sábado, 6 de setembro de 2014

INDEPENDÊNCIA FINANCEIRA - TAXA SEGURA DE RETIRADA - PRIMEIRA PARTE


Olá, colegas! Hoje pretendo falar um pouco sobre Independência Financeira, sim o tema favorito de quase todos que se interessam mais por finanças pessoais. O objetivo é viver de renda, mas a pergunta que muitos fazem é quanto de patrimônio é necessário para se poder ter rendimentos passivos suficientes para se manter certo padrão de vida. Eu iria abordar alguns estudos técnicos feitos sobre qual seria uma taxa segura de retirada, mas eu preferi fazer um primeiro post explicativo.

Primeiramente, no que consistem esses estudos? Basicamente, são estudos que pegam os dados passados de rentabilidade das classes de ativos, simulam determinadas alocações para portfólios (as alocações representadas por fundos que de alguma maneira seguem algum índice), baseado nessas alocações e no ano da aposentadoria simulam diversas taxas de retirada do patrimônio e observam a taxa de sobrevivência do portfólio para variados horizontes de tempo, geralmente de 10 a 40 anos. Soul, ficou um pouco confuso, dê um exemplo. Imagine que um americano resolveu aposentar em 1973, tinha um portfólio de 50% Bonds (renda fixa) e 50% em ações (representado por algum índice) quais taxas de retirada anuais teriam sido seguras para não extinguir o portfólio no horizonte testado? Assim, os estudos testam diversas taxas, diversas configurações de portfólios, diversos horizontes e diversos anos de aposentadoria e tentam tirar alguma conclusão desses dados.

Os primeiros estudos americanos chegaram a uma taxa segura de retirada de 4% e é daí que vem a famosa “4% rule”. Há muitas críticas atualmente sobre essa “regra”, eu cito algumas: as taxas de retirada não consideram os custos de investimento, os estudos foram feitos única e exclusivamente com dados do mercado americano (o que poderia ocasionar o que se chama tecnicamente de survivorship bias, já que o mercado americano foi um ponto fora da curva no século XX) e os estudos não poderiam ser automaticamente aplicados em ambientes de baixos yields que vivemos atualmente. Todas essas críticas são interessantes e pretendo abordá-las no momento oportuno. Entretanto, eu gostaria desse primeiro artigo de discutir algumas questões prévias à análise dos estudos propriamente ditos, e alguns argumentos utilizados quando essa questão vem à tona.


ALGUMAS PREMISSAS BÁSICAS


Colegas, o que vou falar agora é óbvio e lógico, mas às vezes escapa a percepção de algumas pessoas.  Em um artigo há uns meses atrás na parte dos comentários, eu disse para um Anônimo que a maior segurança que se pode ter é um alto patrimônio sendo remunerado a uma taxa “r” e uma taxa de retirada desse patrimônio pequena.  O anônimo talvez não tenha entendido e fez pouco caso, porém em patrimônios de retirada nós temos quatro variáveis, duas correlacionadas positivamente e duas correlacionadas negativamente, importantes que vão ditar o sucesso ou não da sobrevivência do portfólio: tamanho do patrimônio, retirada do patrimônio, rentabilidade desse patrimônio e horizonte de tempo.

Quanto maior o seu patrimônio, maior é a chance de sobrevivência do mesmo no decorrer dos anos. Quanto maior a sua rentabilidade maior a chance de não extinguir o portfólio. Quanto maior o horizonte de tempo que a pessoa quer fazer retiradas menores é a chance de sucesso e quanto maior a taxa de retirada desse patrimônio menor é a chance do mesmo  não ser exaurido.

