quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

A "PERDA FIXA", O OTIMISMO BRASILEIRO E MAIS UMA VEZ OS ERROS DE JULGAMENTO

O ano é 2015. O mês é dezembro. É oficial, o Brasil está prestes a acabar. O calote é iminente, a dominância fiscal é um fato (um conceito econômico que significa que a política monetária perde o seu poder de fogo, frente a um quadro fiscal deteriorado), os FII serão tributados e o PT se tornou uma espécie de III Reich com o seu plano de governar por 1000 anos um país que existe apenas há algumas centenas de anos.

Ah, esqueci do dólar a mais de R$4,00, e vi blogueiros e articulistas mais famosos falando que era questão de tempo para chegar a R$5,00. Por qual motivo chegaria a R$5,00? Foi uma pergunta que fiz uma vez, e recebi a resposta de que a razão era porque o PT quebrou o país. Quem investiu no Dólar a R$2,80, ou em patamares menores, dava um sorriso leve de ter acertado o momento certo. Quem investe no exterior comemorava rentabilidades extraordinárias, fruto de um conhecimento aprofundado das dinâmicas do mercado, alguns poderiam pensar.

 Eu escrevi um artigo chamado O Brasil Acabou Evidentemente, era uma ironia, e eu colocava algumas reflexões sobre o que pensar a respeito do nosso país. O artigo foi escrito em meados de fevereiro de 2016. Títulos pré-fixados pagando 17%, NTN-B chegando a 8%, vários FII pagando 1%am, Banco do Brasil sendo negociado a R$12,xx, a um PL 2, e um patrimônio líquido Negativo, pois só as participações acionárias do Banco em outras empresas listadas em bolsa já dava mais do que R$12,00 por ação.  O meu pai me disse que Bonds perpétuos com call em 2024 do Banco do Brasil com cupom de 9%aa em dólar estavam sendo negociados a 40% do valor de face, ou seja estavam pagando 20%aa em dólar. Era o armagedon. Não foi há 10 anos, não foi na época da eleição do Lula em 2002, foi há menos de um ano.

  E o que ocorreu no ano de 2016, a derrocada financeira de tudo no Brasil? Quase, os analistas foram quase precisos nesta. A curva de juros futuro se inverteu numa queda acentuada. A inflação cedeu, vários FII voltaram a patamares de 0.7%am (o que indica uma valoração acentuada da quota) e o “falido BB teve um retorno de 100% em alguns meses. E quem comprou Bonds Perpétuos do BB , acumula ganhos de capital na ordem de 100% e 20% de juros em dólar. Sim, a renda fixa é claramente uma perda fixa.

 O que acontece, colegas? E o que vai continuar acontecendo? A mesma coisa que sempre ocorre potencializado pelos  meios de informação mais democratizados: a grande maioria das pessoas irá superestimar suas capacidades analíticas analisando o passado com lentes do presente e darão mais preponderância ao passado recente.

  Isso tem nome técnico. Chama-se Hindsight Bias, já tratado em artigo deste Blog O que os Jornais de 20 anos atrás podem nos ensinar?, e Recency Bias. No primeiro, analisa-se os acontecimentos passados já se sabendo o que ocorreu (não se analisa o passado baseado nas informações que existiam no passado), o que faz com que tudo se torne “explicável”. O escritor Nicolas Taleb chama isso de a falácia lúdica: a criação de histórias que façam o passado se tornar muito mais inteligível do que ele realmente é.

  Já o Recency Bias, nada mais é do que darmos mais força a informação mais atual do que a uma informação mais antiga. Está em todo o lugar. Quando me perguntavam sobre o dólar, se eu acreditava indo a R$5,00, eu apenas dizia que isso me cheirava a Recency Bias cumulado com desconhecimento total sobre os fundamentos do comportamento do câmbio no médio-longo prazo.

  No artigo Câmbio, O Princípio Fundamental , eu compilei diversos dados, de diversas moedas, mostrando que o ganho real entre moedas é basicamente nulo no longo prazo, o que apenas confirma a teoria de que o câmbio em períodos maiores de tempo apenas reflete o poder de compra das moedas. 

  Quem tem contas em reais, e estava investido fora em 2016, provavelmente tem rentabilidades negativas em reais, enquanto quem investe apenas aqui no Brasil deve ter fortes rentabilidades positivas. Isso quer dizer que investir no exterior é ruim?

  Toda vez que eu ouço esse tipo de pergunta, eu preciso respirar fundo e compreender que o grau de interpretação de alguns às vezes não é tão, diríamos, refinado. Em 2014, escrevi um artigo sobre Fundos Imobiliários de Papel. Foi um bom artigo, que penso em revistá-lo, melhorá-lo e publicá-lo de novo, quem sabe num livro. O artigo tem quase dois anos e meio, mas ainda recebe visitas e comentários, o que é algo bem bacana. Pode ser acessado em Fundos Imobiliários de Papel: Abrindo a Caixa de Pandora

  Quando coloquei esse artigo no Tetzner, tinha um camarada que simplesmente parou de conversar comigo, e dizia que o investimento em Fundos de Papel era um bom negócio e que não era essa “porcaria" que o meu artigo retratava. O artigo em questão, se você se der o trabalho de ler, apenas tentava explicar a complexidade dos papéis, e alertava que eram mais arriscados do que certos investimentos em renda fixa, e por isso deveriam ser adequadamente remunerados. Nada mais, nada menos.

  Hoje em dia se pode investir em muitas coisas, muitas mesmo. Quer investir numa empresa de tecnologia? Torne-se um investidor anjo. Quer comprar investimentos de dívida atrelados ao mercado imobiliário e com precificação um pouco mais complexa? Vá de Fundos Imobiliários de Papel. Quer ser sócio operacional de uma padaria? Procure os classificados ou alguém que possa te vender o negócio. Quer investir no crescimento da Mongólia? Compre um ETF da Mongólia (sim, eu já pesquisei e há um que abrange Mongólia e Ásia Central com 0,75% aa de taxa de administração). 

 Compre o que você quiser, apenas entenda um pouco o funcionamento básico do ativo, os riscos prováveis, e dependendo do que for exija um prêmio de risco que seja adequado. 

  Sendo assim, os comentários do leitor do Tetzner, e a pergunta retórica desse texto de se investir no exterior é ruim, não fazem sentido. FII de papel não é bom, nem ruim, ele pode estar bom, e ele pode estar ruim, dependendo do prêmio de risco associado. Assim como comprar títulos seguros do Governo da Suíça pode ser bom ou ruim, no meu entendimento pagando juros nominais negativos, como é atualmente, não é um bom investimento.

  Podemos encarar tudo e qualquer investimento sobre essa ótica. Franquias, FII, ações, ETFs, barracos em favela, imóveis em leilão, etc, etc.


  Logo, se quer investir no exterior, tem que saber que há dois riscos: o da classe de ativo investida (e se escolher o ativo individualmente, o risco não-sistêmico também), bem como o risco cambial. Isso é tão importante, que há diversos trabalhos comparando a exposição ao mercado de renda fixa estrangeiro, na ótica de um investidor americano,  com hedge contra variação cambial ou não. Há um paper da Vanguard que trata apenas disso (Global Fixed Income: considerations for U.S. investors).

  Ao invés de sairmos por aí fazendo análises apressadas que nada mais são do que erros de julgamento como os dois apontados neste texto, vamos tentar parar e refletir sobre o que estamos fazendo. Se há uma coisa que venho aprendendo, é que é muito mais fácil perceber quando algo está barato, do que quando algo está razoavelmente precificado ou não.

  A verdade é que o Brasil estava quase de graça em fevereiro de 2016 em dólares. Isso não era tão difícil de perceber, e até eu percebi em certa medida. Tanto que foi o único mês que comprei ações e FII no último ano. Infelizmente, como estava no Laos na época, não consegui alocar muito dinheiro, pois meus procuradores no Brasil não estavam disponíveis para transferir dinheiro do Banco para a corretora e depois disso me perdi pela China por quase 4 meses onde nem acesso a internet livre se tinha muito. Se comprei 20k que tinha parado na conta da corretora de dividendos e recebimentos de aluguéis de FII foi muito.

