segunda-feira, 27 de maio de 2019

DINHEIRO (INDEPENDÊNCIA FINANCEIRA) E O SENTIDO DA VIDA


Olá, colegas. Independência Financeira e sentido da vida. Os leitores desse espaço, até pelos temas que tratei nos primeiros anos de blog, em sua predominância possuem interesse no que se convencionou chamar de independência financeira.  Já sentido para a vida é algo que diz respeito a todos os seres humanos, por mais que uma parcela da população esteja inconsciente desse fato.

                Confesso que não li o livro, mas há uma obra que é muita citada por muitas pessoas interessantes e influentes que se chama “Man´s searching for meaning”. É um livro escrito por um judeu chamado Viktor Frankl sobrevivente de um campo de concentração nazista. A busca de um homem por sentido, mesmo dentro de um campo de concentração onde o próprio sentido das coisas parece ser o absurdo, é algo essencial na vida. Parece ser essa a mensagem principal do livro escrito por aquele que viria a ser o criador da logoterapia.



                Eu sei que as pessoas preferem textos mais pessoais, pois isso é uma característica humana: histórias fazem sentido para o nosso cérebro, nos ajudam a elaborar e a criar conceitos. Se eu mostrar a foto de uma menina síria de três anos desnutrida num campo de refugiados e contar a história de vida dela, é muito provável que essa seja uma estratégia mais eficiente para arrecadar fundos para os refugiados do que dizer que há centenas de milhares de crianças sírias na mesma situação do que a nossa adorável garotinha. De um ponto de vista estritamente racional, não faz sentido ficar mais tocado com a história de sofrimento individual quando comparado com o sofrimento coletivo de dezenas de milhares de pessoas, mas é exatamente assim que nosso cérebro funciona e se conecta com as pessoas e situações.  Durante muitos anos eu apenas apontava isso como uma “falha” de raciocínio.

                Entretanto, talvez pelo acúmulo de leituras e de experiências de vida, hoje apenas aceito esse fato como algo inerente do ser humano, já que nós evoluímos por dezenas de milhares de anos para ser assim. Nós gostamos de histórias, e a pessoalidade delas é o que atrai nossa atenção.  Portanto, talvez hoje adicione um toque mais pessoal ao texto.

                O sentido é aquilo que nos traz o maior bem-estar. Isso é uma lição que sempre esteve presente comigo e ela apenas foi se solidificando mais e mais.  Quanto eu tinha 18/19 anos, recém entrado numa das melhores faculdades de direito do país, me perguntaram o que eu queria ser da vida.  Sinceramente, não sei se alguém perguntou, ou se foi uma auto-reflexão minha mesmo. Porém, eu me lembro da resposta: tornar-me um ser humano melhor.

                Não, eu não sou Buda e nem uma espécie de santo. Pelo contrário, sou uma pessoa absolutamente normal. Não, nem sangue eu ainda doei, e se comparado com muitas pessoas é bem provável que o que eu faço pelos outros ou pelo universo seja algo absolutamente diminuto. Mas, mesmo jovem e entrando numa faculdade de ponta, eu não via sentido como objetivo de vida ter muito dinheiro dinheiro, cargos importante,  exercer poder, etc.

                Quando me tornei Procurador Federal isso mudou um pouco. Pessoas te chamam de Dr., você ganha uma identificação pessoal personalizada, as pessoas o respeitam mais por você ter esse cargo. Assim, dos 24 aos 26 anos eu me seduzi um pouco com essa perspectiva que sempre foi estranha a mim. E o que é mais patético é que um cargo de Procurador Federal não quer dizer absolutamente nada, não é nem mesmo algo com prestígio e poder como um Senador ou um Cantor de Rock de uma banda super famosa.

                Por experiências próprias, ainda bem, eu acordei desse torpor muito cedo, mas cai em outro que foi o da acomodação. Jovem, salário extremamente alto, imóvel bom próprio quitado, horário livre, isso tudo me fez acomodar, no que muitos chamam “algemas de ouro”. O trabalho, além de me agregar pouco além do dinheiro, não me trazia qualquer sentido. Sim, a crise de sentido estava latente, eu de certa maneira sabia disso, mas procurava afastar essa ferida clara com racionalizações sobre o bem-estar financeiro e a sorte de ter um determinado cargo. Apesar de sempre raciocinar algo como, “eu trocaria esse cargo por um trabalho que pagasse apenas minhas despesas se eu fosse feliz nessa nova empreitada”, o fato era que a paralisia tomava conta.

                Algumas questões ruins no trabalho ficaram piores, o que me levou a procurar o tema “viver de renda”, o que me levou a um blog chamado “viver de renda”, e a partir daí eu comecei a devorar material sobre finanças. Chegou uma época que metade de uma mala que eu trouxe dos EUA, quando morei na Califórnia por alguns meses, foi de livros sobre finanças em Inglês (devem ter sido uns 20-25 livros).  Era isso, precisava viver de renda, não trabalhar, ser independente financeiramente, e se para isso eu precisasse ler um calhamaço (e na época ler em inglês assuntos técnicos não era tão fácil para mim como hoje) de 700 páginas com letras pequenas, eu o faria.

                Acumulei patrimônio, ganhei uma quantidade razoável de dinheiro comprando e vendendo imóveis em leilão, tive a sorte de estar numa família estruturada, e quando me dei conta o meu patrimônio acumulado era mais do que suficiente para viver bem. Aliás, era muito maior. Então daí, por ser conservador em relação a finanças (na verdade por ser medroso mesmo, quantas vezes eu não calculei e recalculei a probabilidade de não ter dinheiro nem para  as necessidades básicas, o que, tirando uma guerra civil é uma possibilidade remotíssima) , eu tirei da cartola a ideia de ter duas independências financeiras: uma em ativos no Brasil e outra em ativos no exterior, como se fossem dois patrimônios separados. Precisava ter feito isso? Definitivamente, não. Porém, foi a forma de me "convencer" de que eu estaria completamente seguro financeiramente.

                Larguei o cargo de Procurador Federal, continuei comprando e vendendo imóveis, e hoje em dia posso dizer que tenho essas duas IF(s), apesar de para concretizá-la eu ter que vender muitos imóveis que estão no meu Patrimônio Líquido, já que decidi não comprar mais imóveis e há seis meses não olho mais “oportunidades” em leilão. Sim, eu descobri que estava "viciado" em procurar oportunidades de comprar por algo por 0,5 e vender por 1. Sim, quem não quer ganhar retornos altos, mas eu percebi que por mais que não fosse um trabalho enorme, e não o é principalmente em alguns casos que se resolvem rápido, isso estava e ainda está drenando um pouco da minha energia vital. E os 40 anos chegando daqui um ano e pouco, eu preciso fazer escolhas mais inteligentes sobre como alocar o meu tempo e minha energia finita.

                Portanto, hoje sou independente financeiramente duas vezes. E isso me trouxe satisfação? Sim, trouxe, no sentido de ter largado um trabalho que não gostava. Porém, para ter largado esse trabalho, e para ter a vida que gosto de ter, eu precisava de muito, mais muito menos, e isso resultou em anos a mais travalhando em algo que não me trazia sentido. São anos que não voltam. São anos como jovem com disposição que se foram. Não me entendam mal, eu vivi bem esses anos. Diverti-me, viajei pelo mundo nas minhas férias, amadureci, mas o fato é que uma parcela importante da minha vida devotei a algo que não me trouxe muito sentido, apesar de ser grato por ter aprendido muitas coisas sobre mim mesmo, as pessoas e a vida no cargo de Procurador.

