quinta-feira, 20 de setembro de 2018

UM ARTIGO SOBRE INDEPENDÊNCIA FINANCEIRA - OU TALVEZ NÃO


                Eu gostaria de ter dinheiro para poder comer 10kg de salmão fresco por dia se eu realmente quisesse. Se eu não conseguir ter dinheiro para possuir ao menos quatro carros de luxo, hum, não sei se eu posso me considerar numa posição confortável financeiramente. As torneiras da minha casa de 750m2 precisam ser de prata, pois , bem, se não for de prata vai ser do quê?

                Quer se juntar à insanidade do parágrafo anterior ou a algo parecido? Ótimo, bem-vindo ao paradigma que é empurrado consciente e inconscientemente no imaginário popular. Na minha lista de blogs ao lado, há alguns blogs estrangeiros sobre independência financeira. Atualmente, eu não leio nenhum deles, pois acho os artigos repetitivos, chatos e enfadonhos. A temática de alguns é sempre algo como: “O que fazer depois da Independência Financeira?”, “É legal ser independente financeiramente?”, “Conselhos para um jovem conseguir IF?", é muito chato.

                Talvez esse enfado, ao menos na minha interpretação, deriva do meu estágio atual de vida e das minhas reflexões atuais. Há um ano, eu consumia esses artigos, ou ouvia Podcasts estrangeiros sobre o tema. Ora, desde 2012 eu consumo material sobre independência financeira, e foi uma jornada que me levou a uma gama enorme de leituras, reflexões e atos na vida prática. Porém, atualmente, acho extremamente repetitivo os argumentos.

                É difícil achar algum texto, envolvendo dinheiro e satisfação de vida, que realmente toque nas questões centrais e realmente importantes para a vida humana. O antológico Mister Money Mustache é uma grande e honrosa exceção. Os seus artigos são um grande estímulo para reflexões profundas de como vivemos e como nos relacionamos com outros seres humanos, e o ambiente de uma forma geral, tendo como pano de fundo o que se chama de independência financeira.

                Colegas leitores, não é um desestímulo a ninguém, e muito menos um menosprezo a quem escreve e está se dedicando a esmiuçar e incentivar as pessoas a ser mais conscientes com o uso do seu tempo (pois independência financeira não tem como foco principal o dinheiro, mas sim o tempo, se você não percebeu isso, sugiro que reflita mais, aliás muito mais sobre o tema). Acho na verdade extraordinário que uma pessoa envolta em tanta desinformação, possa com um simples clique ler artigos escritos de uma forma descontraída sobre esse tema.

                Hoje enxergo com clareza como é insana a preocupação em ter dinheiro aos 80 anos, e isso de alguma maneira ser um impeditivo para a tomada de ações para bem melhor usar o tempo no presente. É insano, e é uma insanidade que ainda persiste em mim. É uma briga constante. E esse é um dos grandes engodos em todo o movimento de independência financeira.

                “Como assim? Não entendi. Você sugere que não pensemos em nossa situação financeira aos 80 anos, mas isso não é o que todos fazem, o discurso de viver o presente em detrimento do futuro?”. Não, prezados leitores.  A vida só se vive no presente, é impossível se viver no futuro.  Isso não significa que ações feitas no presente podem ter impacto de como o futuro se apresentará.  Porém, não é possível, se você é uma pessoa de 38 anos como eu, ter a mais vaga noção de como a vida será quando eu tiver 80 anos. Posso, e isso não é uma probabilidade baixa, nem mesmo chegar a essa idade.

                Condicionar uma vida não ótima no presente aos trinta e poucos anos para ter uma pretensa segurança maior aos 80 anos, é uma troca que não faz o menor sentido.  Como assim uma troca? Já escrevi dois artigos apenas sobre isso, mas a segurança de uma taxa de retirada de um portfólio é inversamente proporcional ao tempo de acúmulo. Simples assim.

                Às vezes, e eu me incluo nisso (principalmente num passado não tão remoto),  nós colocamos amarras em nossas vidas que existem única e exclusivamente em nossas mentes. Talvez todas as amarras existam apenas em nossas mentes. Aliás, não, com toda absoluta certeza as amarras existem apenas em nossas mentes, mas essa é uma discussão que prefiro não estender nesse texto.

                Conversarei com aquela garota bonita na festa daqui 20 minutos. Ou, deixarei essa cidade que me faz infeliz, quando atingir X reais.  Ou, largarei minha ocupação que não me deixa feliz, quando eu puder retirar apenas 3% do meu patrimônio, pois, conforme estudos estatísticos, ao chegar aos 85 anos eu terei 98.7% de chance de ainda ter dinheiro, ao contrário de 92.4% se eu retirar 3.3% ao ano corrigido pela inflação. Essas são amarras auto-impostas pela sua mente.

                O mundo é grande. Sim, ele é grande. Isso pode parecer óbvio, mas para a esmagadora maioria não é. As pessoas, nem que a nível inconsciente, realmente acreditam que os sete bilhões de seres humanos pensam e vivem “mais ou menos” como elas vivem.  A ignorância, e aqui é ignorância no sentido de ignorar, não conhecer, de quase todos sobre o próprio planeta é imensa. Talvez por isso, pelo desconhecimento quase total, seja possível que discursos políticos tão inacreditáveis em pleno século 21 possam florescer.

                A ignorância não é apenas externa, ela é principalmente interna. Quantos de nós realmente nos conhecemos? Quantos de nós realmente sabemos o que profundamente queremos? Ou a mais essencial, quantos de nós realmente sabem quem são? Aliás, quantos de nós já se fizeram essas perguntas ou quantos de nós acreditam que isso tenha alguma relevância?

                Espero que se perceba o quão importante o conhecimento externo, e principalmente o interno, é para a vida de cada um, e como isso se relaciona a um subtópico de assuntos humanos que é finanças e a um subtópico do subtópico chamado independência financeira.

                A ignorância em relação ao mundo e a nós mesmos é a forma assegurada para a insatisfação com a vida. Todo esse texto foi elaborado após ler um artigo, desses blogs de finanças estrangeiros que atualmente acho enfadonhos (sim, resolvi mesmo assim ler), sobre quanto seria necessário para se sentir “rico”.  Eu fiquei abismado com as respostas, pois oriundas de um site sobre independência financeira, e observei ali um claro padrão de amarras auto-impostas, senso de segurança para um futuro longínquo que é uma quimera e talvez uma privação no momento presente de uma vida mais significativa.

                É isso, colegas, se a reflexão nesse texto pareceu abstrata demais, paciência. Um abraço!

Obs: Um leitor mais atento poderia perguntar, e onde o primeiro parágrafo se liga com o resto do texto? Apesar de a resposta estar no próprio texto, é uma pergunta razoável. Os desejos irrazoáveis do primeiro parágrafo nada mais são do que tentativa de se ter uma segurança e “conforto” num futuro. Essa roda de desejos, quando confundidas com reais necessidades humanas, nada mais são do que amarras mentais que nos paralisam no presente, e muitas vezes obscurecem o real sentido das coisas, e do que realmente é importante para nós. A ignorância sobre o mundo e as pessoas que o habitam, e principalmente o desconhecimento interno, é um terreno fértil para que isso se prolifere entre as pessoas em graus e intensidades diversos.
                                                                                              

domingo, 9 de setembro de 2018

O QUE É REALMENTE SER POLITICAMENTE (IN)CORRETO?


                Eu, soulsurfer, não convivo com nenhuma mulher negra. Passo por pouquíssimas mulheres negras pelas ruas no meu dia a dia. Nunca nenhuma mulher negra teve alguma grande relevância em relação algum relacionamento mais importante em minha vida. A única mulher negra que lembro que travei mais contato foi uma faxineira que minha mãe contratava chamada Helena quando eu tinha algo em torno de 7-8 anos. Helena era uma mulher alta e “cheinha”. Até hoje lembro que ela era  sempre sorridente, estava sempre sorrindo ou cantando, seja lavando louça ou passando pano.

                Eu gostava de Helena, pelo pouco que lembro, além de ser cativado pelo seu riso e alegria, ela me tratava muito bem.  Helena uma mulher negra e faxineira que vivia numa comunidade periférica de Santos. Uma mulher negra brasileira típica. Tirando Helena não me lembro de ter convivido mais tempo com nenhuma outra mulher negra. O universo de ser uma mulher negra para mim é de todo desconhecido.

                O Universo de ser mulher negra”?”Sim, todos nós fazemos parte da mesma espécie humana, e por causa disso todos nós, homens, mulheres, brancos ou negros, compartilhamos tudo aquilo que nos faz humanos. Porém, é inegável que eu Branco, Homem, Brasileiro tenho um “universo” diferenciado de uma Mulher, Negra e Brasileira.

                Sendo assim, como conviver com mulheres negras não faz parte do meu cotidiano, a verdade é que qualquer afirmação sobre mulheres negras, seja ela “politicamente (in) correta” , ou não,  terá pouco ou nenhum impacto prático sobre a minha vida. 

               Se eu disser em tom jocoso, ou não, que uma mulher negra é comparável a uma leitoa, posso, ou outros podem fazê-lo, classificar essa frase como aceitável, ou não, como politicamente incorreta ou não, mas do ponto de vista prático pouca diferença fará na minha vida. Talvez fizesse uma diferença maior se eu, agora como adulto, tivesse que encarar Helena nos olhos depois de proferir tal sentença, mas atualmente nada mudaria em minha vida.

                Muçulmanos e Islamismo. Eu já tive a oportunidade de estar em incontáveis regiões de maioria muçulmana como Oeste da China, Malásia, Irã, Tunísia, Indonésia, Sul da Tailândia, Quirguistão, Cazaquistão, Quirguistão, Tajiquistão, Sul da Rússia, Turquia, Azerbaijão, inúmeras regiões da Índia como Rajastão, dos que eu me lembro de cabeça.  Não morei nesses lugares, mas convivi um pouco. Sendo lugares com geografias, latitudes e longitudes, história, cultura tão diferentes entre si não é de se espantar que o islamismo tenha características diversas nesses locais. Habitantes locais de credo muçulmano já me hospedaram em suas casas diversas vezes. Eu já almocei e jantei com pessoas dessa religião e conversei com as mesmas sobre inúmeros temas. O conceito de islamismo e muçulmanos é algo com certa concretude para mim.