 Agora, é muito mais difícil analisar se algo está se tornando sobreprecificado, se há otimismo exagerado ou não. Há otimismo no Brasil? Aparentemente, nos mercados financeiros sim. Porém, os juros reais ainda são muito altos, um dos maiores do mundo, yields em FII ainda são bem razoáveis, ainda mais levando em conta a isenção tributária, que fica difícil dizer se há euforia desmedida ou apenas se os prêmios estão voltando para o lugar correto.

  Porém, assim como em 2014 ninguém estava dando bola para Lava-Jato (e para mim na época era o maior desafio de 2015, sem Hindsight Bias nos comentários hein), eu acredito que estão dando pouca importância as 77 delações da Odebretch e o impacto devastador que isso pode ter no nosso sistema político. O julgamento da chapa Dilma-Temer pelo TSE, e a possibilidade de um candidato radicalizado ter chances reais em 2018 são considerações que parecem não estarem tendo o seu devido peso nas análises.  

 O governo Temer, tão ou mais do que o da Dilma, está afundado em denúncias e mais denúncias de corrupção. Fica difícil imaginar que ele se mantenha no poder com baixa popularidade, menor do que a Dilma, e denúncias graves aos montes de corrupção quando revelarem o teor das delações. Para mim, está mais do que claro que houve e ainda há indignação seletiva, o que é terrível para se construir um país forte.

 Por isso, mantenho cautela em investimentos, com boa parte  do meu patrimônio atrelada ao CDI, mesmo com juros caindo. Um lado muito bom desse otimismo, e queda dos juros, é que os imóveis talvez comecem a ficar mais atrativos de novo. 

 São cinco imóveis meus que estão ou comprados, ou em vias de, ou ao menos com alguma proposta pendente que se melhorar um pouco, eu liquido a operação. Isso me deu ânimo para comprar mais dois em dezembro, e estou de olho em mais três nessa semana. Na verdade, ambiente de juros baixo é bom para mim, minhas rentabilidades potenciais são bem maiores. Ambiente de juros altos também é bom para mim, pois os ativos ficam mais baratos.

 Como assim, qualquer ambiente é bom? Sim, tendo capital acumulado, tendo instrumentos de renda fixa com juros reais de 4-5% ao ano e com liquidez imediata,  sendo genuinamente satisfeito com baixas despesas e uma vida mais simplificada, proporciona a habilidade de navegar de forma tranquila em vários cenários. Apenas em cenários de descontrole como Venezuela, ou de caos absoluto como Síria, é que há grandes problemas. E é por isso que faz sentido se expor a retornos menores, risco cambial , investido no exterior.

 É isso, colegas. Reflitam por si sós. Façam isso buscando os fundamentos. Deixem de lados análises complexas, e foquem no essencial das questões. Apenas depois de uma compreensão maior dos fundamentos, se torna  possível ter análises mais complexas.

  Abraço! 


segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

UM MUNDO SEDENTO POR ATENÇÃO SINCERA. UM DIA DE BLABACAR, SOFRIMENTO, INDIFERENÇA E BEBÊS.


 Olá, colegas. Sabe como ficaria um título mais atrativo? “Minha Experiência com o Blabacar: prós e contras”. Utilizaria a palavra blablacar algumas vezes, algumas técnicas de SEO, e quem sabe o artigo não iria trazer muitos mais acessos para este pequeno blog. Não tenho dúvidas que seria válido para muitas pessoas, mas de certa forma não seria eu escrevendo. Vou além, eu não poderia passar tantas percepções que podem parecer desconexas num primeiro momento, mas que fazem todo o sentido quando olhadas em seu conjunto.

 Eu ouvi falar sobre o Blablacar numa palestra que vi no google talks (valeu a dica Frugal) sobre shared economy. Basicamente, é um aplicativo que conecta “caroneiros" de uma cidade a outra. Se você está indo de Paris a Bruxelas de carro , por que não dividir as despesas com outras pessoas que querem fazer o mesmo percurso? Ideia simples, mas poderosa. 

 Eu sou muito acostumado com este tipo de transporte, mas para a esmagadora maioria das pessoas o compartilhamento de um transporte como o carro é algo no mínimo diferente. Como precisei vir a Porto Alegre por motivos de ordem pessoal da noite para o dia, fiquei feliz ao saber que o Blablacar já tinha chegado ao Brasil. Resolvi tentar, até porque era algo em torno de 30% mais barato do que um ônibus.

 Depois de fazer a reserva, tive acesso ao telefone da motorista e mandei uma mensagem perguntando se ela não podia me pegar em casa. Ela concordou, e seis da manhã estava em pé na frente de onde moro esperando-a chegar. A partir daqui o artigo começa a ficar interessante, pelo menos na minha percepção.

  Ela tinha se perdido e passado a entrada da minha rua, fui então andando em direção à rodovia principal, não sem antes pedir carona para um tiozinho que estava passando pela rua. Ele queria me levar longe, mas disse que até a esquina estava bom. Poucos segundos depois, chega a motorista com cara de poucos amigos. Pensei comigo mesmo “Xi, a mulher está brava”. 

 O motorista é aquela pessoa que terá a sua vida literalmente nas mãos dele. Nunca discuto com nenhum motorista de qualquer tipo de transporte. Pelo contrário, sempre, e eu digo sempre, elogio o  condutor, principalmente quando chego em segurança no destino final. Logo, minha missão seria acalmá-la. 

 Nós tínhamos que buscar uma menina que morava no mesmo bairro que eu. Enquanto ia guiando-a, ela ia me contanto uma história que tinha brigado com o namorado, que os dois faziam UBER e resolveram vir a Florianópolis tirar um dinheiro, que dormiram no carro, mesmo com eles dentro tentaram invadir o carro, que o namorado tinha gritado com ela, ou seja a mulher estava com os nervos a flor da pele.

  Enquanto isso, um belíssimo nascer do sol se descortinava, paisagens lindíssimas (onde moro é muito bonito mesmo), mas isso passava despercebido, o que é normal quando estamos estressados com algo, já que deixamos de prestar atenção à realidade e nossa mente apenas divaga nos pretensos problemas que porventura se possa ter.

  Encontramos onde a Lia estava (nome da passageira) e fomos em direção à rodoviária pegar o terceiro passageiro. Aos poucos ia conversando com a motorista, bem como com a Lia, uma gaúcha simpática que fazia biologia, resolveu largar a faculdade, pois tinha se desencantado com o mundo acadêmico,  e hoje trabalha com aromaterapia

 Chegamos à rodoviária, e o terceiro passageiro, Willian, um garoto que tinha ficado na vida louca a noite inteira, estava desabando de sono e com uma paixão recém-descoberta pela ilha da magia. Ele me contou que queria abrir uma Barbearia nos Ingleses (uma praia de Florianópolis). O trio estava completo. O namorado da motorista estava lá, e perguntou a ela se já tinha pegado toda a “carga”, ou seja nós. As palavras moldam nosso mundo e como o enxergamos, tema já abordado em Newspeak, Neve e a Distorção da Realidade. “Carga" amigo? 

  Começamos então a viagem de quase 500km rumo à capital gaúcha. Papo descontraído, a Lia ao saber que eu tinha ido a Mongólia, disse que era um sonho dela ir para lá, contou da sua experiência quando morou na Austrália, perguntou como era a Índia entre outras coisas. A Motorista , por seu turno, disse que se sentia mais relaxada depois de conversar comigo.

 Quando estávamos no meio da viagem, e os dois colegas de viagem estavam dormindo atrás, a motorista começou a ir em conversações mais profundas sobre a vida dela. Por que ela fez isso? Pelo simples motivo que ninguém está mais disposto de ouvir ninguém com a atenção e respeito que a pessoa merece. Infelizmente, estamos ficando cada vez mais surdos.

 A surdez é tão grande que hoje em dia, talvez sempre tenha sido assim mas só posso contar do tempo em que vivo, que quase todos precisam “berrar”. As pessoas berram com seus desejos de carros maiores e mais luxuosos, com seus desejos de mostrar fotos de mulheres exuberantes, com a pretensa indiferença pelos outros, por um foco obsessivo com suas carreiras, etc, etc. Quando mais berramos, mais surdos vamos ficando.

  Ela então contou-me uma história muito pesada sobre o seu ex-marido. Ela era contadora com 17 anos de prática, mas disse que estava difícil arrumar trabalho que não fosse sub-emprego na área. Narrou-me que há uns seis anos largou um emprego estável para acompanhar o marido que tinha acabado de casar. 

