segunda-feira, 9 de abril de 2018

O MUNDO REAL


O mundo real. Existe alguma outra realidade que não seja aquela que experimentamos? O que seria o mundo real? São perguntas de difícil resposta, se é que existe alguma que possa ser considerada definitiva. Nada impede que a nossa suposta realidade nada mais seja do que uma simples simulação, por exemplo. Porém, deixem-se divagações mais abstratas para outro momento, e concentremo-nos, prezados leitores, em divagações mais palpáveis com a nossa vida.

Você entra num bar, é verão e está quente, você está um “pouco acima do peso”, mas não acha estranho o fato de que de uma mesa duas garotas estonteantes olhem em sua direção de um jeito sensual. Feliz com a vida, você pede uma cerveja  a um garçom animadíssimo, a cerveja é barata, mas de alta qualidade. Você resolve então olhar ao redor do bar, e vê que o mesmo está lotado de pessoas jovens, bonitas, com corpos esbeltos e felizes. Você se sente bem, até que a realidade congela, assim como na clássica cena do filme “Vanila Sky” e um sujeito sinistro, mas afável, diz que aquilo não passa de uma peça de propaganda que irá tentar mexer com partes específicas do seu cérebro para que você continue tomando a cerveja de uma determinada marca.

Ao andar pelas ruas da cidade onde nasci na última semana (Santos), algo que gosto muito de fazer até porque a cidade é compacta e plana,  eu notei que nos bares a esmagadora maioria das pessoas está acima do peso, ou está obesa mesmo, os garçons não estão com cara de muitos amigos, e boa parte das pessoas está com o pescoço numa posição anatomicamente não ótima (o que com certeza pode ocasionar problemas ortopédicos no futuro) olhando a tela de um pequeno dispositivo. Uau, isso é quase o oposto do bar do parágrafo anterior.  Será porque a visão de um bar normal de uma cidade normal do Brasil, o que poderíamos chamar de mundo real, pode ser em alguns casos tão deprimente, é preciso criar-se uma realidade alternativa em produtos de marketing que de alguma maneira tentam vender um produto naturalmente associado com esse tipo de ambiente? 

Apesar de qualquer pessoa conseguir distinguir a ficção da realidade no caso dos bares, esse tipo de dissonância da realidade se apresenta de diversas formas.  Minha companheira, à espera de ser atendida numa consulta médica, me relatou de uma forma o tanto quanto indignada que teve que esperar bastante tempo, pois o consultório do médico tinha se transformando num vai e vem de homens bem vestidos e apessoados.  Sim, a famosa relação médicos-indústria farmacêutica em sua realidade mais básica. O que me chamou atenção não foi tanto a relação, que é evidente bastando ver o aumento do número de farmácias e o uso de remédios pelas pessoas, mas o fato dela ter destacado homens bem vestidos e apessoados.  Não eram pessoas mal vestidas, não eram pessoas com algum problema físico no rosto, eram homens jovens apessoados.

No que essa história de consultório se encaixa com o presente artigo e realidades alternativas?  Uma vez, num esforço talvez de melhorar como escritor, escrevi três artigos como se fossem  um roteiro de teatro.  Um deles foi sobre uma passagem do livro “A Revolta de Atlas” da escritora nascida na Rússia Any Rand.  O artigo em questão é este A Vergonha de Atlas, e relendo-o para escrever este texto achei, modéstia à parte, que  o resultado ficou razoável.  Porém, por qual motivo escrevi um texto sátira sobre esse livro tão caro a tantas pessoas, principalmente de matiz mais "libertária"? É porque sou um agente secreto do foro de São Paulo treinado por ex-agentes da KGB? A realidade é menos fantástica do que essa explicação.

Quem não conhece o livro, a história de mais de 1000 páginas é sobre uma sociedade onde as pessoas produtivas decidem dizer “chega, cansei do governo, dos tributos e da regulação” e param de produzir. Elas não só param, como desaparecem, deixando para trás os seus bens.  Como, antes de ler o livro, tinha lido diversos artigos num site chamado Mises Brasil, já estava familiarizado com a história ética-moral do livro, o que mais me interessou na leitura de tão extensa obra foi o aspecto literário e a construção dos personagens.

Eu no começo da leitura fiquei intrigado, pois achei que não podia ser verdade que um livro tão famoso e referenciado como obra-prima por tantas pessoas inteligentes, poderia ter uma construção literária tão infantilizada. Porém, na metade do segundo volume tinha ficado claro que era assim mesmo que a obra tinha sido estruturada.  

Na obra de Rand, todas as pessoas que de alguma maneira se encaixavam no arquétipo “improdutivos” eram ou tinham algum problema físico, ou sua vestimenta não era apropriada, ou exalavam um cheiro não agradável, ou não eram fisicamente esbeltos, ou eram extremamente inseguros, ou eram extremamente tolos e não conseguiam articular duas ideias de forma clara e racional. Em alguns personagens, todas essas características apareciam concomitantemente. Por outro lado, os personagens tidos no arquétipo “produtivos” eram ou bonitos (alguns tão bonitos que são descritos como Deuses Gregos, e é por isso que a capa do livro é um homem musculoso saído de um livro de anatomia segurando o mundo), ou inteligentes, ou bem vestidos, ou cheirosos, ou dignos, ou extremamente confiantes e seguros de si e do mundo.  Em alguns personagens, todas essas características apareciam reunidas.

Para além disso, há passagens simplesmente ridículas do ponto de vista literário. Dagny é a heroína da história.  O que é algo muito positivo ter uma mulher como heroína, o que não é de se estranhar já que a escritora é mulher.  Dagny até o começo do terceiro volume tem um romance com um empresário que é o estereótipo do que é bom na humanidade chamado Hank.  Algumas cenas de sexo são descritas, e a personagem central da obra parece um furor sexual, além de possuir um comportamento sexual completamente passivo em relação a Hank, em algumas partes assemelhando-se mais a “Cinquenta Tons de Cinza”.  Porém, o que chama atenção é que Dagny tem na faixa de uns 35 anos, e as suas únicas e esparsas relações sexuais se deram em sua juventude entre 18-20 anos com um único parceiro. Sim, há um hiato sexual na vida de Dagny de apenas 15 anos.  É difícil imaginar uma mulher que ficou 15 anos sem ter relações sexuais, e tendo apenas poucas experiências na juventude, de uma hora para outra tenha se tornando um furor sexual.  Está claro que se constrói uma personagem que seja um outro arquétipo na mente de alguns homens: “quase virgem”, mas de alguma maneira uma potência sexual.  Converse com qualquer mulher na vida real, e boa parte delas apenas riria de uma descrição sexual feminina como essa, pois ela seria apenas uma construção mental irreal, assim como o bar de cerveja da propaganda, não é real.

E essa digressão enorme me leva aos homens bem apessoados do consultório médico. Ou a Eduardo Cunha.  Ou à realidade.  Os homens que vão seduzir médicos não são mal vestidos e feios. Eduardo cunha não é mal vestido e é capaz de articular de forma clara e racional os mais variados argumentos.  A realidade não são homens feios fisicamente, intelectualmente limitados e inseguros de um lado versus homens bonitos, intelectualmente avantajados e completamente seguros de si de outro.  Se você vive no mesmo mundo que eu, se caminha pelas ruas das cidades como eu gosto de fazer, muito provavelmente a sua impressão, prezado leitor, como a minha é de que a realidade é muito mais complexa, confusa e difícil do que o mito quase religioso de bem x mal.

O mundo real é feito de pessoas, ficando em linguagem mítico-religiosa como a escritora Any Rand adota no livro citado, que se comportam em certas ocasiões como anjos e em outras como demônios.  O assaltante num momento é o pai de família preocupado com a saúde do seu filho num outro momento. Um empresário de sucesso num momento é o pai que abusou sexualmente de sua filha num outro.  Nem o assalto se torna justificável e menos condenável pelo fato da preocupação do assaltante com o seu filho, nem a possível produtividade do empresário deixa de existir pelo ato horrendo cometido contra a filha.  Multiplique esses exemplos por milhões, por outras variáveis, e percebemos quão complexa pode ser a realidade, e como idealizações de mundo são descrições limitadas da realidade quando muito, pois na maior parte das vezes são apenas visões completamente destituídas de qualquer  ligação com a realidade.

