sábado, 12 de janeiro de 2019

AS NARRATIVAS CONSTRUÍDAS NO FLUXO DE INFORMAÇÃO: O QUE DONETSK, IÊMEN E BREXIT TEM EM COMUM?

                Como abordar esse tema de maneira um pouco mais lúdica? Pensei em contar uma história pessoal e nisso fazer uma transição para uma reflexão sobre o tema. Não há dúvida de que uma pessoa vivendo numa cidade, em qualquer lugar do mundo, possui muito mais acesso à informação do que há 10 anos. Se eu pensar quando os meus pais eram crianças, na década de 40, a quantidade de informação disponível então hoje é vários graus de magnitude maior. Estamos lidando bem com tudo isso?

                Ulan-Ude é a primeira cidade maior para quem está vindo da Mongólia em direção à Rússia. Ulan-Ude é a capital da República da Buriácia. Para quem não sabe, a Rússia possui dezenas de Repúblicas com graus variados de autonomia, e com presença de diversas etnias. A Rússia é realmente um caleidoscópio de etnias, a visão de loiros de olhos azuis não é necessariamente verdadeira para toda Rússia. Foi nosso primeiro ponto de parada no país, um dos lugares mais inexplorados, ao menos para estrangeiros, e bonitos da terra.

                A característica mais marcante dessa cidade, ao menos para mim, foi ver uma grande presença de russos oriundos de uma etnia mongol.  São chamados Buriates-Mongóis (sim, o nome Buriácia vem daí), são cidadãos russos, mas com uma etnia mongol. Na cidade Ulan-Ude, era extremamente normal ver rodas de adolescentes russos, metade bem loiros, e outra metade com traços mongóis. Vi vários casais também de etnias diferentes. Foi uma grande surpresa, mas também algo muito legal de se ver. A primeira impressão foi de como a Rússia é “mal e porcamente” conhecida pela vasta maioria dos ocidentais, inclusive, talvez principalmente, por aqueles que acreditam ser bem informados. A outra foi como duas etnias complemente distintas (a eslava e a mongol) conviviam em grande harmonia, ao menos para um observador casual como era o meu caso.

A grande cabeça de Lênin no centro da cidade de Ulan-Ude

                Foi em Ulan-Ude que vim ver as primeiras estátuas em homenagem a Lênin,  stalin e outras figuras do passado comunista russo não há nenhuma homenagem ou referência. Creio que utilizam a figura de Lênin com um elo para o passado de um regime que durou mais de 70 anos, pois seja a história triste ou opressiva, ela mesmo assim ainda é a história russa do século vinte. Pude também sentir a atmosfera de uma cidade russa que não seja as famosas e badaladas Moscou e São Perterburgo. 

       Aliás, as cidades russas são incríveis, a completa ausência de estrangeiros, o jeito “rude-mas acolhedor” de muitos russos, a admiração deles quando sabiam que éramos brasileiros (ao menos antes da reputação dos brasileiros ser um pouco arranhada com alguns casos lamentáveis durante a copa), fez que nosso um mês na Rússia fosse fantástico. Foi um mês, mas a Rússia merece ao menos uns quatro meses de viagem. A Rússia, e com certeza a Mongólia, é um dos lugares que pretendo levar a minha filha quando ela for um pouco maior.

                Foi também Ulan-Ude que comecei o meu “tour” de jogar xadrez pelas ruas e cafés das cidades russas apostando dinheiro. Russos não jogam, ao menos eu não observei em nenhum lugar, xadrez ao ar livre sem apostar algum dinheiro.  Nessa primeira vez, foi muito engraçado, pois eles viram um brasileiro jovem, talvez nunca tinham conversado com um brasileiro antes, pedir para jogar. Eles ficaram reticentes e num completo “broken english” falaram que era a dinheiro. Depois da minha quarta vitória seguida, os tiozinhos já estavam sorrindo para mim, como se eu fosse da turma, um deles até falando “mequinho” (mequinho foi o maior jogador de xadrez brasileiro da história), e numa mistura de russo, inglês, mímica, nós íamos conversando. Foi uma experiência incrível.



Soulsurfer jogando xadrez pela primeira vez na Rússia. Cada partida valia o equivalente a um dólar, e nessa parte da Rússia podia se comer muito bem com quatro dólares (a quantia que fiz).

                
Infelizmente, o vídeo mais engraçado dessa experiência, não consegui dar Upload por ser maior de 100 megas. O interessante, porém, é a tradição de apertar as mãos quando se inicia uma partida (e em campeonatos quando se termina). Por esse motivo resolvi colocar esse vídeo, pois é uma tradição incrível do xadrez. Uma vez num campeonato mundial, na minha melhor competição, em 1996 estava com uma partida ganha. Se eu ganhasse, faltariam apenas 3 rodadas (8 já teriam ido), e eu estaria entre os 10 melhores do mundo. Vai que eu me inspirasse e ganhasse duas e empatasse uma nas últimas três rodadas, poderia terminar entre os três melhores do mundo. Porém, fiz um lance ruim, a posição se igualou, e eu acabei perdendo. No final, eu não cumprimentei o meu adversário (creio que era um Suíço) e me neguei a analisar a partida (uma prática comum em torneios internacionais). O meu pai estava na parte reservada aos observadores, e viu a cena. Ele disse que ficou envergonhado, não por eu ter perdido, mas por eu não ter cumprimentado e negado em analisar a partida. Eu tinha 16 anos, e era mais do que compreensível a minha atitude, mas é aí que entra a moral e caráter dos pais. Até hoje lembro dessa cena, e como o meu pai estava certo ao chamar minha atenção. O cumprimento é o ato de se dignar e respeitar o seu adversário, independentemente se você perdeu ou ganhou. O xadrez me ensinou um pouco disso. Como o mundo não seria melhor se as pessoas, metaforicamente ou não, simplesmente apertassem as mãos dos seus adversários?

            Todo esse perspectiva pessoal sobre Ulan-Ude para dizer que uma noite entramos num restaurante e descobrimos que eles tinham pizza. “Uau, comer uma pizza depois de tantos meses” pensamos com as nossas papilas gustativas já salivando. Lá a pizza era vendida por quilo, e pedimos um quilo de pizza. O atendente num inglês quebrado foi extremamente agradável, e quando falamos que éramos brasileiros, sua simpatia aumentou ainda mais, ele trouxe até um balão de presente. Perguntei de onde ele era, ele respondeu Ucrânia. Perguntei de qual parte da Ucrânia, ele falou Donetsk. “Está um pouco difícil lá nesse momento, não?”, ele aquiesceu e respondeu “é por isso que estou aqui”. Conversamos um pouco sobre a Ucrânia, no limite do possível pela barreira linguística (eu adoro esse tipo de conversa) e sobre a vida dele.

Essa é a pizza
Esse é o balão (e o bar-pizzaria era muito interessante, pois eram inúmeras Tevês passando clipes de russas lindas de biquini em poses sensuais, esse traço da cultura russa, completamente machista, veríamos em muitos e muitos lugares)
E esse é o Ucraniano

                Para quem não sabe, depois da anexação da Criméia por parte da Federação Russa, uma série de conflitos armados se espalharam pelo leste da Ucrânia (onde Donetsk está localidada) entre forças pró-russas e forças ucranianas. A região da Criméia era predominantemente formada por russos, já o leste da Ucrânia como um todo possui muitos russos (ou descendentes de), mas a maioria é formada por  Ucranianos.

                 E o que isso tudo tem a ver com o tema do artigo de hoje? Quando da anexação da Criméia, houve um grande alarido de uma possível guerra de maior escala entre a Rússia e a Otan. Lembro inclusive de textos de “analistas” sobre o potencial grave impacto de um possível conflito na precificação de ativos. Muitas notícias em diversos canais de comunicação. Com o fluxo de informação, muita atenção de pessoas comuns foi orientada para aquela parte do mundo. Passados alguns meses da consumação da anexação, a Ucrânia saiu dos noticiários, e talvez seja esse um dos motivos da esmagadora maioria das pessoas que se considera bem informada não saber que diversas regiões do leste da Ucrânia estão em situação de “quase guerra”. Se havia potencial de um conflito entre a Rússia e a demais potências ocidentais quando da anexação da Criméia, pode ter certeza que o potencial ainda está lá no atoleiro chamado "leste da ucrânia".