 Acontece que o marido era alcoólatra e começou a ser despedido de emprego após emprego, e ele tornou-se violento com ela. Agressões físicas e humilhações. Ela então na estrada começou a chorar, e disse-me que fazia anos que ela não contava essa história para ninguém. Disse para ela ficar tranquila, que tudo já havia passado. Ela então contou “não cheguei no pior”.

  Um certo dia, depois de muito discutirem, o marido dela entrou no quarto onde ela estava, apontou a arma e atirou. Ela me disse que quando viu ele entrando com a arma, algo dentro nela fez com que ela saísse correndo em direção a ele para empurrá-lo. Com esse ato de certa maneira heróico, ela conseguiu que o tiro pegasse apenas de raspão em sua orelha.

  Sim, meus amigos, ela seria assassinada se não fosse o impulso dela. Ela chorou mais uma vez, e apenas a deixei chorar. Depois, ela me confidenciou que o marido, eles ainda não se separaram formalmente, continuou a persegui-la. Eu me perguntei como um cara desses não está preso por tentativa de homicídio por motivo fútil. Coisas do nosso Brasil. 

 Ela, para meu espanto, narrou como os familiares dele ficaram contra ela depois do ocorrido. Se eu tivesse a pior mulher do mundo, que me fizesse muito mal, e eu desse um tiro nela, eu tenho certeza que minha mãe muito provavelmente não olharia mais na minha cara. Como em nome de relações familiares, as pessoas podem simplesmente ignorar atos horrendos? Eu não sei, e nunca consegui entender isso, apesar de estar a par das razões biológicas relacionadas à nossa evolução enquanto espécie.

 Ela depois contou sobre a família, sobre o irmão que tinha falecido com apenas 21 anos, sobre a irmã com a qual tinha relações complicadas, sobre os país que segundo ela nunca tinham feito nenhum elogio (apenas a mãe uma vez que teria dito que ela era muito trabalhadora). No final, ela disse que tinha trocado uma vida estável, com um bom emprego, por um verdadeiro inferno. Hoje, ela estava sem dinheiro, dirigindo o carro do “namorado” pelo UBER pagando R$50,00 de diária, morando de favor com uma amiga que estava brigada, e ela não sabia nem onde ia dormir depois que chegasse a Porto Alegre.

 Sim, foi uma sessão catarse para ela. Ela perguntou minha opinião. Eu comecei a falar sobre conceitos contábeis com ela, como ela tinha que pensar em fluxo de caixa, como deveria estabelecer metas de curto e curtíssimo prazo, mirando objetivos de mais longo prazo. Disse que deveria primeiramente encontrar um canto para ela ter paz de espírito, ou seja, alugar um lugar para ficar, nem que fosse muito simples, e nem que ela tivesse que trabalhar mais e aceitar sub-empregos na área dela. Falei que uma mulher que tem a força de empurrar um homem com arma na mão, possui a força necessária para dar a volta por cima e entrar num ciclo virtuoso.

 Enfim, eu fui um ouvinte que realmente estava interessado na história dela, e isso provavelmente fez um bem tremendo para ela. Depois dessa série de histórias, os outros viajantes acordaram, conversamos mais animadamente e num instante chegamos em Porto Alegre. A motorista fez questão de me deixar na casa de familiares (o combinado era na rodoviária), e me despedi desejando o melhor para ela em sua vida, bem como aos companheiros dessa curta viagem.

  Reencontrei familiares (infelizmente um tio meu faleceu), inclusive minha mãe que veio às pressas de Santos. Mais tarde fui a minha Mãe a um supermercado, pois ela como uma boa Alemã gosta bastante de uma cervejinha e fomos comprar mais latinhas. 

  No caixa a nossa frente, havia um casal de senhores. Minha mãe gosta muito de falar e de sorrir para os outros, mas esse casal simplesmente ignorou-a. Percebi que o Sr. que já tinha cabelos brancos não olhava para a cara da empregada do supermercado. Ela perguntava, ele respondia sem olhar nos olhos dela. 

  Como alguém pode perder isso? Desde quando perdemos a habilidade de olhar nos olhos das pessoas quando somos perguntados? Ao mesmo tempo em que a moça do caixa era quase que ignorada, havia uma criança com pais que estavam acabando de ensacar as compras do mercado. A Senhora era só sorrisos para a criança. 

  Mas a moça do caixa não era apenas um bebê que se desenvolveu e se tornou adulta? Nós todos não somos apenas crianças que crescemos? Por qual motivo somos carinhosos com crianças que não conhecemos, e frios e indiferentes com quem não conhecemos? O que se perde no caminho ao crescermos, ou o que nós perdemos, ou nunca fomos ensinados, ao olhar “bebês crescidos”? 

 É claro que crianças pequenas podem ser encantadoras. Afinal, é uma nova vida, geralmente são muito bonitos. Mas uma criança hoje é o estuprador de crianças do futuro, o político envolvido em esquemas de corrupção, o astro de futebol, o humanitário que vai a regiões sofridas do mundo, o grande investidor, a criança a qual nós olhamos tão efusivamente, somos nós no passado. Na verdade, a criança é nós, e nós somos a criança.

  Ouça mais as pessoas. As pessoas querem apenas um pouco de uma atenção sincera, prezado leitor. As pessoas estão tão sedentas por isso, que elas tentam disfarçar numa camada de indiferença. Ouça mais, querido leitor. Pode ser recompensador para quem fala, e quem escuta.

  E assim termina o meu final de semana. Com dois imóveis, que eu projetava vender apenas em 2019 por essa crise que passa o país, vendidos em apenas um dia, com o tio mais próximo meu não mais compartilhando a terra conosco, com uma forma agradável, bacana, barata de se viajar explorada, com uma história pesada de vida de uma pessoa que só queria ser ouvida e com uma reflexão de por qual motivo não podemos olhar para as pessoas e sentir uma proximidade maior assim como sentimos em relação a crianças bem pequenas.


 Um abraço a todos.

domingo, 8 de janeiro de 2017

O OCASO DAS VIDEOLOCADORAS E A (LEVE)TRISTEZA EM MEU CORAÇÃO.


  Olá, colegas. Ontem foi um dia muito interessante. Muitas coisas diferentes ocorreram, algo muito comum quando se viaja (principalmente se é uma jornada mais longa), mas incomum quando se está em casa e numa certa “rotina”. Por isso, foi bem agradável o dia de ontem. 

 Um dos momentos interessantes foi ter entrado numa videolocadora. “Como assim, Soul? O que isso pode ter de interessante?”. Eu já disse algumas vezes que gosto muito de ver filmes, e por causa disso fazia parte da minha rotina no Brasil alugar filmes uma ou às vezes duas vezes por semana. Sim,  eu sabia que o negócio em questão estava cada vez menor, e que talvez houvesse formas mais eficientes e baratas de se assistir filmes, mas eu gostava do ritual de ir numa loja para escolher um filme.

 Ao voltar para a minha cidade há uma semana, reparei que a viodelocadora que eu frequentava não mais existia. “Que droga!”, pensei comigo mesmo. Resolvi andar pelas ruas do bairro e percebi que outras duas videolocadoras deixaram de existir nestes dois anos que fiquei fora do país. Ainda haveria alguma locadora no meu bairro?

  Pesquisei na internet e aparentemente ainda existia uma a alguns quilômetros de onde moro. Fiz então uma rápida pesquisa na internet, e descobri que 2015-2016 foram os piores anos para esse segmento. O serviço de streaming de prestadores de serviço como o NOW da NET literalmente está acabando com a viabilidade financeiras de videolocadoras.

  Depois de almoçar, dirigi-me à loja. Abri um cadastro e perguntei para o proprietário como ele estava conseguindo se manter. Ele me respondeu que se não fossem pelas bebidas, ele já teria fechado as portas também, que o movimento tinha caído mais de 50% na locação de DVDs. O dono da loja tinha transformado metade da locadora numa loja de bebidas alcoólicas. Nos vinte minutos que fiquei escolhendo três filmes e conversando com ele, passaram uns quatro clientes e todos compraram bebidas, nenhum se interessou pelos filmes ali dispostos.

 Ao ver a situação, ao conversar com o proprietário e ver todos aqueles filmes, tenho que confessar que me bateu um sentimento de tristeza. Lembrei-me de como as videolocadoras me acompanharam por quase todas as fases da minha vida.  