Dessas quatro variáveis nós temos duas sobre relativo controle, uma que o nosso controle é parcial e uma sem qualquer tipo de controle.  Nós podemos definir qual é o patrimônio que julgamos suficiente para fazer a transição para uma vida de renda passiva e qual é o montante que desejamos retirar todo o ano. Nós podemos fazer uma projeção de quantos anos esse patrimônio terá que durar, mas sem termos uma precisão absoluta. Porém, nós não temos controle sobre a rentabilidade do nosso patrimônio, o máximo que se pode fazer é esperar um determinado nível de rentabilidade para um determinado nível de exposição de risco e de alocação de ativos.

Portanto, o fator patrimônio é fundamental quando se pensa em viver de renda. Eu ainda diria que o fator taxa de retirada é tão ou mais essencial. Uma pessoa que possui 3M e quer viver confortavelmente com 25k por mês, o que ocasionaria uma taxa de retirada de 10% aa, possui uma estratégia muito mais arriscada do que uma pessoa que possui 2M e quer viver com 10k por mês, o que redunda em uma taxa de retirada de 6% (ambas as taxas de retirada são arriscadas para horizontes maiores de tempo). Portanto, a mensagem que com uma vida mais simples e frugal o objetivo da independência financeira é bem mais fácil é absolutamente correta. Da mesma forma que se a pessoa for feliz no trabalho e quiser adiar o momento da passagem para uma vida aonde os rendimentos vêm de forma passiva a chance de sucesso de sobrevivência do patrimônio é muito maior.

Sim, é tudo muito intuitivo e lógico, mas é sempre bom termos as premissas bem claras para que possamos entender os estudos estatísticos, bem como para que possamos nos planejar corretamente.


ALGUMAS OBJEÇÕES PRÉVIAS


Sabedor de algumas indagações que comumente são feitas quando esse tema é explorado em algum lugar, resolvi adiantar e falar o que penso sobre elas.


A)     ESSES ESTUDOS SÃO PERDA DE TEMPO, NÃO ACREDITO NELES


Colegas, aqui eu acho que há um grande mal-entendido. Estudos de qualquer coisa com resultados imprevisíveis, como é o caso de uma taxa de retirada de um patrimônio que está sujeito a inúmeras flutuações e acontecimentos incertos, nunca vão proporcionar uma “verdade” como um teorema matemático ou alguma demonstração de um evento físico. Isso é patente. Logo, não se pode pegar nenhum estudo feito no campo das finanças e aplicá-lo ou segui-lo cegamente, sem qualquer juízo crítico. Os estudos servem apenas como guias, como um ponto de partida de um planejamento, como uma forma a mais de se tentar se posicionar.

Sob essa perspectiva para mim eles são muito bons. Simplesmente ignorá-los, sem ao menos conhecê-los, é uma atitude não muito sábia em minha opinião. Criticá-los sem tê-los lido, aí realmente já é um erro, pois na minha concepção de ver o mundo só podemos nos posicionar de maneira crítica de forma séria quando conhecemos aquilo que estamos criticando.

Portanto, os estudos não são para ser levados como guia definitivo para a questão, nem mesmo eles representam a miríade de situações possíveis que cada pessoa pode ter, até porque eles são estudos estatísticos, mas eles são sim importantes para que possamos ter algumas idéias mais claras sobre um tema que é importantíssimo, pois ele ultrapassa a simples independência financeira, ele é vital para os sistemas de previdência do mundo inteiro.


B) EU SIGO A FÓRMULA “POPULARIZADA” DE QUE EM FASE PREVIDENCIÁRIA MEU PORTFÓLIO TEM QUE RENDER DUAS VEZES OS MEUS GASTOS OU A ÚNICA TAXA SEGURA É AQUELA EM QUE A TAXA DE RETIRADA EQUIVALE AO FLUXO REAL PRODUZIDO PELO PATRIMÔNIO


