terça-feira, 23 de agosto de 2016

NÃO "SE VENDA", APAIXONE-SE. NÃO FAÇA NETWORKING, FAÇA AMIGOS

Olá, colegas. Depois de semanas intensas em partes remotas da Mongólia, estou na Rússia! Uau, é um privilégio poder visitar este país detentor de uma cultura e história tão diversa e rica.  Estou na capital da República de Burtyatia (Ulan Ude). Há uma grande presença de pessoas da etnia Mongol e budistas por aqui. Aliás, ontem foi bem interessante ver jovens bem loiros tipicamente russos interagindo com jovens com aparência tipicamente mongol. Na bem da verdade, há dezenas de Repúblicas, regiões com autonomia, na Rússia. Há até mesmo uma região autônoma Judia. Tudo muito interessante. Passadas as preliminares, vamos ao tema do presente artigo.

  Eu acredito que cultivamos no nosso dia a dia relações adoecidas. Isso era muito claro para mim há muito tempo, mas depois de quase 17 meses na estrada a sensação aumentou significativamente.  Há situações evidentes disso, e basta andar em alguma cidade brasileira, ou em certo grau em qualquer outra cidade do mundo, para presenciar isso. Se observarmos as diversas interações que ocorrem em mídias sociais como o Facebook, por exemplo, a situação fica ainda mais cristalina. Entretanto, aqui eu quero tratar de aspectos mais sutis que na minha opinião mostram a deterioração da nossa qualidade de vida sobre a perspectiva de interações humanas mais saudáveis.

  
  Como eu tratei num artigo há pouco tempo Newspeak, Neve e A Distorção da Realidade, as palavras, ou seja a forma que usamos para expressar verbalmente a realidade, são importantíssimas e dizem muita coisa sobre uma pessoa, uma sociedade e um tempo histórico.  É possível estabelecer significados para além da simples literalidade de uma palavra, a depender do seu uso e contexto.  É baseado nisso que se pode afirmar com uma dose de convicção bem grande que expressar o relacionamento com outros seres humanos pelo termo amizade ou networking diz muito a respeito de como interagimos uns com os outros.

  Hoje em dia, especialmente em blogs de empreendedores ou de finanças, usam-se diversas palavras para expressar como deveríamos nos portar em relação a nós mesmos e aos outros. Alguns espaços parecem que descobriram a pedra filosofal ao escreverem sobre certos temas, não se dando conta, como disse Eclesiastes na Bíblia,  "que não há nada que seja novo debaixo do sol”

  Portanto, que tipo de mensagem e atitude humana está por trás da ideia que devemos saber vender a nós mesmos? Quantas vezes não li que uma pessoa de sucesso é aquela que sabe se vender, ou seja, consegue fazer com que os outros observem o(s) valor(es) dessa mesma pessoa. Se eu “me vendo” corretamente, as pessoas “me comprarão”, e com isso poderei prosperar na vida, principalmente no sentido financeiro e profissional, pois o meu valor aos olhos dos outros será alto. Penso, reflito, penso novamente, e não consigo achar outra definição que não seja doentia para essa forma de expressar sucesso financeiro e profissional. 

  “Mas, Soul, não funciona? Pessoas que “se vendem” não alcançam sucesso financeiro?”. Talvez, é bem provável que muitas pessoas consigam. Mas a que preço? Talvez o preço seja muito alto. Talvez seja a decepção no final da vida, como é retratado no livro da  enfermeira australiana Bronnie Ware "The Top Five Regrets of the Dying - A Life Transformed by the Dearly Departing" sobre os arrependimentos das pessoas no final da vida. Tenho certeza que muitas dessas pessoas arrependidas no final da vida usaram a mentalidade do “vender-se” a si mesmo para o mundo. 

  E se ao invés de você tentar vender a si mesmo para o mundo em busca de prosperidade profissional, você se apaixonar pelo que faz?  Não há nada mais poderoso que a paixão. Pensamos muito na paixão do ponto de vista amoroso ou sexual, mas pouco do ponto de vista de como viver a vida. Eu, na minha viagem, já convenci muitas pessoas a mudarem roteiros para visitar determinados locais. Sabem porque isso aconteceu? Simplesmente, porque eu falei com paixão sobre esses lugares e as pessoas reconheceram a minha paixão. 


  No célebre discurso do Steve Jobs para graduados de uma universidade americana, o que nos chama tanta atenção? Por qual motivo é tão hipnótico? Por que ele tenta se vender? Não, porque ele fala com paixão sobre a vida e sobre o seu trabalho. Não há nada mais poderoso do que a paixão para chamar atenção e convencer outras pessoas. 

  Agora, para se falar com paixão, é preciso viver a vida apaixonado. Isso se refere a todas as esferas de nossas vidas, sendo o trabalho apenas mais uma delas. Seja apaixonado pelo que você faz, e muito provavelmente as pessoas perceberão e darão muito valor a isso, inclusive na forma de retornos financeiros. Quando alguém tenta se vender, sem paixão, os retornos financeiros podem vir, mas é quase certo que com arrependimentos no final da vida. Afinal, vale a pena viver uma vida sem ser apaixonado pela mesma? 

   O mesmo vale, talvez com mais força, para a expressão networking. Hoje, é utilizada por quase todos. “Vou fazer um curso X, porque meu networking pode aumentar”. "Vou agir dessa determinada maneira, porque daí posso conhecer mais pessoas e o meu networking aumentar e isso será melhor para mim”. De novo, penso, reflito, penso novamente, e não consigo achar outra definição que não seja relações adoecidas para essa forma de encarar o mundo e as relações humanas.

   Ao invés de fazer networking, que é uma definição que nada diz sobre a qualidade das relações entre as pessoas, por que não fazer amigos? Há algo melhor do que amizade? Não, não há. Amizade é a chave para entendermos e alcançarmos estágios felizes de existência. Muitas das minhas alegrias nessa viagem, e pensando em retrospectiva na minha vida como um todo, só foram possíveis por causa do meu envolvimento com outras pessoas de uma forma harmônica. Como é bom ter amigos, mesmo que sejam pessoas que você conhece há pouco tempo, e poder compartilhar momentos com estas pessoas.

  Portanto, ao invés de fazer um MBA para criar uma networking maior, porque não fazer um curso de MBA para adquirir mais conhecimentos e fazer amigos? Por que não ver os outros seres humanos como potenciais amigos e não apenas meios para que você consiga alguma coisa? Além de ser melhor para a forma como você interage com outras pessoas, e via de consequência para a sua qualidade de vida, é mais eficiente como forma de ganhar dinheiro. Quando fazemos amigos, ganhamos a sua confiança. É muito mais fácil fazer negócios ou criar relações com pessoas que confiamos e que confiam na gente. Para mim isso é apenas uma consequência, eu realmente não ligo muito para isso, o que realmente importa é um relacionamento saudável com outros seres humanos. Se o sucesso financeiro é tão importante para tantas pessoas, saibam que ele é muito facilitado quando se tem amigos.  Entretanto, quem apenas quer se “vender" sem possuir paixão pela vida ou pelo que faz, pensado apenas em criar relações com outros para sucesso financeiro, muito provavelmente não fará amizades. 


  Logo, meus colegas leitores, apaixonem-se mais pela vida e façam mais amigos. O seu “Eu" à beira da morte no futuro, irá agradecer muito. Quem sabe até mesmo o seu portfólio financeiro irá se beneficiar disso.

Apaixonando-me mais ainda pela Vida. Primeiro dia de hike no Tavan Bogd National Park, no remoto Far West da Mongólia. Literalmente, na fronteira entre Mongólia, Rússia e China

  Um grande abraço! 






terça-feira, 9 de agosto de 2016

A TOLICE DE SE TORCER PELO INSUCESSO DOS JOGOS OLÍMPICOS NO BRASIL

Olá, colegas! Como estão? Por aqui tudo ótimo. Depois de alguns dias estou dormindo numa cama, com chuveiro quente e banheiro. Estou na cidade de Olgii, extremo oeste da Mongólia. A jornada até aqui foi isso mesmo: uma verdadeira jornada. A quantidade de beleza que vi nessas duas últimas duas semanas é algo indescritível. Não há palavras, muito menos de um escritor mediano como eu, para transmitir o que está sendo essa viagem.