  Da minha  mãe falando comigo ao telefone quando tinha seis anos “Menino, para de assistir esse Indiana Jones, já vamos pagar  uma bela multa por atraso na devolução”, passando pela primeira vez quando adolescente pegando um filme pornô no meio de outros quatro que eu tinha alugado apenas para disfarçar a vergonha,  continuando quando jovem na faculdade ia com colegas assistir algum filme polêmico para podermos discutir depois de fazer o macarrão tradicional da “raça" que consistia em molho branco com presunto, desembocando nas centenas de filmes que assisti junto com a minha companheira nestes últimos anos.

  É, o ato de escolher um filme numa loja física esteve muito presente na minha existência até os dias de hoje. Olhei para os Blu-Ray enfileirados, que já foram DVDs, que já foram VHS, e fiquei triste. Quase uma lágrima escorreu pelos meus olhos. “Está de Brincadeira né Soul, tudo isso por causa de uma videolocadora?”

  Não, colegas, tudo isto pelo sentimento de saudade e nostalgia que à medida que vamos envelhecendo vai ficando mais presente nas nossas vidas. Pensei no meu Pai e Mãe e imaginei se eles sentiam saudades de coisas que não mais existem. Afinal, se é verdade que nós nos tornamos o que experimentamos, parece-me natural que de certa maneira possamos nos sentir entristecidos quando certas referências culturais, arquitetônicas, gastronômicas, etc, etc, deixam de existir.

  Devemos então salvar as videolocadoras? O governo deve intervir? Impedir serviços de streaming?  Evidentemente que não. A mola propulsora de nossa economia, e de parte do nosso desenvolvimento humano, é a inovação. Ora, se eu posso “alugar" um filme no conforto da minha casa, sem precisar me descolar duas vezes para uma loja física, inegavelmente o serviço de aluguel de filmes se tornou muito mais eficiente. Qualquer interferência que não a dos consumidores seria extremamente deletéria.

  A minha reflexão neste artigo não é para negar a realidade, ou mesmo para dizer que o mundo de alguma maneira ficou pior. Nada disso. O nosso desenvolvimento tecnológico a todo tempo está destruindo serviços e produtos e criando outros novos. É a destruição criativa, termo muito utilizado por economistas.

 Além do mais, estamos sempre como indivíduos em constante mudança, assim como a realidade que nos cerca. A única forma de encontrarmos satisfação nessa vida é aceitar esse fato. Nada mais, nada menos.  Esse é talvez um dos maiores ensinamentos que alguém pode aprender na vida, não é à toa que é um dos pilares do Budismo.

  Não é sobre como enriquecer, ou ser mais produtivo, ou mais influente, ou mais generoso, o ensinamento mais poderoso para o  bem-estar humano, e compreensão da vida,  é aceitar que as coisas estão em eterna mudança. 

 O filho cresce, a saúde se debilita, os vizinhos mudam, as profissões se transformam, os ícones morrem, os ícones nascem, e a realidade continua existindo, não importando o que pensamos sobre as mudanças. Podemos nos frustrar, ou podemos aceitar esse aspecto da vida.

  Logo, a tristeza, a nostalgia, que senti ao observar aqueles filmes enfileirados de certa forma é uma maneira de não aceitar a realidade, de forma leve é claro, mas mesmo assim é uma forma de não aceitar a eterna mudança de tudo. 

  Porém, somos humanos, não é mesmo? Podemos chegar perto de compreender e colocar em prática o maior ensinamento para se ter uma vida satisfeita, mas é difícil aplicar em todos os aspectos e a todo tempo. Além do mais, como já dizia a bela música




  Talvez um “caldinho" de nostalgia e tristeza sejam importantes para que possamos realizar algumas tarefas nesta vida. Talvez a tristeza inicial se transforme numa alegria posterior ao percebermos que o que nos causa tristeza por não mais existir hoje, nos causou alegria por existir ontem, e por que não ser grato por isso?


  É isso colegas, um grande abraço!

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

O MONSTRO BRASILEIRO CRESCEU, ESTÁ MAIS PODEROSO E PERIGOSO

Olá, colegas. Um bom ano novo a todos. Estou de volta à minha cidade. A adaptação está sendo boa. Ajuda o fato de estar recebendo em nossa casa grandes amigos nestes últimos dias, apesar da bagunça generalizada que está o apartamento.

 Infelizmente, o presente artigo será sobre um tema que não é financeiro, não contribuirá muito para a sua vida pessoal e por fim é sobre algo deprimente. "Por que escrever então Soul?”. Esta é uma boa pergunta. A resposta é que gosto de dissertar sobre os mais variados temas. Veja o belo trabalho que nosso amigo Alexandre do Abacus Líquido está fazendo na construção do seu site, bem como na ajuda a toda blogosfera de finanças. Quando o meu blog ficou um pouco mais conhecido, não que ele seja muito, ficou claro para mim que um blog como o meu nunca ficaria muito popular por diversos motivos: falta de uma segmentação clara, design fraco, artigos sobre temas polêmicos e de pouca aceitação, etc, etc. Penso em mudar um pouco isso com o novo blog que pretendo construir. Entretanto, escrever sobre temas diversos é algo que me deixa satisfeito, pois no dia a dia  eu sempre estou refletindo e lendo sobre diversas coisas. Essa é uma característica que não pretendo abrir mão na minha vida de escritor amador.

  Quando escrevi o artigo que travava sobre as raízes do surgimento do grupo terrorista Estado Islâmico A Infâmia, a Mentira e a Criação de um Monstro, terminei o mesmo dizendo "O Brasil também possui o seu monstro criado, baseado num massacre e em pressupostos no mínimo contestáveis, e pretendo abordar esse tema qualquer dia desses.” Quase três anos se passaram, e eu não escrevi sobre o nosso monstro. Porém, senti necessidade de refletir um pouco sobre o tema, pois o monstro ficou mais feio, mais poderoso e muito mais perigoso.

 Não sou eu que digo, e sim o Dr. Drauzio Varela numa entrevista para o roda-vida da TV Cultura quando ele começou a dissertar sobre o Primeiro Comando da Capital ou PCC. Recomendo fortemente a entrevista, pois ela revela um grande ser humano com ideias muito bacanas sobre a vida. Talvez ele seja um dos maiores especialistas em convívio com detentos no Brasil.  Surpreendeu-me quando ele disse duas coisas: 1) Os presídios paulistas hoje em dia são extremamente seguros, com pouquíssimos casos de violência, e isso se deve ao controle do crime organizado sobre essas instituições 2) A criação do PCC foi uma consequência direta do massacre do Carandiru. 

  O Estado Islâmico surgiu por inúmeros motivos, entre eles as diversas agressões cometidas pelos EUA no Iraque e na região como um todo, principalmente com a invasão desastrada dos EUA em 2003. Hoje, podemos ver como uma política de força naquela sensível região do globo, não trouxe estabilidade e controle sobre o terrorismo, muito pelo contrário, tornou a região um barril de pólvora e provocou formas mais grotescas de terrorismo.

 O mesmo ocorreu no Brasil. Uma ação criminosa do governo do Estado de São Paulo provocou a morte de mais de 100 pessoas que estavam sobre custódia deste mesmo Estado. Eu era adolescente quando isso ocorreu, mas tenho algumas memórias de pessoas celebrando este fato, porque na verdade “bandido bom é bandido morto”. Essa visão tacanha e restrita de mundo talvez seja ainda mais arraigada nos dias de hoje.

  Não irei discutir a questão sobre o ponto de vista ético, e como acho essa visão de mundo pobre e desprovida de valores superiores, mas sim apenas sobre o ponto de vista da utilidade. Será que essas pessoas que congratulavam o massacre de detentos, poderiam imaginar as consequências deste ato? Muito provavelmente não. Muito provavelmente também, é capaz que as mesmas pessoas que aplaudiram o ato na ocasião, aplaudam o mais novo massacre que ocorreu numa penitenciária no Estado do Amazonas.

  Quando se joga xadrez, a noção de que uma jogada pode ter consequências vários lances a frente é natural e recorrente. Quando se estuda a escola austríaca de economia, e eu sei pouco apesar de gostar de vários conceitos, uma das teclas que mais se bate é que as pessoas costumam prestar muita atenção no que se vê, e ignorar por completo aquilo que não se vê (a “fábula” da janela quebrada de Bastiat é sempre citada em vários artigos). 

