segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

SEJA FLEXÍVEL, SEU BEM ESTAR E FELICIDADE DEPENDEM DISSO.


                Proponho um pequeno exercício para você prezado leitor (acabei de fazê-lo antes de sentar para escrever este artigo): antes de continuar a leitura, coloque os pés próximos um do outro, respire fundo e tente tocar as mãos no chão sem dobrar as pernas.  Faça esse favor a você mesmo antes de prosseguir.

                Fez? Muitos não devem ter feito. Eu também sou assim quando leio algo que me pede para fazer alguma atividade de forma ativa, apesar de geralmente ser de grande valia fazer o que o autor do texto pede.  Alguns devem ter feito (assim espero). Como foi? Tocou o chão com os dedos? Com a mão completa (meus parabéns!)? Quase chegou lá? Parou na metade do caminho?

                Qual o ponto de tanto falatório, Soul?” Flexibilidade, amigo. Seja flexível. Começa-se pela flexibilidade mais básica: a do nosso corpo. Se você num simples exercício de flexibilidade para tocar o chão empaca no meio do caminho por desconforto, é porque a situação está ruim, muito ruim. Você pode estar acertando a mão na escolha dos fundos imobiliários corretos, saindo com mulheres estonteantes, com um belo carro, mas a verdade é que está faltando a você um dos atributos mais básicos de uma vida saudável: flexibilidade corporal.

Não sei o portfólio desse senhor, mas que a sua saúde é melhor do que a saúde da esmagadora maioria dos idosos brasileiros não tenho muitas dúvidas

                Quando o meu corpo está mais flexível, minha qualidade de vida aumenta. Quando o meu corpo está menos flexível, minha qualidade de vida diminui. Simples assim.  O corpo é a primeira manifestação da flexibilidade que podemos ter em nossas vidas.  Quer saber as vantagens para a sua vida de ter um corpo mais maleável? Basta se tornar mais flexível. Apenas experimentando no próprio corpo os dois estados de  baixa flexibilidade e maior flexibilidade para saber como o simples ato de tocar a mão no chão no exercício proposto aumenta a qualidade de vida. Mas, até que ponto a flexibilidade, ou o seu conceito, é importante para além do seu corpo físico?


 "Um Bamboo que se dobra é mais forte do que um carvalho que resiste"
                
      Às vezes recebo alguns e-mails perguntando sobre como eu pude ter a certeza para abandonar um cargo tão bem remunerado e “declarar” minha independência financeira. Há várias respostas, mas uma importante é a flexibilidade em relação ao meu padrão de vida. Na verdade, vai até um pouco além do conceito de flexibilidade.

Será este meu futuro depois da minha decisão de alguns meses atrás? Escrevo um livro que dá certo, isso me anima a me tornar um investidor anjo, também dá certo. Monto um fundo de investimento, dá super certo. Aqui, discutindo planos de negócios no meu jato particular com associados (fonte : www.emirates-executivo.com)




Ou, será que é este? Escrevo um livro, não dá certo. Muitas despesas inesperadas acontecem. O governo brasileiro quebra. Tudo quebra. O patrimônio no exterior desaparece. Tudo dá errado. Tenho que limpar banheiros para sobreviver. (fonte  http://www.redeemingriches.com/2010/10/22/pay-off-debt/)

               
                Provavelmente, eu não chegue nem numa situação, nem na outra.  Porém, se a minha satisfação pessoal com minha vida for derivada apenas de quão mais próximo eu estiver da primeira situação, provavelmente estaria adotando uma postura mais inflexível e semeando o caminho para uma vida mais insatisfeita. “Ah, quer dizer que você limparia um banheiro se fosse preciso, e você largou uma posição ´privilegiada´ para isso? Só pode estar louco!” Sim, limparia sem problemas nenhum, se as circunstâncias da minha vida levassem a isso.

                Você está jantando num restaurante chique. A comida é deliciosa e veio servida na temperatura certa. O Garçom é simpático e profissional. A vista deslumbrante. A companhia interessante, agradável e inteligente. Ninguém fuma perto de você. A temperatura é agradabilíssima. A música ambiente perfeita. Você se sente feliz e satisfeito.


 Sim, agora posso ser feliz (fonte https://www.kivotosmykonos.com/pt/)

                A vida em algumas ocasiões apresentar-se-á assim para você. Existem pessoas que consegue apenas extrair satisfação e bem-estar quando tudo está, conforme os critérios da própria pessoa, "perfeito".  Eu conheço uma pessoa extremamente próxima que é assim. Tenho certeza que os leitores conhecem alguém ou quiçá alguns podem até ser assim.  Entretanto, na maioria das vezes a vida não se apresenta de uma maneira tão, diríamos, "perfeita".  

             Quase sempre algo, ou muitas outras coisas, não funcionam do jeito que talvez mais nos convenha.  A comida não veio na melhor temperatura. O Garçom foi simpático, mas demorou em atender. O Garçom foi rápido, mas não foi simpático. O Garçom foi rápido e simpático, mas estava com um cheiro estranho. O Garçom foi rápido, simpático, perfumado, mas tropeçou e derrubou vinho em sua camisa de U$ 500,00. Acho que o ponto ficou claro. A satisfação que você vai retirar do jantar vai depender quase que única e exclusivamente de sua flexibilidade de aceitar o que as condições da realidade concretamente apresentam.  Talvez a boa companhia seja o mais importante, sendo o resto secundário para a sua satisfação. Talvez no caso do jantar a inflexibilidade devesse ser apenas em relação a uma boa companhia.

                Se você quer que o dinheiro lhe traga níveis maiores de liberdade para buscar seja lá o que faça mais sentido para você enquanto ser humano, seja flexível.  Se sua satisfação depender de hotéis e jantares de luxo, padrões mais “sofisticados” de gastos, etc, etc, além de ser mais difícil ter uma vida marcada por maiores momentos de bem-estar, será matematicamente mais custoso juntar um patrimônio que possa gerar um determinado fluxo de caixa para atender essas “necessidades”.  Não há certo ou errado em padrões de consumo (na maioria dos casos).  Há apenas mais satisfação ou menos satisfação. Porém, um ponto é cristalino: quanto mais flexível você for, há uma tendência muito maior de extrair bem-estar de situações que aparentemente seriam desconfortáveis ou não prazerosas.

                Para ser mais flexível com o corpo é preciso (Tcharammmm) alongar-se com uma maior freqüência. Para ser mais flexível com nossos hábitos é preciso refletir com mais freqüência sobre como reagimos quando alguma coisa ou alguém nos contraria.  Desejo uma vida de mais flexibilidade a vocês prezados leitores.

Soulsurfer, numa pequena vila no norte da Tailândia. Estava chovendo, a comida custou menos de U$1,00, o estabelecimento não era nenhum "michelan cinco estrelas", receita para a insatisfação, correto? Não,  pelo contrário, estava bem satisfeito com tudo, principalmente com a comida e a companhia (e com o estabelecimento propriamente dito que era a casa de uma senhora simpática e sorridente).