                O que eu faço atualmente? Eu sou pai. Eu me exercito. Eu leio muito. Nas últimas semanas, por exemplo, venho vendo vídeos e mais vídeos sobre bioquímica, e tenho me apaixonado pela matéria. Saber como o nosso corpo produz energia por meio da Cadeia de Transporte de Elétrons, por exemplo, e ver isso em detalhes, ver que é um processo que envolve dezenas de enzimas, reações, etc, é muito interessante.

                Eu gosto de aprender sobre as coisas.  Isso preenche minha vida de sentido? Não. Melhor dizendo, sim isso dá sentido a minha vida, mas apenas isso não é suficiente. Essa é uma das constantes batalhas mentais travadas no interior do meu cérebro, o sentido da vida, o sentido da minha existência, e sim eu sempre penso que devo achar algo para que eu possa de alguma maneira impactar o mundo de forma positiva.

                Porém, mesmo sem estar realizando uma atividade que esteja “impactando o mundo de forma positiva”, consigo observar claramente aspectos da existência que tornam nossas vidas mais felizes, mais significativas e mais coloridas. Interação humana é um desses aspectos.

                Seja com vizinhos, com colegas de trabalho, com membros familiares, com desconhecidos de uma comunidade, a interação que você tem com todas essas pessoas, especialmente a qualidade da mesma, impacta necessariamente a sua qualidade de vida para melhor ou pior, e ouso dizer por via de conseqüência o próprio sentido que atribuímos à vida.

                Esse é um dos grandes motivos de eu ter reflexões às vezes políticas ou ideológicas sobre alguns temas tendo como pano de fundo esse aspecto primordial: a interação humana. Lembro-me de um texto escrito por um blogueiro bem divertido e com textos inteligentes chamado “Sr. Madruga”, onde ele contava o episódio de uma mulher, muito provavelmente viciada em alguma droga pesada como crack, revirando o lixo e sendo agredida verbal e fisicamente por um policial, sob o riso de algumas pessoas do condomínio do Sr. Madruga (se não me engano eram lixeiras do prédio onde ele morava).            

                Não, é evidente que eu não gostaria de uma viciada revirando os lixos do meu condomínio, mas quão doente não está uma sociedade quando interações entre seres humanos acontecem da forma narrada pelo blogueiro, e quando algumas pessoas acham isso até mesmo engraçado ou divertido. Na minha visão, alguma coisa se rompeu. Porém, além disso, eu acho que até mesmo a busca de um sentido mais profundo e significativo para a vida fica mais difícil quando a qualidade de algumas interações que temos com outros seres humanos se dá nesses termos.

                Não se trata de ser de esquerda ou direta, de policiais, bandidos, assistência social, etc, a meu ver ao menos, mas de algo mais profundo: o reconhecimento de que as nossas próprias vidas são impactadas positiva ou negativamente a depender de como uma gama de relações nossas se desenrolam.

                Portanto, parece-me evidente que a esmagadora dos seres humanos achará mais bem-estar em ter relações humanas fortalecidas, do que possuir um automóvel mais potente ou uma casa de luxo num condomínio. Boa parte das pessoas, estimuladas por um sistema produtivo e de marketing, às vezes é cega a essa realidade óbvia. Muitas vezes é preciso uma doença, um trauma, o passar dos anos, a saída de casa dos filhos, para que o vazio se materialize quando percebemos que o que traz bem-estar não necessariamente necessita de uma soma grande de dinheiro.

                Eu sinto-me satisfeito com a vida. Eu sou bem resolvido comigo mesmo. Ter dinheiro o suficiente para não me preocupar com horários, trabalhos que não gosto, e poder ler, surfar, treinar crossfit, e principalmente ser um pai presente, é algo muito positivo que advém do que se pode chamar independência financeira. Negar isso seria tolice, sou muito agradecido por ter a oportunidade de ter a vida que levo. Porém, a independência financeira por si só não vai fazer com que sua vida ganhe mais sentido, ou suas relações humanas melhorem, talvez a independência financeira seja um facilitador para pessoas medrosas como eu. 

     Tenho absoluta certeza, eu já encontrei diversas pessoas assim no Brasil e pelo mundo, que o sentido da vida era algo tão claro e cristalino para elas, que independente da quantia de patrimônio acumulado que elas possuíam, o caminho delas pela vida era pautado pelo sentido e satisfação pessoal, sem a necessidade  de grandes cálculos para saber se um patrimônio aguenta retiradas até os 95 anos, por exemplo. Talvez, apenas talvez , mais dinheiro torne as pessoas cada vez mais cautelosas e receosas de ir atrás de destinos mais luminosos para a sua existência. Não caia nessa armadilha, dê ao dinheiro o devido valor que ele tem, mas não mais do que isso.


                É isso, colegas, tentei fazer um texto mais “pessoalizado”, mas creio que falhei no intento. Porém, mesmo assim, espero que algumas pessoas tenham proveito da leitura.
               
Um abraço!

quinta-feira, 23 de maio de 2019

O BEBÊ QUE TODOS NÓS JÁ FOMOS UM DIA


                Você consegue se imaginar como um bebê, prezado leitor? Melhor ainda, será que você acha possível imaginar aquela pessoa mal-humorada numa fila de supermercado como um bebezinho de quatro meses descobrindo que é possível fazer sons com a boca? Não consegue pensar? Consegue? Nunca pensou nisso? Essa reflexão é uma perda de tempo?

                Quem se torna Pai, ou Mãe, e tem a possibilidade de passar bastante tempo com o bebê é transportado para “outra realidade” de vida.  Há uma expressão em língua inglesa que se chama “take for granted”. A tradução é alguma coisa como achar que  algo existe ou deve existir sem se refletir que esse algo poderia não existir.  Eletricidade, por exemplo. Qual leitor do meu blog não acredita que Eletricidade é algo que existe, algo que deve existir, e a própria inexistência de eletricidade é um cenário inimaginável?  Porém, para cerca de um bilhão (com B de bola) de seres humanos como eu, ou você prezado leitor, o acesso à eletricidade é algo inexistente ou escasso.  Logo, a eletricidade que nós “take for granted” é algo que inexiste na vida de uma infinidade de pessoas.

                A lista é grande de coisas que não percebemos quão valiosas são por acreditarmos que elas existem como o ar: saúde, relações familiares saudáveis, relações comunitárias coesas, ar limpo, ausência de guerra e destruição do tecido social, fome, etc, etc. Quanto mais evoluímos na satisfação de necessidades básicas materiais, e quanto mais deixamos os piores aspectos da natureza humana controlados em sociedades com marcos institucionais mais estáveis, temos a tendência de esquecer a beleza de certos fatos e a fragilidade de certos arranjos e estados de coisas.

                Em minha experiência pessoal, e na minha jornada nesse planeta, eu cada vez  mais percebo que um dos caminhos para um maior bem-estar, e por via de conseqüência uma maior empatia para com outros seres humanos e até outros seres vivos, é a reflexão , e a gratidão que advém desse ato, de ser feliz e agradecido simplesmente por ter saúde, não viver num campo de refugiados, ter tido uma infância feliz, possuir alguns bons amigos, morar num bairro onde as pessoas se cumprimentam na rua, etc, etc. Ou seja, é ser conscientemente agradecido por uma série de coisas que no dia a dia nós "take for granted".

                Essa reflexão, com o nascimento da minha filha, foi levada a um passo ainda maior. Um bebê de seis meses, a idade da minha filha, mal consegue ficar sentado, não engatinha, tem como única forma de comunicação choro e alguns gritos e precisa de vigilância quase que 24 horas por dia.  Talvez não seja estranho para outros pais de recém-nascidos, mas quando eu toco no corpo da minha companheira me vem uma sensação de “nossa, como o seu corpo e rosto são enormes”.  Eu muitas vezes me pego olhando para pessoas na rua andando, falando, olhando um celular, discutindo, trabalhando e penso que todos esses seres humanos já foram obrigatoriamente bebezinhos como a minha filha que não eram capaz de realizar nenhum dos atos que consideramos triviais como andar e falar.