                Entretanto, e para a maioria das pessoas que moram no Brasil? Será que já entraram numa mesquita, ou foram acordados pelo som de algum minarete chamando para a oração de antes do nascer do sol? Será que já foram hospedados por alguma família muçulmana, será que já conversaram com algum muçulmano? Será que alguém que já foi a um país de maioria muçulmana, ou trabalhou num, vivenciou o islamismo em outros lugares diferentes? Muito provavelmente, não. Os muçulmanos e sua religião, para a esmagadora maioria dos brasileiros, é um conceito abstrato.

                Logo, qual diferença prática irá fazer na vida de um brasileiro médio se ele escreve ou fala algo “politicamente correto ou incorreto” sobre os muçulmanos? Nenhuma.

                Refugiados. Quantos leitores desse blog já foram a algum campo de refugiado? Provavelmente, poucos, ou nenhum. Sendo assim, o conceito de refugiado é algo abstrato derivado apenas de cenas de vídeos ou reportagens de televisão. Logo, se eu tiver uma retórica inclusiva de refugiados ou mais agressiva em relação a eles, politicamente correta ou incorreta, qual diferença prática isso fará na vida de quase todos? Nenhuma.

                Para quem mora na cidade de Pacaraima (eu inclusive já passei por ela, e essa fronteira do Brasil-Venezuela, quando fiz a trilha de ascensão ao Monte Roraima), porém, o tema refugiados se tornou  um conceito bem concreto. Lá um discurso incentivando violência contra refugiados, ou a acolhida dos mesmos, terá conseqüências práticas profundas para boa parte das pessoas que habitam o município de Pacaraima.

                Portanto, quanto mais próximo estamos de algo, alguém ou grupo, mais conseqüências práticas teremos em nossas vidas oriundas de discursos “politicamente (in) corretos”.  Minha opinião é que muitos que acreditam ser a ditadura do politicamente correto  um problema e que proferem discursos "politicamente incorretos" estão apenas se enganando sobre os tópicos realmente difíceis, pois em quase todos eles não há qualquer conseqüência prática em suas vidas diretas. 

           Sim, podemos discutir se um discurso contra refugiados é compatível com os ideais cristãos ou humanos mais elevados, por exemplo, ou se certos discursos podem conduzir a mais ódio e incompreensão em relação a um determinado grupo, ideologia ou etnia. É possível fazer isso, e é salutar. Porém, em última instância, é um exercício mais intelectual do que prático, apesar de acreditar que como vemos a vida e outros seres humanos, mesmo aqueles que nada conhecemos, altera a nossa fisiologia, nosso estado mental e em última instância nosso bem-estar.

                Algo realmente é sensível e politicamente incorreto quando toca a nossa vida no dia a dia, nos atos mais comezinhos do nosso cotidiano, apontando alguma falha lógica, falta de ética, ou qualquer outra coisa. Nossa, aí sim, se está na área do real politicamente incorreto.  E sabe o que mais se encaixa nisso, prezados leitores? Raça, muçulmanos, porte de arma? Não, comida.

                Todos nós comemos, certo? Entre numa padaria e lá está uma esfirra de frango. Olhe para uma mãe apressada fazendo o café-da-manhã e lá está o pão com presunto. Passe num restaurante por quilo, e lá estão 85-90% das pessoas se servindo de carne.  Qualquer discussão sobre sofrimento animal e consumo de carne atinge quase todas as pessoas em cheio nos seus hábitos cotidianos mais automáticos e irrefletidos, ou seja, no verdadeiro cerne de suas vidas.

                O cerne de nossas vidas orbita muito mais no ato de comer, do que falar sobre islamismo, ou política, ou sobre mulheres negras se você é alguém como eu (e muitos leitores nesse aspecto devem ser parecidos). Logo, qualquer reflexão ética sobre o que e como comemos é um ataque frontal ao nosso estilo de vida, ao que é mais natural na rotina de quase todos.  Pode-se eleger o Bolsonaro, e muitos ficarem furiosos. Pode-se eleger algum candidato do PT, e muitos ficarem furiosos. Questione-se a ética do churrasco de todo domingo, especialmente no Rio Grande do Sul, e uma revolução acontece (no sul, talvez até mais forte do que a revolta farroupilha).

                O assunto de longe (muito mais do que globalismo, Trump, Obama, Estado ou Não-Estado, etc, etc) que mais vejo mexer com as pessoas é quando se fala do que elas comem, especialmente se lidar com algum aspecto ético. Não foi uma, nem duas, nem três vezes, foram diversas e diversas vezes. Tive mais um exemplo desse tipo de comportamento num comentário feito no meu artigo anterior.

                Um leitor anônimo, talvez por ter dito que provavelmente votarei na Marina, escreveu que o "Vice da Fada da Floresta" queria fechar todas as churrascarias. O comentário dizia isso textualmente.  Ele se referia a um debate entre os vice-presidentes que ocorreu na semana passada. Esse é o vídeo:


                Sim, o leitor anônimo estava mentindo e deturpando o que tinha sido dito pelo Sr. Eduardo Jorge. Eu realmente não gosto de atitudes assim, pois elas tornam o debate, sobre qualquer assunto, medíocre. Eu não gosto de fazer isso com ninguém e nenhuma ideia, pois eu realmente acredito que se deve fazer um esforço para entender o que, mesmo que seja um antagonista em uma determinada posição, a pessoa realmente disse ou o que quis dizer.

                O mais engraçado desse vídeo é que a jornalista que fez a pergunta foi a mesma que estava no programa roda viva do Bolsonaro, e foi duramente criticada pelos seus apoiadores, com grande dose de razão, já que a bancada daquele programa não foi lá fazer uma entrevista isenta. O Vice candidato de Marina deixou claro que ele possui uma visão ética sobre o assunto, e ele entende que o sofrimento animal é um problema a ser enfrentado.  Por duas vezes ele disse que isso é um posicionamento pessoal dele, mas ele entende que a longo prazo é preciso estimular a diminuição do consumo de carne, pelo exemplo e convencimento, não pela força.

                Ora, isso é uma posição ética dele. Você pode concordar ou discordar, e isso está dentro do jogo democrático. O que o leitor anônimo fez, porém, foi algo completamente diverso e infelizmente muito comum. Ele mentiu sobre o que o vice tinha dito, mas como a mentira é muito facilmente descoberta hoje em dia, ele ridicularizou a ideia do sofrimento animal. Por qual motivo? Pois se o sofrimento animal passa a ser um problema, ou algo que devemos levar em conta, obviamente as atitudes dele mais simples do dia a dia, como comer um salgado, deveriam ser questionadas, ou simplesmente refletidas sobre outras perspectivas.


                Na minha resposta a ele, eu tinha dito que Gandhi havia afirmado que a verdade possuía três estágios. Creio que Gandhi realmente afirmou isso, mas a origem, ao menos conhecida, parece remontar ao grande filósofo Arthur Schopenhauer.



                A ridicularização e o cinismo associado são a forma mais comum de combate a uma ideia que realmente nos desagrada por nos atingir em nosso âmago mais profundo. Isso é humano.  A oposição violenta é aquele estágio onde a ideia que nos confronta é aceita como digna de ser considerada, mas ela é oposta com violência ideológica ou muitas vezes física. Ela é um estágio posterior à ridicularização, pois algo só é combatido com energia quando se entende que este mesmo algo é crível e digno de ser debatido. As formas mais eficazes de não se enfrentar algo é ignorar este algo ou ridicularizá-lo. 

                Quanto mais próximo de nós uma determinada ideia contrária ao que entendemos ser correto, ou seja, quanto mais próximo de ter efeitos práticos em nossa vida cotidiana, mais propenso a ridicularizarmos a Ideia nós estamos. Isso é o verdadeiro politicamente incorreto. É o questionamento constante dos nossos hábitos mais arraigados. Não é à toa que um dos maiores pensadores de todos os tempos, Sócrates, foi condenado à morte.

                Sócrates, segundo se diz (creio que a maior fonte sobre Sócrates seja Platão, já que nenhum escrito de Sócrates sobreviveu, o que fez alguns historiadores e pensadores questionarem a sua existência) , saía pelas ruas de Atenas fazendo os cidadãos atenienses refletirem sobre os seus hábitos mais comuns, e muitas vezes verem o quão errados eles estavam. Imagina você indo pegar um ônibus, e aparece alguém com uma capacidade argumentativa infinitamente maior que a sua demonstrando diversas falhas éticas e lógicas em como você conduz a sua vida. Já imaginou como seria a sua reação? Pois é, os atenienses não gostaram muito.

O gigante Sócrates

                É preciso dizer que eu como carne, e não sou vegetariano, e muito menos vegano. Minha mulher não é vegetariana ou vegana. Porém, nesse caso específico, há muito tempo eu passei da ridicularização ou da oposição violenta, e reconheci que há um problema sério ético sobre sofrimento animal (além de existir questões ambientais e até mesmo nutricionais e de saúde). 

         Certa vez, instigado pela minha curiosidade sobre Inteligência Artificial, eu li uma resposta brilhante de um  cientista ao responder como ele achava que uma IA bilhões de vezes mais inteligente do que um ser humano trataria a humanidade (se chegarmos ao que os cientistas chamam de explosão de inteligência de IA, e muitos acreditam que podemos chegar lá em 60-70 anos): “Do mesmo modo que tratamos organismos menos inteligentes”.

                Sim, há cientistas nas profundezas dos laboratórios do vale do silício, fazendo coisas incompreensíveis para 99.999% da população humana, que acreditam que como tratamos os animais pode ser um indicativo de como uma IA superinteligente pode vir a tratar a espécie humana. Aliás, há todo um ramo de pesquisa sobre como fazer IA alinhada com os interesses humanos, e talvez esse seja um dos ramos de pesquisas mais importantes da humanidade no presente momento, e quase ninguém nem sabe que existe um problema desse tipo. É conhecido como IA Alignment Problem.

                Logo, a relação entre seres humanos e animais para consumo (e há inúmeras outras áreas onde é possível fazer questionamento ético como entretenimento, animais de estimação, animais para pesquisa e para roupas e acessórios) e o sofrimento animal associado é um assunto complexo, multifacetado e que diz respeito ao nosso cotidiano nos atos mais banais e automáticos. Meu conselho é que você passe da ridicularização para a informação sobre o assunto, e se for o caso para a oposição, não necessariamente violenta, mas informada e racional.

