"Especialistas sem espírito, sensualistas sem coração - e esta nulidade se considera, ainda por cima, o supra-sumo da civilização" - Goethe
Olá, amigos! (vou começar a cada Post colocar alguma citação de alguma grande figura humana. Esta frase é ou não é um retrato dos nossos tempos?)
Depois de uma série sobre REITs
com dezenas de gráficos e conjecturas, o próximo post tinha que ser mais light
né!
Hoje vou escrever sobre minha
experiência na América Central. Este pequeno “continente”, com pequenos países,
guarda histórias grandiosas, histórias tristes, e uma beleza natural de tirar o
fôlego. Quem gosta de surfar, então, é um paraíso, com lugares de água quente, ondas constantes e perfeitas e
preços muito, mas muito baratos. No meu caso, a viagem ainda me presenteou com
o começo de uma história de amor e companheirismo.
A América central é uma unidade
continental muito diversa da América do Sul, bem como da América do Norte,
apesar de ter traços similares com o México. São oito países que formam a
América Central, e eu tive a oportunidade de passar por todos (Honduras foi
apenas de passagem mesmo). Não pretendo, pois seria cansativo e além dos meus
conhecimentos, esmiuçar a história e as características de cada país, mas
apenas fazer um relato das minhas percepções. Vou começar a contar um pouco da minha epopéia
que teve ondas incríveis na Nicarágua, SUS de El Salvador, brigas de amigos e o
encontro da minha companheira.
GUATEMALA
Comecei
a viagem com dois grandes amigos da época da faculdade. Eles nunca tinham mochilado
na vida, e a primeira viagem seria para Guatemala. Este é um país incrível. Berço dos poderosos
Maias. Aproximadamente 60% de sua população é indígena e descendente dos
Maias. É um país, como a maioria da América Central, com grande desigualdade e
muita pobreza. A miséria chega a ser tanta que é comum ver centenas de crianças muito pequenas, despidas complemente de sua dignidade, acenando para os carros nas estradas para que as pessoas jogassem moedas num
espetáculo deplorável. Foi uma das partes tristes da viagem presenciar isso.
Como
a maioria dos países da região, a Guatemala foi sempre um país muito desigual,
geralmente com uma elite descendente dos europeus no poder. Houve, é claro,
muitas resistências populares, mas todas elas sufocadas com extrema violência. Os
EUA, como em quase todos os países da América Central, sempre tiveram um papel muito
negativo na região. Em 1954, por exemplo, um presidente democraticamente
eleito, o Sr. Jacobo Arbenz, num que seria um dos primeiros golpes documentado patrocinado pela CIA , foi ilegitimamente retirado do poder pela força militar
patrocinada pelos americanos. A plataforma de Arbenz colidia fortemente com uma
gigante multinacional americana a United Fruit, e interesses econômicos foram
responsáveis por um golpe de estado apoiado por uma potência estrangeira.
Após
esse golpe, o que se seguiu, como aconteceu em outros países na América
Central, foi uma violenta guerra civil, com abusos atrozes de direitos humanos
praticados, principalmente contra a maioria indígena, que se estendeu por vários
anos até meados da década de 90. A
Guatemala possui até mesmo um prêmio Nobel da paz (o Brasil, apenas para comparação, ainda não possui
nenhum nobel) conferido a Rigoberta Menchú, devido sua luta por direitos dos
povos indígenas.
Eu
passei por diversas cidades interessantes como a cidade colonial de Antígua, o
surreal lago de Atitlán, os maravilhosos lagos esmeraldas de Semuc Champey e a
espetacular cidade antiga maia de Tikal, considerada por muitos historiadores o
centro de poder maia entre o começo da era cristã até o final do primeiro
milênio depois de cristo. Até um vulcão ativo eu escalei, ficando a menos de 1
metro de um rio de lava numa das experiências mais diferentes da minha vida.
O
fato triste é que os meus dois amigos brigaram entre si durante a viagem, e
nunca mais a amizade deles seria a mesma. É a vida, e por mais que eu tenha
ficado chateado, não se tem qualquer controle sobre isso.
Soulsurfer admirando a beleza em Tikal. Sim, foram obras que dezenas de milhares de escravos trabalharam (poucas pessoas pensam nisso quando visitam esse tipo de lugar), mas apesar disso, não se pode negar que Tikal é uma cidade impressionante.
Algumas horas depois de uma caminhada para subir o vulcão Pacaya, eu simplesmente não acreditei quando vi esse rio de lava, e pude chegar tão perto. Sim, era perigosíssimo, qualquer estouro ali era morte, mas na hora nem pensei nisso. Jamais num país desenvolvido seria permitido chegar tão perto de um rio de lava. Bom, pelo menos voltei vivo, e a experiência foi única.