    Entretanto, antes de dormir, e antevendo que ficarei mais duas semanas sem internet até chegar à Rússia, resolvi escrever uma breve reflexão. Eu não vi a abertura dos jogos olímpicos, o que foi uma pena, pois realmente gostaria de assistir. Aliás, eu quase não sei o que está acontecendo com o país em termos de noticiário. Hoje, tentei ler algo, mas desisti, pois era muita coisa . Aliás, “muita coisa” é um exagero, talvez seja exatamente a “mesma coisa” apenas escondida numa cacofonia de informações que serve apenas para tornar as pessoas viciadas num estágio anti-reflexivo. Porém, isso é tema para um outro artigo.

  Fui surpreendido ao receber uma mensagem de um amigo espanhol dizendo que a abertura dos jogos tinha sido muito bonita. Receoso, como muitas outras pessoas, de que algo muito ruim pudesse acontecer, fiquei aliviado ao saber que ao menos a cerimônia de abertura transcorreu de forma tranquila. E por qual motivo se preocupar com isso? Qual é a importância disso para um desempregado ou alguém que não tem acesso a um tratamento médico decente quando se está doente? A resposta sincera, e ao meu ver correta, é Nenhuma. Para alguém que padece de algum mal significativo, os jogos olímpicos, mesmo que realizados no Brasil, talvez não signifiquem nada. 

  Se assim o é, por qual motivo  eu tinha algum receio? Há algumas pessoas, umas de boa-fé outras nem tanto, que acreditam que por meio da humilhação, da expiação pública, algo defeituoso possa ser consertado. Eu costumava pensar assim para alguns tópicos, principalmente quando tinha um pouco mais de rancor no coração. Querem um exemplo prático? Eu torço para o Santos. Quando era mais jovem me importava, hoje nem tanto. Quem se lembra um pouco, o torcedor santista com certeza recorda, sabe que o Santos foi diversas vezes prejudicado por causa da Seleção Brasileira de futebol. O motivo? O calendário do futebol brasileiro é tão mal feito, que jogos oficiais da seleção muitas vezes coincidem com jogos dos times nacionais. Isso faz com que times que possuem bons jogadores sejam prejudicados quando de convocações, numa lógica de incentivo reverso difícil de entender. Lembro-me de uma Libertadores de 2005 que os dois principais jogadores do Santos não puderam jogar uma partida decisiva pelas quartas-de-final. Isso acontece na Europa? Alguém imagina o Barcelona jogando um jogo decisivo na UEFA Champions League sem o Neymar e o Messi por causa de jogos de seleção? É simplesmente impensável. Mas no Brasil acontece. 

  O sistema que gerencia o futebol nacional é tão apodrecido que coisas como essa acontecem. Assim, pensava que a derrota da seleção do Brasil iria trazer mudanças para o futebol nacional. Logo, nunca fui muito fã da seleção de futebol nacional. Uma derrota acachapante de 7x1 para a Alemanha só poderia ser a coroação de um processo que levaria a mudança do futebol brasileiro para melhor. Ora, como as coisas poderiam ser as mesmas, depois de uma humilhação pública desse porte, ainda por cima em solo nacional? 

  Fazia alguns meses que não via nenhuma notícia do Santos. Soube que há uma nova geração de talentos, não há nenhum clube do Brasil que se aproxime do Santos no quesito revelação, e que desfalcariam o Santos por causa da Seleção. Algo mudou? Não, absolutamente nada. E dificilmente irá mudar.

  O Congresso Nacional é diariamente submetido ao escárnio público pelas mais variadas razões: corrupção, falta de inteligência dos seus membros, clientelismo da pior espécie, etc, etc. Ultimamente, o nível vem caindo a patamares impensáveis até pouco tempo atrás. Sempre nos iludimos enquanto nação que depois de um grande escândalo de corrupção, depois de um processo grande de humilhação, nosso sistema político tomará um jeito. E o que acontece? Sempre nos frustamos.

  A humilhação nem sempre é um caminho inteligente para melhorar o que quer que seja. Talvez em certos casos possa haver alguma utilidade prática interessante, como na história de uma motorista que foi obrigada por um juiz americano a usar uma placa na rua mais movimentada de uma cidade com os dizeres “Eu sou uma idiota” por ter feito uma ultrapassagem ilegal e ter colocado em risco a vida de crianças num ônibus escolar. 

  Mesmo feita a concessão do parágrafo anterior, é uma ilusão achar que alguma coisa no Brasil iria ou irá melhor com o fracasso total dos jogos olímpicos. Aliás, não há nem mesmo qualquer conexão lógica com o insucesso dos jogos e a melhora dos nossos inúmeros problemas enquanto nação. O que um fracasso provocaria é apenas mais pessimismo, desilusão e mais baixa-estima. É disso que precisamos? O que a derrota de uma judoca brasileira de origem humilde iria melhorar as nossas contas públicas? O que a eliminação precoce de nadadores brasileiros, muitos deles que provavelmente talvez não consigam viver do esporte, teria de efeito positivo num congresso nacional quase todo assolado por interesses mesquinhos? Talvez nos comentários alguém com um raciocínio sagaz possa bolar alguma hipótese factível nessa direção. 

  Quem não viaja para o exterior, ou viaja apenas para lugares extremamente turísticos como o eixo EUA-Europa, não faz a mínima ideia do que o futebol brasileiro representa. Seja na província muçulmana chinesa de Xinjiang, seja em alguma vila com 2000 habitantes no interior da Mongólia, o Brasil é associado ao futebol, e de certa maneira à alegria. Até mesmo guardas de fronteira, apesar de ser mais raro, fazem brincadeiras quando veem o passaporte brasileiro, que em algumas regiões do mundo é bem raro de se ver. Eu fui o primeiro brasileiro que centenas de pessoas conheceram. Constantemente, tive que responder que eu era ruim de futebol e que na verdade gostava de surfar. Aliás, ontem foi engraçado tentar explicar para uma família nômade de Mongóis, que provavelmente deve ter visto pouquíssimos estrangeiros em toda a sua vida, num dos lugares mais lindos e remotos do planeta terra, por meio de mímicas o que era Surfe. Foi difícil. Aliás, até mesmo a palavra Brasil é apenas uma abstração para eles, mas mesmo assim os mais velhos conseguiram associar com futebol. 

  Antigamente, isso me incomodava. “O Brasil é muito mais do que mulatas, samba e futebol!”, pensava comigo mesmo. Às vezes era até mesmo rude com pessoas que faziam essa associação. Lembro-me de uma vez na Turquia em 2006 quando um casal iraniano não acreditou que eu era brasileiro, pois eu não era negro. "Santa Ignorância deles! ". Mas, se eu perguntar para a esmagadora maioria dos brasileiros, inclusive muitos que se acham “esclarecidos”, o que sabem sobre o Irã e muito provavelmente o nível das respostas será o mesmo “Você não pode ser brasileiro, pois não é negro”. 

  Aos poucos fui percebendo que as pessoas não conhecem o Brasil. Assim como a maioria das pessoas não conhece o mundo. Um iraniano médio é tão ignorante em relação ao Brasil, assim como um brasileiro médio é em relação ao Irã. No desconhecimento que reina entre os povos, o Brasil é associado com futebol. É o nosso cartão de visita. Foi preciso tempo e amadurecimento, e muitos contatos com diversos povos, para perceber que isso não é necessariamente ruim. Sermos conhecidos pelo futebol, e indiretamente pela alegria, em nenhum momento é impeditivo de que possamos construir bons aviões e termos relações comerciais produtivas com muitos países, por exemplo.  Sermos conhecidos pelo futebol não quer dizer que a vida do Brasil deve orbitar apenas em torno desse esporte e que este tema deve sobrepujar temas mais importantes como saúde e segurança. Não, não há qualquer relação de causa e consequência. 