                Portanto, e aqui concluo, não se iluda prezado leitor que ao falar sobre refugiados ou muçulmanos, você, ou algum candidato, ou algum pensador, está sendo politicamente correto ou incorreto. O que é realmente politicamente incorreto é aquilo que nos atinge no âmago do nosso cotidiano. E, não, infelizmente o Brasil está longe de estar maduro para tratar desse tema. Um país onde um candidato é esfaqueado tem ainda muitos níveis de civilização para construir antes de enfrentar um tema como esses. Os países mais avançados do mundo e satisfeitos com a vida, como Nova Zelândia e Dinamarca, já incorporaram a temática em sua discussão pública política. O Brasil, infelizmente, está a anos luz ainda desse estágio de consciência coletiva pública.

               Se quer realmente combater o discurso do politicamente correto, e ser politicamente incorreto, comece fazendo questionando os atos mais arraigados, inconscientes e banais do seu cotidiano. Você pode se surpreender com o resultado.

                Abraço!



quinta-feira, 6 de setembro de 2018

O HORRIVEL E INACEITÁVEL ATAQUE A BOLSONARO


      Olá, prezados leitores. Que notícia. O pior de tudo, nessa era onde tudo é gravado, é ver imagens tão explícitas do ataque ao ser humano Jair Bolsonaro. Eu tenho pavor de ver vídeos de morte, acidentes, realmente não gosto de assistir, pois não é algo que me faz bem. Porém, mesmo sem querer, acabei vendo a imagem.

Jair Bolsonaro é tão humano como você ou eu, prezado leitor. Ele, nesse sentido, não é mais, nem menos importante. Entretanto, nós enquanto humanos nos dividimos em sociedades onde graus de hierarquia e prestígio possuem grande relevância. Além do mais, certas pessoas em certos momentos possuem uma simbologia associada a elas. Os símbolos, sejam culturais, estéticos, históricos, etc, possuem uma importância ímpar em definir os contornos de como vivemos e em última instância de quem nós somos. 

   Lembro-me de na quinta ou sexta série ficar impressionado com a informação passada por um professor que quando a Bastilha foi tomada, havia apenas dois guardas a protegendo (nunca fui atrás para saber se essa informação era verdadeira ou não). A queda foi importante, pois a Bastilha era um símbolo essencial do antigo regime francês, não porque houve uma batalha acirrada para a sua tomada.

Logo, um candidato que está liderando as pesquisas para uma eleição presidencial tão importante num país tão populoso como o Brasil possui um relevo muito singular. Pesa ainda mais toda a simbologia que este mesmo candidato carrega e representa. Portanto, um ataque que quase ceifou a vida do Bolsonaro é um fato de extrema gravidade e importância para o país.

Muitas análises serão feitas sobre os desdobramentos disso tudo, mas não quero que esse seja o foco desse breve texto. Digo apenas que o que era confuso, ficou ainda mais. O país que poderia caminhar para uma governabilidade extremamente frágil ou a uma instabilidade profunda parece ter dado mais um passo a esse cenário.

Porém, para além disso, há a dimensão humana. Um opositor ideológico não é e não pode ser visto como um inimigo. Pelo contrário, nada impede que um antagonista seja um amigo, e em alguns casos um bom amigo. O antagonismo intelectual não é , ou não deveria ser, uma batalha do bem contra o mal, ou de inimigos irascíveis.

Por que não? Primeiramente, como dito dezenas de vezes nesse espaço, pois ao se ter uma postura como essa se perde oportunidades de crescimento, e por via de consequência, de oxigenação das próprias ideias. Em segundo lugar, porque se perde a oportunidade de ver qualidades em opositores, uma delas pode ser a qualidade de ser um amigo. E se há algo que torna a nossa vida mais alegre, feliz e prazeirosa é ter bons amigos. Por fim, e talvez o mais importante, a raiva e o ódio são um veneno fisiológico para o seu corpo, bem como para a sua sanidade mental.

Uma das minhas qualidades é que eu não guardo rancor. Meus períodos de “raiva” são muito curtos, não duram 30 segundos. Logo passa. Mesmo pessoas que por ventura possam ter me prejudicado, ao menos na minha visão, nem assim eu sinto raiva, e muito menos ódio, já que eu fui criado, e minha mãe insistia muito e muito nisso, para não falar que odiava nada e ninguém. Sim, minha mãe não permitia que eu falasse “eu odeio ….”, ela sempre me dizia se é um sentimento muito forte trocar por “eu não gosto de….”. Como minha mãe foi sábia nesse aspecto da minha criação. Eu tenho dificuldade, pela minha criação e como esse conceito foi internalizado em mim, em entender como as pessoas falam eu odeio com tanta facilidade. Eu nunca disse essa frase nos últimos 28 anos, nem uma única vez.

Certo e daí?” alguém pode pensar.  Isso, entre outras coisas, talvez me ajudou a crescer e amadurecer com o passar da idade para não sentir raiva de ninguém.  Se uma vida com raiva já é algo terrível, imagine uma vida com ódio? O ódio consome a pessoa de uma maneira impressionante. É um veneno para a própria pessoa e para os outros, pois alguém com ódio é capaz dos atos mais horrendos.
Logo, alimentar raiva, ou em casos mais extremos (que infelizmente não parecem ser tão poucos assim) ódio por adversários políticos, ideológicos ou profissionais é algo extremamente danoso. O ódio sempre vai levar para lugares sombrios. Portanto, por mais difícil que possa parecer, a corrente de raiva e ódio precisa ser atenuada, parada ela nunca será pois afinal somos humanos, mas é possível sim que ela seja diminuída. Sinceramente, é o que espero que ocorra com o Brasil, apesar de infelizmente achar que podemos caminhar a passos largos para um aumento do ódio e de discursos raivosos.

Não há justificativa, nenhuma, para o ataque ao candidato Jair Bolsonaro. Antes de mais nada ele é um ser humano, apesar de representar simbolicamente algo muito maior do que eu ou você, como qualquer leitor desse blog. Com certeza sentiu dor com a perfuração, medo pela sua mortalidade, e os seus familiares devem estar profundamente abalados e tristes. Passei por algo semelhante há alguns meses com minha mãe, inclusive com um problema semelhante de perfuração do intestino, possibilidade de sepse (infecção generalizada), 20 dias de UTI, bolsa de colostomia, etc. Ao ver o médico falando do estado dele, pareceu muito o estado da minha mãe há alguns meses.

Além do ser humano, há o símbolo dele como candidato. Quer se goste ou não, ele representa uma parcela expressiva da população, que via nele a figura de alguém importante, tão importante que ele seria até mesmo um “Mito”, e uma espécie de guia para a melhora de tantos problemas crônicos do país. Eu há muito tempo, e mais recentemente com mais força, sempre o achei um perigo para o país, e uma presidência dele um profundo retrocesso para o Brasil. Continuo achando isso. Porém, num Estado Democrático, antagonistas são enfrentados nas urnas, nos debates públicos e na troca racional de ideias. É isso que nos protege da violência aguda e atroz.

Estados com leis, onde alguém como a candidata do PSTU possa falar as barbaridades dela, onde o Bolsonaro pode, claro que dentro dos limites da lei pois ao meu ver a liberdade de expressão não é uma franquia para a agressão desmedida e a propagação de mentiras, simplificar o mundo como bem entender. É onde apoiadores desse ou daquele candidato, dessa ou daquela ideia podem debater o que é melhor ou pior. 

   Quando esses canais são fechados, seja pela intolerância, seja pela exacerbação da violência, os conflitos ficam latentes na sociedade e deixam de ter canais de resolução que não seja a violência. Quando um agrupamento humano chega nessa situação, geralmente já está em queda livre no abismo.

Em momentos como esse, a moderação não costuma ser a vencedora, muito menos em países ainda frágeis institucionalmente como o nosso Brasil. Porém, não custa torcer para que o bom senso possa prevalecer. Eu, como humano, torço pela recuperação do Sr. Bolsonaro. Quanto mais rápido melhor, para que ele possa cumprir o seu papel nessa eleição. Como Brasileiro, torço para que o Brasil não atinja um limiar onde possa ser difícil o retorno, ao menos no curto-médio prazo.  
Por fim, um leitor me perguntou se essa tentativa de assassinato seria fruto da retórica mais agressiva de Bolsonaro, ou se seria fruto de uma “esquerda” decadente que está perdendo o lugar na história brasileira.  

   Como dito no texto, eu não consigo sentir raiva de ninguém. Logo, a ideia de esfaquear alguém é tão obtusa para mim, que eu não consigo me colocar no lugar da pessoa. Com isso quero dizer que nada, nem mesmo eventuais arroubos mais agressivos do Bolsonaro, pode justificar uma tentativa de assassinato. Eu acredito que ódio gera mais ódio. Violência, por mais que seja uma chavão repetido ad nauseaum, costuma gerar mais violência.  Porém, assim como acho repugnante, dizer que uma mulher deu motivos de ser estuprada pois estava vestida de tal ou qual maneira,  não creio ser algo útil e válido colocar qualquer responsabilidade por uma tentativa de assassinato na vítima.

Por outro lado, é impossível impedir ataques. Não é possível bloquear todas as tentativas de alguém tentar jogar um carro contra uma multidão de pedestres numa calçada de alguma cidade européia, por exemplo. Pessoas confusas, com ódio, manipuladas, existem aos borbotões, e não é possível evitar que algumas delas façam algum ato horrendo. 

  É inegável, contudo, que teorias conspiratórias como “globalistas comandados por Soros para a implantação de um regime comunista no mundo” ou “nazistas associados com maçons” (como parece ser o caso do agressor do Bolsonaro) que simplesmente ignoram a realidade, os fatos e as nuances do mundo, parecem ter um efeito muito grande na criação de malucos prontos a fazer besteira. Não há dúvidas que baldes de água racional nessas ideias confusas poderiam atenuar essa proliferação de lixo ideológico, mas mesmo assim é impossível parar por completo a proliferação dessas ideias sem pé nem cabeça.

Uma vida de menos raiva, ódio e violência para todos nós.

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

O CENÁRIO POLÍTICO ATUAL E COMO CHEGAMOS NELE (SOBRE CÂMARAS DE ECO IDEOLÓGICAS)


                Olá, colegas.  Tudo indo bem em minha vida e principalmente na gravidez da minha companheira (o que é o mais importante). A Serena se desenvolve bem, e em poucos meses minha vida irá mudar de forma completa, e estou muito feliz com essa mudança. 

               Do ponto de vista financeiro, vendi muitos imóveis, alguns que pelo plano eu colocava como meta em setembro de 2019, o que vem me surpreendendo positivamente. Aliás, pretendo fazer talvez mais umas 5-6 operações e talvez parar de mexer com isso. A quantidade de patrimônio já está ficando de um tamanho onde será possível ter uma IF aqui, e outra no exterior (na verdade já é mais do que possível, mas eu puxei os números um pouco mais), com patrimônios separados, o que é demais até para um conservador como eu. 

