segunda-feira, 6 de abril de 2020

CORONAVÍRUS - PARTE IV



Olá, colegas. Se você ainda não leu, sugiro a leitura da primeirasegundaterceira parte.

POR QUAL MOTIVO IR TÃO A FUNDO NESSE TEMA?

Nas três primeiras partes, foi feito como primeiro tópico em todas elas um aviso de que não sou médico, nem especialista, e nem pretendo fingir que sou um.  Neste artigo, começo com uma indagação diversa, por qual motivo pesquisar tanto sobre esse tema?

Há algumas razões. Primeiramente, e isso ficou muito claro depois que larguei o cargo de Procurador Federal, eu sou sincera e genuinamente atraído pelo conhecimento. Eu gosto de ler, ouvir entrevistas de pessoas bem informadas e refletir sobre uma variedade de tópicos. Eu realmente gosto disso. Há pessoas, talvez a maioria, que não apreciam muito uma procura tão incessante, pois tem outros interesses, e não há nenhum mal nisso.

Em segundo lugar, e um tanto quanto ligado ao primeiro motivo, o meu prazer de ler e entender mais sobre alguma cosia é diretamente associado ao meu interesse direto sobre o tema. Ultimamente, eu tenho devotado bastante energia para entender mais sobre minha própria saúde, e como envelhecer, na medida do possível, com um corpo e mente saudáveis. Portanto, o tópico sobre a doença COVID19 me interessa nessa perspectiva.

Um terceiro motivo é de ordem pessoal e familiar. O quão perigoso isso pode ser para a minha saúde e da minha família? O quão perigoso pode ser para a ordem social da cidade em que vivo, e de um ponto mais geral ao país como todo?

Por fim, e esse de ordem mais prática, é porque eu tenho interesse financeiro e alguns projetos em andamento que foram impactados pela crise atual.  Eu tenho uma participação razoável numa empresa que estava já em conversas adiantadas com fundos de investimento venture capital para um aporte bem razoável na mesma, e havia um horizonte extremamente promissor. Também tenho uma obra imobiliária de grande porte, ao menos para mim, em andamento, e aí o que fazer?

Eu estava alheio a essa crise do Coronavírus.  Mas, ao ouvir um podcast do Joe Rogan com um especialista há 20-25 dias, foi como uma martelada na minha cabeça. Horas depois, eu percebi que a minha empresa iria falir, e dois dias depois foi criado “um gabinete de crise” na companhia. E desde então eu venho vorazmente consumindo informações de diversas fontes sobre essa crise, até para saber o que fazer. 

A coisa está sendo tão rápida que a minha empresa em uma semana mudou o foco, e talvez possamos ter entrando num mercado novo e ser o primeiro do país a fazer um determinado tipo de serviço. Talvez consigamos sobreviver, e se isso ocorrer, quando essa crise passar em 6-9 meses, a nossa concorrência provavelmente estará devastada, quebrada ou muito enfraquecida (o ramo de atuação é diretamente atingido pela crise), e talvez nós possamos até nos transformar em 18-24 meses em players poderosos do mercado, talvez com uma valuation de centenas de milhões de reais. Talvez em 12 meses tenhamos quebrado , também é uma possibilidade, mas estamos nos esforçando muito e pensando estrategicamente para que isso não ocorra.

Isso só está sendo possível com estratégia, com a criação de um modelo mental para essa crise, e para isso, ao menos para mim, é preciso ir fundo, é preciso ter várias peças desse complexo quebra-cabeças, e para isso é preciso ler, refletir, estudar, e ir para muito além de fontes óbvias.  Por todos esses motivos, eu compartilho uma parte do que venho estudando e refletindo sobre essa crise para que as demais pessoas possam utilizar como um guia para elas mesmas fazerem as suas próprias reflexões e decisões de forma muito mais consciente.

Ah, e o Governo Brasileiro criou um gabinete de crise dias depois de a minha micro empresa ter “criado” um “gabinete de crise”, isso demonstra o quão bem estamos sendo administrados nesse país.

OS DOIS MODELOS VINDOS DA INGLATERRA E A PERGUNTA QUE VALE TRILHÕES E TRILHÕES DE DÓLARES

Eu, sinceramente, não entendo porque a expressão “essa pergunta vale um milhão de dólares” ainda não foi modificada. Um milhão de dólares é bastante dinheiro, mas na época atual não representa muito. Ousaria dizer que até um bilhão de dólares, a depender da questão e dúvida, não seria uma expressão coerente. Para a pergunta desse tópico, o correto seria falar “e essa é a pergunta de 10 trilhões de dólares”. Sim, com um T bem grande no início.

No dia 16 de março, o famoso Imperial College de Londres lançou um artigo (1) onde propunha uma modelagem para o número de mortos na Inglaterra, bem como nos EUA, numa gama variada de cenários para o COVID19. Dizem que foi esse relatório que mudou a opinião do Trump de certo “menosprezo” para a ameaça SARS-COV-2, bem como próprio governo da Inglaterra que estava encaminhando-se para uma estratégia de herd imunity (mais sobre esse conceito adiante nessa série). O Imperial College no relatório previa que se nada fosse feito poderiam morrer mais de 2 milhões de americanos nos EUA e mais de 500 mil ingleses.

Antes de tudo, uma palavra sobre modelos. Modelos são inerentemente falsos, eles não correspondem a uma representação fidedigna da realidade. Modelos são apenas aproximações, ou tentativas de aproximações de um entendimento sobre a realidade de algum fato. Esse modelo do Imperial College não é diferente. Se alguém tiver a paciência de ler até o final, vai observar que são feitas inúmeras assunções, desde o grau de contágio dentro de escolas, a pontos onde medidas de supressão deveria ser iniciadas (como, por exemplo, 200 internações semanais em UTI por COVID19). Sério, são muitos inputs no modelo que podem se mostrar errôneos, otimistas ou pessimistas demais.

Tendo isso em mente, o relatório basicamente traça a seguinte conclusão: baseando-se numa taxa de mortalidade de 0.9%, e de que 4.4% de pessoas serão hospitalizadas e de que dessas pessoas 30% vão precisar de ventilação mecânica, eles criaram diversos cenários para o caso de não for feito nada, e cenários para diversas outras ações (fechamentos de escolas, quarentenas, etc, etc). Produziram então o já famoso gráfico, citado inclusive pelo agora famoso biólogo Atila (citado na primeira parte):

O famoso gráfico, com diversos cenários baseado em diversas medidas de restrição de liberdades

A primeira vez que vi esse gráfico, rapidamente notei que em nenhum dos cenários a capacidade de leitos de UTI para a Inglaterra seria remotamente suficiente. Porém, pelo achatamento da curva de contágio, a sobrecarga no sistema de saúde seria/será imensa, mas menor do que se não fosse feito nada, e isso teria o condão de diminuir sensivelmente o número de mortos (mais sobre isso em outro tópico, sobre o outro gráfico desse mesmo estudo que quase ninguém olhou).  Portanto, não tem jeito, é o vírus é altamente contagioso, o índice de internação é alto, e é preciso fazer medidas de mitigação e supressão.

