segunda-feira, 19 de agosto de 2019

O RECADO (COMPLEXO) QUE VEM DA ARGENTINA


Olá, colegas.  Não, o texto não é uma provocação ao colega Rafael do site Investidor Internacional que publicou artigo com o mesmo título.  O blog dele já foi, e continua sendo, o mais indicado para investimentos internacionais, material de muito boa qualidade. O meu intuito é apenas refletir como um fato pode ser apreendido das mais diversas formas, e procurarei fazer um texto ainda mais abrangente do que o tópico da chamada do artigo.

HORMESE E IATROGENIA–  NICHOLAS NASSIM TALEB

                No começo desse blog, lá pelos idos de 2015, diversas vezes um comentador dizia que eu não entendia os livros que citava, especialmente quando fazia referência ao famoso escritor de “A Lógica do Cisne Negro”.  É bem possível que eu não tenha entendido tudo profundamente, afinal falhas de interpretação é algo normal e natural, ainda mais para alguém que não é superdotado como eu. 

                Desde então, eu reli o livro, e li alguns outros do mesmo autor. Não sei se a minha compreensão aumentou, eu acredito que sim. Apesar de ele ser bastante citado pela comunidade financeira, os conceitos que mais me chamam atenção na obra dele são a Iatrogenia e a Hormese.

                Iatrogenia é um termo bastante usado em medicina, e um dos motivos da minha busca pessoal por autoconhecimento em relação à saúde do meu corpo. Basicamente, esse termo se refere a um dano que pode ser causado quando se realiza um ato na perspectiva de melhorar uma situação.  Por exemplo. Alguém descobre que possui uma hérnia entre a L4-L5. A hérnia não é sintomática, ou seja, a pessoa não sente dor. Um médico resolve mesmo assim operar essa hérnia, e na operação alguma complicação surge. A complicação é a iatrogenia do ato médico de tentar melhorar a situação do achado de imagem (a hérnia entre L4-L5).

                A profissão médica sempre estará sujeita a iatrogenia, pois está lidando com situações limites dentro da complexidade fisiológica de um ser humano. Porém, ao se saber que fazer alguma coisa pode ocasionar efeitos iatrogênicos, pode-se refletir melhor sobre se um determinado ato realmente necessita ser feito. Taleb acredita,  e eu também, que um excesso de medicação e intervenções cirúrgicas pode ocasionar mais mal do que bem, justamente pelo efeito iatrogênico.

                O outro conceito, Hormese, é muito interessante.  Ele é central para a toda a linha de argumentação do Taleb. Na verdade, talvez seja o conceito mais importante tratado por ele no imenso livro de 700 páginas “Antifrágil”. Hormese é o fenômeno de que um organismo submetido a uma dose moderada de algum estressor pode na verdade ocasionar que esse organismo saia fortalecido e não enfraquecido.

                Exercício com cargas, por exemplo, é um caso típico de Hormese. Ao se levantar cargas pesadas, submetemos o nosso organismo a um estressor externo, nosso corpo sofre com o stress momentâneo, mas como uma forma de se preparar para futuros stress parecidos, nosso corpo se adapta criando, e aumentando, fibras musculares, nos tornando mais fortes, para que assim nosso organismo não seja estressado ao ser submetido novamente a uma sessão de levantamento de peso.

                A Hormese está presente em tudo. Expor o corpo ao frio fortalece o mesmo. Expor o corpo ao calor fortalece o mesmo. Talvez a exposição alguma desilusão profissional, ou amorosa, tem o efeito de nos tornar mais resilientes. Esse é um dos motivos, e claro compatível com a idade, pelos quais não irei tirar todos os estressores da vida da minha filha. Muito amor e Hormese controlada e compatível para uma criança, talvez seja a forma de se criar adultos fortes e resilientes.

                Infelizmente, quase nunca vejo pessoas que comentam a obra de Taleb abordando esses dois tópicos que em minha opinião são centrais para entender o pensamento desse escritor.

SISTEMAS COMPLEXOS


                A fisiologia de um corpo humano é de uma complexidade ímpar, isso ninguém pode negar. Quanto mais complexo um sistema, por uma questão de lógica, mais iatrogenia pode ser ocasionada por alguma interferência nesse mesmo sistema. Talvez uma medicação que suprima um determinado hormônio para aliviar algum sintoma no fígado, pode ocasionar uma interferência em como uma determinada parte do cérebro processa uma determinada proteína. Talvez, ao se testar a medicação, nunca se imaginasse que uma proteína poderia ter os seus efeitos modificados numa região do cérebro, e não se imaginou, pois como dito a fisiologia do corpo humano é complexa com milhares, dezenas de milhares, de interações entre hormônios, enzimas, genes, moléculas sinalizadoras, etc.

                Se o corpo humano é complexo, as sociedades modernas do século 21 são sistemas ainda mais complexos. A complexidade das interações humanas é tão grande,  que  um ser humano (ou um grupo de seres humanos) por mais inteligente que seja não é capaz de antever os efeitos de intervenções profundas na sociedade. Esse é o argumento principal contra regulamentos, a existência do Próprio Estado, de uma miríade de pessoas simpatizantes do liberalismo mais radical, escola austríaca, etc.  Como Taleb gosta bastante de pensadores como Mises, é natural que ele derive que interferência em sistemas complexos do ponto de vista econômico tem um potencial de ocasionar mais mal do que bem.

                Eu acredito que explicações da realidade que focam apenas no fenômeno econômico são no mínimo míopes. Desde o advento da economia comportamental, e talvez muito antes disso com os filósofos clássicos, sabe-se que o ser humano está longe de ser racional em todos os momentos. Pelo contrário, muitas das decisões são tomadas a nível inconsciente. Além disso, há questões culturais, geográficas, históricas, hormonais, e talvez uma miríade de muitos outros aspectos na existência humana.

                Sendo assim, se do ponto de vista econômico um agrupamento humano de centenas de milhões de pessoas é de uma complexidade absurda, se colocar os diversos outros aspectos na problemática, a complexidade salta algumas ordens de grandeza.

                É por isso, pelo conceito de iatrogenia e sistemas complexos, que intervenções militares podem ocasionar efeitos de segunda e terceira ordens inimagináveis. Eles não são previsíveis, pois os sistemas são complexos. É por esse motivo que Taleb sempre via com extrema reserva interferências militares dos EUA no oriente médio pós 09/11. É por isso que a Líbia possuía um dos maiores IDHs de todo o continente africano na era Kaddafi, e agora há feiras de vendas de escravos acontecendo em algumas cidades líbias.

                Pensem por um momento, leitores. Um país que talvez tivesse um IDH melhor do que o Brasil, e alguns anos  depois há feiras de escravos. Já imaginaram ir trabalhar e passar pela Praça da Sé e ver um leilão de escravos sendo feito em praça pública? Bizarro? Incompreensível? Pois é o que acontece na Líbia hoje em dia. Essa reflexão não significa que Kaddafi não era um ditador, ou que ele não cometia graves violações contra o seu próprio povo, apenas significa que quando se intervém em sistemas complexos (no caso o regime de um país que sempre foi dividido entre muitas tribos) mesmo com o intuito de melhorar a situação, pode ocorrer efeitos iatrogênicos graves, e a situação pós-intervenção ficar ainda pior.


BRASIL, TRUMP, SANDERS , ARGENTINA, ETC  

               
                E qual é a relação disso tudo com Argentina? Bom o texto do outro blog parte do pressuposto que a eleição da Argentina será ganha por um esquerdista, e isso é um recado para o Brasil que o mesmo pode acontecer aqui, e se isso ocorrer, o caos instalar-se-á.

