terça-feira, 6 de novembro de 2018

PODE UM PAÍS ALMEJAR SER INDEPENDENTE FINANCEIRAMENTE ?


             
Tempo de leitura: mais de 20 minutos (longo para padrões atuais)

      Eu sempre acreditei que nós evoluímos quando nossas convicções são colocadas a prova, ou quando enxergamos uma determinada parcela da realidade sob um prisma completamente novo.  A ciência geralmente costuma avançar, ou revolucionar um determinado campo, dessa maneira. Assim, talvez a leitura de um livro sobre biologia possa fazer com que um grande empresário  tenha um  insight que não iria obter ao ler mais um livro sobre gestão ou finanças. Esse exemplo específico não foi nem mesmo criado por mim, e é citado expressamente pelo autor no bom livro “The Art of Thinking Clearly”.  O escritor dessa obra, um gestor e consultor, fala expressamente que sua visão de mundo foi mudada radicalmente quando ele começou a entender mais profundamente sobre biologia.


                Steve Jobs, quando era jovem e sem dinheiro, fez um curso de caligrafia e isso de alguma maneira (nas próprias palavras dele naquele célebre discurso de formatura) criou dentro dele um senso de estética que iria influenciar sobremaneira o design dos produtos da Apple. E como nós sabemos, centenas de milhões de pessoas admiram a estética dos produtos da apple. Quão improvável não é a ligação entre caligrafia e um dos produtos eletrônicos de maior sucesso? Eu diria que é uma relação improvável, algo que jamais passaria na cabeça nem dos mais sonhadores analistas sobre a realidade. Porém, aconteceu.

      Portanto, abrir-se a novas idéias, ler sobre coisas completamente distintas, refletir sobre um problema antigo num outro viés, conversas com pessoas distintas,  tem essa aptidão única de criar relações entre idéias, fatos, noções, que num primeiro momento aparentam não ter qualquer relação.  É por isso que viajar, principalmente para lugares diferentes, proporciona esse tipo de possibilidade, mas de uma forma lúdica e divertida

        Eu realmente não gosto de escrever textos sobre coisas evidentes. O esforço pessoal, por exemplo. Eu apenas me tornei duas vezes campeão brasileiro de xadrez (por idade), pois eu estudava horas e horas em casa, porque eu viajava para competir, etc, etc. Se eu não tivesse me esforçado (horas de estudo), eu jamais seria campeão, ou jogaria razoavelmente bem, ainda mais num jogo onde o esforço é apenas individual. Se eu não tivesse estudado durantes vários anos, eu não teria passado no vestibular de uma universidade federal extremamente concorrida. Se eu não tivesse lido vários livros sobre finanças, enquanto poderia estar fazendo outra coisa, eu jamais teria a segurança atual de manejar o meu próprio dinheiro. Logo, é evidente que o esforço pessoal importa, e isso sempre foi claro desde a minha infância. Escrever textos sobre isso me parece uma grande perda de tempo do autor e do leitor.

                Porém, para o meu espanto nos últimos anos, o tipo de texto que muitas pessoas gostam é aqueles que louvam o esforço pessoal, como se isso fosse uma grande (re)descoberta.  Nesse tópico, muito mais interessante para mim é ler, refletir, sobre o que o esforço pessoal não explica.  Se apenas o esforço pessoal (ou mérito) explica a distribuição de riquezas e honrarias num agrupamento humano ou não. Se a própria noção de mérito é algo que faz ou não sentido, e se faz sentido será que o é em todas as situações? E isso não é nada novo, os antigos gregos já refletiam sobre esse tema, como compartilhei neste artigo há mais de dois anos: Virtude e Fortuna. Aceite o Acaso. Esforce-se sempre que puder