Há, porém, no que já se denominou chamar de “céticos” em relação à suposta histeria injustificada em relação a esse vírus, outra linha de raciocínio.  No dia 24 de março, portanto há mais ou menos 10 dias, uma análise, não oficialmente publicada à época, feita por alguns cientistas da prestigiosa universidade Oxford que pinta um cenário bem diverso do agora já famoso relato da Imperial College.

A análise (2), basicamente, chega à conclusão de que até meados de março era possível, um dos cenários analisados, de que 50-60% da população da Inglaterra já poderia ter sido infectada pelo SARS-COV-2.  Eu li por cima essa análise, e como tem bastante matemática, não sou capaz de criticar de maneira criteriosa o modelo deles. Especialistas, porém, o fizeram. Se algum leitor tiver interesse é possível consultar a análise curta de alguns experts sobre essa modelagem (3) ou uma crítica mais ampla e extensa (4).

E por qual motivo se essa análise for verdadeira, ou nem que seja parcialmente verdadeira, isso seria um game changer, uma mudança total em como os governos e indivíduos estão lidando com essa crise? O motivo é muito simples.

Se 50-60% da população inglesa já tivesse sido infectada em meados de março, isso significa que a doença COVID19 é algo mais brando, em mortalidade, talvez até mesmo do que uma gripe. Por qual motivo? Isso significaria que a  esmagadora mioria das pessoas infectadas seriam assintomáticas, logo, elas não teriam sido testadas e identificadas (sobre testes talvez num próximo artigo), sendo que a mortalidade de 2-3% seja na verdade algo em torno de 0.01% dos infectados. Além do mais, já haveria quase Herd Imunity da população inglesa, não fazendo nem mesmo sentido medidas mais agudas de isolamento social, o que dirá quarentenas. Essa seria talvez a melhor notícia para a humanidade, bem como pouparia trilhões de dólares de riqueza, bem como o sofrimento humano seria muito menor, mas muito menor, do que é previsto por alguns.

Quem está correto? Talvez a resposta more em algum lugar entre esses dois modelos. Eu, apesar de não ser um especialista, tenho certa dificuldade de conciliar essa análise do grupo de Oxford com o simples fato de que não faria muito sentido uma curva de aceleração de mortes em tantos lugares do mundo, em tempos diferentes (mas em questões de semanas), se o vírus já estivesse há meses infectando quase toda a população. Por qual motivo, as pessoas começariam a chegar aos hospitais de NY às centenas com sintomas de crise respiratória aguda apenas na última semana, se o vírus já tivesse infectado, durante meses, quase toda população local?  Para mim, não faz o menor sentido, mas não deixa de ser uma possibilidade, e a ciência e o entendimento da realidade avançam quando todas as premissas são postas a teste e questionadas.

Há uma forma de saber quão correta ou errada é essa análise de Oxford, e essa é a pergunta que vale trilhões de dólares: testar parcelas significativas da população e ver se as mesmas possuem anticorpos específicos (especialmente do tipo IgM e IgG) para o SARS-COV-2. Se depois que esses testes forem aplicados, uma parcela significativa da população apresentar anticorpos específicos, quer dizer que o vírus foi extremamente eficiente e contagioso, mas que quase todo mundo nem mesmo sentiu. Se as pessoas não tiverem anticorpos específicos, significa que a maioria da população não foi exposta ao vírus.

Mesmo que não sejam 50%, se for 15% das pessoas, isso significa que a letalidade e a necessidade de hospitalização por causa desse vírus são muito menores do que se imagina. Além do mais, se mesmo um percentual pequeno da população já possuísse imunidade (a questão da imunidade será tratada em momento específico), isso significa que um retorno das atividades pudesse ser feito de forma muito mais segura, eficiente e “científica” (não essa piada de "isolamento vertical").

Minha empresa foi selecionada, junto com outras startups, para participar de uma mentoria com especialistas. Pela crise, essa mentoria está sendo feita via internet, e a palestrante do dia anunciou que tinha saído um estudo numa cidade italiana mostrando que 70% das pessoas já teriam anticorpos. No mesmo momento eu quase dei um pulo da cadeira, e falei “O quê??”. Imediatamente, pedi que ela me mandasse o estudo, pois isso mudaria tudo e seria uma prova de evidência muito forte que o “modelo Oxford” estaria correto.

Ela me enviou. E aqui a diferença para quem, mesmo leigo, já está acostumado a ler estudos científicos, e perceber as limitações deles, e quem somente lê as informações de forma mais passiva e acrítica. Não se tratava de um estudo, mas sim de uma notícia traduzida de uma notícia italiana. 

Se os números forem corretos, o que aconteceu foi que uma vila pequena do norte da Itália (epicentro, portanto, do foco mais forte de infecção do país) com o bonito nome de Castiglione D´Adda pediu a população que doasse sangue, pois é de se esperar que no meio de uma crise de internações hospitalares falte sangue para quem precisa. 

Pois bem. Analisou-se a amostra de sangue de 60 pessoas, e em 40 delas aparecia a presença de anticorpos contra o SARS-COV-2, ou seja, aproximadamente 65% das pessoas nessa amostra já teriam sido infectadas. “Uau, o modelo Oxford está certo, então! Crise resolvida ou muito amenizada”.  Calma, pequeno Padawan. Esse é um dos problemas de não se ter uma noção, mínima que seja, sobre estatística e como analisar dados. É isso que leva as pessoas a ficarem compartilhando “curas milagrosas” como a Hidroxicloroquina, etc (que pode vir a ser uma droga eficaz em certos cenários e há estudos em andamento, vide parte III dessa série).

Conforme dados da reportagem em português, a população dessa vila consiste em 4.500 pessoas.  Dessas, 190 detectaram positivo para a doença, e 80 delas até o começo de abril teriam falecido.  E, então, qual modelo explicaria melhor esses dados ? 

Primeiramente, o exemplo de 60 pessoas é um sample size (tamanho amostral) muito pequeno. Além do mais, a vila pode ter características genéticas, o que seria de se esperar de uma vila pequena, muito parecidas, o que talvez não representaria de forma correta uma amostra maior da diversidade genética da população italiana. As pessoas ao doarem sangue disseram, conforme reportagem, que não sentiram nada, não tiveram nenhum sintoma, mas isso é uma declaração da própria pessoa, ou seja não houve uma avaliação médica para saber se reste realmente foi o caso. Portanto, não se trata de um estudo, mas sim de um caso anedótico.

Entretanto, se deixarmos isso tudo de lado, e analisarmos apenas os números, algo mais sombrio aparece. Se havia apenas 190 pessoas diagnosticadas com COVID19 na pequena vila, e 80 delas já teriam falecido, isso significa que a letalidade do vírus seria maior do que 40% (80/190), o que não faria muito sentido, já que a letalidade seria maior do que o Ebola. Se este fosse o caso, a humanidade não acabaria, mas um apocalipse aconteceria no mundo. Então, é evidente que deveria haver mais casos de pessoas infectadas que não foram testadas.