E por qual motivo isso possui alguma relevância? A razão é muito simples.  Uma mulher negra na década de 50, cansada depois de voltar ao trabalho, não quis ir para o lugar reservado a negros num ônibus de uma cidade do interior dos EUA, e resolveu ficar sentada em bancos reservados para brancos. Rosa Parks provavelmente não queria mudar o mundo naquele momento, ela apenas estava cansada de um dia de trabalho, e não achava correto que ela deveria ceder o seu espaço a um branco pelo simples fato dela ser negra.  Um ato de revolta simples se transformou no catalisador de um dos maiores movimentos contra o racismo nos EUA, e talvez no mundo inteiro.  Rosa Parks talvez não fosse a heroína que habita a fantasia de tantos homens, talvez ela não fosse brilhante intelectualmente, e nem mesmo um furor sexual depois de toda uma vida de acatamento sexual, mas com certeza o que ela fez foi extraordinário.

Precisamos sonhar muitas vezes, e às vezes o sonho não se coaduna com a realidade atual. Tentarmos conhecer a realidade, sem escapismos infantis e grosseiros, é a única forma para podermos tentar ter alguma influência sobre essa mesma realidade.  Seja alguém que irá construir uma das empresas atuais mais poderosas do mundo, como Steve Jobs, seja uma trabalhadora de loja de departamento que iria ajudar a construir um movimento que iria sacudir o país mais poderoso do mundo, seja um pai de família que se esforça para que o seu filho não se perca no caminho perigoso das drogas.

Eu, Soulsurfer (mas podem me chamar de Thiago também), há algum tempo consigo ver uma grandeza enorme em alguém como Rosa Parks, mas também numa mãe que com dificuldades se equilibra numa rotina desafiadora e mesmo assim consegue dar amor tão essencial para o desenvolvimento de uma criança.  Vejo o valor enorme num sujeito genial como Steve Jobs, mas um valor incrível também num médico que durante décadas tenta da melhor maneira possível cuidar de seus pacientes não apenas com remédios e tratamentos clínicos, mas com carinho e preocupação.

Sim, quando saímos da “mitologia” do marketing e de algumas descrições infantis do mundo, a realidade se torna mais complexa e muitas vezes difícil.  Mas quem disse que viver é fácil? Quem disse que o mundo não é um lugar cheio de conflitos sejam interpessoais, sejam os próprios demônios internos que alguém precisa lidar diariamente? A solução para uma vida melhor não é a fuga da realidade, mas sim a sua aceitação.

Um abraço a todos

quarta-feira, 4 de abril de 2018

A OTIMIZAÇÃO DA SUA VIDA


Olá, prezados leitores. Semana que passou foi uma cascata de acontecimentos de alto impacto emocional.  Se apenas um dos eventos tivesse ocorrido nesse ano, já seria uma carga emocional alta, agora todos eles ocorrem em poucos dias, realmente foi algo forte.  Misteriosa e insondável vida.

O tópico desse artigo não é, entretanto, fatos emotivos da minha vida, mas sim sobre a otimização da mesma. Há alguns meses, venho empreendendo uma jornada de auto-conhecimento sobre o meu corpo, os alimentos que consumo, a forma como durmo, e muitos outros aspectos que passam despercebidos na vida das pessoas.  Depois de ler alguns livros, ouvir dezenas de podcasts, e ler artigos científicos, tenho a sensação de tempo perdido por não ter ido atrás desse tipo de conhecimento há muito tempo atrás.  Talvez não tivesse a maturidade suficiente. Seja como for, nunca é tarde para esse tipo de coisa. Outro aspecto que se destaca é a complexidade de muitos temas relacionados à nossa saúde física e mental. O que venho aprendendo e apreendendo até aqui é o básico do básico, mas mesmo assim cada vez fico mais interessado sobre o tópico.

Por qual  motivo todo esse interesse? Pela simples razão que a otimização da saúde é uma das únicas formas de termos vidas intensas, ricas e prazeirosas.  Em 2003, com 23 anos de idade, viajei com minha mãe e irmã para o Pantanal e a Região de Bonito no Mato Grosso do Sul. Quem já foi nesse local especial do Brasil, sabe que a região é espetacular. Nos últimos dias da viagem todavia, fui acometido por uma dor intensa na região do estômago. Tudo ficou mais cinza, triste e sem graça, mesmo no meio de tanta beleza natural. Quanto estamos com dor, quase tudo mais perde a importância.  Mesmo uma mãe com extrema dor, talvez não pense tanto nos seus amados filhos. Dinheiro, fama, poder, mulheres, com certeza perderão todo o brilho e encanto na presença de uma dor aguda intensa. Se essa dor for crônica, então mesmo um bilionário se transforma num miserável.

Num grau não tão elevado como uma dor aguda, o nosso corpo pode estar num estado mais otimizado ou não. Você, prezado leitor, pode acordar descansado e com energia renovada, ou pode se arrastar de forma letárgica para os seus compromissos matinais. Eu prefiro estar na posição de acordar bem e com vigor, do que estar num estado mais letárgico. Ambos são estados que talvez não indiquem a presença de doença, dor ou qualquer outra enfermidade, mas parece-me evidente que um estado é muito melhor do que o outro. 

Se alguém puder acordar na maioria dos dias se sentindo bem, creio que esta pessoa estará otimizando esse aspecto da vida. E se for possível, por meio de conhecimento científico, aumentar e muito a probabilidade de uma pessoa ter uma boa noite de sono? Não seria esse tipo de conhecimento algo de extrema valia? Aumentando o espectro da pergunta, um investidor que possui R$ 1.000.000,00 estará otimizando mais a sua vida adicionando mais R$ 100.000,00 ao seu patrimônio ou se preocupando mais com suas noites de sono?

Um leitor mais atento talvez possa responder que as duas ações não são excludentes, pelo contrário, elas podem ser complementares, pois quem dorme bem, e se sente melhor e descansado de manhã, tem uma probabilidade maior de ser mais produtivo e por via de consequência aumentar o seu patrimônio em R$100.000,00.  Sim, isso é a mais pura verdade, e para mim parecia claro que esse conceito de otimização da saúde irradiando efeitos positivos para inúmeras esferas da vida ser algo auto-evidente.

Entretanto, ao conversar com pessoas com grande conhecimento em finanças, fiquei de certa maneira intrigado, como esse conceito não era tão evidente como eu pressupunha.  Como quase todo mundo que lê o que escrevo é da comunidade de finanças pessoais, a otimização de práticas financeiras é o mantra entoado aos quatros cantos da blogosfera. Isso é ótimo. Logo, o conceito de otimização, que nada mais é do que cada vez mais tentar melhorar algum processo com vistas a um melhor resultado, é bastante intuitivo e encorajado nos blogs de finanças.  Se alguém dissesse para um leitor desse blog, ou a algum outro blogueiro, “você deve economizar mais do que gasta”, provavelmente a pessoa iria responder “claro, claro, porém é apenas isso que você tem a dizer sobre um tópico tão denso como finanças pessoais?”. Sim, alguém que lê sobre FII, ETFs, e até mesmo investimentos no exterior por meio de alocação de ativos, está passos a frente de alguém que ainda está no estágio de “é preciso viver dentro dos limites do que se ganha”. O leitor, ou o blogueiro, que vai além desse conceito fundamental, mas de certa forma primário, está otimizando os seus conhecimentos e sua vida financeira.

Qual, então, não foi a minha surpresa ao ouvir informações tipo “você precisa gastar menos do que ganha” em relação à otimização da saúde de inúmeras pessoas. Sim, eu sei, mas é só isso que se tem a dizer? Pois se é assim, está se muito longe de potencializar a saúde, a produtividade e o bem-estar geral. Diria que muito longe.

É por isso que gosto do Mister Money Mustache, ele é um otimizador nato da vida. A parte financeira nos dias de hoje é muito importante para uma boa vida, por isso ele (MMM), como seria natural, otimizou esse aspecto da própria vida. Porém, o dinheiro é apenas um dos diversos aspectos da existência de uma pessoa. Além das preocupações financeiras, alguém precisa saber como criar um filho, ou como se divertir, ou como enfrentar situações de estresse da melhor maneira possível, ou como conviver com pessoas de convivência mais difícil, entre dezenas de outras facetas da vida humana. Há inúmeras áreas de otimização, de melhora na nossa vida, a financeira é apenas uma, e talvez nem seja uma das mais essenciais, apesar de sua importância. Esse é um dos motivos também de per si, ou seja apenas por este fato, não me impressionar tanto com feitos financeiros de W.Buffetts da vida, aliás eu não me impressiono quase nada, e se a otimização financeira veio por meio de uma atrofia de outras áreas tão ou mais importantes, então para mim fica claro que esse não é um bom modelo para uma vida plena e completa.