                Lembro também quando estava no Irã, eu de vez em quando assistia à televisão local. Sempre nos comerciais havia cenas fortes do conflito do Iêmen e o papel nefasto que algumas potências ocidentais estavam exercendo nesse conflito. A narração era em farsi, mas havia algumas legendas em Inglês, e por isso eu conseguia entender alguma coisa. Isso foi em 2016. 

           A guerra do Iêmen só foi ter alguma pouquíssima atenção no ocidente (e no Brasil nenhuma atenção), quando houve o assassinato de um jornalista saudita crítico do regime ditatorial da Arábia Saudita num consulado árabe na Turquia num ato horrendo. O presidente dos EUA, numa atitude completamente contrária a tradição americana, colocou panos quentes, o que o Senado Americano, de maioria republicana, não aceitou e por unanimidade condenou a Arábia Saudita (realmente, o estrago de Trump nas instituições americanas não será pequeno). 

          Só daí, no final de 2018, começou-se a levantar os vínculos americanos com a guerra saudita empreendida no Iêmen .   Isso já era notícia principal no Irã em 2016, e muito provavelmente antes disso. O conflito no Iêmen, um dos mais catastróficos em termos humanitários (se não for o maior atualmente) é algo invisível para quase todos os ocidentais (e nem me refiro aos Brasileiros), mas no Irã era notícia central há alguns anos. Como poder ser algo tão central para certas redes de notícia, e inexistente para outros? Com certeza, apenas a proximidade geográfica e o envolvimento do Irã no conflito não respondem essa questão na sua integralidade.

                Brexit. Uns comemoraram.  Viram o surgimento de algo novo, era o “povo” dizendo não à burocracia européia. Os mais chegados em teorias conspiratórias viam o Brexit, junto com a eleição do Trump, como um sinal da derrocada do “globalismo” e o surgimento de algo novo. Analistas surfando no óbvio hoje dizem “está vendo, olha como a mídia tradicional, e os analistas puderam ser cegos”.  Outros, por seu turno, dizem que foi um grande erro cometido pelo Reino Unido. Acerto ou erro, o fato é que na época muita atenção foi dada ao Brexit, e de novo várias análises, inclusive de blogueiros amadores, sobre os efeitos do Brexit , as implicações políticas e sociológicas.

                O Brexit, porém, ao menos no Brasil saiu de moda. Acontece que está uma confusão danada no processo de saída, e ninguém sabe ao certo o que realmente vai acontecer. Os acontecimentos de hoje são tão ou mais importantes do que quando o Brexit foi decidido, mas parece não ter muita atenção da mídia.

                O que Donetsk e a guerra civil em standy by no leste da Ucrânia, Iêmen e Brexit possuem em comum, se é que há algo que os une? Por qual motivo eu estou falando disso? Há pessoas com o dom da concisão, não é o meu caso. Os maiores mestres da concisão geralmente são poetas, por isso quando você escutar de alguém que poesia não tem serventia ou sentido, apenas ignore, pois quem diz tal estultice não sabe do que está falando. Como me falta a genialidade da concisão, eu muitas vezes construo inúmeros textos para mostrar como penso sobre determinada faceta da realidade.

                Quando escrevi “estórias” sobre o absurdo de pessoas se importarem mais com a “reforma da previdência” do que aspectos práticos do seu dia a dia, tive muitos comentários do tipo “o seu texto foi prolixo, é evidente que não é o mais importante, mas discutir a reforma da previdência é imprescindível, etc, etc”. Teve até um comentário no sentido “e se o sujeito achar que a reforma da previdência é mais importante do que seu relacionamento conjugal, o que você tem a ver com isso? Hein!”. Ai, ai.  

         Primeiramente, no próprio texto estava explícito (e eu ainda deixei isso explícito no texto) de que a reforma da previdência era apenas uma metáfora para como as pessoas hoje em dia se deixam levar por assuntos que às vezes não compreendem adequadamente em detrimento de assuntos muito mais relevantes para o seu dia a dia.  Quase todos que escreveram comentários nessa linha, não se deram conta nem ao menos disso. Substitua “reforma da previdência”, por “Iêmen, Donekst ou Brexit” e o efeito é rigorosamente o mesmo. Em segundo lugar, amigo, você pode fazer o que quiser da vida, inclusive negligenciar o seu relacionamento, aliás, isso é o que boa parte das pessoas faz, nenhuma novidade aqui.

                O que une Iêmen, Donekst e Brexit, ou a reforma da previdência, é que a forma como esses temas são apresentados a nós são construções de uma narrativa que nem mesmo sabemos a origem ou quem está por trás.  Numa hora um assunto é importante, na outra não. Um assunto é negligenciado numa parte do mundo, na outra não. As narrativas construídas estão completamente fora do nosso alcance, e como nossa capacidade mental tem limite para absorver informações, e como ninguém quer ou pode gastar tempo realmente pesquisando a fundo os diversos assuntos, coloque na cabeça, prezado leitor, que o fluxo constante de informações que chega a você são narrativas criadas por terceiros que podem ou não guardar mais ou menos similitude com a realidade, ou mais ou menos relevância para humanidade, ou em última instância mais ou menos relevância para você.

                O relacionamento de você, leitor, com sua mulher , filhos, amigos, vizinhos, e mais importante consigo mesmo, por outro lado, é real, é seu, é algo que diz respeito direta e incisivamente a você, e tem um grande impacto no seu bem-estar. “Ah, Soul, mas quem não sabe disso?”, algumas mensagens foram escritas quando esse tema foi abordado. Resposta: muitas pessoas, basta fazer um experimento próprio e observar ao seu redor. 

        Minha filha nasceu, por exemplo, e meu padrinho não foi capaz de me mandar uma mensagem sobre esse fato tão importante. Porém, ele é capaz de me mandar mensagens sobre política por mídias sociais.  Isso é sinal de adoecimento das relações. Não me entendam mal, eu adoro o meu padrinho e sinto muito carinho por ele, e nem mesmo fiquei chateado, pois realmente compreendo como as pessoas estão fazendo escolhas tolas nesse aspecto, mas é evidente que muitos indivíduos estão literalmente dando mais importância a informações sem qualquer relevância direta com suas vidas em detrimento de relacionamentos pessoais mais íntimos. Isso é apenas um exemplo, tenho diversos outros, e com certeza isso é apenas uma gota e cada leitor se fizer um esforço talvez tenha um ou mais exemplos, ou talvez seja o próprio exemplo.

                Portanto, talvez as idéias desse blog fizessem mais sentido se expostas num livro de forma mais harmônica, ou num podcast de uma duração mais longa, mas a vida completamente desbalanceada em que muitas pessoas vivem pode ser abordada de diversos aspectos, de diversas formas e com a construção de diversos artigos. “Mas, eu não concordo”. Ótimo, é um direito seu leitor, e fico feliz que assim o seja. “Eu acho o artigo prolixo e sem fundamento”. Tudo ótimo também, ninguém é obrigado a ler o que eu escrevo ou, melhor dizendo, é possível gostar de textos meus, e não gostar de outros, e isso é muito salutar. Ou ainda  “           Brexit, reforma da previdência, Irã, Ucrânia? Isso não tem qualquer relação, vou lá ver o meu vídeo ou o meu artigo sobre o problema X pela enésima vez”, ótimo também.