  Para quem viaja por certos lugares, o futebol é uma maneira de tirar sorrisos de crianças e se aproximar de pessoas. Sorte minha que posso fazer isso pelo simples fato de ser brasileiro. Entretanto, até isso aos poucos vai morrendo. Esse é um dos resultados do 7x1. Nada de grandiloquente como a melhora dos nossos dirigentes, a modernização do nosso calendário, etc. Não, apenas vamos nos tornando secundários em algo que já fomos referência. Se a tendência continuar, quando se falar Brasil na Mongólia, apenas provocará uma cara de paisagem, nada mais do que isso.

  Logo, um eventual insucesso do evento Rio 2016, apenas provocará mais imagem negativa do país no exterior, algo difícil de se recuperar, e uma sensação de que somos incapazes enquanto povo. Não irá tornar um presidente em exercício ilegítimo em legítimo, não tornará um déficit primário em superávit, não apagará as falcatruas e desmandos do partido que estava no poder há mais de 10 anos, não trará mais saneamento básico (um problema que vem de dezenas e dezenas de anos) para a população e não ajudará que boa parte dos congressistas consiga se expressar usando o idioma de forma coerente.  Estes são problemas que não guardam correlação com a organização de um evento esportivo e muito menos com a performance de atletas amadores em esportes pouco conhecidos e sem nenhum destaque em nossa sociedade. 

  Portanto, tenha a opinião que tiver sobre o Brasil e suas mazelas, não acredite que há qualquer causalidade entre fracasso e humilhação pública, principalmente no caso dos jogos, e melhora do nosso país. Não há , e é bem possível que o efeito seja contrário.  Quer a melhora do seu país? Pense criticamente sobre uma frase como “Somos todos Moro”, se você o fizer verá que é essa uma das muitas razões para o aumento, apesar da depressão econômica, para a elite do funcionalismo. O salário da minha carreira vai para mais de 30 mil. Não consegue ver a relação? Então está faltando reflexão e compreensão de como funciona o nosso país.

  Quer melhorar o seu país? Reflita se nas relações básicas do seu dia a dia você trata os outros com cordialidade e respeito, independente de sua posição e status financeiro. Há inúmeras reflexões, ações e ideias para serem feitas sobre o nosso país e seus problemas, torcer pela humilhação pública do Brasil não é a forma mais sensata e inteligente .

Paraíso? Difícil é explicar num lugar desses o que é surfe para uma família de Nômades.


  Grande abraço a todos!

quarta-feira, 27 de julho de 2016

CÂMBIO - O PRINCÍPIO FUNDAMENTAL, EMPIRIA E ESTRATÉGIA PARA O INVESTIDOR AMADOR

  Olá, colegas.  Estou inspirado para escrever sobre muitos temas, principalmente sobre a vida e viagens. Entretanto, resolvi refletir um pouco sobre investimentos, já que faz alguns artigos que não falo sobre isso. Não falo diretamente, mas eu creio que assuntos aparentemente não relacionados com finanças pessoais estão interconectados. Para ser mais claro, eu penso que uma vida mais equilibrada, leva a finanças mais equilibradas e isso está diretamente relacionado com independência financeira. O tema deste artigo é câmbio.


O PRINCÍPIO FUNDAMENTAL QUANDO O ASSUNTO É CÂMBIO


  Minha sugestão para quem quer apreender um pouco sobre esse assunto: PARE DE LER "ESPECIALISTAS" E SUAS PREVISÕES. Simplesmente, pare. Colegas, os ditos especialistas parecem ignorar, ou simplesmente desconhecer, o fundamento mais básico da taxa de câmbio no médio e principalmente no logo prazo: o poder de compra  relativo entre as moedas. Esse assunto foi tratado por mim neste artigo Finanças - Dólar e Ouro. Porém, quero recomendar um outro artigo muito bom do Instituto Mises Brasil sobre o tema: Qual é o valor "correto" do Câmbio?. Leia os artigos, se tiver que optar por um, escolha o do Leandro do IMB.  

  Leu? Sério, vale muito a pena entender este conceito básico. Quando estudava direito, eu fiquei conhecido entre os professores por ter um bom raciocínio jurídico, ou seja, a capacidade de refletir em termos jurídicos, mesmo que eu por ventura não soubesse a solução legal para o caso. Eu creio que com a avalanche de informações hoje em dia, as pessoas se preocupam pouco com os princípios de qualquer área do conhecimento. Para mim esses são os conhecimentos cruciais. A partir deles você pode elaborar raciocínios mais complexos sobre qualquer tema. O que eu vejo em muitas áreas, são pessoas querendo elaborar pensamentos complexos sobre temas que não compreendem nem os princípios mais elementares. Como não poderia deixar de ser diferente, quando não se entende as fundações de um determinado assunto, não se pode ter opinião própria. Com o avanço da internet, isso ficou evidente e piorado. Muitas pessoas pensam que tem opinião própria, mas apenas estão repetindo algo que leram em algum lugar sem saber muito bem os motivos porque a realidade é de um determinado jeito e não de outro.

  Se você, prezado leitor, leu algum dos artigos mencionados, saberá que a principal força condutora do câmbio no longo prazo é o poder de compra das moedas.  É por esse motivo, que investir no dólar do Brasil pode ter uma função de proteger o poder de compra do seu patrimônio, mas no longo prazo tem uma expectativa de retorno real (descontado a inflação) próxima a zero.

  Imagine que o apartamento onde vivo valha R$100 mil. Vamos supor que a taxa de câmbio real seja de U$1 para R$1 (que bom seria hein!).  Vamos supor que a inflação nos EUA e no Brasil seja de zero pelos próximos 10 anos (é apenas um exercício mental). Isso quer dizer que o poder de compra de um dólar será o mesmo daqui 10 anos. Como a inflação no Brasil também foi de zero, isso quer dizer que o poder de compra do real se manteve estável. Se daqui 10 anos, a taxa de câmbio fosse de U$1 = R$2, isso significaria que o meu apartamento, para um americano, estaria custando a metade do preço. Isso não faria nenhum sentido. 

 Agora imagine que a inflação do Brasil seja de 100% no período. Vamos supor também, algo que é bem razoável, que o imóvel seja resiliente à inflação, ou seja, ele suba de valor na exata proporção da inflação. Assim, o imóvel irá custar R$200.000,00 daqui 10 anos. Se a taxa de câmbio nominal, a que vemos no dia a dia e os especialistas adoram dizer para onde vai, permanece a mesma (R$1=U$1), isso quer dizer que o apartamento, para um investidor estrangeiro em dólar, custaria o dobro. Algo que não faria sentido também, pois a riqueza dobraria sem que houvesse qualquer crescimento real no valor do imóvel.


A COMPROVAÇÃO EMPÍRICA


  Difícil entender? Não. Lógico? Certamente. Comprovação empírica? Sim. Quando estava viajando de trem pela parte mais  moderna na China (leste), li muitos artigos, estudos e livros. Aliás, como é confortável viajar de trem. Uma pena que o Brasil não tenha trens. Imagine ir de Curitiba a Florianópolis em uma hora lendo confortavelmente um livro? Um desses estudos foi o último relatório do Credit Suisse Internacional de 2015 (acessível aqui). Quem não conhece esses relatórios anuais, recomendo uma verdadeira aula de investimentos, algo que não se encontra nem remotamente no Brasil. 

  Eu estava fazendo um resumo desse estudo, principalmente sobre os retornos de diversas classes de ativos em quase 30 países. Creio que seria um material bem interessante para provocar reflexões a nós investidores amadores, principalmente porque não há quase nenhum material sobre isso em português. Fiz bastante coisa, mas infelizmente não conseguirei publicar, pois demandaria bastante tempo e acesso à internet. Entretanto, resolvi inserir alguns gráficos, para mostrar se a noção de manutenção de poder de compra das moedas no longo prazo se sustenta em exemplos concretos.

