sábado, 18 de fevereiro de 2017

O FIM DE UM CICLO - O MEU DESINVESTIMENTO (QUASE) TOTAL EM FUNDOS IMOBILIÁRIOS

Olá, colegas. Quem acompanha este blog há mais tempo, sabe que o espaço ficou um pouco mais conhecido pelas análises que fiz sobre fundos imobiliários. No começo de 2014, eram poucos espaços que se dedicavam a falar sobre FII na internet, algo que se modificou muito nos últimos dois anos. Naquela época, de mais relevo tinha o espaço do Tetzner (comecei a escrever em meados de 2013 lá ) que teve a capacidade de aglutinar uma série de informações e de pessoas de alto nível. Porém, aquele espaço não tinha textos que servissem como uma espinha dorsal de entendimento sobre essa classe de ativo.

 Quando me interessei por FII, fui atraído por suas inúmeras vantagens, entre elas a possibilidade de conseguir viver de renda por meio de locação de dezenas e dezenas de imóveis. A ideia pareceu-me fantástica, pois assemelhava-se com muitas histórias que nós brasileiros conhecemos de indivíduos se mantendo com renda de aluguéis de propriedades, mas de certa forma muito melhorada pois seria possível receber rendimentos de muitas propriedades que seriam inacessíveis para investidores amadores com menos de 9 dígitos de patrimônio.  

 De bônus, ainda se ganhava uma liquidez extraordinária, custos absurdamente menores e ainda uma isenção tributária nos rendimentos que é difícil de entender ou explicar em termos de um sistema tributário minimamente eficiente e igualitário (todas essas características se comparadas aos imóveis físicos).

 Como qualquer ser humano, eu sou movido a desafios. Talvez não seja muito bom em desafios que envolvam coordenação manual. Sou péssimo mesmo, e provavelmente é algo que preciso priorizar nos anos vindouros. Entretanto, desafios intelectuais, desde que não sejam extremamente difíceis como resolver algum problema matemático complexo, geralmente me motivam ao ponto de eu dedicar muita atenção e foco.

 Lembro-me de certa oportunidade que um professor de direito penal falou tantas bobagens numa determinada aula, que eu ao invés de fazer perguntas (algo que sempre fazia e faço em qualquer ocasião, uma das minhas “qualidades" que às vezes causa uma certa antipatia em algumas pessoas), resolvi declinar um convite de amigos para ir ao Bar e fui direto para o quarto da pousada onde morava. Chegando lá, deviam ser umas 10 e 15 da noite, fiquei até as 3 da manhã, pesquisando e elaborando um texto sobre todas as incongruências ditas pelo professor naquela noite. 

 Quando me dei conta, tinha produzido um texto de seis folhas. Pensei então em distribuir para os meus colegas de classe, mas acabei desistindo (e ainda bem que assim o fiz), pois seria uma deselegância com o professor e eu não ganharia nada com isso. O ganho de ter me dedicado a entender os erros do professor já foi uma recompensa mais do que suficiente.

  Portanto, eu me dediquei a entender os Fundos Imobiliários. No processo, criei diversos textos. Modéstia à parte, se eu reunisse os mesmos, desse uma ajeitada, colocasse algumas referências internacionais, poderia tranquilamente transformar num livro. Há muitos textos interessantes, principalmente os do ano de 2014 que me ajudaram no processo de pesquisa e reflexão, e creio que a outros leitores, a entender com mais densidade os Fundos Imobiliários em especial e os investimentos em geral.

 Alguns artigos sobre FII,  mesmo sem qualquer técnica de SEO, continuam sendo acessados, mesmo depois de alguns anos, algo que me deixa muito lisonjeado. 

 Nos últimos anos da minha vida, muitas coisas aconteceram e minha percepção sobre o mundo e as minhas finanças se aguçaram. Creio que compreendo com muito mais nitidez os meus objetivos e limitações como investidor do que há três anos. Muito provavelmente este seja um processo natural em qualquer investidor amador, e fico satisfeito de poder estar refletindo sobre isso. 

 Eu não tenho qualquer vínculo com nenhum investimento. Acho até mesmo engraçado, e de certa forma deprimente, ver pessoas se ofendendo por estilos de investimento ou por causa de empresas, ações negociadas na bolsa, fundos, etc. Para mim é uma insanidade. Nem mesmo imóveis que compro e às vezes coloco trabalho neles tenho qualquer tipo de apego, eu aprendi a encará-los apenas como números que podem ser muito positivos, positivos, neutros, negativos ou muito negativos. Simples assim.

 Logo, estaria mentido se dissesse que senti qualquer pontada emocional ao se desfazer da minha carteira de Fundos Imobiliários nesta semana que se passou. Não senti absolutamente nada, apenas um certo tédio de ter que dar tantas ordens de venda em diversos ativos. 

 Por qual motivo eu vendi? Comecei a achar um péssimo investimento? Não, nada disso. Há dois anos tinha a ideia de que a crise econômica que se avolumava podia ter um impacto grande nos financiamentos imobiliários e via de consequência no aumento de leilões. Achei por bem ficar líquido, ainda mais que estava saindo para uma viagem ao redor do mundo que não tinha ideia de quanto tempo poderia demorar.

 Acontece que aparentemente minha suposição estava correta. Voltei ao Brasil, e no outro dia já estava participando de um grande leilão no qual iniciei duas operações. Porém, para a minha surpresa outros leilões continuaram surgindo num curto espaço de tempo. Desde então, e isso num espaço de apenas dois meses, já iniciei algumas outras operações, e na próxima semana há a possibilidade de iniciar mais algumas.

 Minha parcela de liquidez ainda é muito grande, o que me possibilita abrir muitas outras operações, mas resolvi pagar uma em especial, pois foi uma negociação diferente, com o dinheiro da venda de parte dos FII. Sendo assim, decidi liquidar a minha carteira de investimentos em FII, ficando apenas com um residual pequeno em ações na empresa Eztec, algo em torno de umas 2.500 ações (e já pensei em liquidar essa posição também).

 Percebi deste desmontes algumas coisas interessantes, que eram muito claras do ponto de vista teórico, mas se tornaram bem concretas. Primeiramente, que vantagem tributária é vantagem tributária e ponto final. Muitos colegas blogueiros tentam de alguma maneira “justificar" as vantagens tributárias brasileiras dizendo que as empresas são muito tributadas, que o país é corrupto, e tantas outras justificativas mais. Todos esses argumentos podem guardar um certo grau maior ou menor de verdade, mas o simples fato objetivo é que os investidores nacionais tem uma miríade de vantagens tributárias que outros investidores de outros países não possuem.

 Por qual motivo digo isso? Ao fazer os cálculos, vi que irei pagar de tributos algo em torno de quase dois meses das minhas despesas atuais no Brasil, isso com uma simples alíquota de 20% sobre o lucro. Imagine então alíquotas de 30%, ou de 40-50% que existem em alguns países para o recebimento de dividendos? 

 Ao ver o número que iria pagar de importo,  dei conta que todos os gráficos bonitos que vemos de retorno dos ativos financeiros pelo mundo afora são brutos, ou seja sem o desconto de impostos. 

 A Tributação pode fazer uma grande diferença, e o papel de um investidor amador bem informado não é procurar retornos muito altos em excesso (se pode tentar, mas a probabilidade não é favorável), mas sim se atentar ao básico do básico como ter uma estrutura tributária eficiente no seu patrimônio, manter taxas administrativas no menor patamar possível, procurar uma boa diversificação, etc.

  Outra coisa interessante é que os spreads BID-ASK são grandes em mercados ilíquidos como certos FII. Se quiser vender 10 mil em BMLC vai ter que ou esperar muito, ou ter que liquidar a ordem com certo spread, o que significa dinheiro. Evidentemente, o spread de um FII, por mais ilíquido que seja, não se compara com a venda de um imóvel, mas mesmo assim não deixa de ser uma despesa.

