Um Traficante e um Aspirante se encontram
Traficante: Como vai essa vida rotineira? Entusiasmado?
Aspirante: Lá vem você com essa empáfia novamente. Do que se vangloria?
Traficante: Nada não. É que sabe, a vida é curta para fazermos coisas sem graça. O que faço é arriscado? Sim. É ilegal? Completamente. Imoral? Talvez sim, talvez não. Mas ao menos eu tenho emoção em minha vida.
Aspirante: É mesmo, pois sabia que entrei para os negócios!
Traficante: O que? Você que é tão certinho, vai se arriscar agora a ser pego?
Aspirante: Sou honesto, sim, e não sou idiota.
Traficante: Está me chamando de parvo?
Aspirante: Em certa medida sim.
Traficante: Você está louco?
Aspirante: Não! Não me leve a mal! Mas você vende drogas não?
Traficante: Sim.
Aspirante: Elas fazem mal as pessoas que consomem, não? Principalmente se for consumido em excesso?
Traficante: Claro!
Aspirante: Elas não são permitidas por causa desses efeitos não é mesmo?
Traficante: Se é por causa disso, eu não sei, mas elas não são permitidas.
Aspirante: Essas drogas possuem mercado muito pelo poder viciante delas, não?
Traficante: Isso é óbvio!
Aspirante: Ora, por que não vender substâncias viciantes do ponto de vista químico, mas que sejam legalizadas?
Traficante: Como é que é?
Aspirante: Exatamente o que você ouviu. Por qual motivo ter todo um Estado Repressor contra você: Policiais, Juízes, Mídia, Defensores de valores morais, etc, etc. Se a ideia é atuar num mercado de venda de substâncias que levam estímulos químicos ao cérebro para que seja criado um hábito de vício, por que não fazer isso de forma legal? Tem ainda um Bônus.
Traficante: Qual é?
Aspirantes: Se pode vender para crianças e você ainda é elogiado por isso!
Traficante: Nossa, ao menos os meus clientes são adultos.
Aspirantes: Pois é, clientes para a vida toda desde o berço hein?
Traficante: Mas afinal, o que você está fazendo?
Aspirante: Sou gerente de uma loja que vende comidas com alto teor de gordura e açúcar refinado especialmente para crianças.
Entra o Dono da Loja e um Burro Falante
Dono: Ei, o que você está fazendo aqui, daqui a pouco começa o seu turno. Não se esqueça do projeto dos brinquedos para as crianças.
Aspirante: Já vou, chefe. Estava falando com um amigo aqui que vende drogas.
Dono: Drogas? Quais tipos de drogas?
Traficante: Ah, aquelas nas quais os consumidores estão mais interessados.
Dono: Mas isso é um absurdo! Você não se envergonha de vender drogas que causam dependência química?
Burro: Mas o Sr. Não vende produtos que de certa maneira causam dependência química?
Dono: Primeiramente, é diferente. Em segundo lugar, de onde você veio e como um Burro Pode falar?
Burro: Bom, eu também não sei porque eu falo, pergunte para o autor.
Dono: ?
Burro: Deixa para lá. Porém, no que seria diferente?
Dono: O quê?
Burro: O fato de você vender produtos que contém substâncias químicas que podem causar dependência.
Dono: Ah, antes de tudo porque não é contra a Lei. O Estado disse que essas substâncias são permitidas.
Burro: Ué, mas estou lembrando de você. Não foi você que fez uma vez um discurso sobre como o Estado é malévolo, e como estaríamos melhores sem a presença de um Estado e suas regulações?
Dono: Eu já fiz um discurso destes, aliás sempre faço.
Burro: Não é contraditório agora apoiar a diferenciação do que você faz em relação a um traficante de drogas ilegais única e exclusivamente na existência de uma regulação Estatal sobre o que é legal ou não? Regulação esta que você diz que nem deveria existir?
Dono: Não! É diferente!
Burro: Por qual motivo?
Dono: Eu gero empregos!
Traficante: Ué, mas eu estou empregado por causa do negócio do meu patrão.
Burro: Correto, mas não foi essa questão.
Dono: Não me interessa se essa não foi a questão. Eu gero empregos, e as pessoas procuram livremente os meus produtos.
Traficante: Ué, os consumidores também procuram livremente os meus produtos. Aliás, nem precisa fazer propaganda, eles voltam sem eu fazer absolutamente nada.
Dono: É mesmo? Poxa, meus gastos com propaganda são altíssimos. Boa parte das minhas margens são corroídas com o dinheiro que invisto em marketing, principalmente o indireto direcionado a crianças. Talvez eu possa aprender um pouco com o negócio de vocês…Ah, quer dizer, o que você disse é um absurdo! É lógico que elas voltam, você as vicia.
Burro: Mas os seus produtos não são viciantes também? Elas não ativam as mesmas áreas do cérebro que algumas drogas ilícitas?
Dono: Não vou comentar sobre isso. E o que você quer dizer com isso? Que um refrigerante é tão maléfico como cheirar cocaína?