E por qual motivo não foram testadas? Há um problema gigantesco de falta de testes PCR que medem não os anticorpos, mas sim a carga viral diretamente, e isso era ainda mais agudo algumas semanas atrás. Então, com certeza só os italianos com sintomas mais graves e agudos estavam sendo testados para medir a carga viral. Mas, se levarmos em conta que 70% das pessoas já teriam sido infectadas, e que, portanto, teria sido estabelecido herd imunity naquela localidade, raciocinemos sobre os números.

Se 70% das pessoas foram infectadas na pequena vila de Castiglione D´Adda, isso significa que 3.150 pessoas se infectaram. Dessas, 190 foram efetivamente detectadas como infectadas pelo vírus. Presume-se, por uma questão de escassez de teses, que essas pessoas apresentaram sintomas agudos da doença, sendo que muitos morreram (80), muitos precisaram de UTI, e talvez haja ainda alguns em estado crítico.  É possível que o número de mortes de 80 não seja a contagem final, é possível que seja algo em torno de  100 ou 110, mas vou raciocinar com “apenas” mais 10 mortes.

Aonde se chega? Isso significa que a mortalidade do SARS-COVID-2, a nível populacional, seria de incríveis 2% (90/4500), e o índice de letalidade da doença seria de enormes 2.85% das pessoas infectadas. Ora, o que se tira desses números é que essa pequena vila praticamente colocou em prática a estratégia, mesmo que inconscientemente, de herd imunity sem qualquer mitigação temporal, o que fez com que uma parcela da população fosse infectada toda ao mesmo tempo, ocasionando um grau de letalidade em toda população de 2%. É possível que isso tenha ocorrido, já que conforme rápida pesquisa, um dos primeiros casos de COVID19 foi justamente nessa pequena vila (6).

Para se ter uma ideia, se este número fosse aplicado ao Brasil, isso significaria um número de morte de inacreditáveis  mais de 4 milhões de pessoas (2% da população). Se eu acredito que esse seja o caso? Muito provavelmente não. É apenas uma vila pequena e não se podem estender conclusões de uma amostra tão pequena, e seria uma extrapolação grosseira e incorreta, mas com certeza é algo a se observar o que pode vir a acontecer quando nenhuma medida de mitigação ou supressão é feita.  Logo, essa reportagem, na verdade parece ser contrária ao “Modelo Oxford”.

Hoje de manhã (06-04-2020), achei uma informação bem interessante. Um condado do Colorado está fazendo testes massivos de sua população para saber quem foi infectado ou não, quem está imune ou não, pela detecção de anticorpos. Esse tipo de experiência deverá ser repetida em várias e várias cidades pelo mundo. O resultado preliminar é que apenas 1% da população tinha anticorpos para a SARS-COV-2, o que é um fato contrário ao “modelo Oxford” (7).

Logo, a pergunta que vale trilhões de dólares está longe de ser respondida, mas é possível que em questão de semanas o cenário fique mais claro. É preciso ponderar prezados leitores que um artigo inteiro foi escrito apenas sobre esses dois modelos, pois é essencial entender o que está em jogo, até para que se possa opinar com mais discernimento sobre quarentenas, distanciamento social, impactos na economia, etc. Falar sobre esses temas, sem entender a profundidade da diferença dos dois modelos, e do impacto que pode haver na sociedade, é simplesmente dar opinião sobre o que pouco se entende. 

 O artigo ficou longo já, logo podem esperar ainda mais partes sobre Coronavírus, antes de chegar às minhas percepções pessoais.

Um abraço!


(2)"Modelo Oxford"   



segunda-feira, 30 de março de 2020

PODCAST DO SOUL - PEDIDO DE AJUDA

     Bom dia a todos. Esse não será um artigo, e a série sobre o Coronavírus continuará a ser publicada. Pensei que escreveria três partes, mas talvez chegue a sete partes. Porém, a minha mensagem de hoje não está relacionada a esse tópico, ao menos não diretamente.

     Eu, há uns 18 meses, descobri o maravilhoso mundo dos podcasts.  Em inglês, há podcasts simplesmente incríveis, fonte enorme de conhecimento e diversão. Eu, há certo tempo, gostaria de produzir um em português, mas a ideia sempre ficou adormecida. Eu só gostaria de ser o host de um podcast se realmente fosse adicionar algo de qualidade, e pudesse entrevistar pessoas diversas com opiniões diferentes.

    Entretanto, confesso que sou um zero à esquerda em matéria de tecnologia, e esse é um dos motivos desse site ser extremamente amador por diversos anos. Por mais que estejamos em "quarentena", ajudar na criação de uma bebê e tocar os diversos outros interesses meus, faz com que eu saiba se for atrás de como criar um podcast é uma tarefa quase que natimorta.

   Portanto, como com certeza há alguns leitores que conhecem bastante de tecnologia, se alguém com esse tipo de conhecimento gosta das minhas escritas e gostaria de ouvir a minha bela voz fazendo entrevistas sérias, com perguntas fugindo do senso comum, eu peço ajuda.

   Não adianta me dizer que é simples, basta fazer X ou Y, eu preciso de alguém me guiando em todos os passos com paciência, de como gravar, como editar, como sincronizar, como e qual microfone utilizar, quais programas utilizar, etc, etc. Portanto, a prioridade seria alguma pessoa que já conheça sobre podcast e possa já saber o que fazer em cada etapa, ou pelo menos descobrir isso em pouco tempo.

    Se tiver alguém disponível, mande e-mail para pensamentosfinanceiros@gmail.com, que eu passo o meu contato whatsapp para iniciarmos o desenvolvimento mais rápido possível.  Se eu conseguir fazer esse podcast, e se as pessoas aceitarem serem entrevistadas por um ilustre desconhecido como eu, minha prioridade inicial será achar infectologistas e virologistas e  perguntar um monte de questão que a grande mídia não pergunta, e e que creio ser de fundamental relevância para a população.

   Um abraço!

sexta-feira, 27 de março de 2020

CORONAVÍRUS - PARTE III


Se você ainda não conferiu, sugiro a leitura da Primeira Parte e Segunda Parte.

TERCEIRO AVISO

Em época onda a nossa paciência com textos mais longos, e a nossa atenção fragmentada nos impede de lembrar o que lemos há cinco minutos, pela terceira vez aviso que não sou médico, não sou especialista, sou apenas um leigo curioso.

As duas primeiras partes e provavelmente esta e a próxima são apenas, na medida do que é possível, apresentação de fatos e do contexto geral. Posso estar deixando fatos importantes de fora? Com certeza. Posso estar mostrando esses fatos de forma enviesada mesmo de maneira inconsciente? Sim, apesar de estar sinceramente tentando evitar que isso ocorra. Provavelmente, na parte V e VI eu darei a minha opinião sobre o que penso a respeito  de um monte de assuntos (investimentos em FII, ações, imóveis, compra de comida, caos social, pós-pandemia, etc, etc), não é o que estou fazendo nesses primeiros artigos.