  Prezados leitores, nossos atos possuem consequências, muitas delas ignoradas e imprevisíveis. A consequência prática do massacre do carandiru não foi diminuir o crime ou a “bandidagem”, mas talvez criar uma das organizações criminosas mais perigosas, se não for a mais, do país.

 O PCC virou notícia quando tomou a cidade de São Paulo de assalto há uns 10 anos. Depois disso, pouco se ouviu falar desta facção criminosa. Eu mesmo tinha até mesmo esquecido que ela existia. Quando um conhecido de Santos veio me visitar em Florianópolis, como ele exercia uma profissão ligada ao sistema prisional de SP (ele trabalhava em uma fundação casa), não sei por qual motivo eu trouxe o tema do PCC à tona. Ele apenas me disse  algo mais ou menos assim: “Hoje em dia, há bairros em São Paulo que ninguém mata sem antes pedir autorização ao PCC. Eles controlam absolutamente tudo nos presídios, e nas Febens, e eles estão começando a controlar comunidades inteiras em São Paulo”.

  Como é que é? Todos ouvimos de organizações ligadas ao tráfico controlando comunidades na cidade do Rio de Janeiro, eu nunca tinha escutado que o PCC estava controlando comunidades em São Paulo. Poucos meses depois, eu li uma pequena matéria na VEJA dizendo que o PCC estava envolvido em todo o tipo de atividade criminosa, e se estimava que possuía um faturamento de 100 milhões de reais anuais e crescendo.

  Como é que é? O PCC virou uma organização criminosa faturando centenas de milhões de reais e isso não é encarado como um problema grave? Com esses milhões se compra muita coisa: juízes, vereadores, deputados e quem sabe até governadores. 

  O que se vê (um massacre de presidiários há mais de 20 anos), gerou (o que não se vê) uma organização criminosa que possui estatuto, tribunais, decide quem morre em comunidades fora da cadeia e que se tornou um belo negócio lucrativo.

 Foi com extremo espanto que li o massacre no presídio do Amazonas. Uma organização chamada Família do Norte matou dezenas de presos numa represália ao envolvimento do PCC na região. Li num site, confesso que não conferi  se a fonte é fidedigna, que essa organização (que seria a terceira do Brasil depois do PCC e do Comando Vermelho) teria algo como 200 mil membros. 200 mil? Duzentos mil? O Estado Islâmico no seu auge tinha algo em torno de 40-50 mil combatentes. 

  As vozes do “bandido bom é bandido morto” já começaram a se manifestar novamente, como se pode vê nessa reportagem da folha de São Paulo: não tinha nenhum santo entre os presos mortos. Esse é um discurso típico populista e dos politicamente corretos. Ele é fácil e de ainda mais fácil assimilação. O que se vê é o massacre no acerto de contas entre facções num presídio no norte do Brasil. E o que não se vê, colegas leitores?

  O que talvez não estamos vendo é que essas organizações estão ficando cada vez mais poderosas. Estas organizações podem chegar num ponto de ficar tão fortes que poderão cada vez mais influenciar o nosso sistema político e fazer alianças com as organizações criminosas na política. Se isso ocorrer, o nosso país estará em sérias e profundas dificuldades, talvez muito mais difíceis do que a corrupção mostrada pela operação Lava-Jato.

  É profundamente assustador. O que podemos fazer? Não sei. Exigir que mais recursos sejam destinados ao sistema prisional. Exigir reformas profundas de como gerirmos a Justiça Criminal no País. Realmente, não sei. O que sei é que se mais uma vez ignorarmos os efeitos ocultos de certos atos, e se boa parte da população jactar-se e achar que “deixa esses presidiários se matarem, não farão falta”, eu temo que essas organizações possam atingir um nível de força que possa até mesmo ameaçar nosso Estado de Direito. 

  Um abraço a todos.










domingo, 25 de dezembro de 2016

DESEJOS PARA QUE O SEU PRÓXIMO ANO SEJA (AINDA) MELHOR

Olá, colegas. Desejo um bom natal para todos e já me adianto desejando uma boa entrada de ano. Primeiramente, posso dizer que essas duas datas por si não possuem um significado muito grande para mim. Há textos que tentam abordar esse assunto falando sobre a ¨hipocrisia¨, ¨desnecessidade¨ ou qualquer outro adjetivo de conotação negativa de celebrarmos essas datas.

  Bom, o fato é que estas datas representam momentos especiais para pessoas e famílias. Isso faz com que, nem que seja por breves instantes, indivíduos se relacionem de uma forma mais harmônica uns com os outros. O ano novo, por exemplo, nada mais é do que a passagem de mais um dia, mas para muitos representa a esperança de um recomeço, a esperança de uma nova vida, de um novo rumo. 

  Sim, um observador mais cínico poderia notar que provavelmente nada de novo acontecerá na vida das pessoas, e que a virada do ano é apenas uma vã tentativa de sonhar com algo melhor sem se esforçar para que isso necessariamente ocorra.  É bem possível e provável, mas mesmo assim é inegável que as pessoas nesta data específica ficam mais suscetíveis a se relacionar umas com as outras, e isto é muito positivo em minha opinião.

 Portanto, em que pese uma possível reflexão mais negativa que poderíamos fazer em relação a estas datas, eu ainda creio que são datas festivas e importantes. Por isso, desejo um bom ano novo para os leitores deste blog. Se eu pudesse desejar algo para vocês, prezados leitores, esses seriam os meus desejos:


 DESLIGUE A SUA TELEVISÃO E DIMINUA A SUA EXPOSIÇÃO A NOTÍCIAS


 Sério, uma das coisas que me impressionou nesta minha volta, é como a televisão ¨sequestrou¨ corações e mentes de muitas pessoas. Não há quase nada que preste. Notícias sempre as mesmas desvinculadas de contextos, jornalistas despreparados, programas de auditórios um pior do que o outro, e uma perda de tempo e energia incrível por parte das pessoas.

 Quantas horas as pessoas não perdem com esse dispositivo? Quantas outras atividades mais produtivas e com muito maior significado dezenas de milhões de pessoas no Brasil deixam de fazer para perder tempo com esse passatempo que quase sempre deixa as pessoas mais infelizes e ansiosas? É um jogo de soma negativa. Tente construir a sua rotina com o aparelho de televisão desligado na maior parte do tempo, melhor para a sua saúde mental e física.


 INVISTA EM RELACIONAMENTOS HUMANOS. FAÇA NOVOS AMIGOS. VISITE OS ANTIGOS

 O que é um amigo? Qual é a diferença para um colega ou desconhecido? Sabe qual é minha resposta para essa pergunta? É mais ou menos assim: E ISSO IMPORTA ALGUMA COISA? Entre pessoas que viajam há uma eterna discussão entre a diferença de um Turista em relação a um Viajante. Turista a grosso modo seria alguém que não se envolve com comunidades locais, fica apenas em hotéis e come em lugares mais caros. É alguém que não captura toda a essência de um local. O Viajante, por seu turno, é alguém que consegue capturar as idiossincrasias de um povo diferente, é aquele que come como locais, evitando a todo custo se apartar de uma experiência mais real para se deleitar em luxos e confortos.

  BOBAGEM. Eu posso estar acampando no meio de um lugar remoto na Mongólia e ainda sim serei um turista. Alguém pode estar se hospedando num hotel cinco estrelas e mesmo assim capturar como ninguém a vida de um povo diferente. Era uma discussão que quando começava, eu já saia de perto. Por qual motivo sempre queremos dividir e catalogar cada vez mais outros humanos, experiências?

 A mesma coisa com amigos e colegas. Prezados leitores, olhem as suas vidas e perceberam que os momentos mais felizes são aqueles compartilhados com outros seres humanos. É evidente que ao longo de nossa vida serão poucas pessoas que compartilharemos segredos, ou que poderemos confiar com um alto grau de certeza, o que comumente se chama de amigo íntimo. Não é esse o ponto. O ponto é que a todo instante estamos nos relacionando com outras pessoas. Ao ir na padaria, ao trabalhar, viajando, escrevendo um Blog, e nós, e apenas nós, podemos decidir qual tipo de relacionamento queremos construir com as mais variadas pessoas.

 Não precisa ser um amigo de longa data, no qual eu posso confiar uma grande soma de dinheiro, e que realmente se importa comigo, para que eu tenha algum momento prazeroso com alguma outra pessoa. Reflitam sobre isso. Nosso bem-estar é muito maior quando os nossos relacionamentos são melhores. E nosso bem-estar é maior quando temos relacionamentos.