           Portanto, se há algo que me “cansa intelectualmente” é o óbvio.  Porém, se fosse apenas o óbvio nossas conversas ainda assim seriam de qualidade maior . O problema é  quando a realidade é transformada num maniqueísmo grosseiro, simplista e muitas vezes falso.  Quer, prezado leitor, você queira ou não, o mundo e as relações humanas são extremamente complexas.  Se uma pessoa quer observar o mundo com base em poucas idéias, e signos para representar essas idéias (pense em direita x esquerda, comunismo x capitalista, cidadão de” bem” x cidadão do “mal”), não há como a visão de mundo dessa pessoa captar a complexidade da realidade. É simplesmente impossível.  A relação entre compreensão simples da realidade ou complexa e existência de símbolos linguísticos para expressar a realidade já foi comentada por mim nesse artigo:  Newspeak, Neve e Distorção da Realidade

                Essa grande digressão serviu para expor, ao menos essa é a minha opinião, que devemos fugir da obviedade e procurar as nuances do mundo, e que por causa dessas nuances, o mundo (a realidade) moderno tende a ser muito mais complexo do que nosso cérebro de primata que evoluiu nas savanas africanas milhões de anos está disposto a aceitar sem um grande esforço.

           Comecemos com um exemplo. Expectativa de vida ao nascer. É claro que essa é uma questão muito mais complexa, mas a esmagadora maioria das pessoas gostaria de viver mais, e não morrer tão cedo. Especialmente se a vida se prolongar com razoável saúde, pois muitos podem não querer uma vida mais longa, mas com severas limitações de saúde. Essa métrica (expectativa de vida e longevidade com saúde) é algo mais importante, ao se analisar um agrupamento humano, do que número de carros por família, PIB Per Capta, telefones por domicílio, etc? Para mim a resposta óbvia é um sonoro SIM.

            A reflexão não é apenas retórica, ela possui um exemplo prático muito atual. Poucas pessoas sabem, mas a expectativa de vida dos EUA caiu nos anos 2015 e 2016. Não é comum uma queda na expectativa de vida durante dois anos seguidos num país que não é assolado por guerra ou epidemia aguda de alguma doença .  Aparentemente, haverá uma queda na expectativa do ano de 2017 também (os dados são divulgados no final de 2018, with-death-rate-up-us-life-expectancy-is-likely-down-again). Se isso ocorrer, os EUA repetirão os anos de 1916,1917 e 1918 onde a expectativa de vida declinou por três anos seguidos, mas isso aconteceu por causa da maior epidemia de gripe da história, bem como por causa da primeira guerra mundial. Se a expectativa de vida cair em 2017, e continuar caindo em 2018, os EUA terão retrocedido enormemente.


Os EUA, na métrica talvez mais importante para governos e sociedades, vem ficando para trás, sendo que a expectativa de vida caiu nos últimos dois anos.


      É um enigma por qual motivo a expectativa de vida vem caindo nos EUA. Muitos atribuem, inclusive o prêmio nobel de economia do ano de 2015 Angus Delton, que isso se deve ao que se chama "mortes de desespero". Fenômeno que engloba as mortes por suicídio e overdose de opioides

     Não é apenas a longevidade, mas a qualidade da vida do americano médio. Quase 40% da população (incluído crianças) possui alguma condição crônica (diabetes, depressão, doença cardíaca, etc).  Quase um terço da população (incluindo crianças) possui mais de uma condição crônica. Lembro-me de ter lido um estudo que aproximadamente 60% das pessoas com mais de 50 anos de idade possuíam duas ou mais condições crônicas (fonte), contra uma média de 25% de países europeus. Está se a falar de dezenas de milhões de pessoas. Uma verdadeira tragédia.

        Logo, parece-me claro que se alguém disser que os EUA vão bem nos últimos anos, apenas se a métrica for crescimento econômico, pois de longevidade e saúde o país está indo muito mal.

       Para se ter uma concretude maior com a sua vida, pense você mesmo prezado leitor. Você preferiria viver com saúde até os 85 anos e ter um iphone, ou você preferiria viver até os 60 anos com dores constantes, mas trocando de telefone a cada ano?  A resposta sua, leitor, parece-me óbvia. Na verdade, a pergunta parece até absurda, apesar  dos EUA como um todo estarem escolhendo metaforicamente o "iphone com diabetes e menos longevidade". 

