sexta-feira, 30 de junho de 2017

DETALHANDO OS ELEMENTOS DO RETORNO FINANCEIRO DE UM ATIVO



Olá, colegas. Como uma continuação do artigo fundamento - explicando o retorno de um ativo financeiro, hoje abordo um pouco mais sobre retornos financeiros. Se quiser saber um pouco mais sobre os fundamentos, sugiro a leitura do artigo supracitado.



 Como explicitado, o retorno de um ativo financeiro basicamente é dado pela seguinte fórmula:


RETORNO DO ATIVO =  (DIVIDENDO + CRESCIMENTO DOS LUCROS) X MUDANÇAS DE PRECIFICAÇÃO


  Vamos analisar mais detidamente cada um dos elementos dessa fórmula.


1 – DIVIDENDO 


      Esse é o o elemento mais fácil, talvez o único que o investidor tem um grande controle.  É pelo yield que geralmente se analisa se um investimento está ou não esticado. Em instrumentos de dívida, ou renda fixa, esse elemento é o que vai determinar quase todo o retorno do investimento.


    Se eu compro uma Debênture que  remunera 12% aa ( deixemos de lado questões tributárias e supondo que não há mercado secundário para a venda desse título - ou seja sem liquidez e a correspondente marcação a mercado), o retorno do meu investimento será:


RETORNO ESPERADO = 12% + 0% (não há crescimento de distribuição) x 1 (ou seja não há alteração na precificação)

RETORNO ESPERADO = 12% aa.



      Portanto, tudo mais constante e idêntico, um ativo com yield de compra maior terá uma expectativa de retorno maior. É  nesse aspecto que a maioria dos investidores amadores se concentra: a busca por "bons" preços nos ativos. 

     Para quem gosta de Fundo Imobiliário é comprar fundos com um yield alto, para quem gosta de títulos indexados a inflação é adquirir com um prêmio mais alto, e quem gosta de dividendos acionários é comprar um papel com o maior dividend yield possível.



2 - CRESCIMENTO DOS LUCROS OU DA DISTRIBUIÇÃO

               
 Esse é um ponto mais difícil de análise. Por qual motivo? Porque ao contrário do yield, ele requer que o investidor faça estimativas sobre o futuro.  Como funciona a grosso modo com as três grandes classes de ativos brasileiros?

Renda Fixa – Não há crescimento da distribuição, ou o crescimento se dá indexado pela inflação (pense numa NTN-B onde a distribuição é corrigida pela inflação do período).


Imóveis/FII – Em teoria, não há crescimento real das distribuições. O que quer dizer? Que em períodos maiores de tempo, o aluguel tende a corrigir pela inflação, ou levemente abaixo ou acima. Não há possibilidade de grandes crescimentos reais da renda gerada pelo ativo. “Mas Soul, e os FII que estão diminuindo a renda seja por diminuição dos aluguéis, seja por vacância?”. É verdade, colega, mas repare que disse que isso é uma tendência e de longo prazo, ou seja , pelo menos durante um ciclo imobiliário de uns 15-20 anos. Não podemos nos esquecer que houve forte crescimento real dos aluguéis entre os anos 2003-2012, e os últimos anos talvez sejam apenas uma correção do excesso, e que se analisarmos no futuro o período de 2003-2022, os aluguéis terão mantido em média o mesmo patamar real.


Ações – Aqui que mora o sonho acalentado de muitos blogueiros. Uns investem em ações “aristocráticas”, ou seja, que possuem um histórico de aumento dos lucros, e conseqüentemente aumento dos dividendos, por décadas. Há aqueles que querem descobrir uma empresa pequena, que tem o potencial de crescer os lucros 20/30 vezes. Não há dúvida que o mercado acionário é o tipo de ativo mais indicado para se ter um retorno potencial maior oriundo do crescimento dos lucros.


  É nesse fundamento que alguns educadores financeiros falam para se concentrar. “É uma empresa que cresce os lucros de forma consistente durante os anos”, então é uma boa candidata para compor a sua carteira. É aqui também onde analistas, profissionais ou não, tentam entender o negócio da empresa, projetar para onde a companhia pode crescer, onde pode se tornar mais eficiente, tudo isso para que os lucros aumentem.



   Eu tenho sérias dúvidas sobre a capacidade de investidores amadores analisarem isso. Porém, tenho que reconhecer que já vi boas análises sobre fundos imobiliários em grupos de discussão que eventualmente participo. Pessoas que muitos meses antes faziam análises de que um determinado fundo tinha potencial para aumentar a sua distribuição, potencial esse que não estava refletido na cota num determinado momento.



 Logo, por mais que ache difícil, e algo que pode consumir muito o tempo escasso de um investidor, que antes de tudo é um ser humano com diversos outros interesses, é possível investidores em alguns casos estimarem com certo grau de acerto o crescimento, ou eventual decréscimo, dos lucros.