           Um Abraço a todos!


quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

UMA DROGA PODEROSA : DEPOIS DE UM PERÍODO DE ABSTINÊNCIA, ONTEM A RECAÍDA

Sim, ontem tive uma recaída e abusei do consumo de uma droga poderosa. Ela é sedutora, e se infiltra em nossa vida sem que possamos dar conta. O pior é que às vezes nem se percebe que se trata de um entorpecente maléfico e muitas vezes, se não quase todas, é considerado algo positivo.

Depois de um período de quase dez dias em abstinência, ontem deixei a minha atenção e mente serem entorpecidos pelo fluxo de notícias. Para um brasileiro, ontem foi um dia para se prestar atenção no que acontecia com o julgamento do ex-presidente Lula. Adorado por muitos, detestado por muitos, uma parte significativa das pessoas prestou atenção ao que três juízes tinham a dizer sobre as alegações de corrupção e lavagem de dinheiro. Eu, brasileiro como qualquer outro, também devotei a minha atenção ao noticiário. “Oh boy”, como isso faz mal à saúde mental e a uma vida mais produtiva.

Eu há alguns meses venho modificando a minha alimentação. Carboidratos refinados muito dificilmente entram na minha dieta, assim como açúcar (na verdade todo carboidrato vai virar açúcar em seu organismo), a não ser eventualmente a frutose encontrada em diferentes quantidades com diferentes índices glicêmicos nas frutas. E o que isso remotamente tem a ver com o tópico dos dois primeiros parágrafos? Paciência, chego lá antes que os comerciais do programa de notícias do rádio terminem. Sábado passado, na festa de despedida de um bom amigo que está indo viajar para o exterior, comi um bom número de fatias de pizza, já que foi feito uma “noite pizzada”. No dia seguinte, me senti muito mal fisicamente. Parece que o meu corpo está se desacostumando a comer comidas que possuem a capacidade de produzir inflamação no corpo, ou seja, não muito saudáveis.

Foi exatamente o que aconteceu ontem. Eu tinha ficado uma semana sem ver absolutamente nenhuma notícia, em nenhum meio de comunicação. Não foi uma tarefa fácil, pois como estou a todo vapor na escrita do livro sobre leilões, constantemente estou sentando na frente de um computador escrevendo ou pesquisando algo na internet. É quase automático digitar algum endereço de notícias, seja brasileiro ou estrangeiro. Durante uma semana, nem mesmo isso eu fiz. Desintoxicação. Eu já passei diversas semanas, especialmente quando viajando em lugares mais inóspitos onde não tinha eletricidade, sem qualquer contato com as “notícias” do mundo. Invariavelmente, a sensação sempre foi de bem-estar e conexão com o momento, bem como com a realidade de uma forma muito mais forte. Tentei, portanto, fazer isso no meio do tumulto e das diversas distrações que os aparelhos eletrônicos hoje em dia proporcionam.

Consegui. No final do sétimo dia, me dei o “luxo” de olhar as notícias por uma hora, nem mais nem menos, colocando inclusive despertador para tanto. Meu cérebro ávido, como qualquer viciado talvez fique depois de um período sem entorpecimento, foi então olhar várias notícias. O Trump chamou países de “buracos de merda” ou algo parecido. A Caixa Econômica Federal teve funcionários do alto escalão acusados no envolvimento de condutas duvidosas. Uma apontada, filha do pivô do mensalão o ex-deputado Roberto Jefferson, foi impedida de tomar posse como ministra de alguma coisa. Deu 15 minutos, e eu sinceramente não agüentava mais, pois tudo aquilo me pareceu uma grande perda de tempo, um mecanismo engenhoso para capturar a atenção das pessoas sem fornecer nada significativo em troca. 

Um livro de Dostoiévski demanda muita atenção, mas ele proporciona algo em troca. Um livro mais profundo do Damodaran demanda empenho e atenção, mas ele proporciona um conhecimento de alto nível para aqueles que querem realmente entender sobre valuation de ativos. Um relacionamento forte com amigos, esposas, pais, demanda atenção, mas, se fortalecidos, eles nos proporcionam muita satisfação pessoal.

Porém, o que essa máquina de produção de pretensas notícias que não para um minuto sequer dá em troca pela nossa atenção? Nada, absolutamente nada. Aliás, pelo contrário, ela apenas nos retira. Ela retira o tempo para você ler Dostoiévski, Damodaran, Paulo Coelho, ou qualquer outro autor que possa lhe interessar. Ela rouba precioso tempo em que alguém pode gastar fortalecendo relacionamentos. Ela suprime valioso tempo em que a pessoa pode gastar com ela mesma, seja reparando no seu corpo, seja reparando na respiração, e construindo rotinas para que o organismo possa se fortalecer e melhorar. Ela inspira, quase sempre, os piores sentimentos nas pessoas: desesperança, indignação, ódio, medo (ah, principalmente medo, o mecanismo perfeito de dominação e convite à passividade) e futilidade.

Ainda pior, ela destrói a capacidade de se focar em algo com a intensidade necessária para produzir algo de valor. Ontem, ao deixar o meu cérebro vagar pelos diversos noticiários, comentários sobre o julgamento, eu não escrevi nada de novo no meu livro. Zero. Mesmo na minha rotina de não precisar trabalhar mais por dinheiro. Apenas como comparação, na semana que me abstive do consumo dessa poderosa droga, eu li seis dissertações de mestrado sobre um tema que estará no livro, li centenas de decisões judiciais, reformulei 70 páginas que já tinha escrito e escrevi algo entre 40 novas páginas. Surfei diversas vezes, malhei diversas vezes, li diversos artigos sobre temas relacionadas à saúde, iniciei práticas meditativas e de rituais ao acordar e ao dormir. Não tenho a menor dúvida que há pessoas muias vezes mais produtivas do que eu, mas fiquei bem contente com o resultado. No dia de ontem, não produzi nada de valor. Não li nada de novo para a minha vida. Fiquei como um verdadeiro zumbi entre uma noticia e outra, ao ficar ouvindo o voto dos desembargadores do Tribunal, ao ler comentários de analistas e cidadãos, em suma o dia passou.

À semelhança com o pós “noite da pizzada”, eu me senti mal. Não só intelectual, mas como fisicamente. Era dia de descanso da academia, mas resolvi às 18:00 pegar a bicicleta e ir à academia fazer qualquer coisa. Estava chovendo, e foi incrível pedalar na chuva. Na academia, fiz apenas um treino funcional, apesar de ser em alta intensidade. Pedalei novamente na chuva sem camisa, e a sensação da água caindo no corpo foi incrível. Parei num sushi, comi um combinado (comendo arroz branco refinado, mas enfim) e me senti muito, mais muito melhor de como estava me sentido antes da atividade física.