     Se parece tão evidente , por qual motivo essa ênfase quase que exclusiva, principalmente quando se fala de países e não indivíduos, em apenas métricas materiais? A resposta simples para isso é que durante muitos e muitos anos, na verdade ao longo da esmagadora maioria da história humana, quanto maior a riqueza material maior era possibilidade de uma vida mais longa saudável.

        O PIB Per Capta é uma métrica que com certeza, e não preciso nem olhar dados para isso, possui uma correlação positiva com expectativa de vida. Lógico, é muito mais fácil se viver mais e melhor, se as necessidades nutricionais não são um problema diário, se há estradas mais seguras para se locomover, etc. etc. Logo, um aumento da riqueza produzida com certeza irá levar a um aumento da expectativa de vida, principalmente nos estágios iniciais de uma sociedade.

            Isso é óbvio e ululante, apesar de ser repetido ad nauseaum por economistas e pensadores das mais variadas matizes. A pergunta muito mais interessante, porém, é se essa relação é linear, ou seja, se um aumento cada vez maior do PIB Per Capta, independente de outras métricas, irá ocasionar um aumento da expectativa de vida, e o mais importante de uma longevidade saudável.

         Aqui, na maioria dos entusiastas e blogueiros de finanças pessoais, há a criação de uma enorme dissonância cognitiva.  O coletivo e o individual parecem se dissociar completamente (é verdade que há muitas pessoas que acreditam que não existe nem mesmo sociedade, mas apenas indivíduos, principalmente aqueles que leram Any Rand sem muito senso crítico, porém acho isso uma enorme tolice, até mesmo do ponto de vista biológico). Por qual motivo?

           Ao falar das próprias vidas e aspirações, os entusiastas pelo conceito de Independência Financeira querem chegar num determinado montante financeiro, pois daí poderia gozar de sua liberdade de forma plena, poderiam em outras áreas da vida, que não envolvem necessariamente o acúmulo de mais bens, achar o que realmente faz sentido. Poderiam encarar as perguntas existenciais que realmente são importantes de frente. Isso é ótimo. Eu estive nesse caminho, há certo tempo eu gozo do que chamam “independência financeira”, e acho bacana que muitas pessoas estão despertando para esse fenômeno.

           Qual é a ideia implícita da independência financeira? A ideia de que há algo mais do que dinheiro, que há porções de nossa vida, de nossos relacionamentos, que vão além da simples questão material.  Reconhecer essas questões significa que o dinheiro, ou bens materiais, deixam de ter importância? Com certeza, se a pessoa encarar de frente os seus “demônios”, suas dúvidas existenciais mais profundas, a importância de sucesso, dinheiro, etc, perderá um pouco (ou às vezes muito) o brilho que exerce sobre parcela significativa de nossa sociedade.

       Porém, mesmo deixando para lá a reflexão do último parágrafo, é evidente que reconhecer parcelas da realidade que não são afetadas pelo dinheiro, e não dependem dele, obviamente não retira a importância do mesmo. No caso da independência financeira, isso é ainda mais evidente, pois a acumulação de dinheiro é uma ferramenta a mais para se poder lidar com essas outras questões.

           Muitos leitores provavelmente concordarão com o que foi dito sobre independência financeira, mas quando a análise se passa para como sociedades encaram esse problema, há um giro de 180 graus e uma dissonância cognitiva que muitos nem percebem que estão tendo. Quantas e quantas vezes eu já não li em artigos mais ou menos profissionais (no sentido de escrito por economistas ou pensadores mais conhecidos ou não) sobre o fato de que países nórdicos poderiam ser muito mais ricos se quisessem. Se não houvesse uma tributação tão alta, se não houvesse benefícios sociais tão generosos (ou se não houvesse nenhum), países como a Dinamarca, por exemplo, poderiam ser ainda mais ricos. 