                Todos, sem exceção. O Bolsonaro já foi um dia um bebê. Lula também por mais difícil que se possa imaginá-lo como um bebê. Um estuprador também um dia já foi uma criança, assim como o Bill Gates ou o Warren Buffett. Todos já foram um bebê indefeso e completamente dependente de um adulto. Todos tiveram que aprender a comer uma fruta, a andar, a se comunicar com outra pessoa, a amar, a detestar, ou seja, a se tornar um ser humano funcional.

                Esse tipo de pensamento me torna uma pessoa ainda mais tolerante. Quando alguma situação me estressa, agora me pego pensando que aquela pessoa que na minha visão está interferindo negativamente na minha experiência presente já foi um adorável bebê. É impressionante. Quando isso ocorre, qualquer sensação de raiva ou ira se esvai quase que instantaneamente.  Às vezes o efeito é tão forte que eu até me solidarizo com a pessoa, e tento, nem que de uma maneira interna, me conectar de forma empática.  Afinal, o que será que aquela criança não passou? Será que ela teve a oportunidade de ser amada com tanta intensidade como a minha filha o é? Quantas sombras será que não foram criadas nesse agora adulto por causa de hábitos ou atos de seus cuidadores?

                Eu não tenho a menor dúvida (aliás, dúvidas sempre devemos ter, melhor dizendo acredito ser uma boa explicação) de que as frustrações, ansiedades, neuroses, animosidades, que vemos no nosso dia a dia e em nós mesmos nada mais são do que sombras gestadas em nossos primeiros anos de vida.  Há uma autora que se especializou apenas nesse tema e chama-se Laura Gutman. Qualquer mulher grávida (e alguns pais, mas poucos) mais atenta e curiosa já ouviu falar do livro “A Maternidade e o encontro com a Própria Sombra”.


                Qual não foi a minha surpresa ao escutar um dos últimos podcasts do Joe Rogan ao ouvir dele que a sua maturidade e transformação num ser humano mais tolerante com os outros, ao menos uma parte significativa dela, veio de fazer o exercício de imaginar as pessoas como crianças pequenas (algo que ele começou a fazer depois de ser Pai). Talvez poucos conheçam o Joe Rogan aqui no Brasil, mas o podcast dele talvez seja o maior do mundo. A audiência dele muitas vezes equivale a programas de televisão das maiores emissoras americanas.

                Joe Rogan é um comediante e comentador de lutas marciais que iniciou um podcast há alguns anos. Hoje em dia, ele é uma referência. Suas entrevistas duram algo em torno de 2 a 4 horas. É um cenário simples, uma mesa e ele fazendo perguntas. É um bate papo. Você não leu errado, muitos podcasts tem três horas e meia até quatro horas de duração. Ele entrevista todos os tipos de pessoas, de todos os vieses políticos e ideológicos, neurocientistas, filósofos, etc. O que tem de fantástico nesse formato é que ele realmente é curioso em saber o que a pessoa pensa independente do seu próprio posicionamento sobre um determinado assunto. Ele gosta de caçar, por exemplo, mas se ele entrevistar alguém que abomina a caça de animais ele com certeza tentará da melhor maneira possível representar com fidelidade o pensamento do entrevistado. E isso é uma maravilha. 

                No Podcast número 1295 ele entrevistou a candidata à indicação democrata para a Presidência dos EUA Tulsi Gabbard. A entrevista foi ótima, e a candidata ,que eu não conhecia, foi uma grata surpresa positiva.  Mais ou menos com uma hora e dez minutos de entrevista, o Joe Rogan fala sobre essa questão de imaginar as pessoas como bebês ao contar o que ele sentiu ao observar uma senhora absorta nessas máquinas de roleta num cassino nos EUA. Eu já vi essa cena algumas vezes quando estive em cassinos, e ela realmente é deprimente.  Porém, ao reformular a imagem, e imaginar aquela senhora como um bebê, o pensamento que veio a cabeça dele foi algo como “o que será que aconteceu na vida dela para ir de um bebê cheio de potencialidades para uma senhora solitária jogando um jogo sem sentido de maneira irrefletida?”.

                Isso não é pouca coisa, isso é muita coisa.  Os pais possuem uma responsabilidade enorme, não em fazer com que os seus filhos consigam estudar em faculdades de prestígio ou estejam preparados para ganhar dinheiro, mas em proporcioná-los uma primeira infância repleta de amor, carinho e empatia, para que possam se transformar em adultos sem sombras tão profundas.  A nós adultos machucados em maior ou menor grau talvez caiba olharmos uns aos outros com mais empatia, reconhecendo a criança inocente e curiosa que algum dia habitou o corpo agora adulto.

                Isso quer dizer que estupradores não devem ser punidos ou ter os seus atos reprovados? Não, evidentemente que não. Isso significa que não podemos ficar genuinamente insatisfeitos com o comportamento agressivo ou inconveniente de outros seres humanos? Não, evidentemente que não. Apenas significa que cada um de nós pode, e o mais importante tem a possibilidade de controle, olhar para as imperfeições alheias de forma muito mais suave e empática, e isso, prezados leitores, é um alívio tremendo em nossas vidas.

Quem tiver interesse e compreende razoavelmente bem o inglês falado esse é o pedcast mencionado.

                Um grande abraço a todos!

sexta-feira, 10 de maio de 2019

A DEPUTADA TABATA AMARAL E O HOTEL DE UM MILHÃO DE DÓLARES


-“Where are you goin?”
-“Hotel xxxxxx“
-“Conheço um bom hotel, quanto você quer pagar pelo hotel?”
-“Queremos pagar U$ 1 milhão”.
-“Como?”
- “Sim, queremos pagar U$ 1 milhão”
Silêncio

                Isso aconteceu em Delhi quando eu e minha companheira pela enésima vez pegávamos um tuk-tuk para ir ao hotel que tínhamos decidido ficar. Poucas pessoas viajam a Índia. Raríssimos brasileiros viajam a Índia. Dos Brasileiros que viajam a este incrível, difícil, complexo e milenar país, quase todos ou vão a trabalho ou vão para alguma viagem temática de meditação, yoga, etc. Fazer “mochilão” pela Índia, ainda mais viajando de trens populares (terceira categoria), se hospedando em lugares simples e indo para diversas cidades, é uma raridade extrema entre brasileiros. Até mesmo estrangeiros. A Índia, ao menos quando fomos em 2010, não é um país turístico, apesar de ser um Universo, assim como a China, em si próprio.

                Não é fácil viajar de mochileiro pela Índia. Viajar como mochileiro junto com a namorada é ainda mais difícil. Nossa, por quantas situações ela passou, e eu tive que começar a pensar mais seriamente sobre as dificuldades que as mulheres passam simplesmente por serem mulheres, dificuldades estas que a maioria dos homens, ao menos brasileiros, podem tranquilamente ignorar pela conveniência dos costumes arraigados.

                Porém, entrar num tuk-tuk e o motorista querer desviar a rota para levar a outra destinação era quase que um ritual. Estávamos acostumados, e isso nos incomodava bastante no começo, até que minha companheira teve a brilhante ideia de inventar respostas absurdas como essa de querer pagar um milhão de dólares por um quarto. Indianos obviamente não estavam acostumados com respostas como essas, e ficavam quase sempre desconcertados, resultando numa resposta efetiva e engraçada.  

        Existiram muitas outras. Uma vez andando na rua pela milésima vez um comerciante perguntou se éramos amigos, namorados ou casados (a esmagadora maioria o fazia por curiosidade e ingenuidade, uma minoria por maldade, neste caso o cara estava de sacanagem), ela se virou e perguntou ao homem se ele era casado ou não, ele respondeu que sim e perguntou por qual motivo ela queria saber, e ela respondeu que eu estaria procurando uma segunda esposa, auch, o cara ficou incrédulo, sem palavras e nervoso ao mesmo tempo. E essa era a nossa primeira viagem depois de apenas um ano de namoro.