   Colocarei alguns gráficos abaixo. Não se preocupem ou prestem muita atenção nas diversas barras. Elas representam os Equity e Bond prêmios, ou seja, o quanto o risco foi recompensado ou não. A única barra que quero que vocês amigos leitores prestem bastante atenção é a azul clara. Essa barra demonstra o quanto uma moeda valorizou ou desvalorizou em relação ao dólar em termos reais, ou seja já considerado a inflação das moedas destes dois países.

  Se, por exemplo, num determinado período a barra representar 0.5%, isso quer dizer que no período considerado a moeda valorizou meio ponto por cento ao ano em relação ao dólar, já considerando a inflação das moedas. Isso quer dizer que demoraria algo em torno de 150 anos para a moeda em questão ter uma valorização de 100% em relação ao dólar. Se a barra apontar 0%, isso quer dizer que não houve qualquer ganho ou perda durante o período.

  Muitos países são analisados. Infelizmente, nenhum país latino americano. Tentei colocar países diversos, com histórias políticas, econômicas e sociais diferentes uns dos outros. Com diferentes graus de inflação, para saber se o princípio básico de manutenção do poder de compra entre as moedas se manteve ou não.

NOVA ZELÂNDA


     Para mim, a Nova Zelândia é o melhor país do mundo para se viver. É simplesmente fantástico e maravilhoso aquele lugar. 




   Como se pode observar, no período de 115 anos a moeda da Nova Zelândia se desvalorizou -0,2%aa. Isso quer dizer que a moeda da Nova Zelândia perderia metade do seu valor em relação ao dólar, se a tendência permanecesse a mesma, em três séculos, isso mesmo, 300 anos. Nenhum Kiwi vai ficar rico-pobre ou turbinar o seu patrimônio apostando na (des)valorização de sua moeda no longo prazo. Numa tendência de menor prazo (1965-2014), a moeda da NZ apresentou discretíssima valorização em relação ao dólar. Em relação à maravilhosa Nova Zelândia, o princípio básico da manutenção do poder de compra entre as moedas se aplicou quase a perfeição.


DINAMARCA

   Ainda não tive a oportunidade de conhecer este interessante país. A Dinamarca, segundo alguns pensadores litbertários, é o pais onde os seres humanos são mais escravos do mundo. Isso porque é o país com a maior tributação em relação ao PIB do mundo. Como qualquer forma, segundo essas pessoas, de tributação é um roubo e uma forma de escravidão do ser humano, essa é a única conclusão lógica para essa forma de pensar. Entretanto, a Dinamarca durante vários anos foi considerado, pelos relatórios da ONU sobre o tema (ver uns dos meus últimos artigos a respeito) o país mais feliz do mundo e todos os seus índices de desenvolvimento humano são impressionantes.




   Num período de maior duração, a moeda dinamarquesa mostrou uma leve tendência de alta em relação ao dólar. Num período mais curto de tempo (1965-2014), a moeda se valorizou mais acentuadamente. Esse resultado pode ser encontrado em vários países europeus, e está inserido, eu acho, numa trajetória de enfraquecimento do dólar que vinha desde a década de 80 e apenas nos últimos anos está se revertendo.


ÁFRICA DO SUL


  A África do Sul é um país de contrastes. A Cidade do Cabo é uma das cidades mais bonitas que já estive na vida. Por seu turno, a capital Johanesburgo é uma das cidades mais perigosas do mundo. Um apartheid que não existe mais na lei, mas existe na realidade (presenciei várias cenas de enfrentamento aberto ou velado entre negros e brancos). Um país rico em recursos, mas ainda com uma população muito pobre. Em certa medida, esse país Africano tem semelhanças fortes com o nosso país.





    A moeda da África do Sul apresentou uma tendência de desvalorização permanente em relação ao dólar. Num país com tantos problemas, que esteve à beira da guerra civil no começo da década de 90 e com tantos problemas sociais e econômicos, uma desvalorização real de -0,9%aa não é tão severa. Mesmo nesse caso, parece claro que o princípio do poder de compra entre as moedas se sustenta, ou ao menos é um ótimo ponto de partida para análise.


SUÍÇA


  Ah, a Suíça. Destino favorito para o dinheiro dos políticos brasileiros. Este país é belíssimo. Os dias que passei fazendo trilhas na região de Interlaken foram extraordinários. Cidades lindas, infra-estrutura de primeiríssimo mundo e uma natureza esplendorosa. Ainda há queijo e chocolate de qualidade. Quem precisa mais? Eu, particularmente, não gostaria de morar na Suíça. Além de ser caríssimo, creio que não é o tipo de lugar que gostaria de criar meus filhos, pois sinto que falta algo nas relações humanas, mas essa é apenas minha opinião particular.  A Suíça foi um bastião de segurança. Bons retornos financeiros e uma moeda extremamente forte. Foi o país com menor inflação do mundo nos últimos 115 anos.





    Se a  moeda da África do Sul teve uma tendência de desvalorização contínua, a moeda Suíça é o oposto. Impressionante o desempenho da moeda Suíça ao longo do tempo. Apesar de ser o país com menor inflação, um dos bastiões mais fortes de estabilidade política e financeira, a valorização em relação ao dólar existiu, mas também não foi algo espetacular. Isso, em minha opinião, corrobora o princípio. 


ESPANHA


  Já tive a oportunidade de ir algumas vezes para Espanha. Entre os países europeus, com certeza, junto com Portugal, é o país que tem mais semelhança com o nosso. Muitos dos problemas, e das qualidades, que possuímos como povo, está presente em maior ou menor grau nos portugueses e espanhóis. O gráfico de Portugal é muito semelhante com o gráfico da Espanha. Assim, ao olhar o gráfico abaixo pode-se ter em mente a nação lusitana.



  Numa tendência de maior prazo, o retorno foi de zero por cento. Isso acontece com vários países analisados no relatório em comento. Numa tendência de mais curto prazo, há a valorização. Mas como dito anteriormente, vários países europeus apresentam o mesmo comportamento no período em tela (1965-2014).


UMA ESTRATÉGIA DE INVESTIMENTO EM MOEDAS 
PARA O INVESTIDOR COMUM

   “Ok, Soul, acho que entendi a mensagem, o que, como investidor amador posso fazer diante de tudo isso?”.  Se , enquanto investidores não profissionais e sofisticados, entendermos esse princípio básico da taxa de câmbio, fica muito mais fácil colocar esse ensinamento nas nossas estratégias de investimento de forma mais concreta.

  Primeiramente, o dólar tende a ter uma valorização real nula ou muito pequena no médio-longo prazo. Sendo assim, comprar dólar como forma de ganhar dinheiro é algo que não se sustenta no longo prazo.  Aqui estou falando de dólar, mas o princípio se aplica a todas as moedas. Aliás, se a ideia é proteger o patrimônio, faz muito mais sentido ter uma cesta de moedas e não apenas dólar.

  Se a pessoa quiser fazer uma grande remessa ao exterior de uma só vez,  creio que vale a pena levar o conceito de câmbio real muito a sério. Isso vai evitar que pessoas comprem dólar em momentos de extremo pessimismo e façam um terrível negócio. Alguém se lembra do tom alarmista de muitos blogs de finanças? O dólar iria a R$5,00. Quem queria emigrar era o fim da chance de sair do país. Quem agiu de forma emotiva, sem conhecer o princípio básico a regular a taxa de câmbio no médio-longo prazo, amarga prejuízos financeiros substanciosos. É claro que agora há sempre várias explicações: lava jato, impedimento presidencial, Brexit, crise turca, juros nos EUA, etc, etc. Isso nada mais é do que um erro de julgamento, um dos mais básicos. Chama-se Hindsight Bias e já foi abordado nesse blog Hindsight Bias - O que os Jornais de 20 anos atrás podem nos ensinar.

  Logo, se quer investir no exterior uma grande parcela de uma única vez e a taxa de câmbio real estiver esticada em favor do dólar, espere, aguarde. Mantenha o seu dinheiro em algo que mantenha ao menos o poder de compra. No Brasil, ainda há um bônus que o investidor pode fazer isso ganhando juros reais muito altos.  Se a taxa de câmbio estiver mais ou menos onde era deveria estar (algo em torno de 5% para mais ou menos), a compra de dólar, ou outra moeda, será feito sem grandes riscos. Quando a taxa de câmbio real estiver abaixo do valor, talvez seja o momento ideal de comprar dólar, até mesmo pessoas que querem apenas aproveitar uma boa taxa de câmbio.