Um lago com dois vulcões ao fundo. Paisagem alucinante, lago Atitlán.
Os lagos de Semuc Champey. Você pode se banhar neles, e foi iradíssimo. Ainda fiz um passeio numa caverna no meio de um rio que foi também algo muito diferente. Tive que nadar, e para você ter uma ideia, entramos com uma vela na caverna, pois não tinha lanterna, e eu nadando e tentando não apagar o fogo.
Guatemala,
um país sofrido, um povo sofrido, com histórias de genocídios e massacres. Um
povo, mesmo assim, que sorri, com um artesanato riquíssimo e colorido e com um
passado glorioso. Sim, os Maias foram gloriosos, atingiram feitos na
astronomia, nas ciências, na arquitetura que são realmente notáveis, se
pensarmos que algumas cidades maias possuem mais de 2 mil anos. Veja, eu não
idealizo os Maias ou povos indígenas. Pelo contrário. Há dois mil anos, havia
sacrifícios coletivos, não havia direitos mínimos, e se você fosse de uma tribo
conquistada pelos Maias o seu destino era a morte ou a escravidão. Era como a
vida humana transcorria há séculos atrás, isso só demonstra como nós evoluímos
em muitas questões como seres humanos. O declínio dos Maias, e eu já tinha
visto isto no Camboja com a civilização Khmer, é um alerta para nós, de que a
desgraça pode vir logo depois da glória, de que não somos poderosos para sempre, e que a
falta de recursos naturais e seu uso desmedido(a razão mais provável para o
declínio dos Maias) podem sim levar uma civilização ao colapso.
O filme possui erros históricos claros e não deixa de ser um pouco forçado em algumas cenas. Entretanto, é um filme interessante, e mostra o declínio da civilização maia. Apocalypto, direção Mel Gibson.
BELIZE
Imagine passar o ano novo gastando cinco dólares com a hospedagem, 1 dólar com cerveja gelada e 8 dólares com lagosta na brasa, isso tudo numa ilha pequena caribenha com mar cristalino, sentando para comer com o pé na água? Pois foi exatamente assim que eu passei o ano novo de 2010. Meus amigos, depois da Guatemala, voltaram para o Brasil, e eu segui viagem rumo a Belize, um país pequeno, na já pequena América Central.
O
que chama atenção em Belize é que a sua população majoritária é negra.
Enquanto na maioria dos outros países da América Central a população é indígena
ou mestiça, não há muitos negros, pois o grosso dos escravos africanos foi
enviado para o Brasil pelos europeus. Além do mais, a língua lá falada é o
inglês, ou similar ao inglês. Eles falam
“Broken” English, isso mesmo "inglês quebrado", eles não pronunciam todas as
letras ou pulam vogais, etc. É muito difícil de entender, e nem os nativos de
língua inglesa às vezes conseguem decifrar o que os belinezes falam.
Minha
passagem por Belize foi basicamente fazer snorkel, tomar cerveja, e andar
descalço com o pé na areia numa ilha que fiquei alguns dias para o ano novo.
Foi muito bacana, e com certeza repetiria a dose em alguma outra oportunidade.
Quando eu já estava indo embora para o meu próximo destino, fiz amizades com
três austríacos gente boa. Após conversamos um pouco, este foi o nosso diálogo:
Austríacos – Para onde você está indo amanhã?
Soulsurfer – El Salvador.
Austríacos – Vai fazer o que lá?
Soulsurfer – Vou surfar.
Austríacos – Saindo de onde estamos quanto tempo para chegar lá?
Soulsurfer – Não sei, mais de 30 horas pegando no mínimo uns seis
ônibus diferentes.
Austríacos – Beleza. Vamos para El Salvador contigo
Soulsurfer – Vocês surfam?
Austríacos – Não, mas a gente aprende lá!
Isso
é estar vivo, isso é sair da rotina e se entregar ao que a vida pode oferecer,
é aceitar o diferente e não temer o novo.
Podemos fazer isso diariamente, não precisamos estar viajando num país
diferente para termos esse tipo de atitude. Depende única e exclusivamente da
gente se levamos uma vida sem surpresas ou se escolhemos uma vida que leve a
desafios, decepções, alegrias, amizades, brigas e tudo o que acontece
normalmente quando humanos se relacionam. Quando desafiamos a nossa zona de
conforto, quando nos permitimos avançarmos por lugares novos, idéias novas,
percepções novas, a vida fica mais colorida e muito mais divertida.
Bom,
depois de dezenas horas, diversos
transportes (especialmente “Chicken Bus” – falo sobre ele abaixo), pagamento de
propina (na fronteira da Guatemala com Belize) pela minha cara “gringesca”, eu
estava em El Salvador, na região de La
Libertad, e mal esperava para cair na água e pegar a minha primeira onda internacional!