                Eu lembrei da história do Tuk-Tuk e do um milhão, ao ver mais uma entrevista da jovem e cativante Tabata Amaral.  Ao ser perguntada sobre o ambiente no Congresso Nacional, se seria fácil para uma mulher jovem como ela, a mesma disse que era um dos ambientes mais tóxicos e difíceis que ela já tinha enfrentado (e olha que ela deve ter enfrentado muita coisa para chegar onde está). 

      Ela então contou que tinha sido barrada diversas vezes, inclusive recentemente, na Câmara Federal onde é deputada. Quem conhece Brasília sabe que lá é a cidade dos broches. Se a pessoa não conhece Brasília, e o serviço público, talvez não faça a mínima ideia do que se está falando. É comum as pessoas usarem broches identificando o cargo que ocupam (procuradores, juízes, deputados, ministros, etc). Em minha opinião, a maioria o faz para impressionar, mas o broche também serve para evitar burocracias de entrar em prédios públicos. Um dos seguranças da Câmara perguntou a Tabata onde ela havia achado o broche, e ela respondeu “no chão”.  Ai ai, que resposta brilhante, assim como a resposta de um milhão de dólares. O que a pergunta do segurança não diz sobre nossa política, nossa sociedade, nossos padrões de costumes, e ao invés de ódio, rancor, gerou apenas uma forma inteligente, lúdica e divertida de resposta da deputada. Essas mulheres e suas respostas maravilhosas.

                Já vi algumas entrevistas da Tabata, ao todo devo ter escutado umas quatro horas. Que jovem impressionante. Dá orgulho de ter mulheres jovens assim assumindo cargos importantes. Eu, papai de uma menina incrível de quase seis meses, só posso ficar feliz com isso, e torcer para que mais “Tabatas” surjam nesse país, que ela seja o farol para muitas crianças, jovens, e por que não mulheres mais maduras? Com certeza, se isso acontecer, ela, minha doce filha, talvez possa crescer num país muito mais cordial e equilibrado em relação às mulheres, e isso é algo que desejo muito para ela.

                Na supracitada entrevista, a deputada fala sobre como as pessoas não suportam e ficam extremamente incomodadas com aquilo que não é facilmente “rotulável” ou que é incognoscível.  Ela foi ao ponto. Nesse blog em alguns artigos já tratei de vieses cognitivos. Tudo o que nosso cérebro deseja, ainda mais se não treinado a reconhecer vieses, é usar o sistema 1, o modo automático de reflexão. Nesse sentido, para um auto-declarado direitista é muito mais cômodo ler um texto de um esquerdista, e vice-versa, as reações de repulsa serão automáticas, do que ler um texto que provoque reflexão. O difícil é quando algo diferente surge, pois aí é necessário recrutar o sistema 2, o sistema ligado a reflexão que demanda energia cerebral. Assim como a tendência é o sedentarismo físico, a tendência natural, ainda mais se não praticado, é o “sedentarismo de pensamento”. Portanto, indivíduos, textos e ideias que desafiam o sistema 1 costumam ser muito mais “desconfortáveis” às pessoas.

                 Num ambiente mais sério, aberto e inteligente, o desafio às crenças arraigadas no sistema 1 costuma levar ao progresso das próprias idéias, pessoas e agrupamentos sociais, pois recruta o sistema 2 e faz com que os costumes, ideologias, teorias estejam rotineiramente sendo (re)testadas, provadas e, se for o caso, refutadas. Não é à toa que esse é o cerne do pensamento científico moderno.

                Em ambientes mais fechados, menos inteligentes e mais brutalizados, o desafio ao sistema 1 costuma ser acompanhado por um fechamento total do sistema 2 e um enraizamento ainda mais forte das idéias, costumes, valores, pré-concebidos que vem à mente de forma automática. Isso quase sempre se faz tentando rotular, ou encaixar, a ideia aparentemente conflitante em algum sistema prévio de mundo gerado pelo sistema 1, o que geralmente causa monstrengos argumentativos e ideológicos.

                Infelizmente, o Brasil caminha a passos largos para a segunda situação. Estamos adentrando numa era das trevas, onde a idiotia e maluquice se transformaram em atributos venerados, sendo a inteligência e o bom senso zombados. Resta apenas torcer para que essa era desmiolada não dure tanto e os estragos não sejam tão profundos, mas eu tenho sérias dúvidas que essa visão mais otimista seja a mais provável.

                Porém, ao invés de ser um texto lamurioso, deixei apenas um parágrafo (o anterior) seguir essa toada.  Após alguns meses sem escrever, e algumas mensagens perguntando sobre o meu sumiço (o que agradeço de coração), pensei em escrever mais um texto sobre como compreender artigos científicos. Pensei em falar sobre a maluquice que atualmente vivemos, que chegou a níveis que eu imaginei ser impensáveis. Porém, achei melhorar focar em coisas positivas que vem ocorrendo.

                Saída de uma comunidade periférica, prosperando em olimpíadas do conhecimento, conseguindo estudar com bolsa de estudo numa das maiores, senão a maior, universidade do mundo, engajando-se na área mais importante para que nosso país possa ter um futuro melhor, a jovem, a mulher, a deputada, Tabata Amaral é um belíssimo exemplo de um Brasil que pode sim dar certo. Pode dar certo do seu jeito. 

       Imagino que seja difícil mesmo ver uma mulher jovem vindo da periferia, mas com formação em Harvard, que se expressa bem, mas não frequentou escolas caríssimas quando criança, que defende os seus pontos de vistas com firmeza (como deve ser), mas que , ao menos eu nunca vi, não levanta o tom de voz ou é desnecessariamente agressiva, é muito diferente da imagem usual de uma mulher jovem de uma comunidade periférica. Ora, na verdade é uma raridade em tempos de "filosofia por meio de memes".  Deve ser muito difícil para algumas pessoas encaixarem tudo isso no sistema 1, e como o sistema 2 pode estar um pouco enferrujado, a dissonância é grande, assim como a reação emotiva. Porém, em muitos, com certeza a deputada causa uma esperança de que coisas boas podem acontecer nos lugares mais improváveis.

A Deputada Federal Tabata Amaral

                Ao chegar ao fim desse texto, me dei conta que domingo é dia das mães. Desde já fica uma homenagem às mães. Não uma homenagem vazia, mas uma cheia de admiração e respeito. Carregar por nove meses uma criança, amamentar, se preocupar 24 horas com um bebê, e ter um amor incondicional por outro ser humano é algo que eu só posso classificar como sagrado. Não desmerecendo religiões organizadas, mas se quer ver o sagrado acontecendo, talvez não procure numa missa ou num culto, mas olhe uma mãe cuidando do seu filho.  À minha mãe fica a admiração e respeito por ter me criado. À minha companheira, agora mãe, fica a minha admiração e respeito por estar criando minha filha da melhor maneira possível. E à minha filha, bem, fica o meu amor e agradecimento por entrar em minha vida.
               
Ah, quem não sabe ou nunca viu, isso é um Tuk-Tuk

        Um abraço a todos!

segunda-feira, 4 de março de 2019

SÉRIE OTIMIZAÇÃO DE SAÚDE - A BALELA NUTRICIONAL - QUANDO A ASSOCIAÇÃO É DESMENTIDA POR UM EXPERIMENTO (CAFÉ DA MANHÃ)


            Se você não leu, e principalmente não entendeu corretamente, a diferença entre associação e causalidade em estudos científicos, sugiro a leitura do primeiro artigo dessa série. Neste artigo, iremos aprofundar um pouco mais a questão.