 Quase toda a minha posição em FII já foi vendida, faltam apenas mais alguns Fundos. Antes de colocar a venda, dei uma passada por sites como o do Tetzner, Clube FII e li alguns relatórios gerenciais. Incrível como “o amor está no ar” nos mercados financeiros pátrios. KNRI com renda estagnada, queimando caixa , yield baixo, e com um retorno de 40% do meu preço de compra. FCFL, com incríveis retornos de 80%, yield baixo também. HGRE com vacâncias enormes, até o HGLG que era símbolo de resiliência teve um salto em sua vacância. O mercado imobiliário e o Brasil ainda tem um árduo caminho de recuperação, e eu estou muito longe de compartilhar todo esse otimismo, mas parece que o futuro será glorioso ao olharmos os níveis atuais de precificações.

 Então, aliada a conveniência de ter que pagar por um imóvel, houve também a vontade de aproveitar os bons retornos, e aqui vai mais um aprendizado que era claro do ponto de vista teórico, mas ficou bem visível do ponto de vista prático. 

 Recordo-me de depois de mais de 8 meses de início da minha viagem, ter olhado a minha custódia e quanto estava custando os ativos. Foi em janeiro de 2016, e tudo estava no vermelho. Achei que muitos ativos estavam “baratos" e comprei mais alguns ativos, mas foi em pequena monta, até porque estava quase sem “acesso" ao me dinheiro e usei apenas o que tinha na conta da corretora de acumulado de dividendos e aluguéis dos últimos oito meses.

 Minha carteira, fui relapso e não fiz uma planilha bonitinha para acompanhar a rentabilidade, devia estar com uns -10%. Como a parcela do meu portfólio alocada em ações e FII era tão pequena, nem dei bola e continuei viajando, não fazia a menor diferença se o meu patrimônio nessa classe de ativos estava, sei lá uns 30 mil negativos do meu preço de compra (não sei se este era o valor, apenas chutando), mesmo considerando os dividendos e aluguéis recebidos e eventualmente reinvestidos.

 Muitos investidores estavam na mesma situação do que eu. E o que aconteceu? Uma rentabilidade negativa, se transformou em algo como 35-40% positivos no curso de um ano. Uns dois anos de despesas anuais minhas pagas de diferença entre o começo de 2016 e o início de 2017, apenas por ter ficado parado, não ter movimentado ou vendido nada. 

  Havia um blogueiro que em seus últimos textos em 2015, ele não escreve mais tanto, alertava sobre os perigos da exposição de renda variável, como se boa parte dos outros blogueiros já não estava careca de saber. 

 Sim, há volatilidade, há inconsistências nos lucros, há um monte de coisa, mas o que fazer? Não investir em renda variável? Qual seria a resposta? Obviamente, nenhuma resposta era fornecida, a não ser a alusão que poderia haver métodos que precisavam de muito conhecimento financeiro para poder defender a carteira dessa crise toda (o ano era 2015). E quais seriam esses métodos? Não se divulgava, e eu fiquei curioso. Tempos depois, soube que o método era a venda da renda variável e a aplicação em mercado de dívida.

 Não tenho a menor dúvida que o mercado de dívida do Brasil, acaso não haja um calote generalizado, é um caminho interessante e sem muitos solavancos para o aumento do patrimônio. Porém, qualquer livro especializado em renda variável, principalmente os bons, sempre aconselha que é preciso ter paciência e saber suportar momentos ruins se a pessoa opta por investir em classes de ativo onde a renda possa variar. Quem teve paciência, e muitos investidores blogueiros ,ou não, que tiveram,  tenho certeza que obtiveram ótimas rentabilidades em reais no último ano.

  Sendo assim, essa venda da minha carteira de FII também foi uma lição prática sobre os ensinamentos de tantos investidores sobre a necessidade de não se preocupar em demasia, se o investimento foi feito de forma consciente e em ativos financeiros razoáveis, com um período extenso de rentabilidade negativa.

  É muito provável que venha a investir em FII quantias muito mais substanciosas, talvez algumas ordens de grandeza a mais, no futuro. Continuo achando um ótimo mercado, apesar de crer que ele estagnou no tempo, e os fundos ainda são muito pequenos se comparados a REITs americanos, por exemplo. 

 Porém, este não é o momento. O momento da minha estratégia é outro e aparentemente vem dando muito certo. Em dois anos poderia estar financeiramente numa situação que nunca imaginei, e sinceramente é muito mais do que preciso para ter uma vida satisfatória como a que venho levando. Contudo, como sou conservador e temeroso em matéria financeira, talvez em dois anos chegue num nível de segurança de portfólio que poderia ficar tranquilo por dezenas e dezenas de anos, o que é algo fantástico na minha perspectiva pessoal.


 É isso colegas, um grande abraço a todos!

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

UM ROTEIRO PRÁTICO PARA INVESTIMENTO NO EXTERIOR

 Olá, colegas. Espero que este artigo possa ajudar alguém que esteja pensando em investir no exterior. Primeiramente, mais uma vez recomendo o amigo blogueiro Investidor Internacional. Quando o tema é investimentos no exterior, ele é imbatível. Espero sinceramente que ele possa estar de alguma maneira sendo remunerado pelo seu trabalho, pois o material que ele disponibiliza de forma gratuita é fantástico.

 Você está pensando em ter investimentos no exterior? No artigo Sete Dicas para o Investidor Amador, uma das dicas era justamente abrir os horizontes enquanto investidor. Eu resolvi abrir o meu, e pretendo enviar boa parte do meu patrimônio para fora. No começo, há uns 2-3 anos, pensava em ter uns 10-15%, hoje em dia penso em ter algo como uns 40-45% investidos lá fora. Nos próximos tópicos irei abortar o itinerário mental sobre investir no exterior.

BANCO E CORRETORA

  Quer saber um monte de informação sobre como abrir uma conta no exterior? Leia a fantástica série do Investidor Internacional de 10 artigos Como Abrir uma Conta no Exterior. Sério, ele fuçou dezenas de possibilidades em vários cantos do mundo. 

  Se você quer comprar ativos financeiros, muito provavelmente terá que ter conta numa corretora. Sendo assim, como aqui no Brasil, é necessário ter uma conta num banco e numa corretora. Há bancos com serviços de corretora, mas geralmente, como no Brasil, os custos não são atrativos.

 Quer ter apenas uma conta bancária? Então, você só terá acesso a serviços bancários e a produtos financeiros oferecidos pelo próprio banco como fundos de investimento  oferecidos pela instituição ou alguma forma de título de renda fixa do próprio banco. Nesse quesito é parecido com ter uma conta bancária no Brasil.

 Quer apenas ter uma conta numa corretora? Então, você não poderá ter cartão de crédito ou débito, e terá que de alguma forma transferir o dinheiro do Brasil direto para a corretora via uma operação de câmbio sem passar por uma instituição bancária no exterior. Como você não terá cartão, você não conseguirá usar esse dinheiro no exterior. Se alguma corretora fornece alguma espécie de cartão que você pode utilizar não é do meu conhecimento.

  Sendo assim, é interessante que se tenha conta num banco e numa corretora.


QUAL BANCO E QUAL CORRETORA?

  Na série supracitada do colega blogueiro, ele dá um monte de indicação. Porém, particularmente, mesmo que ele justifique o preço de algumas instituições dizendo "que você recebe o que paga", a maioria das opções retratadas são muito caras. Entrei para ver as taxas de uma corretora de Hong Kong, por exemplo, e me assustei que havia cobrança por uma simples compra de um ativo da ordem de dezenas de dólares americanos. A média de corretoras suíças ou européias é na faixa de uns 15 euros por ordem. Isso é muito dinheiro, R$ 60,00 para comprar um ETF?

 Nesse sentido, uma bela opção parece ser a Interactive Brokers. Nosso querido colega da blogosfera Frugal está se aventurando nos investimentos estrangeiros, e vem contando suas experiência em alguns artigos, destaco este  Como Abrir uma Conta na Interactive Brokers

 A vantagem da I.B. é que ela proporciona acesso a vários mercados, e não apenas ao mercado Americano (ela é sediada nos EUA) e isso faz uma diferença enorme que será tratada num outro tópico. 

 Logo, você será cliente de uma corretora nos EUA, mas poderá comprar produtos financeiros de outros lugares do mundo, não necessariamente só nos EUA. Além do mais, ela possui uma taxa de manutenção de U$10,00. Qualquer ordem é descontada deste valor. Sendo assim, se gastar até U$10,00 por mês em comissão, o valor será apenas o custo de manutenção. 