                Porém, em que pese o parágrafo anterior, podem ter leitores (três, quatro, dez) que realmente possam parar e refletir com seriedade sobre as próprias condutas. O grande filósofo Sócrates disse, ou ao menos se atribui a ideia a ele, que “ a vida não examinada não merece ser vivida”.  Quer o leitor concorde ou não,  “Iêmen, Donekst ou Brexit” mostram que o fluxo de informação  chega até nós com uma narrativa embutida, seja de maneira consciente ou não, tanto que é muito difícil diferenciar o que é real, o que é importante, do que é apenas uma visão parcial e distorcida. Se o Brexit era importante em 2016, ele ainda o é mais importante no começo de 2019, por mais que as notícias não demonstrem isso.

                Portanto, sobre esse ponto de vista, ainda mais agravado pelo “click bait” (que se dá de diversas formas), pela falta de profundidade de análises, pela pura repetição acrítica de idéias, ou pelo abuso do sensacionalismo de “notícias” que não mereceriam qualquer relevância, quase todo o noticiário é de certa forma tóxico. Além der ser informações com uma narrativa construída, sem qualquer participação sua leitor, quase nunca esse fluxo de informação faz com que os consumidores dele se sintam melhores,  empoderados, felizes e realizados com suas próprias vidas.  

                Suas relações mais próximas, sua saúde, física e principalmente mental, por outro, são reais e imprescindíveis para uma boa vida. Uma vida refletida necessariamente passa por um processo profundo, e muitas vezes demorado, de questionamento de muitos hábitos de nossa vida cotidiana.

                Como disse o baterista do Iron Maiden (Nicko Macbrain) uma vez “se você gosta do Iron Maiden, eu te amo. Se você não gosta do Iron Maiden (pausa dramática), eu te amo também”, termino esse artigo dizendo “se você gostou, ou melhor, ainda, se esse artigo ou outros textos desse espaço te ajudaram, fico feliz e desejo o melhor para você. Se você não gostou desse artigo, ou de outros, ou pior ainda, se não gosta do escritor por algum motivo especial, (pausa dramática) fico feliz também e desejo o melhor para você”.


Mas pode se comer com 3-4 dólares? Ah pode sim. No Lago Baikal, compramos pães deliciosas e um peixe defumado da família do Salmão por U$ 1,50.

A melhor vista possível do restaurante

O peixe era delicioso.

E ainda com mais um dólar se comprava um monte de fruts vermelhas (que delícia).

                Um grande abraço!






quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

O PROBLEMA DOS NOVE PONTOS - SOBRE O PENSAR "FORA DA CAIXA"


Pensar fora da caixa. Quantos de nós não já ouvimos essa expressão? Resolvi fazer um breve artigo sobre este tema baseado em dois motivos. O primeiro é que achei absolutamente interessante a origem dessa expressão. O segundo motivo foi o comentário de um anônimo numa postagem anterior. Os comentários, mesmo aquele oriundo de mensagens mais agressivas, quase sempre me dão insights para escrever artigos. Não o faço, por questão de tempo, prioridade e dedicação. Porém, nos últimos dias venho me sentindo mais inspirado a escrever mais nesse pequeno blog que possuo.

               



                O que a figura acima significa?” alguns podem estar pensando. Esse é o famoso experimento dos nove pontos, e é a razão, ao menos é o que muitas fontes dizem, de termos a expressão “pensar fora da caixa”. Eu sou sincero e digo que não tenho tanta paciência para fazer esses testes, mas se o leitor quiser tentar antes de continuar o artigo, a tarefa é unir os nove pontos com apenas quatro linhas sem tirar o lápis (ou caneta) do papel (no caso do presente artigo o experimento terá que ser mental na tela do computador).

                Conseguiu? Se alguém tentou, muito provavelmente, se não conhecia previamente esse famoso teste psicológico que vem sendo aplicado há 50 anos com dezenas de artigos científicos a respeito, não vai conseguir resolver. Em muitos testes, menos de 5% das pessoas conseguem resolver, e às vezes ninguém consegue solucionar esse simples, mas intrigante problema. Abaixo listo algumas soluções adotadas, mas que possuem cinco linhas e não apenas quatro.



                Sem mais mistérios, abaixo segue a solução do problema:

Um solução
A mesma solução do outro lado

                Uau, Soul, mas essa solução é possível? Pode sair dos limites dos pontos?” Sim, prezado leitor, pode, nada no enunciado no problema dizia que havia alguma limitação, uma fronteira feita pelos contornos dos pontos. Como essa ideia surge na cabeça da maioria das pessoas então? De alguma maneira nosso cérebro associa os pontos a um limite intransponível, e tendo como premissa básica esse fato, tenta achar uma solução dentro desse limite, o que não vai conseguir.  Como o nosso cérebro nos auto-impõe esse limite, qualquer solução “fora da caixa”, e que é a única maneira de resolver esse problema, se torna inacessível para o nosso processo consciente de tomada de decisão.

                Caixa? Sim, o mais interessante desse experimento é que se os nove pontos são apresentados dentro de quatro linhas maiores (significando um espaço ampliado) numa espécie de caixa, o índice de pessoas que conseguem chegar na solução certa aumenta exponencialmente, pois agora nosso cérebro percebe que a linha poderia ir além dos pontos, pois há um espaço “geográfico” ampliado, fazendo com que o pensamento seja mais natural para o cérebro consciente, seja mais “dentro da caixa”.

Se o problema é apresentado dentro de um quadrado (que contenha os 9 pontos) muitas mais pessoas conseguem resolver o problema


                O que tirar desse experimento? Primeiramente, é muito difícil pensarmos “fora da caixa”, ou seja, fora dos limites que o nosso próprio cérebro impõe a nós mesmos pelas nossas crenças, percepções, cultura, etc. Simplesmente, não é fácil, e é por isso que grandes empreendedores, cientistas, pensadores, com idéias ousadas e revolucionárias são em pequeníssima minoria em nossas sociedades humanas.

                O outro é que talvez você prezado leitor, assim como eu, não seja abençoado com a capacidade de pensamentos extremamente criativos, mas com algum esforço talvez possamos ampliar a "nossa caixa", nossos limites, para que soluções mais criativas e eficientes possam ocorrer com mais naturalidade. Como?

                Bom, esse site já abordou em dezenas de artigos algumas ferramentas. A primeira é reconhecer que nós tomamos decisões muitas vezes a nível quase que inconsciente influenciado por heurísticas, atalhos mentais que poupam energia do nosso tempo quando ele precisa tomar uma decisão. Um dos maiores vieses é o de confirmação, a tendência de darmos muito mais valor a uma informação que corrobore nossas ideologias, idéias, crenças, do que uma informação que contradiga o que acreditamos ser certo. Isso é um erro, é exatamente o oposto de como o método científico funciona. Se a ciência trabalhasse com viés de confirmação, nós com certeza não teríamos avançado tanto em conhecimento enquanto espécie.

                Logo, é bom ser exposto a idéias diferentes, a pessoas diferentes, a formas de viver a vida diferente, faz bem, atenua nosso principal viés (o de confirmação), e pode levar sim à ampliação dos limites que nossa consciência considera como válidos, fazendo que o nosso “pensar na caixa” talvez seja mais amplo do que se repetirmos diariamente as mesmas leituras, as mesmas conversas, os mesmos hábitos.

                Outra forma é talvez simplesmente relaxar, ter um tempo “ocioso”, realizar algo como a famosa expressão “ócio criativo” do sociólogo italiano Domenico Di Masi. Talvez quando não estamos focados em algo, ou pior ainda distraídos com alguma bobagem numa mídia social, ou alguma notícia política, ou alguma controvérsia de uma celebridade, podemos deixar nosso cérebro trabalhar melhor, e fazer conexões que talvez não fossem tão naturais se estivermos ocupados a todo o momento.