Portanto,  visite velhos amigos, faça novos amigos ou colegas, ou qualquer outro termo que você queira utilizar, entretanto interaja mais, se conecte mais com outros seres humanos, sua vida será muito melhor.


 LEIA MAIS LIVROS


 Leia querido leitor. Desafie a si próprio, leia sobre áreas das quais você não entende nada. Há tantos livros bons, tantas informações boas na internet, hoje em dia podemos até mesmo assistir aulas ministradas em Harvard no conforto da nossa casa (o que é uma revolução sem precedentes na educação) que realmente não há qualquer desculpa para que não leiamos materiais de qualidade.

  Por mais que possamos ler blogs bons, nada substitui o bom e velho livro. Os livros são algo mágico. Neles podemos conhecer mais sobre a antiga Pérsia, ou sobre buracos negros. Podemos aumentar nosso conhecimento em finanças ou em biologia. Podemos saber como foi a vida de Einstein ou de Hitler. 

  Portanto, reserve uma parte do seu tempo, de preferência diariamente, para a leitura de um livro. 


EXERCITE-SE


  Quando nos sentimos bem com o nosso corpo, nos sentimos mais leves, mais dispostos a encarar os diversos desafios em nossa vida. Infelizmente, a vida em cidades grandes tem levado um número enorme de pessoas a uma existência sedentária. Não cometa esse erro.

 Não faça exercícios apenas na academia, faça toda hora. Suba a escada, ao invés de pegar um elevador. Ande mais. Vá para academia, se assim deseja. Procure uma atividade esportiva que lhe dê prazer. Um corpo exercitado é condição importantíssima para uma mente afiada. Não deixe que a rotina do dia a dia, por mais difícil que possa ser, faça com que o seu corpo deteriore para além do normal do envelhecimento natural.



  É isso colegas. Não quero deixar esse último texto do ano muito extenso. Não perca tempo com coisas que não vão te trazer bem-estar e muito provavelmente apenas trarão mal-estar como a televisão. Interaja mais com os conhecidos e desconhecidos, você verá que pode ser muito recompensador. Leia bastante. Leia de pé, sentado, no metrô, ou na internet, mas leia. De preferência tente ler no próximo ano sobre áreas das quais não domina ou não saiba absolutamente nada. Pode ser apenas um livro, já será um ótimo passo. Por fim, exercite-se.

  Sem o foco distraído, relacionando-se mais com as pessoas, lendo mais e com um corpo em equilíbrio, tenho certeza que todos os objetivos traçados serão muito mais fáceis de ser atingidos. É isto que desejo a todos vocês no próximo ano.

  Um grande abraço!


  

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

SUA VIDA VALE MENOS DO QUE A DE UM AUSTRALIANO. SOBRE REFUGIADOS.

Olá, colegas. Eu iria escrever um texto sobre o preço da liquidez, e como um planejamento errôneo meu em relação à liquidez nos últimos dois anos me custou dezenas  de milhares de reais.  Entretanto, influenciado por mais um comentário de um leitor que escreveu de forma anônima, resolvi tratar de um tema não-financeiro.

  Eu tenho uma má notícia para a esmagadora maioria dos leitores e dos blogueiros de finanças, aliás é uma péssima notícia. Eu quando estava na belíssima Sydney fiquei na casa de uma família australiana. Conheci o sujeito, especialista em medicina chinesa, quando estava surfando em FIJI. Alguns meses depois, apareci na casa dele, e passei uma semana maravilhosa com ele, a esposa, e os dois filhos pequenos.

  A casa se encontrava num ótimo bairro e tinha um tamanho excelente. Perguntei quanto valia, e ele achava que deveria ser algo em torno de AU$ 1.8M. Só a casa dele vale mais do que qualquer patrimônio divulgado na blogosfera, talvez é maior do que todos os patrimônios juntos.  Filhos bonitos e bem educados. Um ótimo salário. É inegável que na escala humana de desenvolvimento, esta família deve estar no topo, talvez entre o 1% da população. 

  Assim, sinto informar, mas a vida dessa família tem mais importância que a vida das suas famílias leitores. Eu sinto muito mesmo em dar essa noticia.  Se alguma coisa de ruim acontecesse com eles, seria algo muito pior do que se algo de ruim acontecesse com a sua família. Eles falam inglês, são bem nutridos, moram numa casa fantástica e habitam num país de primeiro mundo. Por qual motivo a vida de sua família, prezado leitor, que mora num país periférico, cheio de assassinatos, corrupção, que "sua" a camisa para economizar algumas centenas de dólares por mês, valeria a mesma coisa que a vida dessa família? Não, não vale, desculpe mas essa é a verdade.

  Ficou irritado com esses parágrafos? Quer me xingar? Sentiu alguma coisa de ruim dentro de você ao ler isso? Parabéns, você é humano. Não concorda com o que escrevi? Acha injusto, abjeto? Pois saiba que é assim que o mundo funciona. Dependendo de quem você seja, onde tenha nascido, sua vida vale muito ou não vale muita coisa.

  Alguém acha que é possível ter paz num ambiente assim? Eu não acredito.  Enquanto realmente não entenderemos que qualquer vida humana é sagrada (e não falo aqui num sentido religioso), eu não creio ser possível controlar a manifestação da barbárie humana.

  Esse para mim é o ponto de partida para qualquer discussão minimamente séria sobre a crise de refugiados. Sim, a pergunta do colega anônimo a qual eu me referi era sobre refugiados sírios, e islamismo na Europa. A(s) pergunta(s) direcionada(s) a mim era sobre o que eu achava de todo esse estado de coisa, e se europeus e árabes lutam há séculos, não é perigosa essa “islamização" da Europa? 

  Comecemos pelo começo. Creio que terei que repetir isso muitas e muitas vezes. Árabe não é sinônimo de muçulmano. Quem diz isso já mostra que não entende quase nada do assunto. Existem centenas de milhares de árabes que não são muçulmanos, assim como a maioria dos muçulmanos não é árabe. Árabe não denota uma religião. A maior quantidade de muçulmanos está na Indonésia com seus 250 milhões de habitantes, onde uns 90% são muçulmanos sunitas e na Índia, onde uns 15-20% da População provavelmente é muçulmana. Um país é do Sudeste Asiático o outro é do Subcontinente Indiano. Não preciso nem dizer que as diferenças entre as manifestações da religião islâmica são muito diferentes nessas regiões geográficas do mundo, assim como o catolicismo das Filipinas é diferente do catolicismo Brasileiro

 Parece evidente que povos com culturas e desenvolvimentos históricos diferentes terão uma perspetiva diversa, mesmo que se trate da mesma religião. O Irã , que eu acabei de visitar , é persa (aliás não é somente persa , que representa 60% da população, mas há Turcos-Azaris, e algumas outras etnias, sim a coisa é muito mais complexa do que retratado na mídia), se você quer ofender um iraniano chame-o de árabe. 

  Portanto, ao falarmos sobre o tema, o discorrido no parágrafo antecedente é o básico do básico. Passemos para o segundo ponto. Há uma guerra horrível, sangrenta, suja e complexa ocorrendo na Síria (e no Iraque também). Sinceramente, você se importa? Hospitais destruídos, violência para além de qualquer sentido lógico, centenas de milhares de mortos, violência contra mulheres e crianças numa escala quase que incompreensível, a destruição de um país milenar com uma cultura riquíssima, e, e…, você se importa? 

  Se você não se importa com isso, por qual motivo você se importaria com um atentado terrorista que tirou a vida de algumas pessoas num país rico como a Alemanha? Se este é o caso, a única explicação possível, é que você dá mais importância a certos tipos de humanos do que outros. A vida num determinado local vale mais, talvez muito mais, do que a vida em outro lugar. 

  Isso é uma justificativa de um ato de assassinato contra civis? Evidentemente que não. Para mim a vida humana é sagrada. Nosso corpo é uma máquina fruto de um processo incrível de evolução de bilhões e bilhões de anos. É algo maravilhoso. A destruição de uma vida sem qualquer propósito é uma perda irreparável. Se você acredita em Deus, deveria achar que é um atentado contra à divindade. Por isso, sempre achei desde jovem, e agora nem se fala, uma contradição absoluta pessoas advogando a violência em nome de uma entidade que segundo definição é uma fonte absoluta e infinita de amor.