As taxas de corretagem são bem pequenas na I.B. desde que se compre instrumentos nas bolsas americanas (ver o valor aqui). Entretanto, para acessar outras bolsas de valores, o que será importante na minha estratégia, as taxas de comissão são bem mais salgadas, sendo o mínimo de uns U$5,00 por ordem. Entretanto, de corretora de alcance global, ela parece ser ainda a com melhores custos.

  E o Banco? Se você pode ir pessoalmente aos EUA, por exemplo, talvez existam opções melhores da que irei comentar. Porém, pela comodidade, abrir uma conta no BB Américas parece ser bem conveniente. Segundo relato do próprio Frugal, o processo é simples e pode ser feito tudo pelo Brasil. Além do mais, parece que a taxa de envio de dólar daqui para a conta no exterior feita pelo BB possui uma taxa bem competitiva de um spread de apenas dois centavos de real na cotação do dólar comercial (isso pode mudar, mas por enquanto é uma taxa bem interessante). Mais detalhes neste artigo aqui do Frugal (Como Abrir uma Conta no BB America a distância). O único porém é que são cobrados U$15,00 mensal de manutenção da conta.

 Sendo assim, o combo BB Americas mais I.B. tem um custo de U$ 25,00 mensais ou U$300,00 anuais. É mais do que gastamos aqui no Brasil com esse tipo de serviço, mas é a opção com melhor custo - benefício que achei até o momento, se alguém quer de alguma maneira ter acesso ao seu dinheiro no exterior por meio de cartões.

QUANTO PRECISO E QUANDO É UMA BOA HORA

 Colegas, eu acredito que há um fundamento lógico para taxa de câmbio no médio-longo prazo: o poder de compra entre ambas. Logo, o câmbio reflete a desvalorização entre duas moedas. Assim como no médio-longo prazo ações tendem a refletir os seus fundamentos, no câmbio as moedas tendem a refletir o seu poder de compra relativo.

  Este tema foi abordado com mais vagar nestes dois artigos escritos por mim: Câmbio: O Princípio Fundamental. Empiria e Estratégia para o Investidor Amador e Dólar, Ouro e Considerações Sobre Alocação de Ativos.

  Logo, eu creio que há momentos melhores e piores de se investir em dólar, ou qualquer outra moeda, levando em conta apenas este fundamento. Isso agrava ainda mais, pois nosso país é muito volátil, o que faz com que o nosso câmbio flutue uma enormidade. Imagine enviar U$ 150.000,00 de uma só vez com Câmbio a R$4,20, como muitos devem ter feito no pânico, do que enviar esse dinheiro para fora agora com um Câmbio muito mais competitivo.

 Um colega chamado Investidor AM na aba de comentários do artigo Câmbio: O Princípio Fundamental, gentilmente mostrou como se faz para ter acesso a uma série temporal do Banco Central que mostra a taxa de câmbio real, ou seja, levando em conta o poder de compra entre as moedas. Ela pode ser acessada fazendo os seguintes passos:

"A série temporal do Banco central é "11753 - Índice da taxa de câmbio real (IPCA) - Jun/1994=100 - dólar americano"

O passo a passo para acessar esta série é:

1) Acessar a área de série temporais do BACEN (http://www.bcb.gov.br/?serietemp)
2) Clicar em "Acesso ao Sistema de Séries temporais"
3) Na página "Início -> Consultar séries -> Localizar séries" clique no tema "Setor externo"
4) Selecione o subtema "Taxas de Câmbio - > Taxas de câmbio reais e efetivas"
5) Selecione "11753 - Índice da taxa de câmbio real (IPCA) - Jun/1994=100 - dólar americano" e clique em "Consultar séries"
6) Indique o periodo desejado e clique em "Visualizar Valores" "


Quando a série está em 100 significa que a taxa está neutra. Quando está abaixo de 100 que o Real está mais valorizado e acima de 100 que está subavaliado. Em períodos de pânico, ou euforia, esse valor vai a 80-75 ou a 120-125 (teve discrepâncias ainda maiores, principalmente antes da eleição do Lula1 e na primeira gestão Dilma).

  Logo, evite comprar quando esse número estiver se afastando de forma acentuada de 100. Compre quando ele estiver perto de 100. Compre com mais intensidade quando ele estiver baixando de 90. Atualmente, como há defasagem na série, creio que este número deve estar chegando em 90, ou seja está abrindo-se uma porta para aportes maiores no exterior.

 Quanto você precisa para investir no exterior? A Rigor pouco. Porém, como uma das perguntas que mais ouço sobre leilão é de quanto se precisa para investir, eu recomendo se alguém quer investir no exterior que tenha um valor razoável acumulado no Brasil.
  
 Por qual motivo? Ora, se o gasto com manter uma conta bancária e numa corretora será de algo em torno de U$300,00, se a pessoa tiver apenas U$10.000,00 investidos ela pagará 3% apenas de taxas de manutenção. Isso é muito. Se só possui isso para enviar, é melhor então abrir conta apenas num banco, evitar as taxas de manutenção, e deixar o dinheiro em algum produto financeiro do banco. 

 Ou, abrir a conta apenas numa corretora e não ter acesso a cartões de crédito ou débito. O ideal é que essas taxas de manutenção não represente mais de 0.5% do seu dinheiro investido lá. Logo, começa a ficar melhor a partir de uns U$ 50.000,00-60.000,00 investidos. Como pretendo ter de 20 a 25 vezes isso investido no exterior, as taxas não serão uma grande preocupação. Porém, se você pretende enviar quantias bem menores, reflita sobre se vale a pena e se não é melhor acumular um pouco mais no Brasil primeiro. 
  

TRIBUTAÇÃO, UMA GRANDE PREOCUPAÇÃO


 Colegas, como se paga pouco tributo sobre investimentos financeiros no Brasil, a tributação não é uma grande preocupação para os investidores brasileiros. Entretanto, a tributação tem que ser uma das principais preocupações de quem investe no exterior.

 Nesse ponto, o Insight mais uma vez do valoroso Frugal foi incrível: invista em produtos que paguem pouco dividendo e de preferência compre produtos financeiros com sede na Irlanda. Obrigado mesmo por essa dica, amigo!

 Por qual motivo a Irlanda? A Irlanda possui um regime de tributação bom para quem é um investidor não-residente. Ela não cobra nenhum tributo. Já os EUA, por exemplo, morde 30% de quem é não-residente. Além do mais, a Irlanda possui um tratado de reciprocidade tributária com os EUA, o que faz com que a tributação seja de 15%.

 “Mas o que tem para se investir na Irlanda, Soul?” Fundos de Investimento é a resposta. A Irlanda é um pólo para fundos de investimentos, milhares de fundos são sediados neste país. 

 Assim, vamos supor que você queira comprar um fundo de investimento, um ETF por exemplo, que represente o índice S&P500 do mercado acionário americano. Você pode por meio da corretora na qual você tem conta comprar um fundo que replica este índice e que seja sediado no EUA.  Se este fundo distribuir dividendos, você será taxado em 30%. A mordida lá é grande. 

 Por outro lado, se você comprar um fundo que tenta replicar o mesmo índice e faz distribuições, você será taxado em 15%, se este fundo for sediado na Irlanda.  Isso ao longo dos anos faz muita diferença, é simplesmente queimar dinheiro comprar um fundo sediado nos EUA, se existe a possibilidade de comprar um fundo semelhante na Irlanda.

 Por este motivo, é importante abrir conta numa corretora que tenha alcance global como a I.B. Quanto menos distribuição tiver melhor, pois menos impostos serão pagos. O ideal é não distribuir nada. 

 Como contraponto, é importante dizer que uma corretora como a I.B. cobra valores distintos para compra de ativos na bolsa americana comparado com a compra de ativos na bolsa de Londres. Sendo assim, é preciso levar isso em consideração também. Eu creio que a economia no longo prazo com impostos mais do que compense pagar um pouco mais em taxas de corretagem para comprar ativos sediados na Irlanda.