                Seja como for, a capacidade de “pensar fora da caixa” é muito importante. Se nenhum de nós, muito provavelmente, será tão brilhante como um Einstein, ou tão inovador como um Steve Jobs, muitas áreas de nossa vida podem se beneficiar se ampliarmos os limites sobre os quais nosso cérebro “enxerga” e decodifica a realidade.  Talvez a pessoa esteja tão absorta em notícias, debates, etc, que as suas relações pessoais mais básicas e fundamentais estejam negligenciadas. Talvez o “pensar fora da caixa” numa situação como essa seja simplesmente reconhecer que é errado, ou melhor dizendo infrutífero, pensar tanto em algo que foge do controle em detrimento de devotar tempo e a atenção necessárias para regar as relações pessoais importantes na vida.

                Talvez “pensar fora da caixa” seja não se seduzir pela cantilena do consumo inconsciente, e economizar parte da renda para formar um patrimônio para ter certa liberdade financeira e com isso alcançar outros objetivos. Pode parecer banal para leitores desse blog, mas para boa parte das pessoas isso seria um autêntico “pensar fora da caixa”. 

          Há inúmeras áreas de nossa vida, e de nosso conhecimento, que podemos fazer tentativas de pensamento original, ou talvez de ampliar nossos limites. Ao contrário do que pode parecer num primeiro momento, é uma jornada prazerosa. Talvez no primeiro momento possa causar desconforto, o que é normal quando fazemos tentativas de quebrar alguns hábitos ou “zonas de conforto”, mas quase sempre, se não sempre, as recompensas mais do que valem o esforço inicial.

                Um abraço a todos!
               

domingo, 6 de janeiro de 2019

A REFORMA DA PREVIDÊNCIA É A SOLUÇÃO PARA OS SEUS PROBLEMAS. VOCÊ FAZ MUITO BEM EM CONHECÊ-LA EM TODOS OS DETALHES E GASTAR O SEU TEMPO COM ISSO.


                Jonas está frustrado. Passou dos cinqüenta e poucos anos. Seu desempenho sexual deixa a desejar.  Seu casamento se mantém em pé mais por comodidade do que qualquer outra coisa. Seus níveis de testosterona estão cada vez mais baixos, a última vez que mediu deu abaixo de 180. Apesar de a idade ser um fator, está visivelmente acima do peso, ele não consegue recordar a última vez que subiu mais de dois lances de escada sem pegar o elevador.  Não fala com o seu filho há mais de cinco meses, aliás, o relacionamento com ele nunca esteve tão ruim.

                Caramba, a situação está ruim para Jonas. Sua vida poderia ser muito melhor do que é, seu bem-estar poderia ser ordens de magnitude maior. Porém, Jonas, está esperançoso, ele acredita que algo muito importante vai acontecer, ele comenta sobre isso, lê sobre o assunto, gasta horas e horas discutindo com quem pensa diferente, defendendo a sua perspectiva de maneira intensa e apaixonada. Jonas se matriculou numa academia e começou a se informar melhor sobre como alimentar melhor o corpo e daí advém a esperança dele de alguma coisa mudar na sua vida? Jonas redescobriu que a mulher com quem convive foi a sua companheira de uma vida, e o amor, que apesar de não ser uma paixão juvenil, ainda existe? Não, Jonas está confiante na aprovação da reforma da previdência.

                Michele tem 25 anos. Todo dia que se olha no espelho percebe alguma imperfeição em seu corpo. Uma hora é o bumbum que é um “pouco caído”, outra são os olhos que poderiam ser claros, ou o cabelo que poderia ser mais liso.  Como um ritual de auto-imolação, Michele todos os dias fica triste e ansiosa com o seu físico.  Uma tristeza um pouco mais profunda recentemente se abateu sobre a mesma, e ela foi diagnosticada com uma depressão leve.  O médico não pergunta sobre a rotina de auto-flagelo e prefere receitar uma antidepressivo. E assim, Michele, continua os seus dias, extraindo algum conforto efêmero e passageiro nas roupas que compra, nas fotos que compartilha sorrindo em suas mídias sociais, para logo depois sentir-se ainda mais triste, ansiosa e vazia.

                A situação não é boa para Michele. Porém, Michele está esperançosa que as coisas irão melhorar. Ela está confiante que um fato marcante irá ocorrer, melhorando a sua vida e por conseqüência o seu bem-estar. Ela vai parar de se olhar no espelho de maneira tão crítica, e aceitar como é, ao descobrir que muitos dos desejos físicos que ela projeta no seu corpo nada mais são do que miragens feitas por um marketing cada vez mais subliminar? Ou será que ela passará mais tempo com ela e pessoas próximas de forma mais direta, deixando as relações virtuais para um segundo plano? Não, na verdade Michele está confiante na aprovação da reforma da previdência.

                Carlos há anos ocupa um cargo que não o satisfaz. Com 35 anos, todo o entusiasmo juvenil que algum dia existiu nele parece que nunca existiu, é uma quimera de um passado longínquo.  Ele não gosta dos seus colegas de trabalho, do seu chefe,  de ficar preso no trânsito. O seu desgosto com a profissão começou a se alastrar para outras partes da vida. O cinismo virou a sua forma preferida de comunicação com os seus pares, afinal “homens não choram”.  De repente, sua mulher não é mais atraente. Não vê mais sentido em ter hobbies, pois acha uma perda de tempo.  Tudo que foi colorido se torna cinza, carregado, pesado. Matricula-se num curso online de um filósofo que nunca foi para academia, e lá aprende a ficar ainda mais zangado, brabo com tudo e todos.

                A situação de Carlos parece péssima. Porém, Carlos está esperançoso que sua vida vai dar uma guinada para melhor. Ele briga e ofende pessoas que não compartilham da sua visão gloriosa. O que Carlos percebeu? Porque com tanto afinco se compromete com algo? Será que ele percebeu que sua mulher sempre esteve ao seu lado nos momentos de dificuldade, e está disposto a brigar com tudo e todos para manter aceso um sentimento lisonjeiro por sua companheira? Ou será que ele percebeu que o curso online era oferecido por um charlatão que ao invés de realmente indicar caminhos para que ele ficasse “amigo do conhecimento”, na verdade o deixa mais paranóico, agressivo e com perda de qualidade de vida? Ou talvez ele começou a se esforçar com afinco para aprender Inglês, e quem sabe realizar o sonho de viver na Austrália nem que seja por um ano, um objetivo que com certeza faria o seu trabalho parecer muito mais “suportável”? Não, na verdade Carlos está esperançoso com a aprovação da reforma da previdência.

                Você possui alguma coisa em comum com o Jonas, a Michele ou o Carlos, prezado leitor? Identificou-se? Achou absurdos os relatos? Tragicômicos? Será tão distante assim mesmo da sua vida? Pessoas estão pré-diabéticas (e nem sabem disso), sem ânimo, tristes, com relacionamentos pessoais deteriorados, pais que não conversam com os seus filhos e vice-versa, adultos mal resolvidos com sua sexualidade e emoções, desgostosos com tudo, infelizes, refugiando-se em realidades virtuais que apenas as afundam ainda mais, mas por algum motivo essas mesmas pessoas acreditam que seja mais importante falar sobre a reforma da previdência do que esses problemas tão visíveis e profundos em suas próprias vidas.

                Todos nós podemos decidir hoje mesmo qual tipo de vida queremos ter e quais tipos de relacionamentos almejamos usufruir.  Nem mesmo dinheiro é necessário para fazer grandes mudanças. Com o peso do seu corpo você pode fazer inúmeros exercícios, o que o deixará mais focado, mais em forma, mais saudável, e com uma confiança muito maior. Com um simples “bom dia” nós podemos interagir com a nossa família, nossos vizinhos e conterrâneos de forma muito mais amena e agradável. Podemos escolher entre sermos empáticos, conscientes dos próprios erros  e mais satisfeitos, ou podemos ser rancorosos, agressivos com quase todos, e no fundo com nós mesmos. Podemos nos queixar de nossas condições financeiras, podemos apontar para os outros, ou podemos nos esforçar para que possamos atingir objetivos tangíveis. Tudo isso não precisa de dinheiro, um talento extraordinário, ou algum gadget novo. Porém, boa parte das pessoas prefere devotar o seu tempo e energia para discutir a reforma da previdência.