                Eu concordo que é um recado para o Brasil, mas na verdade é um recado para todos, ainda mais em tempos de simplificações grosseiras, e visões de curtíssimo prazo. Primeiramente, um exercício de sinceridade. Nem eu, e muito provavelmente nenhum leitor, tem um conhecimento, talvez nem grosseiro, sobre a Argentina e sua história. 

           É possível que nem mesmo em relação ao Brasil boa parte das pessoas tenha um conhecimento firme. Se eu perguntar qual presidente veio primeiro, Prudente de Moraes ou Campos Sales, ou o que Rodrigo Alves fez ou deixou de fazer, é muito provável que quase ninguém saiba. Eu mesmo não sei (apesar de recomendar o fenomenal podcast presidentes da semana da Folha de São Paulo, um guia rápido para termos ao menos uma visão mais geral da história do nosso país. É provável que a maioria vai se surpreender como discursos anti-corrupcão, anti-sistema, corte de gastos, são velhos e já foram feitos algumas vezes na história de nosso país).

                Sendo assim, eu sei pouca coisa sobre a Argentina. Porém, sei que a Argentina é um sistema complexo. Eu sei que o Brasil talvez seja um sistema ainda mais complexo, assim como os EUA. Logo, é muito difícil realmente, se é que isso de alguma maneira é possível, entender a complexidade de um país inteiro.         
                E o que isso significa? Significa que como os sistemas são complexos, é muito difícil imaginar que o futuro será uma mera repetição do presente, ainda mais quando alguns atores importantes de certa forma tentam interferir de forma drástica nesses sistemas complexos. Sempre me causou certa graça ao ver com a eleição do Trump , e de outros populistas de "direita" como nas Filipinas, Hungria, Brasil, que o mundo estava se transformando por completo.

                Amigos, o mundo sempre está em eterna transformação. Essa é a lição de Heráclito de Efésios há mais de 2000 mil anos quando ele disse que “o mesmo homem não se banha no mesmo rio duas vezes”.  Há para mim certa ingenuidade em achar que a transformação é linear, e depois de ter ocorrido certa transformação, ela pára de ocorrer, e o presente se congela em direção ao futuro.

                Imagine se Bernie Sanders ganhar a próxima eleição. Para quem não conhece (eu ouvi uma entrevista dele no Joe Rogan, e ele é um senhor bastante inteligente), ele é um político com idéias como saúde universal, educação superior gratuita, etc, isso tudo nos EUA. Por muitos ele é visto como um autêntico comunista-socialista.  Eu acredito que o termo comunista não faz sentido em relação a ele, mas ele com certeza possui pautas muito mais inclinadas "à esquerda" do que outros democratas, como o próprio ex-presidente Obama.

                Não seria uma ironia? Se o mundo estava se transformando numa direção, como 4 anos depois pode haver a vitória de um candidato que representa outro espectro de idéias?   Trump pode ganhar, perder, não se pode saber. Porém, o fato é que alguém como Trump pode ocasionar a presidência de alguém como Sanders.

                Logo, o recado que vem da Argentina deveria ser para reconhecermos que o mundo é muito mais complexo e nuançado do que memes parecem sugerir. O presente não é o futuro, é bem provável que o futuro seja bem diferente do que os acontecimentos do presente sugerem. Quando há interferências em sistemas complexos, e Bolsonaro está fazendo várias dessas interferências (algumas até mesmo patéticas), iatrogenias inesperadas podem ocorrer, uma delas o fortalecimento de alguma ideia oposta até mesmo contra o que o Bolsonaro representa, e isso não significa um retorno ao bom-senso, mas talvez a idéias ainda mais extremadas.

                Por fim, encerro esse artigo com o conceito de Hormese. O stress saudável a um organismo ou a um sistema, não pode ser um stress maior do que as capacidades desse organismo ou sistema. Expor-se a temperatura de uma sauna por 15 minutos é uma coisa, expor-se a 300 graus Celsius por meia hora é outra.  E esse é o problema com grandes interferências em sistemas complexos como invasões militares estrangeiras ou mudanças no sistema político abruptas.  Se vamos ver esse tipo de coisa em nosso país (um estressor mais pesado do que nossas instituições possam aguentar?), não sei, apenas vivendo um dia após o outro para saber.

Um abraço!

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

OS SEIS PILARES PARA UMA BOA VIDA - SONO


                Os pilares de uma vida mais plena. Sim, é título de livro popular e de cursos a venda online.  Nunca gostei muito desses títulos, mas acabei adotando nesse artigo.  Eu tinha iniciado uma série sobre otimização de saúde, e escrevi apenas dois textos. Na verdade, era uma introdução a conceitos de como analisar uma evidência científica, principalmente no que toca a diferenciação entre duas variáveis associadas que podem ou não ter alguma relação de causa e efeito. Sem entender isso, e  quase ninguém (inclusive profissionais de saúde) compreende bem, não tem como realmente analisar o que pode ou não fazer bem ou mal aos nossos corpos de uma perspectiva científica.

                Neste texto, porém, irei abordar muito superficialmente alguns aspectos da vida humana que possuem relevância para o nosso bem-estar físico e mental (e quiçá “espiritual”).

SONO

                Ainda não mergulhei profundamente na análise desse componente da vida humana. Já li alguns artigos científicos, ouvi horas e horas de palestras de especialistas, mas ainda não posso dizer que tenho uma percepção aprofundada sobre o tema.

                Talvez o sono seja o aspecto mais fundamental na saúde de um indivíduo, ultrapassando até mesmo a dieta alimentar.  Uma pessoa pode tranquilamente fazer jejum de uma semana sem qualquer conseqüência adversa ao corpo, pelo contrário jejuns um pouco mais prolongados podem ser uma forma eficaz de regularização, ou ao menos melhoria, da função metabólica. Para se ter ideia 88% dos americanos são metabolicamente doentes, e os brasileiros não devem ficar muito atrás (1). Portanto, é quase certo que boa parte dos leitores desse texto esteja metabolicamente doente, e jejum pode ajudar bastante. Até mesmo jejum de várias semanas pode ser feito sem qualquer efeito deletério ao corpo humano (o jejum humano mais longo analisado num estudo foi de 382 dias ) (2) .

                Se um ser humano pode ficar semanas, e a depender dos estoques de gordura, por meses sem comer, quanto tempo o nosso corpo aguenta sem dormir? O maior tempo registrado de uma pessoa sem dormir foi de aproximadamente 11 dias (3).  Ao contrário do jejum, efeitos de privação de sono começam a ficar agudos depois de apenas 3 ou 4 dias acordados. A coisa começa a ser tão severa que alucinações começam a acontecer, e a pessoa entra num estado de psicose (4).  O fato é tão severo que hoje em dia não se considera ético fazer estudos de privação de sono que ultrapassem 48 horas, sendo que o estudo citado em “4” tem na sua conclusão o seguinte:

Psychotic symptoms develop with increasing time awake, from simple visual/somatosensory misperceptions to hallucinations and delusions, ending in a condition resembling acute psychosis (Sintomas psicóticos desenvolvem com aumento do tempo acordado, de simples visual/sensorial má percepções para alucinações, terminando numa condição semelhante a psicose aguda).

                Uau. Se ficar 3-4 dias sem comer pode até mesmo ter um efeito terapêutico no corpo, ficar 3-4 dias sem dormir pode ocasionar psicose.  Isso me fez refletir, principalmente depois de ler o livro e ouvir umas 10 horas de entrevistas com o Dr. Matthew Walker, que o sono possui uma centralidade em nosso bem-estar. Na bem da verdade, apenas uma noite de sono mal-dormida (algo como cinco horas) pode ocasionar aumento de resistência insulínica (talvez o principal problema de saúde e quase nunca discutido em nenhuma visita a um médico tradicional), perda da capacidade de aprendizado, queda no sistema imune, entre outros malefícios. Sim, com apenas uma noite de sono ruim.