Colegas, já vi em vários lugares se popularizar a ideia de que a pessoa só pode retirar metade do fluxo gerado pelo seu patrimônio.  Vejo muitas pessoas abraçando essa ideia e ao mesmo tempo ignorando os estudos estatísticos. O que não se percebe é que ao se dizer que só se pode gastar metade do seu fluxo, na verdade está se criando uma mesma regra como o “4% rule”, mas sem qualquer base empírica para pronunciar a dita “regra”. Ora, isso é apenas um método ruim, nada mais do que isso.  E se eu achar que essa “regra” é muito arriscada e colocar que apenas quando o meu patrimônio produzir três vezes os meus gastos eu posso viver de renda  passiva, o que acontece? Se a rentabilidade nominal de um portfólio no ano for de 10%, e a pessoa tiver uma despesa anual de 100k, o patrimônio teria que ser de 2M (5% de taxa de retirada) ou de 3M (3,3% de taxa de retirada). Percebe-se que o patrimônio final pode ser de 1M a mais ou a menos a depender da regra de cabeça adotada. Uma irá produzir uma taxa de retirada um pouco agressiva de 5% e a outra uma taxa de retirada conservadora de 3.3%.

Porém, se em um determinado ano a rentabilidade anual nominal for de 5%? Dobram-se os números de taxa de retirada ou dobram-se os patrimônios para 4M e 6M respectivamente? Dobrar os patrimônios é impossível para quem já está prestes a parar de trabalhar ou simplesmente vai necessitar muitos mais anos de acumulação para as pessoas que ainda estão na fase de acumulação.  Portanto, fique claro que “regras” de que quando os fluxos são o dobro dos gastos ou o triplo dos gastos nada mais são do que variações do “4% rule”, porém sem passar pelo crivo da análise empírica.

A segunda variação de apenas retirar os fluxos reais de um portfólio é evidentemente segura, pois não parte de números jogados ao leu como gastar a metade dos seus rendimentos. Se uma pessoa calcular a sua inflação pessoal e gastar apenas os fluxos que ultrapassarem a sua inflação pessoal, o poder de compra será mantido e se a pessoa mantiver o mesmo nível de gasto o portfólio pode teoricamente durar para sempre. Reconheço que essa é uma forma muito segura de se pensar no problema.

Porém, há alguns problemas de se contar apenas com fluxos reais. Uma pessoa talvez não queira deixar patrimônio para herdeiros ou talvez nem mesmo possua herdeiros. Logo, uma estratégia que as despesas irão ser bancadas apenas com fluxos reais vai levar a pessoa necessariamente a obrigatoriedade de possuir patrimônio muito maior do que o necessário. Logo, a pessoa estará trocando anos de vida trabalhando a mais por segurança. Tudo na vida é um eterno trade-off, mas no caso específico de uma pessoa que não pretende deixar nada a herdeiros essa troca é negativa, pois vai levar que ela tenha um patrimônio muito maior do que o necessário.  Se algum engenheiro civil ler esse artigo algum dia, pense na seguinte analogia (e desculpe ao público técnico se cometo algum erro primário):  para manter um prédio de quatro andares seguro você precisa, digamos, de 8 colunas de sustentação, sendo assim não há qualquer motivo para se erguer 16 colunas de sustentação a não ser que se queira gastar tempo e recursos de forma desnecessária. É claro que a analogia não é perfeita, pois o exemplo das colunas é algo quase exato, enquanto a sobrevivência de um patrimônio é muito mais inexata. Porém, apesar das eventuais falhas, eu acho a comparação razoável para termos em mente que conservadorismo demais pode nos levar a desperdício do que temos de mais precioso: tempo com saúde.