3 - MUDANÇA DE PRECIFICAÇÃO


   Porém, é esse o componente que geralmente traz os maiores  ou piores retornos. É atrás disso que os grandes gestores estão atrás. É isso que o gestor do fundo verde tenta descobrir. É claro que o Luis Stuhlberger deve analisar o mercado num todo para saber se ele tem uma tendência de aumentar os lucros/distribuição, e por via de consequência aumentar os retornos,  mas o que ele realmente quer acertar é mudanças na precificação.



   E o que é isso exatamente? É simplesmente a mudança da relação entre a quantidade de dinheiro que o mercado quer pagar por uma determinada quantidade de lucro de uma  determinada empresa ,  de um determinado imóvel para renda, de um título de dívida soberano, de um setor da economia, ou de um mercado inteiro.



   Se alguém diz que o mercado acionário americano está “bolhudo”, por exemplo,  o que na verdade essa pessoa está expressando é que ela acredita que a quantidade de unidades monetárias que se paga por uma unidade de lucro não faz mais sentido. No íntimo, ela acredita que essa relação irá diminuir, irá ocorrer uma mudança na precificação.



   Nesse item, colegas, eu posso dizer com certa confiança que nunca vi um investidor amador, principalmente em mudanças de precificação para baixo, acertar em cheio uma mudança. Muitas vezes, talvez na esmagadora maioria das vezes, é apenas sorte ou azar. O investidor pode cometer um  autoengano e sinceramente achar que o seu retorno consistente é devido a uma capacidade superior de análise, a uma habilidade de analisar dezenas de elementos, e então fazer um investimento correto.  Nada mais enganoso.



 Se alguém começou a investir em ativos financeiros brasileiros em 2015, ou melhor ainda no começo de 2016, essa pessoa muito provavelmente terá retornos muito altos,  quase garantido que em excesso ao CDI, ou a gestores profissionais. Por quê? Ora, houve uma mudança de precificação nos ativos brasileiros para cima, e quase qualquer ativo que a pessoa por ventura tenha comprado subiu única e exclusivamente pelo efeito de mudança de precificação.



 Basta ver os Fundos Imobiliários. Seja com vacância, sem vacância, revisional negativa ou não, o simples fato é que quase tudo subiu desde 2015, e principalmente desde o começo do ano de 2016. Ora, se quase tudo subiu, a capacidade de analisar ativos em separado teve pouca ou nenhuma relevância, o fator principal de um bom retorno no período foi simplesmente o começo dos investimentos no momento certo. 

 É possível que seja por habilidade, mas é difícil imaginar habilidade em alguém com pouco dinheiro e início de investimento, a probabilidade maior é que seja pura aleatoriedade, ou seja sorte, ou Fortuna como diziam os antigos gregos (uma palavra mais bonita realmente).

    Por seu turno, alguém que começou a investir no mercado acionário brasileiro em 2012-2013 muito provavelmente terá retornos tímidos se comparados com uma simples aplicação em algum título do tesouro direto. Péssimo investidor? Não soube analisar as peculiaridades de cada empresa ou setor? Não soube escolher boas empresas? Muito provavelmente a simples resposta seria algo como: azar na escolha do momento de começar a investir ou uma má Fortuna.



 É muito difícil antever essas mudanças de precificação, principalmente quando se está com preços não muito destoantes de médias históricas. Por que é difícil? Bom, porque é simplesmente muito complicado saber os impactos positivos ou negativos que uma sucessão de eventos podem ter na precificação dos ativos (sem contar os eventos aleatórios, eventos imprevisíveis, etc, etc). 

  Geralmente, e isso é um erro de julgamento que já foi abordado netse blog HINDSIGHT BIAS (recomendo muito a leitura do artigo), as explicações posteriores fazem todo o sentido de porque uma precificação aumenta ou diminui, mas na hora dos acontecimentos é uma tarefa das mais complexas antever mudanças bruscas de precificação.


  É isso, colegas, espero que tenham gostado. Um grande abraço!

21 comentários:

  1. muito bom o post senhor good vibes:D

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  2. Aqui jaz um blog.

    Semeou muito mais inimizades do que qualquer outra coisa.

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  3. Elementar, límpido e elegante. Bom post.

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  4. Olá Soul, como anda sua alocação. ? Valeu abs

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    1. Olá, colega.
      Muita alocação em imóveis comprados esse ano.
      A outra parte em renda fixa.
      Abs

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  5. Soul, qual sua opinião sobre análise gráfica?

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    1. Olá, colega. Eu não tenho muito opinião formada. Há um tempo costumava achar que era uma grande perda de tempo. Ainda sou muito mais a análise fundamentalista, mas talvez a análise de Candles possa trazer alguns elementos para análise. Talvez, quem sabe.
      Abs

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  6. Soul,

    Artigo muito bom, que toca em pontos fundamentais. Destaco: (1) não faz sentido investir em um ativo sem uma análise de retorno esperado, (2) não há expectativa de crescimento real nas distribuições de imóveis/FII's e (3) o retorno real de nossos investimentos normalmente depende menos de nossas habilidades do que pensamos, já que dificilmente conseguiremos fazer uma estimativa que se aproxime do valor intrínseco real de um ativo, e portanto dificilmente conseguiremos detectar com alto grau de certeza uma assimetria entre preço e valor e ganhar consistentemente com essa mudança de precificação.