                Abaixo uma ilustração de como deveria funcionar a ciência:



                Alguém faz uma observação sobre algum acontecimento da natureza. Elabora-se uma hipótese, que em alguns casos pode ser lindamente formulada, para explicar o fenômeno observado. Uma hipótese, porém,  só pode ser considerada acertada se ela for testada empiricamente. A Teoria da Relatividade Geral de Einstein, por exemplo, só começou a ser aceita quando foi possível fazer um experimento para colocá-la a prova ( um desses experimentos, poucas pessoas sabem, foi feito no Ceará em 1919, se não me engano).  Isso vale para qualquer campo do conhecimento. Alguns campos são muito mais fáceis de se fazer experimentos, outros nem tanto (pense em experimentos sociais ou econômicos).

                Como experimentos devem ser feitos (e aqui vou começar a restringir o alcance para assuntos relacionados à medicina e a saúde em geral)? Tentando-se isolar variáveis. Imagine-se que alguém quer fazer um experimento para testar um tratamento em relação ao câncer. Separam-se aleatoriamente um número razoável de pessoas que possuem câncer em dois grupos. Num deles, o grupo controle, nada se faz de diferente. No outro, o grupo experimental, se fornece seis drogas quimioterápicas, radiação, mudança de alimentação, contato com animais e doses diárias de vídeos de “filosofia” do Olavo de Carvalho.

                No final de um determinado tempo, vê-se que o tratamento deu certo. As pessoas do grupo experimental tiveram uma sobrevida média maior do que o grupo controle. Porém, o que se descobriu com esse tratamento? Rigorosamente, não muita coisa. Foram as seis drogas quimioterápicas que fizeram efeito, ou foram apenas quatro que tiveram um efeito real? Ou foi a radiação junto com mudança de alimentação? Será que foram os vídeos de “filosofia” do Olavo de Carvalho? Não se pode saber, pois não se isolou uma variável.  Sendo assim, esse não é um experimento errado, ou falho, ele apenas não agrega muito conhecimento na questão de melhoria de vida de pacientes de câncer, porque a única conclusão que se pode chegar é que um tratamento com seis drogas, que envolve radiação, uma mudança de alimentação, contato com animais no sentido literal e figurado é melhor do que tratamento nenhum.

                Esse exemplo serve apenas para demonstrar que um experimento pode ser bem conduzido ou não, e acreditem, prezados leitores, existem inúmeros experimentos que são extremamente mal conduzidos.

                Voltando ao nosso quadro inicial, tudo começa com uma observação e a geração de uma hipótese. Como dito no primeiro artigo dessa série, os estudos observacionais feitos em nutrição médica são baseados em questionários de freqüência alimentar. É mais ou menos assim que funciona: 1) um grupo grande de pessoas responde  um questionário, que em muitos casos envolve mais de uma centena de perguntas, no começo do estudo; 2) dependendo do estudo, esse questionário é repetido alguns anos depois; 3) depois de um determinado prazo procuram-se achar associações, e podem existir centenas delas, como quem come mais carne vermelha tem mais casos de câncer de cólon ou quem come mais frutas tem menos eventos cardíacos, por exemplo.  São chamados estudos observacionais, pois eles apenas observam o que ocorre na vida das pessoas, não há nenhuma interferência como num experimento.

                A própria metodologia desses estudos é absurdamente falha. Imagine responder um questionário de mais de 100 perguntas sobre o que você comeu nos últimos quatro anos (o que é o comum nesses estudos). A chance do que é reportado não corresponder à realidade é imensa. A coisa é tão grave que a mídia há alguns meses noticiou um estudo observacional que que dietas Low Carb encurtariam a vida em quatro anos.  Evidentemente, um estudo observacional não poderia provar que alguma coisa encurta a vida (que pressupõe uma relação causal), e as manchetes jornalísticas quase sempre estão erradas nesse ponto, mas para além disso o estudo parecia um queijo suíço de tantas falhas que ele continha. Porém, o ponto não é nem esse. Eu fui olhar o estudo em si, e nos anexos havia a informação, pela resposta das pessoas ao questionário, que o consumo médio diário de caloria era da ordem de 1.600 calorias.

                Meus prezados leitores, a média de consumo diário de um americano (foi um estudo com uma base de dados americana) é na ordem de 2.500 calorias diária. Sabe qual a chance da média de  um grupo de milhares de pessoas terem um consumo de 1.600 calorias diárias nos EUA? Próximo de zero. É óbvio e evidente que as pessoas reportaram muito menos do que efetivamente comiam, ou seja, a própria observação, a coleta de dados, foi falha.

                Mesmo que não existissem essas falhas gritantes, um estudo observacional apenas “observa”, ele apenas levanta hipóteses que devem ser testadas em experimentos. Entender isso é fundamental para compreender o estado de saúde atual do mundo. Sério. É essa ordem de magnitude de importância.

                "Por qual motivo, Soul?" Muitas pessoas ficam confusas sobre as recomendações do que é saudável ou não comer. Elas são levadas a crer que a evidência científica está mudando a toda hora, mas isso não é verdade, aliás está muito longe de ser verdade. O que de fato, infelizmente, ocorreu, e ainda ocorre, é que a esmagadora maioria das recomendações nutricionais foi baseada em evidência científica fraca, isso quando havia qualquer evidência científica para respaldar uma recomendação.

                Repito novamente que entender isso é fundamental para entender a crise de saúde que nos encontramos atualmente. Talvez isso seja (talvez não com certeza o é,) muito mais importante do que terrorismo, reformas da previdência, investimentos, etc.

                Digo isso, pois um comentário feito no primeiro artigo sobre o tema demonstra bem a total confusão que nos colocamos ao basear recomendações de saúde em evidências fraquíssimas (estudos observacionais com falhas metodológicas e um inúmero imenso de variáveis de confusão). Esse foi parte do comentário:



"E aqui não me refiro às variáveis ocultas como no caso do tubarão e do sorvete, mas de teses cientificamente defensáveis, por exemplo: a produção de hidrocarbonetos aromáticos no preparo de carnes, bem como as altas concentrações de ferro na carne vermelha. 


Isso, obviamente, não comprova o nexo causal entre o consumo de carne e o CCR. Contudo, estamos falando de uma relação não necessariamente causal que justificaria a diretriz atual que manda restringir o consumo da carne vermelha, ao contrário do caso tubarão e sorvete, na qual o calor apresenta-se como uma variável independente. "


                Pela terceira vez reitero que esse ponto é fundamental. O colega no comentário disse que realmente não há nenhum estudo experimental comprovando que o consumo de carne vermelha causa um aumento nos casos de câncer de cólon. Porém, ao contrário do exemplo dado de mera associação entre sorvetes e tubarão (ler o primeiro artigo da série para entender), haveria mecanismos científicos que poderiam explicar o motivo do consumo de carne levar ao aumento dos casos de câncer: a produção de hidrocarbonetos aromáticos, principalmente quando se torra a carne e a alta concentração de ferro (imagino que ele esteja se referindo ao ferro heme que é muito mais facilmente absorvido pelo nosso organismo) presente na carne vermelha.

                Até essa parte estou 100% de acordo. Num futuro artigo irei falar especificamente sobre um marcador de ferro chamado ferritina, e como os níveis laboratoriais estão longe de ser otimizados, e uma forma simples de ter níveis ótimos de ferritina no sangue. Pode ser que realmente o consumo de carne vermelha que possui uma espécie de ferro altamente absorvível no organismo humano de alguma maneira, por algum mecanismo, contribua para o aumento dos casos de câncer. É uma hipótese a se considerar sem dúvida.