O outro problema com apenas retirar os fluxos reais, é que se num determinado ano o fluxo real for zero ou negativo, como se faz? Suponhamos que uma pessoa tenha um patrimônio de 3M, tenha um gasto anual de 100k, e o fluxo real de um ano  negativo, a pessoa deve cair em demasia o seu nível de gasto? Volta a trabalhar? E se houver uma crise de três anos seguidos com fluxos reais negativos, o que se faz?  É evidente que se os fluxos reais forem negativos por muitos anos seguidos o portfólio será extinto. Porém, as classes de ativos e os mercados costumam passar por ciclos, e uma queda acentuada em alguns anos pode seguir uma alta muito acentuada em outros anos, é esse fenômeno que os estudos estatísticos tentam capturar. Será que um fluxo real negativo de um ano não vai ser compensado por um grande fluxo real positivo num ano posterior? O que os dados podem dizer a respeito? Portanto, se uma pessoa se prender apenas na noção de retirada de fluxos reais positivos, pode levar a uma troca de mais anos de trabalho por mais segurança no fluxo, que em alguns casos pode ser desnecessária, bem como deixar a pessoa despreparada para alguns anos onde o mercado como um todo pode apresentar retornos reais negativos.

O tema é de grande importância e pouco tratado de forma mais sistemática aqui no Brasil.  Não há respostas simples nem objetivas sobre a pergunta “qual é uma taxa segura de retirada?”. Porém, há sim formas de se pensar mais objetivamente a questão. Em outro artigo, pretendo abordar alguns estudos e suas conclusões e raciocinar se estes estudos podem ter alguma valia para o mercado brasileiro.

Grande abraço a todos!


28 comentários:

  1. Fala Soul,

    Esta série de postagem vai levantar muita polêmica :)

    Eu acho interessante a regra dos 4% mas também acredito que a regra da retirada de 50% do fluxo real produzido anualmente seja também interessante, por conta disso vou comentar aqui discordando de algumas coisas que você disse só para acalorar um pouco a conversa.

    Você comentou que não podemos utilizar a ideia da regra dos 4% na íntegra, ou seja, temos que analisá-la como se fosse um balizador e assim criarmos uma regra própria, logicamente baseada nesta já conhecida. Sendo assim, podemos ter regra dos 3% para os mais conservadores e regra dos 5% para os mais agressivos, por exemplo.

    Mas da maneira que comentou sobre a regra do 50% do fluxo real produzido, você não utilizou a mesma ideia. Ora, você comentou sobre os períodos de baixa de fluxo ocasionadas por diversos motivos no mercado financeiro, e questionou sobre o que fazer para essas pessoas que pensam dessa maneira? Elas teriam que fazer retiradas menores ou voltar a trabalhar? Acredito que não, pois ai elas estariam cegamente utilizado a regra dos 50%, e não criando ajustes. Se o mercado passar por uma época de rentabilidade negativa ou diminuição de fluxo, a pessoa continuará retirando a mesma quantia, visto que ela poderá retirar menos para acúmulo quando o mercado sofrer uma reversão.

    Sobre a necessidade de se deixar ou não herança, podemos comentar também sobre a expectativa de vida atual e a data de aposentadoria. Uma pessoa que pensa em uma taxa de retirada de 4% necessária para passar 30 anos após a aposentadoria, está em tese marcando uma data de falecimento, visto que após os 30 anos, ele não terá dinheiro para se manter e também não terá saúde para voltar a trabalhar, no caso de quem deseja não ter filhos, não terá ninguém para lhe ajudar. Neste caso, a pessoa que acredita na regra do fluxo, em tese ela poderá viver por quantos anos mais ela conseguir, pois terá sempre um patrimônio para servir como segurança.

    PS: Não defendo um ou outro tipo de ideologia, apenas quero acalorar a conversa :)

    Uta!

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    1. Este comentário foi removido pelo autor.