 E quando você precisar de dinheiro? Fácil, o governo brasileiro te dá uma mão, e isenta do pagamento de qualquer ganho de capital as vendas de até 35 mil reais por mês. Para venda de ações no Brasil o limite é de R$20 mil por mês, para produtos financeiros no exterior é de R$ 35 mil. Isso dá mais de U$100 mil dólares (na cotação atual), quantia mais do que suficiente para se viver de maneira quase que nababesca em qualquer lugar do mundo. 

 Portanto, o correto planejamento tributário é essencial para se ter maiores retornos em investimentos no exterior.

NO QUE INVESTIR?


 Colegas, eu creio que no exterior a escolha deve ser na aplicação de ETFs. Há fundos desse tipo para tudo que você imagina. Hoje fiquei olhando e há centenas de ETFs, todos sediados na Irlanda, abrangendo estratégias, índices, regiões geográficas, ativos, dos mais variados matizes.

 "Ah, mas eu quero escolher apenas as empresas boas", pode alguém estar pensando.  Fácil. Procure ETFs pela categoria SMART BETA. Há um, por exemplo, que chama-se iShares Edge MSCI USA Quality Factor UCITS ETF. Ou seja, a estratégia do ETF é investir em empresas de qualidade.  

 E o que seria qualidade? É explicada  no objetivo número um desse fundo que é "Exposure to a sub-set of MSCI stocks that have historically experienced strong and stable earnings”, ou seja investir em ações que tenham tido um histórico de lucros fortes e consistentes. Se olhar as companhias que integram esse ETFs são as queridinhas do que gostam desse tipo de investimento (como o colega blogueiro Viver de Dividendos): Apple, BERKSHIRE HATHAWAY INC CLASS B, JOHNSON & JOHNSON, AT&T INC,etc, num total de 125 empresas.


  Sim, você pode ter acesso a uma estratégia que filtra empresas que tiveram lucros fortes e consistentes, diversificado em 125 empresas, comprando um ETF com taxa de administração de 0,2% aa, sediado na Irlanda e que não paga dividendos. Muito bom (informações do fundo aqui).

 Tem de tudo, colegas. Se quiser investir em empresas que se beneficiam com o envelhecimento da população, há ETF para isso. Se quiser investir apenas no mercado chinês, há diversos ETFs. Se quiser investir em títulos de dívida de mercados emergentes asiáticos, há um ETF específico. É um mundo de opções a um clique.

 Com tudo isso à disposição, eu não irei escolher empresas individuais. Comprarei ETFs dos mais variados ativos. Eu acho a estratégia mais prudente, mais sensata, mais simples e que provavelmente dará um retorno razoável no médio-longo prazo sem eu precisar dedicar muito tempo.

 Eu pretendo investir em:

-Mercado Acionário Americano Geral
-Mercado Acionário Americano com foco nas estratégias de valor e tamanho ou valor e momentum
-Mercado Acionário Asiático
-Mercado Acionário de Países Emergentes
-Mercado de Dívida Corporativa países desenvolvidos
-Mercado de Dívida de Governos Emergentes
-Mercado Imobiliário Americano
-Mercado Imobiliário Europeu e Asiático
-Ouro e-ou Prata
- Dinheiro em várias moedas

 Sendo assim, acho que uns 11-12 ETFs vão dar conta do recado, terei um portfólio praticamente abrangendo quase todo o mundo e as principais classes de ativo. Estarei extremamente diversificado e protegido contra qualquer cenário mais sombrio.


 É isso colegas, espero que possa ser útil a alguém esse meu roteiro mental inicial para investir no exterior. Agradeço publicamente aos colegas blogueiros citados por estarem contribuindo para que um assunto que há alguns anos quase não havia nenhuma informação fácil disponível seja mais palatável para quem pensa em investir no exterior.


 Um grande Abraço a todos!

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

O CAOS NO ESPÍRITO SANTO - A ESPIRAL PARA BAIXO DE NOSSAS INSTITUIÇÕES

Colegas, iria escrever sobre um roteiro mental que pretendo utilizar para investir no Exterior. Porém, tendo em vista o fato de dois colegas blogueiros que gosto escreverem sobre o caos que se abateu no Estado do Espírito Santo, sendo que um está sofrendo diretamente as consequências do tumulto, resolvi abordar o tema.

 No artigo A Inevitável Tributação de Sua Renda, eu disse que a trajetória da nossa dívida e de nossas obrigações constantes na Constituição de 1988 alguma hora iriam ocasionar um aumento de carga tributária, ou graves conflitos no tecido social, ou ambos. O Texto foi escrito há quase dois anos, e eu já estava viajando. Tive em mente uma greve de professores no Estado do Paraná, onde a Assembléia do Estado do foi invadida, e a manifestação acabou em muita violência.

 Com o desenrolar do nosso processo político nos últimos dois anos, eu comecei a escrever sobre os efeitos potenciais que nossas instituições poderiam sofrer no médio e longo prazo. No penúltimo artigo sobre o Trump, abordei como as instituições americanas são a salvaguarda contra alguém como ele, e como um sujeito com ideias tão obtusas e absurdas pode ser tão perigoso. Pois bem, vou tentar, de forma a mais concisa possível,  juntar tudo isso. 

 Policiais Militares do Estado do Espírito Santo entraram no que estão chamando de “greve branca”. Não tem nada de branca, é greve pura e simplesmente.  Esse movimento é contrário a nossa Constituição, que diz no art.142, IV:

"Art. 142. As Forças Armadas, constituídas pela Marinha, pelo Exército e pela Aeronáutica, são instituições nacionais permanentes e regulares, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade suprema do Presidente da República, e destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem.
(…)
IV - ao militar são proibidas a sindicalização e a greve”

 Por qual motivo um militar não pode fazer greve? Simplesmente, porque a função mais elementar do Estado Moderno , que é a manutenção de uma ordem mínima, é de atribuição dos militares. Além do mais, militares são diferentes de servidores civis, a eles se aplicam regras muito mais rígidas de disciplina e hierarquia, algo normal e natural numa instituição militar  Tanto é assim que no mesmo artigo 142 está previsto que:

"§ 2º Não caberá habeas corpus em relação a punições disciplinares militares.”

 O Habeas Corpus que é uma garantia fundamental de qualquer cidadão brasileiro é atenuado em caso de militares que sofram alguma punição disciplinar.

 Logo, o movimento é completamente ilegal, pois fere artigo expresso de nossa Constituição. Certo. Porém, a nossa Constituição vem sendo respeitada? Houve diversos casos em que a literalidade da nossa Constituição simplesmente foi ignorada.  Uma Suprema Corte serve para interpretar a Constituição, e às vezes a interpretação da Lei Maior vai evoluindo com o tempo. Não há nada de errado nisso, e esse tema é bastante estudado em hermenêutica constitucional.

  Agora, simplesmente ignorar o que um dispositivo claro da Constituição retrata, é uma burla a Constituição.  Lewandowski fez isso ao permitir que houvesse uma votação em separado sobre a perda do mandato de presidente e a perda dos direitos políticos, quando do julgamento de Dilma no Senado.  

  Portanto, nosso próprio Judiciário em alguns casos não está agindo, por quais motivos eu deixo de fazer considerações, como guardião da nossa Constituição. Ao escrever sobre a concessão de auxílio-moradia para os membros do Ministério Público e Juízes em 2014, produzi um artigo intitulado Ainda Já Juízes em Berlim?  Naquele texto, abordava que quando o Judiciário começa a distorcer as leis em proveito próprio, o país poderia estar rumando para algo muito ruim.

  E por qual motivo falo isso? Os Policiais Militares do Estado do Espírito Santo aparentemente ganham um ordenado muito ruim. Segundo notícias de jornais, o salário base de quem entra é algo em torno de R$ 2.500,00. A Greve dos policiais é basicamente por aumento de salário. Esse salário base equivale a metade do auxílio-moradia de juízes e promotores. Se querem saber o quão ilegal é o recebimento desta verba, sugiro a leitura do meu artigo citado.