  Como saber a taxa de câmbio real? Você pode fazer isso na mão pegando as taxas de inflação das moedas que quiser analisar. Em relação ao dólar, o Banco Central do Brasil possui essa estatística. É a série temporal  11573 - Índice da Taxa de Câmbio Real. Eu, infelizmente, não consegui acessar a série. Tentei de várias maneiras, e não sei se é problema no meu computador ou problema na pecinha (aquela que fica entre o computador e a cadeira). Portanto, resolvi pegar dois gráficos de outro  bom artigo do IMB escrito no ano passado (O Dólar está caro?). Como o artigo é de agosto de 2015, a informação vai até a metade do ano passado apenas.



   Este primeiro gráfico é a série temporal do Banco Central. Ela começa com a estabilização monetária em 100. Sempre que a taxa de câmbio estiver abaixo de 100, isso quer dizer que o nosso real está valorizado. Quando estiver acima, subrevalorizado. É evidente que o câmbio estar um pouco acima ou abaixo não é indicativo forte de alguma inconsistência. Porém, quando se abre gaps de 15-20%, ou seja quando esse indicador estiver em torno de 80 ou 120, é algo muito forte para compra (venda) de dólares. 

  Percebam que em 2002, antes do Lula ser reeleito, esse índice chegou a quase 200, o que é algo espantoso. Não é à toa que investidores estrangeiros fizeram a festa no país. Até o meu pai percebeu esse tamanho desvio e ganhou dinheiro em várias fontes (no Ibovespa, comprando Bonds brasileiros a 50% do valor de face e também no câmbio). Isso é muito raro de acontecer. Um índice de 200 hoje em dia, equivaleria a um dólar próximo de R$7,00. Essa foi a distorção que ocorreu.

   O nosso real ficou durante muitos anos valorizado. E nunca vi nenhum comentarista chamando atenção para esse fato. Se o câmbio derreteu com o PT no comando, também aproveitamos a nossa moeda valorizada no governo do mesmo PT.




  Este outro gráfico muito interessante, mostra a diferença entre o câmbio real (linha vermelha) e o câmbio nominal ( linha azul - aquele que a impressa, analistas e quase todos se debruçam e dão opinião). Veja que na crise de 2002, quando o câmbio real era de R$1,85, o câmbio nominal chegou a espantosos R$3,81. Agora, percebam também que em meados de 2011, o câmbio nominal estava em apenas R$1,56, quando o câmbio real apontava um valor de R$2,54.

  Analisem também que de 2006 a meados de 2015 (quando o real começou a sofrer uma grande desvalorização), ou seja por quase uma década, a taxa de câmbio nominal estava abaixo da taxa de câmbio real, e durante muitos anos, muito abaixo. Não é à toa que o Lula foi tão popular. Nós ficamos mais ricos, nosso dinheiro valeu muito mais, mesmo que a nossa produtividade tenha estagnado. Foi apenas uma ilusão causada pelos infindáveis ciclos de variação do câmbio. Porém, antes de reclamar do câmbio atual, olhe para os últimos 10 anos e perceba que a taxa de câmbio foi extremamente favorável. 


CONCLUSÃO

 Colegas, sigam o princípio lógico, e comprovado pelos exemplos históricos, de que as moedas no médio-longo prazo representam o valor de compra entre elas.  Mas e no curto prazo? Colegas, isso você pode perguntar para alguém que lê o horóscopo, gráficos de tendência ou acha que pode analisar milhões de informações complexas e contraditórias e extrair algum sentido disso tudo.

  Talvez existam profissionais com ferramentas sensíveis e algoritmos complexos que consigam saber o efeito que uma tentativa de golpe frustada num país tão importante como a Turquia, combinada com um ataque terrorista na Alemanha, etc, etc pode ter na taxa de câmbio do Rand da África do Sul. Você, eu, e quase todos os ditos "especialistas" que falam à imprensa, não são essas pessoas.

  Defina suas prioridades. Os motivos de querer alocação em moeda estrangeira, ou em ativos estrangeiros (o que faz mais sentido para mim). Não se deixe levar por otimismo ou pessimismo exagerado, e a série fornecida pelo Banco Central é um excelente guia e um grande antídoto para isso. Use ao seu favor. A lógica e os exemplos históricos estarão ao seu lado.

obs: depois de ficar alguns dias na Capital da Mongólia fazendo preparativos, amanhã saio para uma das maiores aventuras da minha vida. Eu, minha companheira e uma amiga, mais um motorista Mongol que fala pouquíssimo Inglês, iremos para uma das regiões mais remotas e belas do planeta terra: O Oeste da Mongólia. Para se ter uma ideia, são cerca de 150 mil pessoas que habitam uma região do tamanho da França. Dezenas de lagos, dezenas de montanhas nevadas, caçadores que usam águia (90% dos humanos que fazem isso estão nessa região), caminhadas desafiadoras e "estradas" que pelo que procurei me informar às vezes levam 7-8 horas para andar 100km. Teremos que acampar na maioria dos dias, pois não há nem mesmo Ger para ficar em vários lugares. Há lagos que não estão nem no mapa. Serão de 25 a 30 dias inesquecíveis por vários motivos, tenho certeza. Não conseguirei postar nada, pois não terei acesso a internet. Em pequenas vilas, se conseguir algum acesso a internet tentarei liberar os comentários. Prometo que responderei todos os comentários assim que tiver oportunidade.


Mais uma Grande Aventura me aguarda (foto - Flaming Cliffs, Deserto de Gobi, Mongólia)


   Grande abraço a todos!

sábado, 23 de julho de 2016

NEWSPEAK, NEVE E A DISTORÇÃO DA REALIDADE

Olá, colegas! O que dizer depois de uns 40 dias sem escrever nada neste espaço? Havia alguns comentários a ser liberados, um deles de um outro blogueiro que atende pelo nome de FrugalSimples. Ele escreveu que estava preocupado com a minha segurança física,  já que estou viajando por alguns lugares “não-convencionais” e eu não dei nenhum sinal de vida durante essa ausência.  Primeiramente, agradeço de coração a mensagem do colega. Fiquei feliz em recebê-la. Em segundo lugar, sim, estou vivo, mais vivo do que nunca.

  Os últimos 10 dias fiquei quase que exclusivamente "into the wild”, sem banheiros, eletricidade, ducha e confortos com os quais estamos acostumados. Estou na Mongólia. Sempre me perguntam qual local dos que eu já visitei eu mais gostei, nunca soube responder, pois para mim todos eles são especiais de alguma maneira. Entretanto, acho que me apaixonei por esse país. Eu estava com receio de me decepcionar, pois a Mongólia era o local do planeta terra que eu mais desejava conhecer. Não havia nenhum outro lugar do mundo que me chamava mais atenção do que a Mongólia. As duas primeiras semanas nesse país foram, por incrível que possa parecer, muito acima de qualquer expectativa. Não tenho palavras. 

  Um dia, num lugar chamado Orkhon Valley, estava indo ao banheiro improvisado de madeira que se localizava a uns 200 metros do GER (tenda Mongol) onde estava hospedado, quando reparei que havia centenas de cabras na frente do  banheiro. Olhei mais ao lado, e vi dezenas de cavalos semi-selvagens correndo em direção a pequenos morros. Um pouco mais ao fundo havia dezenas de Yaks perambulando sossegadamente por planícies de um verde intenso. Havia centenas de flores silvestres espalhadas por todos os lugares, com várias colorações. Olhei para o rio transparente em que eu tinha acabado de tomar banho. Voltei meu olhar de novo para o banheiro e vi uma criança mongol brincando feliz com sua pequena bicicleta. Comecei a duvidar dos meus olhos. É real? Parece que estou em algum tipo de paraíso retratado em pinturas cristãs. Sim, é real, e por um momento uma sensação de calma e assombro pela beleza deste mundo percorreu todo o meu corpo. Sim, estou vivo e imerso por completo no presente momento. 