Como pano de fundo para quase tudo na vida está a nossa saúde, logo essa área é de vital importância para alcançarmos os mais variados objetivos aos quais nos propomos.  Se você não faz a mínima ideia sobre o que está comendo, como está dormindo, se tem dores pelo corpo, e sua preocupação maior é com a rentabilidade dos seus investimentos, ou sobre o que um determinado político faz ou deixa de fazer, eu creio que há uma grande probabilidade de você estar completamente perdido em suas prioridades de vida.  Talvez o seu corpo possa estar adoecendo, ou já esteja doente, e você não esteja dado a atenção devida. E se uma doença se instala, assim como eu com dor aos 23 anos, tudo mais fica mais triste e sem graça.

Sim, há pessoas que ganham na “loteria genética” e chegam aos 95 anos correndo meia-maratonas. Há pessoas “sortudas” que fumam por décadas e não desenvolvem câncer de pulmão. Por outro lado, há pessoas com azar na “loteria genética” e ficam doentes mesmo com os melhores hábitos possíveis. A saúde e a doença são condicionadas por fatores genéticos e ambientais. Fatores ambientais até mesmo condicionam a expressão genética da pessoa, o que se chama de epigenética.  Se não fosse  o bastante, adicionando uma camada ainda maior de complexidade, nos últimos 10-15 anos uma enxurrada de estudos científicos estão mostrando que a saúde e a diversidade das bactérias e vírus que habitam os mais variados órgãos do nosso corpo (o que se dá o nome de microbiota) são essenciais para a saúde humana.  Casos de depressão, autismo, as mais variadas doenças auto-imunes estão associadas com a disbiose (ou seja o adoecimento e perda da diversidade das bactérias do nosso corpo) de nossa microbiota. Já parou para pensar quão revolucionário é para nossos sistemas filosóficos e éticos refletir que aspectos comportamentais negativos, com impactos na vida em sociedade, podem ser influenciados pela saúde das bactérias que habitam o seu corpo? Isso é incrível. Ou pensar que na verdade nós somos uma entidade composta de milhares de espécies diferentes? É incrível como um novo conhecimento pode trazer formas radicalmente novas de se entender a si mesmo e ao mundo.

Logo, o assunto sobre saúde e doença é complexo e multifatorial. Porém, isso não significa que mesmo assim não se possa otimizar a sua vida, prezado leitor. Muito pelo contrário. Se você realmente quer ter uma probabilidade maior de uma vida mais longa e com saúde , o que poderá proporcionar que você realize diversas atividades com significância por muitos e muitos anos, não se contente com “você precisa gastar menos do que ganha” tipo de conselhos quando se trata sobre a sua saúde, alimentação e bem-estar. 

Um abraço a todos!




sexta-feira, 9 de março de 2018

480 HORAS: O SEU "ATIVO" MAIS VALIOSO


            Como anda o seu dia, prezado leitor? Com bastante tempo para realizar as atividades que deseja? Ou está faltando horas no seu dia?  Creio que uma parcela significativa das pessoas diria que está faltando tempo, e por causa disso muitas atividades que seriam desejáveis não podem ser feitas. Está encurtado e precisa alongar? “Seria ótimo, mas não tenho tempo.” Alimenta-se de forma inapropriada, que tal aprender a cozinhar comida de verdade? “Seria incrível, mas sem chance, não tenho tempo”. E aprender mais sobre outra área do conhecimento, não seria excelente? “Sem chance, não tenho tempo nem para fazer o meu trabalho direito, quanto mais aprender algo que não tem qualquer relação com a minha vida do dia a dia!”.

           Tempo. De quanto tempo nós dispomos? Essa é uma questão que pode ser respondida por um ângulo biológico ou sobre uma perspectiva filosófica. Porém, façamos algo mais simples. Quanto tempo um indivíduo possui no mês? Para responder a essa pergunta, precisa-se definir uma unidade de tempo. Creio que segundos e minutos são unidades de tempo não compatíveis para um melhor entendimento num prazo como mês, por outro lado dias e semanas talvez sejam unidades alargadas demais. Horas. Essa parece ser uma boa unidade.

          Sendo assim, você, eu, Obama, Trump, Neymar, temos 720 horas em média a nosso disposição todos os meses em que estamos vivos (mais quando o mês tem 31 dias, menos quando tem menos de 30 dias). Ótimo. O sono é talvez, junto com dieta e exercícios, um dos componentes mais importantes para a saúde física e mental de uma pessoa. Durma de maneira incorreta, diminua a sua melatonina, e você provavelmente não terá um sono reparador que é importante para inúmeros processos fisiológicos. Por outro lado, durma bem, e você provavelmente estará muito bem disposto nas horas acordado.  A quantidade dormida não é necessariamente determinante para uma boa noite de sono, muitas pessoas não sabem disso. Dormir oito horas de forma errônea provavelmente não será tão reparador como dormir sete horas de forma apropriada. Assim, a qualidade importa e muito. Porém, a média que uma pessoa necessita para ter efeitos reparadores de descanso é algo em torno de oito horas por dia. Algumas pessoas conseguem com menos, como sete horas, e outros ainda com bem menos como seis horas. Porém, a média, é algo em torno de oito horas.

        Por qual motivo essa discussão sobre sono e horas é importante para o texto? Pois das 720 horas que qualquer ser humano possui  num mês, a maioria de nós precisa dedicar algo em torno de 240 horas mensais de sono para que nosso corpo faça processos fisiológicos que são essenciais para a nossa saúde. Portanto, um ser humano na verdade possui 480 horas por mês de forma diríamos “ativa”.  Nessas 480 horas, você terá que fazer escolhas como melhor utilizar o seu tempo. Nessas 480 horas, você precisa tomar banho, fazer necessidades fisiológicas, comer, fazer sexo, brincar com seus filhos, trabalhar, estudar, ver filmes, viajar, brigar com estranhos, conversar com amigos, ter romance com seu parceiro, ler livros, e qualquer outra atividade que você possa imaginar.

              Essas 480 horas são o seu bem mais precioso. Se você está com uma saúde ótima, você pode fazer inúmeras atividades com essas 480 horas. Toda diversão, tristeza, alegria, decepção, excitação, contentamento, estão nessas 480 horas. Se você não está tão bem de saúde, essas 480 horas não podem ser traduzidas em tantas experiências, pois infelizmente o seu corpo não está apto a vivenciar de forma tão intensa essas 480 horas.  Não é à toa que pessoas de mais idade, ou com sérios problemas de saúde, com grande quantidade dinheiro acumulado falam que trocariam num piscar de olhos suas fortunas pela possibilidade de vivenciar essas 480 horas com plena intensidade.

         As 480 horas são o seu bem mais precioso, prezado leitor.  Cada pessoa é diferente uma da outra. Eu, por exemplo, gosto de surfar e ler livros. Outro pode gostar de pescar e desenvolver games. A variedade de experiências que podemos ter é ampla. Porém, por mais diferentes que possamos ser, nossas experiências devem estar nessas 480 horas, não importa se você é um leitor de blogs de finanças pessoas que se interessa por Fundos Imobiliários ou se você nasceu numa pequena província no interior de Uganda.

          Sendo assim, uma das questões mais prementes e importantes em nossas vidas deveria ser “como podemos maximizar e otimizar essas 480 horas que temos?”  ou “como extrair a maior quantidade de satisfação e contentamento com essas 480 horas?”. Imaginem, prezados leitores, programas de televisão sobre isso, matérias de jornal sobre isso no Jornal Nacional, nossos professores em colégios públicos e particulares refletindo com crianças e jovens sobre isso. Seria extraordinário, e com certeza nossas vidas seriam radicalmente diferentes.

           Em poucos anos, entretanto, a atenção e o tempo das pessoas estão sendo sequestrados de forma sutil, e em certa medida de uma forma que parece ser cativante. Está em todo lugar, e para mim é um distúrbio tão sério, e com uma capacidade devastadora de nos tornar mais infelizes, improdutivos e sem saúde. Se fosse uma doença causada por um agente exógeno bacteriano, por exemplo, seria considerada talvez a maior epidemia dos últimos 100 anos, talvez a maior epidemia de todas.

