apenas na sua cor de pele. Aliás, isso não mostra nada sobre o seu caráter. Agora, não podemos aceitar a sua mulher como garantia. Seria ilegal, não que não fazemos coisas ilegais, e também como classificaríamos a sua mulher nos nossos livros? Desculpe, mas não poderemos conceder o empréstimo.


UM POUCO DEPOIS


Nat Taggart: Mulher, o empréstimo bancário me foi negado. Tentei oferecer você como garantia, mas eles não aceitaram.

Mulher: Você fez o quê?

Nat Taggart: Fui a um banco e tentei oferecer você como garantia, mas eles não aceitaram.

Mulher: Você está louco? Me dar como garantia? Como assim?

Nat Taggart: Mulher, eu sou uma força moral e ética. Irei colocar a minha empresa para bilhar e mudar esse país, e você me pergunta coisas de pouca importância como dar a minha própria mulher como garantia de um empréstimo. Tenha Paciência.

Mulher: Que péssima ideia foi largar a minha vida confortável lá no sul com a minha família nobre e tradicional. 

Nat Taggart: Tenho uma ideia. Tem um sujeito que me odeia. Eu também não gosto dele. Ele é feio, barrigudo, possui aquela doença que faz a pessoa suar sem parar. Diz-se também que ele não é muito bom com higiene. Porém, eu sei que ele aprecia a sua beleza. Sei também que ele possui muito dinheiro. Vou pedir empréstimo para ele e oferecer  você como garantia.

Mulher: Você quer me oferecer em garantia para uma pessoa tão repugnante, que ainda por cima odeia você. Você vai me arriscar a me tornar uma escrava sexual?

Nat Taggart: Sim. E escute. Daqui a 100 anos irão escrever um livro fabuloso. Foi o que ouvi. Eu serei a fonte moral histórica que irá impulsionar uma jovem destemida a lutar contra as pessoas sem falta de caráter. O fio condutor da obra será as relações livres e consentidas. Sendo assim, você irá dizer que aceita ser dada como garantia para um empréstimo, pois com a sua aquiescência tudo parecerá melhor.

Mulher: Mas isso é ridículo. Se este livro realmente vier a existir, como as pessoas não irão perceber que você ofereceu a sua própria mulher para pegar um empréstimo, não para salvar a vida de um filho em risco de vida por uma doença, por exemplo, mas para aplicar num investimento arriscado que pode dar certo, como pode dar errado. E se der errado, eu vou ser uma escrava sexual de um sujeito que odeia você. Ou seja, poderei ter trocado uma nobre e honrada família escravocrata sulista para virar uma escrava sexual de um homem que não desejo.

Nat Taggart: Mulher, pelo que ouvi, o livro terá mais de 1000 páginas. Essa parte será apenas um curto parágrafo. Ninguém vai nem perceber. Além do mais estará no meio de várias páginas que tecem elogios ao firme caráter da minha pessoa, pode acreditar que ninguém irá perceber esse fato.

Mulher: E daí? Se você não pagar, eu vou me dar mal, não que a minha vida contigo seja das melhores.

Nat Taggart: Está decidido. Para fins de posteridade, eu preciso do seu livre consentimento. “Mulher, irei oferecer você como garantia de um empréstimo que pedirei para um homem odioso. Acaso eu não pague, você irá se transformar numa escrava sexual dele. Você aceita essa condição?”

Mulher: É para a posteridade?

Nat Taggart: Sim.

Mulher: Ok, eu aceito, afinal eu sou de uma família nobre e honrada do sul.


O EMPRÉSTIMO


Emprestador: Está aqui os seus dois milhões de dólares. O prazo do empréstimo é de seis meses e os juros são de 10% ao ano.

Nat Taggart: Mas esses juros são extorsivos!

Emprestador: Se é para emprestar por menos, eu empresto para o governo. 

Nat Taggart: Vocês parasitas improdutivos! Emprestar para o governo, ao invés de pessoas produtivas e com caráter moral elevado como eu.

Emprestador: Taggart, não me leve a mal não. É questão de risco x retorno, prêmio de risco, não é nada pessoal, apenas uma decisão financeira racional. Basta perguntar para os investidores de Tesouro Direto.