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    2. Olá estagiário! Boas observações. Vou responder em tópicos:
      a) Olha, eu nem sei exatamente qual seria uma taxa segura, muito menos para o mercado brasileiro. A taxa de 4% não se mostrou segura para uma série de países (há um estudo estendendo a análise para outros 17 países). Uma taxa de 3% se mostrou segura, mas não para todos os países em todas as situações, porém os 3% parece ser um patamar que começa a ser bem seguro. Sim, como disse na parte do texto que fala das variáveis, elas são quatro: patrimônio, tempo, taxa de retirada, rentabilidade. Uma pessoa pode dar “sorte” de ter uma rentabilidade muito forte nos primeiros 10 anos e isso vai fazer que o patrimônio dela não se extinga mesmo depois de 40/50 anos. Uma pessoa pode dar “azar” de baixos rendimentos nos primeiros 10 anos e a possibilidade de extinção do mesmo é bem mais alta do que no primeiro caso;
      b) Então, eu disse 50% de retirada de um fluxo nominal (a regra do dobro de renda para as despesas). Se a retirada for de 50% do fluxo real, aí a chance de extinção do portfólio é muito remota em minha opinião. Veja que no texto eu disse que a pessoa que consegue apenas retirar 100% do fluxo real já é razoavelmente conservador, com taxas de retiradas de 50% do fluxo real é muito provável que o patrimônio não só não extinga, mas que na verdade cresça;
      c) Não é bem isso, Estagiário. Quando um estudo diz que uma taxa de 4% foi segura num período de 30 anos, não quer dizer que o patrimônio foi extinto em 30 anos, mas apenas que o valor final é superior a 0. Na verdade, na esmagadora maioria dos casos (a depender do estudo, e a depender da configuração da alocação), o patrimônio vai ser maior do que o patrimônio de começo, às vezes muito maior, e isso vai depender dos ciclos do mercado. Você tem razão sobre as datas de aposentadoria, mas se lembre que o tempo de uso de um patrimônio também é uma variável. Se você quiser viver 50/60 anos do patrimônio (como meu caso, por exemplo) as chances de extinção do patrimônio são maiores, o que obriga que a pessoa seja conservadora nas outras variáveis;
      d) Veja, eu não tenho nada contra idéias a priori. O que quis destacar é que alguns conselhos não são baseados em dados empíricos, apenas isso, e que na verdade podem ser traduzidos apenas como uma variação desses estudos, mas sem a coleta de dados, o que para mim torna a argumentação mais fraca. Agora, se a pessoa tiver a capacidade financeira de viver com 50% do fluxo real (não nominal), não há muito que temer. O problema é que isso envolve valores de patrimônio bem altos, e isso nada mais é do que uma troca por anos de vida com saúde trabalhando por mais segurança. Cada um deve analisar se é isso que quer para a vida ou não. Talvez o melhor seja achar uma profissão ou trabalho com que se identifique e tenha prazer, isso com certeza torna tudo mais fácil.

      Valeu pelos insights! Abraço!

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  2. Acompanho o blog faz pouco tempo mas gostei bastante da qualidade dos posts.
    Acredito que já conheça esta ferramenta, mas, em todo caso, compartilho assim mesmo pois está diretamente ligada ao tema deste post.
    http://www.firecalc.com

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    1. Olá, colega.
      Grato por citar o firecalc.com.
      Acho uma ferramenta bem interessante.

      Abraço!

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  3. http://wpfau.blogspot.com.br/2012/02/trinity-study-and-portfolio-success.html

    a taxa segura de 4% implica em salvar 25x o gasto anual.

    mas prefiro a "regra" de gastar metade dos ganhos com investimentos e continuar trabalhando. E ter uma vida mais frugal.

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    1. Olá, colega. Vai depender o que se os seus ganhos de investimentos serão apenas fluxos ou também eventuais ganhos de capital.
      Se for apenas fluxos, deverá observar se são nominais ou reais.
      Se forem nominais, talvez retirar metade do fluxo leve a taxas de retiradas bem superiores a 4%.
      Agora ter uma vida frugal e flexível nos gastos com certeza é uma ótima estratégia.

      Abraço!

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  4. Soul, uma vez na minha vida eu li sobre taxas de retirada. Busquei tentar aplicá-las e como vc citou em sua postagem, as variabilidades são tão grandes que acabei deixando de ser diligente para prosseguir com as técnicas. Inconscientemente, a uso mas de uma forma um pouco diferente.