   A tecnologia na forma de aplicativos e redes de compartilhamento vem simplesmente tomando a atenção das pessoas, e fazendo com que as mesmas desperdicem o seu bem mais precioso, suas 480 horas mensais, de uma maneira assustadora.  Não irei aqui falar mais aprofundadamente sobre algumas razões biológicas disso estar acontecendo, e pelo pouco que li e assisti, as explicações são interessantíssimas. Porém, permitam-me falar algumas linhas sobre dopamina, um neurotramissor essencial para a saúde de nosso organismo, e que é muitas vezes associado como a substância do "bem-estar".  

         Basicamente, redes sociais, e a novidade que cada passar de dedo ou clique numa foto diferente proporciona, é uma forma muito eficaz de liberação de dopamina. Nosso cérebro evoluiu para querer novas informações. Com novas informações sobre a realidade, nossos antepassados poderiam descobrir novas comidas, novas fontes de água potável, informações novas sobre perigos, e isso com certeza teve um grande impacto na sobrevivência e evolução de nossa espécie.

      Nosso cérebro, portanto, aprecia novidades, e a dopamina é uma forma inteligente que nosso organismo construiu de fazer com que fôssemos atrás de novas informações. A novidade é tão fundamental para nosso cérebro, bem como para liberação de dopamina, que em estudos com ratos os níveis de dopamina que ratos apresentavam com uma “parceira sexual” nova eram muito altos e foram decrescendo a medida que mais atos sexuais eram repetidos com a mesma parceira. Com a introdução de uma nova “parceira sexual” os níveis de dopamina dos ratos voltaram a crescer, e isso foi um padrão que se repetiu várias e várias vezes.  A liberação de dopamina pela novidade, principalmente quando associado ao sexo,  pode ser um dos motivos que explica um novo tipo de distúrbio que são aquelas pessoas viciadas em pornografia na internet. As pessoas perdem a atração pelo sexo em si com uma parceira real, mas se tornam consumidores obsessivos de pornografia instantânea e rápida.  Porém, deixemos esse interessante assunto para outra oportunidade.

      Portanto, a novidade é algo que atrai o nosso cérebro, e há mecanismos químicos e biológicos para tanto. É por isso que as pessoas passam o dedo e ou o mouse e ficam descendo e descendo informações em redes sociais. Cada movimento do dedo é interpretado pelo cérebro como “opa, está vindo novidade, libere dopamina, pois eu quero novidade”, e é por isso que hoje em dia é tão normal ver pessoas ensandecidas mexendo em seus celulares procurando mais e mais novas informações, fotos, etc.  Seus cérebros estão sendo bombardeados com dopamina sem parar. 

       Acontece que nosso organismo além de complexo é muito inteligente. Quando nosso corpo é inundado com algo que não deveria existir em quantidades muito grandes, uma das soluções encontradas é fazer com que os receptores dessas substâncias se tornem cada vez mais inativos.  A dopamina para fazer efeito precisa de um receptor em nossas células neurais. Quanto mais dopamina existe, mais insensível os receptores vão se tornando, o que faz com que seja necessário cada vez mais dopamina para obter os mesmos efeitos. Se você pensou em drogas, sim, é exatamente assim que drogas atuam em nosso cérebro, e é por isso que usuários viciados precisam cada vez mais e mais para obter cada vez menos prazer (apenas como curiosidade, açúcar em grandes quantidades apresenta um padrão químico muito semelhante com drogas como cocaína).

          Portanto, o abuso do uso de redes sociais e aplicativos, está fazendo com que pessoas inundem os seus cérebros com dopamina, fazendo com que cada vez mais e mais as pessoas se tornem dependentes de mais e mais informações novas. Se a novidade era essencial há 20 mil anos, o tipo de "novidade" que estamos submetendo o nosso cérebro nos dias de hoje está longe de ser essencial, sendo muito mais tóxica do que qualquer outra coisa.

      Assim, e isso é algo que está acontecendo de forma perceptível, muitos seres humanos estão usando as suas preciosas 480 horas em mecanismos que não trazem objetivamente satisfação, felicidade e nem mesmo conhecimento. Conhecimento é fruto de trabalho concentrado, foco profundo ou “Deep Work”, a cascata de informações que as pessoas recebem por noticiários ou feeds de notícias estão muito longe de ser o alicerce para a construção de conhecimento sólido e prático.

    Nem as tornam mais produtivas, pelo contrário. A nossa capacidade de produzir algo de valor que seja apreciado por outras pessoas, ou se assim preferir pelo mercado, é diretamente relacionada com a nossa capacidade de colocar esforço concentrado em algo. Se eu quero escrever esse texto, preciso me concentrar. Se pretendo escrever um livro sobre leilão, preciso me concentrar por muito tempo. Se quero produzir um novo produto preciso me esforçar ao máximo em solucionar eventuais problemas.  Quase nada de extremo valor é produzido sem trabalho concentrado, ou “hard work”.  Isso tudo é incompatível com uma atenção fragmentada, que pula de informação para informação em poucos segundos.

       Eu, o escritor desse texto, estou em processo de desintoxicação nos últimos meses. Foi aqueles momentos de mudança. Há anos, senti que precisava mudar minha vida. Lá fui eu numa jornada de autoconhecimento sobre finanças. Esse caminho me levou a criar um blog, conhecer outros, ler dezenas e dezenas de livros e artigos científicos, atingir minha independência financeira.  Uma jornada e tanto. Hoje me sinto preparado para administrar seja um milhão ou cinqüenta milhões. Sinto-me preparado para conversar com qualquer um sobre finanças e estratégias de manejo de patrimônio, no contexto de uma pessoa física, não de um fundo de bilhões de reais ou dólares, pois nunca tive pretensões de ser profissional disso. 

      Aliás, hoje para mim finanças pessoais é um assunto que mistura investimentos e o seu manejo (FII, ações, ETF, opções, alocação de ativos, estratégias de Trade, etc, etc), mas principalmente uma reflexão mais profunda sobre dinheiro, tempo e felicidade.  É por isso que acredito que alguém como Mister Money Mustache é muito mais importante para a esmagadora maioria dos investidores pessoas físicas de como se ter uma relação inteligente com dinheiro e a vida, do que alguém como Warren Buffett e suas "formas de analisar balanço de forma vencedora".

          Há alguns meses, senti que precisava otimizar a minha vida e saúde. E lá estou em no começo de uma jornada de aprendizado. Segunda-feira devem chegar 10 livros na minha casa, dois apenas sobre microbiota intestinal. Eu tenho pelo menos mais uns 20-25 para comprar. Todos os dias, enquanto lavo a louça ou ando de bicicleta ou estou descansando, estou ouvindo a palestra de algum expoente de alguma área relacionada à saúde. Atualmente, são algumas horas diárias devotadas ao assunto.  É assim que funciono, quando vejo que algo é  importante para a minha vida, mergulho com intensidade, e fico feliz na forma como gasto o meu tempo, aliás, muito feliz. O que não me deixa feliz é entrar no computador, e depois de duas horas não saber como o meu tempo foi gasto e porque foi gasto daquela maneira. Isso, atualmente, me deixa muito mal, pois  me faz sentir que desperdicei o que tenho de mais preciso em algo que não me agregou nada.

        Hoje em dia, me sinto muito mais no comando das minhas 480 horas. É evidente que o fato de não ter um trabalho formal que não me agradava, é um grande alívio e uma excelente oportunidade. Porém, longe de estar menos ocupado, na verdade estou mais ocupado, mas de uma forma consciente e muito mais prazerosa.

       
         No último mês, resolvi fazer um experimento. Há um grupo de whatsapp que nos últimos meses, eu ocasionalmente via uma mensagem ou outra. Mais raramente ainda escrevia algo. É um grupo sobre finanças, e possui muitas pessoas inteligentes e com bom conhecimento na área. Porém, não era algo que me chamava mais tanto a atenção, principalmente porque um meio de comunicação como whatsapp não é uma ferramenta adequada para uma discussão mais aprofundada sobre assuntos, seja lá eles quais forem. Eu resolvi então não clicar em nenhuma mensagem desse grupo durante um mês para saber quantas mensagens existiriam acumuladas. O experimento terminou ontem, e foi um choque.