                Veja, a reforma da previdência é importante, sem dúvidas, esse mesmo blog escreveu sobre a mesma há três anos Não, a previdência não possui déficit. Sim, ela é um grande problema. Não há nenhum mal você enquanto cidadão querer ter uma opinião, além do mais se está prestes a se aposentar pelas regras atuais. Porém, a reforma da previdência, mesmo se aprovada ou rejeitada, não fará a testosterona de Jonas subir, a auto-estima de Michele melhorar, e a sanidade mental de Carlos voltar.  E, prezados leitores, a reforma da previdência é usada apenas como um exemplo, uma metáfora para a nossa miopia (não iria colocar essa frase, pois parece-me claro que esse era o caso, mas ganho em clareza às expensas de fluidez do texto).

                Portanto, a nossa vida precisa ser refletida. Precisamos encontrar tempo e espaço para nós mesmos. Precisamos descobrir quem realmente somos, auscultar os recônditos da nossa consciência, para podemos entender o que podemos fazer para nos tornamos pessoas melhores e mais satisfeitas com a vida. Cabe a você, prezado leitor, o chão está do seu lado, basta se inclinar e começar a fazer flexões. Não conseguiu nenhuma? Sua força está absurdamente diminuta. Mas não tem problema, esforce-se que você vai conseguir. Conseguiu apenas quatro? Não tem problema, aos poucos, cada dia vai tentando fazer uma a mais, quem sabe daqui alguns meses você não consegue fazer 200? Pode ter certeza que quando conseguir fazer 100, sua auto-estima terá aumentado em várias partes diversas da sua vida. O chão está aí, você está pisando nele. Mas, se quiser brigar, se preocupar, gastar horas e horas, com a reforma da previdência, fique à vontade, a vida é sua.  

Depois de sete horas num barco (isso depois de pegar dois voos e um ferry), tive que pegar esse barquinho por mais de duas horas, molhando todas as roupas e equipamentos meus e da minha companheira. Fiquei muito brabo? Infeliz?
Como não ficar feliz num lugar desses? Mentawai -Indonésia - final de 2015 (saudade!)


Um abraço!



               

sábado, 5 de janeiro de 2019

NUM REINO TROPICAL DISTANTE


Narrador: Era uma vez num lugar distante um reino tropical. Dizia-se que nele tudo que se planta necessariamente deve dar-se.  Um reino de farturas, mas afogado em inúmeros problemas. Violência, desrespeito aos anciões, precocidade sexual eram apenas algumas dentre as inúmeras chagas a assolar esse país alegre e triste ao mesmo tempo. Os infortúnios remontavam de décadas, pensadores diziam que séculos, mas de súbito novos iluminados descobriram as soluções para os antes tidos insolúveis problemas. De pronto foram aclamados como “salvadores e geniais” e a eles foi incumbida a nobre missão de finalmente acordar o gigante para os seus destinos divinos grandiosos….

Professor discute com um aluno

Aluno de nome Queiroz: Professor, seria errado ou imprudente, receber dinheiro alheio como fosse seu?

Professor: Aparentemente, sim, Queiroz, mas seria preciso saber as circunstâncias que isso se deu para se fazer um juízo  mais aprofundado.

Aluno de nome Queiroz: Quer dizer que você professor está a relativizar o ato de receber um dinheiro alheio como próprio?

Professor: Não foi exatamente isso que eu disse.

Aluno de nome Queiroz: Foi exatamente o que você acabou de dizer! Por acaso também acha que a “depender das circunstâncias” um menino deixa de ser um menino? Por acaso adere à nefasta teoria de que meninos vestem rosa de forma metafórica? 

Professor: Como é que é Queiroz? Isso é jeito de se falar com o seu professor? Se você estivesse no reino do Japão….

Aluno de nome Queiroz: Não negas então? Não sabe que o meu direito é ser ensinado de forma neutra? E que me atacas ao dizer que a pedofilia pode ser justificada em certas ocasiões?

Professor: Do que você está falando?

Aluno de nome Queiroz: Você é um pervertido-doutrinador-comunista e deve ser denunciado aos Tribunais de Ética Escolar em homenagem a Oluvus Corvulhas contra o gramscismo-marxismo-socialismo-gayzismo

Professor: Quem é esse Oluvus Corvulhas? Ele frequentou a escola ao menos?


No Tribunal de Ética Oluvus Corvulhas

Juiz Maro: O Sr. é acusado de conspirar contra a juventude. Alguma palavra em sua defesa?

Professor: Grande e prestigioso juiz, antes de mais nada, se eu tiver feito algum mal-feito e me arrepender perante vossa sumidade, poderei ser perdoado?

Juiz Maro: Não, a lei é cega e é para todos, bem como a sua aplicação. 

Professor: Não me leve a mal eminente magistrado, mas eu li recentemente que vossa magnificência teria perdoado pessoa de seu círculo íntimo. Aparentemente, houve arrependimento de um mal-feito, tudo leva a crer que foi sincera e legítima a declaração espontânea de culpa, tanto que o acusado marcou até mesmo na própria pele palavras de salvação a respeito de dito episódio. Na ocasião, vossa eminência proferiu um juízo obsequioso em relação ao arrependido infrator, não poderia, já que a Justiça é cega, tal jurisprudência se aplicar à minha pessoa?

Juiz Maro: Petulância. Estás a zombar dessa corte que leva o nome do maior intelectual que esse reino tropical já teve? Um mago das palavras e dos modos, com ele aprendemos que o dito genial Einstein era um farsante, que as leis de um tal de Newton não faziam sentido, e um tal pensador chamado Kant (que nome horrível) era um idólatra sem miolos. Não te envergonhas de tal ato vil ainda mais a ser praticado no tribunal em homenagem ao grande homem, ainda mais tu que se diz professor?

Professor: Einstein e Newton estavam errados? Ainda não tinham me avisado vossa magnificência, e se eles estavam errados como os Yankees e os Vermelhos colocaram artefatos humanos no espaço? Mas, deixando isso de lado, o que isso tem a ver com a minha pergunta sobre a necessidade de se aplicar a mesma jurisprudência para casos idênticos, já que a Justiça é cega?

Juiz Maro: Insolente! O juízo de culpa se faz devidamente presente, não preciso nem ouvir a defesa, pois claramente tu és um doutrinador gramscismo-marxista-socialista-gayzista. Porém, como sou benevolente, justo, sábio e apolítico, irei encaminhá-lo para o professor-mor.

Enquanto Isso numa Conferência Internacional

Representante do país tropical: E por causa do que decidiu o grande líder, nosso soberano reino decide que os fatos nada valem, que tudo é relativo, que o gramscismo-marxismo-socialismo-gayzismo tomou de assalto os cientistas do mundo, que é matematicamente impossível o homem interferir na natureza pois somente Deus tem esse poder, e tendo como consequência resolvemos decretar que as leis e regras do que vocês chamam ciência nada valem se um povo possui coragem, o divino e o juiz Maro ao seu lado.

Representante do oriente: Qual grande líder, do seu reino? O que ele tem de grande?

Representante do país tropical: Obviamente eu me referia ao grande líder Yankee, aquele que temos admiração, respeito e subordinação. Aquele que com sua ousadia e senso de justiça ajudou a iluminar os verdadeiros problemas da humanidade.

Representante da África: A fome, subnutrição, as doenças esquecidas que dizimam milhões em meu continente, a falta de saneamento?

Representante do país tropical: Evidentemente que não.

Representante dos países ocidentais: O espectro de algoritmos de inteligência artificial e os seus impactos na sociedade de ordem social, econômica e moral? Ou os problemas de uso e gestão dos recursos finitos do nosso mundo?

Representante do país tropical: Não!

Representante dos países nórdicos: Seria então a depressão, os índices de suicídios que aumentam sem parar, o senso de infelicidade e mal-estar mesmo com sociedades cada vez mais afluentes materialmente?