                Dá para imaginar os efeitos em nosso organismo de cronicamente dormir abaixo do número de horas necessário, ou ter as fases de sono desreguladas. O sono é dividido em ondas, ou ciclos, de períodos onde estamos numa fase chamada REM (Rapid Eye Movement – movimento rápido dos olhos) e NREM (NO REM) (5). Tanto o sono REM, como o NREM possuem funções vitais em todo o nosso organismo que vão desde a incorporação de memórias de longo prazo, combate via sistema imunológico de células pré-cancerígenas, “limpeza” de nosso cérebro de metabólitos que são associados com doenças neurodegenerativas e uma pletora de outros mecanismos importantes.  Mesmo que uma pessoa esteja dormindo de 7 a 9 horas, ela pode estar tendo uma péssima qualidade de um sono profundo (NREM fases 3 e 4), por exemplo.

                Logo, dormir por um tempo adequado, e ter um sono reparador é essencial para uma boa saúde física e mental. Há maneiras de medir se o nosso está sendo de qualidade ou não, mas eu ainda não me aprofundei nesse tópico (inclusive há dispositivos portáteis que ajudam nessa medição, não necessitando dormir num laboratório, por exemplo). Um simples indicativo se a pessoa está dormindo uma quantidade adequada de tempo e tendo um sono reparador nas duas fases (REM e NREM) é simplesmente observar se ao acordar, a pessoa se sente renovada ou não. Basta “ouvir” o que o seu corpo está sentindo.

                Algumas dicas simples para a melhora da sua qualidade de sono:
A – Não use aparelhos eletrônicos de 1 hora e meia a 2 horas antes de dormir. Eu ainda tenho o péssimo hábito de ler artigos no laptop antes de dormir, estou tentando evitar ao máximo nas últimas semanas. Aparelhos eletrônicos são pródigos em luz azul, e luz azul inibe a produção de melatonina.

A.1 – A melatonina é um hormônio que ajuda o nosso corpo a regular o seu ritmo de acordo com o ritmo circadiano. Pensem num homem na savana africana há 100 mil anos. O seu padrão acordado e dormindo seguia a luz solar, já que não havia forma artificial de iluminação (a não ser uma eventual fogueira). Sendo assim, nosso organismo evoluiu, nosso ritmo circadiano, para que o nosso corpo seguisse o nascer e o pôr-do-sol. A melatonina é um hormônio que vai avisar o nosso corpo que é hora de “se preparar para dormir”.  Tendo isso em mente é fácil entender esse gráfico:



A produção de melatonina começa a aumentar drasticamente quando a luz solar não mais existe, chegando num pico no meio da madrugada e despencando quando a luz solar volta a existir, avisando o organismo que é hora de acordar.

A.2 - Eu nunca estudei a sério dosagens de melatonina, e pelo que eu ouvi de entrevistas, não há necessidade de uso de melatonina, a não ser em situações especiais como mudança de fuso horário. Muitas pessoas ficam refém do uso de melatonina, e eu tenho reservas ao uso de hormônios de forma exógena, pois o nosso corpo é tão complexo que não se pode saber ao certo se a melatonina exógena pode causar problemas em outros hormônios ou em outros funções do nosso metabolismo. Remédios para dormir então nem pensar, são drogas que causam dependência e pioram a qualidade do sono. É como ingerir álcool, a pessoa pode pensar que está dormindo com mais facilidade, mas na verdade ela está apenas ficando inconsciente. Essas drogas para dormir e álcool causam uma deterioração da qualidade do sono profundo (NREM fases 3 e 4).

B – Se quiser usar aparelhos eletrônicos, o que não recomendo, ou ver televisão (o impacto não é tão forte como um celular na melatonina), talvez faça sentido comprar óculos que bloqueiam a luz azul (eu ainda não comprei, mas estou pensando). É possível também fazer o uso de luz vermelha. Eu uso luz vermelha em meu quarto para ler antes de dormir, e a luz vermelha não tem impacto, ou se tem é muito menor, na produção de melatonina, a luz vermelha é a luz ideal para ambientes noturnos.

C – Tente ter um padrão alimentar mais compatível com a nossa evolução, ou seja, que a janta (se a pessoa tem o costume de jantar) seja logo antes ou logo após o anoitecer. Eu  tenho jantado às 17:30 e tenho gostado bastante da experiência. Até porque se eu como às 17:30 ou às 20:00, isso não faz nenhuma diferença no fato de as 09:00 no outro dia eu estar com uma leve fome, o que é algo interessante, já que a minha fome é a mesma estando 12 ou 15 horas sem comer. Tem a ver com o hormônio grelina, e posso abordar esse aspecto em outro texto.

D – Exercite-se, principalmente levantando pesos ou fazendo treinamento de alta intensidade intervalado.

E – Eu, às vezes, antes de dormir faço exercícios de respiração. Meditação por mais de cinco minutos ainda não é confortável para mim, mas um simples exercício de prestar atenção na respiração por 3-4 minutos pode ter um bom efeito para acalmar a mente e ter uma melhor noite de sono.

F – Banhos frios. O nosso corpo precisa diminuir a sua temperatura para começar a dormir (2 graus Celsius para ser exato) . É por isso que é mais fácil dormir quando se está num ambiente frio, do que quando está quente. Logo, ao contrário da crença popular, faz mais sentido tomar banhos frios do que quentes. Na verdade, banhos frios são excelentes para a saúde, e também posso abordar esse tópico num outro texto.

G - Escuridão total no local onde vai dormir. Se você se levantar para ir ao banheiro não acenda a luz, pois a luz simplesmente vai bloquear a sua produção de melatonina.

                É isso, amigos, falar apenas sobre o sono de uma forma resumida já ficou um texto enorme, falarei dos outros “pilares” em próximos textos.

               Sugiro essa conversa de cinco horas, extremamente completa, do médico   Dr. Matthew Walker com o Peter Attia https://peterattiamd.com/matthewwalker1/ . Ou o seu livro que é bem bom.



                Abraço!



terça-feira, 30 de julho de 2019

UM PSICOPATA NO PODER? REFLEXÕES DESIMPORTANTES SOBRE A ATUALIDADE


    Olá, colegas. Faz tempo que não escrevo neste espaço, e ainda mais tempo que não comento sobre atualidades. Na verdade, é uma perda de tempo. Tenho plena consciência que estou desperdiçando o que tenho de mais precioso em minha vida ao comentar sobre estes temas.  Então, por qual motivo fazê-lo? Bom, na verdade, cansei um pouco por hoje de ouvir podcasts sobre saúde (estou nos últimos dias ouvindo horas e horas entrevistas de médicos dissertando sobre a dieta exclusivamente carnívora), e também quis dar um tempo de passar as músicas para o ensaio de hoje à noite. Resolvi escrever, e como nada me veio a mente, acabei optando por falar da atualidade.

O FRITADOR DE HAMBÚRGUER 

                Eu, sinceramente, não conhecia Bolsonaro há uns dois anos. Quando escrevi esse breve texto Bolsonaro "O Mito" Brasileiro em outubro de 2016, fiz uma rápida pesquisa sobre o mesmo, e de cara dava para ver quão fraudulento o mesmo era. Mas, não deixa de ser incrível, como alguém que colocou toda a família na política pela sua força junto ao nicho militar mais subalterno, e foi político por 30 anos, conseguiu se eleger como presidente de um país de 200 milhões de habitantes com o discurso de representar a nova política. Era risível e patético, mas de alguma forma isso convenceu dezenas de milhões de pessoas.

                Naquele texto, eu já dizia que não havia qualquer semelhança entre Trump e Bolsonaro. Um é articulado e inteligente, e o outro é completamente limitado, mal conseguindo articular as palavras e pensamentos.  Eu imagino um debate de duas horas entre Dilma e Bolsonaro, seria uma experiência “interessante” do ponto de vista da antropologia intelectual.

