quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

A DÁDIVA DO PRESENTE


Eu gosto de assistir animações.  Há algumas muito bonitas e bem construídas. Uma das últimas que assisti chama-se “Divertida Mente”  e chorei algumas vezes, especialmente por causa da minha pequena filha e das lembranças e sentimentos que o filme evocou em mim.

 Há uma animação chamada “Kung Fu Panda” que é realmente muito bacana. Trata-se da história de um urso Panda que gostaria de aprender kung fu, só que ele é lento, gordo e desajeitado.  Porém, por algum mistério cósmico, ele é o apontado para ser o novo “Dragão Guerreiro”. O mestre treinador, um rato, deve então treiná-lo para ser o grande lutador de kung fu.  Entretanto, o urso panda não consegue evoluir e só se mete em trapalhadas, e no meio do filme, o mestre resolve pedir conselhos para o “mestre dos mestres” uma tartaruga de fala e movimentos lentos.

Numa das cenas mais bonitas que eu já vi, a tartaruga fala sobre a vida, sobre a paciência, sobre como as pessoas que menos esperamos podem nos surpreender positivamente e também fala isso:


Não se pode duvidar da simplicidade e profundidade dessas palavras. Tanto é verdade que é um ensinamento central em muitas doutrinas filosóficas ou espirituais. Sim, com memes, com um acúmulo de informação e livros, podemos banalizar um ensinamento poderoso como este, é verdade. Sinto que essa é uma lição fácil de entender, extremamente difícil de viver de acordo, pois tudo à nossa volta, especialmente em ambientes urbanos, nos distrai da realidade presente. Sempre almejamos algo, sempre nos lembramos de algo.

Bebês. Minha filha fez um ano recentemente.  Há algo de extraordinário com crianças pequenas, e qualquer pai, ou mãe, pode atestar esse fato. Uma das palestras mais interessantes que já vi foi de uma pesquisadora que comparou o cérebro de crianças ao cérebro de pessoas que utilizam substâncias psicodélicas como psilocibina ou DMT.  As crianças aparentemente não possuem restrições e fazem conexões entre várias partes do cérebro que nós adultos não mais fazemos, a não ser em estados meditativos profundos ou com o uso de substâncias psicodélicas.  Cores ganham sons, sons ganham cheiro e a forma de perceber a realidade se torna radicalmente diferente.

É claro que não se pode saber ao certo, mas tudo leva a crer que bebês vivem o momento presente com uma intensidade de dar inveja a qualquer grande meditador.  A diversão, tristeza, alegria e frustração são intensas e direcionadas a sensações do momento presente.  Os bebês, e talvez alguns poucos seres humanos mais iluminados, são o exemplo melhor acabado de como viver a dádiva que é o momento presente.

Proporcionar infâncias felizes é a maior responsabilidade dos pais, e da sociedade como um todo. Quando minha filha gargalha, eu não penso se ela vai lembrar-se desse momento ou se isso vai ajudar ela a ser uma criança mais inteligente, ou se por causa disso ela vai ter mais condições de ser uma pesquisadora numa universidade de prestígio dos EUA. Não. A gargalhada dela significa que o momento presente dela, e por via de consequência o meu, está sendo significativo, independentemente se isso irá acarretar ou não alguma consequência positiva no futuro. Estamos experimentando a dádiva de estar vivos e conectados com a única realidade que realmente existe. É uma lição de como viver a vida, e sou grato por ter uma filha e passar por essa experiência.

Obrigado vida. Obrigado filha.