Esse fluxo de informação é tóxico. É prejudicial para o seu bem-estar, para o seus relacionamentos, e principalmente para a sua capacidade de produzir algo significativo.  O fluxo de desinformação de redes sociais e de fontes criadoras de notícias sem pé nem cabeça é pior do que tóxico, porque além dos problemas apontados acima, vai criando pessoas incapazes de realizar pensamento crítico, crédulas em tudo que é apresentado. Em alguns casos é ainda pior, pois vai instilando raiva e ódio em relação a grupos de pessoas ou idéias. Dessa toxidade mais perniciosa ainda bem que nunca fui muito atingido.

O blogueiro Corey escreveu no seu último artigo sobre silêncio. O silêncio não é só dos estímulos externos, mas também o silêncio da mente. As mentes estão tão inquietas que boa parte das pessoas não consegue mais apreciar o silêncio tão necessário para o equilíbrio do corpo e da mente, e em muitos casos para a produção de conteúdo de valor. O fluxo constante de notícias, de mensagens em mídias sociais, de comentários, impede que a mente se aquiete. Impede que ela se restaure. É possível que até mesmo impeça que novos conhecimentos mais aprofundados sejam formados. A quantidade de estudos, e livros baseados nestes, sobre os efeitos deletérios do fluxo constante de informações é simplesmente enorme.

Desintoxique. Se você pega o seu celular de manhã ao acordar para ver as notícias do dia, sem mesmo se olhar no espelho ver se acordou bem ou tomar um copo de água, você está viciado, e está lentamente adoecendo. Sinceramente, eu não sei se há níveis saudáveis de exposição a esse entorpecente. Porém, se é difícil se livrar totalmente desse vício, ainda mais no mundo onde vivemos onde tudo está conectado mas parece que as conexões verdadeiras humanas são cada vez mais raras, é possível sim diminuí-lo para que a sua toxidade seja mínima.  

E sobre o julgamento? O que se pode dizer? Uns ficaram tristes, outros alegres. Alguns juristas entendem que houve alargamento de conceitos, algo que ao menos em teoria não se pode fazer em direito penal, outros juristas entendem que não. Uns acreditam que Lula morreu politicamente, outros entendem que não. Uns acham que isso vai ajudar a reforma da previdência, outros acham que não. Uns acham que o mercado já tinha precificado a derrota por 3x0, outros acham que não.

O que eu acho é que o fluxo de notícias simplesmente não irá parar, e a pessoa irá pular de uma notícia para outra, de um “acontecimento importante” para o outro, e sem se dar conta, semanas, meses, e às vezes anos se passam no piloto automático. A pessoa de uma maneira inconsciente terá deixado que a sua atenção, o seu tempo (o que de mais precioso possuímos), tenha sido tomado, sem que nada, absolutamente nada tenha recebido em troca.

Um abraço a todos!

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

EU, VOCÊ E A MORTE DE IVAN ILITCH

“- Meus senhores, morreu Ivan Ilitch!
- Como assim?
- Aqui está. Pode ler – respondeu, e pôs nas mãos de Fiodor Vassilievitch o jornal que cheirava a tinta fresca.
(...)
Assim sendo, ao tomarem conhecimento da morte do colega, o que primeiramente ocorreu a cada um foi a possibilidade própria ou dos amigos nas promoções e transferência que ela iria provocar” (fls.19)


A morte. A não-existência. Como outros sentiriam a minha morte? Ficariam tristes? Seriam mesquinhos? Aliás, não sentir muita coisa e pensar em si, mesmo diante da morte de alguém, é mesquinho ou é simplesmente humano?


“Além das considerações sobre as prováveis promoções e transferências que a morte de Ivan Ilitch acarretaria, a própria morte de pessoa tão próxima deles despertou, como de costume, em cada um dos membros do Tribunal, a tranqüilizadora sensação de que escapara. ´Ora Bem!´ Ele morreu e estou vivo´ pensou e sentiu cada qual. Quanto aos amigos mais chegados de Ivan Ilitch, os chamados íntimos, unânime e involuntariamente consideravam os aborrecidos deveres a cumprir – acompanhar o enterro e fazer uma visita de pêsames à viúva” (fls.20)

Seria assim na minha própria morte? Será assim na morte da maioria das pessoas? Sempre me intrigou, e ainda intriga, que mesmo diante de sofrimentos atrozes de outros nós nos queixemos dos mais triviais aborrecimentos. Porém, será que não foi sempre assim? A empatia em relação ao sofrimento alheio, mesmo de conhecidos, é algo que nos torna mais humanos ou é apenas um código moral inatingível para boa parte da humanidade?

“A vida de Ivan Ilitch era das mais simples, das mais vulgares, e contudo,  das mais horríveis. Juiz do Tribunal falecia aos 45 anos.” (fls.28)

 Ivan Ilitch se forma em direito. Consegue então um cargo de grande importância junto a um governador provincial. A mocidade, e a alta posição social em tão tenra idade, permitem que ele se torne um bon vivant. Um Burguês, um Hustler dos tempos mais antigos. Alguém com maneiras decentes e elegantes, capaz de conviver nas mais altas camadas sociais com desenvoltura, relacionando-se com pessoas poderosas, aquelas relações as quais os entendidos modernos dizem que devemos cultivar para ter “um bom networking”,  e tirando proveito disso. A vida era boa para Ivan Ilitch

Teve, na província, uma ligação com uma dama local que se atirara no braço do jovem e elegante advogado e ainda um breve caso com uma modista; houve farras com oficiais da guarda pessoal do czar de passagem pela cidade, com idas, após a ceia, a certa rua afastada e de duvidosa reputação; havia uma certa bajulação ao chefe e à esposa do chefe, mas praticada de maneira tão elevada e distinta que não seria possível aplicar palavras desairosas. Tudo cabia no adágio francês: Il fault que jeunesse se passe. Tudo era feito com as mãos limpas, com camisas limpas, com frases francesas e, principalmente, no seio da melhor sociedade, por conseguinte com a plena aprovação das pessoas altamente colocadas.” (fls.30)

Depois de alguns anos, Ivan Ilitch se torna juiz. Ah, o poder. A sensação que se pode influenciar a vida de homens e mulheres se assim o desejar. A sensação de que se alcançou algo que a maioria dos homens não conseguiu. Ah, que sensação boa, a sensação de um vitorioso, de vitória, afinal a vida é feita de vitórias, e uma vida de sucesso só pode ser baseada em alguém que atingiu posições elevadas, um vitorioso, portanto.