Barzinho pé na areia, coisa boa.
Vá Devagar! Diminua o ritmo! É bom desacelerar de vez em quando.
Olha o visual do Snorkel, tartarugas gigantes.
Água cristalina, inúmeros peixes, sim é um tubarão ao fundo, já fiz snorkel algumas vezes com tubarão.
Olha o Rango! E nem é caro, e você gastando 130 reais em algum restaurante no nordeste (nada contra o nordeste, pelo contrário já que o meu pai é nordestino, mas o Brasil tá caro demais para o serviço oferecido em troca).
Esse é o famoso "Chicken Bus". São ônibus escolares americanos que foram importado por vários países da América Central e servem como meio de transporte local. Eles são coloridos, barulhentos e quase sempre entupidos de gente.
EL SALVADOR
El Salvador,
com a sua capital com o sugestivo nome de San Salvador, fez me lembrar que eu
estava no Brasil, pois a semelhança com o nome da capital da Bahia não saía da
minha cabeça. O gozado também é que quando estive lá todo El-Salvadorenho quando sabia que eu era do Brasil fazia
questão de dizer que a primeira-dama era brasileira e todo mundo gostava dela.
O país possui uma história
similar com outros países da América Central. Os Maias não tiveram tanta
presença em El Salvador, como na Guatemala, mas há alguns lugares históricos no país. A vida após a independência da Espanha foi
marcada pelo domínio de uma elite sobre uma maioria empobrecida. Na segunda
metade do século 20, devido a graves problemas econômicos, uma intensa guerra
civil entre o governo e a FMLN (Frente Farabundo Marti de Liberación
Nacional) – uma guerrilha
de orientação marxista – mergulhou o país no caos e na violência, com a morte
de 75.000 pessoas e o desaparecimento de quase 40.000.
A
guerra civil chegou a um fim na década de 90, mas uma guerra dessas sempre
deixa cicatrizes. El Salvador é um país violentíssimo com 41,2 assassinatos a
cada 100.000 habitantes, é o terceiro país mais violento do mundo (o Brasil é o
18ª com uma média de 25,2 assassinatos, o que é um número horroroso. O Japão,
por exemplo, possui uma média de 0,3, enquanto a média mundial é de 6,2, ou
seja o Brasil é quatro vezes mais violento que o resto do mundo). O clima de tensão é evidente na capital do
país. Apesar de ser violentíssimo, o país mais violento do mundo é Honduras com
incríveis 90.4 assassinatos, seguido pela Venezuela com assustadores 53.7. A situação realmente é caótica no nosso vizinho do norte, a inflação é apenas um
dos graves problemas (http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/04/140410_homicidio_onu_mm.shtml)
Lembram
da longa viagem de Belize para El Salvador, da minha ansiedade para ir surfar?
Pois então. Quando eu cheguei à pousada na frente da praia, pela qual paguei apenas 7 dólares
por noite, eu lembro até hoje que comi um hambúrguer com fritas, tomei umas
cervejas, e parecia uma criança de tão faceiro que eu estava. Depois de uma longa viagem, estava alimentado,
levemente feliz pelo efeito do álcool, e no próximo dia ia pegar onda na frente
da pousada, bah, era bom demais para ser verdade. Eu estava indo dormir, faltava alguns passos
até a minha cama gostosa (como uma cama fica boa depois de dois dias sem dormir
direito), quando eu tropecei e torci o meu pé, e uma dor absurda começou. Eu
apenas pensei “Fudeu.”
Vixe! E agora? Quem poderá me defender?
Será que eu
tinha quebrado alguma coisa? Continuo a viagem? Volto para o Brasil? Enquanto
pensava isso meu pé ia inchando. O dono
da pousada achava que nada tinha quebrado, e me ofereceu carona (eu não tinha
conseguido contactar o meu seguro-viagem) até o hospital mais próximo. Lá, eu
tive a minha experiência com o SUS de EL Salvador. Imagina as pessoas simples
do local olhando um gringo mancando dentro de um hospital de uma cidade nada
turística. Seis ou sete horas depois, consegui fazer um Raio X, e o médico me disse
que nada tinha quebrado, era ficar com o pé para cima e gelo 24 horas por dia.
Perguntei: "Dr. Vou conseguir surfar em duas semanas"? Ele falou, "não sei vai
depender da evolução". Voltei para pousada, depois de passar um certo sufoco na
cidade, pois nunca tinha visto tantos olhos com intenções que eu interpretei
como “Gringo, esse não é o seu lugar, está escurecendo, o que você está fazendo
aqui?” direcionados a mim. Por fim, cheguei à pousada. A semana toda eu fiquei
em companhia de um dos austríacos (que tinha raspado a cara no fundo de pedra
tentando aprender a surfar, ele não podia pegar sol no ferimento) vendo filmes
(vi muitos), lendo livros (li uns três), refletindo na vida, sofrendo um pouco
vendo altas ondinhas quebrando, e principalmente pensando: “Caraca, Lula, foi
dar abrigo ao Zelaya, agora eu estou preso aqui em El Salvador e não vou
conseguir ir para Nicarágua via Honduras.