    Eu tenho uma planilha de previsão de gastos para os próximos 50 anos. Esse horizonte de tempo eu mantenho há 12 anos, e já estou pensando em diminuí-lo, uma vez que já cheguei aos meus 42 anos hehe. Nessa planilha, eu coloco tanto a previsão de despesas como a previsão de receitas, vinculadas a uma célula da planilha onde coloco o juro médio de rentabilidade.

    Pois bem, com o tempo, o valor dessa célula foi diminuindo. Ou seja, uns anos atrás eu precisaria de um juro médio (apenas juros) de mais de 10% para manter o fluxo de caixa. Risco altíssimo e qual o significado? Que eu ainda não podia largar o emprego. Ano a ano esse juro necessário foi diminuindo, até que chegou a 5,5%. Nesse momento, eu larguei o emprego, há mais de 4 anos.

    A última planilha que fiz, no final do ano passado, me deu um juro de 4,6%. Quer dizer, nesses últimos 4 anos eu melhorei de situação (e ainda considerando que mantive os 50 anos de horizonte, isso é, posso viver mais hehe) e aos poucos, eu venho me sentindo mais seguro para gastar um pouquinho mais.

    A planilha me baliza anualmente. Digamos que nesse ano eu feche uma nova planilha, com o mesmo horizonte e nível de gastos e esse juro necessário suba para 4,8%. Sinal amarelo. O que eu faço? Ajusto um pouco a previsão de despesas para que eu abaixe um pouco esse número. E no ano que vem, gasto um pouquinho menos. O inverso também é verdadeiro.

    Para mim, mexer nessa planilha e ficar simulando minha vida financeira para os próximos 50 anos é fascinante. Claro que previsões orçamentárias existem como previsões, podem ser mudadas, etc. Enfim, foi uma forma de eu ficar mais seguro em continuar vivendo bem com o que eu tenho sem correr riscos de perda descontrolada de patrimônio.

    Abraço!

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    1. Olá, André!
      Muito bom o seu detalhe, há poucos relatos como esse na blogosfera, e fico grato por você compartilhar com todos aqui.
      Sim, você acaba aplicando uma taxa de retirada, mas já digo que vi um estudo (ainda não li) que parte da ideia de se fazer uma taxa de retirada flexível de acordo com os humores do mercado (é meio intuitivo e lógico, mas é sempre bom ver dados a respeito), se não me engano variava de 3 a 5% a depende do retorno dos seus investimentos no ano anterior, essa flexibilidade na retirada turbinou os resultados de não extinção do portfólio no horizonte de tempo testado.
      Achei bem interessante o seu método e acho que é por aí: antever os gastos, ser flexíveis com eles, não exigir demais do patrimônio e ir ajustado a estratégia de acordo com o desenrolar dos acontecimentos no mercado, bem como da nossa vida.

      Grande abraço!

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    2. André, pelos teus cálculos este o valor do principal acabaria ao fim dos 50 anos ?

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    3. Não colega. Para mim, tenho como objetivo deixar meu patrimônio pela metade, o que pode auxiliar bem minha filha após eu morrer. Mas isso é decisão de cada um. Para uma pessoa que não quer deixar herança, poderia, claro que com uma margem de segurança, estimar o tempo de vida e zerar o patrimônio em seguida.

      Mas o importante é anualmente, refazer os cálculos em função da nova realidade e aprimorar as considerações.

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  5. Soul, ainda to com duvida sobre qual a quantia total disponibilizada para o consumo anual, pelo Trinity Study. Ex: Se tenho um patrimonio de 100 mil que me geram 10 mil anuais nominais, sendo que destes 10 mil, 5mil sao correcao inflacionaria. Eu deveria gastar 4 mil ou 9mil? Abs

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    1. Então, o Trinity Study (tem esse nome, pois foram três pesquisadores) fizeram duas simulações: uma com retiradas sem ajuste pela inflação e outra com ajuste.
      Como nosso país tem uma inflação muito alta (e isso é histórico e vem desde a década de 40, não foi algo pontual da década de 80, por exemplo), creio não fazer sentido não ajustarmos pela inflação.
      Pelas simulações desse estudo a retirada deveria ser: primeiro ano = 4k, segundo ano 4k mais o índice inflacionário (se a inflação do ano anterior for de 10% a retirada seria de 4,4k) e assim sucessivamente.