  Não é uma justificativa, não é nem mesmo um juízo de valor, mas sim a constatação de um fato. Se alguém se importa com um atentado nos EUA, e fica emocionado com a morte de algum europeu (um sentimento nobre e bonito), mas dá de ombros quando passa alguma notícia sobre Mosul, ou Aleppo ou Darfur, ou qualquer outro canto onde a maldade humana se manifesta com extrema intensidade, a única conclusão lógica é que se admite gradação de importância de vidas, e neste caso não há nenhum argumento lógico para contrapor o fato de que a adorável família australiana vale mais do que a vida de sua família.

  Prossigamos. A guerra da Síria é um fato. Por que ela está acontecendo? Por que está durando tanto? São perguntas difíceis que não tenho a pretensão de responder. Em meados de 2014, escrevi um texto sobre a ligação entre o primeiro golpe de Estado patrocinado pela CIA no Irã em 1953 e o surgimento de um grupo como o ISIS. Você pode conferir o artigo: A Infâmia, A Mentira, O Massacre e a Criação de um Monstro

  As nossas ações individuais ressonam no futuro. Todos os leitores devem compartilhar isso. Não é o mantra repetido pelos blogs de finanças? Economize, invista, e deixe os juros compostos fazerem a sua mágica no longo prazo. Assim, um ato no presente (economizar e investir) terá consequências bem a frente no futuro (a pretendida Independência Financeira anos e anos depois). As pessoas, ao menos algumas, conseguem aceitar este fato lógico da realidade.

  Entretanto, para outros aspectos da realidade, a lógica parece não fazer mais sentido para uma parcela significativa das pessoas. Os EUA deporem um primeiro ministro democraticamente eleito no Irã em 1953, governo este que poderia ser um farol para todo o mundo islâmico da região, foi um ato que provocou inúmeras consequências, a mais visível foi a revolução islâmica de 1979, que não foi nem mesmo uma revolução de cunho islâmico no início, mas este detalhe deixo para uma outra oportunidade. 

  A revolução islâmica, por seu turno, levou a um maior alinhamento dos EUA com o Iraque, que invadiu o Irã em 1980 usando armas fornecidas em grande parte pelos americanos. O Irã foi invadido, e a revolução islâmica que estava cambaleando no começo, usou a invasão do país como forma de aglutinar as pessoas e fortalecer o poder. A guerra Irã-Iraque é tão importante para os Iranianos em sua identificação nacional, que eu, depois de visitar o país, comecei a fazer um paralelo com a Grande Guerra Patriótica dos Russos. Para os russos a guerra é de 1941-1945, e eles não tratam como se fosse a segunda guerra mundial, não há nenhum monumento russo que não mostre o inicio em 1941, quando da invasão de Hitler.

  Com o surgimento de um regime hostil aos interesses dos EUA no Irã, eles apoiaram um ditador sanguinário chamado Saddam Hussein. Saddam usou armas químicas na guerra Irã-Iraque contra  Curdos-Iraquianos, ou seja, contra cidadãos do seu próprio país. Era um sujeito que usava extrema violência contra seu povo, com torturas em massa e severa repressão a qualquer dissenso político. Houve as guerras do golfo, Bush invadiu o Iraque (e colocam a culpa no Obama pela situação, só pode ser má-fé ou ignorância, ou uma mistura dos dois) baseado numa mentira (a existência de armas de destruição em massa). O Iraque colapsou. E nos escombros do país, surgiu o ISIS.

  Esse resumo a jato não serviu para tornar o texto enfadonho, mas apenas para tentar demonstrar os efeitos que certas ações podem ter no longo prazo, neste caso um golpe de estado patrocinado pela CIA há mais de 60 anos.

  Hoje, o conflito da Síria tem muitas partes, é algo quase que insolúvel. O mundo assistiu calado ao primeiro ano do conflito, onde talvez uma solução fosse mais fácil, e agora com um país destruído do ponto de vista físico e ético, fica difícil imaginar uma solução. 
  
 Aqui me encaminho para a metade final do texto e chego aos refugiados. A palavra imigrante é utilizada de maneira completamente equivocada nos dias de hoje, e ela é tratada como se fosse um sinônimo para refugiado, principalmente se as pessoas estão na Europa. Essa deturpação do uso da palavra claramente é intencional, se não para a maioria que nem percebe isso, mas ao menos para uma parte que tem claras preferências políticas.

 Refugiado é algo muito diferente de um imigrante comum. Se eu resolver mudar para a Nova Zelândia, eu serei um imigrante. Se alguém quiser ir trabalhar ilegalmente nos EUA, também será um imigrante.

  Um refugiado, por seu turno, é alguém que precisa deixar o seu país (e estou aqui apenas falando de refugiados, não de deslocados internos) por causa de guerras, extrema fome, perseguição religiosa ou política, ou qualquer situação que coloque a vida da pessoa e da sua família em grave risco.  A Europa sempre “exportou” refugiados, pois na Europa já existiram muitas guerras étnicas e religiosas, e milhões de europeus tiveram que se refugiar em outros lugares do mundo ao longo dos séculos. 

  Negar ajuda a um refugiado, ou a uma pessoa que corre risco de vida por causa de perseguições arbitrárias, é um ato em si desumano. É algo que vai contra todos os valores nos quais sociedades mais desenvolvidas se baseiam, não é algo compatível com pessoas que se auto-intitulam “pessoas de bem”.

 “Mas, o influxo de pessoas não é muito grande ? A Europa irá sucumbir!”. Os países europeus tem todo o direito de fechar suas fronteiras. A Hungria ergueu inúmeras barreiras, e há relatos que o tratamento de refugiados é o pior possível, o que não deixa de ser curioso para um país que  que sofreu com o nazismo e depois com o stalinismo (culminando na forte repressão soviética de 1954). Ninguém é obrigado a ter compaixão pelos outros. Ninguém é obrigado a gostar dos outros. Logo, é claro que os Europeus podem simplesmente “lavar as mãos”.

  Agora, ao fazer isso, fica difícil sustentar as próprias bases das democracias européias. Negar ajuda a pessoas desesperadas, deixar que corpos de crianças apareçam boiando à beira de praias européias, não me parece ser compatível com os ideias europeus. 

  Não vou nem falar de refugiados crianças, pois a negação de ajuda a crianças é simplesmente um ato cruel, mas de adultos. Sim, é um enorme problema. De logística, de infiltração de terroristas, de pressão nos serviços sociais. Agora, imaginem a pressão que não está sendo na Turquia, Líbano e Jordânia com milhões de refugiados Sírios. A Turquia está sendo arrastada para o redemoinho. Há anos falo que se a Turquia (um país lindo, ainda secular e extremamente importante) de alguma maneira se tornar instável de forma muito aguda, a segurança da Europa estará completamente comprometida. Alguém fala sobre isso na imprensa ou nos textos apaixonados, mas quase todos sem muito substrato? 

  Sinceramente, depois de tanto viajar, eu nunca conheci um povo que denegrisse o seu país (o único, e felizmente são poucas pessoas, foi o brasileiro). A pessoa pode estar desapontada com as oportunidades de emprego, pode estar fugindo de um conflito, mas a esmagadora maioria das pessoas se sente conectada com a terra onde nasceu. Quase todos refugiados muito provavelmente apenas querem estar nos seus países, não querem necessariamente viver em outro local. Assim, a mitigação do problema passa pela tentativa de solucionar o complexo conflito na Síria. Como isso pode ser feito, eu não tenho a menor ideia.


  Quando estava no aeroporto de Istambul esperando a minha conexão para o Brasil, conversei alguns minutos com uma inglesa que vivia na Turquia e trabalhava para a Oxfam na área de refugiados. Como gosto bastante da Oxfam, aproveitei a oportunidade para elogiar o trabalho da organização, e perguntar com mais profundidade a situação dos milhões de refugiados na Turquia e como isso estaria pressionando a própria estabilidade da Turquia, e também questionei o papel da Europa em relação aos refugiados. Ela apenas , em relação a esta última pergunta, fez uma cara de desanimada e disse que sentia vergonha do que a Europa estava fazendo. 

 Não é um problema fácil, não há soluções simples, há um risco acentuado de ocorrer ainda mais ataques terroristas (porém creio que isso pode ocorrer com ou sem refugiados). Eu não tenho respostas para tudo isso. O que posso apenas dizer é que espero que a Europa, e o mundo desenvolvido como um todo, possa se manter fiel às tradições humanistas do pós segunda guerra mundial e não sucumba ao  puro xenofobismo, pois os lugares que esse tipo de conduta pode levar são sombrios, e a Europa sabe muito bem disso.