             Do ponto de vista de saúde, estou muito bem também. Passado o período de adaptação, estou treinando de segunda a sábado todos os dias crossfit, e em alumas ocasiões  até mais de uma vez por dia. Estou gostando muito mesmo, e venho melhorando, apesar de ser um pouco atrapalhado, em várias técnicas, e a cada conquista de um movimento vem um grau de satisfação.

                Feito um update pessoal, começo o tema do presente artigo. Eu teria vários tópicos para escrever: colesterol, o que comer e o que não comer, como analisar uma evidência científica, entre outros, pois é a espécie de tópico que venho me dedicando mais nos últimos meses. Porém, decidi escrever sobre política.


REALIDADE – O GUIA PARA NÃO ACEITÁ-LA


                O problema da ascensão de tipos como Trump (este , aliás, vendo um monte de pessoas do seu círculo interno sendo condenadas criminalmente,  não se diferenciando muito do Lula) e Bolsonaro, na verdade há inúmeros outros problemas, é uma espécie de “infantilização” da análise da realidade.  O que quero dizer com isso? Muitas pessoas, de maneira infantil, querem que a realidade seja da forma como elas entendem verdadeira.  Se isso não ocorre, elas “choram”, “xingam” , fazem “bico”, ou, o que é mais comum, ignoram por completo informações discordantes.

                Com a penetração cada vez mais forte de mídias sociais no dia a dia de boa parte das pessoas, esse tipo de fenômeno (ignorar a realidade) é cada vez mais comum, e isso tem uma explicação muito simples. 

         Algoritmos extremamente complexos cada vez mais conseguem mapear as preferências dos usuários de redes sociais. Logo, as pessoas são “alimentadas” no seu feed de notícias ou curiosidades, com assuntos e abordagens que já previamente coadunam  com os pensamentos e idéias prévios. Isso nada mais é do que esses algoritmos explorando uma fraqueza mental humana chamada Viés de Confirmação. Esse viés cognitivo nada mais é do que dar uma prevalência muito maior a informações que corroborem o que previamente se pensa, e ignorando informações contrárias.

                Esse tema já foi tratado diversas vezes nesse blog. O viés de confirmação é a mãe, ou o Pai, de todos os erros cognitivos. É uma postura completamente anti-científica. As mídias sociais vêm apenas ampliando de forma assustadora os efeitos desse viés na sociedade.  Além do mais, mídias sociais permitem que aconteça de maneira muito mais acentuada o que se conhece como efeito câmara de eco.

                Veja o vídeo abaixo (sugiro que o mesmo seja assistido em sua completude):

"O Fuher lidera e nós seguimos!". "O Fuher lidera e nós seguimos!". Canta uma multidão hipnotizada depois de ser perguntada sobre se queriam uma "Guerra Total" (isso quando a Alemanha já dava sinais que perderia a guerra). Qualquer semelhança com o comportamento de certos líderes e muitas pessoas nos dias de hoje não é mera coincidência.


                Isso é efeito câmara de eco. Pessoas são expostas a opiniões e fatos num sistema bem definido. A opinião de um reforça a opinião do outro, criando a sensação de que aquelas opiniões e fatos são indiscutíveis e apenas um tolo, “um comunista”, “um fascista”, “um idiota”, "um ateu", "um infiel" ou qualquer outra coisa, não consiga enxergar o que as pessoas dentro de uma câmara de eco ideológico observam.

                O vídeo do célebre discurso “Guerra Total” de Goebbels mostra com perfeição os efeitos que o viés de confirmação junto com o efeito câmara de eco podem provocar. Esse discurso foi feito em fevereiro de 1943, quando a guerra já estava entrando numa fase desfavorável a Alemanha. O discurso não foi feito em 1940 quando a Alemanha visivelmente parecia ser indestrutível, mas sim em 1943. Logo, qualquer ideia contrária ou mais sóbria sobre se fazia sentido o povo alemão mergulhar numa “Guerra Total” seria completamente esmagada pelo ambiente criado pelo discurso.

                Mídias sociais servem como câmaras de eco. Os algoritmos escolhem as informações que apenas corroboram o que previamente achamos correto (viés de confirmação) e as pessoas alegremente compartilham isso com grupos de pessoas e amigos que comungam das mesmas opiniões.

                Por isso, as redes sociais podem ser extremamente deletérias para um debate produtivo, ao contrário do que se imaginava quando elas ganhavam mais tração e adeptos. Quando se é pego num loop de viés de confirmação e efeito câmara de eco, a análise da realidade fica comprometida, e há uma “infantilização” da análise da mesma.  Se a realidade não é o que o meu grupo acredita ser o correto, é mais fácil brigar com a realidade do que com as idéias do grupo.

                Não caia nessa, prezado leitor, a habilidade de analisar a realidade como ela se apresenta, e não como acreditamos que ela deveria ser, é de extrema importância para se compreender o que acontece no mundo, bem como para se criar estratégias de como agir neste mesmo mundo.


SOULSURFER EM 2016 AVISA

                Há mais de dois anos, logo após o Impecheament , eu escrevi (pode ser conferido aqui) , o seguinte:
 Sem perceber, estão criando condições para que o PT se reconstrua. Eu tinha escrito que achava que Lula estava acabado do ponto de vista de eleições presidenciais, assim como o PT. Ainda acredito nessa hipótese, mas não imaginava que se poderia fazer tanta besteira. 

 Quem trabalha com direito sabe que a pior coisa é não ter argumentos. Tudo o que um bom advogado precisa é um argumento. Não precisa nem ser bom, mas ele precisa existir. O PT estava asfixiado. De um lado uma presidente que estava indo contra tudo que ela  disse nas eleições, mas evidentemente o partido não poderia tirar o apoio a ela, pelo menos não oficialmente. Do outro lado, apanhava que nem cachorro nos casos de corrupção. Não havia qualquer argumento para o PT. Era agonizar até o final de 2018.

  Agora, o partido tem. Golpe e ataque a direitos sociais viraram o mote. Ele é bom? Não, não é, mas é um argumento. Fizeram um grande favor de tirar o enorme bode da sala que era Dilma Roussef. Se a crise institucional não se agravar, e absolutamente ninguém pode garantir o contrário, e realmente tivermos eleição em 2018, a ex-oposição pode esquecer que não terá muitas chance e desconfio que o PT, e os alegados 20% de votos do Lula, podem valer e muito para dar a eleição para um Ciro Gomes ou Marina.”


                Eu escrevia isso, pois num outro texto de alguns meses antes (pode ser conferido aqui), quando o impecheament da Dilma ainda não era uma realidade , afirmei  que o PT e o Lula estavam “acabados”. O que era algo incrível, tendo em vista a popularidade  de mais de 80% com a qual o Lula deixou a presidência.

                Porém, nesses dois anos motivos e mais motivos foram dados para que o argumento do PT e Lula pudesse ganhar mais e mais credibilidade junto a uma parcela maior da sociedade brasileira. Foram vários: malas de dinheiro de assessor do presidente Temer sendo ignoradas (mesmo com filmagem), fundamentações duvidosas no caso da condenação do Lula no caso triplex, denúncias contra o Temer barradas na câmara, a esdrúxula decisão do TSE sobre a cassação da chapa Dilma-Temer, etc, etc. Aliás sobre o TSE, foi isso que escrevi um ano antes da decisão:

“ Se o TSE não cassar a chapa Dilma-Temer, alguma coisa de estranho ficará no ar, pois ou as delações não são verídicas, algo que parece improvável, ou o TSE precisará de muito malabarismo intelectual e jurídico para se justificar

                Nem eu imaginava que o malabarismo jurídico seria tão grande. É evidente que fizeram bobagem. É por isso que Lula dos seus 20% de 2016 está em 40% pela última pesquisa datafolha. “Mas como, isso é um absurdo!”. “Mídias petralhas, pesquisas compradas”. “O Povo vai eleger o Bolsonaro no primeiro turno, isso é coisa de comunista”.  “O povo brasileiro é horrível mesmo, um presidiário liderando as pesquisas”. Sim, sim, amigos. Muitas pessoas vão dizer isso, numa análise infantil da realidade.

                O que é incrível, é que não sou profissional disso, não me interesso tanto pelo tema, não ganho absolutamente nada para refletir sobre esses temas e não tenho nem mesmo treinamento formal em ciência política, mas dois anos atrás me parecia óbvio que o cenário atual poderia acontecer, o que coloca em cheque muitas dessas análises feitas por profissionais de "consultorias políticas".

                Com 15-20%, Lula poderia no máximo pender para um ou outro candidato, e ter uma certa influência (por isso citei a Marina e o Ciro).  O PT não teria chances de voltar ao poder. Agora, com 40%, é bem provável que o candidato do PT apoiado por Lula (Haddad) chegue ao segundo turno com chances enormes de vitória se o outro candidato for o Bolsonaro.  Sim, no afã de prender o Lula a qualquer custo, de manter um presidente impopular e corrupto como o Temer, muitos contribuíram de forma inconsciente para ressuscitaram o PT e o próprio Lula.

               
O QUE ESPERAR AGORA?


                Muito difícil saber. Lula, condenado e preso, se concorre ganharia com folga, talvez até mesmo no primeiro turno. No segundo turno, ele ganharia disparado. O que dizer do nosso País numa situação como essa? Em segundo lugar, vem o Bolsonaro.  Em março de 2016 escrevi:

“    O meu maior receio é alguém sem qualquer preparo técnico, com clara tendência fascista como um Bolsonaro da vida, ganhe relevância maior do que merece, ao ponto de ser cogitado como um presidenciável com chances de ganhar. Espero que a maioria dos brasileiros, os que foram às ruas incluso, não queiram esse retrocesso institucional, pois além de um sujeito como ele não ter qualquer resposta para perguntas como gastos públicos, previdência, etc, ele ainda aprofunda receios, medos e preconceitos que realmente o Brasil não precisa"

                Eu nunca imaginei que o Bolsonaro tivesse chance de ganhar a presidência. O meu maior temor é que ele virasse uma força importante, e isso ele realmente virou, pois possui 20% das intenções de voto muito bem asseguradas. Para a esmagadora maioria desses 20%, tanto faz se ele recebeu auxílio-moradia  por vários anos(que ele mesmo diz ser imoral, o que é uma contradição clara e evidente no discurso fácil moralista dele), se ele é político há quase três décadas (mesmo com o discurso de renovação da política) ou se ele compara um negro a um porco, e depois diz que foi apenas uma brincadeira de mau gosto. Nada do que ele fizer ou disser vai mexer muito nessa margem consolidada dele. É como o cântico no discurso “guerra total”: “O Fuher lidera, nós seguimos” (“O Mito lidera, nós seguimos”).