            Uau. Uau. Só posso estimar, mas como as mensagens podem ser curtas, longas, com link, áudio de um minuto, escrever uma mensagem demora mais do que ler, etc, eu creio uma média de 10 segundos por mensagem, nesse contexto, não é tão fora de propósito. Logo, se alguém leu todas as 12.571 mensagens desse grupo, gastou aproximadamente 35 horas de sua vida num grupo de whatsapp.  Isso é um pouco mais de 7% das suas preciosas 480 horas. Uau.  Com 35 horas é possível ler, num ritmo confortável e com atenção, três livros de 250-300 folhas. Em um ano, isso é aproximadamente 35 livros.  Qualquer um que leia 35 livros sobre um mesmo tema não se tornará talvez um expert ou profissional, mas com certeza terá crescido o seu entendimento sobre a área de uma maneira quase que inacreditável em relação à estaca zero. 


           Trinta e cinco horas num mês para um único grupo e pessoas que gostam dessa plataforma estão em diversos outros. E pessoas utilizam outras plataformas. E pessoas olham a Globo News para  se "manter informado". E as pessoas leem sobre o que Trump está fazendo ou não. Uau. Talvez as pessoas estejam dedicando 20-25% de suas preciosas 480 horas para isso.  Se levarmos em conta que a maioria precisa trabalhar formalmente, precisam tomar banho, dirigir até o trabalho, comer, não é de se surpreender que ninguém mais tenha tempo, e paciência já que os cérebros estão sedentos por novas rodadas de liberação de dopamina,  para sentar num parque, fazer a sua própria comida ou ter uma conversa mais profunda cara a cara com alguém.  E assim, a saúde, produtividade e felicidade das pessoas declinam cada vez mais, num ciclo vicioso sem fim, até porque há um componente fisiológico nisso tudo como abordado parágrafos acima.

        Você é o responsável de como utiliza as suas 480 horas. Tome as rédeas de sua vida e controle sobre o seu tempo. Sua saúde, felicidade e produtividade agradecem.


E não é que os livros chegaram 10 minutos depois de ter acabado de escrever esse texto? O que me surpreende são as traduções que dão para os livros no Brasil. O "Always Hungry" do professor de Harvard David Ludwig se transforma em "Emagreça Sem fome" (WTF?). O famoso "The Big Fat Surprise" da Nina Theicholz (ela que foi expressamente citada na apresentação dos resultados do Estudo PURE que foi um grande estudo epidemológico feito em diversos países e liberado os resultados final do ano passado) foi traduzido como "Gordura Sem Medo", ai ai...

          Abraço a todos.


segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

SEJA FLEXÍVEL, SEU BEM ESTAR E FELICIDADE DEPENDEM DISSO.


                Proponho um pequeno exercício para você prezado leitor (acabei de fazê-lo antes de sentar para escrever este artigo): antes de continuar a leitura, coloque os pés próximos um do outro, respire fundo e tente tocar as mãos no chão sem dobrar as pernas.  Faça esse favor a você mesmo antes de prosseguir.

                Fez? Muitos não devem ter feito. Eu também sou assim quando leio algo que me pede para fazer alguma atividade de forma ativa, apesar de geralmente ser de grande valia fazer o que o autor do texto pede.  Alguns devem ter feito (assim espero). Como foi? Tocou o chão com os dedos? Com a mão completa (meus parabéns!)? Quase chegou lá? Parou na metade do caminho?

                Qual o ponto de tanto falatório, Soul?” Flexibilidade, amigo. Seja flexível. Começa-se pela flexibilidade mais básica: a do nosso corpo. Se você num simples exercício de flexibilidade para tocar o chão empaca no meio do caminho por desconforto, é porque a situação está ruim, muito ruim. Você pode estar acertando a mão na escolha dos fundos imobiliários corretos, saindo com mulheres estonteantes, com um belo carro, mas a verdade é que está faltando a você um dos atributos mais básicos de uma vida saudável: flexibilidade corporal.

Não sei o portfólio desse senhor, mas que a sua saúde é melhor do que a saúde da esmagadora maioria dos idosos brasileiros não tenho muitas dúvidas

                Quando o meu corpo está mais flexível, minha qualidade de vida aumenta. Quando o meu corpo está menos flexível, minha qualidade de vida diminui. Simples assim.  O corpo é a primeira manifestação da flexibilidade que podemos ter em nossas vidas.  Quer saber as vantagens para a sua vida de ter um corpo mais maleável? Basta se tornar mais flexível. Apenas experimentando no próprio corpo os dois estados de  baixa flexibilidade e maior flexibilidade para saber como o simples ato de tocar a mão no chão no exercício proposto aumenta a qualidade de vida. Mas, até que ponto a flexibilidade, ou o seu conceito, é importante para além do seu corpo físico?


 "Um Bamboo que se dobra é mais forte do que um carvalho que resiste"
                
      Às vezes recebo alguns e-mails perguntando sobre como eu pude ter a certeza para abandonar um cargo tão bem remunerado e “declarar” minha independência financeira. Há várias respostas, mas uma importante é a flexibilidade em relação ao meu padrão de vida. Na verdade, vai até um pouco além do conceito de flexibilidade.

Será este meu futuro depois da minha decisão de alguns meses atrás? Escrevo um livro que dá certo, isso me anima a me tornar um investidor anjo, também dá certo. Monto um fundo de investimento, dá super certo. Aqui, discutindo planos de negócios no meu jato particular com associados (fonte : www.emirates-executivo.com)




Ou, será que é este? Escrevo um livro, não dá certo. Muitas despesas inesperadas acontecem. O governo brasileiro quebra. Tudo quebra. O patrimônio no exterior desaparece. Tudo dá errado. Tenho que limpar banheiros para sobreviver. (fonte  http://www.redeemingriches.com/2010/10/22/pay-off-debt/)

               
                Provavelmente, eu não chegue nem numa situação, nem na outra.  Porém, se a minha satisfação pessoal com minha vida for derivada apenas de quão mais próximo eu estiver da primeira situação, provavelmente estaria adotando uma postura mais inflexível e semeando o caminho para uma vida mais insatisfeita. “Ah, quer dizer que você limparia um banheiro se fosse preciso, e você largou uma posição ´privilegiada´ para isso? Só pode estar louco!” Sim, limparia sem problemas nenhum, se as circunstâncias da minha vida levassem a isso.

                Você está jantando num restaurante chique. A comida é deliciosa e veio servida na temperatura certa. O Garçom é simpático e profissional. A vista deslumbrante. A companhia interessante, agradável e inteligente. Ninguém fuma perto de você. A temperatura é agradabilíssima. A música ambiente perfeita. Você se sente feliz e satisfeito.


 Sim, agora posso ser feliz (fonte https://www.kivotosmykonos.com/pt/)

                A vida em algumas ocasiões apresentar-se-á assim para você. Existem pessoas que consegue apenas extrair satisfação e bem-estar quando tudo está, conforme os critérios da própria pessoa, "perfeito".  Eu conheço uma pessoa extremamente próxima que é assim. Tenho certeza que os leitores conhecem alguém ou quiçá alguns podem até ser assim.  Entretanto, na maioria das vezes a vida não se apresenta de uma maneira tão, diríamos, "perfeita".  

             Quase sempre algo, ou muitas outras coisas, não funcionam do jeito que talvez mais nos convenha.  A comida não veio na melhor temperatura. O Garçom foi simpático, mas demorou em atender. O Garçom foi rápido, mas não foi simpático. O Garçom foi rápido e simpático, mas estava com um cheiro estranho. O Garçom foi rápido, simpático, perfumado, mas tropeçou e derrubou vinho em sua camisa de U$ 500,00. Acho que o ponto ficou claro. A satisfação que você vai retirar do jantar vai depender quase que única e exclusivamente de sua flexibilidade de aceitar o que as condições da realidade concretamente apresentam.  Talvez a boa companhia seja o mais importante, sendo o resto secundário para a sua satisfação. Talvez no caso do jantar a inflexibilidade devesse ser apenas em relação a uma boa companhia.

                Se você quer que o dinheiro lhe traga níveis maiores de liberdade para buscar seja lá o que faça mais sentido para você enquanto ser humano, seja flexível.  Se sua satisfação depender de hotéis e jantares de luxo, padrões mais “sofisticados” de gastos, etc, etc, além de ser mais difícil ter uma vida marcada por maiores momentos de bem-estar, será matematicamente mais custoso juntar um patrimônio que possa gerar um determinado fluxo de caixa para atender essas “necessidades”.  Não há certo ou errado em padrões de consumo (na maioria dos casos).  Há apenas mais satisfação ou menos satisfação. Porém, um ponto é cristalino: quanto mais flexível você for, há uma tendência muito maior de extrair bem-estar de situações que aparentemente seriam desconfortáveis ou não prazerosas.