É real?

Sim, e muito mais bonito do que essas fotos representam. Apenas senti felicidade e assombro pela beleza do mundo, pela síntese de pequenos momentos, ao observar a realidade ao meu redor.

  Sim, estamos perdendo algo na correria do dia a dia das cidades. Algo fundamental para o nosso bem-estar humano. Porém, não é sobre isso que o texto de hoje irá se ater. Quem lê um livro mais de uma vez? Para muitos pode parecer perda de tempo. O meu pai, por exemplo, não gosta de ver um filme mais de uma vez. Eu, por outro lado, assisto, quando realmente gosto de um filme, muitas e muitas vezes. Livros foram apenas alguns poucos que li mais de uma vez. Um deles foi o magistral “O Processo” de Kafka. A última vez que li creio que deveria ter uns 25 anos. Acho que chegou a hora de reler mais uma vez agora com 36 anos (sim, mais um aniversário meu se passou enquanto viajava, e tenho uma história muito bonita sobre isso que ocorreu na cidade de Shanghai, mas deixo para outra oportunidade). Entretanto, o texto não é sobre as profundas e devastadoras ideias e “imagens" contidas em “O Processo”, mas sim sobre outro livro magistral que tive o prazer de reler enquanto estava viajando pela parte leste da China nesse mês que se passou: 1984.

  O livro é sensacional. Para além da crítica evidente ao regime ditatorial socialista da URSS, o livro é uma fonte muito profícua de muitas outras ideias e reflexões. Foi um verdadeiro prazer intelectual poder reler a história sobre Oceania, Big Brother e todos os demais elementos do drama contido no texto.  O livro em questão permite uma miríade de discussões, mas vou puxar apenas um assunto: Newspeak.

  Você, prezado leitor, já parou para pensar sobre a Neve? Talvez boa parte dos leitores desse blog  nem mesmo tenha visto pessoalmente neve na vida . Há diferentes tipos de neve? Há diferentes forma de expressar esse fenômeno? Para alguém que pouco conhece neve, muito provavelmente neve é tudo igual, e com apenas uma palavra (Neve) pode-se explicar o que esse fenômeno representa. Porém, os suecos possuem mais de 20 palavras para Neve, sendo que os esquimós tem um número ainda maior. Isso foi me dito por um francês com o qual viajei por 10 dias pela Mongólia, um formando em medicina que iria se especializar em neurologia.  Ao ouvir esse fato, creio que uma área do meu cérebro deve ter se acendido.

  A razão de povos como os suecos, ou os esquimós, terem tantas palavras para representar o que entendemos como neve, é que para eles a neve é algo presente no dia a dia, algo com o qual eles precisaram lidar por diversas gerações. Ou seja, eles possuem um conhecimento aprofundado sobre o que é neve e as diversas variações que ela pode ter. Por seu turno, um brasileiro tem um contato nulo ou pequeno com o fenômeno que entendemos como neve. Logo, um Brasileiro muito provavelmente é ignorante quando o assunto é neve. 

Quando o assunto é neve, parece evidente que enquanto brasileiros entendemos muito pouco se compararmos com o conhecimento dos suecos

  Na história do livro 1984, o governo totalitário tem o objetivo declarado de reformular a língua que os habitantes da Oceania (nome dado a um dos três super-estados que surgiram depois de uma grande guerra nuclear na década de 1950) falam. O inglês é o Oldspeak, a nova língua Newspeak é a língua que artificialmente aos poucos ia sendo construída. Há algo de muito interessante no processo, é que o objetivo principal do Newspeak é diminuir o número de palavras. Por qual motivo? Porque apenas com uma gama razoável de palavras podemos representar ideias mais complexas do mundo. Ideias estas que podem ser revolucionárias ou disruptivas de um determinado status quo. Ao simplificarem o idioma, o objetivo do Partido governante era simplesmente impedir que pensamentos críticos pudessem brotar na cabeça das pessoas, pois simplesmente não haveria palavras para expressar determinadas ideias. Se não há palavras, não há ideias.

Um livro genial

  O conhecimento dos Suecos sobre a neve pode ser traduzido na existência de muitas palavras para expressar este fenômeno natural. A Ignorância dos brasileiros sobre esse fenômeno pode ser traduzido na existência de poucas ou apenas uma palavra para expressar a ideia de neve. Ou seja, um maior conhecimento sobre a realidade se traduz em diversas formas distintas de representar esta mesma realidade. Um conhecimento limitado se traduz em poucas formas de representação dessa mesma realidade.

   Quando fiz a associação entre a ideia do Newspeak contida no livro 1984 e as diversas formas dos suecos expressarem o fenômeno neve, ficou mais nítido para mim o motivo de tantas pessoas recorrerem seguidamente a rótulos, ou a ideias gerais que claramente não conseguem apreender a complexidade de diversas temáticas.

  Vejamos por exemplo o Islamismo. É notório, pelo menos os textos brasileiros, que boa parte dos escritos não fazem a mínima noção da complexidade do mundo muçulmano. Para a esmagadora maioria das pessoas, como no caso brasileiro para neve, há apenas poucas palavras, ou seja poucas descrições da realidade, para descrever os adeptos da religião em comento. Entretanto, o mundo é muito mais complexo do que isso. Qualquer um com mínimo conhecimento sobre o tema, sabe que o Islamismo praticado na Arábia Saudita não tem qualquer relação com o Irã, por exemplo que por sua vez pouco se assemelha com o Islamismo praticado na Indonésia, país de maior população muçulmana. O desconhecimento é tão grande que se associa árabe com muçulmano, quando há cristãos-árabes e a maioria dos muçulmanos não são árabes. Numa abordagem generalista, superficial, o fenômeno islamismo pode ser representado em poucas ideias e palavras. Numa análise mais complexa, e muito mais condizente com a realidade, são necessárias muitas ideias e palavras para fielmente representar esse universo e toda a suas idiossincrasias.

  Leandro Karnal é um historiador que vem se tornando muito popular por suas palestras. Eu o acho brilhante, um dos grandes pensadores do Brasil. O fato de uma pessoa como ele se tornar mais popular num país com obsessão por corpos e chuteiras como símbolos de sucesso algo muito salutar. Ele tem uma habilidade única de ser cortês e propor diversas reflexões desafiadoras para quem está disposto a questionar muitas ideias arraigadas. Ele fala sobre amor, inveja, ódio, violência, política, e uma grande gama de outros temas. A importância dele não é ser o oráculo da verdade, mas sim ser alguém que propõe uma verdadeira reflexão mais profunda sobre os diversos assuntos humanos. 

Karnal, um grande pensador brasileiro. 


  Ele recentemente deu uma entrevista para o programa roda-viva. Não consegui assistir até o final, pois a conexão de wi-fi falhou. Como vi pelo youtube, dei uma olhada de leve nos comentários. Barbaridade. Uma quantidade não desprezível de pessoas o classificou como “comunista" e com base nesse rótulo descartou qualquer ideia que ela possa ter sobre qualquer tema. Eu nunca consigo parar de me surpreender com tamanha irracionalidade humana. 

  Já abordei esse tema diversas vezes nesse espaço, mas creio que com a associação entre Newspeak e o fenômeno neve para os suecos talvez fique mais ilustrativo compreender o quão distorcida é essa forma de analisar o mundo. Se os suecos possuem mais de 20 palavras para expressar apenas um fenômeno  natural, há algum sentido de termos apenas poucas palavras (para algumas pessoas apenas duas: direita e esquerda) , ou seja uma forma limitada de análise da realidade, para expressarmos a complexidade das diversas interações humanas que vão desde descarte de lixo radioativo, passando por sustentabilidade dos nossos ecossistemas, alocação de recursos escassos entre os membros de uma sociedade (e por que não dizermos do mundo inteiro), e tantos outros temas? Para mim não faz o menor sentido, é como querer expressar toda a variedade de vida no planeta terra apenas com as palavras animal e vegetal.