                Porém, no parágrafo seguinte, vem o salto de fé, o “salto epistemológico” que provavelmente causou muito mais danos e sofrimento humano do que o nazismo, socialismo e fascismo combinados.  O salto é esse : “Contudo, estamos falando de uma relação não necessariamente causal que justificaria a diretriz atual que manda restringir o consumo da carne vermelha

            Já viram o fabuloso filme “Bastardos Inglórios”? Se sim, vão lembrar que há uma cena do Hitler dizendo “Nein, Nein, Nein!”. Seria minha resposta ao prezado leitor “Não, Não, não e mais uma centena de nãos!”. Não!

                Percebam prezados leitores, passamos de uma observação que carne vermelha estaria associada a um aumento do câncer de cólon, para uma hipótese de porque isso poderia ocorrer (presença de ferro heme) por algum mecanismo biológico, para uma recomendação de autoridades governamentais ou não, sobre restrição do consumo de carne.  Isso está flagrantemente errado. E, infelizmente, foi isso que fizeram na década de 70, resolveram mudar a forma como as pessoas se alimentavam, fazendo recomendações nutricionais baseadas em estudos que apenas mostravam associações, sem que houvesse qualquer experimento científico. Na verdade, houve um grande experimento científico em toda população, e as taxas de obesidade, doenças crônicas, e piora na qualidade de vida mostram que esse experimento falhou miseravelmente.

                Mas, Soul, qual é o mal inerentemente nisso?” O problema, amigo leitor, é que em nutrição se alguma coisa é retirada outra deve ser adicionada. Se a gordura é retirada dos alimentos, alguma coisa precisa ser adicionada em troca, e não é à toa que a “gordurofobia” que nasceu desse salto epistemológico entre uma hipótese para uma recomendação fez com que o consumo de açúcar e de produtos industrializados disparasse.

                As recomendações nutricionais nunca foram embasadas em evidências científicas sólidas, portanto, prezados leitores, não é que a ciência fica toda hora dizendo uma coisa, não, foi o uso político de estudos observacionais, muitos deles mal feitos, que criou essa confusão toda em que nos metemos enquanto sociedade.    

                Encaminho-me para o final desse artigo dando um exemplo concreto (e há inúmeros outros). Uma meta-análise é um estudo científico que procura agrupar outros estudos científicos, fazendo a análise dos mesmos. Imagine que existam 10 estudos observacionais sobre o efeito que não comer café da manhã possui sobre o ganho ou perda de peso. Uma meta-análise desses estudos vai pegar todos os dados dessas pesquisas, e por meio de métodos estatísticos, chegar a uma conclusão sobre o que esses dez estudos concluíram.

                Quem nunca ouviu? “É preciso tomar café da manhã, menino!” Quantas vezes não ouvi isso de minha mãe. Ou quando uma nutricionista é entrevistada “sim, o café da manhã e a refeição mais importante do dia, não se pode pular de jeito nenhum”. Um médico falou essa pérola para a minha mulher antes dela engravidar. É óbvio, é conhecimento comum, é como “coma fibras para melhorar sua função intestinal” (obs: não há provas que isso seja verdadeiro), ou frutas para ser saudável.

                Imagina até um profissional de saúde citando a conclusão desse  estudo do ano de 2011 (uma meta-análise de estudos observacionais sobre o tema):
               
                This meta-analysis suggests that a positive association between skipping breakfast and overweight and obesity is globally observed regardless of cultural diversity among countries. Promoting the eating of breakfast in all populations may be beneficial.
(Essa meta-análise sugere que uma associação positiva entre pular o café da manhã e sobrepeso e obesidade é globalmente observada, independente da diversidade cultural entre países. Promover o consumo de café da manhã em todas as populações pode ser benéfico


                Uau. Potente, uma meta-análise dizendo isso. Porém, é apenas uma hipótese que não comer café da manhã causa um ganho de peso e obesidade. E os cientistas testaram essa hipótese. Será que essa associação se mostrou verdadeira? 

     O maior nível de evidência científica é uma meta-análise entre experimentos clínicos. Foram ao longo dos anos realizados diversos experimentos. Ou seja, a um grupo aleatoriamente divido pedia para não se comer café da manhã (grupo experimental) e a outro pedia para se comer café da manhã normalmente. Essa meta-análise do ano de 2019 pegou 13 experimentos desse tipo, não dois ou três, mas treze experimentos controlados. O resultado?


Conclusion This study suggests that the addition of breakfast might not be a good strategy for weight loss, regardless of established breakfast habit. Caution is needed when recommending breakfast for weight loss in adults, as it could have the opposite effect. Further randomised controlled trials of high quality are needed to examine the role of breakfast eating in the approach to weight management.
(Conclusão: Esse estudo sugere que a adição de café da manhã pode não ser uma boa estratégia para a perda de peso, independentemente do hábito estabelecido de comer café da manhã. Cautela é necessária quando recomendado café da manhã para a perda de peso em adultos, já que isso poderia ter o efeito oposto. Mais experimentos ramdomizados de alta qualidade são necessários para examinar o papel de comer café da manhã no manejo do controle de peso)


                Auch! Mas é o oposto do que a meta-análise dos estudos observacionais de 2011 concluiu. Não é algo como um pouco diferente, é literalmente o oposto. A hipótese de que não comer café da manhã causa ganho de peso não é só falsa, como aparentemente é o oposto que ocorre (quem não toma café da manhã tende a perder peso).

      Vejam, não é que a ciência mudou em relação a hipótese de se comer ou não café da manhã para fins de perda de peso. Não. Nunca existiu a evidência científica robusta sobre a hipótese. O que existia era apenas uma hipótese que se mostrou falsa, independentemente do que o seu nutricionista ache ou pense.

                Entenderam prezados leitores o perigo de se fazer recomendações baseado em evidências fragilíssimas? O mal que isso não pode ocasionar? Foi exatamente o que ocorreu com nossas sociedades nos últimos 40 anos. O mais incrível é que você continuará ouvindo de profissionais de saúde que é “loucura pular o café da manhã”.  Você pode até argumentar "mas e a meta-análise de 2019 sobre experimentos controlados que concluiu o oposto?" E é possível que o profissional dê de ombros, e não entenda nem mesmo a diferença entre uma associação e uma relação causal, e mantenha-se na afirmação errônea sobre café da manhã.

                É isso, colegas. Esse artigo junto com o primeiro, e mais um que produzirei sobre riscos relativos e absolutos já serão uma boa base para se navegar sobre o arsenal de bobagens que são ditas por aí.

                Um abraço!

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

SÉRIE OTIMIZAÇÃO SAÚDE - ASSOCIAÇÃO X CAUSALIDADE EM ESTUDOS CIENTÍFICOS


                Olá, colegas. Como já dito algumas vezes, há cerca de um ano o meu interesse por otimizar a minha saúde aumentou sensivelmente.  Desde então dedico tempo e estudo a esse apaixonante tópico com aplicação direta em minha vida. A questão me fascina intelectualmente tanto que já pensei em fazer medicina, química, biologia, tudo para entender de forma mais técnica como os sistemas vivos funcionam de forma mais otimizada.

                Os dois artigos que mais gostei de escrever nesses cinco anos de blog foram um sobre a radiação cósmica de fundo e um sobre o metabolismo da glicose  Como as duas áreas, especialmente astrofísica, sou leigo, fiquei bem feliz que consegui produzir textos razoavelmente bem escritos e tecnicamente corretos. Sobre o metabolismo da glicose inclusive recebi alguns e-mails de médicos me elogiando a forma como o assunto foi exposto. Eu creio que há  valor em leigos numa área escreverem para outros leigos sobre um determinado assunto, pois é muito provável que o texto aborde questões que muitos profissionais talvez não se atentem e que são de extrema valia para alguém que pouco domina a área. É evidente  que o texto escrito precisa ser bem formulado e tecnicamente não possuir falhas gritantes.