                Para ser mais flexível com o corpo é preciso (Tcharammmm) alongar-se com uma maior freqüência. Para ser mais flexível com nossos hábitos é preciso refletir com mais freqüência sobre como reagimos quando alguma coisa ou alguém nos contraria.  Desejo uma vida de mais flexibilidade a vocês prezados leitores.

Soulsurfer, numa pequena vila no norte da Tailândia. Estava chovendo, a comida custou menos de U$1,00, o estabelecimento não era nenhum "michelan cinco estrelas", receita para a insatisfação, correto? Não,  pelo contrário, estava bem satisfeito com tudo, principalmente com a comida e a companhia (e com o estabelecimento propriamente dito que era a casa de uma senhora simpática e sorridente).

           Um Abraço a todos!


quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

UMA DROGA PODEROSA : DEPOIS DE UM PERÍODO DE ABSTINÊNCIA, ONTEM A RECAÍDA

Sim, ontem tive uma recaída e abusei do consumo de uma droga poderosa. Ela é sedutora, e se infiltra em nossa vida sem que possamos dar conta. O pior é que às vezes nem se percebe que se trata de um entorpecente maléfico e muitas vezes, se não quase todas, é considerado algo positivo.

Depois de um período de quase dez dias em abstinência, ontem deixei a minha atenção e mente serem entorpecidos pelo fluxo de notícias. Para um brasileiro, ontem foi um dia para se prestar atenção no que acontecia com o julgamento do ex-presidente Lula. Adorado por muitos, detestado por muitos, uma parte significativa das pessoas prestou atenção ao que três juízes tinham a dizer sobre as alegações de corrupção e lavagem de dinheiro. Eu, brasileiro como qualquer outro, também devotei a minha atenção ao noticiário. “Oh boy”, como isso faz mal à saúde mental e a uma vida mais produtiva.

Eu há alguns meses venho modificando a minha alimentação. Carboidratos refinados muito dificilmente entram na minha dieta, assim como açúcar (na verdade todo carboidrato vai virar açúcar em seu organismo), a não ser eventualmente a frutose encontrada em diferentes quantidades com diferentes índices glicêmicos nas frutas. E o que isso remotamente tem a ver com o tópico dos dois primeiros parágrafos? Paciência, chego lá antes que os comerciais do programa de notícias do rádio terminem. Sábado passado, na festa de despedida de um bom amigo que está indo viajar para o exterior, comi um bom número de fatias de pizza, já que foi feito uma “noite pizzada”. No dia seguinte, me senti muito mal fisicamente. Parece que o meu corpo está se desacostumando a comer comidas que possuem a capacidade de produzir inflamação no corpo, ou seja, não muito saudáveis.

Foi exatamente o que aconteceu ontem. Eu tinha ficado uma semana sem ver absolutamente nenhuma notícia, em nenhum meio de comunicação. Não foi uma tarefa fácil, pois como estou a todo vapor na escrita do livro sobre leilões, constantemente estou sentando na frente de um computador escrevendo ou pesquisando algo na internet. É quase automático digitar algum endereço de notícias, seja brasileiro ou estrangeiro. Durante uma semana, nem mesmo isso eu fiz. Desintoxicação. Eu já passei diversas semanas, especialmente quando viajando em lugares mais inóspitos onde não tinha eletricidade, sem qualquer contato com as “notícias” do mundo. Invariavelmente, a sensação sempre foi de bem-estar e conexão com o momento, bem como com a realidade de uma forma muito mais forte. Tentei, portanto, fazer isso no meio do tumulto e das diversas distrações que os aparelhos eletrônicos hoje em dia proporcionam.

Consegui. No final do sétimo dia, me dei o “luxo” de olhar as notícias por uma hora, nem mais nem menos, colocando inclusive despertador para tanto. Meu cérebro ávido, como qualquer viciado talvez fique depois de um período sem entorpecimento, foi então olhar várias notícias. O Trump chamou países de “buracos de merda” ou algo parecido. A Caixa Econômica Federal teve funcionários do alto escalão acusados no envolvimento de condutas duvidosas. Uma apontada, filha do pivô do mensalão o ex-deputado Roberto Jefferson, foi impedida de tomar posse como ministra de alguma coisa. Deu 15 minutos, e eu sinceramente não agüentava mais, pois tudo aquilo me pareceu uma grande perda de tempo, um mecanismo engenhoso para capturar a atenção das pessoas sem fornecer nada significativo em troca. 

Um livro de Dostoiévski demanda muita atenção, mas ele proporciona algo em troca. Um livro mais profundo do Damodaran demanda empenho e atenção, mas ele proporciona um conhecimento de alto nível para aqueles que querem realmente entender sobre valuation de ativos. Um relacionamento forte com amigos, esposas, pais, demanda atenção, mas, se fortalecidos, eles nos proporcionam muita satisfação pessoal.

Porém, o que essa máquina de produção de pretensas notícias que não para um minuto sequer dá em troca pela nossa atenção? Nada, absolutamente nada. Aliás, pelo contrário, ela apenas nos retira. Ela retira o tempo para você ler Dostoiévski, Damodaran, Paulo Coelho, ou qualquer outro autor que possa lhe interessar. Ela rouba precioso tempo em que alguém pode gastar fortalecendo relacionamentos. Ela suprime valioso tempo em que a pessoa pode gastar com ela mesma, seja reparando no seu corpo, seja reparando na respiração, e construindo rotinas para que o organismo possa se fortalecer e melhorar. Ela inspira, quase sempre, os piores sentimentos nas pessoas: desesperança, indignação, ódio, medo (ah, principalmente medo, o mecanismo perfeito de dominação e convite à passividade) e futilidade.

Ainda pior, ela destrói a capacidade de se focar em algo com a intensidade necessária para produzir algo de valor. Ontem, ao deixar o meu cérebro vagar pelos diversos noticiários, comentários sobre o julgamento, eu não escrevi nada de novo no meu livro. Zero. Mesmo na minha rotina de não precisar trabalhar mais por dinheiro. Apenas como comparação, na semana que me abstive do consumo dessa poderosa droga, eu li seis dissertações de mestrado sobre um tema que estará no livro, li centenas de decisões judiciais, reformulei 70 páginas que já tinha escrito e escrevi algo entre 40 novas páginas. Surfei diversas vezes, malhei diversas vezes, li diversos artigos sobre temas relacionadas à saúde, iniciei práticas meditativas e de rituais ao acordar e ao dormir. Não tenho a menor dúvida que há pessoas muias vezes mais produtivas do que eu, mas fiquei bem contente com o resultado. No dia de ontem, não produzi nada de valor. Não li nada de novo para a minha vida. Fiquei como um verdadeiro zumbi entre uma noticia e outra, ao ficar ouvindo o voto dos desembargadores do Tribunal, ao ler comentários de analistas e cidadãos, em suma o dia passou.

À semelhança com o pós “noite da pizzada”, eu me senti mal. Não só intelectual, mas como fisicamente. Era dia de descanso da academia, mas resolvi às 18:00 pegar a bicicleta e ir à academia fazer qualquer coisa. Estava chovendo, e foi incrível pedalar na chuva. Na academia, fiz apenas um treino funcional, apesar de ser em alta intensidade. Pedalei novamente na chuva sem camisa, e a sensação da água caindo no corpo foi incrível. Parei num sushi, comi um combinado (comendo arroz branco refinado, mas enfim) e me senti muito, mais muito melhor de como estava me sentido antes da atividade física.

Esse fluxo de informação é tóxico. É prejudicial para o seu bem-estar, para o seus relacionamentos, e principalmente para a sua capacidade de produzir algo significativo.  O fluxo de desinformação de redes sociais e de fontes criadoras de notícias sem pé nem cabeça é pior do que tóxico, porque além dos problemas apontados acima, vai criando pessoas incapazes de realizar pensamento crítico, crédulas em tudo que é apresentado. Em alguns casos é ainda pior, pois vai instilando raiva e ódio em relação a grupos de pessoas ou idéias. Dessa toxidade mais perniciosa ainda bem que nunca fui muito atingido.