A minha ideia de escrever essa série foi dotar as pessoas de uma perspectiva mais ampla dos diversos acontecimentos, para que as mesmas por conta própria formem as suas opiniões ou aprofundem os seus estudos se assim desejarem com as fontes indicadas.

CRIANÇAS E O COVID19

                Na parte II, foi refletido que sim a atual pandemia tem uma maior letalidade em idosos, mas que jovens não estão imunes a apresentar sintomas graves. Foi trazida a reflexão sobre a diferença entre morbidade e mortalidade. Mas em crianças e bebês?

                Eu sou pai de primeira viagem, minha linda filha acabou de fazer um ano e quatro meses. Cada vez mais sapeca, cada vez mais esperta. Ela corre algum risco? Imagino que há muitos leitores pais, e creio ser essa uma ponderação importante.

                Quando se trata de crianças, e da minha filha em particular, obviamente a letalidade deveria me preocupar, mas esse vírus parece ser pouquíssimo letal em bebês e crianças, na verdade creio que apenas uma criança morreu até agora no mundo inteiro. Portanto, crianças podem vir a morrer desse novo vírus, mas a probabilidade é extremamente baixa.

                Porém, eu como pai, preocupo-me bastante com a possibilidade de uma morbidade futura. Minha filha mama no peito até hoje, e talvez vá até uns dois anos e meio/três anos. Essa dentre tantas outras coisas, é um presente que a minha mulher está deixando para ela, pois com certeza o sistema imune da Serena tende a ser muito mais forte do que uma criança que desde o início se alimentou por fórmulas de que naturais não possuem nada. Aqui não faço um juízo de valor que pais por necessidade, ou talvez comodidade, seguiram esse caminho. Entretanto, não há muitas dúvidas na literatura sobre a importância do aleitamento materno para um sem número de variáveis relacionadas à saúde do bebê.

                Esse é o problema com bebês e crianças. Coisas que os pais, familiares, a comunidade, uma sociedade, um país, fazem ou deixam de fazer com eles, vão se manifestar talvez no médio, longo ou longuíssimo prazo. Trate o seu filho com violência, e ele vai sobreviver, ele talvez vá se formar numa faculdade e ter uma profissão, mas quais serão as angústias mentais que não vão se desenvolver nele na fase adulta por causa disso? Alimente com fórmula um bebê e qual o impacto que isso pode ter no sistema imune dele 30 anos depois?

                Portanto, eu e minha companheira temos um cuidado imenso nessa primeira infância. Minha filha nunca tomou antibióticos, ainda bem, o que com certeza fará com que microbiota  (a colônia de bactérias e vírus que habita nosso corpo, especialmente o nosso trato intestinal, de importância singular para a saúde do nosso corpo) dela seja  fortalecida quando for jovem e adulta. Nem mesmo remédio ela já tomou, nunca. Ela teve febre duas vezes por reação a vacinas, e como a febre é um processo natural do corpo, apenas acompanhamos de perto para que o próprio sistema imune dela pudesse aprender a lidar com problemas.

                Portanto, para mim é muito caro a saúde futura da minha filha, e eu preciso evitar que ela sofra intervenções no presente que possam comprometer, nem que na forma de uma probabilidade maior de alguma morbidade, a saúde dela no futuro. Esse é um dos meus maiores presentes para ela.

                O que se sabe do SARS-COV-2 em relação a crianças? Pouco. E esse é um dos problemas da crise atual, a incerteza, e esse tópico será mais bem abordado num ponto específico.  Há uns 10 dias saiu um paper preliminar na China tratando exclusivamente sobre o efeito da doença em crianças (1).



Essa tabela , tirada do anexo do estudo, mostra que a depender da faixa etária, nesse grupo específico de crianças chinesas, em torno de 10% das crianças afetadas apresentaram sintomas graves e, ou, severos.  Interessante, e preocupante para mim, que quanto menor a criança, maior a probabilidade de problemas mais graves. Retirada do próprio estudo:
“The proportion of severe and critical cases was 10.6 %, 7.3%, 4.2%, 4.1% and 3.0% for the age group of <1, 1-5, 6-10, 11-15 and ≥16 years”

Quando vi essa tabela pela primeira vez há 10 dias (sim, vi esse estudo antes mesmo de sair na mídia dos EUA, não vou nem falar na do Brasil), o que chamou minha atenção foi a classificação sintomas moderados. O que são sintomas moderados? Em tudo que é lugar você houve sintomas leves ou severos, então o que seriam sintomas moderados? Por sorte, eles classificaram no estudo o que seriam sintomas moderados? Do estudo:
“Moderate: with pneumonia, frequent fever and cough, mostly dry cough, followed by productive cough , some may have wheezing, but no obvious hypoxemia such as shortness ofbreath, and lungs can hear sputum or dry snoring and / or wet snoring. Some cases may have noclinical signs and symptoms, but chest CT shows lung lesions, which are subclinical.”

Para não traduzir tudo, basicamente um sintoma moderado está relacionado com dificuldades de respiração (o que mostra um grau de ataque maior aos alvéolos pulmonares) e por meio de uma Tomografia computadorizada (CT) os pulmões mostraram lesões de forma subclínica.

Eu não sou médico, e não faço a mínima ideia de como interpretar uma lesão pulmonar numa Tomografia. Aliás, se tem alguma coisa que não quero que minha filha faça, sem necessidade, é uma TC com uma dose cavalar de radiação.  Mas, podendo estar falando bobagem, a parte que diz que foram detectadas lesões pulmonares em sintomas moderados, isso é algo que com certeza não gostaria que minha filha tivesse. Vai haver pronta recuperação dessas lesões? Eu creio que sim, mas será que em todos os casos? A parte mais assustadora, porém, é que entre casos moderados a severos o número das crianças foi de 50%. Sim, uma em cada duas crianças, nesse estudo que analisou 2000 crianças chinesas, sofreu sintomas moderados a severos. E isso sim é um pouco preocupante para nós pais de bebês e crianças.

Portanto, eu, Soulsurfer, gostaria que minha filha fosse poupada dessa loteria, e espero que ela não seja infectada por esse vírus.

TRATAMENTOS
Sobre tratamentos, há três soluções e um remendo.
a)      Vacinas

A melhor solução para essa crise seria o anúncio de uma vacina nas próximas semanas. Mesmo que uma vacina fosse anunciada na próxima semana, mesmo assim esse vírus ainda possivelmente iria causar muito sofrimento, pois entre o descobrimento de uma vacina, a sua produção em massa e distribuição global, algumas semanas ou meses passariam.

        Mas, a não ser por algo inesperado, os especialistas dizem que uma vacina pronta para uso o prazo mínimo seria de 18 meses, e sendo absurdamente otimista o prazo de 12 meses.