      Abraço!

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    2. Entendi. Mas nesse caso, para o Brasil, penso que faria mais sentido a regra de "gastar somente os juros reais e preservar o principal corrigido pela inflação". Nao fui a fundo nas series historicas, mas me parece que de 2000 para cá, os juros reais no Brasil são acima de 4% ( mesmo descontando o IR sobre aplicações), o que tornaria o Trinity Study muito conservador.

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    3. Olá, Galo da Comarca.
      Se você conseguir gastar apenas o fluxo real, maravilha.
      Eu, na última parte da série, vou fazer algumas considerações pessoais sobre o que acho que pode ter aplicação ao Brasil.
      Como nós ainda temos taxas de juros muito altas, isso implica que os dividendos das ações, bem como os yields dos FII sejam muito altos.
      Logo, é possível que o Brasil forneça taxas de retirada maiores.
      O problema (que não é bem problema se pensarmos no Brasil como um tido) é que os juros não devem se manter nesse patamar nos próximos 20 anos. Logo, os rendimentos em renda fixa, FII, dividendos de ações tendem a ficar menores, o que talvez obrigue que as pessoas sejam um pouco mais conservadoras.

      Porém, a ideia é essa aí mesmo, refletirmos sobre o que outras pessoas já escreveram, e cada um traçar os limites daquilo que é interessante ou não para a sua vida financeira.

      Abraço!

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    4. O trinity study tem este nome porque foi feito por pesquisadores da universidade de trinity, não por eles serem em três.

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    5. É verdade colega, mas eu li em algum lugar que o fato de ser três pesquisadores ajudou a consolidar o nome trinity, mas eles realmente eram da universidade trinity.

      Grato pela lembrança!

      Abraço!

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    6. Soul,
      Eu gostaria de ser otimista com o Brasil como você. Eu não acho que em 20 anos tenhamos no Brasil taxa de juro e índice de inflação de países civilizados.
      1° O país é fechado comercialmente. E não deve mudar muito, pode haver melhoras, mas não acredito em abertura da economia. Os barões da FIESP e mentalidade mercantilista da nossa elite não permitirão.
      2° O endividamento público é crescente. O estado brasileiro já é deficitário hoje e mesmo assim está assumindo uma série de compromissos: 10% do PIB para educação, inúmeros programas sociais, subsídios para grandes empresas, aumento de despesas com salários dos servidores públicos. Milhares de servidores públicos foram contratados nos últimos anos. Hoje estão no início das carreiras. Mas ano a ano vão progredindo. Isso significa que mesmo que o estado parasse de contratar, os gastos irão crescer de qualquer jeito. Fora os ganhos reais que são concedidos a diversas carreiras todos os anos.
      3° A concentração bancária. O Brasil tem 200 milhões de habitantes e menos de 10 bancos monopolizam o setor bancário no Brasil. Você ver perspectiva de mudança nesse sentido.
      4° O Brasil possui um infra estrutura logística precária: Portos, aeroportos, estradas, ferrovias, etc; O que ajuda a manter alto o custo Brasil.
      5° A inflação. Nos últimos anos houve uma enorme expansão do crédito no Brasil. Isso aliado a déficits públicos crescentes está fazendo com a inflação volte a crescer de forma persistente. A inflação empurra os juros para cima. E mesmo que um outro governo ganhe a eleição terá que honrar que os compromissos já assumidos pelo governo atual.
      Acho muito difícil que os juros no Brasil caiam para níveis civilizados no futuro próximo. Talvez daqui a 30 ou 40 anos se a mentalidade do brasileiro, de que o estado tem que responsável por tudo, mudar.