O que eu vou fazer?”
Não sei se
lembram, mas Honduras viveu uma crise institucional alguns anos atrás, e o presidente deposto
Zelaya se refugiou na embaixada brasileira em Honduras. O Brasil aplicou
sanções em Honduras, uma delas foi começar a exigir visto de entrada de Hondurenhos
no Brasil. Honduras, pelo princípio de relações internacionais da reciprocidade,
começou a exigir visto de Brasileiros para entrar em Honduras, e eu que só
queria passar pelo território de Honduras para chegar na Nicarágua, tinha
agora que ter um visto. Um visto formal que deveria ser feito na embaixada de
Honduras em El Salvador. Eu não sabia se eu conseguiria fazer o visto. Tive que
ficar em San Salvador, a capital, por longos três dias (os austríacos seguiram
viagem, pois eles não precisavam de visto). A capital de El Salvador é cheia de
homens armados fazendo segurança, muros incrivelmente altos e uma quantidade
absurda de Fast Food que nem nos EUA você encontra tanto. Por fim, consegui o
bendito visto e iniciei mais uma jornada em direção a Nicarágua, passando por
Honduras.
Foi outra
viagem extremamente cansativa. Peguei inúmeros Chicken Bus de conexão em
conexão. Ao final deu tudo certo, e enfim tinha chegado à bonita cidade de Léon
na Nicarágua.
O nome Farabundo Marti é uma homenagem a um líder popular esquerdista da década de 20, morto por tropas governamentais, coordenadas pelos EUA. Seu nome virou símbolo da luta contra as condições injustas em que viviam a maioria da população. Seu nome seria homenageado pela guerrilha marxista FMLN.
Um filme de 1986 dirigido por Oliver Stone. Retrata o panorama de El Salvador em plena guerra civil.
NICARÁGUA
Ah, Nicarágua!
Saudade de suas esquerdas longas e perfeitas!
Como dizia, depois de uma longa viagem, e inúmeros trâmites de diversas
fronteiras, estava na Nicarágua, na cidade revolucionária de Leon.
Existe uma espécie de Rio x São Paulo na Nicarágua, no caso entre as cidades de León e Granada. As duas são cidades coloniais bem bonitas. León sempre foi considerada o reduto das ideias progressistas, dos ideais revolucionários, sendo atualmente um grande centro sandinista (explicação abaixo). Granada, por seu turno, sempre foi associada com ideias mais conservadoras dentro da Nicarágua. Assim, foi interessante saber da existência de duas cidades com posições ideológicas distintas. Será que temos algo parecido no Brasil?
A história da Nicarágua, não há sítios Maias no País, nos últimos séculos é parecida com seus vizinhos do norte. Dominação colonial européia, independência, grave abismo social entre a maioria da população e a elite governante. Um fato um pouco diferente é que os EUA, no final do século XIX, intervieram diretamente no país, controlando suas ferrovias e banco central. Na década de 20 do século passado, revoltas populares questionaram a presença militar dos EUA, e um movimento de guerrilha, liderado por César Augusto Sandino conseguiu repelir as forças estrangeiras.Após a expulsão das tropas americanas, Sandino resolveu abandonar o combate armado, mas um golpe de estado apoiado pelo EUA e liderado por Alberto Somoza Garcia, que ficaria 42 anos no poder, tomou o controle do país. Sandino, que iria virar um dos heróis nacionais nicaraguenses, foi assassinado logo após o golpe.
Somoza endureceu o combate a qualquer oposição. Isso fez com que houvesse a criação de um grupo guerrilheiro com orientação marxista, chamado Frente Sandinista de Libertação Nacional - FSLN- o que fez com que o país mergulhasse numa guerra civil sangrenta por muitas décadas. Os sandinistas conseguiram chegar no poder em meados da década de 70, mas o país estava arrasado e a economia em frangalhos. Além disso, a guerra continuava, pois havia grupos armados, conhecidos como Contras e apoiados pelos EUA, que agora combatiam os sandinistas no poder. Episódio muito conhecido é o caso de corrupção envolvendo altos funcionários da CIA, no qual os EUA secretamente forneceram armas ao Irã (sim ao Irã meus amigos, que na época já era inimigo dos EUA, devido ao incidente na embaixada americana de Teerã em 1979 - o recente filme ARGO retrata esse episódio, é um excelente filme - época também que o Iraque do simpático Sadam Hussein era aliado estratégico dos EUA na região), apesar de haver um embargos de armas, para financiar os Contras na Nicarágua. Eu vou repetir: Os EUA venderam armas secretamente para o Irã, inimigo, para financiar grupos guerrilheiros num país da América Central. Este caso é conhecido como IRÃ-CONTRAS (mais informações aqui : http://pt.wikipedia.org/wiki/Caso_Ir%C3%A3-Contras).