                Isso se a humanidade conseguir fazer uma vacina eficaz e segura contra o SARS-COV-2, e não há nenhuma garantia que isso será alcançado. Como o mundo todo está trabalhando nisso, como nós humanos alcançamos coisas enormes e difíceis quando nos unimos em torno da resolução de um problema, há uma boa chance de que uma vacina seja feita.

                Porém, fazer uma vacina, e inocular uma população inteira com uma vacina demanda uma cautela enorme. Não se pode “brincar com a mãe natureza” de forma precipitada sem estudos bem-feitos e com uma duração razoável. Por qual motivo? Se esse vírus matasse 80% dos infectados, com um R-Naught de 10, aí meu amigo, faz uma vacina o mais rápido possível, em semanas, e dane-se a segurança. Agora, esse vírus não irá ocasionar nada, ou sintomas leves, em 80-85% da população. Se assim o é, como expor uma população inteira, ou parte significativa dela, a uma vacina que não se sabe eventuais efeitos adversos? Seria uma aposta extremamente perigosa em relação à toda humanidade, de criarmos um problema ainda maior do que o COVID19.

                Sendo assim, a solução de curto-médio prazo para essa crise não vai se dar por meio de uma vacina, muito provavelmente.

b)      Remédios Antivirais

Se vacinas não é algo factível para os próximos doze meses, o que pode ser tentado são drogas que podem ter efeito profilático contra o vírus, ou que atenuem eventuais problemas mais severos pela infecção.  Uma nova droga é algo não tão difícil de produzir como uma vacina, mas também possui os seus riscos, os seus custos de desenvolvimento, os seus testes preliminares em animais, etc. Portanto, faz muito mais sentido se voltar para drogas que já existem, e foi isso, e é isso que centenas, talvez milhares, de cientistas estão fazendo usando provavelmente algoritmos de inteligência artificial. Há muitos remédios que podem ser promissores, mas para mostrar que eles são eficientes e seguros é preciso fazer experimentos, não há outro jeito.

A Organização Mundial da Saúde está patrocinando trials para quatro drogas diversas (2). A Hidroxicloroquina é apenas uma delas, e talvez a que menos tenha potencial. Sim, surpreso com essa informação? Para quem não acompanhou as notícias na última semana essa droga utilizada para tratamento de malária, e também para algumas doenças autoimunes, ganhou fama internacional depois do Trump, em minha opinião (e sim aqui é uma opinião minha) de forma política, anunciou com pompa que esse medicamento poderia trazer retornos muito bons no combate ao vírus. Nosso presidente como uma marionete (e aqui é outra opinião também) de forma atrapalhada vem falando desse medicamento também.

O problema com drogas utilizadas para uma finalidade serem utilizadas para outra é que elas podem ser inócuas ou perigosas. Além do mais, drogas interagem com outras drogas e pode ocasionar efeitos extremamente adversos. Como dito na Parte II, a esmagadora maioria das pessoas que falecem de COVID19 possuem comorbidades, e, por causa desse fato, é muito possível que estejam tomando várias drogas para essas condições. Não é algo simples, não é algo fácil, e quase sempre é preciso fazer um experimento.

Um experimento para drogas geralmente envolve um grupo chamado intervenção que toma o novo medicamento e um grupo controle que toma uma pílula de açúcar chamada também de placebo. Um bom experimento é duplo cego, querendo isso dizer que o grupo intervenção não sabe se está tomando placebo ou a droga, o grupo controle também não sabe e os cientistas não sabem quem está tomando o quê, sendo, portanto, duplamente cego.  E, é preciso que haja certo tempo, para que se possa avaliar com certa confiança eventuais efeitos adversos ou não no grupo controle.

Especificamente sobre a Hidroxicloroquina sugiro o seguinte vídeo sobre a explicação do mecanismo de porque ela poderia vir a funcionar:

Recomendo também essa excelente entrevista com uma farmacêutica sobre os mecanismos de ação e potenciais interações perigosas com outros medicamentos (3).

Ainda sobre esse medicamento, ressalto aqui partes da referência (2) de alguns cientistas a respeito dessa droga:
"Encouraging cell study results with chloroquines against two other viral diseases, dengue and chikungunya, didn’t pan out in people in randomized clinical trials. And nonhuman primates infected with chikungunya did worse when given chloroquine. “Researchers have tried this drug on virus after virus, and it never works out in humans. The dose needed is just too high,” says Susanne Herold, an expert on pulmonary infections at the University of Giessen.

Hydroxychloroquine, in particular, might do more harm than good. The drug has a variety of side effects and can in rare cases harm the heart. Because people with heart conditions are at higher risk of severe COVID-19, that is a concern, says David Smith, an infectious disease physician at the University of California, San Diego. “This is a warning signal, but we still need to do the trial,” he says. What’s more, a rush to use the drug for COVID-19 might make it harder for the people who need it to treat their rheumatoid arthritis or malaria".

Basicamente, o que se diz é que estudos promissores desse composto em células de laboratório não renderam nenhum resultado quando foram feitos experimentos em humanos, sendo que primatas, no caso específico do vírus do chikungunya, ficaram ainda piores após a administração dessa droga. Além do mais, a droga pode ter efeitos adversos perigosos, especialmente cardíacos.  Há diversos relatos de médicos no Twitter alertando sobre os perigos dessa droga para quem tem problemas prévios cardíacos.

Mas, essa droga pode vir a se mostrar promissora, e quem sabe os experimentos não mostre que ela pode ser, se usada em determinados casos em determinados pacientes, um tratamento efetivo? Vários estudos estão sendo feitos, e só nos resta aguardar. Apenas dediquei tempo a essa droga em específico pela popularidade que ela ganhou, especialmente por causa das declarações de Trump e em nível nacional pelo nosso presidente Bolsonaro.

Portanto, vamos torcer e esperar os resultados dos diversos estudos em andamento de terapias antivirais.

c)       Transfusão de Sangue de Pessoas Imunes

Este tratamento poucas pessoas falam, e quem ouviu as entrevistas que indiquei na Parte I, sabe do que se trata. Basicamente, é pegar o sangue de uma pessoa que foi infectada e está curada. Presumivelmente, o sangue dessa pessoa hipotética terá anticorpos contra o SARS-COV-2, pois é assim que o nosso sistema imune adquirido funciona. A ideia é então é retirar sangue dessa pessoa e injetar numa pessoa saudável não infectada para que a mesma possa adquirir alguma imunidade temporária.

 Não é uma cura, está longe de ser um tratamento, mas pode ser algo muito eficaz especialmente para trabalhadores de saúde que estão sendo vítimas desse vírus em níveis alarmantes. Logo, imunizam-se por algumas semanas esses trabalhadores para que eles possam exercer o seu trabalho sem correr o risco de contágio, ou ao menos diminuir esse risco. Espero que algo como isso esteja sendo pensado e trabalhado pelas autoridades brasileiras.