                Essa é uma faceta de nossa sociedade, e é muito mais inteligente tentar entender porque tantas pessoas podem se deixar enganar por um sujeito tão despreparado, do que brigar com a realidade.  Eu acredito que Bolsonaro não tenha chances significativas no segundo turno, como sempre acreditei desde 2016, e as pesquisas demonstram que esse é o cenário mais provável. O que me assusta é que há mais de dois anos, já escrevia sobre o despreparo dele em lidar com questões simples que qualquer presidenciável sério deveria saber. 

                 Passou-se esse tempo todo, ele vem numa crescente desde então, e o cara ainda não conseguiu se preparar, nem que seja para enganar em respostas de 1-2 minutos, minimamente para perguntas que fujam de temas como “kit gay”, “política de gênero”, “porte de armas”, “e bandido bom é bandido morto”. É incrível. Qualquer pessoa em dois anos poderia ter se preparado minimamente.  

                O Brasil foi sendo empurrado pouco a pouco para essa posição paradoxal. Tenho a sensação de que a eleição de 2018 não irá apaziguar o país. Se o Bolsonaro eventualmente vencer, apesar de considerar difícil , o Brasil se tornará ingovernável mais do que já está. Se o Haddad vencer, é bem provável que o tumulto político e social continue e até mesmo se aprofunde.  A Marina talvez serviria para ser presidente, ou primeira-ministra, de países avançados como Dinamarca, Austrália, Nova Zelândia, e com a história de vida dela seria muito provável que ela se elegesse nesses países. Porém, creio que um governo com ela, com o sistema político atual, o Brasil também tenderia a aprofundar a ingovernabilidade, pela ausência total de apoio a ela.

                Os dois candidatos que talvez pudessem ter mais força e governabilidade seriam Ciro Gomes e principalmente Gerald Alckmin, mas não acredito que eles tenham forças para chegar ao segundo turno.  Portanto, o Brasil caminha para continuar com mais anos turbulentos pela frente do ponto de vista político e econômico.

                Terminando esse artigo, concluo orientando todos a fugirem de câmaras de eco ideológicas. A maneira mais fácil de fazer isso é saindo de redes sociais e procurando informações contrárias ao que você, prezado leitor, acreditar ser verdadeiro. Apenas assim a percepção da realidade é aumentada e a nossa capacidade de compreensão da mesma.
              
                     Abraço a todos.

terça-feira, 24 de julho de 2018

VIVER DE CONSTRUÇÃO


                Olá, prezados leitores. O tema como viver uma boa vida é uma constante neste espaço. É possível que haja dezenas e dezenas de artigos sobre temáticas que orbitam sobre esse tema central.    Já disse inúmeras vezes, e continuarei repetindo, um escritor como o americano Mister Money Mustache é ordens de magnitude mais importante, no quesito finanças pessoais e qualidade de vida, para investidores amadores do que saber analisar balanços a la W. Buffett. Muitas das reflexões do MMM sobre uma boa vida, e sua relação com equilíbrio financeiro, são incríveis.

                Yuval Harari, o jovem historiador que escreveu Sapiens e Homo Deus, diz nas suas palestras internacionais que num mundo cada vez mais em mudanças em ritmo frenético, a maior habilidade que nós adultos podemos ensinar às novas gerações é a resiliência mental e emocional.  Infelizmente, esse atributo parece estar em falta, quando ele será cada vez mais necessário. 

                Os meus dois parágrafos anteriores servem como uma reflexão de que temas muito mais importantes do que dinheiro, política, etc, são de conhecimento de todos, mas poucos realmente refletem profundamente sobre os mesmos, e menos pessoas ainda tomam passos práticos para uma melhora efetiva de suas próprias vidas.  Seria o popular “fácil falar, difícil fazer”.

                Foi com consternação, minha e de muitas outras pessoas, que soube do falecimento precoce do blogueiro Viver de Construção.  Muitos, inclusive outros blogueiros, já fizeram suas homenagens, e pretendo fazer aqui a minha, mas talvez abordando outros aspectos não tão evidentes.

                Primeiramente, nós não somos preparados para a morte.  Tanto que delegamos, ao menos os povos da sociedade ocidental, a morte para hospitais.  Crianças não são submetidas nem mesmo ao conceito de morte, “elas devem ser poupadas” boa parte das pessoas acredita.  O fato é que somos mortais. A morte faz parte da nossa jornada pela terra. A morte não só nossa, mas de todas as entidades biológicas que gostamos ou não.  Como lidamos, ou melhor não lidamos, com a morte é um indicativo de como temas importantes são ignorados. Sabemos mais sobre as estripulias de Trump, do que sobre como lidar, ou ao menos refletir, com a morte de algum parente.

                A morte de uma pessoa jovem como o Viver de Construção é algo que assusta. Como não ficar assustado e chocado? Não parece natural. Lembra-me de uma passagem do filme “O Curioso Caso de Benjamim Button”, quando Brad Pitt expressa o seu horror ao ver tantos corpos  depois de uma batalha naval na segunda guerra mundial, pois aquilo não era uma visão natural, mesmo ele tendo convivido diversas vezes com a morte já que ele tinha passado os seus anos iniciais de vida num asilo para pessoas de idade, onde a morte era uma constante e um fato natural da existência.  Então, em que pese a naturalidade da morte, em certas ocasiões ela não parece ser natural, parece ter algo de errado com a sua ocorrência.

                Porém, mesmo contra nossa vontade, ou contra uma “ordem natural”, guerras, genocídios, acidentes ocorrem, e pessoas jovens, que ainda teriam muitas décadas de vida pela frente, partem.  É difícil, é duro, mas acontece.

                Eu não conhecia pessoalmente o Viver de Construção. Eu nem mesmo lia freqüentemente os seus escritos, pois o estilo dele não era muito do meu agrado, porém era visível a existência de algumas qualidades dele enquanto ser humano.  Primeiramente, em épocas de tanta raiva aflorada, ele parecia carregar pouca raiva. Discutia com anônimos, outros blogueiros, mas isso é mais um problema dos "diálogos truncados" que a internet proporciona do que algum problema emocional de ser possuído por um sentimento negativo.

                Além do mais, ele era extremamente educado. Ao menos comigo, ele sempre foi de uma educação tremenda.  Ele também era muito verdadeiro, e realmente doava o seu tempo para contar e compartilhar a jornada financeira e de vida com os outros. Talvez seja esse o aspecto que muitos leitores gostavam, pois viam nele algo no que se espelhar, ou alguém que poderia servir como uma base do tipo “se ele está conseguindo, por que não eu também?”. Logo, é inegável que ele possa ter diretamente tocado a vida de algumas pessoas de forma positiva, e isso não deixa de ser um legado importante.

                Talvez por  pelo fato dele ainda ser jovem, eu sentia que muitas vezes seus escritos aparentavam uma grande gangorra emocional.  Mas, as últimas vezes que li o blog dele, eu tinha a sensação que aos poucos ele ia acalmando a mente, e realmente começava a construir uma vida prazerosa para ele e sua companheira.  Talvez a maior evolução dele não fosse o seu patrimônio, que a grosso modo no grande esquema das coisas e para as grandes questões não significa absolutamente nada, mas sim a forma como ele estava começando a enxergar a vida.

                Aliás, quão doente não estão nossos relacionamentos ou nossos pensamentos, quando a quantidade de dinheiro acumulado passa a ser uma métrica, e para alguns A métrica, sobre a vida que alguém levou.  É difícil de entender. “É, a vida é importante, precisamos vivê-la com intensidade” e “ele é um exemplo de uma boa vida, olhe o patrimônio que o suor do seu trabalho conquistou” são frases quase que antagônicas.

                Como não o conhecia a não ser por trocas de mensagens, espero que ele possa ter sido um bom marido, um bom filho e um bom amigo para as pessoas mais próximas. Espero que ele possa ter encontrado prazer nessa frágil vida.  Não apenas o prazer mais vulgar sensorial, que nada mais é do que o consumo em excesso traz, mas aquela sensação quase que mística de pertencer a algo maior ou sentir-se, nem que por curtos momentos, completo. Espero que ele possa ter tido uma boa infância, onde possa ter aproveitado essa fase tão magnífica que passa tão rápido. Ou que possa ter sentido aquele frio na barriga na adolescência quando a garota amada passava em sua frente.  Espero que ele possa ter sentido a brisa do mar, ou aquela sensação gostosa de frio quando estamos nas montanhas, e se sentido unido de uma forma especial com a realidade.  Espero que possa ter amado com intensidade a sua companheira, e espero que ele possa ter sorrido muito em sua vida. Essas, e várias outras, são as verdadeiras métricas de uma vida bem vivida.

                Espero de coração que ele tenha vivido uma bela vida.  Para a família que fica, especialmente a companheira, é duro.  Quando cair a ficha, quando aquela sensação de que ele não estará mais entre vocês ficar consolidada, é inevitável que surja um vazio, que não poderá ser preenchido. O luto é algo importante.  Uma das características dessa nossa sociedade atual é que a tristeza, a infelicidade e o luto devem ser evitados de todas as formas, quando esses são estados emocionais naturais e muitas vezes necessários.

                Porém, com o devido tempo, espero que esse sentimento difícil, esse vazio, possa ser aos poucos preenchido por um sentimento alegre de celebração da vida do Viver de Construção. 

                Para nós que ficamos, a vida continua.  Aliás, a vida sempre irá continuar, mesmo depois da nossa própria morte.  Foi isso, ou ao menos é a minha interpretação, que Steve Jobs  disse, naquele célebre discurso em Stanford,  ao dizer que o Rei estava Nu, quando nos damos conta da nossa própria mortalidade. Todos nós estamos nus. Do mais poderoso ao mais fraco, do mais rico ao mais pobre, todos nós pereceremos. Já que sabemos disso, exorta Jobs, por qual motivo não viver mais intensamente?

               É evidente que esse é um ensinamento antigo. A expressão Carpe Diem traduz bem esse sentimento. Não é se entregar aos "prazeres" sensoriais como se não houvesse qualquer tipo de consequência, como algumas pessoas tolamente conceituam essa expressão. Não, prezados leitores, é tentar extrair da vida o prazer de estar vivo, e isso só se pode ser feito no momento presente. Não no passado, não no futuro, mas no aqui e agora.