Atualmente, a paz reina no país. Os índices de desenvolvimento humano e de renda são baixíssimos. A miséria é muito alta. Um Sandinista, Daniel Ortega, ocupa atualmente a presidência. Tive a oportunidade de conversar com um ex-guerrilheiro da FSLN quando estive em Léon. Foi uma conversa interessante, pois não é sempre que você tem a oportunidade de conversar com um ex-guerrilheiro marxista. Veja, não sou adepto de guerrilhas, muito menos de guerrilhas marxistas, mas para mim é interessante tentar compreender o desenvolvimento da história e os diversos lados que existem.
Depois de
conhecer as duas aprazíveis cidades, era hora de tentar surfar. Já tinha se
passado quase duas semanas desde o acidente com o meu pé. Eu já andava quase
normalmente, mas não sabia se conseguiria surfar ou não. Fui conferir eu mesmo,
e rumei para a praia de Popoyo localizada no sul da Nicarágua, perto da fronteira
com a Costa Rica. A praia é afastada. Fica num pequeno vilarejo que é composto
basicamente de uma rua. Não há nada. Pra chegar lá, eu desci de um Chicken Bus,
pois o motorista tinha indicado, numa encruzilhada e comecei andar supostamente
em direção à praia. O motorista tinha me dito que a praia era uns 5 minutos
andando. Para minha sorte, parou um carro caindo aos pedaços com pacotes de pão
praticamente até o teto e me ofereceu uma “táxi” até a praia, como ele pediu 1
dólar apenas, aceitei. Os cinco minutos andando do motorista eram na verdade 20
minutos de carro. Eu tinha a indicação de um surf hostel, e quando cheguei ao
local apenas me perguntei: “O que eu estou fazendo aqui?”.
Não havia nada
no local, tinha um vento muito forte (geralmente vento muito forte é muito ruim
para o surf), o meu pé tinha começado a doer, pensei “é não foi uma boa todo
esse esforço para chegar aqui”. José Saramago em sua infância era apaixonado
pela beleza de uma catedral. Todos os dias ele passava em frente dela e se
encantava com tão impressionante arquitetura. Um belo dia, ele por acaso deu a
volta na catedral e viu que a construção estava completamente deteriorada na
parte de trás, e percebeu que a administração da catedral apenas conservara a
parte da frente do prédio. Saramago, eu ouvi essa história numa entrevista
dele, disse que aquilo foi uma dura lição de que para se conhecer algo é
preciso “dar a volta inteira”. Eu tinha visto, aliás minhas percepção tinha
apenas apreendido, apenas a parte de trás de Popoyo. Quando eu “dei a volta
inteira”, rapaz, como valeu a pena.
O Surf Hostel
era bacana e barato (apenas 10 dólares). O vento que soprava sem parar era
terral o dia inteiro (terral e um vento que sobra da terra para o mar, e é
muito bom para as ondas, mas é muito raro, principalmente no Brasil, de
acontecer. Um vento terral o dia inteiro é quase impossível no Brasil), pois
Popoyo está bem à frente de um gigantesco lago, então os ventos vão do
lago em direção ao Mar. Encontrei uma bela prancha para alugar. Fui correndo
ver as ondas, e esquerdas longas quebravam. Minha primeira queda (termo de
surfista para ir surfar) foi no meio-dia. O meu pé não doeu, fiquei muito
feliz. Voltei a surfar no final de tarde. O mar tinha melhorado muito, um metro
e meio de esquerdas perfeitas, o sol se pondo no oceano, numa explosão de
cores. Voltei para a pousada, comi um prato de macarrão gigantesco. Fui passear
na única rua, e quase não havia luz artificial, mas o céu, minha nossa, que céu
estrelado era aquele. Tinha surfado, tinha comido um simples macarrão, bebido
uma cerveja, visto um pôr-do-sol magnífico e um céu estrelado que talvez apenas
o meu amigo poeta investidor encontre palavras adequadas para descrever. Que
dia maravilhoso. Vou guardá-lo para sempre na minha memória. Como pouco
dinheiro e coisas simples podem encher nossas mentes de felicidade e satisfação.
Minha passagem por Popoyo, fiquei seis dias lá, se resumiu a isso: acordar as
cinco da manhã, surfar oito horas por dia, comer, tomar cerveja, dormir as 8 da
noite, acordar as cinco da manhã, surfar oito horas por dia...