Um dos grandes riscos, além da falta de leitos de UTI, da coisa degringolar é a força de trabalho médica adoecer. Imagina que um hospital tem 10 médicos e 20 enfermeiras. Se, apenas como exemplo, estes 30 profissionais conseguem manejar 500 pacientes em estado grave, o que não aconteceria se 15% da força de trabalho ficasse doente, diminuindo o número para 25 profissionais? Muitas coisas ruim acontecem. Primeiramente, a capacidade de atendimento cai de 500 pessoas para talvez, sei lá, 350 pessoas. Como o influxo de doentes não irá diminuir, os profissionais de saúde ficarão ainda mais sobrecarregados e poderão fazer mais erros, e por causa disso ser ainda mais suscetíveis a contaminação própria. E, por fim, imagine a moral de toda a equipe ao ver amigos de trabalho sendo infectados e sendo internados numa UTI?

Esse é um problema seríssimo, e um dos motivos do caos que se instalou no norte da Itália e na Espanha. Um número impressionante de 46 médicos italianos, quatro apenas hoje (27-03-2020) já morreram de COVID19. Esse é um número assustador.

d)      Imunidade de Rebanho (Herd Imunity)

Se não tive vacina, se drogas não forem eficientes, só restará então que a população seja imunizada pela exposição da mesma ao vírus, mas esse tópico se liga diretamente a quarentenas, lockdown, etc, e será tratado na próxima parte.

É isso, prezados leitores, creio que com mais uma parte encerrarei o quebra-cabeça do problema, e começarei a dar a minha opinião e o que estou fazendo na minha vida. NÃO ESQUEÇAM DE COMPARTILHAREM SE TIVEREM GOSTADO DO TEXTO E DA SÉRIE.

Leia Primeira Parte
Leia Segunda Parte


quarta-feira, 25 de março de 2020

CORONAVÍRUS - PARTE II


Olá, prezados leitores. Segue aqui a continuação. Para contexto, sugiro a leitura da primeira parte.

MAIS UM DISCLAIMER

                Pessoal, eu já coloquei na primeira parte a minha admissão de sofrer o efeito Dunning-Kruger, aliás como qualquer ser humano. Mas, vou novamente reforçar. Ninguém sabe ao certo para onde os mercados vão, o que vai acontecer com o mundo, como é a biologia desse novo vírus, se é melhor fazer quarentena ou não, de quem é a responsabilidade, etc, etc.

                É um cenário de extrema incerteza, e você, prezado leitor, se já não o faz, deveria cultivar mais a nobre arte racional, no qual a ciência moderna e a filosofia antiga se baseiam, de duvidar das próprias certezas.  Quem oferece certezas num momento como esse, além de sofrer de uma ilusão tremenda sobre a própria falibilidade humana, apenas mostra que não tem a capacidade de cultivar o aparato mental correto para tentar fazer boas perguntas.

                Tudo começa com boas perguntas, seja na ciência, seja na compreensão da realidade, e para realizar boas perguntas é necessário assumir que a realidade possui mistérios e complexidades.

SOU JOVEM, POSSO SOFRER SE FOR INFECTATO PELO SARS-COVID2? O CONCEITO DE MORBIDADE DIFERENCIANDO-SE DE MORTALIDADE

                Sim, pode.  A probabilidade é alta? Tudo leva a crer que a probabilidade é idêntica de pessoas mais velhas, ser jovem, até onde eu li, não confere imunidade.  Se for jovem e infectado, a probabilidade maior é não possuir sintomas ou sintomas leves (febre, tosse seca)? Sim, essa é a maior probabilidade. E qual é a chance de ter sintomas mais graves, a depender de uma internação hospitalar? Ninguém sabe ao certo.

                Os dados que vem tanto da Itália como da China mostram que a mortalidade está concentrada quase que exclusivamente em pessoas de mais idade. Na verdade, há poucos dias saiu um paper (1) mostrando que apenas 0.8% das pessoas que morreram na Itália não possuíam nenhuma comorbidade.  Por seu turno, cerca de 50% dos que faleceram tinha 3 ou mais comorbidades.  

Sim, se a pessoa tem mais doenças associadas, o risco de morte aumenta drasticamente. Ser saudável e a opção, e voltarei a esse ponto em artigo futuro


Aqui estão as morbidades, está em Italiano, mas é fácil entender. As principais são diabetes, hipertensão e doenças cardíacas

Sim, em relação a pessoas acima de 70 anos, a doença é muito grave. Homens morrem muito mais. Se o seu pai, avô, tem 75-80 anos, possui problemas prévios, sim ele tem um risco não desprezível de ir a óbito


           Portanto, e aqui é apenas uma especulação minha,  pois não vi nenhum especialista escrevendo ou dissertando a respeito com mais propriedade, a morbidade se intensifica de acordo com a idade, pois com o decorrer do tempo a probabilidade de se ter alguma doença degenerativa é maior. Logo, qual teria mais probabilidade de vir a óbito, uma pessoa com 70 anos sem nenhuma comorbidades, ou alguém de 55 anos com diabetes e pressão alta? Eu diria que a pessoa de 55 anos está em maior risco de ter complicações mais sérias que podem levar a óbito. Isso é apenas um achismo meu, repito, porém.


                Talvez ninguém vá lembrar, mas há anos eu falo que a humanidade deveria usar outras métricas para avaliar a métrica de sucesso de um povo. PIB per capta e dinheiro é apenas uma parte de uma equação complexa. Diversas vezes escrevi nesse espaço o fato de mais da metade de adultos acima de 50 anos nos EUA terem duas ou mais condição degenerativa, e que isso era um problema algumas ordens de grandeza maior do que terrorismo, muro com o México, e seja lá mais o que for. Uma população, no caso dos EUA, onde quase 50% das pessoas são diabéticas ou pré-diabéticas e 88% não são metabolicamente saudáveis, é uma população doente.  Por esses dados, o SARS-COV-2 pode fazer estrago por lá. 


            Não acredita? Uma reportagem recente vinda do reino unido, indica que quase 70% dos internados em estado grave pelo COVID19 naquele país são obesos, e que aproximadamente 40% possuem menos de 60 anos (2). Ou seja, pessoas abaixo de 60 anos estão longe de ser idosos, e a obesidade apenas é um marcador de outras doenças degenerativas, já que uma obesidade mórbida é bastante associada a diabetes ou hipertensão, por exemplo.


                Portanto, se você é jovem e metabolicamente saudável (e muitos leitores jovens desse espaço com certeza não o são), suas chances de ter sintomas muito severos parecem diminutas. Entretanto, não se pode saber ao certo. Há alguns dias saiu um paper nos EUA sobre a taxa de internação hospitalar e divisão por faixas etárias. Há várias críticas que se pode fazer a esse estudo, mas também tudo muda muito rapidamente, e quanto mais dados melhor. Nesse estudo, a taxa de hospitalização de pessoas jovens foi razoavelmente alta. Não foi algo de 2-3%, mas de 10% para cima. O estudo não mostrou comorbidades associadas, então não dá para saber quanto comorbidades como diabetes, câncer, pressão alta, doenças autoimunes, resistência à insulina, obesidade, etc, influenciam ou não na severidade da doença para necessitar internação em pacientes mais jovens.