                À família do Viver de Construção eu ofereço os meus sinceros sentimentos.

sexta-feira, 20 de julho de 2018

INSULINA, GLICOSE E METABOLISMO - TUDO (OU QUASE) QUE VOCÊ DEVERIA SABER PARA UMA VIDA MELHOR


           I-     UM LEIGO FAZENDO INCURSÕES SOBRE  SAÚDE. POR QUÊ?

              O motivo simples é porque a saúde é o nosso bem mais precioso. Uma vez perguntei se alguém trocaria de lugar com W.Buffett e os seus bilhões, todos disseram não.  Tempo com saúde é o que nós temos de mais precioso, e dinheiro nenhum do mundo pode trazer de volta o tempo e a saúde perdida.

           Logo, se a saúde é tão importante, por qual motivo eu me manteria ignorante sobre aspectos básicos do funcionamento do meu corpo. Não faz nenhum sentido saber o que acontece com os mercados acionários americanos, mas não saber o que a insulina faz no nosso corpo. Eu não sabia o que a insulina fazia há oito meses, mas tinha pleno conhecimento se o FED havia aumentando ou não a taxa de juros primária dos EUA. Vendo em retrospecto, isso é cegueira, e non sense completo, já que meu bem-estar, e felicidade, dependem muito mais do conhecimento sobre insulina do que sobre sutilezas de política monetária americana. 

           Ao longo dessa minha jornada inicial, descobri que há muitos mitos, que o estado de saúde geral da população é deplorável, e que é possível sim não ser apenas saudável, mas otimizar a sua saúde, para que com isso se possa produzir mais, surfar melhor, ser um melhor pai ou amigo, em suma viver uma vida com uma qualidade muito maior do que se possa imaginar. Logo, percebi como é importante o auto-conhecimento e não terceirizar por completo o cuidado com o próprio corpo para profissionais de saúde. É incrível como as pessoas seguem cegamente o que os seus médicos dizem, muito deles com conselhos questionáveis sobre dieta, nutrição e qualidade de vida. É preciso tomar as rédeas da sua saúde.

            Por fim, há algo interessante de um leigo adentrando um campo do conhecimento para passar informações para outros leigos. Em nenhum momento dou ou quero dar a entender que sou um expert em qualquer assunto aqui discutido. Não, eu não sou e nem tenho pretensão de sê-lo. Também em nenhum momento quero que você prezado leitor confie no que escrevi, pesquise por si só, eu espero ser apenas uma semente para que você vá atrás do conhecimento que possa melhorar a sua vida.  

       Tendo colocado esses alertas, creio que textos leigos produzidos por leigos que se esforçam em compreender algo e transmitir esse conhecimento ressoam muito mais fortemente com o público em geral do que textos técnicos escritos por especialistas. Esse insight me veio ao ouvir uma entrevista do Michael Pollan sobre o seu novo livro que trata de psicodélicos, e como, na visão dele que é um escritor mundialmente conhecido, o público se conecta com esse tipo de escrita de forma muito mais fácil (ele é um jornalista, e não é um cientista versado em neurologia, por exemplo).


II - ENERGIA. A GLICOSE E O SEU METABOLISMO. A IMPORTÂNCIA DA INSULINA


              Nosso corpo precisa de energia para funcionar. A forma mais eficiente para que as células funcionem é usando um tipo de molécula chamada glicose.  Carboidratos  são  a fonte principal de glicose (ao menos para pessoas que não estão adaptadas a corpos cetônicos), e em última análise de energia para nosso corpo funcionar propriamente. Sem energia, o nosso coração não pode funcionar, nosso cérebro (que é uma máquina de consumo de energia, pesando 2% do peso corporal, mas consumindo 20% da energia necessária) pararia, e nós basicamente morremos. 

                 Os carboidratos de nossa dieta (açúcares e amido) são digeridos no estômago e transformados em glicose, sendo liberados pelo intestino na corrente sanguínea. Quando a glicose está em nossa corrente sanguínea, uma coisa interessante acontece.  As células do corpo não conseguem absorver essa molécula, a não ser que haja um hormônio chamado insulina. Esse hormônio irá se ligar a receptores de insulina na célula, agindo como uma chave numa fechadura, permitindo então que as células possam absorver e usa a glicose para gerar energia.

A metáfora da insulina como uma chave para que a glicose possa entrar é bem apropriada


                O hormônio insulina é produzido no pâncreas, mais exatamente pelas células betas localizadas nas Ilhotas de Langerhans. Essas células são extremamente sensíveis à presença de glicose no sangue. Geralmente há um "screening" de nosso corpo a cada segundo por essas células para saber se precisam aumentar  a liberação de insulina, ou se precisam diminuir a liberação de insulina. Se alguém come uma refeição muito alta em carboidratos, esse macronutriente que é transformado em glicose pelo processo digestivo irá desencadear uma resposta quase imediata das células beta, elevando a quantidade de insulina em circulação, especialmente se forem carboidratos pobres em fibras e muito refinados, com carga glicêmica muito alta.

                A insulina além de permitir que a glicose possa ser usada pelas células para a produção de energia, também tem outro papel fundamental: construir reservas de energias. Diz-se que a insulina é um hormônio anabólico, já que ela permite a construção de novas estruturas. Se depois de uma refeição, o corpo não necessitar naquele momento toda a quantidade de glicose ingerida, a insulina irá transformar a glicose em glicogênio a ser armazenado no fígado e nos músculos. O glicogênio é a forma mais rápida e eficiente de uso de energia armazenada.

                Nosso corpo, porém, possui uma capacidade pequena de armazenamento de glicogênio. É claro que isso varia de indivíduo para indivíduo, mas a grosso modo, o fígado pode armazenar algo em torno de 100 gramas de glicogênio e  os músculos algo em torno de 400 gramas (1).  Uma grama de glicose é igual a quatro calorias, logo nosso corpo possui a capacidade de armazenamento de aproximadamente 2000 calorias de energia  na forma de glicogênio.  

         Um jejum de 24 horas pode ser mantido apenas com os estoques de glicogênio do corpo.  É por isso que atletas, ou mesmo nós esportistas amadores, fazem uso de todo o glicogênio acumulado durante intensas atividades físicas. Não há muita  energia acumulada pelo nosso corpo para uso rápido na forma de glicose acumulada. Porém, não se iludam, o glicogênio só acaba depois de uma atividade realmente intensa, não faz sentido tomar carboidratos durante o treino, se o seu treino muscular será uma corrida de 30 minutos e levantar pesos com 60-70% da sua máxima repetição em poucas séries (tópico para outro artigo).


                E o que acontece quando os estoques de glicogênio no fígado e no músculo estão cheios? Quando isso ocorre, algo fantástico acontece. A insulina então transforma a glicose em excesso em gordura, por meio de um processo chamado De Novo Lipogenesis. É fundamental entender esse processo, não em sua complexidade, mas na ideia fundamental de que mais carboidratos = mais gordura acumulada.

Sim, a coisa pode ser bem complexa se os detalhes forem adicionados, ou se estivermos num paper científico. Não se precisa desse grau de detalhamento para saber que a glicose em excesso será transformada em gordura especialmente na forma de Triglicerídeo pelo processo conhecido como De Novo Lipogenesis 


                Como os estoques de glicogênio são limitados, numa perspectiva evolutiva onde o acesso a comida era na maioria das vezes escasso e precário, faz todo o sentido que haja outra forma de armazenar energia de forma mais duradoura.  Essa forma é a gordura.  A insulina transforma o excesso de glicose na dieta em gordura.  Essa gordura, por meio de um processo reverso chamado lipólise, pode ser utilizado pelo organismo em momentos de falta de glicose.

           A gordura em nosso organismo é armazenada principalmente na forma de Triglicerídeos. Por meio da lipólise, esses triglicerídeos são quebrados em estruturas menores (ácido graxo e glicerol). Essas estruturas são utilizadas, então, como combustível para o nosso organismo na forma de corpos cetônicos (se você prezado leitor, já ouvir falar em dieta cetogênica, nada mais é do que induzir a produção de corpos cetônicos por meio de alimentação com quase nenhum carboidrato) e glicose.  Sim, nosso corpo é tão extraordinário, que nosso fígado consegue transformar ácidos graxos e glicerol em glicose, e isso é imprescindível, pois nosso cérebro não consegue funcionar apenas com corpos cetônicos, ele necessita que suas necessidades energéticas, ao menos parcialmente, sejam supridas com glicose. Esse processo é conhecido como gluconeogênese (literalmente fabricação de glicose).


                Imaginem, prezados leitores, alguém que  tenha o peso de 100 quilos. Vamos supor que essa pessoa tenha um percentual de gordura de 25% (nada muito distante talvez de boa parte dos leitores). Vamos supor também que um percentual ótimo de gordura seja 10%. Sendo assim, essa pessoa teria um excesso de energia acumulada na forma de gordura na faixa de 15 quilos. Como cada grama de gordura equivale a nove calorias, essa pessoa teria 135 mil calorias estocadas na forma de gordura.

                Comparem essas 135 mil calorias acumuladas em forma de estoque com as 2000 calorias na forma de glicogênio.  O nosso colega médio possui nada mais nada menos do que 67 vezes mais energia acumulada na forma de gordura disponível (sem que haja degradação da gordura a tal ponto que comprometa o funcionamento do organismo) do que de glicogênio.

                É por isso que jejuns de mais de 30 dias são possíveis. Nosso corpo possui um estoque absurdamente alto de energia acumulada, especialmente em pessoas acima do peso.  O maior jejum registrado foi de um sujeito obeso na década de 70, onde o mesmo ficou 382 dias em jejum. Sim, você não leu errado, o homem ficou mais de um ano sem comer. Ele ingeria apenas uma solução que continha vitaminas e minerais essenciais para o funcionamento do organismo.  Para o paper científico e análise de um blog sobre o caso leia as referências da nota (2). 


                É importante destacar que a insulina é um hormônio anti-catabólico, ou seja,  ela impede a degradação de estruturas. Logo na presença de insulina na corrente sanguínea de forma elevada, o processo de lipólise não ocorre, não sendo possível o corpo acessar o estoque de energia acumulado na forma de gordura. E sim, há uma dificuldade enorme de perda de peso quando há excesso de insulina no corpo.

                A insulina é um hormônio de central importância para o funcionamento do nosso organismo. Portanto, não é difícil concluir que problemas no seu funcionamento levam a problemas sérios para o funcionamento ideal do nosso corpo.