  Essa forma de encarar o mundo nada mais é do que resultado direto do desconhecimento e ignorância da própria realidade.  Para podermos expressar melhor a realidade, para podemos compreender melhor o universo que nos cerca, precisamos de formas de externar as nossas ideias, e isso só é possível com conhecimento e reconhecimento da complexidade das relações humanas. Quer deixar um indivíduo ou sociedade na ignorância? Retire deles a possibilidade de expressarem de diversas formas a complexidade do mundo. 

  Grande abraço!

terça-feira, 14 de junho de 2016

UM GUIA PRÁTICO PARA O ESTUDO DA FELICIDADE

  Olá, colegas!  A leitura é algo que me dá prazer. Eu leio desde bem cedo, hábito este instilado pelos meus pais. Com o passar do tempo a leitura se transformou em algo natural. Dê-me um bom livro, e eu não me importo de esperar 6 horas num aeroporto ou numa estação de ônibus. Quando acho uma nova linha de pesquisas, ou uma forma diferente de ver o mundo, é um verdadeiro bálsamo para a minha inteligência. Não há nada mais monótono e enfadonho do que ficar lendo algum assunto onde a sua opinião é a mesma do autor, e nada de novo foi acrescentado. 

  Sendo assim, para minha alegria eu resolvi ler com mais atenção o relatório da ONU sobre felicidade publicado em 2015 durante um voo entre Seoul e Hong Kong. Os diversos estudos feitos pela ONU sobre o tema podem ser acessados AQUI. Quantos insights. Quanta informação valiosa para nós enquanto humanos refletirmos coletivamente. É um belo trabalho com milhares de dados, centenas de pesquisas científicas citados, um grande trabalho organizado pelas Nações Unidas. Eu tenho profundo interesse sobre esse tema, aliás é um dos, junto com Cosmologia, assuntos que mais gosto.

  “Soul, Felicidade? Cada um é feliz do seu jeito. Ponto final!”. Colegas, muitos refletem assim quando o tema é análise do que faz os indivíduos felizes. Eu, com a devido respeito, acho essa uma resposta simplesmente errada, ou melhor dizendo incompleta.

A FELICIDADE DEVE SER ESTUDADA?

  Qual é o seu maior objetivo da vida, caro leitor? A esmagadora maioria muito provavelmente responderá “ser feliz e realizado enquanto humano”. Seria estranho alguém dizer que o seu maior objetivo de vida é “ter uma carteira de ações bem diversificada” ou “um carro esportivo com teto solar”. 

 Se isso é verdade, por qual motivo há centenas de livros sobre finanças pessoais, e dezenas de revistas sobre carros, mas quase ninguém fala sobre felicidade para além de platitudes e obviedades? Faz sentido para você, leitor? Temos planos minuciosos de como balancear um carteira de investimentos financeiros, mas se nos perguntarem qual é o nosso plano para ser feliz, talvez quase todos apenas coçariam as cabeças e pensariam “e é possível ter plano para a felicidade?”. Assim, temos planos sofisticados para diversos assuntos, alguns até mesmo irrelevantes, mas para o assunto mais importante da nossa vida não temos muito o que dizer.

  Essa reflexão se estende aos economistas, pelo menos para a esmagadora maioria deles. Sabe-se como calcular uma métrica como o PIB com extrema precisão. Há equações complexas modulando inúmeros aspectos econômicos. Pessoas brilhantes fazem teses e mais teses sobre o fenômeno econômico.  Isto tudo é ótimo. Entretanto, e onde entra a satisfação humana nisso? Se a qualidade do nosso ar cair, e algumas empresas surgirem para vender “ar puro engarrafado”, isso pode ter uma consequência positiva no PIB, mas nós enquanto seres humanos estaremos melhor?

  Pensem nas suas próprias vidas, prezados leitores. Será que a sua satisfação geral enquanto ser humano repousa única e exclusivamente no aumento ou decréscimo de seu patrimônio? Se a resposta for positiva, então o objetivo principal pessoal deve ser o aumento de renda e patrimônio. Se a resposta for negativa, outros objetivos devem ser sopesados. Essa não é uma resposta trivial, ela é central para entendermos o que realmente queremos para as nossas vidas.

  Do ponto de vista mais geral, a resposta também é primordial. Se o que traz bem-estar para as pessoas em geral é o aumento da suas rendas, então coletivamente uma sociedade deve-se estruturar em torno desse objetivo. Os gastos estatais também devem ser direcionados com essa finalidade. Isto não é pouca coisa. São trilhões e trilhões gastos por governos ao redor do mundo, que nada mais é do que fruto de tributos sobre a riqueza produzida por indivíduos, e só deveria fazer sentido gastos que sejam eficientes em aumentar o bem-estar geral. 

  Portanto, o estudo da felicidade é de suma importância, talvez até mais do que estudos e mais estudos sobre PIB, mercados financeiros, etc.  É tentar entender quais caminhos são mais eficazes para a geração de bem-estar subjetivo e qualidade de vida.

O QUE O RELATÓRIO DA ONU SOBRE FELICIDADE TENTA ABORDAR

  O relatório da ONU sobre felicidade do ano de 2015 (há a versão de 2016 publicada recentemente) é um documento extenso de quase 200 páginas. São diversos artigos com inúmeros temas e a citação de variados artigos científicos.  Aos poucos, tentarei trazer para o blog os diversos assuntos abordados. Entretanto, é possível dizer  que o fio central de todo o relatório é o bem-estar humano.

  “Soul, felicidade ou bem-estar humano?”, o relatório de certa maneira toma os dois termos como equivalentes. O bem-estar humano é o que nos torna pessoas felizes.  Assim, o relatório tenta abordar quais são os elementos que levam a um bem-estar maior ou menor, ou seja, a uma felicidade maior ou menor. 

  Quem já leu sobre o tema felicidade, ou mesmo apenas refletiu a respeito, sabe que é normal que haja a diferenciação entre o “estar feliz” e o “ser feliz”. Uma vida feliz está mais relacionada com uma perspectiva mais densa e profunda da própria percepção de bem-estar. O “estar feliz” está mais relacionado a situações mais momentâneas de bem-estar. Eu, Soulsurfer, posso ser muito realizado com a minha vida, mas posso estar extremamente triste num determinado momento pelo falecimento de alguma pessoa próxima. Alguma outra pessoa pode ter uma percepção muito negativa sobre o seu bem-estar geral, mas estar momentaneamente feliz pela compra de uma nova casa, por exemplo.

  No relatório da ONU, é dado um peso mais significativo ao bem-estar subjetivo mais relacionado a uma avaliação da própria vida. Entretanto, o “estar feliz” também é abordado, principalmente na forma de medicão de emoções e seu impacto na satisfação geral da vida. Assim, uma renda financeira menor tem impacto em minhas emoções? Se sim, essas emoções tem impacto na minha avaliação pessoal de bem-estar com a vida de forma geral? Os resultados nesse campo são muito interessantes, mas não serão abordados nesse artigo.

 É preciso notar que o relatório da ONU não aborda quais atividades específicas levam a um maior ou menor bem-estar. Em outras palavras, não se discute se jogar video-game, pegar onda ou tocar violino, produzem resultados diversos no bem-estar individual. Nem poderia ser de outra maneira, pois os seres humanos são pessoas únicas, assim como as diversas culturas humanas são muito diferentes umas das outras. A unicidade de cada humano geralmente é levantada como barreira para os estudos sobre felicidade. Se cada um é diferente, coisas diferentes levarão ao bem-estar individual. Este argumento ignora o fato de que sim, apesar de diferenças culturais, etárias e de gênero, há certos aspectos da vida humana que são comuns a todos os seres humanos, pelo menos em relação a sua imensa maioria.