Nat Taggart: Tesouro o quê?

Emprestador: Esquece. Se o empréstimo não for pago em seis meses, a sua belíssima e suculenta esposa será a minha escrava sexual para sempre. Ela terá que fazer tudo o que desejar, quando eu desejar e como eu desejar.

Nat Taggart: Ok.

Emprestador: Eu disse tudo, tudo mesmo.

Nat Taggart: Ok, apenas me dê o dinheiro.

Emprestador: Eu odeio você. Você não gosta de mim. Sou um homem não atraente fisicamente. Você não tem nenhum peso na consciência de dar a sua bela esposa como garantia de um empréstimo arriscado? 

Nat Taggart: Não, claro que não. Primeiramente, porque ela  livremente aceitou esse fato. Em segundo lugar, porque sou um homem virtuoso que servirá de bússola moral no futuro quando o mundo terá se tornado um lugar de homens apáticos, mal-intencionados e sem força de caráter. E por fim, vai dar certo, irei pagar esse empréstimo.

Emprestador: Seis meses Taggart, seis meses.


UM CISNE NEGRO APARECE E O ATO SE ENCERRA


Nat Taggart: Mulher, se prepare pois irei entregá-la para honrar o contrato.

Mulher: O quê!!! O quê???

Nat Taggart: É isso que você ouviu. Não consegui pagar o empréstimo.

Mulher: Mas você não é a força moral, a salvação ética do futuro, o espírito daquilo que um homem de bem deve aspirar a ser?

Nat Taggart: É claro que sou. Mas, ocorreram problemas imprevisíveis. Sabe, a gente pensava que existia apenas cisnes brancos. Ora bolas, quem já viu um cisne negro?Porém, lendo o jornal parece que num lugar chamado Austrália avistaram cisnes negros. Agora estão usando essa expressão “Cisnes Negros” para eventos inesperados e imprevisíveis.

Mulher: Mas que raio de explicação é essa!

Nat Taggart: É, estava tudo indo conforme o planejado na ferrovia. Mas aconteceu um imprevisto fora das minhas análises, o fluxo de caixa que tinha previsto não se materializou, e não consegui pagar a dívida. Vamos, prepare-se, não esqueça as suas roupas íntimas.

Mulher: Nat! Você não me ama? Não fará nada?

Nat Taggart: É claro que a amo, mais do que tudo. Porém, contrato é contrato. Pacta Sunt Servanda. 

Mulher: Mas isso é um absurdo! Vou virar uma escrava sexual de um homem que possui apenas lascívia em relação a mim por causa de um empréstimo que você fez num projeto que era arriscado. Isso não é justo!

Nat Taggart: Mulher, não seja leviana. Não se comporte como os parasitas do futuro. Homens e Mulheres sem força moral e ética e que vivem às custas de homens honrados como eu. Você consentiu, você disse sim para que eu a oferecesse como garantia. Fizemos uma transação livre e consentida. Não há nada de errado.

Mulher: Mas como isso pode ser certo? Não podemos usar como argumento o caso belamente retratado por Shakespeare no livro “O Mercador de Veneza” quando o juiz de uma forma astuta consegue reverter uma situação parecida com a nossa, fazendo com que o judeu Shylock não pudesse executar a macabra garantia?

Nat Taggart: Quem é Shakespeare?

Mulher: Um dos maiores escritores de comédias, dramas e peças teatrais da história da humanidade. Um homem que de forma brilhante desnudou  as angústias mais profundas dos seres humanos.

Nat Taggart: Teatro? Está de Brincadeira. É por causa de bobagens como essa que daqui 150 anos, o mundo estará virado de cabeça para baixo. Mulher, pare de falar sobre bobagens, o que importa são as ferrovias! E apresse-se, pois o emprestador já está nas portas com uma ordem judicial para a entrega de coisa certa, coisa certa nesse caso é você. Não posso fazer nada.


Mulher: Mas não é assim que o livro acontece, Nat! No Livro você paga o empréstimo!



Burro: É deu ruim, Any Rand.