                Falo tudo isso, pois sempre estou recebendo mensagens sobre o que penso de dietas, exercícios, etc.  Vejo cada vez mais pessoas também falando de dietas baixas em carboidratos, dietas cetogênicas, etc, o que não deixa de ser interessante. Porém, também é visível que muitos não fazem a mínima noção sobre o que falam, pois não compreendem os fundamentos básicos.  Os fundamentos de qualquer coisa são o alicerce para que se possa ter uma visão mais acurada sobre algum fenômeno no mundo. Infelizmente, hoje em dia é muito normal pessoas repetirem textos de outras pessoas, às vezes são textos até complexos, mas sem qualquer capacidade crítica para saber se o que falam faz sentido ou não.

                Sendo assim, se a minha rotina permitir e o meu ânimo assim quiser, gostaria de escrever mais sobre o tópico otimização de saúde.  Irei iniciar com o básico do básico de como “ler” evidência científica médica, um tópico que até mesmo alguns médicos mostram certa dificuldade. Aliás, isso pode ser extrapolado para diversas outras áreas, especialmente estudos que mostram estatísticas sociais e os usos equivocados que muitas pessoas fazem dos resultados de determinados estudos.


CORRELAÇÃO X CAUSALIDADE


                A principal confusão, e ela está presente em quase absolutamente qualquer discussão sobre nutrição, por exemplo, refere-se a confusão entre o que é uma correlação e o que pode vir a ser uma relação causal.  Não vou aqui entrar em argumentos mais abstratos sobre o que é causalidade, mas me ater ao senso comum que um efeito é precedido de uma ou mais causas. Se eu jogo um copo na parede essa é a causa dele ter quebrado.

                Já a associação, e aqui a conceituação não é tão clara para muitos, é quando dois fenômenos ocorrem em associação. Seria algo como, por exemplo: “Toda vez que o aumento de consumo de sorvetes aumenta na Califórnia cresce o número de ataques de turbarão” ou “pessoas que comem carne vermelha possuem uma chance aumentada de desenvolver câncer de cólon” (essa última repetida ad nauseiam por inúmeros profissionais de saúde).  No primeiro exemplo quando o fenômeno aumento do consumo de sorvetes ocorre o fenômeno aumento do número de ataques de tubarão também aumenta.  No segundo, quando o fenômeno aumento do consumo de carne vermelha aumenta o fenômeno aumento da incidência de câncer de cólon também aumenta. 

                Imagino que ninguém imagine que o aumento do consumo de sorvetes causa o aumento da chance de sofrer um ataque de tubarão. Quase todo mundo riria desse apontamento. Porém, muitos profissionais de saúde, citam explicitamente (e falo aqui de diretrizes oficiais de órgãos oficiais de medicina) como se fosse uma verdade científica que o consumo de carne vermelha cause o aumento da incidência do câncer de cólon. Aliás, talvez uma boa parte dos leitores por ler matérias nesse sentido ache que isso seja o que a evidência científica diz.

Será que não devemos tomar sorvete se quisermos diminuir a chance de ataque de tubarões?

                Colegas, os dois exemplos acima são rigorosamente os mesmos, são apenas duas associações, e elas não podem comprovar causalidade.  Uma associação de um aumento do consumo de sorvete com o aumento do ataque de tubarões não prova que há uma causalidade entre esses dois efeitos, da mesma maneira que o exemplo de consumo de carne vermelha associado ao aumento do número de casos de câncer de intestino não prova a causalidade (há exceções para quando uma correlação pode ter um efeito de causalidade que será abordado no fim desse artigo).

                Isso quer dizer que carne vermelha não causa um aumento do risco de câncer no intestino? Não, aliás, essa é uma hipótese que pode estar correta. O que não se pode dizer é com base numa mera associação entre o aumento do consumo de carne e o aumento da incidência de câncer de intestino que haja necessariamente uma relação de causa e efeito.

                E por que não? Pela simples provável existência de variáveis ocultas.  O que seria isso? Voltemos ao caso do aumento do consumo de sorvete e aumento do número de ataques de tubarões. Por que essa associação existe? Não precisaria mais de cinco minutos para imaginar que sorvetes são consumidos quando o clima está mais quente. Se as pessoas consomem mais sorvete é muito provável que a temperatura esteja mais alta. Quando a temperatura está mais alta, e sendo a Califórnia um lugar com praias, as pessoas têm mais propensão em nadar no mar. Quando as pessoas nadam mais no mar é mais provável que elas possam sofrer ataque de um tubarão, pois é difícil imaginar um tubarão atacando alguém na rua.

                Logo,  a maior probabilidade das pessoas tomarem banho de mar é a variável oculta que explica a associação entre o aumento da quantidade de sorvete consumida e o aumento do número de ataques de tubarão. Pode ter certeza se fizessem um experimento no inverno Californiano com pessoas tomando mais sorvete, a associação iria desaparecer. A palavra chave aqui é experimento.

                O exemplo do sorvete é “bobinho”, mas nos ajuda a aguçar o nosso cérebro que não evoluiu para ter pensamentos estatísticos tão refinados.  Se alguém quisesse testar a hipótese “aumento do consumo de sorvete causa aumento do  número de ataques de tubarão” um experimento deveria ser feito.  E como este experimento deveria ser feito? Um grupo grande de pessoas da Califórnia deveria ser escolhido. Dois grupos deveriam ser formados de forma aleatória. Num grupo, chamado controle, nada deveria ser feito. Num outro grupo, chamado de braço experimental, deveria ser fornecido sorvetes. Depois de algum prazo especificado (meses ou anos) deveria se analisar se as pessoas no grupo experimental tiveram, com grau de significância estatística, mais ataques de tubarões ou não.  Se a resposta for negativa, a hipótese “aumento do consumo de sorvete causa aumento do  número de ataques de tubarão na Califórnia” deveria ser considerada falsa. Isso é como a ciência deveria ser feita amigos.

A explicação


                Por qual motivo o grupo deve ser grande? Quanto maior o número de pessoas, menor a chance de haver alguma flutuação estatística aleatória. Por que as pessoas devem ser aleatoriamente dividas em grupos? Porque isso evita que um determinado grupo seja escolhido e apresente alguma variável oculta. Como assim? Imagine que as pessoas que tomam mais sorvete tenham por algum motivo uma tendência maior de nadar no mar (que seria a variável oculta). Se isso fosse o caso, se o estudo fosse feito apenas separando o grupo de pessoas que tomam mais sorvete das que tomam menos sorvete não seria possível dizer se o aumento do consumo de sorvete causa ou não aumento no número de ataque de tubarões. É por isso que a divisão entre os dois grupos deve ser aleatória, para que não haja o que os especialistas chamam viés de seleção.

                Voltemos agora ao exemplo da carne e aumento de câncer. Foi feito algum estudo experimental onde se forneceu mais carne a um determinado grupo de pessoas por alguns anos, e pouca ou nenhuma carne para outro grupo aleatoriamente designado,  e se mediu a diferença estatisticamente relevante, ou não, entre aumento ou diminuição na incidência do câncer de intestino? Não, colegas, não foi feito um estudo como esse. E como se pode dizer que carne vermelha causa câncer de cólon? De onde veio isso?

                Em nutrição, a esmagadora maioria dos estudos é feito por base tendo questionários alimentícios. Pergunta-se a um grupo de pessoas sobre os hábitos alimentares.  Depois de um determinado prazo, verifica-se o que aconteceu com as pessoas que comeram mais brócolis e menos ovo, ou mais ovo e mais alface, etc, etc. Esses questionários geralmente são confusos, extensos, e aplicados às vezes com um grande lapso temporal entre um e outro. É uma forma no mínimo capenga de se colher dados. Porém, mesmo que os questionários fossem excelentes, esse tipo de estudo só poderia apontar hipóteses e associações, jamais causalidade.