                O meu receio sempre foi, ao contrário das instituições americanas, que talvez as instituições brasileiras não fossem fortes o suficiente para aguentar um governo como esse. O surrealismo tomou graus dantescos quando o Presidente sinalizou indicar para o cargo (tirante o chanceler) mais importante, e talvez mais difícil de ser bem executado, da diplomacia brasileira o seu filho. Na defesa da indicação, o presidente disse que “ele sabe falar inglês”. Basta ver uma entrevista dele, o filho, em inglês para ver que o nível de fala dele é de “inglês macarrônico”. A Dilma, o Bolsonaro, o Lula, não saberem falar Inglês não nunca foi o ideal, mas eles foram eleitos pelo povo e saber inglês fluente não é um pré-requisito para ser presidente. Agora o embaixador do Brasil nos EUA não ser fluente em inglês é simplesmente inacreditável.

                Adicionando bizarrice a algo já bizarro, o filho então disse que ele estaria apto, pois já tinha feito intercâmbio e fritado hambúrguer no  Estado Americano do Maine. Nem o PT chegou a ir tão longe.

UM PSICOPATA?

                O presidente então na data de ontem (29/07/2019) resolveu então fazer pouco caso sobre o desaparecimento, e provável assassinato, do pai do presidente nacional da OAB.  O presidente além de debochar do provável assassinato de um ser humano, foi além dizendo que ele sabia como se deu o “desaparecimento” e que ele poderia contar ao presidente da OAB como o pai dele “sumiu”. Horas mais tarde, enquanto fazia o cabelo, num tom de banalidade, o Presidente disse que Fernando Santos Cruz teria sido morto por integrantes de grupos revolucionários de esquerda, e não por forças do Estado.

                Aparentemente, essa fala não guarda qualquer ligação com a realidade e já foi desmentida. Normal, nisso Bolsonaro é parecido com Trump, ele mente compulsivamente sobre juízos de fato que são fáceis de ser averiguados. Porém, o ponto não é nem esse. Zombar sobre o desaparecimento do Pai de alguém é simplesmente um ato de maldade. É um ato que releva que o emissor possui pouca ou talvez nenhuma empatia por pessoas que acredita ser adversários políticos.  Não ter qualquer empatia por uma dor tão profunda como essa num outro ser humano comumente é diagnosticado como Psicopatia. É muito provável que o presidente da República Federativa do Brasil possa ser um psicopata, não metaforicamente, mas no termo médico da palavra.

                Uma vez alguns anos um Blogueiro resolveu me insultar. Eu acabei fazendo um texto duro dizendo que ele estava cruzando a linha do que seria juridicamente válido alguém fazer, e que não existe anonimato na internet, nada que uma ordem judicial não ajudaria a desvendar quem ele era. 

      Por mais que meu texto tenha sido incisivo, eu não tinha ou tenho absolutamente nada contra a figura desse blogueiro em especial. Ao contrário, sempre falava que ele podia estar equivocado na forma de se dirigir a mim, ou em eventuais opiniões sobre alguns assuntos, mas ele poderia ser um ótimo pai, um ótimo marido, um bom profissional, uma coisa não excluiria a outra.  Um tempo atrás fiquei sabendo que o pai dele tinha falecido, e fui dar minhas condolências sinceras, e ele foi educado e disse que estava surpreendido pela minha mensagem.

                A empatia pela perda de um familiar de outra pessoa, o elo que nos conecta aos outros humanos independe de nossas visões políticas e ideológicas de mundo, isso se chama decência.  Assistir a um Presidente agir como um verdadeiro psicopata, sem decência humana, é assustador. Também é assustador ver uma minoria aplaudir um ato desses, o que talvez mostre o grau doentio que as relações mais básicas humanas no Brasil se encontram, ou uma parcela significativa achar que é apenas uma fala, não é importante.

                Collor, FHC, Lula, Itamar, Dilma, Temer, os presidentes pós-regime militar podem ter sido ruins ou bons, cometidos atos de corrupção ou não, mas é difícil puxar pela memória que eles tenham tido qualquer ato tão ignóbil como esse.

IMPARCIALIDADE DE UM JUIZ

                Há uns 50 dias, eu estava surfando alegre e feliz num domingo ensolarado, quando um surfista se aproximou de mim remando e me perguntou “você não é o pensamentos financeiros, por acaso?”. Surpreendido com a pergunta, começamos a conversar, e o rapaz, Arthur, contou um pouco sobre a história de vida dele e dos pais.  Extremamente estudioso sobre ciência política, ele tinha (tem) uma leitura muito mais vasta do que eu sobre diversos tópicos relacionados a pensadores políticos.

                Alguns dias depois nos encontramos novamente no Mar, e a “Vaza Jato” estava começando, e ele me perguntou o que eu achava, se para combater criminosos tão poderosos não seria natural que alguns “limites” fossem rompidos.  É provável que haja opiniões bem embasadas em outra direção, porém, eu respondi, “não sei tanto quanto você sobre ciência política, mas se tem algo fundamental num Estado de Direito moderno é a imparcialidade do juízo”.

                Todos os conflitos humanos podem ser decididos por um juiz. Não é apenas na esfera penal. Eu mesmo tenho diversos processos na Justiça por causa dos leilões de imóveis. Eu sei que posso perder alguns, mas o mínimo que espero é que o julgador seja imparcial e equidistante da outra parte. Isso é o básico. Sem isso, desmorona o Estado de Direito. Sem Estado de Direito não tem capitalismo, não tem fundos imobiliários, não tem nada. Minto, sim é possível ter tudo isso sem um Estado de Direito, mas garanto que ninguém quer um lugar como esse ao estilo da Arábia Saudita. Um dia desses brinquei com um amigo monarquista e que argumenta que imposto é roubo: “Ué vai para Arábia Saudita, lá tem uma família monarquia forte e nenhum imposto de renda te esperando”.

                Se as mensagens reveladas até agora forem verdadeiras, e tudo aponta para essa direção, é evidente que o Juiz Sergio Moro se comportou de maneira parcial, e em muitos casos aparentando ser o chefe da operação Lava-Jato (Não, não, a força tarefa da Lava-Jato não envolvia o Judiciário, ao menos não poderia envolver).  Admitir a parcialidade do juízo pelo suposto combate à corrupção em nada difere de argumentar que em nome do combate à desigualdades sociais se pode cometer atos de corrupção. É exatamente a mesma lógica, e invariavelmente leva a resultados desastrosos.

                Não se engane. Se você se divorciar de forma não consensual, se um locatário não pagar os aluguéis para você, se a Receita Federal acusar a sua empresa de alguma irregularidade fiscal, é um juiz que terá que decidir todas essas questões. A garantia de um juízo imparcial vai muito além da esfera penal, apesar de ser imprescindível no juízo criminal já que se trata da liberdade das pessoas. Se você não se importa num futuro em ser julgado de forma parcial, nada a se preocupar. Se, por outro lado, você tem algum juízo na cabeça, saber que pessoas poderosas  (imagine você e eu então meros mortais comuns) foram talvez julgadas por um juízo parcial, deveria acender um alerta amarelo de que podemos estar rumando para uma ordem de coisas extremamente perigosa.

NÃO TEM NADA DE BOM?

                Claro que tem. Bolsonaro foi inteligente ao dizer que tinha sido convertido ao liberalismo econômico. A Medida Provisória de Liberdade Econômica, que confesso que não li na íntegra, parece ser um passo no caminho certo no longo caminho que o Brasil precisa percorrer para modernizar muitas estruturas arcaicas.

                Cartórios e os seus emolumentos caríssimos, licenças das mais variadas, trâmite demorado, tudo isso vem sendo atacado há alguns anos, e a equipe econômica do governo, mérito para o Bolsonaro ter escolhido e mantido alguns integrantes da equipe anterior, tem planos interessantes em melhorar o ambiente econômico.