OS PARÂMETROS ANALISADOS

  Caros leitores, em minha opinião os parâmetros analisados pelo relatório são fantásticos e capturam muito bem os diversos requisitos necessários para se ter um bem-estar maior de vida. São seis os parâmetros:

A) RENDA PER CAPTA

  Sim, colegas leitores, a renda de uma pessoa é importante para a sua felicidade. Negar isso seria a negação do óbvio. Entretanto, o problema, como parece ser a norma para boa parte das pessoas, é pensar que esse fator será o único a impactar a felicidade. É essa mensagem, errônea a perigosa, que permeia quase todas as mensagens que conhecemos como o nome de propaganda estimulando cada vez mais e mais um consumo nada consciente. É o foco central de quase todos os economistas: a maximização da produtividade, do aumento do PIB, aumento da renda per capta, como se não houvesse outros aspectos tão importantes quanto.

B) LIBERDADE PARA FAZER ESCOLHAS DE VIDA

  Sim, a liberdade é importante para a felicidade. É tão essencial que algumas pessoas, como o movimento libertário por exemplo, erroneamente em minha opinião consideram que a liberdade é o bastante para uma vida plena. A liberdade aqui não é apenas a econômica, muito citada por economistas, mas sim a liberdade para fazer escolhas na vida. Logo, é a liberdade para se manifestar, para escolher quem se deseja como governante, para se relacionar amorosamente com que se quer, etc. É por isso que talvez países com grande liberdade econômica, mas pouca liberdade em outras esferas da vida produzam sociedades não tão satisfeitas com suas próprias vidas. Liberdade econômica não se traduz necessariamente em outras liberdades.

C)  PERCEÇÃO SOBRE CORRUPÇÃO

  Esse item é interessante. A nossa percepção de uma vida feliz é afetada positiva ou negativamente pela nossa percepção de corrupção seja nos governos, seja nos relacionamentos sociais do dia a dia. Sendo assim, percebermos que o Brasil, por exemplo, não tem jeito e sempre será endêmico em corrupção possui um efeito negativo profundo em nosso bem-estar. Fugir do tema não adianta. Não se importar com política não adianta também. Platão há 2.500 anos já dizia algo como  “Não há nada de errado com aqueles que não gostam de política, simplesmente serão governados por aqueles que gostam". Ele estava certo.

D)  EXPECTATIVA DE VIDA SAUDÁVEL

  O nome já diz tudo. Quanto mais temos a expectativa de viver vidas saudáveis, mais a nossa felicidade é influenciada positivamente. Logo, a saúde de nossa mente e corpo é fundamental para o nosso bem-estar. Se assim o é, por que há tantos alimentos que apenas fazem mal à nossa saúde, e por via de consequência à nossa sensação de bem-estar? Por qual motivo se possibilita um marketing tão agressivo direcionado a crianças para que estas consumam alimentos que irão danificar a sua saúde? Estas são apenas algumas perguntas em que a sociedade poderia refletir, levando em conta esse parâmetro de análise do bem-estar humano. 

E) SUPORTE SOCIAL

  Esse parâmetro é quase uma antítese do que muitas pessoas fazem hoje em dia. Quantas vezes leio ou escuto de que “o que importa sou eu e minha família mais próxima ”.  Além de uma visão triste de mundo, ela leva a menos felicidade. A definição dado pelo relatório a este parâmetro é a resposta dada a seguinte pergunta “Em momentos de dificuldade, você possui amigos ou parentes nos quais pode contar?”.  Para mim esse aspecto da vida é essencial para se viver bem, uma pena que é simplesmente ignorado pelas mais variadas ideologias modernas. Só se é possível contar com alguém se estabelecermos relações de confiança e cordialidade.  Imagine uma sociedade onde se pode contar com a maioria das pessoas em momentos de problema? Se você imagina que isso é uma utopia, foi exatamente esse fator que manteve os níveis de bem-estar quase inalterados em países que sofreram uma crise econômica recente severa como a Islândia e a Irlanda. Foi exatamente esse fator que potencializou a queda absurda de 30% do nível de satisfação com a vida dos Gregos durante a profunda crise econômica que os Helenos sofrearam e ainda sofrem. Este aspecto do relatório é tão interessante que irei escrever um artigo apenas sobre ele.

F) GENEROSIDADE

  Sim, ajudar os outros faz bem para a felicidade. Se assim o é, por qual motivo apenas se enobrece, hoje em dia,  comportamentos de competição e preocupação quase que exclusiva com si próprio? Não se trata de uma oposição entre ser generoso ou ser competitivo, mas reconhecer que ao não estimularmos a generosidade nas pessoas, talvez estejamos construindo uma vida aquém do seu potencial de satisfação para nós mesmos.

  Apenas por curiosidade, segue abaixo ranking dos países mais felizes do mundo:

O Brasil aparece no décimo sexto lugar. Entretanto, mais de um ponto é explicado por valores residuais, algo que não chega nem a 0.2 nos primeiros países. Tenho a impressão, e irei escrever a respeito, que o país irá despencar no relatório dos anos de 2017 e 2018.


MINHA AVALIAÇÃO DE FELICIDADE EM RELAÇÃO A MIM MESMO 

  Se eu fosse considerar os seis parâmetros avaliados pelo relatório, essas seriam as minhas considerações sobre a minha própria vida:

Renda - Não tenho do que reclamar. Sempre tive uma vida boa desde a infância. Aliás, o meu patrimônio e renda colocam-me numa posição privilegiada não só no Brasil, mas como no mundo.

Liberdade para fazer escolhas - Sinto-me livre para fazer as escolhas que bem desejo, tanto que estou numa viagem de alguns anos pelo mundo.

Percepção sobre corrupção - Esse é um dos parâmetros que mais me chateia. Fico extremamente triste com a situação do país e é um dos motivos que me faz ficar olhando de vez em quando o noticiário local. É uma das razões também, junto com a violência, a refletir sobre a possibilidade de se estabelecer em outro país.

Expectativa de vida saudável - Creio ter uma boa expectativa de vida saudável. Pretendo ainda melhorar e muito os meus hábitos alimentares e físicos.

Suporte Social - Esse item estou contente. Muitas pessoas  no Brasil têm me ajudado enquanto estou fora do país. Algumas em especial tem se mostrado muito prestativas. Além do mais, já fiquei na casa de pessoas (e tive experiências fantásticas) que conheci viajando. Melbourne, Sydney, Hobart na Tasmânia, Auckland e uma pequena vila na Nova Zelândia e por último Hong Kong.  É muito bom poder contar com a ajuda de terceiros. Como é ruim não poder contar com a ajuda de pessoas, principalmente as mais próximas, quando você precisa. Cada vez mais me convenço da necessidade de vivermos em comunidades saudáveis e colaborativas. Todos só tem a ganhar.

Generosidade - Talvez poderia fazer bem mais. Porém, não deixa de ser uma doação o tempo que redijo esses textos. Também gosto muito de ajudar pessoas que me solicitam auxílio, faço por prazer. Assim, há espaço para muita melhora, mas creio que possuo comportamentos generosos.

Sendo assim, creio que a minha avaliação de vida seria bem positiva. Sinto-me feliz com a vida que possuo e com o ser humano em que venho me transformando. 

CONCLUSÃO

  O tópico é extenso. Apenas recentemente cientistas e estudiosos estão se interessando e produzindo material sobre a felicidade humana e os fatores que a influenciam. Se a sensação de bem-estar e realização de ter vivido uma boa vida é crucial para quase todos os seres humanos, por qual motivo esse tema é secundário no debate público? Com toda certeza, esse não é um tema que comporta a resposta fácil, e de certa maneira preguiçosa, de que a felicidade é algo subjetivo e não pode ser estudada ou mensurada. É vital que nós enquanto espécie tenhamos dados sobre o que realmente traz satisfação às nossas vidas, para que não desperdicemos tempo, dinheiro e energia de forma desnecessária em atividades que não trarão melhoras significativas às nossas percepções de bem-estar.

  Eu, tendo em vista os parâmetros utilizados pelo relatório da ONU sobre felicidade, creio que vivo uma boa vida. E você prezado leitor? O que acha da sua própria vida? Concorda com os parâmetros do relatório da ONU? Gostaria de saber a sua opinião, compartilhe nos comentários.

  Grande abraço a todos!