Mas, agora, na qualidade de juiz de instrução, Ivan Ilitch sabia que todos, sem exceção, mesmo os mais poderosos e emproados, dependiam dele, e bastava que escrevesse umas poucas linhas num papel timbrado para que o personagem mais importante e mais auto-suficiente comparecesse à sua presença como acusado ou como testemunha e , se não quisesse, que ele se sentasse, ficaria de pé suportando a sua argüição. Jamais abusou de tal autoridade, muito pelo contrário, procurava atenuá-la, mas a consciência do poder e a possibilidade de abrandá-la constituíam para ele o principal interesse e a absorvente atração do seu novo encargo” (fls.31)

Ivan Ilitch então casa-se. Com moça de alta estirpe. Bonita, a mais bonita do círculo social que frequenta.  Porém, com o passar do tempo, a rotina familiar começa a pesar sobre sua vida. Uma esposa que não o compreende e o recrimina pelas mais insignificantes frivolidades. A vida familiar torna-se insuportável. É preciso achar um refúgio.

O seu objetivo consistia em se liberar cada vez mais das contrariedades domésticas  e dar a elas uma aparência inofensiva e decente; e consegui-o passando cada vez menos tempo com os seus, e quando era impraticável sair de casa, procurava resguardar a sua posição cercando-se de pessoas estranhas. O principal, porém, era manter a sua vida de funcionário. Todo o interesse da sua existência se concentrou no mundo judiciário e esse interesse o absorvia. A consciência da sua força que permitia aniquilar quem ele quisesse, a imponência da sua entrada no tribunal, a deferência que lhe tributavam os subalternos , seus êxitos com superiores e subordinados, e, sobretudo, a maestria com que conduzia  os processos criminais e da qual ele se orgulhava – tudo isto lhe dava prazer e lhe enchia os dias, a par de palestras com os colegas, os jantares e o uíste. Assim, a vida de Ivan Ilitch decorria de maneira que achava conveniente – agradável e digna” (fls.36)

Vários anos se passam, e agora Ivan Ilitch é juiz na capital.  Sua vida familiar deteriora-se, mas ele se aferra à respeitabilidade do seu cargo e da sua posição com mais força. Porém, uma dor surge em seu corpo. Meses se passam e a sensação é cada vez pior. Grandes médicos são consultados, mas nada de conclusivo dizem. A dor vai se tornando insuportável.  Então, Ivan Ilitch  questiona a sua mortalidade, numa das passagens mais primorosas da literatura mundial.

O exemplo de silogismo que aprendera no compêndio de Lógica de Kiesewetter – ´Caio é um homem, os homens são mortais, logo Caio é Mortal` - sempre lhe parecera exato em relação a Caio, jamais em relação a ele. Que Caio, o homem abstrato, fosse mortal era perfeitamente certo; ele, porém, não era Caio, não era um homem abstrato, era um ser completa e absolutamente distinto de todos os demais. Ele fora o pequeno Vânia, com sua mamãe e papai, com Mítia e Volódia, com os brinquedos, o cocheiro, a ama e depos com Katienska e com todas as alegrias e entusiasmos da infância e da adolescência e da mocidade. Porventura conheceu Caio o cheiro da pequena bola de couro listrado de que Vânia tanto gostava? Por acaso Caio beijava a mão a mãe como Vânia? Era para Caio que a seda do vestido da mãe fazia aquele frufru? Fora Caio quem protestara na escola, por causa dos pastéis? Tinha Caio amado como Vânia? Seria Caio capaz de presidir, como ele, uma audiência?
´Caio é de fato mortal, e portanto, é justo que morra, mas quanto a mim, o pequeno Vânia, Ivan Ilitch, com todos os meus sentimentos e idéias, o caso é inteiramente outro. É impossível que eu tenha que morrer. Seria demasiado horrível” (fls.55)

Claro que os homens são mortais, mas a nossa própria mortalidade parece difícil de acreditar. Como é possível  que eu, presidente de uma multinacional, possa morrer? E os meus compromissos, e as minhas vitórias? Ou como eu, juiz de uma suprema corte, reverenciado por um séquito de subalternos posso ser mortal? Eu não!  Porém, a morte um dia chega seja você quem for, e Ivan Ilitch cada vez mais se dá conta disso. O seu sofrimento existencial começa a ser tão ou mais pesado do que o seu sofrimento físico. A impressão que ninguém se importa realmente com ele, amigos, familiares, é por demais dura.  As suas limitações físicas, ao seu olhar, se tornavam cada vez mais degradantes, nem mesmo suas necessidades fisiológicas mais simples ele era capaz de fazer.

“Mas foi exatamente graças a tão penosa circunstância que Ivan Ilitch experimentou um dado consolo. Quem sempre vinha limpar o vaso era o camareiro Guerássim. Tratava-se de um jovem mujique, asseado e saudável, que engordara um pouco com a comida da cidade, se mostrava sempre bem-humorado. No começo, Ivan Ilitch ficara constrangido com a presença daquele homem limpo, na sua branca roupa de camponês, desempenhando um serviço tão nojento.” (fls.58)
(...)
“Guerássim era o único que não mentia e tudo indicava que também era o único a compreender plenamente o que se passava e não considerava necessário ocultá-lo, singelamente condoía-se do patrão tão fraco e esquelético” (fls.61)

O único que via, sentia e tinha um sentimento de empatia era a pessoa responsável por limpar os dejetos de Ivan Ilitch.  Quão surpreendente não é isso? Ou não é surpreendente? O cuidar de outro ser humano.  O sentimento de cuidado. Não é isso que torna possível que empreendedores, pessoas de sucesso, existam em primeiro lugar? Quase sempre precisamos de alguém, quando somos frágeis, que nutra esse sentimento de cuidado e carinho em relação a nós.  A Mãe, o Pai, um Tio distante, um enfermeiro, um amigo, quão importante não podem ser? Quão essencial não é o cuidado em nossas vidas? Por qual motivo esse sentimento tão nobre é negligenciado, omitido e colocado em segundo plano tantas e tantas vezes?