Representante do país tropical: Não, não, não! Vocês não sabem nada, e por isso que foi preciso nascer um gênio como Oluvus Corvulhas para ensinar, e o grande líder para mostrar o exemplo prático.

Menino que observava tudo atônito: Mas qual é o problema então?

Representante do país tropical: Ora, o gramscismo-marxismo-socialismo-gayzismo!

Menino que observava tudo atônito: Ah….

Representante do Oriente: Você sabe que estamos em 2021, não?

Representante do país tropical: e daí?

Representante do Oriente: Ora, o seu “Deus” caiu, não sabia disso?

Representante do país tropical: Ai!


Professor com o Professor-Mor

Professor-Mor: Você é acusado de gayzismo-comunismo-fordismo, o que tem a dizer?

Professor: Eu pensei que eu era acusado de outra coisa. Deixa para lá, me sinto como Josef K.

Professor-Mor: Quem?

Professor: Como assim quem? Você não é o professor-mor? Josef K. “Alguém certamente havia caluniado Josef K. pois uma manhã ele foi detido sem ter feito mal algum.”

Professor-Mor : ? Não te entendo.

Professor: deixa para lá.

Professor-Mor: o que tem a dizer em sua defesa?

Professor: Ei, professor-mor, eu já aludi a Josef K., preciso desenhar? Isso quer dizer que o que quer que eu diga será inútil, é a essência de um julgamento kafkiano. 

Professor-Mor: O quê?

Professor:  Franz Kafka, o escritor, pelas barbas do profeta!

Professor-Mor: Ele escreve sobre gayzismo, marxismo, conservadorismo?

Professor: Ele escreve sobre os recônditos mais profundos e angustiantes da existência humana.

Professor-Mor: Balela então. Papo de politicamente correto. Esse escritor de quinta categoria é ao menos indicado pelo grande Oluvus Corvulhas?

Professor: Sei lá, acho que não.

Professor-Mor: Balela a raiz quadrada.

Professor: não queria dizer balela ao quadrado?

Professor- Mor: Insolente. Está condenado, com o grave agravante que agrava a situação de você ainda ser islamismo, ou você acha que o seu "pelas barbas do profeta" iriam me enganar?

Professor: Não quer dizer islamita?

Professor-Mor: Insolente a raiz quadrada!


Narrador: E assim no meio de pessoas tão iluminadas por desígnios “quase divinos”, de julgamentos escorreitos, de ideias brilhantes, o reino tropical se desenvolveu, se desenvolveu, e se desenvolveu mais um pouco, alcançando os píncaros dos grandes destinos que assim o esperavam.


obs: Os fatos aqui narrados são ficcionais e não guardam nenhuma relação com situações ou pessoas reais.  Qualquer semelhança com a realidade é puro acaso.



segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

COMO FOI 2018 PARA O SOULSURFER?


                Olá, prezados leitores. Não que alguém possa se interessar sobre como o meu ano foi, ainda mais num cotidiano cheio de tantas informações. Porém, mesmo assim, farei uma retrospectiva do meu ano. É preciso que fique claro que esse tipo de texto, como talvez todos os outros, serve mais para agradar o autor do que aos leitores. Portanto, não deixa de ser uma forma de colocar “no papel” para mim mesmo o que foi o meu ano, e nisso com certeza há certo valor em fazê-lo.

NASCE UM PAI – O FATO MAIS IMPORTANTE

                Minha filha completou um mês. Dentre tudo o que ocorreu, com certeza o nascimento da minha filha foi um dos momentos mais impactantes não apenas do ano, mas de toda a minha vida. A existência muda. Confesso que ainda continuo tocando a vida de uma maneira similar antes do nascimento, é inegável que a carga fica muito mais em cima da mulher nesse começo, mas a vida muda com certeza.

                Na minha perspectiva, mudou para melhor. Dizem que a partir dos três anos, fica muito melhor, pois a criança interage muito mais, e é mais independente. Isso apenas me anima, pois se a Serena ainda não dá nem mesmo sorrisos sociais (o que acontece com 2-3 meses) e já é incrível interagir com ela, imagina a interação aumentando? Será fantástico, com certeza.

                Não posso deixar de dizer que devotei certo esforço intelectual antes do nascimento. Tanto eu como minha mulher nos preparamos bastante. Fizemos um curso sensacional na Universidade Federal de Santa Catarina sobre gestantes que durou dois meses, diversos livros foram lidos, palestras assistidas, etc, etc. Aliás, o curso foi sensacional, muito bacana saber que é possível haver serviços públicos de qualidade tão grande. Aliás, se não fosse o fato de termos uma obstetra, nós com certeza teríamos optado por ter a nossa filha no hospital universitário, que inclusive é referência em parto humanizado e aleitamento materno.

                Falando em parto humanizado e aleitamento materno, quando se estuda um pouco mais a respeito, é incrível como se percebe a miopia crescente em que vivemos. Pessoas assustadas com “o Foro de São Paulo”, embasbacadas por teorias conspiratórias de qualidade para lá de duvidosa, perdendo horas e horas com bobagens, mas quase ninguém sabe que o Brasil é o campeão mundial em Cesáreas (na verdade vice-campeão). É incrível. A ONU, tendo em vista dados estatísticos, estima que entre a 10-15% dos partos deveriam ser cesarianos. No Brasil, esse índice chega a absurdos e inacreditáveis 57% (elevado número de cesarianas - ONU), sendo que em alguns hospitais privados é na ordem de 90%.

                Quando estávamos na maternidade, pude ver o “quase assombro” das enfermeiras ao saber que o parto tinha sido natural sem qualquer espécie de anestesia. Ao ver uma lista dos dos quinze recém-nascidos do andar onde estávamos apenas dois (a Serena inclusa) tinham sido partos naturais É uma tragédia. O que é ainda pior é a “naturalização” da cesariana por médicos, pelas próprias gestantes e pela sociedade como um todo. Meses antes do nascimento, ao visitar a maternidade, eu e minha companheira enchemos a enfermeira que comandava o tour pela maternidade com perguntas sobre UTI Neonatal, plano de parto, administração de oxitocina, entre outras perguntas, quando um homem perguntou como era o “procedimento cirúrgico” do parto. Só pensei comigo mesmo “barbaridade”.

                Para os que não sabem, crianças que nascem de cesarianas tem uma probabilidade muito maior de ter diversas complicações de saúde no futuro, fora que o procedimento em si é extremamente agressivo para a mulher. Além do mais, o parto natural privilegia o momento que a criança quer nascer, e não alguma outra comodidade que nada tem a ver com a criança. 


        A cesariana é uma cirurgia que pode salvar vidas, e não se trata de demonizá-la, mas sim de encará-la como a exceção para casos que realmente necessitam. Números tão altos de cesariana, e os consequentes problemas de saúde que isso ocasiona, é um problema crítico de saúde pública do país, ordens de grandeza muito mais importante do que qualquer baboseira conspiratória sobre um golpe comunista patrocinado pelo “Foro de São Paulo”. Sim, estamos socialmente cegos para o que realmente importa.

                Não tenho a menor dúvida que o nosso conhecimento prévio ajudou que o parto fosse tão especial, um momento não de amargura ou infelicidade, mas sim de extrema felicidade tanto para mim como para a minha companheira. Como o nascimento é o primeiro e talvez o mais importante trauma que um ser humano passa, espero que tenhamos amenizado isso para a nossa filha. Há um mês, nasceu um pai, e uma filha, e isso acalenta o meu coração.


RELAÇÕES SOCIAIS


                Esse vídeo de sua filha, acalenta o meu coração”. Essa frase maravilhosa foi dita pelo meu bom amigo Kim. Conhecemos o Kim na Rússia quando estávamos caminhando para a fase final da nossa viagem de dois anos.  Kim é filho da Regina, uma mulher de cinqüenta e poucos anos que coordenava um grupo de travessia de natação em mar aberto que minha mulher participava. Mulher sempre sorridente, sempre disposta a ajudar, um astral 100%. A Regina e minha mulher ficaram amigas, e encontramos o “famoso” Kim morando na Rússia, mais precisamente na belíssima cidade de Peter (São Petersburgo).