  Curioso por saber quanto ganha um Promotor do Espírito Santo, eu fui direto na fonte. Você pode fazer o mesmo e ir ao site: Remuneração Promotores  . O salário base de um promotor é de R$30.000,00. Entretanto, há diversas indenizações no salário (que por definição não incide Imposto de Renda). Olhem na penúltima coluna das tabelas do endereço disponibilizado. Uma indenização de R$ 10.000,00 mensal é a regra. No mês de novembro, entretanto, as indenizações do pouco mais de 300 promotores, pelo menos nos primeiros que eu vi da supracitada tabela (não fiquei observando todos os nomes), superiores a R$ 50.000,00

 Isso quer dizer que esses servidores públicos, promotores e juízes são servidores do Estado como qualquer outro, no mês do Novembro , além do salário e indenizações padrões, ganharam 50 mil a mais livres de Imposto de Renda. Pelo menos é isso que interpreto da planilha lá disponibilizada.

  Uma vez disse num grupo de Whatsapp, no auge dos protestos contra a Dilma e o Lula (que tinha acabado de ser nomeado para Ministro), que a corrupção e a imoralidade no Brasil acontecia em vários níveis, e isso se estendia inclusive a salários que não respeitasse nem mesmo o teto constitucional. Um colega ficou indignado, disse que não era a mesma coisa, que o Lula era Ladrão e ele estava indo para a Avenida Paulista protestar. 

 Pois bem. É difícil convencer a população, e um outro servidor público principalmente, de que esse tipo de situação é de alguma maneira legítima. Ora, o ser humano assim age, ele sempre olha a situação dos outros para analisar se a sua é ruim ou não. Um servidor sempre irá refletir se o seu salário é justo ou não,  observando o salário de outros servidores. Quando se cria um fosso desse tamanho, principalmente com o pagamento de verbas de caráter para lá de duvidoso, podem ter certeza, prezados leitores, que a celeuma no interior do Estado está criada.

 Agora, há centenas de promotores no Espírito Santos, mas milhares de policiais militares. Há milhares de promotores no Brasil, mas milhões de policiais e professores. Sendo assim, se aumentarmos o salário de policiais e professores em 50%, o que não faria absolutamente em nada para diminuir o fosso citado, os Estados brasileiros que estão em profunda dificuldades financeiras quebram de vez. Não há dinheiro para isso.

 Os Estados não tem nem dinheiro para pagar as despesas correntes atuais, imagina se aumentarem o grosso das despesas correntes, que é formada por pessoal, por 40-50%? Porém, como se pode dar esse argumento para carreiras tão importantes como policiais e professores, quando se pagam salários e indenizações nesse patamar para promotores e juízes? Eu, sinceramente, acho muito difícil.

 Como dizer que a Constituição está sendo violada por essa greve, quando nossa Lei Maior vem sendo violada por muitos políticos, inclusive pelo próprio Judiciário? Qual é a mensagem que não se passa para a população em geral?

  Qual não é a mensagem que se passa quando se destitui uma presidente por crime de responsabilidade fiscal, baseado que a demora de repasses para bancos públicos se constituía de operações de crédito vedadas pela Lei de Responsabilidade Fiscal, quando diversos Tribunais de Contas Estaduais permitiram que as verbas pagas como indenização (como auxílio-moradia) não entrassem na rubrica gastos de pessoal, fazendo assim com que os gastos de pessoal (que são correntes, ao contrário dos atrasos feitos pela Administração Dilma-Temer) fossem mascarados para que não chegassem aos limites estabelecidos na própria LRF?  Eu acho uma mensagem no mínimo dúbia.

  Na verdade, creio que estão se passando diversas mensagens conflitantes em nosso país. O Temer , que era da mesma chapa da Dilma e a sucedeu, está cercado de diversos ministros que já foram envolvidos ou estão por ser envolvidos em escândalos de corrupção com a liberação das 77 delações premiadas que estão no Supremo. Ele até mesmo elevou uma secretaria ao status de Ministério, dando assim foro privilegiado para Moreira Franco, supostamente citado diversas vezes em delações premiadas. Perguntado se isso não era a mesma coisa que Dilma tinha feito com Lula, alvo na ocasião de inúmeros protestos na mídia e de partes da população (mediante a liberação de uma conversa telefônica por parte do juiz Sergio Moro onde tenho sérias dúvidas sobre a legalidade de tal ato), o presidente e o agora Ministro falaram que não era a mesma coisa. 

 Mais uma vez preciso ressaltar de que não se trata de uma defesa de quem quer que seja. Passamos por uma violenta crise econômica. Crise essa que teve diversos fatores. Passamos por um gravíssimo caso de corrupção que está longe de todos os desdobramentos acabarem, pelo contrário, na minha opinião vai se aprofundar ainda mais. As Administrações anteriores possuem uma gigantesca parcela de responsabilidade nisso tudo. Agora, parece-me que por causa disso, está se perdendo o senso crítico para muitas questões.

 Quais são as consequências disso tudo? É isso que estamos presenciando no Espírito Santo. A Justiça deu uma decisão dizendo que a greve é ilegal. Porém, o Renan não descumpriu uma ordem do Supremo Tribunal Federal há menos de dois meses? Agora, o Renan é indicado a ser presidente da CCJ, se não me engano. Alguém réu no Supremo, com diversas denúncias e investigações, que descumpriu uma ordem judicial, pode assumir a presidência da Comissão de Constituição e Justiça do Senado Federal, basicamente a Comissão mais importante da casa.  Será que é para a governabilidade do atual governo? 

 Se uma ordem do STF é desrespeitada, por qual motivo policiais precisam respeitar uma ordem do Judiciário, ainda mais se eles acham que suas reivindicações são justas? Percebam, prezados leitores, a espiral para baixo sem fim que se entra quando as instituições são fragilizadas, quando para determinados fins a ordem legal não é respeitada.

 Há uma tendência disso se agravar ainda mais. O Governo Temer está com índices de popularidade muito menores do que a de Dilma, como isso é possível eu não sei. Porém, ele está com uma maioria avassaladora no Congresso, provando que popularidade aparentemente não está querendo dizer mais nada. Eu não acho que um político tenha que se preocupar com popularidade, mas sim em fazer a coisa certa, ou ao menos tentar fazer a coisa certa. 

 Contudo, se continuar assim, se propostas impopulares forem tomadas por um governo sem popularidade alguma que não foi nem mesmo eleito para fazer isso, o que garante que não haverá um choque forte ou que isso não vai desembocar em algo completamente diferente na eleição de 2018? Diferente não quer dizer melhor, e na maioria das vezes pode ser muito, mais muito pior.

 Quando escrevi o texto que aludi no começo, eu imaginava que poderiam haver embates, mas que ao menos haveria a possibilidade das reformas estruturais, da rediscussão do nosso pacto social, ser feita de forma clara e transparente com a sociedade. Ainda espero sinceramente que isso possa ser feito no Brasil, sob pena de vermos o nosso tecido social se esgarçar ainda mais,

 Sobre o descontrole da população, e os saques, e tudo mais que está acontecendo no Estado de Espírito Santo, eu vejo como nunca as pessoas se colocam como pessoas normais, mas sim como pessoas de bem alheias a qualquer maldade inerente que existe em potencial em cada ser humano, os famosos cidadãos de bem

 Eu não acredito nesse conceito, pelo contrário, sempre desconfio de quem se auto-elogia ou atribui a si mesmo características de grande vigor ético, separadas do resto da população, essa sim detentora dos mais variados defeitos. 

 Estou lendo um livro muito interessante do Dan Ariely (que é conhecido por escrever livros como Previsivelmente Irracional) sobre a Desonestidade e como a Desonestidade está espalhada por tudo e por todos. 

 O mesmo caos também aconteceu em New Orleans depois da passagem do furacão Katrina. Pessoas estavam se matando, roubando, estuprando, etc. Os que dizem que a população brasileira não tem jeito, falariam a mesma coisa da população americana? 

 Em situações de descontrole, um lado sombrio do ser humano aflora. A Civilização, o Direito, o Estado, são justamente formas de tentar colocar esse lado sombrio sobre alguma forma de controle. Creio que boa parte das sociedades hoje em dia, e talvez com mais força em países desestruturados como o nosso, decaíram para estados mais violentos muito facilmente, se houvesse situações objetivas para tanto.

  Já escrevi diversas vezes aqui como as pessoas tem o costume de assumir que algumas coisas são garantidas. Energia Elétrica, por exemplo. É como se fosse o ar. Como fiquei diversas semanas e em diversos lugares sem energia elétrica, hoje sou o simples ato de poder ligar um ventilador já me deixa satisfeito. Quando algumas pessoas dizem, de maneira aloprada, que o Brasil é o pior país do mundo, elas nem imaginam o que pode existir lá fora. 