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  6. Soul, aonde consigo artigos acadêmicos referentes a estes assuntos ? Quais as revistas ? eu tenho acesso aos periódicos CAPES e tem muita revista lá, mas como sou da área da saúde preciso de um norte para procurar. tu sabe se existem revisões sistemáticas referentes ao assunto ?

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    1. Olá, colega.
      Olha se você colocar 4% rule (saber ler em inglês é fundamental, pois a literatura sobre isso em português é pequena ou inexistente) vai aparecer um monte de referência.
      Pode começar com o Trinity Study e depois se gostar de ler sobre o assunto, há vários outros artigos.

      Abraço!

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  7. me ajudem http://www10.vakinha.com.br/VaquinhaE.aspx?e=302532

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  8. Este comentário foi removido pelo autor.

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  9. Bacana este assunto, Soul. Fico triste pois tenho conhecido muitas pessoas que se aposentaram (empresas privadas) e que não fizeram uma poupança financeira durante os anos de trabalho. Ainda hoje, mesmo havendo farta divulgação sobre o assunto, são poucas as pessoas que se preocupam em poupar.

    Vi, já por umas 2 ou 3 vezes, que em Singapura as criança são ensinadas (e vai ao longo de sua formação) quanto a importância do planejamento financeiro presente e futuro.

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    1. Sim, Singapura é um exemplo nessa área.
      Uma vez vi um globo repórter sobre um mega-milionário americano que morava lá e levava as filhas para escola de bicicleta e fazia questão que elas estudasse num colégio público (ao invés de estudar num colégio para estrangeiros) para conviver com a diversidade.
      Tive a oportunidade de conhecer esse pequeno país e gostei bastante.

      Abraço!

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  10. Soul, boa tarde.

    Você saberia dizer-me quais as empresas negociadas no BOVESPA (ações) que tem hoje, de maneira sistemática, uma política de distribuicão mensal de dividendos? E também, trimestral? Pergunto isto pois gostaria de ter algumas em minha carteira, que já está em fase de geração de renda passiva. A idéia seria colocar algo como 20% de minha carteira de investimentos (basicamente FII's, hoje) em ações do tipo descrito.

    Grato,

    Carlos.

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    1. Olá, Carlos!
      Então, se você já está numa fase em que o seu patrimônio já está numa fase previdenciária, talvez uma maior alocação em FII possa fazer mais sentido pelos altos yields.
      Veja, os dividendos tendem a métricas reais, pois presume-se que as empresas conseguem repassar a inflação para o preço dos seus produtos/serviços. É inegável que as empresas podem também apresentar crescimentos reais na distribuição, daí é uma maravilha.
      Porém, sabemos que os rendimentos das empresas tendem a ser muito mais voláteis.
      Os FII não deixam de ser ser uma "empresa" (nos EUA se fala de ações, e vários REITs participam de índices acionários), mas com um fluxo de caixa muito mais previsível e com uma boa possibilidade de manutenção real do fluxo (mas com pouca perspectiva de crescimento real do fluxo).
      Empresas que pagam mais dividendos, até porque se pagam muito dividendos não possuem muito dinheiro para investimento na empresa, tendem a ter um comportamento de certa maneira parecido com FII.
      Se hoje temos ótimos FII pagando 9.5%/10% aa, eu não sei se uma exposição acionária para fluxo de caixa seja muito recomendada para pessoas em fase previdenciária.
      Eu indicaria ações como uma forma de diversificar o portfólio, e acho importante, mas não necessariamente como boas geradoras de fluxo.
      Opinião apenas.

      Abraço!

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    2. Soul,

      Você tem toda razão! Obrigado por suas considerações!

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  11. Soul, obrigado pelo texto.

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