“Depois, sossegou, deixou de chorar, prendeu a respiração, ficou atentamente ouvindo a voz que vinha silenciosamente, a voz de sua alma, a torrente de pensamentos que dentro dele se acumulara.
´O que é que tu queres?´ foi a primeira coisa que ouviu claramente.  ´O que é que tu queres?´ ´O que é que tu queres?´ repetiu. E respondeu: ´O que eu quero é viver. Viver sem sofrer´.
´Viver? Como?´ perguntou a voz anterior. ´Ora, viver como sempre vivi. Bem, agradavelmente´, respondeu. ´Como viveste antes, bem e agradavelmente?´, tornou a voz.
E ele começou a repassar na imaginação os melhores momentos de sua vida. Mas- coisa estranha! – tais momentos não lhe pareciam agora tão agradáveis como cuidava que fossem, salvo as primeiras recordações da infância.  Na meninice, sim, havia coisas verdadeiramente prazenteiras, que gostaria que se repetissem, se pudesse viver outra vez. Mas aquele menino estava morto, era como a reminiscência de uma outra pessoa.
Quando entrou a repassar o período que gerara o atual Ivan Ilitch, tudo que lhe parecera ser alegria se desmoronava antes os seus olhos, reduzindo-se a algo desprezível e vil. E quanto mais longe da infância e mais perto do presente, tanto mais as alegrias que vivera pareciam insignificantes e vazias. A começar pela faculdade de Direito. Nela conhecera alguns momentos realmente bons: o contentamento, a amizade , as esperanças. Nos últimos anos, porém, tais momentos já se tornaram raros. Depois, no tempo do seu primeiro emprego, junto ao governador, gozava alguns belos momentos: amara uma mulher. Em seguida, tudo se embrulhou e bem poucas eram as coisas boas. Para adiante, ainda menos. E, quanto mais avançava, mais escassas se faziam elas. Veio o casamento, um mero acidente, e com ele, a desilusão, o mau hábito da esposa, a sensualidade e a hipocrisia. E a monótona vida burocrática, as aperturas de dinheiro, e assim um ano, dois, dez, vinte, perfeitamente idênticos. E, à medida que a existência corria, tornava-se mais oca, mais tola. ´É como se eu tivesse descendo uma montanha, pensando que a galgava. Exatamente isto. Perante a opinião pública, eu subia, mas na verdade, afundava. E agora cheguei ao fim – a sepultura me espera´.
(...)
´Talvez eu não tenha vivido como deveria´, acudiu-lhe de súbito. ´Mas de que sorte, se eu sempre procedi como era preciso?´, e imediatamente afastou a única hipótese possível para o enigma da vida e morte” (fls.70-71)

Será possível? Mas eu fui atrás de uma boa posição social, do sucesso, afinal fui um vitorioso. Fui mesmo? Mas não é possível, como uma vida vivida de maneira decente, digna, com trabalho respeitoso pode ter sido uma forma errônea de se viver?

“Ponderou que aquilo que antes acreditava ser totalmente impossível, isto é, não ter vivido como deveria, podia ser verdade. Considerou que as pequeninas tentativas que fizera, tentativas quase imperceptíveis e que logo sufocava, para lutar contra o que era considerado acertado pelas pessoas mais altamente instaladas na sociedade, podiam representar o lado autêntico das coisas, sendo falso tudo mais. E que os seus deveres profissionais, sua vida regrada, a ordem familiar e todos os interesses mundanos e oficiais não passavam de grandes mentiras. Tentou defender tudo aquilo perante a si mesmo, e, de repente, atinou com a fragilidade da sua defesa. Não, não havia nada a defender.” (fls.75)

Será que é possível que o que se estima como verdade para uma boa vida não seja uma grande falsidade? Títulos, poder, dinheiro, conquistas, as cenouras que são colocadas na frente de nós coelhos-humanos, representam realmente uma vida prazerosa e de sentido ou será que não passam de ilusões? Há um meio termo possível ou não? 
Não sei. O que sei é que quanto mais o tempo passa, mais impressionado fico com algumas obras literárias, e o motivo delas serem verdadeiros clássicos. A primeira vez que li "A morte de Ivan Ilitch" tinha vinte e poucos anos. A segunda foi com trinta, e me causou uma impressão muito mais forte do que a primeira vez, já que eu vi muito de Ivan Ilitch em mim. Essa terceira vez, agora com 37 anos, foi significativamente mais perturbadora, mas de certa forma mais prazerosa, já que sinto que as reflexões que Ivan veio a fazer no leito da sua morte, quando em certa medida já era tarde demais, são questionamentos de extrema importância em minha vida ainda jovem e com saúde. 


“Aspirou profundamente, deteve-se no meio, inteiriçou-se e morreu.” (fls.77)

E assim termina uma das maiores obras da literatura russa.

obs: Citações retiradas do livro "As Obras-Primas de Leon Tolstói" da editora Ediouro, 2000.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

RETROSPECTIVA SOULSURFER DO ANO DE 2017. PLANOS PARA 2018

Olá, colegas. Mais um ano chegando ao fim, e tenho a honra e o prazer de dizer que o blog continua ativo. Creio ser importante analisar o que ocorreu em nossa vida e refletir sobre o que realmente se quer para o futuro.  A periodicidade desse exercício não precisa ser anual, mas não se pode negar que a virada de um ano em nosso calendário é um aspecto importante de nossa cultura. Sendo assim, apresento a retrospectiva do meu ano e alguns objetivos.

FINANÇAS
               

Esse foi um ano agitado do ponto de vista financeiro. Iniciei mais de 10 operações imobiliárias de leilão. O resultado não será tão espetacular como imaginava, mas não posso me queixar.  Foi um ano de um aprendizado ainda maior nessa área. Sinto-me como um verdadeiro expert. Como tenho operações em vários lugares do país, posso sentir na pele que o mercado imobiliário reage de diversas formas a depender da localidade. Porém, de forma geral, ainda não está fácil. Muita oferta, muitos imóveis novos ainda em estoque com construtoras, isso faz com que a balança da oferta pese mais do que a da demanda. 

Solução? Comprar barato e vender a um preço acessível e principalmente ser flexível em negociações. Quer oferecer financiamento, entrada à vista, um carro usado e um cavalo de corrida como forma de pagamento? Ótimo, irei analisar.  Em 2017, também entrei em uma operação grande, ao menos para os meus padrões, e estou confiante que irá fornecer bons frutos pelos próximos anos.  Ao menos, creio que estou garantido contra um downside muito forte, pois tenho garantias legais e o meu processo de Due Dilligence foi razoavelmente bem-feito.

Neste ano, comecei também o processo de diversificação do meu maior risco: Risco Brasil. Já tenho mais de U$ 35k lá fora, a conta na corretora Interactive Brokers já está funcionando, e consegui fazer a minha primeira transferência da conta do Banco do Brasil Américas para a corretora IB. Nesse aspecto, sou muito grato ao blogueiro Buscando o Primeiro Milhão que forneceu um tutorial muito bem-feito de como fazer essa transferência sem pagar nada e apenas segui o que ele escreveu e tudo funcionou bem. Aplausos a todos , blogueiros ou não, que disponibilizam o seu tempo para compartilhar estudos, tutoriais, reflexões, que podem vir a ajudar tantas pessoas em tantos aspectos.