 O que está acontecendo no Espírito Santo não é absolutamente nada perto do que acontece em diversas regiões de conflito no mundo. Muito provavelmente, é o que todo brasileiro espera, a situação será atenuada rapidamente, mas o que muitas pessoas estão experimentando no Espírito Santo é apenas uma fração do que muitos Sírios, Iraquianos, Congoleses, Sudaneses, etc, etc, vivem todos os dias. Sim, o caos e o horror.

  Logo, a própria noção de estabilidade, segurança e coisas mínimas não são garantidas,  e centenas de milhões de seres humanos não possuem isso no seu dia a dia, algo que passa completamente despercebido por alguém de classe média que nasceu num país como o Brasil.

 O filme, infelizmente não tive o prazer de ler o livro, do Senhor Saramago chamado “Ensaio Sobre a Cegueira”, retrata de uma maneira dura como o ser humano pode degringolar de forma bem rápida, pessoas respeitáveis, pais de família, pagadores de impostos, podem se tornar violentos, injustos, cruéis, num piscar de olhos. Felizmente, no final do filme, uma beleza enorme é mostrada. Não sou crítico literário, mas acho que Saramago criticava não os atos atrozes de quando todos estavam realmente cegos, mas sim a nossa cegueira atual enquanto ainda podemos ver. Nós podemos ver, mas estamos cegos.

  Espero sinceramente que a “normalidade" possa voltar ao Estado de Espírito Santo, que o nosso colega de blogosfera Guardião possa ficar bem, assim como a sua família, e assim como o seu negócio. Porém, se não começarmos a enxergar o que recusamos em observar, infelizmente poderemos viver ainda muitas mais situações de caos como a que o Estado do Espírito Santo está vivenciado.


 Abraço a todos

domingo, 5 de fevereiro de 2017

VOCÊ RACIOCINIA DE FORMA INCORRETA. PONTO. SOBRE PERUS, CISNES NEGROS E O VIÉS DE CONFIRMAÇÃO


 Olá, colegas. O tema não é novo, nem mesmo aqui neste blog, vide o artigo Viés de Confirmação : Nossa Preguiça Intelectual. Porém, é impressionante como está em todo o lugar. Está em mim mesmo, porém eu tento ao menos combater essa tendência natural humana. O impressionante é como redes sociais aprofundaram o problema, e estão fazendo que uma parcela significativa das pessoas simplesmente raciocine cada vez da pior maneira possível. Sim, o viés de confirmação, o nosso grande adversário mental em nossa vida.

 Comecemos pela frase: “Todos os Cisnes são Brancos”. É como o Nicholas Taleb inicia o seu famoso livro “A Lógica do Cisne Negro”. O que ocorre com a afirmação “Todos os Cisnes são Brancos”? Aqui, acontece algo muito interessante sobre o que entendemos como verdade. Eu não posso afirmar com certeza absoluta que a afirmação "Todos os Cisnes são Brancos" é verdadeira. Eu posso ter observado 10 mil cisnes brancos, 100 mil cisnes brancos, 1 milhão de cisnes brancos, e mesmo assim não posso dizer que a afirmação é necessariamente verdadeira.

 E por que não? Pois basta a observância de um único cisne negro para que a minha teoria com centenas de milhares de observações seja falsa. Este é um dos maiores insights que você pode ter em relação a forma de raciocinar, então prezado leitor preste atenção, pois irei repetir: UMA ÚNICA OBSERVAÇÃO PODE PROVAR QUE UMA TEORIA OU HIPÓTESE É FALSA, MILHARES DE OBSERVAÇÕES NÃO PODEM AFIRMAR QUE ELA É VERDADEIRA.

  E por que isso é importante? É importante, pois é assim que o ser humano faz ciência. Há até mesmo um grande filósofo chamado Karl Popper que elaborou os termos de uma “filosofia da ciência”, assentando o que pode ser considerado Ciência ou Não. Basicamente, para ele, uma proposição só pode ser considerada científica se ela pode ser “falseável”, ou seja demonstrada falsa.

  Como não podemos afirmar que alguma coisa é verdadeira mesmo com muitas observações, mas podemos dizer que algo é falso com uma única observação, fica evidente que a maneira mais inteligente de encarar a vida é buscar por informações que de alguma maneira mostrem que nossas convicções ou ideias são falsas.

 "Quer dizer que nunca teremos a Verdade, Soul?” Não, e essa é a diferença entre a Matemática e tudo o mais. A Matemática é o único campo do conhecimento que podemos falar sobre Verdades com V maiúsculo, e geralmente elas são chamadas de Teoremas.  Quando li um artigo do Mises Brasil onde eles chamavam uma Teoria Econômica de um Teorema, eu só pude controlar o meu riso anterior. Agora uma ramo que nem científico é como a Economia está produzindo Teoremas? Está certo então.

  Quanto mais uma teoria é colocada a prova, seja por observações seja por tentativas de “falsificá-la”, isso quer dizer que a Teoria se sustenta com mais força e pode ser uma descrição correta da realidade. Porém, nunca poder-se-á dizer com certeza que essa Teoria é verdadeira com 100% de certeza.

 Se nós pararmos para refletir um pouco sobre os parágrafos anteriores, já podemos perceber o quão sem sentido é a busca frenética das pessoas por lerem ou ouvirem algo que simplesmente reforça suas ideias prévias. É o equivalente de procurar mais cisnes brancos para provar que a afirmação “Todos os Cisnes Brancos” é verdadeira. 

 O Viés de Confirmação é a nossa tendência de procurar por “fatos”, informações, perspectivas que corroborem a nossa forma de apreender a vida e a realidade. Esse é o principal erro de julgamento, é o seu principal inimigo para tomar boas decisões na vida e para entender a realidade com mais profundidade.

  Todos nós somos afetados por esta forma de ver o mundo. A grande diferença é se nós estamos conscientes disso, e se nos esforçamos para evitar que sejamos influenciados em demasia principalmente nas grandes decisões em nossa vida.

 Está tudo muito teórico e abstrato? Bom, para mim a capacidade pensamento abstrato é A capacidade para se entender o mundo. E num mundo cada vez mais complexo, ela será A capacidade que distinguirá países que irão prosperar ou não.

  Porém, vou colocar um exemplo concreto meu envolvendo investimentos. Há dois anos, inclusive escrevi sobre isso neste espaço, eu conjecturei que a crise econômica iria fazer com que houvesse muitos bens indo a Leilão. Como não poderia ter certeza, mas eu imaginava que poderia estar, resolvi me manter líquido e não carregar posições onde eu não pudesse ter acesso ao meu dinheiro. Além do mais, como fiquei quase dois anos viajando, eu não queria me importar com análise mais sofisticados de instrumentos financeiros. 

 No final da viagem, eu comecei a me questionar se tinha sido uma decisão sábia. Poderia ter escolhido instrumentos mais ilíquidos, além do mais que nos dois anos de viagem comprei apenas um imóvel. Refleti que isso tinha me custado tranquilamente seis dígitos de custo de oportunidade, se eu considerar a diferença entre o 93% líquido de CDI que ganhei aplicando no BB e eventuais outras aplicações de características semelhantes.

 Acontece, que eu estava certo. Estão acontecendo leilões numa frequência absolutamente sem precedentes, ao menos para mim. Leilões bons que ocorriam, quando ocorriam, uma vez por ano, estão ocorrendo todos os meses. Resultado, já iniciei cinco novas compras apenas nesse período de menos de dois meses que voltei. E daqui duas semanas tem outro leilão grande. Minha rotina tem sido me exercitar, pensar na vida, e acertar juridicamente estas cinco operações. Já tive sucesso em quatro, sendo que já estão inclusive a venda ou em processo de colocar, o que foi um record para mim. Comprar, formalizar acordo, e já estar chegando na última etapa que é colocar a venda em tão pouco tempo.