    Acho importante tocar nestes pontos porque, apesar de ser importantíssima a análise de retorno esperado, no fim das contas não é ela quem irá soberanamente determinar nosso retorno, que será influenciado por variáveis intangíveis como a sorte, por exemplo. Como você bem destacou, independente de qualquer parâmetro qualitativo ou capacidade de análise, quem comprou fundos imobiliários em 2015 ganhou dinheiro simplesmente por investir no momento certo. Isso é duro, pois nos obriga a admitir que talvez não sejamos tão espertos como pensamos.

    Abraços.

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    1. Olá Pretenso Milionário,
      1) A análise, mesmo que singela, da expectativa de retorno de um ativo é importante com certeza.
      2) Eu creio que há uma leve expectativa positiva de aumento real das distribuições. Mas estou falando aqui de algo como 1-1.5% aa. Por qual motivo? Bom, que o famoso índice Shiller mostra que houve uma valorização real dos imóveis nos EUA nos últimos 130 anos. Ela foi pequena, mas existiu. Em segundo lugar, creio que o crescimento do PIB real per capta pode ter influência positiva no aumento dos aluguéis ao menos no médio-longo prazo. Porém, é um achismo. Uma premissa mais conservadora é realmente ganhos nulos reais no longo prazo.
      3) Eu creio que no caso de investidores amadores, isso se aplica. Em caso de investidores mais sofisticados, pense em gestores de fundo hedge, talvez eles tenham capacidade de gerar alpha. O assunto é polêmico aqui.

      Admitir que não somos tão espertos e habilidosos como imaginamos, principalmente no mercado financeiro, talvez seja sinal de sabedoria e de que partindo dessa premissa seja possível ter retornos razoáveis.

      Um abraço

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  7. Acho que as conclusões que podemos tirar é que o 1°importante mesmo é o aporte; 2° diversificação é fundamental. Se dificilmente terei retorno em excesso, pra que arriscar em poucos ativos? É melhor diversificar, trabalhar e poupar mais.

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    1. Olá, colega.
      1) Para o começo da caminhada financeira, sem dúvidas. Após certo montante, a importância do aporte vai diminuindo. No meu caso, por exemplo, mesmo aportando algo em torno de 18-20k do que economizo do meu salário, o impacto no portfolio atualmente é muito pequeno.
      2) A diversificação é fundamental por vários motivos. Você pode até obter retornos em excesso (aí você precisaria esclarecer em relação ao que seria o excesso), mas pode ser fruto apenas da aleatoriedade de aportar em períodos de baixa precificação.
      Abraço

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  8. Tá cada dia mais difícil:
    http://sensoincomum.org/2017/07/03/fake-news-cnn-anatomia-escandalo/

    Nada a ver com o post. É. Pode deletar

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    1. Realmente, colega, não há muita associação com o tema do artigo.
      Abs

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  9. Em relação a hora de entrar em determinado investimento, você fez uma análise macro. Pensando no macro, estamos num momento em que os ativos estão caros e não valeria a pena investir em ações, por exemplo.

    Entretanto existem ações particulares que mesmo num mercado de alta ainda tem bom potencial de crescimento, mas ai a mensuração precisa disso envolveria muitos aspectos técnicos, probabilísticos, intuitivos, etc, que o pequeno investidor não tem o tempo/capacidade de avaliar tudo isso.

    Qual a solução então: fugir da renda variável nesse momento ou confiar nossos recursos aos gestores de fundos, que são profissionais capacitados para fazer esse tipo de análise de mercado?

    Abraços!

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    1. Olá, colega.
      Na verdade, esse artigo serve para análise de qualquer coisa, menos ativos que não produzem fluxo de caixa como ouro, por exemplo.
      Eu creio que antes de tudo o pequeno investidor precisa fazer uma declaração de investimento. Isso é muito normal lá fora, pouco normal aqui no Brasil. O que se quer com os investimentos, quais são as tolerâncias a risco, etc, etc.
      Sem saber o que o investidor quer, fica difícil colocar uma estratégia em prática.
      E o preço dos ativos brasileiros comparados com outros mercados estão com valuation bem menor.
      Um abraço!

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  10. Excelente artigo, bem interessante sua analise sobre retorno de um ativo, também tenho um blog onde falo sobre Ações, Analise Fundamentalista, e Fundos Imobiliários,como foco no longo prazo, se poder passe lá.

    Acho que o retorno é importante, quer na forma de dividendos ou na forma de valorização do ativo, devemos escolher ativos de valor, e abaixo do valor justo com margem de segurança, e boas perspectivas futuras, para dar o retorno adequado


    Abraço e bons investimentos

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  11. Soul. Parabéns pelo Blog.

    O que você disse sobre precificação está correto. Comecei a investir na bolsa em 2015 e minha rentabilidade foi acima da média. O que mais ouvia na época eram pessoas falando para não investir por causa da incerteza do mercado e que o melhor seria aguardar as coisas acalmarem. Ainda bem que não dei ouvidos a essas pessoas. Abraço!

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