Você, prezado leitor, possui um terreno onde está edificada a sua casa. O seu vizinho, com o qual até aquele momento você possui relações amistosas, decide vender água de coco. Ele monta um plano de negócios, observa os custos que irá incorrer e qual a margem de lucro poderá obter se vender um coco por R$4,00.
Ele chegou nesse preço depois de observar vários lugares onde o mesmo produto é vendido a R$5,00. O seu vizinho então pensa “calculei os custos, estou empreendendo, vou ter lucro, está tudo certo”. Porém, ele percebe que deixou um custo de fora: a retirada dos cocos usados de seu terreno. Ele imagina se o negócio der certo, e vender centenas e centenas de cocos, uma hora será insuportável a montanha de “lixo" que irá se acumular. Não há caminhão de lixo da prefeitura, mas um transporte privado de recolhimento de lixo onde se paga uma determinada taxa por uma determinada faixa de peso de lixo.
Ele, diligentemente, entra no site da empresa privada de recolhimento de lixo, e percebe que se contratar o serviço, baseado nas suas estimativas de vendas semanais, os custos para vender um coco subiriam para R$5,30, tornando o preço do produto quase inviável. O que fazer? Desistir do empreendimento? Não, o seu vizinho resolve tocar o negócio. A solução encontrada por ele é simplesmente jogar os cocos usados em seu terreno. Ele reflete “e o meu vizinho que se vire para tirar os cocos”.
“Ah, Soul, que solução esdrúxula! Nunca eu iria aceitar o meu vizinho despejando um monte de coco no meu terreno”. Não né? O exemplo é absurdo. Pois mesmo que seja absurdo, seja bem-vindo ao problema não discutido, ignorado consciente e inconscientemente pela esmagadora maioria de economistas, políticos e empreendedores: a externalização dos custos de produção.
O que a palavra externalizar a grosso modo significa em economia? É o ato de retirar ou omitir da cadeia produtiva custos para a produção, fabricação de alguma coisa ou serviço. Pode haver efeitos positivos externalizados, e há vários exemplos, mas aqui irei me ater apenas aos efeitos negativos da externalização dos custos.
No exemplo, hipotético espero, do seu vizinho prezado leitor, fica claro que se ele fosse internalizar todos os custos para a venda do produto almejado, o preço não seria competitivo. Pagar para uma empresa transportar os cocos já utilizados seria um custo que tornaria quase proibitivo o negócio. Quando ele decide jogar os cocos em seu terreno, ele simplesmente está retirando esses custos da cadeia produtiva, e externalizando para você. Entretanto, o custo não desapareceu. Ele simplesmente foi retirado da cadeia produtiva. O que isso ocasiona? Além da injustiça de alguém não ligado a cadeia produtiva suportar o custo, no caso você prezado leitor, isso faz com que o seu vizinho possa vender o coco a R$ 4,00, um preço que não captura todos os custos, ou seja um preço artificial, ou melhor dizendo, um preço subsidiado pelos outros.
É incrível ver tantas pessoas defendendo a livre-iniciativa, culpando o governo por dar subsídios das mais variadas ordens, e simplesmente dando de costas, não se interessando, pelo enorme subsídio que é a externalização de custos. O exemplo do coco não é hipotético, ele é bem real. Quem você acha que está pagando os caminhões de lixo da prefeitura para recolher os cocos usados? Sim, você acertou, todos nós. Sendo assim, o preço dos cocos vendidos em sua cidade muito provavelmente são subsidiados por uma imensa maioria que não consome ou não tem interesse em consumir água de coco.
Não preciso dizer que a externalização dos custos não é a exceção, mas a norma nos nossos processos produtivos atualmente. Sabe quem também concorda com esse ponto de vista? Roger Scruton. Quem é esse Senhor? Um dos grandes intelectuais conservadores da Inglaterra. No livro “Como ser um conservador” ele faz duras observações nos capítulos “a verdade do capitalismo” e “a verdade do ambientalismo” sobre a externalização dos custos, e como isso perverte toda a lógica e funcionamento de uma sociedade livre.
Quando esse tema é abordado, muitas vezes há respostas emocionadas, algumas até mesmo histriônicas. Quando escrevi o “conto" “Quem Quer a Verdade?”, um colega por e-mail disse que a minha escrita parecia a do Pravda. Uau. Neste texto, de maneira irônica, realçava o fato de comidas com alto teor de gordura saturada, sal e açúcar terem efeitos nocivos, principalmente em crianças.
E não é verdade? Quando fiquei um tempo na Califórnia, eu me assustei com a obesidade. Havia pessoas que estavam quase sem forma, era uma gordura extremamente mole. O fato interessante é que a maioria das pessoas que via nessa condição eram latinos e negros, e quase sempre quando tomava ônibus. Quando ia para bairros elegantes como “La Jolla”, não presenciava casos de obesidade mórbidos. Se era assim na Califórnia, como não deve ser no Texas?
Pareceu-me claro que a comida barata consumida pelas pessoas mais pobres de San Diego era apenas artificialmente barata. Os custos de saúde, mobilidade, perda de produtividade, eram simplesmente externalizados. Todos os custos ao se vender “junk food” não eram internalizados no processo de produção.
Assim, ficou claro para mim, que essas empresas estavam nada mais nada menos do que sendo subsidiadas com uma quantidade de dinheiro enorme por outras pessoas que não tinham qualquer relação com essas empresas. Os lucros distribuídos para os eventuais acionistas destas empresas nada mais são do que lucros artificiais que só existem porque os custos estão sendo externalizados.
“Como assim Soul?” Quando comecei o meu trabalho como Procurador, deparei-me com alguns casos de pessoas pedindo auxílio a União pelo fato de se sentirem incapacitadas pelo uso contínuo de cigarro. Lembro-me claramente de refletir na época algo como: por qual motivo a sociedade deve arcar pelo mau hábito dessas pessoas? De outro lado, é ético negar ajuda a uma pessoa necessitada com grave problema de saúde? Problemas que seres humanos reais tem que lidar no seu dia a dia.
Claramente, as empresas que produzem cigarros externalizaram os custos de sustentar pessoas que tinham ficado incapacitas pelo uso dos produtos que elas fabricam. Esse custo seria agora de toda sociedade. Se assim o é, os lucros distribuídos por essas empresas só são possíveis se a sociedade como um todo subsidiá-los.
Ora, isso é claramente uma afronta ao livre comércio, e à liberdade de outras pessoas. Eu não quero subsidiar lucro de uma empresa de cigarro. A externalização dos custos está presente em quase tudo. Os grandes custos estão sendo todos externalizados para as gerações vindouras, num comportamento completamente antiético das gerações presentes para aqueles que não nasceram.
Eu fiquei bastante surpreendido ao perceber que o Sr. Roger Scruton pensa exatamente a mesma coisa. Para ele um dos comportamentos mais nocivos é quando a geração atual simplesmente não leva em consideração os interesses das gerações que ainda estão por vir.
É isso, colegas. O tema é vasto, e espero voltar ao mesmo em outros artigos.
Um bom livro, muito bem escrito. Como seria bom se "conservadores de araque" pudessem ler um livro como esse e refinar um pouco mais os seus argumentos, e refletirem que suas posições muitas vezes simplesmente são fracas e verdadeiras bobagens, e não necessariamente representam o pensamento conservador (obs: ainda acredito que o termo conservador é algo sem sentido semântico, o próprio autor do livro relata isso ao dizer que o conservador não pode ignorar as mudanças).
Um abraço!