             É claro que talvez poderiam, ou talvez não, vamos partir do pressuposto que poderiam ter uma renda per capta maior.  A pergunta essencial (a indagação óbvia) é se isso teria ou não algum custo no bem-estar da população como um todo.  Eu, Soulsurfer, poderia ter continuado Procurador Federal, e junto com meu patrimônio atual, mais operações em leilões, mais rentabilidade financeira,  mais aportes do salário do cargo, com certeza o meu patrimônio seria ainda maior. Porém, isso teria algum custo? É evidente que sim. Já passamos por isso na reflexão sobre independência financeira. Porém, uma busca desenfreada por mais Pib Per Capta no caso de uma Dinamarca, por exemplo, iria ser sem custos?

              A Dinamarca, atualmente, aparece como o terceiro país mais “feliz” do mundo. Na verdade, talvez a palavra correta seja satisfeito, e não feliz. Durante muitos anos a Dinamarca foi o primeiro nesse ranking elaborado pela ONU, e a diferença para o primeiro lugar é tão pequena, que se pode considerar que há um bloco de países extremamente satisfeitos com a vida.

   Eu já escrevi sobre esse tema também neste artigo Um Guia Prático Para o Estudo da Felicidade, mas para o leitor que não leu ou não quer ler, basta observar que o índice de satisfação é baseado não apenas em Pib Per Capta (apesar de ter um peso enorme), mas em suporte social, generosidade, liberdade para fazer escolhas e senso de viver num local sem ou com corrupção.


                
         Como a Dinamarca durante muitos anos esteve em primeiro lugar nesse index, e atualmente está quase em primeiro lugar, qualquer um que reflita seriamente sobre o tema, precisa pensar se haveria ou não custos para o bem-estar geral da população Dinamarquesa eventuais mudanças bruscas na forma como eles conduzem sua própria sociedade. De uma perspectiva de análise de risco, seria arriscar muito (bem-estar geral da população) sem qualquer ganho óbvio (o país com o maior bem-estar humano do mundo em várias perspectivas), pois fica difícil imaginar uma melhora ainda maior na sensação de felicidade dos Dinamarqueses.

             Só essa pergunta, esses dados concretos, deveria fazer com que todos que já escreveram ou refletiram sobre o tema parassem para pensar um pouco mais. É evidente que isso não se trata de esquerda x direita, ou se há um socialismo nórdico ou se há um “mito” de um socialismo nórdico, a questão é ordens de grandeza mais complexa do que isso, e envolve economia, biologia, sociologia, antropologia, filosofia, e muitos outros mais ramos do conhecimento. Qualquer resposta de apenas um ramo é capenga por natureza, generalizações seja de qualquer lado é apenas uma muleta, e muitas vezes é simplesmente falso.    

                Encaminhando-me para o final, e tentando juntar todos os conceitos e várias idéias tratadas nesse artigo. Como serei pai daqui algumas semanas, venho lendo diversos livros sobre o tema paternidade, criação de filhos, etc. Um desses foi o interessante livro "O Segredo Da Dinamarca".



               O livro trata da história de uma jornalista inglesa que resolve mudar para a Dinamarca e morar um ano nesse país. Jornalista londrina, estressada pela vida na cidade grande, querendo sucesso e fama na carreira, ela resolve acompanhar o marido que vai trabalhar para a famosa produtora de brinquedos Lego. A sede da companhia é numa pequena cidade do interior da Dinamarca, e a autora conta, em cada capítulo que representa um mês, os detalhes, a cultura diversa, e como ela sendo estrangeira encara tudo aquilo. Desde a preço de carros, passando por grupos de Hobbies, culinária, impostos, e muitos outros tópicos. 

       Cito esse livro não por ser um tratado denso sobre a Dinamarca, mas por ser um livro leve e divertido sobre esse país. Um dos fatos que mais me chamou atenção no livro é que os Dinamarqueses trabalham "pouco" se comparado com outras sociedades.  A autora narra que a coisa mais normal do mundo é o expediente de trabalho terminar às 4 da tarde para que o Pai (não necessariamente a mãe) possa ir buscar os filhos na escola. Ou que é extremamente normal, e na verdade apreciado socialmente, que as refeições sejam feitas em família, geralmente lá pelas seis e meia da tarde.