                Outro fato positivo é que o Presidente atual é tão inapto e despreparado para o cargo, que o Congresso Nacional está sendo empurrado a assumir um protagonismo maior.  Talvez isso venha a ser positivo para o país, pois o Congresso Nacional a toda evidência é muito mais representativo da população brasileira como um todo do que o Executivo Federal.

                É isso, colegas. Foi só esse texto, não pretendo tão cedo voltar a falar sobre esses temas. Um abraço!


segunda-feira, 27 de maio de 2019

DINHEIRO (INDEPENDÊNCIA FINANCEIRA) E O SENTIDO DA VIDA


Olá, colegas. Independência Financeira e sentido da vida. Os leitores desse espaço, até pelos temas que tratei nos primeiros anos de blog, em sua predominância possuem interesse no que se convencionou chamar de independência financeira.  Já sentido para a vida é algo que diz respeito a todos os seres humanos, por mais que uma parcela da população esteja inconsciente desse fato.

                Confesso que não li o livro, mas há uma obra que é muita citada por muitas pessoas interessantes e influentes que se chama “Man´s searching for meaning”. É um livro escrito por um judeu chamado Viktor Frankl sobrevivente de um campo de concentração nazista. A busca de um homem por sentido, mesmo dentro de um campo de concentração onde o próprio sentido das coisas parece ser o absurdo, é algo essencial na vida. Parece ser essa a mensagem principal do livro escrito por aquele que viria a ser o criador da logoterapia.



                Eu sei que as pessoas preferem textos mais pessoais, pois isso é uma característica humana: histórias fazem sentido para o nosso cérebro, nos ajudam a elaborar e a criar conceitos. Se eu mostrar a foto de uma menina síria de três anos desnutrida num campo de refugiados e contar a história de vida dela, é muito provável que essa seja uma estratégia mais eficiente para arrecadar fundos para os refugiados do que dizer que há centenas de milhares de crianças sírias na mesma situação do que a nossa adorável garotinha. De um ponto de vista estritamente racional, não faz sentido ficar mais tocado com a história de sofrimento individual quando comparado com o sofrimento coletivo de dezenas de milhares de pessoas, mas é exatamente assim que nosso cérebro funciona e se conecta com as pessoas e situações.  Durante muitos anos eu apenas apontava isso como uma “falha” de raciocínio.

                Entretanto, talvez pelo acúmulo de leituras e de experiências de vida, hoje apenas aceito esse fato como algo inerente do ser humano, já que nós evoluímos por dezenas de milhares de anos para ser assim. Nós gostamos de histórias, e a pessoalidade delas é o que atrai nossa atenção.  Portanto, talvez hoje adicione um toque mais pessoal ao texto.

                O sentido é aquilo que nos traz o maior bem-estar. Isso é uma lição que sempre esteve presente comigo e ela apenas foi se solidificando mais e mais.  Quanto eu tinha 18/19 anos, recém entrado numa das melhores faculdades de direito do país, me perguntaram o que eu queria ser da vida.  Sinceramente, não sei se alguém perguntou, ou se foi uma auto-reflexão minha mesmo. Porém, eu me lembro da resposta: tornar-me um ser humano melhor.

                Não, eu não sou Buda e nem uma espécie de santo. Pelo contrário, sou uma pessoa absolutamente normal. Não, nem sangue eu ainda doei, e se comparado com muitas pessoas é bem provável que o que eu faço pelos outros ou pelo universo seja algo absolutamente diminuto. Mas, mesmo jovem e entrando numa faculdade de ponta, eu não via sentido como objetivo de vida ter muito dinheiro dinheiro, cargos importante,  exercer poder, etc.

                Quando me tornei Procurador Federal isso mudou um pouco. Pessoas te chamam de Dr., você ganha uma identificação pessoal personalizada, as pessoas o respeitam mais por você ter esse cargo. Assim, dos 24 aos 26 anos eu me seduzi um pouco com essa perspectiva que sempre foi estranha a mim. E o que é mais patético é que um cargo de Procurador Federal não quer dizer absolutamente nada, não é nem mesmo algo com prestígio e poder como um Senador ou um Cantor de Rock de uma banda super famosa.

                Por experiências próprias, ainda bem, eu acordei desse torpor muito cedo, mas cai em outro que foi o da acomodação. Jovem, salário extremamente alto, imóvel bom próprio quitado, horário livre, isso tudo me fez acomodar, no que muitos chamam “algemas de ouro”. O trabalho, além de me agregar pouco além do dinheiro, não me trazia qualquer sentido. Sim, a crise de sentido estava latente, eu de certa maneira sabia disso, mas procurava afastar essa ferida clara com racionalizações sobre o bem-estar financeiro e a sorte de ter um determinado cargo. Apesar de sempre raciocinar algo como, “eu trocaria esse cargo por um trabalho que pagasse apenas minhas despesas se eu fosse feliz nessa nova empreitada”, o fato era que a paralisia tomava conta.

                Algumas questões ruins no trabalho ficaram piores, o que me levou a procurar o tema “viver de renda”, o que me levou a um blog chamado “viver de renda”, e a partir daí eu comecei a devorar material sobre finanças. Chegou uma época que metade de uma mala que eu trouxe dos EUA, quando morei na Califórnia por alguns meses, foi de livros sobre finanças em Inglês (devem ter sido uns 20-25 livros).  Era isso, precisava viver de renda, não trabalhar, ser independente financeiramente, e se para isso eu precisasse ler um calhamaço (e na época ler em inglês assuntos técnicos não era tão fácil para mim como hoje) de 700 páginas com letras pequenas, eu o faria.

                Acumulei patrimônio, ganhei uma quantidade razoável de dinheiro comprando e vendendo imóveis em leilão, tive a sorte de estar numa família estruturada, e quando me dei conta o meu patrimônio acumulado era mais do que suficiente para viver bem. Aliás, era muito maior. Então daí, por ser conservador em relação a finanças (na verdade por ser medroso mesmo, quantas vezes eu não calculei e recalculei a probabilidade de não ter dinheiro nem para  as necessidades básicas, o que, tirando uma guerra civil é uma possibilidade remotíssima) , eu tirei da cartola a ideia de ter duas independências financeiras: uma em ativos no Brasil e outra em ativos no exterior, como se fossem dois patrimônios separados. Precisava ter feito isso? Definitivamente, não. Porém, foi a forma de me "convencer" de que eu estaria completamente seguro financeiramente.

                Larguei o cargo de Procurador Federal, continuei comprando e vendendo imóveis, e hoje em dia posso dizer que tenho essas duas IF(s), apesar de para concretizá-la eu ter que vender muitos imóveis que estão no meu Patrimônio Líquido, já que decidi não comprar mais imóveis e há seis meses não olho mais “oportunidades” em leilão. Sim, eu descobri que estava "viciado" em procurar oportunidades de comprar por algo por 0,5 e vender por 1. Sim, quem não quer ganhar retornos altos, mas eu percebi que por mais que não fosse um trabalho enorme, e não o é principalmente em alguns casos que se resolvem rápido, isso estava e ainda está drenando um pouco da minha energia vital. E os 40 anos chegando daqui um ano e pouco, eu preciso fazer escolhas mais inteligentes sobre como alocar o meu tempo e minha energia finita.

                Portanto, hoje sou independente financeiramente duas vezes. E isso me trouxe satisfação? Sim, trouxe, no sentido de ter largado um trabalho que não gostava. Porém, para ter largado esse trabalho, e para ter a vida que gosto de ter, eu precisava de muito, mais muito menos, e isso resultou em anos a mais travalhando em algo que não me trazia sentido. São anos que não voltam. São anos como jovem com disposição que se foram. Não me entendam mal, eu vivi bem esses anos. Diverti-me, viajei pelo mundo nas minhas férias, amadureci, mas o fato é que uma parcela importante da minha vida devotei a algo que não me trouxe muito sentido, apesar de ser grato por ter aprendido muitas coisas sobre mim mesmo, as pessoas e a vida no cargo de Procurador.