Obs: agradeço aos leitores pelas sugestões de perguntas para o livro. O capítulo estava com 18 questões e 35 folhas, e há dois dias acabei de (re)escrevê-lo e agora possui 30 questões e 65 folhas. Foi de grande valia a participação de vocês, obrigado.
obs1: a pesquisadora citada no texto chama-se Alison Gopnik, ela tem um livro conhecido chamado "The Philosophical Baby". Essa é a palestra: https://www.youtube.com/watch?v=v2VzRMevUXg&t=1806s. Nela também está um pesquisador inglês conhecido sobre psicodélicos.
obs2: Se o tema sobre consciência e psicodélicos interessar alguém, o famoso escritor Michael Pollan (escritor do já clássico "O Dilema do Onívoro") recentemente lançou um livro sobre o tema chamado "Como Mudar a Sua Mente". O livro é fantástico. Conta a história recente dos psicodélicos, os vários estudos científicos da década de 50, o frenesi da década de 60, o banimento da década de 70, a retomada dos estudos na primeira década desse estudo e a explosão dos estudos nos anos recentes (tratamento de stress pós-traumático especialmente em veteranos de guerra, cuidado paliativo em pacientes com câncer em estado terminal, manejo para cura de vício em bebidas e drogas e muitas outras finalidades).

19 comentários:

  1. Filho transforma a vida de um casal profundamente.
    Fazem birra, trazem preocupações, mais crescidinhos fazem mal criação, brigam. Independente da idade trazem preocupação. E são caros, muito caros.

    Mas valem cada centavo. Trazem sentido a vida, trazem a nós o mais profundo conhecimento do chamado "amor incondicional" e, se bem direcionados em nossas mentes, vão não nos afastar das conquistas (incluindo financeiras) mas sim aproxima-las de nós, pois agora com um sentido mais claro de vida desejamos "comprar tempo livre".

    Um feliz 2020

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Opa, Guardião.
      Falou a voz da experiência:)
      Ainda não cheguei na fase das "birras":)
      Um abraço e bom 2020!

      Excluir
  2. Gostei muito do post, principalmente da parte dos bebês. Abraços e feliz 2020

    ResponderExcluir
  3. Meu filho fez 1 ano e meio em dezembro. Ele tem uma gargalhada muito marcante e a família toda para para "assistir" ele se divertindo com alguma (para nós) bobagem.

    Eu sempre fico contemplativo nesses momentos de êxtase e me divido entre a alegria de estar ali com ele e a tristeza de não ser mais capaz de gargalhar por 20 minutos por descobrir o barulho que um violão faz quando passo meus dedos nas cordas.

    Os ensinamentos mais simples muitas vezes são os mais complexos de introjetar, bela observação.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá, colega.
      É natural, normal e desejável que cresçamos. Porém, esse senso de admiração pelo mundo e coisas é algo sensacional nos bebês. Eu acho que um dos "segredos" para uma vida intensa e bem vivida é saber se deslumbrar com a realidade.
      Talvez não temos mais a "habilidade" de gargalhar com um acorde do violão, mas podemos talvez nos emocionar e impressionar com uma música de qualidade, por exemplo. Eu sempre que vejo uma orquestra bem executada de algum compositor conhecido me emociono, e dependendo da sinfonia chega até a cair algumas lágrimas pela beleza da composição. É difícil, mas é possível resgatar um pouco do bebê que cada um já foi um dia.

      Um abs!

      Excluir
  4. soulsurfer,

    Viver o momento presente de forma plena: um grande desafio, mas um dos poucos que podem fazer com que a vida tenha realmente significado.

    O filme Divertidamente é muito bom. Inclusive fiz dois posts sobre ele. Se quiser ver:
    Divertidamente - sugestão de filme #2 - Simplicidade e Harmonia

    Quando a tristeza é necessária - Simplicidade e Harmonia


    Parabéns pelo post, ficou bem autoral e rico em sabedoria.