Para quem não entende bem Inglês, os números mostram os casos de hospitalização, de internamento numa UTI e a mortalidade por faixa etária de pessoas com COVID19 entre 12 de fevereiro e 16 de março nos EUA. É possível observar que a taxa de internação hospitalar na faixa de 20-44 anos não foi nada baixa de 14.1%. Os casos de UTI não foram nada baixos de 2%. E a mortalidade sim foi baixa de 0.1%. A maior faixa etária acima de 85 anos, requereu o dobro de hospitalizações (31.3%), mas os óbitos foram muito maiores em 10.4% ou seja 100 vezes mais do que a faixa etária 20-44 anos. Isso indica que um jovem pode precisar ser hospitalizado, que não é algo improvável, mas a chance de morrer é bem pequena, se houver tratamento adequado, enquanto um idoso possui uma chance enorme de vir a óbito se precisar ser internado


                Há uma crítica óbvia a esse estudo. Primeiramente, não se sabe o número real de infectados que pode ser muito maior do que os diagnosticados. Logo, o denominador da equação aumenta, fazendo com que os números da tabela acima sejam muito menores.  Em que pese a crítica evidente a tabela acima, há relatos vários de jovens precisando de UTI para se manter vivos. Portanto, os dados não são ainda claros e precisos, e nem vão ser nas próximas semanas e meses, mas há informações apontando que jovens podem sim vir a precisar de hospitalização numa quantidade não desprezível.

                E se essa hospitalização não estiver disponível? E se um eventual leito de UTI não estiver disponível? Como dito na Parte I, e vem daí o conceito de achatar a curva, a mortalidade na faixa etária mais jovem pode aumentar e muito. Portanto, quando o ministro da Saúde Brasileira fala que a Itália está sofrendo porque tem muitos idosos, e como o Brasil possui uma população jovem o sofrimento não vai ser o mesmo, é verdade, desde que o sistema de saúde tenha condições mínimas de atender os jovens que vão ser hospitalizados, e partindo do pressuposto de que as condições de saúde de ambos os países são parecidas.  


Esse gráfico parece-me um pouco irreal, pois parte do pressuposto que no pico da infecção, mais de 10 milhões de pessoas precisariam de hospitalização. Talvez seja o cenário apocalíptico de tudo dando errado. Evidentemente, a linha de camas de UTI não comportaria nem um vigésimo desse worst case scenario. E, ah, isso é um gráfico para os EUA, talvez a capacidade de camas de UTI no Brasil seja ainda mais comprometida. Tudo leva a crer, porém, que esse não é um gráfico realista do que pode vir a ocorrer.

O Brasil tem 10.4% da população de 20 a 79 anos diagnosticada com diabetes, a Itália tem apenas 5% (3).  Quem já foi a Itália sabe que as pessoas são muito mais esbeltas e saudáveis do que o brasileiro médio. Se o Brasil possui 10.4% diabéticos, com certeza temos algo em torno de uns 40-45% de pré-diabéticos, e se fomos analisar a saúde metabólica de forma correta, pela insulina e melhor ainda por uma exame de Kraft, talvez tenhamos na verdade uns 70-75% de toda população acima de 20 anos com resistência grave à insulina. Logo, talvez nossa população seja bem mais jovem que a Italiana, mas por incrível que pareça bem mais doente.

Sendo assim, se você é jovem, e não é extremamente saudável, eu não ficaria tão tranquilo assim. Na minha percepção, nada maior do que 0.5% de precisar ser hospitalizado por um vírus desconhecido é algo pequeno para mim, o que dirá uma chance de 10%. 10 em uma chance de precisar ser hospitalizado por dificuldade para respirar? Uau, isso para mim está longe de ser baixo risco, se esses números forem verdadeiros, repito, e há muitos que acreditam que não o são, sendo o risco de necessidade de hospitalização bem menor.

E daí se você precisar ser hospitalizado? Se tudo der certo, se o sistema de saúde não tiver colapsado, se durante a sua internação você não tiver pegado uma infecção hospitalar, está tudo bem? Ninguém sabe ao certo.  Ninguém sabe as consequências de longo prazo, até porque esse surto tem alguns meses. “Como assim, quais consequências de longo prazo Soul?”.  Sim, consequências de longo prazo, ninguém é entubado numa UTI , ou colocado num ventilador para respirar artificialmente, e passa incólume dessa experiência.

Um dos médicos que mais respeito, Dr. Peter Attia, disse no último podcast sobre o COVID19 que ele tinha lido um paper sobre as consequências de longo prazo das pessoas que se recuperaram do SARS-COV (o primeiro surto SARS de 2002-2003). Ele disse que essas pessoas ao longo dos 10 anos seguintes, foram muito mais propensas a sofrer ataques cardíacos, a ter problemas pulmonares, a incapacitação laboral, etc, etc.  Desde que ouvi o podcast eu tentei localizar o paper, mas não consegui. Cheguei até mesmo a mandar uma mensagem para o Dr. Petter Attia pedindo o paper, mas ele não me respondeu.

Se a SARS-COV-2 também ataca os pulmões causando problemas respiratórios graves como a SARS, então talvez as pessoas que se recuperarem de sintomas graves do COVID19 podem estar aumentando e muito a sua morbidade, ou seja, a probabilidade de sofrer de outras doenças degenerativas.  Se isso for verdade, e com índices de hospitalização maiores do que uma gripe, vai ser uma notícia terrível. A maior causa de mortes no mundo são doenças cardíacas sendo responsáveis por quase 25% dos óbitos (com variação de país para país). Aumentar a sua chance de morrer de uma doença cardíaca, ou seja, aumentar a sua chance de morrer de algo que já é comum, por causa do COVID19, caso sintomas graves resultem em morbidade, não é uma notícia nada animadora.

Portanto, mortalidade e morbidade são coisas diferentes. A mortalidade do SARS-COV-2 pode ser não tão alta, especialmente em pessoas abaixo de 50 anos e relativamente saudáveis (digo relativamente, pois na verdade a maior parte da nossa população está adoecida e longe do seu potencial ótimo de saúde) se o sistema de saúde puder atender as pessoas que precisarem de atendimento. Entretanto,  a morbidade pode não ser tão baixa assim no médio-longo prazo, o que torna essa doença mais complicada. Deveríamos estar fazendo muito mais perguntas não apenas sobre a mortalidade, mas sim sobre a morbidade dessa doença, até para podermos entender os riscos de curto, médio e longo prazo desse vírus.