                O que eu faço atualmente? Eu sou pai. Eu me exercito. Eu leio muito. Nas últimas semanas, por exemplo, venho vendo vídeos e mais vídeos sobre bioquímica, e tenho me apaixonado pela matéria. Saber como o nosso corpo produz energia por meio da Cadeia de Transporte de Elétrons, por exemplo, e ver isso em detalhes, ver que é um processo que envolve dezenas de enzimas, reações, etc, é muito interessante.

                Eu gosto de aprender sobre as coisas.  Isso preenche minha vida de sentido? Não. Melhor dizendo, sim isso dá sentido a minha vida, mas apenas isso não é suficiente. Essa é uma das constantes batalhas mentais travadas no interior do meu cérebro, o sentido da vida, o sentido da minha existência, e sim eu sempre penso que devo achar algo para que eu possa de alguma maneira impactar o mundo de forma positiva.

                Porém, mesmo sem estar realizando uma atividade que esteja “impactando o mundo de forma positiva”, consigo observar claramente aspectos da existência que tornam nossas vidas mais felizes, mais significativas e mais coloridas. Interação humana é um desses aspectos.

                Seja com vizinhos, com colegas de trabalho, com membros familiares, com desconhecidos de uma comunidade, a interação que você tem com todas essas pessoas, especialmente a qualidade da mesma, impacta necessariamente a sua qualidade de vida para melhor ou pior, e ouso dizer por via de conseqüência o próprio sentido que atribuímos à vida.

                Esse é um dos grandes motivos de eu ter reflexões às vezes políticas ou ideológicas sobre alguns temas tendo como pano de fundo esse aspecto primordial: a interação humana. Lembro-me de um texto escrito por um blogueiro bem divertido e com textos inteligentes chamado “Sr. Madruga”, onde ele contava o episódio de uma mulher, muito provavelmente viciada em alguma droga pesada como crack, revirando o lixo e sendo agredida verbal e fisicamente por um policial, sob o riso de algumas pessoas do condomínio do Sr. Madruga (se não me engano eram lixeiras do prédio onde ele morava).            

                Não, é evidente que eu não gostaria de uma viciada revirando os lixos do meu condomínio, mas quão doente não está uma sociedade quando interações entre seres humanos acontecem da forma narrada pelo blogueiro, e quando algumas pessoas acham isso até mesmo engraçado ou divertido. Na minha visão, alguma coisa se rompeu. Porém, além disso, eu acho que até mesmo a busca de um sentido mais profundo e significativo para a vida fica mais difícil quando a qualidade de algumas interações que temos com outros seres humanos se dá nesses termos.

                Não se trata de ser de esquerda ou direta, de policiais, bandidos, assistência social, etc, a meu ver ao menos, mas de algo mais profundo: o reconhecimento de que as nossas próprias vidas são impactadas positiva ou negativamente a depender de como uma gama de relações nossas se desenrolam.

                Portanto, parece-me evidente que a esmagadora dos seres humanos achará mais bem-estar em ter relações humanas fortalecidas, do que possuir um automóvel mais potente ou uma casa de luxo num condomínio. Boa parte das pessoas, estimuladas por um sistema produtivo e de marketing, às vezes é cega a essa realidade óbvia. Muitas vezes é preciso uma doença, um trauma, o passar dos anos, a saída de casa dos filhos, para que o vazio se materialize quando percebemos que o que traz bem-estar não necessariamente necessita de uma soma grande de dinheiro.

                Eu sinto-me satisfeito com a vida. Eu sou bem resolvido comigo mesmo. Ter dinheiro o suficiente para não me preocupar com horários, trabalhos que não gosto, e poder ler, surfar, treinar crossfit, e principalmente ser um pai presente, é algo muito positivo que advém do que se pode chamar independência financeira. Negar isso seria tolice, sou muito agradecido por ter a oportunidade de ter a vida que levo. Porém, a independência financeira por si só não vai fazer com que sua vida ganhe mais sentido, ou suas relações humanas melhorem, talvez a independência financeira seja um facilitador para pessoas medrosas como eu. 

     Tenho absoluta certeza, eu já encontrei diversas pessoas assim no Brasil e pelo mundo, que o sentido da vida era algo tão claro e cristalino para elas, que independente da quantia de patrimônio acumulado que elas possuíam, o caminho delas pela vida era pautado pelo sentido e satisfação pessoal, sem a necessidade  de grandes cálculos para saber se um patrimônio aguenta retiradas até os 95 anos, por exemplo. Talvez, apenas talvez , mais dinheiro torne as pessoas cada vez mais cautelosas e receosas de ir atrás de destinos mais luminosos para a sua existência. Não caia nessa armadilha, dê ao dinheiro o devido valor que ele tem, mas não mais do que isso.


                É isso, colegas, tentei fazer um texto mais “pessoalizado”, mas creio que falhei no intento. Porém, mesmo assim, espero que algumas pessoas tenham proveito da leitura.
               
Um abraço!

quinta-feira, 23 de maio de 2019

O BEBÊ QUE TODOS NÓS JÁ FOMOS UM DIA


                Você consegue se imaginar como um bebê, prezado leitor? Melhor ainda, será que você acha possível imaginar aquela pessoa mal-humorada numa fila de supermercado como um bebezinho de quatro meses descobrindo que é possível fazer sons com a boca? Não consegue pensar? Consegue? Nunca pensou nisso? Essa reflexão é uma perda de tempo?

                Quem se torna Pai, ou Mãe, e tem a possibilidade de passar bastante tempo com o bebê é transportado para “outra realidade” de vida.  Há uma expressão em língua inglesa que se chama “take for granted”. A tradução é alguma coisa como achar que  algo existe ou deve existir sem se refletir que esse algo poderia não existir.  Eletricidade, por exemplo. Qual leitor do meu blog não acredita que Eletricidade é algo que existe, algo que deve existir, e a própria inexistência de eletricidade é um cenário inimaginável?  Porém, para cerca de um bilhão (com B de bola) de seres humanos como eu, ou você prezado leitor, o acesso à eletricidade é algo inexistente ou escasso.  Logo, a eletricidade que nós “take for granted” é algo que inexiste na vida de uma infinidade de pessoas.

                A lista é grande de coisas que não percebemos quão valiosas são por acreditarmos que elas existem como o ar: saúde, relações familiares saudáveis, relações comunitárias coesas, ar limpo, ausência de guerra e destruição do tecido social, fome, etc, etc. Quanto mais evoluímos na satisfação de necessidades básicas materiais, e quanto mais deixamos os piores aspectos da natureza humana controlados em sociedades com marcos institucionais mais estáveis, temos a tendência de esquecer a beleza de certos fatos e a fragilidade de certos arranjos e estados de coisas.

                Em minha experiência pessoal, e na minha jornada nesse planeta, eu cada vez  mais percebo que um dos caminhos para um maior bem-estar, e por via de conseqüência uma maior empatia para com outros seres humanos e até outros seres vivos, é a reflexão , e a gratidão que advém desse ato, de ser feliz e agradecido simplesmente por ter saúde, não viver num campo de refugiados, ter tido uma infância feliz, possuir alguns bons amigos, morar num bairro onde as pessoas se cumprimentam na rua, etc, etc. Ou seja, é ser conscientemente agradecido por uma série de coisas que no dia a dia nós "take for granted".