Frente Sandinista de Libertação Nacional - FSLN. Hoje em dia se transformou num partido político e abandou a luta armada.
Pôr-do-Sol na charmosa cidade colonial de Granada.
Mais um dia difícil em Popoyo...
Quando Popoyo funciona, é uma das melhores esquerdas de toda América. Ainda quero ver quebrando assim...
Olha o tamanho do Popoyo Express! (estou longe de ter surf para encarar uma onda dessa)Não são as ondas espetaculares, e assustadoras, das duas fotos acimas. Mas e daí? Soulsurfer em momento de felicidade nas esquerdas longas de popoyo....
Depois de
passar esses dias memoráveis, era hora de continuar descendo o continente rumo
à famosa Costa Rica. E lá fui eu de novo pegar diversos transportes, ficar três
horas em pé na emigração da Nicarágua, e passar certo perrengue. Muitas horas
depois eu tinha chegando a Tamarindo no norte da Costa Rica, louco para
conhecer as famosas ondas da região.
COSTA RICA
A Costa Rica é
um país singular. Eu pensava que era o único país a não ter forças armadas (mas
dei uma pesquisada e há vários países nessa situação http://www.blogdotony.net/81624 -
não conferi se a fonte é boa ou não). Foi uma opção do pais há mais de
sessenta anos de não gastar dinheiro com algo que evidentemente não traz
qualquer retorno para o bem-estar da população. O país é considerado um dos
mais pacifistas do mundo, um dos países onde a população se sente mais feliz (http://exame.abril.com.br/mundo/album-de-fotos/os-50-paises-onde-as-pessoas-sao-mais-felizes-segundo-a-onu),
e um dos países com a maior parte do seu território constituído de parques nacionais e
áreas de proteção, o que tornou o país uma referência em turismo ecológico. Não
é por menos que a Costa Rica é considerada a “Suíça das Américas” (sim os
índices de IDH, expectativa de vida, etc são bem maiores do que o Brasil).
Portanto, a
vida na Costa Rica não é ruim não. É um país com uma beleza natural
espetacular, e índices sociais muitos razoáveis. O Slogan do país é “Pura
Vida”, você diz oi, e os locais respondem “Pura Vida”. É um país diferente. Eu,
infelizmente, não tive sorte. Cheguei numa semana flat (expressão no surf para
dizer que não tem onda), e não consegui surfar nos dias que fiquei no país.
Conheci uns brasileiros e viajei de carro com eles pelo país. Foi bacana,
visitamos o famoso vulcão Arenal, parei num hotel termal muito bacana, e fiquei
uns dias na bacana cidade fronteiriça de Puerto Viejo de Talamanca, já na parte
caribenha do país. Lá está localizada uma das ondas mais perigosas do
continente, a famosa “Salsa Braba”. Tem esse nome, pois a onda faz “Salsa” com
os surfistas. Quando eu estive lá não tinha onda nenhuma. Paciência, eu também
não iria surfar um lugar desses. Depois de uns dias aproveitando a beleza de
algumas praias, resolvi rumar para o último país da viagem, mal sabia que minha
vida ia mudar completamente em poucos dias.
A mítica Roca Bruja (quem já viu o clássico filme de surf Endless Summer, sabe do que estou falando! Bah, como eu queria ter surfado esse lugar, mas não consegui.
Sem ondas, o negócio foi ficar morgando nas praias lindíssimas da Costa Rica.
É isso aí, Costa é Pura Vida! Lugar manerríssimo, para se voltar várias vezes.
PANAMÁ
O Panamá é um
país conhecido pelo seu canal, uma obra de engenharia do começo do século XX
que de certa forma ajudou a conectar o mundo, ao fazer com que navios pudessem
atravessar do oceano atlântico para o oceano pacífico, e vice-versa.
A história do
Panamá diverge da dos outros países da América Central. O Panamá na verdade
fazia parte da Colômbia até o começo do século XX, e sua história está mais
ligada com o continente da América do Sul, do que com a América Central. Tendo
em vista a importância estratégica do canal do Panamá, os EUA sempre tiveram
uma presença muito forte no país, com muitos militares no país, sendo que o canal
do Panamá só passou ao controle do próprio Panamá em anos recentes. Durante
todo século XX, os EUA controlaram o canal do Panamá.
É um país que
avança social e economicamente, sendo o destino de muitos americanos
aposentados, já que numa recente pesquisa o Panamá foi eleito um dos melhores países para aposentados viverem.
Minha primeira
parada no Panamá foi na cidade-ilha de Bocas Del Toro. Lugar com praias
lindíssimas, astral muito bacana e ondas alucinantes. Peguei ondas muito boas,
sendo que o interessante é que você tem que ir obrigatoriamente de barco surfar,
pois os lugares que tem onda são um pouco afastados da ilha principal. Bocas Del Toro é um lugar ideal para se ir com
a família ou com a mulher, pois a atmosfera do local é muito legal mesmo.