O que pretendo com as minhas finanças para 2018 e além? Bom, eu quero liquidar meus imóveis.  Eu tinha 4,5X em imóveis depois das minhas compras. Em setembro estava com 3,8X e agora estou com 3,1X (o X é apenas uma variável para dar ideia da proporção), pois nos últimos dois meses consegui vender alguns imóveis. Eu encaro essas operações como se fosse um Patrimônio Líquido de uma empresa, só que no meu caso eu quero zerar esse Patrimônio Líquido, pois quero liquidez.  Espero diminuir esse valor para 1X até abril de 2019. Irei conseguir? Quem sabe. Imóveis pela sua iliquidez é uma espécie de ativo difícil de fazer prognósticos mais precisos. Num mês se pode vender cinco imóveis, e ficar 10 meses sem receber propostas em outros, porém estou trabalhando para que não fique com imóveis sem propostas. Ao voltar de uma manhã de surfe, resolvi pensar quantos imóveis tinha vendido nesse difícil ano. Fiquei surpreso que a resposta foi 9 imóveis (sendo que três delas aceitei pagamento parcial com outro imóvel). Se eu tiver o mesmo número de venda esse ano, nossa, ia ser muito bom e atingiria meu objetivo ainda mais rápido e de forma eficiente.


"E por que você quer liquidez, Soul?" Nos últimos meses, fiquei com algo em torno de 200-300k de liquidez imediata e achei horrível como isso limita o seu potencial de dizer sim a alguns bons negócios. Felizmente, já nesse final de ano a minha liquidez está começando a voltar a níveis muito mais satisfatórios. Eu creio que há muita calma no mercado para com 2018. Eu acho que o Brasil está piorando e muito. Para mim há uma enorme incerteza sobre muitas coisas, inclusive sobre a própria segurança da institucionalidade de nossas instituições mais importantes.  

Assim, pode ser que nada mais sério aconteça, que a inflação se mantenha comportada, que o déficit fiscal seja solucionado, que candidatos a presidente que mais parecem saídos de um circo dos horrores se transformem em presidenciáveis com um mínimo de postura, que a SELIC se mantenha comportada, assim como o câmbio.  Eu, sinceramente, não faço questão de fazer previsões.  Porém, tenho os meus receios, e se no Brasil é possível ter investimentos com liquidez imediata, sem pagamento de imposto de renda, sem risco de duration, e ainda pagando juros reais de 3 a 4%, parece-me uma decisão fácil. Não há grandes custos se as minhas preocupações se mostrarem equivocadas. Ficar líquido numa proporção muito grande de seu patrimônio é arriscado em lugares com taxa de juros reais negativas, não é esse o caso Brasil, e esse modelo mental cada vez fica mais forte em mim. Fique líquido ganhando juros reais de 3-4%, se aparecer oportunidades que demandem alta liquidez, se aproveite delas e seja agressivo quando houver boa margem de segurança. 

Pretendo também ir ganhando mais experiência com investimentos no exterior, e aumentando o meu patrimônio lá fora. Venho lendo bastante a respeito, uma área extremamente carente no Brasil, e creio que tenho um modelo mental forte para a minha exposição lá fora.  Espero que esse câmbio real continue um pouco desvalorizado, pois assim irei aumentar significativamente a minha posição.  Não cheguei nem a 3% da quantidade que pretendo ter lá fora nos próximos anos, então a caminhada está apenas no começo. Como o meu grande amigo Frugal fala, é uma sensação diferente saber que ao menos uma parcela, nem que seja ínfima, do seu patrimônio já não está sujeita a delações, corrupção, voluntarismo, salvadores messiânicos, planos econômicos mirabolantes, crises fiscais, etc, etc, do nosso país. Aliás, já poderia ficar uns 14 meses viajando com a minha companheira só com o que já mandei, e é uma sensação muito boa.

SAÚDE


Se há um assunto importante que é deixado de lado por quase todos é saúde.  E aqui esse “quase todos” eu me incluo. Falo dos diversos níveis para se ter uma vida saudável.  No ano que se passou, por meio da dedicação da minha companheira que vem se esforçando para aprender cada vez mais, minha rotina alimentar se modificou bastante. Eu pela primeira vez comecei a realmente me interessar sobre o que estava comendo, sobre a ligação de diversos alimentos com saúde ou doença e a forma correta de se alimentar.

Certo dia, estava lendo sobre correlação de fatores, e como construir um patrimônio internacional multifatorial. Especificamente, estava estudando alguns papers do Clif Asness  (quem já leu o livro "Mentes Brilhantes, Rombos Bilionários, talvez reconheça o nome), gestor de um dos maiores e conhecidos Hedge Funds do mundo - AQR 200 bilhões de dólares administrados - de como é bom ter momentum e valor de maneira integrada já que eles tendem a ser negativamente correlacionados.  Isso é um tipo de coisa para gestor profissional, é muito além do necessário para a esmagadora maioria dos investidores amadores, eu incluso. 

Ao ler os estudos, me  dei conta que sei sobre minúcias de finanças, o que é muito importante e essencial para se ter uma vida equilibrada (não é sobre isso os mais de 200 blogs amadores de finanças?), mas até alguns dias atrás eu não sabia que a vitamina D é na verdade um hormônio, e sua função vai muito além de apenas regular o processo de absorção de cálcio pelos nossos ossos. Caramba, isso é o básico do básico e eu percebi que sou completamente ignorante.  Em finanças pessoais, quando se dá os primeiros passos,  percebe-se o quanto a maioria das pessoas não faz a mínima noção de como lidar com dinheiro. Agora que estou procurando dar os primeiros passos em relação à saúde, é impressionante como a maioria das pessoas não faz noção nem mesmo do básico sobre alguns elementos de como ter uma vida saudável. E isso se estende também, e talvez principalmente, a pessoas ligadas a área de saúde.

Fiquei mais forte, perdi gordura, e até certa definição do abdômen, que não via desde os meus 21-22 anos, ocorreu.  E o melhor é que foi um processo bem tranqüilo, apenas de conscientização alimentar e de prestar atenção no que se faz na academia ou em exercícios funcionais.

Se o seu corpo está bem, sua mente funciona melhor. Se o seu corpo está forte e ágil, a sua qualidade de vida aumenta exponencialmente. Eu quero me dedicar muito mais a isso. Quero envelhecer com qualidade. Já comecei a ler diversos livros sobre o tema, escutar podcasts estrangeiros com treinadores de alto rendimento, e estou animado que no próximo ano irei melhorar ainda mais a qualidade da do meu corpo, bem como da minha vida.


TRABALHO E PRODUTIVIDADE


Bom, não é mais segredo a ninguém que pedi exoneração do meu cargo de Procurador Federal. Era muito provável que iria me exonerar no primeiro semestre de 2018, porém pela primeira vez na história foi aberto um Programa de Demissão Voluntário para Procuradores.  Eu, e um grande amigo de carreira (um dos únicos que tive na profissão e um cara de um caráter extraordinário, extremamente competente e inteligente) influenciado por mim, fomos os únicos no Brasil inteiro, ao menos da minha carreira, a aderir ao programa.  O Governo irá pagar uma indenização, como é comum em programas de PDV, que é suficiente para me sustentar durante uns 6-7 anos, então não tive nenhuma dúvida em aderir o programa.