    Feliz 2020!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá, Rosana!
      Feliz 2020 para você tb.
      Li o artigo seu agora sobre tristeza. Uma das coisas mais bacanas do filme é realmente o papel central da tristeza para a consolidação das memórias, e como a tristeza é importante para a nossa vida.
      Um grande abraço

      Excluir
    2. Realmente uma das coisas que eu prestei atenção no filme foi a disposição da Felicidade em anular a Tristeza durante o desenrolar do filme e a descoberta no final da importância da tristeza para gerar a felicidade. E no último ano eu passei por algumas experiências que reforçaram esse entendimento na minha cabeça, entendimento da importância da tristeza.
      Filhos são muito bons, é um desafio magnifico tentar colocar mais gente boa no mundo, porém um desafio sem nenhuma certeza, os filhos podem se tornar uma tremenda de uma decepção, sei que não é politicamente correto falar disso, mas é uma verdade, eles podem se tornar um tremendo de um problema. Eu tento colocar a probabilidade a meu favor, porém já me contentei que não tenho controle de todas as variáveis, enfim me perdi no comentário, comecei falando da tristeza e me lembrei de situações tristes com os filhos já um pouco mais crescidos, o que está longe ainda pra vc e ainda não chegou definitivamente pra mim e espero que eu não precise viver esse tipo de experiência, talvez ajudar os filhos a lidar com a tristeza seja um bom mecanismo para jogar as probabilidades ainda mais a nosso favor.

      Excluir
  5. Olá Soul, feliz 2020!

    Os desenhos infantis muitos deles possuem mensagens fantásticas, como os citados no texto. Eu particularmente gosto muito dessa mensagem do Kung Fu Panda. Além de todo o contexto do desenho.

    E bem legal essa conexão com os bebês. E acredito que ao se tornar pai conseguimos ao menos por alguns instantes dar valor ao momento presente.

    Afinal, nada tira nossa atenção ao ver nosso pequenos sorrindo.

    Abraço!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá, I. Inglês.
      É verdade, amigo. É por alguns momentos, mas faz um bem danado ao coração e a "alma".
      Um abs

      Excluir
  6. Olá, Feliz 2020!
    Legal, meu filho está pra chegar, minha esposa está com 06 meses...estou curtindo cada momento da gravidez...
    Espero que eu e meu filho sejamos grandes amigos!
    Abç

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá!
      Poxa, que bacana, aproveite a gravidez que é um fase bem legal, depois começa a pauleira! hehe
      Serão amigos sim, especialmente se você se dedicar a ele.
      Um abs!

      Excluir
  7. Grande Soul,

    Na Netflix tem uma série chamada "Explicando: Mente" e tem um episodio sobre psicodélicos. É muitos instrutiva e rapidinha, tem 20 min. da uma conferida la. Inclusive a série toda é excelente.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá, colega. Eu cada vez menos vejo TV, até mesmo netflix, só uma ou duas vezes por semana para ver um filme, mas já tinha visto essa série.
      Obrigado pela dica.
      Um abs!

      Excluir
  8. Belo post amigo.
    Gostaria de complementar com algo que vi uma vez uma mãe falando pra filha criança dela:
    - Filha, sabe qual foi o maior presente que eu lhe dei?
    - Não mãe, qual foi?
    - Foi o seu irmão. (o filho mais novo dela). Quando eu e sei pai formos para o céu, você sempre terá o seu irmão como sua família, vai crescer com ele, aprender muito com ele, brincar com ele e se alegrar muito com ele, além do mais vai ser titia um dia e ter muitos sobrinhos.

    Eu nunca tinha visto por essa ótica, e hj vejo o quanto é importante ter irmãos. E o quanto a minha infância foi melhor por eles. Começo já a advogar contra a idéia moderna do filho único, a despeito de tudo, mesmo os tão propalados "custos" que são a justificativa de todo mundo, o pior, pessoas da classe média e média alta. Pelo que vejo aqui no meu meio, as pessoas estão inflacionando muito os custos dos filhos e mesmo de um filho único, crianças que custam 4-5k mensal, é surreal.

    E viver o presente é sempre importante sim, temos que estar sempre cientes e vivendo isso!
    Feliz Ano Novo!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Sim, meu amigo, e estou considerando bastante a ideia de tentar ter mais um filho.
      Um grande abraço e feliz 2020 para você tb!

      Excluir