Depois de dias pegando altas ondas e aproveitando o local, eu estava comendo numa pizzaria quando troquei algumas palavras com uma brasileira. Foram poucos minutos apenas de conversa, mas a conversa foi interessante, pois é bem raro encontrar alguma brasileira viajando sozinha de mochileira, muito menos na América Central, bonita então, uma raridade. Se acrescentar que ela estava lá fazendo curso de mergulho, então a raridade aumenta ainda mais. No outro dia, eu estava em outro restaurante comendo, quando essa mochileira gatinha brasileira se aproximou e começamos a conversar novamente. Era o último dia dela na ilha, eu ficaria ainda mais uns dias, e ela estava me dando algumas dicas sobre um lugar no Panamá que ela já tinha ido e era um dos meus próximos destinos. Papo vai, papo vem, eu pedi o e-mail dela (essa geração virtual atual!), e anotei num papel. Ela, por uma sorte do destino, também pediu o meu e-mail.
Despedi-me da mochileira gatinha, desejei boa viagem e continuei almoçando na companhia dos austríacos que tinha reencontrado no Panamá (um tinha quebrado a perna ao cair num bueiro em Manágua, capital da Nicarágua, e tinha voltado para Europa). Entretido pela conversa, terminei o almoço e comecei a caminhar pelas ruas de Bocas Del Toro. Alguns minutos depois eu percebi que tinha esquecido o papel com o e-mail anotado, voltei correndo para o restaurante, mas não consegui achar, cheguei mesmo a olhar na lata de lixo. Pensei, "que mierda"! Paciência.
No outro dia, eu estava checando meus e-mails numa lan house. Eu recebo muitos e-mails, mais de 50 por dia (recebo muito e-mail de uma lista de discussão que faço parte). Quem eu não conheço, ou se o assunto do tópico não me interessa, eu deleto sem olhar. Eu vi que entre os e-mails selecionados para deletar havia o nome de uma Mulher que eu não conhecia. "Deve ser Spam", vou detetar assim mesmo. Entretanto, alguma coisa me fez olhar o e-mail ao invés de deletá-lo sem olhar, e não é que era o e-mail da mochileira gatinha. Se eu tivesse deletado, muito provavelmente ela não teria escrito outro, e os nossos breves encontros, seriam isso, uma memória apagada num futuro não muito distante.
Como eu iria imaginar que a mochileira gatinha iria se transformar na Senhorita Soulsurfer algum tempo depois? Aliás, como eu iria imaginar que iria conhecer alguém tão especial numa viagem pela América Central? Quando eu estava machucado e sozinho em El Salvador, na capital San Salvador esperando pelo visto de Honduras, eu apenas pensavam : "que droga, o que eu estou fazendo aqui, queria estar no Brasil". Quase fiquei um pouco deprimido, e é difícil eu ficar deprimido. Como eu iria imaginar que algumas semanas depois eu iria encontrar uma companheira tão bacana? Como a vida é espetacular e misteriosa. Como é importante estarmos abertos para o novo, e não termos tanto medo. Essa viagem na América Central fortaleceu em mim essa importante lição da vida.
Depois de dias pegando altas ondas e aproveitando o local, eu estava comendo numa pizzaria quando troquei algumas palavras com uma brasileira. Foram poucos minutos apenas de conversa, mas a conversa foi interessante, pois é bem raro encontrar alguma brasileira viajando sozinha de mochileira, muito menos na América Central, bonita então, uma raridade. Se acrescentar que ela estava lá fazendo curso de mergulho, então a raridade aumenta ainda mais. No outro dia, eu estava em outro restaurante comendo, quando essa mochileira gatinha brasileira se aproximou e começamos a conversar novamente. Era o último dia dela na ilha, eu ficaria ainda mais uns dias, e ela estava me dando algumas dicas sobre um lugar no Panamá que ela já tinha ido e era um dos meus próximos destinos. Papo vai, papo vem, eu pedi o e-mail dela (essa geração virtual atual!), e anotei num papel. Ela, por uma sorte do destino, também pediu o meu e-mail.
Despedi-me da mochileira gatinha, desejei boa viagem e continuei almoçando na companhia dos austríacos que tinha reencontrado no Panamá (um tinha quebrado a perna ao cair num bueiro em Manágua, capital da Nicarágua, e tinha voltado para Europa). Entretido pela conversa, terminei o almoço e comecei a caminhar pelas ruas de Bocas Del Toro. Alguns minutos depois eu percebi que tinha esquecido o papel com o e-mail anotado, voltei correndo para o restaurante, mas não consegui achar, cheguei mesmo a olhar na lata de lixo. Pensei, "que mierda"! Paciência.