Porém, o que fazer com o tempo livre? Nesse primeiro momento, decidi, entre outras coisas, me dedicar ao livro sobre leilões. Mais de 160 páginas já foram escritas, e estou ficando muito satisfeito com o resultado até agora. Quero escrever uma obra que seja um marco não apenas para investimento em leilões, mas para investimentos em geral.  Creio que a abordagem feita será interessante até mesmo para pessoas que não tenham interesse em comprar imóveis em leilão. Para os que têm interesse, eu creio que essa obra será de extrema valia, a caixa preta que é o tópico leilões, será esmiuçada em todos os detalhes teóricos e práticos possíveis. Ouso dizer que não há nada remotamente parecido no mercado.

Quero também aprender mais sobre investimento anjo, e venture capital de uma forma geral. Já localizei dois livros bons sobre o tema em Inglês, e devo ler no começo do ano. Há algumas semanas, também fui num evento de startups , e conversei com mais de 7 empresas. Foi uma experiência incrível. Iria ficar 3 horas no local, fiquei 11 horas. Ver tantas idéias interessantes, tantas pessoas comprometidas e com paixão por um empreendimento, com certeza foi um vento de ar fresco em mim. Gostei muito do ambiente. Se é possível fazer bons investimentos, e como fazer esses investimentos, é algo que pretendo aprender do ponto de vista teórico e prático talvez com pequenos investimentos.

A profissionalização do meu blog ficou para o ano que vem (grande Felipe, obrigado pela ajuda e peço desculpas por furar o cronograma de novembro, mas muitas coisas importantes ocorreram nesse período), é algo que quero fazer. Talvez produzir um programa de podcast baseado em entrevistadores feras como o Tim Ferris ou o cara do Art of Manliness. Tenho certeza que posso me esforçar e fazer boas entrevistas , assim como eles fazem, algo quase inexistente no Brasil, mas creio ser possível e factível. Entrevistas, onde o entrevistador não é o centro, onde as perguntas não são fáceis, e onde se possa extrair o máximo de entrevistados das mais variadas áreas do conhecimento.

Assim, estou animado com a possibilidade de fazer coisas novas e interessantes no próximo ano.


RELAÇÕES FAMILIARES


Este ano, depois de quase dois anos mochilando pelo mundo, consegui ver o meu pai diversas vezes. Estou me esforçando para visitar os meus pais na minha cidade natal uma vez a cada dois meses.  Na última vez que estive em Santos, dormi no apartamento do meu Pai por vários dias, algo que nunca fiz na minha vida. Foi muito bom poder fazer coisas simples como acompanhar o meu pai na Feira para comprar peixe fresco (pescada amarela, uma delícia) caminhar com ele de manhã pela vizinhança, poder conversar bastante. Deixou o meu coração mais leve, e creio que fiz o meu pai bem feliz. Estar feliz é poder caminhar com o seu pai de quase 80 anos pelas ruas de São Vicente às 8 da manhã e conversar sobre a vida ou comer um peixe preparado por ele. Sou muito grato de com 37 anos já ter percebido isso.

Com minha Mãe creio que a relação está boa também. Minha Mãe é muito diferente do meu Pai, e há muito mais similaridade intelectual com o meu Pai do que com a minha Mãe. Porém, minha Mãe é força, é a mulher batalhadora e vencedora, que com certeza serviu e serve de exemplo para mim, e me dá força.  Pude ficar nas últimas semanas alguns dias com ela, e isso me deixou muito feliz e contente.  Conversei até mesmo com minha irmã, depois de quase 20 anos sem quase nenhum diálogo,  muito conflito e afastamento. Não foi a conversa profunda e íntima que gostaria de ter tido, mas foi algo, e sou grato por isso.  Minha outra irmã resolveu se aventurar numa viagem sozinha, finalmente tomou coragem e partiu. Algo que me deixou bem satisfeito que talvez possa ser um primeiro passo para ela (re) descobrir a força que existe nela e procurar uma existência mais plena e saudável com ela mesma.

Com minha companheira venho aprendendo. Depois de quase oito anos juntos, é preciso tentar descobrir o que faz com que um relacionamento se mantenha bom. Tenho as minhas questões com que preciso lidar, ela tem as delas, mas é preciso fazer um esforço legítimo de auto-aperfeiçoamento para que um relacionamento possa continuar bom e quem sabe evoluir para algo melhor.

Para os próximos anos, pretendo aproveitar os meus pais enquanto eles estão nesse planeta terra, sabedor que eles possuem as suas limitações e manias, mas que são os meus pais e são as pessoas que me amaram e continuarão a me amar pelo resto da vida deles (que espero ser ainda longa).  Espero me tornar um companheiro melhor, e que eu possa ter relacionamentos cada vez mais saudáveis com as pessoas do meu entorno mais próximo.


É isso meus prezados leitores e colegas, finanças, saúde, produtividade e relações familiares, creio que andei bem nos principais setores da minha vida no ano de 2017, tentarei melhorar ainda mais no ano que está por vir.  Desejo a todos boas reflexões sobre os aspectos importantes de suas vidas, que possam corrigir o que pode ser melhorado, aperfeiçoar ainda mais aquilo que está bom, e sentirem que suas vidas possuem um propósito, algo que dê significado.


Grande abraço!

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

UM LÍDER VERMELHO - PORQUE VOCÊ DEVERIA SER UM



            Olá, colegas. Esse modesto blog possui algumas ideias centrais, uma das principais é o conceito de se desafiar intelectualmente sempre que possível. Não é à toa que esse espaço às vezes atraia críticas ferozes,  pois desafiar conceitos arraigados não é fácil, mas é essencial. Diversos artigos nesse sentido já foram produzidos, e ficaria difícil citar todos eles.

            Há uma estratégia que recentemente ouvi num podcast do Tim Ferris: red team ou time vermelho. Primeiramente, o vermelho vem da alusão a União Soviética nos tempos de guerra fria. O que um “time vermelho” deve fazer? Basicamente, tentar de qualquer maneira provar que há falhas em algum sistema, forma de pensar, etc. Se uma organização possui um sistema de segurança na internet, um red team pode ser formado dentro da própria organização para demonstrar justamente o contrário. 

            Bom, isso para mim é basicamente o melhor, mais inteligente, e científico processo para evoluir qualquer coisa: ideias, produtos, pensamentos, relacionamentos, etc. Isso é a completa antítese do que ocorre em mídias sociais hoje em dia, ou em comentários como “Nossa, que texto bom, disse exatamente o que penso”. Essa forma de raciocinar é tão não-intuitiva que não é nenhuma surpresa dela ser aplicada apenas em organizações de ponta pelo mundo, e não pela população em geral.