                Essa reflexão, com o nascimento da minha filha, foi levada a um passo ainda maior. Um bebê de seis meses, a idade da minha filha, mal consegue ficar sentado, não engatinha, tem como única forma de comunicação choro e alguns gritos e precisa de vigilância quase que 24 horas por dia.  Talvez não seja estranho para outros pais de recém-nascidos, mas quando eu toco no corpo da minha companheira me vem uma sensação de “nossa, como o seu corpo e rosto são enormes”.  Eu muitas vezes me pego olhando para pessoas na rua andando, falando, olhando um celular, discutindo, trabalhando e penso que todos esses seres humanos já foram obrigatoriamente bebezinhos como a minha filha que não eram capaz de realizar nenhum dos atos que consideramos triviais como andar e falar.

                Todos, sem exceção. O Bolsonaro já foi um dia um bebê. Lula também por mais difícil que se possa imaginá-lo como um bebê. Um estuprador também um dia já foi uma criança, assim como o Bill Gates ou o Warren Buffett. Todos já foram um bebê indefeso e completamente dependente de um adulto. Todos tiveram que aprender a comer uma fruta, a andar, a se comunicar com outra pessoa, a amar, a detestar, ou seja, a se tornar um ser humano funcional.

                Esse tipo de pensamento me torna uma pessoa ainda mais tolerante. Quando alguma situação me estressa, agora me pego pensando que aquela pessoa que na minha visão está interferindo negativamente na minha experiência presente já foi um adorável bebê. É impressionante. Quando isso ocorre, qualquer sensação de raiva ou ira se esvai quase que instantaneamente.  Às vezes o efeito é tão forte que eu até me solidarizo com a pessoa, e tento, nem que de uma maneira interna, me conectar de forma empática.  Afinal, o que será que aquela criança não passou? Será que ela teve a oportunidade de ser amada com tanta intensidade como a minha filha o é? Quantas sombras será que não foram criadas nesse agora adulto por causa de hábitos ou atos de seus cuidadores?

                Eu não tenho a menor dúvida (aliás, dúvidas sempre devemos ter, melhor dizendo acredito ser uma boa explicação) de que as frustrações, ansiedades, neuroses, animosidades, que vemos no nosso dia a dia e em nós mesmos nada mais são do que sombras gestadas em nossos primeiros anos de vida.  Há uma autora que se especializou apenas nesse tema e chama-se Laura Gutman. Qualquer mulher grávida (e alguns pais, mas poucos) mais atenta e curiosa já ouviu falar do livro “A Maternidade e o encontro com a Própria Sombra”.


                Qual não foi a minha surpresa ao escutar um dos últimos podcasts do Joe Rogan ao ouvir dele que a sua maturidade e transformação num ser humano mais tolerante com os outros, ao menos uma parte significativa dela, veio de fazer o exercício de imaginar as pessoas como crianças pequenas (algo que ele começou a fazer depois de ser Pai). Talvez poucos conheçam o Joe Rogan aqui no Brasil, mas o podcast dele talvez seja o maior do mundo. A audiência dele muitas vezes equivale a programas de televisão das maiores emissoras americanas.

                Joe Rogan é um comediante e comentador de lutas marciais que iniciou um podcast há alguns anos. Hoje em dia, ele é uma referência. Suas entrevistas duram algo em torno de 2 a 4 horas. É um cenário simples, uma mesa e ele fazendo perguntas. É um bate papo. Você não leu errado, muitos podcasts tem três horas e meia até quatro horas de duração. Ele entrevista todos os tipos de pessoas, de todos os vieses políticos e ideológicos, neurocientistas, filósofos, etc. O que tem de fantástico nesse formato é que ele realmente é curioso em saber o que a pessoa pensa independente do seu próprio posicionamento sobre um determinado assunto. Ele gosta de caçar, por exemplo, mas se ele entrevistar alguém que abomina a caça de animais ele com certeza tentará da melhor maneira possível representar com fidelidade o pensamento do entrevistado. E isso é uma maravilha. 

                No Podcast número 1295 ele entrevistou a candidata à indicação democrata para a Presidência dos EUA Tulsi Gabbard. A entrevista foi ótima, e a candidata ,que eu não conhecia, foi uma grata surpresa positiva.  Mais ou menos com uma hora e dez minutos de entrevista, o Joe Rogan fala sobre essa questão de imaginar as pessoas como bebês ao contar o que ele sentiu ao observar uma senhora absorta nessas máquinas de roleta num cassino nos EUA. Eu já vi essa cena algumas vezes quando estive em cassinos, e ela realmente é deprimente.  Porém, ao reformular a imagem, e imaginar aquela senhora como um bebê, o pensamento que veio a cabeça dele foi algo como “o que será que aconteceu na vida dela para ir de um bebê cheio de potencialidades para uma senhora solitária jogando um jogo sem sentido de maneira irrefletida?”.

                Isso não é pouca coisa, isso é muita coisa.  Os pais possuem uma responsabilidade enorme, não em fazer com que os seus filhos consigam estudar em faculdades de prestígio ou estejam preparados para ganhar dinheiro, mas em proporcioná-los uma primeira infância repleta de amor, carinho e empatia, para que possam se transformar em adultos sem sombras tão profundas.  A nós adultos machucados em maior ou menor grau talvez caiba olharmos uns aos outros com mais empatia, reconhecendo a criança inocente e curiosa que algum dia habitou o corpo agora adulto.

                Isso quer dizer que estupradores não devem ser punidos ou ter os seus atos reprovados? Não, evidentemente que não. Isso significa que não podemos ficar genuinamente insatisfeitos com o comportamento agressivo ou inconveniente de outros seres humanos? Não, evidentemente que não. Apenas significa que cada um de nós pode, e o mais importante tem a possibilidade de controle, olhar para as imperfeições alheias de forma muito mais suave e empática, e isso, prezados leitores, é um alívio tremendo em nossas vidas.

Quem tiver interesse e compreende razoavelmente bem o inglês falado esse é o pedcast mencionado.

                Um grande abraço a todos!

sexta-feira, 10 de maio de 2019

A DEPUTADA TABATA AMARAL E O HOTEL DE UM MILHÃO DE DÓLARES


-“Where are you goin?”
-“Hotel xxxxxx“
-“Conheço um bom hotel, quanto você quer pagar pelo hotel?”
-“Queremos pagar U$ 1 milhão”.
-“Como?”
- “Sim, queremos pagar U$ 1 milhão”
Silêncio

                Isso aconteceu em Delhi quando eu e minha companheira pela enésima vez pegávamos um tuk-tuk para ir ao hotel que tínhamos decidido ficar. Poucas pessoas viajam a Índia. Raríssimos brasileiros viajam a Índia. Dos Brasileiros que viajam a este incrível, difícil, complexo e milenar país, quase todos ou vão a trabalho ou vão para alguma viagem temática de meditação, yoga, etc. Fazer “mochilão” pela Índia, ainda mais viajando de trens populares (terceira categoria), se hospedando em lugares simples e indo para diversas cidades, é uma raridade extrema entre brasileiros. Até mesmo estrangeiros. A Índia, ao menos quando fomos em 2010, não é um país turístico, apesar de ser um Universo, assim como a China, em si próprio.

                Não é fácil viajar de mochileiro pela Índia. Viajar como mochileiro junto com a namorada é ainda mais difícil. Nossa, por quantas situações ela passou, e eu tive que começar a pensar mais seriamente sobre as dificuldades que as mulheres passam simplesmente por serem mulheres, dificuldades estas que a maioria dos homens, ao menos brasileiros, podem tranquilamente ignorar pela conveniência dos costumes arraigados.

                Porém, entrar num tuk-tuk e o motorista querer desviar a rota para levar a outra destinação era quase que um ritual. Estávamos acostumados, e isso nos incomodava bastante no começo, até que minha companheira teve a brilhante ideia de inventar respostas absurdas como essa de querer pagar um milhão de dólares por um quarto. Indianos obviamente não estavam acostumados com respostas como essas, e ficavam quase sempre desconcertados, resultando numa resposta efetiva e engraçada.  