                “Famoso”, pois Kim aos 17 anos saiu de casa e caiu no mundo. Consertou barcos (ou pranchas?) na Polinésia Francesa, foi garçom na Costa Rica (ou México?), passou tempo na África, e por fim se apaixonou pela Rússia (ajudou o fato de existir uma russa em específico). O Kim com os seus 27 (ou 28 anos?) é uma pessoa extraordinária. Extraordinária mesmo, uma das pessoas mais bacanas que conheci nos últimos anos.  Em 2017, ele voltou ao Brasil, e ficou ate o começo de 2018. Todos os encontros com ele eram especiais, um sujeito sensível, de mente absolutamente aberta, inteligente (ele estava ganhando dinheiro escrevendo artigos em Inglês para uma revista de surfe da Califórnia , ou é da Austrália?), um cara extremamente maneiro.

                O que sempre me chamou, e ainda chama, atenção no Kim é como ele realmente se preocupa em fazer uma resposta decente que se importe com o que você escreveu. Ele manda mensagens enormes, e cheias de insight. Quando falamos do nascimento da nossa filha, ele mandou uma mensagem de sete minutos no whatsapp, cheia de carinho e reflexões. Num mundo onde as pessoas mandam mensagens feitas por outros, encaminham bobagens quaisquer para 100-200 pessoas ao mesmo tempo, que alívio é saber que ainda é possível ter interações mais genuínas, sinceras e mais intensas com pessoas.  É incrível como a esmagadora maioria das pessoas não consegue externar os seus sentimentos, o que foi agravado ainda mais pelo uso “imbecilizante” e “alienador” das redes sociais.

                Portanto, como não uso redes sociais (a não ser o whatsapp para mensagens pessoais), minhas relações pessoais talvez não estejam tão degradadas. Porém, como pessoas extremamente importantes estão imersas nessa loucura, minhas relações acabam se degradando. É horrível. É evidente que as redes sociais não são responsáveis únicas pelas fraturas de relacionamentos entre pais e filhos, irmãos, vizinhos, amigos, “estranhos” de uma comunidade, porém estamos sim criando um ambiente extremamente tóxico para que relações realmente profundas, prazerosas e intensas possam florescer.

                O que às vezes é triste é que você pode, como eu tentei em diversas oportunidades, falar “ei, a forma como você encara a sua vida é a forma como você irá se sentir no mundo”, ou “coisas ruins acontecem, o que importa é o que fazemos disso”, ou “não valha a pena ficar brabo com coisas que não temos nenhum controle, leia um livro ao invés de assistir televisão ou ficar como um viciado em pequenas doses de dopamina passando o dedo para baixo num aparelho de celular”, não adianta. É um processo único e exclusivamente pessoal, e não temos como convencer as pessoas, mesmo se forem próximas a nós. “Veja, olhe a quantidade de beleza que existe no mundo”, seria uma frase que com certeza o Kim diria, ou se ele ouvisse faria todo o sentido para ele. Infelizmente, para uma boa parcela das pessoas é apenas uma frase sem cheiro, ou um meme compartilhado com centenas de pessoas de forma acrítica e inconsciente.

             No último sábado encontrei o Claudião. Ele é juiz de direito há uns 20 anos, extremamente respeitado. Tem uma tatuagem do Che Guevara num braço e do Mozart no outro. Exímio tocador de violino, se encontra quando toca metal pesado com seu baixo. É um músico fenomenal e uma pessoal espetacular. Ele há dois meses se acidentou voando de parapente (sim, ele ainda compete nacional e internacionalmente nesse esporte). Ele quebrou o ombro em três partes, o quadril em outras três partes. Está com dor desde então, toma tramal todo o dia (remédio opiáceo), teve que ficar em casa sem se movimentar muito todo esse tempo. 

         "Como você está Cláudio?", eu pergunto. "Ah, eu estou ótimo!". "Nunca li tanto na minha vida, três livros por semana, esses meses estou usando para ficar comigo mesmo e refletir sobre a vida e o que é importante". "Fico com meus filhos, fico com a minha mulher mais tempo", e "já estou começando a poder me mexer mais, inclusive vamos fazer um som hoje, né?".  Sim, ainda há pessoas que mantém a sanidade e conseguem ver que a realidade e a forma como vemos e sentimos o mundo é feita principalmente de como reagimos aos eventos, sejam eles adversos ou não. Se reagirmos com vitimismo, raiva, culpa, apego excessivo ao passado, é evidente que nossa vida será pesada.

                Como comecei a fazer crossfit de uma maneira mais intensa (às vezes treino três vezes ao dia), acabei conhecendo muitas pessoas bacanas desse universo, o que ampliou em certa medida o meu círculo de pessoas conhecidas. Para ser sincero, conheci diversas pessoas bacanas pelo crossfit que hoje posso chamar de amigos, e que nos ajudaram, e vem ajudando, com o nascimento de nossa filha.  Foi tão interessante essa nova construção de relacionamentos, que o atual baterista de minha banda tem incríveis 13 anos e é filho de um casal de amigos do crossfit. Estava há vários meses sem tocar pela ausência de baterista, e não me aparece esse garoto de 13 anos que toca muito e além de tudo é extremamente bacana? Muito legal.

                Então, minhas relações sociais nesse ano foram boas e melhoraram ao mesmo tempo em que se deterioraram em certas perspectivas.


PARTE FÍSICA E MENTAL – PRIMEIRO ANO “INDEPENDENTE FINANCEIRAMENTE”


                Faz um pouco mais de um ano que saiu minha exoneração do cargo de Procurador Federal, sendo assim o ano de 2018 foi o primeiro ano onde não tive uma atividade oficial. Nossa, que felicidade e alívio. 

          Do ponto de vista físico, nunca estive tão bem.  Como dito, comecei a treinar crossfit com mais intensidade. Meu corpo se modificou, fiquei muito mais “torneado” e musculoso (apesar de pesar pouco), e meu condicionamento aumentou absurdamente.  Hoje posso fazer treinos de 100 barras, 200 flexões, corrida, e manter o ritmo por 30-40 minutos, o que seria impensável alguns meses atrás, e é impensável mesmo para pessoas que fazem apenas academia tradicional, o que dirá em relação aos que são sedentários. 

         Aos poucos vou aprendendo os movimentos de Levantamento Olímpico (que são extremamente complexos, um movimento como snatch é considerado o segundo movimento mais complexo dentre todos os esportes olímpicos), e cada vez mais me interesso por calistenia que aparentemente é o meu maior “talento” nessa área. Aliás, eu nunca poderia me imaginar que eu me interessaria pelas técnicas de levantamento olímpico, pelo contrário achava chato e sem sentido quando via de relance essa modalidade nas olimpíadas. Hoje em dia, eu acho incrível e até mesmo bonito ver profissionais fazendo levantamento, é algo extremamente técnico e difícil.

                A atividade física é essencial para a minha vida atualmente. Além de me preparar fisicamente, me deixa muito mais feliz e conectado com a realidade, e com certeza absoluta tem um impacto grande em minha saúde mental.  Quanta melhoria teríamos na sociedade se as pessoas saíssem das posições erradas ergonômicas que ficam para acessar a internet no celular e começassem a fazer exercícios de maior intensidade.

                Minha saúde mental nunca esteve tão boa. Não guardo mágoas, ressentimentos, não tenho ansiedades ou crises de qualquer natureza. Minha mulher sempre me diz que “você é a pessoa mais sem problemas e bem resolvida que já conheci”, e é assim que me sinto mesmo. E a sensação é ótima. Isso talvez me impeça de ver e sentir as dores dos outros que possuem muitas questões mal resolvidas em suas vidas, o que de certa maneira pode me impedir de estabelecer conexões mais profundas com essas pessoas. Porém, na medida do possível, eu tento me colocar no lugar dessas pessoas.