O blogueiro Corey escreveu no seu último artigo sobre silêncio. O silêncio não é só dos estímulos externos, mas também o silêncio da mente. As mentes estão tão inquietas que boa parte das pessoas não consegue mais apreciar o silêncio tão necessário para o equilíbrio do corpo e da mente, e em muitos casos para a produção de conteúdo de valor. O fluxo constante de notícias, de mensagens em mídias sociais, de comentários, impede que a mente se aquiete. Impede que ela se restaure. É possível que até mesmo impeça que novos conhecimentos mais aprofundados sejam formados. A quantidade de estudos, e livros baseados nestes, sobre os efeitos deletérios do fluxo constante de informações é simplesmente enorme.

Desintoxique. Se você pega o seu celular de manhã ao acordar para ver as notícias do dia, sem mesmo se olhar no espelho ver se acordou bem ou tomar um copo de água, você está viciado, e está lentamente adoecendo. Sinceramente, eu não sei se há níveis saudáveis de exposição a esse entorpecente. Porém, se é difícil se livrar totalmente desse vício, ainda mais no mundo onde vivemos onde tudo está conectado mas parece que as conexões verdadeiras humanas são cada vez mais raras, é possível sim diminuí-lo para que a sua toxidade seja mínima.  

E sobre o julgamento? O que se pode dizer? Uns ficaram tristes, outros alegres. Alguns juristas entendem que houve alargamento de conceitos, algo que ao menos em teoria não se pode fazer em direito penal, outros juristas entendem que não. Uns acreditam que Lula morreu politicamente, outros entendem que não. Uns acham que isso vai ajudar a reforma da previdência, outros acham que não. Uns acham que o mercado já tinha precificado a derrota por 3x0, outros acham que não.

O que eu acho é que o fluxo de notícias simplesmente não irá parar, e a pessoa irá pular de uma notícia para outra, de um “acontecimento importante” para o outro, e sem se dar conta, semanas, meses, e às vezes anos se passam no piloto automático. A pessoa de uma maneira inconsciente terá deixado que a sua atenção, o seu tempo (o que de mais precioso possuímos), tenha sido tomado, sem que nada, absolutamente nada tenha recebido em troca.

Um abraço a todos!

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

EU, VOCÊ E A MORTE DE IVAN ILITCH

“- Meus senhores, morreu Ivan Ilitch!
- Como assim?
- Aqui está. Pode ler – respondeu, e pôs nas mãos de Fiodor Vassilievitch o jornal que cheirava a tinta fresca.
(...)
Assim sendo, ao tomarem conhecimento da morte do colega, o que primeiramente ocorreu a cada um foi a possibilidade própria ou dos amigos nas promoções e transferência que ela iria provocar” (fls.19)


A morte. A não-existência. Como outros sentiriam a minha morte? Ficariam tristes? Seriam mesquinhos? Aliás, não sentir muita coisa e pensar em si, mesmo diante da morte de alguém, é mesquinho ou é simplesmente humano?


“Além das considerações sobre as prováveis promoções e transferências que a morte de Ivan Ilitch acarretaria, a própria morte de pessoa tão próxima deles despertou, como de costume, em cada um dos membros do Tribunal, a tranqüilizadora sensação de que escapara. ´Ora Bem!´ Ele morreu e estou vivo´ pensou e sentiu cada qual. Quanto aos amigos mais chegados de Ivan Ilitch, os chamados íntimos, unânime e involuntariamente consideravam os aborrecidos deveres a cumprir – acompanhar o enterro e fazer uma visita de pêsames à viúva” (fls.20)

Seria assim na minha própria morte? Será assim na morte da maioria das pessoas? Sempre me intrigou, e ainda intriga, que mesmo diante de sofrimentos atrozes de outros nós nos queixemos dos mais triviais aborrecimentos. Porém, será que não foi sempre assim? A empatia em relação ao sofrimento alheio, mesmo de conhecidos, é algo que nos torna mais humanos ou é apenas um código moral inatingível para boa parte da humanidade?

“A vida de Ivan Ilitch era das mais simples, das mais vulgares, e contudo,  das mais horríveis. Juiz do Tribunal falecia aos 45 anos.” (fls.28)

 Ivan Ilitch se forma em direito. Consegue então um cargo de grande importância junto a um governador provincial. A mocidade, e a alta posição social em tão tenra idade, permitem que ele se torne um bon vivant. Um Burguês, um Hustler dos tempos mais antigos. Alguém com maneiras decentes e elegantes, capaz de conviver nas mais altas camadas sociais com desenvoltura, relacionando-se com pessoas poderosas, aquelas relações as quais os entendidos modernos dizem que devemos cultivar para ter “um bom networking”,  e tirando proveito disso. A vida era boa para Ivan Ilitch

Teve, na província, uma ligação com uma dama local que se atirara no braço do jovem e elegante advogado e ainda um breve caso com uma modista; houve farras com oficiais da guarda pessoal do czar de passagem pela cidade, com idas, após a ceia, a certa rua afastada e de duvidosa reputação; havia uma certa bajulação ao chefe e à esposa do chefe, mas praticada de maneira tão elevada e distinta que não seria possível aplicar palavras desairosas. Tudo cabia no adágio francês: Il fault que jeunesse se passe. Tudo era feito com as mãos limpas, com camisas limpas, com frases francesas e, principalmente, no seio da melhor sociedade, por conseguinte com a plena aprovação das pessoas altamente colocadas.” (fls.30)

Depois de alguns anos, Ivan Ilitch se torna juiz. Ah, o poder. A sensação que se pode influenciar a vida de homens e mulheres se assim o desejar. A sensação de que se alcançou algo que a maioria dos homens não conseguiu. Ah, que sensação boa, a sensação de um vitorioso, de vitória, afinal a vida é feita de vitórias, e uma vida de sucesso só pode ser baseada em alguém que atingiu posições elevadas, um vitorioso, portanto.

Mas, agora, na qualidade de juiz de instrução, Ivan Ilitch sabia que todos, sem exceção, mesmo os mais poderosos e emproados, dependiam dele, e bastava que escrevesse umas poucas linhas num papel timbrado para que o personagem mais importante e mais auto-suficiente comparecesse à sua presença como acusado ou como testemunha e , se não quisesse, que ele se sentasse, ficaria de pé suportando a sua argüição. Jamais abusou de tal autoridade, muito pelo contrário, procurava atenuá-la, mas a consciência do poder e a possibilidade de abrandá-la constituíam para ele o principal interesse e a absorvente atração do seu novo encargo” (fls.31)

Ivan Ilitch então casa-se. Com moça de alta estirpe. Bonita, a mais bonita do círculo social que frequenta.  Porém, com o passar do tempo, a rotina familiar começa a pesar sobre sua vida. Uma esposa que não o compreende e o recrimina pelas mais insignificantes frivolidades. A vida familiar torna-se insuportável. É preciso achar um refúgio.

O seu objetivo consistia em se liberar cada vez mais das contrariedades domésticas  e dar a elas uma aparência inofensiva e decente; e consegui-o passando cada vez menos tempo com os seus, e quando era impraticável sair de casa, procurava resguardar a sua posição cercando-se de pessoas estranhas. O principal, porém, era manter a sua vida de funcionário. Todo o interesse da sua existência se concentrou no mundo judiciário e esse interesse o absorvia. A consciência da sua força que permitia aniquilar quem ele quisesse, a imponência da sua entrada no tribunal, a deferência que lhe tributavam os subalternos , seus êxitos com superiores e subordinados, e, sobretudo, a maestria com que conduzia  os processos criminais e da qual ele se orgulhava – tudo isto lhe dava prazer e lhe enchia os dias, a par de palestras com os colegas, os jantares e o uíste. Assim, a vida de Ivan Ilitch decorria de maneira que achava conveniente – agradável e digna” (fls.36)

Vários anos se passam, e agora Ivan Ilitch é juiz na capital.  Sua vida familiar deteriora-se, mas ele se aferra à respeitabilidade do seu cargo e da sua posição com mais força. Porém, uma dor surge em seu corpo. Meses se passam e a sensação é cada vez pior. Grandes médicos são consultados, mas nada de conclusivo dizem. A dor vai se tornando insuportável.  Então, Ivan Ilitch  questiona a sua mortalidade, numa das passagens mais primorosas da literatura mundial.