No outro dia, eu estava checando meus e-mails numa lan house. Eu recebo muitos e-mails, mais de 50 por dia (recebo muito e-mail de uma lista de discussão que faço parte). Quem eu não conheço, ou se o assunto do tópico não me interessa, eu deleto sem olhar. Eu vi que entre os e-mails selecionados para deletar havia o nome de uma Mulher que eu não conhecia. "Deve ser Spam", vou detetar assim mesmo. Entretanto, alguma coisa me fez olhar o e-mail ao invés de deletá-lo sem olhar, e não é que era o e-mail da mochileira gatinha. Se eu tivesse deletado, muito provavelmente ela não teria escrito outro, e os nossos breves encontros, seriam isso, uma memória apagada num futuro não muito distante.
Como eu iria imaginar que a mochileira gatinha iria se transformar na Senhorita Soulsurfer algum tempo depois? Aliás, como eu iria imaginar que iria conhecer alguém tão especial numa viagem pela América Central? Quando eu estava machucado e sozinho em El Salvador, na capital San Salvador esperando pelo visto de Honduras, eu apenas pensavam : "que droga, o que eu estou fazendo aqui, queria estar no Brasil". Quase fiquei um pouco deprimido, e é difícil eu ficar deprimido. Como eu iria imaginar que algumas semanas depois eu iria encontrar uma companheira tão bacana? Como a vida é espetacular e misteriosa. Como é importante estarmos abertos para o novo, e não termos tanto medo. Essa viagem na América Central fortaleceu em mim essa importante lição da vida.
Ruazinha de Bocas Del Toro. Lugar maneríssimo, e para mim o local em que eu conheci minha companheira.
Esse é o nipe das ondas em Bocas Del Toro, alucinante! Peguei um pouco menor do que o tamanho dessa foto, mas foi uma das ondas mais fortes e perfeitas que peguei na vida(no dia devia estar uns seis pés tubulares)
Depois de Bocas Del Toro, passei pela capital Panama City, uma cidade bem interessante, e com muitas partes bem modernas e um centro histórico bem conservado. Geralmente as capitais dos países da América Central não são muito bonitas, poia são extremamente caóticas e de certa maneira violentas. Não possuem grande atração turística, mas a capital do Panamá não, talvez seja a capital mais interessante entre os países da América Central.
Da capital eu fui em direção ao arquipélago de San Blás, o que viria a ser um dos pontos altos de uma viagem que já possuía diversos pontos altos. Este arquipélago é uma região autônoma dentro do Panamá, é administrado pelos índios Kunas. A região possui centenas de ilhas pequenas, rodeadas por um mar paradisíaco, e você pode se hospedar numa dessas ilhas pequenas. O lugar é mágico. Principalmente para ir com sua namorada, mulher ou companheira. Ficar com uma ilha quase que exclusivamente só para você, comer frutos do mar, e ver o dia passar sem muita preocupação, e pagando barato por isso, é algo muito bacana. Eu ainda dei sorte, pois teve um incêndio na ilha em que fiquei, e como eu ajudei a controlá-lo, o índio que administrava a ilha liberou as minhas diárias, ou seja, fiquei comendo e hospedado de graça!
Para ir de ilha em ilha só com barco. Minha fiel companheira: minha mochila que já me acompanhou em dezenas de países.
Minha suíte presidencial. Olha que bacana o visual do local.
O heróico Soulsurfer teve que ajudar a combater o fogo!
Quem precisa de luxo e conforto num lugar desses? Eu não.
Difícil a vida num lugar como estes (a foto não foi tirada por mim, mas posso atestar que o lugar é tão bonito quanto parece).
América Central. Um lugar relativamente pequeno, com países pequenos, mas meu amigo quanta coisa para se ver, fazer e refletir! Vulcões, rios de lava, guerrilheiros, ruínas maias, praias lindíssimas, ondas espetaculares, cultura, história, é muita coisa diferente. Essa viagem para mim foi sim uma verdadeira epopéia. Presenciei amigos brigando, conheci pessoas interessantes, machuquei-me, fui pego pela burocracia, tiver que sair correndo com balde de água para apagar um fogo, vi miséria e desesperança, vi força e garra para melhorar a vida tão sofrida, e principalmente encontrei uma mulher especial que seria a minha companheira por muitas viagens ainda.
Se você acompanhou esse longo post, agradeço. Espero que tenha gostado, e que tenha instigado alguém a ir comprar uma mochila e se jogar nesse mundo, ninguém sabe o que nos espera numa viagem como essas.
Grande abraço a todos!


