 Quando estava pesquisando um imóvel potencial, eu já estava praticamente certo que valeria a tentativa até um determinado preço. Foi quando, ao pesquisar pela internet, vi um imóvel com características que poderiam ser semelhantes por um preço muito menor do que eu achava que poderia valer o imóvel objeto de pesquisas. Eu já tinha visto alguns imóveis semelhantes que estavam corroborando a minha ideia de preço, e quando vi este inferior, eu de maneira consciente-inconsciente resolvi ignorar esta informação. Sim, pura e simplesmente ignorar a informação dissonante.

 Alguns minutos depois, alguma coisa aconteceu, e eu apenas refleti comigo mesmo “Viés de Confirmação mesmo? É isso que você chama de uma boa análise?”. Eu estava procurando por cisnes brancos, quando na verdade deveria estar olhando por cisnes negros, por informações que desafiassem a minha ideia já quase que solidificada de que poderia ser um bom negócio.

 Eu, sinceramente, não lembro se a informação desse imóvel foi relevante ou não, pois nos últimos 50 dias já devo ter analisado dezenas e dezenas de imóveis, mas posso tranquilamente dizer que ligou o sinal amarelo de como nós podemos ser traídos muito facilmente, e como o Viés de Confirmação é algo que pode se apossar da gente com uma facilidade tremenda.

 Sendo assim, meus prezados leitores e amigos, você possui um adversário em sua mente para a sua própria evolução. Este opositor parece ser uma força amiga, mas não é, ela é uma das formas mais deletérias que você terá que se esforçar para superar em certa medida.

  O Viés de Confirmação vai fazer você andar com pessoas que parecem com você, ler textos de pessoas que pensam como você, e perceber o mundo da forma que você já percebe o mundo. Você vai se sentir bem, se sentir tranquilo e sua vida será mais fácil. Um mundo de certezas e pouca dúvida o aguarda.

  Para mim essa é uma vida pobre, seja do ponto de vista humano, seja do ponto de vista intelectual. Em minha opinião, isso é transformar a sua vida numa Coréia do Norte auto-imposta. Já pensou nisso? O que não é um regime totalitário senão a apresentação da realidade com apenas uma forma possível, proibindo outras formas concorrentes de explicação do mundo. 

 Compare isso com pessoas lendo apenas textos ou ouvindo pessoas que dizem exatamente o que elas já pensam como ser o correto, simplesmente ignorando outras formas de ver o mundo. É um regime de auto-censura, é a criação da sua própria Coreia do Norte intelectual. É isto que você quer para a sua vida, leitor? Eu creio que não.

 Uma vez vi num blog um comentário de um leitor dizendo assim: “O texto é brilhante, meus parabéns. Você pensa exatamente como eu penso”. (…). (…). Preciso comentar alguma coisa? A pessoa não está elogiando o autor do texto, mas a si própria. No fundo, o viés de afirmação em alguns temas nada mais é do que isso, uma forma de simplesmente ver qualidades em nós mesmos, mesmo que elas não sejam reais ou tão fortes.

  Por fim, termino este artigo com o famoso  problema da indução, ou carinhosamente chamado Turkey’s Problem pelo Taleb. Não é o Viés de Confirmação, mas de alguma maneira está conectado com ele. 

 É a História de um Peru de Thanksgiving (o feriado americano). Ele é um Peru e todo o dia é alimentado por um homem. Nos primeiros 50 dias, ele desconfia. Porém, depois de 200 dias sendo alimentado pelo Homem, ele simplesmente aceita o fato de que a vida é assim mesmo “Perus são alimentados pelos homens”. Passam 800 dias, e o Peru não poderia estar mais certo de que a vida é boa, todas as evidências apontam para isso, "vejam há 800 dias eu sou alimentado, eu tenho 800 peças de evidência que o Homem que me alimenta gosta bastante de mim e a vida é boa" pensava o Peru. A cada dia que passa o bem-estar do Peru aumenta, e ele está cada vez mais confiante. TODOS OS CISNES SÃO BRANCOS. 


  Porém no 1.001 dia, isso acontece: 


  O Peru é degolado para ser servido como ceia no famoso feriado estadunidense. Todas as 1000 peças de "evidência" não serviram para absolutamente nada. Bastou apenas uma única observação para tudo ruir. 

  Não seja o Peru, sem qualquer trocadilho, prezado leitor. Não se entregue tão facilmente para o viés de confirmação. Busque informações que mostrem que você pode estar errado, principalmente quando tiver que tomar grandes decisões.  Isso não quer dizer que deve ficar paralisado ou impotente, claro que não. Isso apenas fará com que você fique mais forte e tome decisões muito mais acertadas, principalmente quando os resultados possam ser incertos.

Sim, Cisnes Negros existem...

E o Destemido Soulsurfer não teve "medo" de encará-los de frente! (Rotorua - Nova Zelândia)



  Um abraço a todos!

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

TRUMP: O DEMAGOGO COERENTE

 Acho que este senhor ainda será objeto de alguns outros artigos neste espaço. Também pudera, ele é uma figura espalhafatosa sentada na cadeira, pelo menos por enquanto,  da nação mais poderosa do planeta. 

 O primeiro artigo sobre o Trump foi escrito logo depois da sua vitória na eleição: Trump: Vigor da Democracia Americana, Golpe nas Gerações Futuras e Uncharted Reefs. Basicamente, o artigo dizia que pairava uma grande interrogação no ar sobre o que ele poderia representar para os EUA e para o mundo em si. Fiz até mesmo uma analogia com Uncharted Reefs, e modéstia a parte, creio que foi uma boa analogia para o período anterior a 20 de janeiro de 2017, data de sua posse como Presidente dos EUA.

 Naquele artigo, e em muitas outras análises feitas pela mídia, quase todos falavam algo como “O Trump vai ser muito mais pé no chão, aquilo tudo que ele falou na campanha foi um grande jogo de cena”.  Para as pessoas que assim pensavam, eu apenas refletia que (a) ele foi um grande trapaceiro eleitoral, fazendo as mentiras eleitorais da Dilma Roussef no nosso Brasil parecerem coisa de criança e (b) por qual motivo um sujeito embevecido de si mesmo, bilionário, que fez uma campanha como um outsider completo do sistema político iria ser facilmente “controlável”.

  Para “a”, como há uma grande correlação positiva entre quem nutria, ou ainda nutre, simpatia por Trump e desprezava o “estelionato eleitoral” de Dilma, fica apenas uma grande incoerência lógica. Como desprezar um determinado ato, e de outro lado relevar o mesmíssimo ato? 

 Não consigo vislumbrar respostas que não sejam cegueira, ou hipocrisia. Vejam, aqui não se trata de defesa de Dilma, repúdio a Trump, ou o que quer que seja. Apenas a constatação de um fato de que se alguém abominava a mentira eleitoral de Dilma, algo que eu com certeza abomino, a lógica e o bom-senso deveriam fazer com que se abominasse um eventual descompasso absoluto entre o que Trump disse nas eleições e o que ele por ventura viesse a fazer como Presidente.

 Sobre “b” ainda gostaria de ouvir algum argumento bem construído de por qual motivo alguém com bilhões e bilhões de dólares, com um ego do tamanha do mundo, sendo Presidente dos EUA depois de ganhar uma eleição que há um ano  todos consideravam que era como a Nova Zelândia ganhar uma Copa do Mundo de Futebol (ou seja possível estatisticamente, mas impossível na prática) seria de alguma maneira colocado “sob controle”. Sério, eu gostaria de entender por que um sujeito como Trump vai se sujeitar a alguma coisa.

 “E as instituições americanas Soul?”. Sim, a diferença entre um Trump e um Mussolini, ou qualquer outro ditador que seja atual, é que entre os seus desejos e a concretização dos mesmos há instituições americanas fortes. Não é à toa que os EUA são o que são. Um país só chega nesse nível, quando a independência e qualidade de suas instituições são muito bem estabelecidas. Eu ainda quero ler o trabalho, ao menos algum livro mais conhecido, do economista Douglass North (ganhador de “nobel" de economia) sobre o papel fundamental das instituições no desenvolvimento de uma nação.

  Quando escrevo sobre temas políticos, ou sobre o meu temor em relação ao que estamos fazendo com o Brasil, a minha maior preocupação é sobre os efeitos a médio e longo prazo em nossas ainda frágeis instituições. Simplesmente ninguém sabe. Acho que tomamos passos que não sabemos bem o que pode ocasionar com nossas instituições a longo prazo.