            Sem saber sobre o conceito de “time vermelho”, percebi que sempre tive a tendência, aumentada nos últimos anos, de ter a forma de raciocínio condicionada à forma de agir de um red team. Quero me exonerar do cargo de Procurador? Exercícios e mais exercícios mentais a la red team, para de alguma maneira procurar falhas, inconsistências, riscos, em todas as premissas que me inclinavam a deixar o cargo. Por isso sempre tenho um sorriso interno, quando alguém me pergunta se refleti a respeito da decisão que tomei. É claro que sempre dou a resposta padrão.

         Vou comprar um imóvel em leilão? Exercícios mentais sobre o que pode dar errado. Não estou preocupado sobre o que pode dar certo, se resolvi comprar um imóvel em leilão é porque já vislumbrei tal cenário, é muito mais importante saber o que pode dar errado para que efetivamente possa decidir se vale ou não a pena.

            Ao aplicar tal forma de pensar , é natural que o processo decisório e as decisões derivadas dele se tornem muito mais robustas e eficientes. Se isso é imprescindível para o indivíduo, imagine para o setor de inteligência militar de um país importante? Numa simples pesquisa na Wikipédia em Inglês sobre Red Team, vi que o Exército Americano possui uma Universidade em Assuntos Internacionais militares e culturais. Um dos cursos que essa Instituição ensina é sobre como ser um líder de um Time Vermelho. Dá para imaginar quão bom uma pessoa não deve ser para ser líder de um time vermelho no exército dos Estados Unidos.

            Vou copiar e traduzir alguns itens do texto da Wikipedia - lembrando que não sou tradutor e posso ter comedido algum(ns) erro(s):


"The UFMCS Red Team Leader’s Course (RTLC) is a graduate-level education of 732 academic hours (18 weeks). The course scope includes the four UFMCS pillars: Introspection and Self-Reflection; Groupthink Mitigation (GTM); Fostering Cultural Empathy, and Applied Critical Thinking (ACT)."

O curso de líder do time vermelho da Universidade de Assuntos Militares e Culturais Internacionais é uma graducação de 732 horas (18 semanas). O objetivo do curso inclui os quatro pilares da UFMCS: Introspecção e Auto-Reflexão; Mitigação de Pensamento de Grupo;  Promovendo Empatia Cultural e Pensamento Crítico Aplicado.

"Introspection and self-reflection includes: Personality Dimensions, Introspective Life-Changing Event presentation and daily journaling."

Introspecção e reflexão pessoa inclui: Dimensões da Personalidade, Apresentação de eventos introspectivos de mudanças de vida e journaling diário.

"Groupthink mitigation (GTM) includes: Understanding Groupthink causes and techniques to mitigate."

Mitigação de Pensamento de Grupo inclui: Entender as causas de pensamento de grupo e as formas de mitigação

"Fostering cultural empathy includes: Understanding culture from the perspective of an anthropologist, to include cultural meaning, economics, social structure, religion, politics and globalization."

Promoção de Empatia Cultural inclui: Entendendo cultura pela perspectiva de um antropologista, para incluir significado cultura, econômico, estruturas sociais, religião, política e globalização.

"Applied Critical Thinking (ACT) includes: How we think, cognitive biases, intuition, complexity and systems thinking, and argument deconstruction."

Pensamento Crítico Aplicado inclui: Como nós pensamos, vieses cognitivos, intuição, complexidade e sistemas de pensamento, e desconstrução de argumentos.

"UFMCS curriculum is designed to improve critical thinking by teaching them how to ask better questions and challenge their assumptions they hold sacrosanct.
Red Team Leaders are expert in:
  • Analyzing complex systems and problems from different perspectives to aid in decision making, using models of theory.
  • Employing concepts, theories, insights, tools and methodologies of cultural and military anthropology to predict other’s perceptions of our strengths and vulnerabilities."
 O currículo da UFMSC é designado para melhor pensamento crítico ensinando os alunos a fazer melhores questões e desafiar as suas convicções mais profundas.
Líderes de times vermelhos são peritos em:
- Analisar sistemas complexos e problemas de diferentes perspectivas to ajudar no processo decisório, usando modelos teóricos
- Empregar conceitos, teorias, idéias, ferramentas e metodologias de antropologia cultural e militar para prever a percepção dos outros de nossas forças e vulnerabilidades.


            Bom, se um curso como esse fosse aberto para civis de outras nacionalidades, o que obviamente não é, eu embarcaria nos próximos meses para fazer um curso com essa proposta. Aliás, se eu tivesse um filho, esse seria o curso que gostaria que ele fizesse. “Tentar prever a percepção dos outros sobre nossas forças e vulnerabilidades”? Olhe ao seu redor, para si mesmo, quem faz isso? Qual mídia faz isso? Não é à toa que o exército americano é a força mais poderosa do mundo. 

            Não tenho como expressar a minha satisfação de como esse espaço em muitos artigos de maneira inconsciente nada mais estava reproduzindo a filosofia desse curso de formação de líderes. Não se trata de ter uma queda pelo Islamismo ou defender terroristas, por exemplo, mas entender as estruturas sociais, econômicas, legais e acima de tudo a diversidade de cores e formatos em que a religião muçulmana se manifesta.  Isso nada mais é do que promover a Empatia Cultural. Como já viajei por lugares que a esmagadora maioria das pessoas não faz nem noção de que existam, e encontrei comunidade muçulmanas em variados formados, etnias, graus de (in)tolerância, posso entender muito melhor o conceito de empatia cultural na análise desse caso específico. Apenas assim conseguimos ter uma noção mais acurada de como a realidade se apresenta, não repetindo clichês sobre o assunto. Tendo esse entendimento, provavelmente a luta contra o terrorismo, bem como contra a intolerância,  pode ser feita de maneira muito mais inteligente e eficaz.

            Tenho certeza absoluta que Trump não seria nem mesmo aceito como aluno para um curso como este. É engraçado, e ao mesmo tempo fascinante,  refletir  como o chefe de uma nação pode ser a antítese do que os sistemas mais sofisticados de decisões das organizações dessa mesma Nação operam. Essa é a força dos EUA, sem sombra de dúvidas.

            Depois de sair da Procuradoria, a quantidade de ideias que tenho tendo é impressionante. Imagine estruturar um curso desses no Brasil? Está aí uma ideia que vale a pena ser mais refletida. Em tempos onde uma pessoa como Olavo de Carvalho é tida como o maior filósofo de um país, Lula a salvação para o desmonte dos direitos, Bolsonaro apto a ser chefe de um país continental diverso de mais de 200 milhões de pessoas, e onde boa parte dos diálogos são apenas frutos de pensamento de grupo (ou de manada), falta de pensamento crítico ou a falta de qualquer empatia cultural, imagine o bem que não faria ao país se cursos como estes fossem ministrados pelo país? Com certeza, eu matricularia o meu filho num curso desses, e talvez fosse o melhor curso que ele faria na vida inteira.

            Um abraço a todos!