                Portanto, do ponto de vista físico e mental o ano de 2018 foi excelente.


PARTE FINANCEIRA – O DINDIM


                No ano que não fui Procurador, foi o ano disparado que mais ganhei dinheiro. Não tinha feito, mas dias atrás coloquei numa planinha de Excel, e apenas nas minhas operações imobiliárias com leilão o meu lucro líquido (depois de pagos comissão, impostos, despesas, etc) chegou aos sete dígitos. Sendo assim, o ano foi muito bom do ponto de vista de imóveis. 

         Como tenho diversos outros imóveis que consegui regularizar a parte jurídica nos últimos meses (e ainda há alguns pendentes), é possível que o ano de 2019 seja ainda melhor, com lucros ainda maiores. Como não pretendo parar em 2019 (apesar de ter pensando assim alguns meses atrás) e como aumentei a minha atuação geográfica para incluir todo o Estado de São Paulo (o que já me frutificou quatro aquisições, e talvez ano que vem renda talvez umas 6-7 apenas nesse Estado), é muito provável que o ano de 2019 seja melhor, e isso é muito mais do que eu remotamente preciso. Se colocar os rendimentos de indenização do governo pela minha adesão ao PDV, meus rendimentos em renda fixa (grosso do meu capital), e meu patrimônio aumentou num ano o que seria suficiente para gerar uma independência financeira razoavelmente segura.

                Tirando os gastos com o bebê que foram "extraordinários", e com a reforma do apartamento onde moro, o meu “gasto basal” para comer bem, viver bem, é algo na faixa de R$ 5.000,00 mês, ou R$ 60.000,00 ano. Podemos viver com menos e mantermos ainda a qualidade de vida, mas realmente não precisamos de mais para aumentar nosso bem-estar.  Mesmo chegando a gastos de R$ 180.000,00 (R$ 15.000,00 por mês, não consigo me imaginando gastando mais do que isso em coisas que realmente fazem sentido para mim e para a minha família), isso daria taxas de retirada ínfimas comparadas ao total do meu portfólio. 

       Portanto, não tenho riscos financeiros, pelo contrário, a tendência é a coisa aumentar ainda mais e mais. Comprei uma parte de uma empresa de tecnologia extremamente promissora, e talvez, oxalá, em 2020 esteja tirando 25.000,00/30.000,00 apenas dessa empresa que não custou muito.

                Perdi 75 mil numa operação envolvendo eventos. Mais uma vez perdi dinheiro com isso (a primeira foi em 2003). Cheguei a estar 265 mil no negativo, mas o impacto foi minimizado. Tenho uma execução de mais de 200 mil para ajuizar e quem sabe não consiga recuperar e ainda ganhar um dinheiro, mas não conto com isso, apesar de ter alguma probabilidade. Fiquei brabo comigo e com a situação, mas já passou, e é preciso olhar o portfólio como um todo, e esse foi apenas um “escorregão”.

                No mais, não comprei FII, não comprei ações, na realidade nem olho isso mais há algum tempo. O meu único risco é o Brasil, então, assim como o Viver de Renda, minha preocupação é formar um patrimônio fora descolado do patrimônio no Brasil. Mandei pouco para fora em 2018, pois o dólar se manteve acima do câmbio real de R$ 3,45/3,50, talvez eu deva mandar valores pequenos como U$3.000,00 mês, mas mesmo assim mandar alguma coisa mesmo quando o dólar estiver em 110 do índice do Banco Central, que é mais ou menos onde está. Quem sabe o dólar não caia abaixo de 100, se isso ocorrer irei aumentar o envio de dinheiro para fora.


 PROJETOS OUTROS – PODCAST, BANDA, BLOG. LIVRO


                O novo blog não saiu. O Podcast nem comecei a tentar, apesar de querer bastante e achar que há uma carência enorme disso no Brasil. Tudo que eu posso indicar de qualidade é estrangeiro e em inglês, e a verdade é que 99% da população, talvez 99.9%, não consiga entender um podcast em inglês sobre um tema mais complexo. Imagine ter um programa de 1 a 2 horas com pessoas interessantes, de variadas matizes ideológicas, sobre diversos temas, e onde o entrevistado fosse respeitado, e se tentasse genuinamente saber o que ele pensa sobre uma miríade de questões, sem necessidade de frases de efeito, ofensas, etc? 

        Eu acho que seria muito bacana. O fato é que eu preciso contratar alguém para fazer a parte técnica, pois eu não tenho o menor “saco” de aprender por mim mesmo e gastar tempo com isso. Quem sabe em 2019, quem sabe.

                O livro sobre leilões não saiu. Ele até no começo do ano tomou forma, e escrevi umas 400 folhas, mas por motivos alheios fui abandonando. Preciso retomar, e publicar, mas o meu ímpeto inicial deu uma enfraquecida. Continuo tocando numa banda, e está bem bacana. A música é algo extraordinário, e me faz muito bem.



DO QUE SENTI FALTA EM 2018? DO MUNDO! MAS SÓ DE PENSAR QUE VOU PODER MOSTRAR O MUNDO PARA MINHA FILHA E  SORRISO JÁ ABRE NO MEU ROSTO


      Sim, a falta de viajar está começando a pegar um pouco no final de 2018. E pensar que as imagens abaixo é apenas uma fração mínima do que eu e minha mulher já vivenciamos nesse mundão, seja de lugares, comidas, pessoas agradáveis e experiências. Filha, isso tudo espera por você!


 Seul - Coréia do Sul
 Jantando com Amigos Mongóis na capital da Mongólia
 Soulsurfer como "cobaia" de um mágico de rua em Busan no sul da Coréia do Sul
Arrozais no Sul da China
 A família querida que nos acolheu em sua casa por vários dias na belíssima cidade iraniana de Esfanhan (que delícia de café)
A maravilhosa e inexplorada parte leste da ilha de Lombok Indonésia

 Um dos maiores desastres ambientais da história humana: o desaparecimento do mar de Aral. Foi difícil chegar nesse lugar no Uzbequistão, mas valeu muito a pena. Só desse dia tem no mínimo umas 3-4 histórias
Parte extremo oeste e selvagem da Mongólia. Sim, o paraíso existe. Escalamos a montanha menor por conta própria e risco (e tem 3-4 histórias diferentes apenas desse dia)

Cantando no museu comunista de Kazan (Rússia). Cidade irada, capital da província muçulmana do Tartastão

Parque Amarelo na China. Esse dia andamos e andamos, e depois andamos mais um pouco. Creio que subi uns 8 mil lances de escada, se não foi mais, mas valeu cada momento.
Passeio pelo lugar mais quente da Terra (deserto de Lut, província de Kermat Irã). Quando fomos estava frio, no verão já foi medido temperatura de mais de 70 graus Celsius. Amigos iranianos gentilmente nos levaram lá, já que é difícil chegar de transporte público

 Viagem de cavalo de três dias pelas montanhas do Quirguistão
Os "assustadores" soldados iranianos pedindo para posar numa foto com um gringo (ou estariam pedindo votos para o Bolsonaba?)


Típico transporte no uzbequestião
Aitolá Khomeini - Mural feito na antiga embaixada dos EUA em Teerã

Um dos lugares mais lindos da terra: Karakul lake. Província muçulmana de Xinjiang (a mais complicada para o governo central, mais ainda do que o Tibet, não sei nem como fomos autorizados a entrar nessa gigantesca província), fronteira com o Quirguistão. Nosso simpático anfitrião, Etnia Quirgiz (pode-se ver pelo chapéu). a esposa dele fez um massa de pastel, com um chá na noite anterior dessa foto (estava um frio de lascar), que valeu a noite



                É isso, meus prezados amigos. Espero que o ano de 2018 possa ter sido bom para vocês, e que 2019 traga novos desafios, esperanças, felicidades, tristezas, ou seja vida. O que desejo para vocês é uma vida intensa que valha a pena ser vivida.

Abraços!