MAS É TÃO RUIM ASSIM? A CHINA COM QUASE 1.4 BILHÕES DE PESSOAS SÓ TEVE 80 MIL CASOS. A VIDA NÃO ESTÁ NORMALIZADA LÁ? AS ONDAS SUCESSIVAS DE CONTAMINAÇÃO

Por qual motivo a crise de Ebola não se espalhou pelo mundo inteiro?  A resposta é simples.  O vírus do ebola é altamente transmissível apenas quando a pessoa infectada está bastante sintomática, e se não me engano, é necessário contato com secreções corporais. Portanto, quando estoura um surto de Ebola, é muito mais fácil identificar os infectados e fazer um rastro das pessoas que entraram em contato com o infecato.  O SARS-COV-2, por seu turno, ao que tudo indica é altamente transmissível quando a pessoa infectada está assintomática, e isso faz toda a diferença.

Aliás, o primeiro surto de SARS-COV em 2002-2003 pode ser mais facilmente controlado, pois a pessoa infectada transmitia a doença dias depois de ser infectada e já apresentando sintomas claros da doença. O SARS-COV-2, ao contrário (e há algum debate em relação a isso), parece que pelo contrário, ele é mais altamente transmissível quando a pessoa está assintomática, e não tanto transmissível quando a pessoa está sintomática, e isso, para nós humanos é um verdadeiro pesadelo, pois torna praticamente impossível saber quem está ou não com a doença, a não ser fazendo milhões de testes na população.  O período de incubação do SARS-COV-2 varia de alguns dias até 14 dias, sendo que há casos registrados de até 22 dias, se não me engano. Imaginem, prezados leitores, uma pessoa por 22 dias assintomática e podendo transmitir o vírus?

Quer um cenário de pesadelo para o mundo? Um vírus com período de incubação de 40-60 dias e transmissível nesse período, com um R-Naught de 12-15 (absurdamente transmissível, o sarampo possui um R-O alto assim. Só não morremos aos milhões de sarampo, pois a maior parte da população está imunizada e entra o conceito de Herd Imunity que será abordado na parte III), e uma letalidade de 15-20%. Nesse cenário, que não é nada improvável, aí sim o mundo caminharia para um colapso financeiro completo.

A China, e experts pelo mundo dizem que os dados parecem confiáveis, aparentemente controlou o enorme surto na cidade de Wuhan. Como? Impondo uma quarentena por praticamente 60 dias. Como funcionou essa quarenta, como eles se alimentavam, como o governo fiscalizava a quarentena, são detalhes que não conheço, e adoraria ler uma matéria bem escrita por algum bom jornalista.  Foram 80 mil casos diagnosticados (o número pode e deve ter sido bem maior) e cerca de três mil mortes.  Triste, avassalador, mas por que fechar o mundo por causa disso?

O problema, e isso a China vai mostrar ou não ao mundo, é que o vírus não vai deixar de existir. E nada impede que haja ondas sucessivas de contaminação quando as barreiras de quarenta forem totalmente baixadas, e quando as pessoas puderem circular livremente novamente. Aliás, esse é um medo constante na China. Cito uma reportagem recente (4):

"Both Shanghai and Beijing reported a case of a locally-transmitted infection from an imported patient Tuesday.
State media warned of a second wave of infections, with the nationalistic Global Times warning on its front page that "inadequate quarantine measures" meant a second wave of infections was "highly likely, even inevitable". ("Ambas Shanghai e Beijing reportaram um caso de transmissão local de infecção de um paciente importado na terça-feira. A mídia estatal alertou que uma segunda onda de infecções, com o nationalista Global Times alertando na sua primeira página que "medidas inadequadas de quarentena" significam uma segunda onda de infecções é "altamente provável, talvez inevitável".

Portanto, apesar de impor medidas duras, de sacrificar sua economia, de perder milhares de vida, nada garante que não possam estourar novos surtos na China, e a doença tomar proporções ainda maiores. Como faz? Impede voos internacionais? Mas num mundo tão conectado, isso é possível? E com tantos focos mundo a fora, por quanto tempo a China consegue evitar outro surto? Ninguém sabe, e o mundo irá descobrir em poucos meses.

OS VÁRIOS FOCOS PELO MUNDO E AS ONDAS SUCESSIVAS DE CONTAMINAÇÃO

Já pararam para pensar na diferença do termo pandemia para uma epidemia? Eu nunca tinha refletido a respeito, mas apesar de algo óbvio e simples, foi um insight poderoso para mim. Uma epidemia é algo localizado, uma pandemia é algo espalhado por vários cantos do mundo. E por qual motivo isso é relevante?

Se um surto de uma doença alcança proporções epidêmicas, muitos casos, mas é restrita a uma área, é muito mais fácil contê-la, inclusive com medidas de quarentena drásticas. Isola-se a população afetada, espera-se que o surto diminua ou cesse, e vida que segue. Entretanto, quando há focos em várias regiões, se uma região controlar o seu foco com medidas de quarentena, por exemplo, nada impede que ela não importe casos de outras regiões, ocasionando mais uma onda de contaminação (tópico anterior).

Esse é o problema de uma pandemia. Talvez o que acontecer em Bangladesh ou na Nigéria (dois países pobres e extremamente populosos), possa afetar os EUA ou o Brasil, mesmo que esses países controlem seus focos de COVID19, ainda mais num mundo com fronteiras porosas e com uma economia tão interligada e conectada. 

Sendo assim, quer queiramos ou não, parece que estamos nessa juntos. A China ou Coréia do Sul, a não ser que o vírus não seja tão perigoso ou que sua população seja imune, não poderá ficar tranquila se a Índia tiver um foco enorme da doença, por exemplo. Sendo assim, o esforço deve ser conjunto para conter os focos em vários países, e isso obviamente é difícil.

Logo, do ponto de vista apenas de um país, talvez seja muito mais importante o número de focos dentro de um próprio país do que o número de infectados e mortos em geral desse mesmo país. Pelo que li, por exemplo, ao contrário da Itália que possui um grande foco no norte , a Espanha possui focos espalhados pelo país. Se isso for verdade, será mais difícil controlar o surto epidêmico na Espanha, quando as medidas de quarentena forem levantadas, do que na Itália, e a Espanha tende a ter mais mortes do que a Itália nas próximas semanas. O raciocínio pode ser equivocado e algumas semanas mostrarão se isso é correto ou não.
Por fim, recomendo o bom e curto vídeo do Peter Attia sobre esse tema do dia 23/03/2020

  Se você não entender, ele basicamente compara regiões com foco, e não necessariamente países inteiros, a carros indo em direção a um precipício. Há carros acelerando (como o Estado de NY), há carros que já caíram (região da Lombardia do norte da Itália), há carros que estão ainda com uma velocidade bem baixa e longe do precipício (Sicília, no sul da Itália, por exemplo), e essa é a dinâmica complexa que as pessoas inteligentes e preparadas como ele e outros precisam tentar modelar.

O texto já ficou grande, vai precisar de uma terceira parte apenas sobre a doença em si. Eu só quero falar de Brasil, mercado financeiro, de governo,  de mim mesmo e família, depois que ao menos os pedaços básicos do quebra-cabeça estejam minimamente entendidos e expostos.
Ah, nunca pedi isso, mas se gostou do texto e o achou com informações relevantes, passe para conhecidos.

Um abraço!

Leia a Parte III