Burro: Eu sou apenas um burro. O que um Burro sabe sobre as coisas? Porém, não foi essa a minha pergunta e nem quis dizer nada com a minha pergunta.
Dono: Veja, tudo bem. É verdade que o argumento de criar empregos não é o dos mais fortes. Várias atividades desprezíveis como prostituição infantil, tráfico de humanos, também criam.
Burro: Nisso concordamos.
Dono: Também é verdade, mas não espalhe, que vendemos produtos químicos que podem vir a causar dependência. É claro que colocamos instrumentos para entregar esses produtos de forma não tão direta. De certa forma é como o cigarro que nada mais é do que um instrumento para entregar nicotina É verdade também que as pessoas procuram livremente o vil traficante desse conto, logo não poderia argumentar, com racionalidade, que esse poderia ser o divisor entre a minha atividade e a dele.
Burro: Continuamos concordando.
Dono: Porém, eu conquisto o meu espaço pela minha inventividade. Não uso de violência, não uso de coação, como esses traficantes de drogas ilícitas. Além do mais, eu gero lucros para acionistas sérios que compram ações em bolsa de valores.
Burro: Porém, um traficante não tem que conquistar o seu espaço pela inventividade? Não precisa conquistar mercados consumidores assim como você faz?
Traficante: É, eu preciso fazer isso. Se eu me manter parado, a concorrência assume o meu espaço.
Dono: É, mas eu não uso de violência, não mato ninguém, não ameaço ninguém.
Traficante: Dr., e como eu faço para executar as dívidas de alguém que não pagou? Levo a protesto? E como faço para defender o meu território se um outro grupo quiser tomar o meu lugar? Aciono um advogado?
Dono: Bom, Não sei.
Burro: Se um concorrente entrar na sua loja, quebrar instrumentos e ameaça-lo de morte, o que você faria?
Dono: Eu vou ao Judiciário e à Imprensa. Em pouco tempo a reputação dele estará destruída. Seria até bom para os meus negócios.
Burro: Seria correto afirmar, então, que no seu negócio se a concorrência usar de violência pode vir a ser benéfico?
Dono: Sim, claro. É evidente que podemos usar de outras violências. Violências legalizadas, ou às vezes não. Mas deixa isso para lá.
Burro: Se um traficante invadir o seu território e fizer ameaças de morte, o que você pode fazer?
Traficante: Burro, a atividade é ilegal. O Estado não regula. Não tem essa história de Judiciário, ou Advogado e muito menos imprensa. É ele ou Eu. E cá entre nós, prefiro eu!
Burro: E quanto a acionista, Traficante? Tem?
Traficante: Ah, não é tão chique como o Dr.Aí, mas tem os donos sim, os lucros vão para eles. Por isso sempre estamos preocupados aqui com os custos e com a margem do negócio. Se o lucro cai, os "acionistas" vem para cima, fica ruim para a gente burro.
Dono: Eu gostaria de voltar ao ponto dos malefícios dos produtos que vendo. Não é verdade. Não é verdade mesmo. Eu vi um documentário, muito bom por sinal, chamado FatHead. Nele, um leigo em assuntos nutricionais diz que na verdade esse tipo de alimentação faz perder peso! Ou seja, faz bem para a saúde.
Burro: E desde quando perder peso está relacionado com saúde, e substâncias químicas que ativam certas áreas do cérebro?
Dono: Ora, eu não sei. Mas o rapaz perdeu peso!
Burro: Traficante, em seus consumidores mais fiéis, você não nota uma perda de peso?
Traficante: Sim, alguns ficam muito magros.
Burro: Será por que elas ingerem menos caloria do que gastam com o seu metabolismo normal, muito provavelmente por estarem tão absortos na droga?
Traficante: Eu sei lá! Sei que ficam magros e a maioria emagrece.
Dono: Ok, ok! Eu sei que o emagrecimento tem a ver com a quantidade de calorias ingeridas e gastas, e não necessariamente com a qualidade dos alimentos. Também sei que o não-expert do documentário não ingeria refrigerantes, nem batatas fritas, também sei das centenas de estudos ligando uma série de doenças ao consumo de açúcares refinados, gorduras saturadas entre outros ingredientes que utilizamos. Estou ciente que crianças estão desenvolvendo doenças que eram tipicamente de adultos. Sei que há uma epidemia de obesidade. Sei que esse tipo de alimentação gera externalidades de todos os tipos que são arcadas por outras pessoas.
Aspirante: Externalidades chefe?
Burro: Deixa essa para um novo conto.
Dono: Sei que algo que vendemos como um frango, na verdade é um composto com mais de 30 produtos químicos. Eu sei disso tudo. Mas o que você, aliás não sei porque chamo um burro de você, quer que eu faça? Quer que eu vá à falência, e não gere empregos, lucros e dividendos?
Burro: Não, claro que não. Por que não começa dizendo a verdade?
Dono: E quem quer realmente a verdade?
Traficante: Quem quer a verdade?
Aspirante: Está louco Burro! Quem quer a verdade?
Burro: É…quem quer a verdade?