O texto está ficando grande e percebi que toquei apenas de forma indireta no tema “islamização” que foi o tópico da pergunta do colega anônimo. Deixarei para uma outra oportunidade para discorrer sobre esse tema.

Se isso é uma resposta normal a essa crise, é porque há algo profundamente errado conosco. Esses não são os valores que acredito serem compatíveis com uma sociedade que preza a dignidade humana.


  Um grande abraço a todos!



segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

ENCONTREI O QUE PROCURAVA? O QUE MUDOU EM MIM?

Olá, colegas. Espero que esteja tudo bem com os leitores deste espaço neste final de ano. Primeiros dias no Brasil, e estou feliz de visitar a cidade onde nasci. Joguei um pouco de xadrez numa pracinha em frente à praia (passei muitos anos na minha adolescência naquele lugar), fiquei triste ao saber que algumas pessoas  de mais idade que frequentavam o mesmo lugar tinham morrido. Faz parte da vida. Andei pela praia de Santos, é um bom lugar para se viver. Não é o que eu gostaria para mim, pois prefiro lugares não tão cheios, mas é inegável que se tem certa qualidade de vida em Santos. 

 Será que Santos mudou? Será que meus familiares mudaram? Será que eu mudei? Isso me leva a indagação de um colega que escreveu de forma anônima no meu último artigo:


Não lembro se existe em alguns dos seus textos os motivos pelos quais vc resolveu fazer uma viagem tão longa, mas sei que vc relatou insatisfação e falta de significado no trabalho. Após tanto tempo viajando, vc preencheu o que esperava com essa viagem? Como está o Soul hoje versus o Soul que iniciou a viagem? Eu sinto uma certa insatisfação e ansiedade por conhecer tão pouco o mundo (embora já tenha feito algumas viagens internacionais), pretendo algum dia fazer uma ou algumas viagens de volta ao mundo.
Forte abs!

  
  É uma pergunta profunda. Aliás, agradeço muito o leitor por esse questionamento. São essas indagações que realmente vão ao âmago de muitas coisas. São esses questionamentos que infelizmente muitas pessoas não se perguntam ao longo de suas vidas. São perguntas que parecem um pouco abstratas demais para serem feitas ou encaradas com seriedade, mas elas são fundamentais para um maior desenvolvimento pessoal.

 Viagens são carregadas, ao menos para muitas pessoas, de algumas finalidades. Conhecer um outro lugar, um outro povo, teria o condão de expandir o nosso conhecimento sobre o mundo, e em última instância sobre nós mesmos. Apesar disto, muitos, a esmagadora maioria infelizmente, viajam para ter confortos. Um hotel luxuoso. Um tour exclusivo. Além de ser uma experiência cara, ela em muitos aspectos é vazia. E por qual motivo? Pois não conhecemos novas culturas e povos ficando em hotéis caros, apartados da vida cotidiana de uma população.  Assim, uma viagem pode servir sim para questionarmos muitos aspectos da nossas vidas, como também pode ser apenas um passatempo de luxo sem grande significado.

  Eu esperava preencher algo com essa viagem? Aliás, eu esperava obter algo que mudasse a minha vida numa jornada tão longa de quase dois anos? A resposta é NÃO. Não viajei para preencher algo que estava faltando ou em busca de algo de grande significado. Apenas fui. Fui motivado por uma curiosidade, por querer sentir como é ter uma vida onde a rotina é não possuir rotina. 

  Vocês imaginam o que é durante quase dois anos ter que decidir o que comer, onde dormir, para onde ir, qual tipo de transporte tomar, etc, etc, quase que diariamente? As pessoas simplesmente não tomam essas decisões em seu dia a dia, pois  uma vida rotineira pressupõe que esse tipo de questão não faça parte do cotidiano. Porém, essa não foi a minha realidade, e a vida é muito diferente quando temos que fazer estas indagações de forma frequente.

 Isso teve o efeito de reforçar ainda mais a ideia de que temos que aceitar mais as coisas. Às vezes a comida não era boa, às vezes nem comida tinha, às vezes o lugar para dormir era bom, às vezes não. Quando aceitamos mais o que a realidade nos oferece, nos tornamos mais fortes, e se há alguma coisa diferente em mim em relação há dois anos, é que me sinto mais forte.

  Dormi diversas vezes no chão, em barracas, em quartos com várias pessoas, em trens, dormi até mesmo seis meses dentro de um carro pequeno,  e sinceramente dormi bem em quase todos os dias. Não comi com fartura como se come no Brasil, mas nem por isso fiquei mais fraco. Durante vários meses viajei por regiões do mundo onde não era possível se comunicar, mas nem por isso deixei de fazer as coisas. 

 Hoje, escrevendo no conforto de uma cama, depois de ter comido um rodízio de comida japonesa e ter conversado com amigos numa língua que me expresso com extrema fluidez, sinto que o conforto, a fartura e a facilidade são coisas boas, mas elas não são imprescindíveis para uma boa vida, aliás elas podem em muitos casos ser um impeditivo para uma vida mais significativa.

  Volto também com o sentimento de que há muita bondade, generosidade e beleza neste mundo. As relações humanas são o que tornam tudo especial, tudo. Todas histórias que possuo desta viagem, e são dezenas e dezenas, são especiais pelo aspecto humano. Os encontros humanos que tive o privilégio de ter foram de uma intensidade ímpar. Alguns duraram semanas, outros foram de algumas horas, mas todos de alguma maneira foram especiais.

  Fico triste quando vejo pessoas que não percebem a beleza das relações humanas. Se suas relações na maioria dos casos é baseada em obrigações sociais, onde não há uma genuína interação humana, só posso sentir tristeza e desejar que em certo momento da sua vida você possa perceber o quão a vida pode ser melhor quando interagimos de uma maneira mais profunda e densa com outros indivíduos da nossa espécie.

  O mundo que se descortinou se mostrou ainda maior e mais complexo do que eu já sabia que ele era. De lutadores Mongóis, a paraquedistas profissionais da Nova Zelândia, Aborígenes Australianos, Desarmadores de minas terrestres no Camboja, Motoristas Tajiks, Empresários Iranianos, etc, etc, o mundo é um mosaico de etnias, nacionalidades, habilidades, paisagens, problemas e tantos outros aspectos que possamos imaginar.   Um mundo tão diverso, apenas fez aumentar o meu sentimento de assombro. 

  
  Sempre há alguém melhor do que você, mais bonito, mais ágil, mais rico, mais inteligente, neste vasto mundo muito dificilmente você é o melhor em algo, e se por acaso você for, pode ter certeza que será mediano em milhares de outras habilidades  e características humanas. A vaidade, se formos refletir mais profundamente, é um tremendo auto-engano. 

  Assim, caro colega que fez a pergunta, não encontrei algo que estava procurando. Entretanto, encontrei satisfação, beleza e generosidade neste mundo. Dormi em lugares muito simples, tomei banhos em rio, usei banheiros de buraco por meses, comi comidas não tão boas, negociei centenas de vezes com pessoas que não entendiam o que eu falava, e sinto que tudo isso me fez muito mais forte, pois nada disso foi um sacrifício para mim, muito pelo contrário.

  O Soul de hoje comparado com o Soul de ontem está um pouco mais velho e com menos cabelo. Está feliz por ter realizado algo que não foi extraordinário como quando um cientista descobre algo novo, ou quando alguém ajuda a vida de centenas de pessoas com algum projeto social ou quando um empreendedor constrói um negócio que melhora a vida de muitos. Não, não foi algo extraordinário. Aliás, sinto que a esmagadora maioria das pessoas não possui nem mesmo interesse em ouvir o que tenho para contar, e não tenho qualquer problema com isso, aliás estou até mesmo evitando ficar falando muito, apenas respondo quando sou perguntado. 

  Porém,  apesar do que escrevi no último parágrafo, para mim (e talvez só para mim e a minha companheira) foi algo extraordinário, algo que talvez só o tempo dará  total dimensão do que foi a minha vida nestes dois anos. Sinto-me realizado, sinto que vivi momentos de uma beleza indescritível, e que essas memórias irão acompanhar-me para o resto da minha vida neste planeta azul.

   Um grande abraço a todos!