III - O PROBLEMA DA DIABETES E O METABOLISMO DA GLICOSE


                Excesso de glicose no nosso organismo é tóxico para o corpo. Na bem da verdade, o excesso de qualquer coisa é tóxico. Consuma água demais e isso pode levar o organismo ao colapso e a morte.  Portanto, dizer que algo em excesso é tóxico não ajuda muita coisa. Entretanto, há substâncias que podem variar enormemente no nosso organismo sem causar grandes danos, outras substâncias, porém, tem um “range’ de variação muito menor. A glicose possui uma faixa de concentração sérica (isso é no plasma) onde ela pode variar sem grandes problemas, mas ela não é tão extensa assim.  

                Como a glicose pode se acumular no organismo? Basicamente, por três motivos. O organismo pode não fabricar insulina por algum problema nas células beta do pâncreas. Isso geralmente ocorre na infância, e leva a uma doença chamada Diabetes tipo I. Nessa doença, como o corpo não produz insulina, a glicose não pode ser utilizada pelas células para energia. Assim, mesmo que haja a presença de glicose abundante na corrente sanguínea, essa glicose não consegue entrar na célula para ser transformada em energia. A pessoa literalmente definha por falta de energia, mesmo que haja um monte de energia potencial em sua corrente sanguínea.

                A Diabetes tipo 1 leva a morte se não tratada. Com a descoberta da insulina na década de 30, o tratamento padrão para essa terrível doença é à base de insulina. Se você conhece alguém com essa doença, geralmente jovens, provavelmente tem conhecimento que a pessoa deve injetar insulina constantemente no próprio organismo.

A diabetes tipo 1 é uma doença causada pela não fabricação pelas células betas do pâncreas de insulina, fazendo com que a glicose não possa ser absorvida pelas células do corpo (3) 

                As outras duas formas são a produção insuficiente de insulina e à insensibilidade dos receptores de insulina da célula à presença desse hormônio.  Geralmente, a insensibilidade à insulina é a forma mais comum, e até mesmo a fase prévia para a diminuição da produção de insulina devido à exaustão das células betas do pâncreas.

                O que é ser insensível a algo? Basicamente, é perder a capacidade de ser afetado por este algo.  Se alguém é insensível ao sofrimento humano, muito provavelmente ver alguém tomando um soco na cara não cause nenhuma mudança emocional. Por outro lado, alguém extremamente sensível ao sofrimento humano, pode ficar genuinamente afetado ao ver a mesma cena de alguém sendo esmurrado na face.

                O mesmo raciocínio se aplica a vícios. Um viciado em alguma droga basicamente aos poucos vai perdendo a sensibilidade à substância, quando isso ocorre, doses cada vez maiores são necessários para a obtenção da sensação desejada. 

          Nós da comunidade financeira, e aqui é uma reflexão pessoal, podemos ser mais ou menos sensíveis a bens materiais. Quanto mais bens se têm mais “insensível” a eles nossa sensação de bem-estar vai se tornando.  Se há 10 anos, um Fiat Uno usado pudesse trazer uma sensação de prazer enorme pela facilidade que o primeiro automóvel  proporciona a vida, essa mesma pessoa, depois de prosperar financeiramente, talvez dê de ombros após alguns dias de comprar um  carrão de 150 mil reais.

          No que tange à satisfação pessoal, eu acho que uma das posturas mais poderosas é permanecer sensível às sensações de bem-estar que os bens materiais podem trazer, fazendo com que poucos e simples bens tragam satisfação.  A vida fica mais fácil, tranquila e barata assim.  Passou um final de semana num hotel de luxo cinco estrelas e gostou bastante? Ótimo, muito bom.  Teve um final de semana numa barraca em alguma praia deserta e gostou bastante? Perfeito, você consegue transitar por vários estados de conforto de forma tranquila.

               Fechado o parênteses sobre bem-estar e dinheiro (alguém imaginaria ler isso num artigo sobre insulina?), a insensibilidade, ou sensibilidade, ao hormônio insulina é algo que pode ocorrer em cada pessoa.  Quando uma pessoa é insensível à insulina, isso significa que os receptores de insulina na célula necessitam cada vez mais e mais insulina para que aqueles sejam ativados. Uma pessoa sensível à insulina possui receptores que precisam de muito menos insulina para que haja um correto funcionamento e metabolismo da glicose. Uma pessoa pode necessitar duas vezes mais insulina para que o seu organismo metabolize 50 gramas de glicose do que outro indivíduo, por exemplo.

                E qual é o problema com a insensibilidade à insulina? Com o passar do tempo, para que o organismo equilibre a quantidade de glicose em nosso organismo, mais e mais quantidade de insulina é requerida, pois o processo de insensibilidade, assim como em relação a drogas, é algo que tende a ir aumentando com o tempo e com uma exposição mais prolongada a substância, no caso em análise a insulina. Pode chegar a um momento onde mesmo com uma quantidade enorme de insulina os receptores de insulina nas células não consigam funcionar. Pode acontecer também que as células betas do pâncreas cheguem à exaustão, pois foram forçadas por períodos longos de tempo a secretar uma quantidade enorme, anormal se comprada a um  organismo saudável, na capacidade de produzir insulina em quantidades suficientes. Nesses dois casos, estamos diante de uma doença que é uma verdadeira epidemia mundial chamada DIABETES TIPO 2.

                Toda essa explicação, que fará muito mais sentido quando se falar dos exames laboratoriais, é para chamar atenção que a Diabetes tipo 2 é uma doença intimamente ligada ao funcionamento da insulina.  A manifestação mais clara da diabetes é o acúmulo de glicose no sangue pelo mau funcionamento da insulina.  E por que isso é importante?


                A Diabetes tipo 2 hoje em dia já está entre as maiores causas de mortes no mundo. Ou seja, uma quantidade enorme de pessoas morre por complicações diretamente associadas a um metabolismo inapropriado da glicose e todos os males que isso ocasiona ao corpo. Em segundo lugar, e talvez mais importante, a diabetes está associada estatisticamente com uma série enorme de doenças, especialmente doenças cardíacas. As doenças do coração são em todo mundo a causa número um de mortes.  Quer aumentar significativamente o seu risco de problemas cardíacos? Seja diabético.

                A diabetes também é associada com doenças neurodegenerativas como o Alzheimer. Esta talvez seja uma das doenças mais cruéis, pois parece que vai apagando traços de quem nós somos, da nossa própria humanidade. Há cientistas inclusive que chamam o Alzheimer de Diabetes tipo 3.

                A diabetes tipo 2 é uma doença muito séria e que está causando um impacto muito grande no bem-estar geral da humanidade, bem como nas próprias finanças. Há estudiosos que dizem se a epidemia de diabetes tipo 2 não for controlada nos EUA, isso colocará em risco a solvência do país e a sua própria segurança nacional, já que de gastos de U$ 65 bilhões de 1996 são previstos para chegar a a U$ 500 bilhões em 2030 (4). Isso é um problema enorme, seja se os custos sejam assumidos por meio de impostos, seja se os custos sejam assumidos por meio de renda e poupanças privadas. O Brasil, em termos de diabetes, não está ficando tão atrás de nossos amigos americanos do norte.


IV - COMO DETECTAR DIABETES


                  três formas de se detectar se um indivíduo é diabético.  A mais fácil é fazer um teste para medir a quantidade de glicose na corrente sanguínea. Esse teste é feito geralmente de manhã e em jejum. Os padrões internacionais de referência são esses:

·         Normal: inferior a 99 mg/dl;
·         Pré-diabetes: entre 100 e 125 mg/dl;
·       Diabetes: superior a 126 mg/dl em dois dias diferentes.


                Portanto, se ao fazer um exame de glicemia em jejum, o laboratório constatar que a pessoa tem menos de 99 miligramas de glicose por decilitro de sangue, ela será considerada saudável, com um metabolismo normal de glicose.  Bom, a esmagadora maioria dos médicos só pede esse exame, e ficam satisfeitos com o paciente se a medida for inferior a 99. Isso é um erro grosseiro e pode ter conseqüências nefastas, falarei sobre isso em instantes.

                Se a pessoa tiver uma quantidade superior a 126mg/dl ela é considerada diabética. Valores entre 100-125 são considerados de pessoas pré-diabéticas. O que é pré-diabetes? É uma condição onde toda a toxicidade do acúmulo de glicose no sangue não se manifesta, mas o corpo começa a demonstrar que há algo profundamente errado acontecendo. Geralmente, o número de pré-diabéticos em relação a diabéticos é de 3 para 1. Isso quer dizer que no Brasil onde aproximadamente 8% das pessoas são diabéticas, 24% são diabéticas ou pré-diabéticas. Estima-se que nos EUA em 2030 mais de 50% das pessoas sejam diabéticas ou pré-diabéticas. É uma tragédia anunciada que faz os perigos do terrorismo empalidecerem. 

                A segunda forma de diagnóstico é o teste de tolerância à glicose. O que é isso? Consome-se 75g de glicose por via oral e mede-se a curva glicêmica. A curva nada mais é do que uma função matemática que correlaciona a quantidade de glicose no sangue com o passar do tempo depois de ingerida a solução de glicose.  Depois de consumir uma quantidade dessa de glicose é normal que a concentração dessa substância na corrente sanguínea suba imediatamente. Ela, então, deve ir diminuindo gradativamente com o passar do tempo, já que as células betas do pâncreas percebem que houve uma inundação de glicose, e começam a secretar insulina, fazendo os níveis de glicose no sangue diminuírem.

                Depois de duas horas da ingestão dessa quantidade de glicose, os valores de referência laboratoriais são esses:

·         Normal: inferior a 140 mg/dl;
·         Tolerância diminuída à glicose: entre 140 e 199 mg/dl;
·         Diabetes: igual ou superior a 200 mg/dl.


                  É a mesma coisa em relação à glicemia de jejum. Os valores são maiores, pois é natural que haja mais glicose em circulação depois de duas horas do que depois de 8 a 12 horas sem se alimentar. Esse exame não é tão pedido, e é raro encontrar uma pessoa que tenha feito a sua curva glicêmica. No meu exame, minha glicose subiu para apenas 115 mg/dl aos 60 minutos, caindo para 77 mg/dl aos 120 minutos, mostrando que o meu organismo metabolizou toda a glicose ingerida, e ainda mais um pouco, já que os meus níveis de glicemia em jejum são na faixa dos 85 mg/dl.