        Existiram muitas outras. Uma vez andando na rua pela milésima vez um comerciante perguntou se éramos amigos, namorados ou casados (a esmagadora maioria o fazia por curiosidade e ingenuidade, uma minoria por maldade, neste caso o cara estava de sacanagem), ela se virou e perguntou ao homem se ele era casado ou não, ele respondeu que sim e perguntou por qual motivo ela queria saber, e ela respondeu que eu estaria procurando uma segunda esposa, auch, o cara ficou incrédulo, sem palavras e nervoso ao mesmo tempo. E essa era a nossa primeira viagem depois de apenas um ano de namoro.

                Eu lembrei da história do Tuk-Tuk e do um milhão, ao ver mais uma entrevista da jovem e cativante Tabata Amaral.  Ao ser perguntada sobre o ambiente no Congresso Nacional, se seria fácil para uma mulher jovem como ela, a mesma disse que era um dos ambientes mais tóxicos e difíceis que ela já tinha enfrentado (e olha que ela deve ter enfrentado muita coisa para chegar onde está). 

      Ela então contou que tinha sido barrada diversas vezes, inclusive recentemente, na Câmara Federal onde é deputada. Quem conhece Brasília sabe que lá é a cidade dos broches. Se a pessoa não conhece Brasília, e o serviço público, talvez não faça a mínima ideia do que se está falando. É comum as pessoas usarem broches identificando o cargo que ocupam (procuradores, juízes, deputados, ministros, etc). Em minha opinião, a maioria o faz para impressionar, mas o broche também serve para evitar burocracias de entrar em prédios públicos. Um dos seguranças da Câmara perguntou a Tabata onde ela havia achado o broche, e ela respondeu “no chão”.  Ai ai, que resposta brilhante, assim como a resposta de um milhão de dólares. O que a pergunta do segurança não diz sobre nossa política, nossa sociedade, nossos padrões de costumes, e ao invés de ódio, rancor, gerou apenas uma forma inteligente, lúdica e divertida de resposta da deputada. Essas mulheres e suas respostas maravilhosas.

                Já vi algumas entrevistas da Tabata, ao todo devo ter escutado umas quatro horas. Que jovem impressionante. Dá orgulho de ter mulheres jovens assim assumindo cargos importantes. Eu, papai de uma menina incrível de quase seis meses, só posso ficar feliz com isso, e torcer para que mais “Tabatas” surjam nesse país, que ela seja o farol para muitas crianças, jovens, e por que não mulheres mais maduras? Com certeza, se isso acontecer, ela, minha doce filha, talvez possa crescer num país muito mais cordial e equilibrado em relação às mulheres, e isso é algo que desejo muito para ela.

                Na supracitada entrevista, a deputada fala sobre como as pessoas não suportam e ficam extremamente incomodadas com aquilo que não é facilmente “rotulável” ou que é incognoscível.  Ela foi ao ponto. Nesse blog em alguns artigos já tratei de vieses cognitivos. Tudo o que nosso cérebro deseja, ainda mais se não treinado a reconhecer vieses, é usar o sistema 1, o modo automático de reflexão. Nesse sentido, para um auto-declarado direitista é muito mais cômodo ler um texto de um esquerdista, e vice-versa, as reações de repulsa serão automáticas, do que ler um texto que provoque reflexão. O difícil é quando algo diferente surge, pois aí é necessário recrutar o sistema 2, o sistema ligado a reflexão que demanda energia cerebral. Assim como a tendência é o sedentarismo físico, a tendência natural, ainda mais se não praticado, é o “sedentarismo de pensamento”. Portanto, indivíduos, textos e ideias que desafiam o sistema 1 costumam ser muito mais “desconfortáveis” às pessoas.

                 Num ambiente mais sério, aberto e inteligente, o desafio às crenças arraigadas no sistema 1 costuma levar ao progresso das próprias idéias, pessoas e agrupamentos sociais, pois recruta o sistema 2 e faz com que os costumes, ideologias, teorias estejam rotineiramente sendo (re)testadas, provadas e, se for o caso, refutadas. Não é à toa que esse é o cerne do pensamento científico moderno.

                Em ambientes mais fechados, menos inteligentes e mais brutalizados, o desafio ao sistema 1 costuma ser acompanhado por um fechamento total do sistema 2 e um enraizamento ainda mais forte das idéias, costumes, valores, pré-concebidos que vem à mente de forma automática. Isso quase sempre se faz tentando rotular, ou encaixar, a ideia aparentemente conflitante em algum sistema prévio de mundo gerado pelo sistema 1, o que geralmente causa monstrengos argumentativos e ideológicos.

                Infelizmente, o Brasil caminha a passos largos para a segunda situação. Estamos adentrando numa era das trevas, onde a idiotia e maluquice se transformaram em atributos venerados, sendo a inteligência e o bom senso zombados. Resta apenas torcer para que essa era desmiolada não dure tanto e os estragos não sejam tão profundos, mas eu tenho sérias dúvidas que essa visão mais otimista seja a mais provável.

                Porém, ao invés de ser um texto lamurioso, deixei apenas um parágrafo (o anterior) seguir essa toada.  Após alguns meses sem escrever, e algumas mensagens perguntando sobre o meu sumiço (o que agradeço de coração), pensei em escrever mais um texto sobre como compreender artigos científicos. Pensei em falar sobre a maluquice que atualmente vivemos, que chegou a níveis que eu imaginei ser impensáveis. Porém, achei melhorar focar em coisas positivas que vem ocorrendo.

                Saída de uma comunidade periférica, prosperando em olimpíadas do conhecimento, conseguindo estudar com bolsa de estudo numa das maiores, senão a maior, universidade do mundo, engajando-se na área mais importante para que nosso país possa ter um futuro melhor, a jovem, a mulher, a deputada, Tabata Amaral é um belíssimo exemplo de um Brasil que pode sim dar certo. Pode dar certo do seu jeito. 

       Imagino que seja difícil mesmo ver uma mulher jovem vindo da periferia, mas com formação em Harvard, que se expressa bem, mas não frequentou escolas caríssimas quando criança, que defende os seus pontos de vistas com firmeza (como deve ser), mas que , ao menos eu nunca vi, não levanta o tom de voz ou é desnecessariamente agressiva, é muito diferente da imagem usual de uma mulher jovem de uma comunidade periférica. Ora, na verdade é uma raridade em tempos de "filosofia por meio de memes".  Deve ser muito difícil para algumas pessoas encaixarem tudo isso no sistema 1, e como o sistema 2 pode estar um pouco enferrujado, a dissonância é grande, assim como a reação emotiva. Porém, em muitos, com certeza a deputada causa uma esperança de que coisas boas podem acontecer nos lugares mais improváveis.

A Deputada Federal Tabata Amaral

                Ao chegar ao fim desse texto, me dei conta que domingo é dia das mães. Desde já fica uma homenagem às mães. Não uma homenagem vazia, mas uma cheia de admiração e respeito. Carregar por nove meses uma criança, amamentar, se preocupar 24 horas com um bebê, e ter um amor incondicional por outro ser humano é algo que eu só posso classificar como sagrado. Não desmerecendo religiões organizadas, mas se quer ver o sagrado acontecendo, talvez não procure numa missa ou num culto, mas olhe uma mãe cuidando do seu filho.  À minha mãe fica a admiração e respeito por ter me criado. À minha companheira, agora mãe, fica a minha admiração e respeito por estar criando minha filha da melhor maneira possível. E à minha filha, bem, fica o meu amor e agradecimento por entrar em minha vida.
               
Ah, quem não sabe ou nunca viu, isso é um Tuk-Tuk

        Um abraço a todos!