                E por que não? Pelo simples motivo que pode haver dezenas de variáveis ocultas. Como assim? Imagine que pessoas que comam mais carne vermelha num determinado estudo tiveram mais câncer do intestino do que vegetarianos nesse mesmo estudo, por exemplo. O máximo que se poderia dizer é que a hipótese de que carne vermelha pode ter um papel causal no aumento da incidência de câncer de intestino é uma hipótese que deveria ser considerada num experimento, num ensaio clinico randomizado.

                Será que os comedores de carne fazem alguma coisa diferente dos vegetarianos além de comer carne?  Sim, leitores, eles fazem.  Pessoas que comem mais carne tendem a fumar mais, se exercitar menos, irem menos ao médico, e se acidentar mais de carro. Sim, num estudo foi achada uma associação estatística entre pessoas que comiam mais carne vermelha e acidentes de carro. Ora, não parece ser crível que o consumo de carne vermelha cause uma maior chance de um acidente de carro, muito provavelmente o consumo de carne vermelha seja apenas um marcador de um comportamento menos regrado.

      Pensem, leitores, durante décadas a carne vermelha e a gordura foram tidas como vilões da saúde, ao contrário do consumo de vegetais. Ora, pessoas que mesmo com essa informação consumiam mais carne vermelha, muito provavelmente sejam pessoas que não se importam muito com sua saúde em inúmeros aspectos, um deles é dirigir de forma menos conservadora.  É possível também que o vegetariano além de não comer carne, também não fume, pratique esportes e vá com regularidade ao médico.  Ora, é evidente que há muito mais diferenças, a nível populacional, entre alguém que come carne e alguém que não come. O número de variáveis ocultas pode ser enorme. Sendo assim, será que é o consumo de carne que causa mais câncer de intestino ou a falta de exercício? Ou será o cigarro? Ou será alguma outra coisa?

                Apenas um experimento onde um número razoável de pessoas fossem divididas de maneira aleatória para dois grupos, um com consumo aumentado de carne vermelha e outro com consumo diminuído de carne, e depois de vários anos medir a diferença no número de casos de câncer para saber se a hipótese “o aumento do consumo de carne vermelha causa câncer de cólon” faz sentido ou não.  Por qual motivo? Porque associações não provam necessariamente causalidade, elas apenas levantam hipóteses a ser testadas em ensaios clínicos.

Será que adicionar carne processada como o Bacon causa o aumento do risco de câncer no intestino? Esse cartaz está dizendo sim, e ao fazer isso não está analisando corretamente a evidência científica. A palavra (increased - aumentou) induz causalidade, o que não é de nenhuma maneira correto. O que deveria ser dito é que o consumo de 50g por dia de carne processada está associado com um aumento de 18% nos casos de câncer de cólon (e 18% não são 18% como a maioria das pessoas pode presumir, é muito menos do que isso, como um artigo meu sobre risco absoluto x risco relativo irá abordar no futuro)

                Há uma exceção, porém. Quando o nível de associação é tão grande, que fica muito difícil que não haja uma relação de causalidade. O caso típico é o consumo de cigarro e o aumento dos casos de câncer de pulmão. Não foi feito nenhum estudo clínico com grupos aleatórios onde um grupo foi dado cigarros a o outro não. Nenhum experimento desse foi feito, pois obviamente seria antiético.  Porém, as associações entre consumo de cigarro e aumento dos casos de câncer eram enormes. O risco de alguém que fumava ter um câncer de pulmão era aumentando não em 20 ou 30%, mas em 2000% em alguns estudos. Ou seja, o aumento era tão grande que nesse caso é possível inferir causalidade entre duas variáveis associadas.  Se alguém quiser se aprofundar um pouco, recomendo a leitura do conceito de critérios de Hill em homenagem ao brilhante epidemiologista Bradford Hill.

         Há uma regra "não escrita" que associações com riscos "odds ratios" (razões de probabilidade) menor do que 2 (ou seja 100%) não possuem grande relevância e são indistinguíveis de chance, ou muito provavelmente há variáveis ocultas não mensuradas. Alguém sabe o que os estudos de associação mostravam sobre risco aumentado de consumo de carne vermelha e câncer de cólon? Aqui um quadro retirado de uma meta-análise de uma meta-análise (uma meta-análise é um estudo que reúne diversos outros estudos) do ano de 2015:

Table 1.

Meta-analyses for the association between red meat, processed meat and colorectal cancer risk.
Author, year publishedMeta-analysis center/countryNumber and type of studies for red meatRR for red meat (95% CI)*RR for processed meat (95% CI)*
Sandhu et al., 2001UK13 cohort1.17 (1.05-1.31)1.49 (1.22-1.81)
Norat et al., 2002IARC, France14 case-control and 9 cohort1.35 (1.21-1.51)1.31 (1.13-1.51)
Larsson and Wolk, 2006Karolinska Inst., Sweden15 (13 cohort and 2 case-control)1.28 (1.15-1.42)1.20 (1.11-1.31)
Huxley et al., 2009Australia and Iran26 cohort1.21 (1.13-1.29)1.19 (1.12-1.27)
Smolinska and Paluszkiewicz, 2009Poland22 (12 case-control and 10 cohort)1.21 (1.07-1.37)**NA
Bastide et al., 2011France5 cohort1.18 (1.06-1.32)**NA
Alexander et al., 2011 and 2015USA, Mexico27 cohort1.11 (1.03-1.19)NA
Chan et al., 2011UK and Netherlands24 (2 case-cohort, 3 nested case-control and 19 cohort)1.22 (1.11-1.34)1.17 (1.09-1.25)
Johnson et al., 2013USA14 (8 case-control and 6 cohort)1.13 (1.09-1.16)***1.09 (0.93-1.25)***
Bernstein et al., 2015USA, China, Vietnam2 cohort1.06 (0.97-1.16)****1.15 (1.01-1.32)****
RR, relative risk; CI, confidence interval; NA, not available.
*Highest versus lovest intake
**only for colon cancer, not for rectum
***5 versus 0 servings/week
****multivariable-adjusted hazard ratio.

       Para entender essa tabela, no lado esquerdo é o estudo, depois onde foi feito, e o número de estudos que a meta-análise analisou, e o aumento ou não do risco relativo de se desenvolver câncer de cólon. Pode-se ver que o risco foi aumentado entre 5% a 30%, o que dá um relative risk de 1.05 a 1.3. Em alguns estudos, o consumo de carne processada teve um risco menor do que o consumo de carne sem ser processada, o que não faz muito sentido. Ou seja, parece quase que evidente que há variáveis de confusão nesses estudos, tendo em vista o odds ratio desses estudos. Para fins de comparação olha a diferença entre a associação de consumo de cigarro e câncer de pulmão:



Ou seja, nesse estudo específico, o risco foi absurdamente aumentado pelo fato de se fumar, mais de 800%. Compare com os 5 a 30% do consumo de carne. 


     Pode ser difícil entender, pode ser minucioso. Porém, se a pessoa não entende isso ela está fadada a ficar repetindo o que outros dizem, mesmo que sejam autoridades de saúde, sem ter qualquer senso crítico para analisar a informação, e em última análise tomar decisões conscientes sobre a própria saúde. Se no campo de saúde é assim, eu não vou nem falar de estudos de associação que fazem em sociologia ou economia. Aprenda a analisar evidência científica médica, e garanto que a sua habilidade de compreender muitos outros estudos de várias áreas crescerá exponencialmente ao ponto de você ver baboseiras sendo faladas em todos os cantos sobre diversos assuntos.


 Por enquanto, para não ficar muito longo o artigo, é isso. Um abraço!