              O outro exame é a Hemoglobina Glicada, ou Hemoglobina glicosada (HbA1c). A hemoglobina é uma proteína presente em nosso sangue que tem como função principal o transporte de oxigênio pelo nosso corpo. As moléculas de glicose se unem de forma permanente à hemoglobina, fazendo com que as hemoglobinas sejam glicadas, ou seja,  há a criação de uma nova substância pela união da hemoglobina com a glicose. 

          Como as hemoglobinas têm uma vida útil em nosso organismo em torno de 90 a 120 dias, ao se medir as hemoglobinas glicosadas, se pode ter uma média muito razoável do nível de glicemia em nosso organismo nos últimos 90-120 dias.  Ou seja, é um exame que mostra a exposição do nosso corpo a glicose por um período bem longo de tempo, ao contrário do exame de glicemia em jejum, que mede a concentração de glicose em apenas um momento. Os valores de referência desse exame são:

·         Entre 4,5% e 5,6%: hemoglobina glicada está dentro do normal, sem alteração e indica a ausência de diabetes;
·         Entre 5,7% e 6,4%: este valor indica um quadro de pré-diabetes, alteração metabólica que pode vir a evoluir para diabetes propriamente dita;
·         Igual ou superior a 6,5%: possível presença de diabetes, o que sugere a repetição do exame para confirmação do diagnóstico.

                
           Portanto, com esses três exames: glicemia em jejum, curva glicêmica e hemoglobina glicosada, se pode ter uma noção muito razoável sobre como está a quantidade de glicose no sangue. MAS E A INSULINA?


V - INSULINA E SUA MEDIÇÃO. SINAIS DE RESISTÊNCA À INSULINA. COMO VOCÊ DEVE SE INFORMAR SOBRE SUA SAÚDE E NÃO DEPENDER APENAS DO QUE O SEU MÉDICO FALA OU RECOMENDA.


                E a insulina? Pois é, e a insulina, como fica? Para a esmagadora maioria dos casos ela não fica em nenhum lugar, o que é algo perigoso, muito perigoso. Toda explicação inicial desse artigo sobre a insulina foi para demonstrar o seu papel crucial não apenas no metabolismo da glicose, mas como em muitos outros aspectos do funcionamento do nosso organismo. Não é possível avaliar como está o metabolismo do nosso corpo, sem saber o que está acontecendo com a insulina.

                É IMPRESCINDÍVEL MEDIR A INSULINA.  Por quê? Exames dentro da referência normal de glicose podem mascarar um corpo que já mostra sinais claros de exaustão metabólica. Se a glicemia de uma pessoa é normal, mas ela precisa de doses cavalares de insulina, é evidente que ela está com resistência à insulina, e se os rumos dietéticos e de estilo de vida não forem mudados, possuirá uma grande probabilidade de se tornar diabético.

                Como é possível descobrir resistência à insulina? Ora, medindo a insulina. Por isso É IMPRESCINDÍVEL MEDIR A INSULINA.  Uma pessoa pré-diabética é um sinal claro de resistência à insulina, mas se os exames de glicose encontram-se nos valores normais de referência é muito difícil analisar se o organismo daquela pessoa encontra-se saudável ou não.

                É por isso que alguém pode fazer um exame de glicemia em jejum e aparecer dentro do limite de referência, o médico dizer que está tudo bem,  repetir o exame dois anos depois e descobrir que se tornou diabética. Há dois anos, a pessoa já podia estar no limiar de se tornar diabética, e isso poderia ser detectado com exames de insulina.

                Os limites de referência laboratoriais para insulina em jejum são  muito alargados, muito provavelmente porque boa parte da população esteja doente e nem sabe (os valores de referência são baseados nas médias, medianas, percentis, dos exames realizados pelas pessoas).  Os valores tidos como normais vão de 3 a 36 uUI/ml (micro unidades internacionais por mililitro).

                Por tudo que li, níveis de insulina basal (ou seja quando o organismo está em jejum) maiores do que 10 devem despertar preocupação. Níveis ideais são considerados abaixo de 7. Pessoalmente, parece que o desejável são níveis de insulina abaixo de 5.  Num estudo publicado em 2010, mulheres com insulina basal de 8 tiveram o dobro de risco de desenvolver pré-diabetes em relação a mulheres com insulina basal de 5.  Mulheres com insulina basal de 25 tiveram cinco vezes mais (ou 500% de aumento) de desenvolver pré-diabetes em relação às mulheres com menor insulina (5).

                Portanto, é difícil entender como o valor de referência de insulina pode ir a 36 nos testes laboratoriais.  A resistência à insulina está associada não apenas a diabetes, mas a uma série imensa de problemas no corpo. Aos eventuais curiosos, meu último teste de insulina deu 3,4, que é mais ou menos o mais otimizado que se pode estar em relação a este parâmetro.

                Logo, que fique clara a mensagem, que a glicose deve necessariamente ser correlacionada com à insulina.  Há até mesmo um modo fácil de se fazer isso e consiste na utilização do método HOMA-IR (Homeostatic model assessment – Insulin Resistent). Esse método de análise para a averiguação da (in)sensibilidade à insulina correlaciona níveis de glicose em jejum com níveis de insulina em jejum. Ao escrever este texto, descobri que há uma calculadora fácil para checar os níveis: CALCULADORA ONLINE HOMA-IR  

             O meu HOMA-IR deu 0.71 (insulina de 3.4 com glicose em jejum de 85).   Dizem que valores ótimos sejam abaixo de 2, mas valores tolerados seriam abaixo de 2.7. Eu creio que as pessoas deveriam procurar valores abaixo de 1.

                Por fim, o artigo está muito longo, há a forma mais precoce de se avaliar se uma pessoa é insensível à insulina ou se está desenvolvendo problemas em relação à sensibilidade. É a forma mais precoce de se detectar tendência de diabetes tipo 2, e infelizmente é quase desconhecida por profissionais de saúde. Trata-se da curva insulinêmica.

                É um exame feito em concomitância ao teste de tolerância à glicose. Ou seja, bebe-se 75g de glicose, e se mede o efeito na glicemia no começo, uma hora depois e duas horas depois, com medições também da insulina. Como há uma quantidade enorme de glicose entrando a corrente sanguínea de uma vez só, há uma enorme secreção de insulina no período. Acompanhando os padrões da insulina, é possível ver sinais de resistência à insulina.

                Eu fiz esse teste na segunda-feira, e tive que pesquisar por conta própria como interpretar os valores, já que não havia valores de referência no laboratório, e nem nada escrito em português a respeito. Acabei descobrindo um Paper Científico do ano de 2013 (6), e foi muito instrutivo a leitura do mesmo.
               
                O estudo de referência identificou cinco padrões de resposta insulínica ao teste de resistência a glicose. As cinco figuras em cima dizem respeito às medições de insulina, e as cinco figuras abaixo a medição de glicose.


Padrões de resposta à insulina. No padrão I, o mais saudável de todos, a insulina atinge um pico e cai drasticamente aos 120 minutos. Logo, a área sob a curva (Area Under the Curve) dos efeitos da insulina no corpo é muito menor do que os Padrões IV e V onde a insulina no minuto 120 ainda encontra-se elevada.


                Para este estudo, os cientistas mediram as concentrações de glicose e insulina aos 0, 30, 60 e 120 minutos num grupo de pessoas sem diabetes. Depois de realizarem esse teste, acompanharam por 11 anos os indivíduos para analisar o que aconteceu com os mesmos em relação a diabetes.   Não vou adentrar em detalhes, mas essa foi a conclusão do Paper:

RESULTS There were 86 incident cases of type 2 diabetes. The cumulative incidence was 3.2, 9.8, 15.4, 47.8, and 37.5% for patterns 1, 2, 3, 4, and 5, respectively. 
CONCLUSIONS The patterns of insulin concentration during an OGTT strongly predict the development of type 2 diabetes.

"RESULTADOS: Houve 86 casos de incidêndia de DT2. A incidência cumulativa foi de 3.2, 9.8, 15.4, 47.8 e 37.5% para os padrões 1,2,3,4 e 5 respectivamente.
CONCLUSÃO: Os padrões de concentração de insulina durante um teste oral de tolerância a glicose fortemente prediz o desenvolvimento de diabetes tipo 2.


            Felizmente, o meu padrão foi o tipo 1 no teste. Minha insulina foi medida a 65 em 60 minutos e apenas 7 em 120 minutos. Para efeitos de comparação, os indivíduos padrão tipo 1 no estudo tiveram níveis de insulina de 60 a 79 (média de 69) em 60 minutos e  36 a 52 aos 120 minutos (média de 43.7).  Logo, minha medição aos 120 minutos é muito inferior a todos os indivíduos estudados, o que mostra que tenho uma sensibilidade muito boa a insulina.  Importante destacar que a depender do padrão de resposta à insulina, o indivíduo teve 12 vezes mais chance de se tornar diabético (ou seja, 1200% a mais do que o padrão 1).

            O impressionante é que quando se olha os números de glicose, insulina basal, HOMA-IR de todos os padrões de resposta, eles são muito parecidos, conforme quadro abaixo:

Talvez seja difícil de visualizar, mas os indivíduos do estudo não tinham glicemias, insulina basal, HOMA-IR muito diferente uns dos outros. A grande diferenciação foi a resposta da insulina aos 30,60 e 120 minutos.


            Ou seja, o que diferenciou em incidências tão diversas de diabetes não foi a glicemia de jejum, não foi a insulina basal, não foi a curva glicêmica, não foi o HOMA-IR, mas sim como a resposta insulínica ocorreu. Nada disso é detectável se o médico não pedir esse exame específico e não souber interpretar esses dados.


VI - CONCLUSÃO

            Todos deveriam se preocupar com esses parâmetros. Eles são essenciais para uma vida saudável. Do que adiante alcançar a independência financeira e descobrir que está a um passo de se tornar diabético, com conseqüências extremamente negativas para a qualidade de vida. Entenda o funcionamento da glicose e insulina, e peça para os profissionais de saúde que o auxiliam testarem esses diversos parâmetros. Sua saúde, sua qualidade, seus filhos e sua sonhada independência financeira cheia de saúde agradecem.



Notas
1) https://pt.wikipedia.org/wiki/Glicog%C3%A9nio
2) https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2495396/pdf/postmedj00315-0056.pdf e https://cristivlad.com/total-starvation-382-days-without-food-study/
3) Imagem retirada de  https://www.asaudeempauta.com/2016/09/entendendo-o-diabetes-mellitus-tipo-1-sintomas-causas-tratamentos.html