O exemplo de silogismo que aprendera no compêndio de Lógica de Kiesewetter – ´Caio é um homem, os homens são mortais, logo Caio é Mortal` - sempre lhe parecera exato em relação a Caio, jamais em relação a ele. Que Caio, o homem abstrato, fosse mortal era perfeitamente certo; ele, porém, não era Caio, não era um homem abstrato, era um ser completa e absolutamente distinto de todos os demais. Ele fora o pequeno Vânia, com sua mamãe e papai, com Mítia e Volódia, com os brinquedos, o cocheiro, a ama e depos com Katienska e com todas as alegrias e entusiasmos da infância e da adolescência e da mocidade. Porventura conheceu Caio o cheiro da pequena bola de couro listrado de que Vânia tanto gostava? Por acaso Caio beijava a mão a mãe como Vânia? Era para Caio que a seda do vestido da mãe fazia aquele frufru? Fora Caio quem protestara na escola, por causa dos pastéis? Tinha Caio amado como Vânia? Seria Caio capaz de presidir, como ele, uma audiência?
´Caio é de fato mortal, e portanto, é justo que morra, mas quanto a mim, o pequeno Vânia, Ivan Ilitch, com todos os meus sentimentos e idéias, o caso é inteiramente outro. É impossível que eu tenha que morrer. Seria demasiado horrível” (fls.55)

Claro que os homens são mortais, mas a nossa própria mortalidade parece difícil de acreditar. Como é possível  que eu, presidente de uma multinacional, possa morrer? E os meus compromissos, e as minhas vitórias? Ou como eu, juiz de uma suprema corte, reverenciado por um séquito de subalternos posso ser mortal? Eu não!  Porém, a morte um dia chega seja você quem for, e Ivan Ilitch cada vez mais se dá conta disso. O seu sofrimento existencial começa a ser tão ou mais pesado do que o seu sofrimento físico. A impressão que ninguém se importa realmente com ele, amigos, familiares, é por demais dura.  As suas limitações físicas, ao seu olhar, se tornavam cada vez mais degradantes, nem mesmo suas necessidades fisiológicas mais simples ele era capaz de fazer.

“Mas foi exatamente graças a tão penosa circunstância que Ivan Ilitch experimentou um dado consolo. Quem sempre vinha limpar o vaso era o camareiro Guerássim. Tratava-se de um jovem mujique, asseado e saudável, que engordara um pouco com a comida da cidade, se mostrava sempre bem-humorado. No começo, Ivan Ilitch ficara constrangido com a presença daquele homem limpo, na sua branca roupa de camponês, desempenhando um serviço tão nojento.” (fls.58)
(...)
“Guerássim era o único que não mentia e tudo indicava que também era o único a compreender plenamente o que se passava e não considerava necessário ocultá-lo, singelamente condoía-se do patrão tão fraco e esquelético” (fls.61)

O único que via, sentia e tinha um sentimento de empatia era a pessoa responsável por limpar os dejetos de Ivan Ilitch.  Quão surpreendente não é isso? Ou não é surpreendente? O cuidar de outro ser humano.  O sentimento de cuidado. Não é isso que torna possível que empreendedores, pessoas de sucesso, existam em primeiro lugar? Quase sempre precisamos de alguém, quando somos frágeis, que nutra esse sentimento de cuidado e carinho em relação a nós.  A Mãe, o Pai, um Tio distante, um enfermeiro, um amigo, quão importante não podem ser? Quão essencial não é o cuidado em nossas vidas? Por qual motivo esse sentimento tão nobre é negligenciado, omitido e colocado em segundo plano tantas e tantas vezes?

“Depois, sossegou, deixou de chorar, prendeu a respiração, ficou atentamente ouvindo a voz que vinha silenciosamente, a voz de sua alma, a torrente de pensamentos que dentro dele se acumulara.
´O que é que tu queres?´ foi a primeira coisa que ouviu claramente.  ´O que é que tu queres?´ ´O que é que tu queres?´ repetiu. E respondeu: ´O que eu quero é viver. Viver sem sofrer´.
´Viver? Como?´ perguntou a voz anterior. ´Ora, viver como sempre vivi. Bem, agradavelmente´, respondeu. ´Como viveste antes, bem e agradavelmente?´, tornou a voz.
E ele começou a repassar na imaginação os melhores momentos de sua vida. Mas- coisa estranha! – tais momentos não lhe pareciam agora tão agradáveis como cuidava que fossem, salvo as primeiras recordações da infância.  Na meninice, sim, havia coisas verdadeiramente prazenteiras, que gostaria que se repetissem, se pudesse viver outra vez. Mas aquele menino estava morto, era como a reminiscência de uma outra pessoa.
Quando entrou a repassar o período que gerara o atual Ivan Ilitch, tudo que lhe parecera ser alegria se desmoronava antes os seus olhos, reduzindo-se a algo desprezível e vil. E quanto mais longe da infância e mais perto do presente, tanto mais as alegrias que vivera pareciam insignificantes e vazias. A começar pela faculdade de Direito. Nela conhecera alguns momentos realmente bons: o contentamento, a amizade , as esperanças. Nos últimos anos, porém, tais momentos já se tornaram raros. Depois, no tempo do seu primeiro emprego, junto ao governador, gozava alguns belos momentos: amara uma mulher. Em seguida, tudo se embrulhou e bem poucas eram as coisas boas. Para adiante, ainda menos. E, quanto mais avançava, mais escassas se faziam elas. Veio o casamento, um mero acidente, e com ele, a desilusão, o mau hábito da esposa, a sensualidade e a hipocrisia. E a monótona vida burocrática, as aperturas de dinheiro, e assim um ano, dois, dez, vinte, perfeitamente idênticos. E, à medida que a existência corria, tornava-se mais oca, mais tola. ´É como se eu tivesse descendo uma montanha, pensando que a galgava. Exatamente isto. Perante a opinião pública, eu subia, mas na verdade, afundava. E agora cheguei ao fim – a sepultura me espera´.
(...)
´Talvez eu não tenha vivido como deveria´, acudiu-lhe de súbito. ´Mas de que sorte, se eu sempre procedi como era preciso?´, e imediatamente afastou a única hipótese possível para o enigma da vida e morte” (fls.70-71)

Será possível? Mas eu fui atrás de uma boa posição social, do sucesso, afinal fui um vitorioso. Fui mesmo? Mas não é possível, como uma vida vivida de maneira decente, digna, com trabalho respeitoso pode ter sido uma forma errônea de se viver?

“Ponderou que aquilo que antes acreditava ser totalmente impossível, isto é, não ter vivido como deveria, podia ser verdade. Considerou que as pequeninas tentativas que fizera, tentativas quase imperceptíveis e que logo sufocava, para lutar contra o que era considerado acertado pelas pessoas mais altamente instaladas na sociedade, podiam representar o lado autêntico das coisas, sendo falso tudo mais. E que os seus deveres profissionais, sua vida regrada, a ordem familiar e todos os interesses mundanos e oficiais não passavam de grandes mentiras. Tentou defender tudo aquilo perante a si mesmo, e, de repente, atinou com a fragilidade da sua defesa. Não, não havia nada a defender.” (fls.75)

Será que é possível que o que se estima como verdade para uma boa vida não seja uma grande falsidade? Títulos, poder, dinheiro, conquistas, as cenouras que são colocadas na frente de nós coelhos-humanos, representam realmente uma vida prazerosa e de sentido ou será que não passam de ilusões? Há um meio termo possível ou não? 
Não sei. O que sei é que quanto mais o tempo passa, mais impressionado fico com algumas obras literárias, e o motivo delas serem verdadeiros clássicos. A primeira vez que li "A morte de Ivan Ilitch" tinha vinte e poucos anos. A segunda foi com trinta, e me causou uma impressão muito mais forte do que a primeira vez, já que eu vi muito de Ivan Ilitch em mim. Essa terceira vez, agora com 37 anos, foi significativamente mais perturbadora, mas de certa forma mais prazerosa, já que sinto que as reflexões que Ivan veio a fazer no leito da sua morte, quando em certa medida já era tarde demais, são questionamentos de extrema importância em minha vida ainda jovem e com saúde. 


“Aspirou profundamente, deteve-se no meio, inteiriçou-se e morreu.” (fls.77)

E assim termina uma das maiores obras da literatura russa.

obs: Citações retiradas do livro "As Obras-Primas de Leon Tolstói" da editora Ediouro, 2000.