  Essa é a maior barreira dos EUA contra Trump: suas instituições. É evidente que ele pode, e provavelmente vai, fazer um mal danado a muita gente, mas há limites, e os limites são os estabelecidos na Lei e principalmente na Constituição Americana. Uma prova disso é a decisão de uma Juíza Federal mandando liberar os refugiados detidos em aeroportos, pegos de surpresa, com o decreto presidencial barrando a entrada de refugiados e pessoas de sete nacionalidades.

 A medida é claramente contrária a tratados internacionais e ao próprio espírito dos EUA, uma terra que sempre foi reconhecida como um lugar onde pessoas poderiam prosperar e encontrar refúgio de perseguições políticas, religiosas ou étnicas de outros lugares do mundo. Aliás, foi assim que o país prosperou.

 O Decreto do Trump sobre imigração foi tão insensato que ele  proibia a entrada de quem tinha visto de estudante ou até mesmo green card. Imagine, milhares de estudantes universitários que não poderiam continuar os seus estudos, ou até mesmo estrangeiros (desses sete países) com visto permanente não poderiam entrar nos EUA. Imagine você aí todo pimpão, pagou de $500.000,00 - U$1.000.000,00 por um visto de investidor, ou tem um visto de estudante para estudar numa universidade, proibido de entrar no país por causa do seu país de origem. Vai que o Trump resolve se estranhar com o Brasil.

 A medida foi tão estapafúrdia que o próprio partido Republicano, mesmo com um presidente do próprio partido com pouco mais de 10 dias de mandato, criticou pesadamente a proibição de entrada de pessoas com alguma forma de visto permanente e a Casa Branca teve que voltar atrás.

  Esta medida apenas prova que ele é um demagogo, um populista a La Chavez, sim o Chavez que tantos criticam, que não precisa apoiar os seus atos em fatos. Aliás, fatos é algo com o qual Donald Trump não dá a mínima. E o que me causa mais estarrecimento é que numa sociedade onde o conhecimento é a chave para a prosperidade econômica, muitas pessoas estão simplesmente abandonando os fatos. Fatos são facilmente descartados se de alguma maneira confrontam uma determinada visão de mundo. Isso é uma aberração. Visões de mundo deveriam ser guiadas por fatos.

 Se Trump, apesar de ser ilegal de acordo com a Lei Internacional, quisesse discriminar por país de origem para “combater o terrorismo” a entrada de certas nacionalidades,  o país número um da lista deveria ser a Arábia Saudita.  

 A esmagadora maioria dos terroristas do 11 de setembro era Árabe. Evidentemente, a Arábia Saudita ficou de fora. E por que ficou de fora? Porque fatos e a realidade não importam, o que importa é alimentar  o medo da minoria dos americanos que o elegeu. Sim, Minoria, ele é o legítimo presidente eleito pela regra do colégio eleitoral, e aqui nem discuto isso, mas ele não foi eleito pela maioria dos votos, aliás a diferença a menor foi bem significativa.

  Não se trata de combater terroristas. Aliás, é bem capaz que isso apenas alimente mais a retórica de grupos terroristas, trata-se apenas de instilar medo por meio de medidas populistas, ao melhor estilo do livro “1984”, é o duplo-pensar, o pensar que frio é quente, e não ver qualquer problema nisso. Aliás, um porta-voz da Casa Branca ao ser questionado sobre um fato, retrucou que ele gostaria de apresentar Fatos Alternativos. Fatos Alternativos? Se isto não é o doublethinking do 1984 eu nem sei o que poderia ser.

  O Populismo simples e barato de dizer que os mexicanos irão pagar por um muro a ser completado na fronteira dos  EUA com o México, e que se os Mexicanos não pagassem, poderia ser instituído uma tarifa sobre as exportações mexicanas. Isso simplesmente é falso e uma grande bobagem, e o Instituto Mises explicou o simples motivo neste artigo


 O amadorismo é gritante. Como o atual Secretario de Estado que disse que os EUA poderiam barrar o acesso da China a ilhas artificiais que ela está construindo no conturbado e disputado Mar do Sul da China (se quiserem ler algo a respeito aqui). A afirmação parece ter saído de de um blog amador. Sério. 

 Como alguém num cargo desses pode falar uma bobagem dessas? Primeiramente, que qualquer ato de bloquear o acesso da China a estas ilhas levará a um conflito armado de grande escala  com a China, pura e simplesmente. Em segundo lugar,  os EUA pleiteam direito de passagem por este mesmo Mar, como eles poderiam bloquear o acesso da China e quererem direito de passagem? Ou seja, não faz sentido. Porém, o secretario de defesa ao ser sabatinado soltou essa pérola.

  Repito o que já disse aqui. No Brasil, tudo bem. Estamos acostumados. Milhões se transformam em Bilhões ou vive-versa. O que é 2%, alguém fala que é 20% e muitos nem percebem a diferença. Políticos muitas vezes com nenhuma instrução. É normal. Contudo, num país como os EUA isso começar a acontecer é muito preocupante mesmo.

  Agora, Trump está sendo coerente com o que ele disse que iria fazer. Nisso, apesar da seriedade da coisa, merece elogio, por que não? Um político que realmente está fazendo literalmente o que ele disse que iria fazer.

  Portanto, assim sendo, ele se afasta de Dilma Roussef e seu “estelionato eleitoral”, e se parece como um populista-demagogo que estamos bem acostumados na América Latina. A grande novidade é uma figura dessas como presidente dos EUA. Espero que as instituições americanas possam mostrar a sua força e que o mal que ele irá ocasionar não seja grave demais.

  No final, ele só será uma grande decepção a quem votou nele. Ele recebeu, segundo estimativas, três milhões de votos a menos. O grosso de sua votação veio de brancos sem educação superior, ou seja, a sua votação expressiva veio de uma parcela com pouca educação na sociedade americana. Até aí nenhum problema, nenhum problema mesmo.

 Porém, recordam a contradição lógica apontada no começo do texto? Aqui há mais uma. Tendo em vista a correlação positiva apontada no texto entre quem nutria, ou ainda nutre admiração pelo Trump e o fato de não gostar dos últimos governantes do Brasil, se a pessoa questiona que o Norte-Nordeste do país "sem educação" elegeu o PT nas últimas eleições, o mesmo questionamento teria que ser feito sobre a população com menos educação que elegeu o Trump. É literalmente a mesma coisa. O não reconhecimento disso é apenas cegueira ou hipocrisia.

  É compreensível. No Norte-Nordeste há uma grande presença de programas sociais, assim vários cientistas políticos diziam que o voto dessas populações era racional, pois eles estavam votando pensando em seus interesses. Nos EUA, um populista prometeu trazer empregos de volta, construir iphones em solo americano, e fazer o país grandioso de novo. Grandioso para a grande parcela de classe média branca que vê o seu rendimento real estagnado por décadas, e pela primeira vez na história observa a geração atual numa situação pior do que a geração anterior. Assim, de certa forma é racional o voto a alguém que promete que a era de prosperidade irá retornar.

  Assim, como os eleitores do Norte-Nordeste muito provavelmente estão decepcionados com o descalabro fiscal, moral e financeiro que o governo do PT legou ao país, os eleitores do Trump com o tempo ficarão decepcionados. Há milhões e milhões de pessoas extremamente educadas e bem formadas em países mais pobres dispostas a ganhar muito menos do que um americano médio ganha. Um americano médio sem instrução não poderá competir contra essas pessoas no médio-longo prazo, assim a sua qualidade de vida não irá aumentar com interferência governamental. A sua qualidade de vida só irá aumentar se ele se qualificar, se ele se tornar capaz de gerar mais valor a um mundo cada vez mais interconectado. E isso não irá acontecer taxando produtos estrangeiros, criando barreiras comerciais ou se envolvendo em conflitos armados desnecessários.

  Trump, o demagogo que não é um ditador, pois está num país  com instituições sólidas e fortes. O Populista que é coerente com o seu discurso de campanha. Uma figura que com certeza traz e trará ainda ao mundo muitas notícias.



 Um abraço a todos!