          Quem não quer pegar o filhinho na escola às quatro da tarde? Ou jantar com a família às seis e meia ao invés de estar dentro de, nas palavras do blogueiro Mister Money Mustache, uma enorme cadeira de rodas ambulante parado no trânsito de alguma cidade? Aparentemente, os Dinamarqueses fizeram e fazem todos os dias uma escolha: a independência financeira, ou melhor dizendo uma semi-independência financeira. Melhor ainda, que tal uma vida mais equilibrada? Não é isso que você procura prezado leitor ou blogueiro?

          Isso não é apenas uma especulação, isso aparece nos dados. Os Dinamarqueses fazem uma escolha consciente (aparentemente) entre menos dinheiro e mais tempo para outras coisas importantes na vida. Como é possível saber? Olhem o gráfico abaixo:


Talvez não esteja tão visível, veja os dados aqui

         Se comparado aos EUA, por exemplo, o trabalhador médio dinamarquês é aproximadamente 15% mais produtivo por hora trabalhada, mas sua renda per capta é razoavelmente menor. Por qual motivo? Porque a Dinamarca é socialista? Porque tem muitas regulações? Porque o "espírito animal" empreendedor não floresce lá? Não. Simplesmente porque um dinamarquês trabalha em média 370 horas a menos por ano do que um trabalhador americano médio. 

        Essas 370 horas a menos por ano podem ser usadas para ficar mais com a família, ter um hobbie, meditar, refletir mais sobre a vida, viajar mais, etc, etc. Isso ocasiona que um trabalhador médio dinamarquês seja mais "pobre" do que um americano, mas possua uma qualidade de vida muito maior, e isso é captado pelo ranking de satisfação pessoal que leva muitas métricas em conta. Se a pessoa trabalha muito, ela terá menos tempo para fortalecer relações sociais com vizinhos, por exemplo, e há muito é sabido que suporte social e boas relações na comunidade são uma parte importante de nosso bem-estar.

       Logo, a Dinamarca parece ser um país que optou por caminhar em direção a uma "independência financeira". Portanto, ela deveria ser um exemplo para nós que gostamos do conceito, e não o contrário. Talvez essa minha reflexão sobre "independência financeira" para países não faça muito sentido, talvez não faça o menor sentido. Porém, com certeza, mostra o quão complexa, e muito mais interessante é a questão sobre dinheiro, bem-estar, seja no nível individual, seja no nível coletivo.

       
Esse é o livro citado no começo, onde o autor diz que teve os maiores insights depois de aprender mais sobre biologia (sendo o seu ramo de formação e profissional gestão administrativa)



Comecei a reler esse grande livro de um dos maiores biólogos de todos os tempos que viveu mais de 100 anos

Este também estou lendo (geralmente antes de dormir). São mais de 600 páginas sobre a história do Câncer, desde o antigo Egito até as modernas técnicas de quimioterapia.


  
   Um abraço a todos!



domingo, 14 de outubro de 2018

O GRANDE CONSELHO: ACEITO EFUSIVAMENTE EM FINANÇAS PESSOAIS, IGNORADO OU DETESTADO NAS DEMAIS RELAÇÕES


                “Eu comecei no mercado financeiro sem muito conhecimento e muito confiante, aprendi a duras penas que não poderia confiar tão cegamente nos meus instintos quanto se trata de mercados. Não há dinheiro fácil!”. “Eu fazia Day trades, ganhei muito no começo, mas acabei quebrando a cara e vi que não era tão simples, hoje escolho boas empresas que possuem índices fundamentalistas excelentes”. “O pior inimigo do investidor é ele mesmo”.

                As frases acima (inventadas) poderiam  ter sido retiradas da história de algum blogueiro de finanças, ou talvez de algum livro sobre investimentos. Em certo momento, mesmo um investidor amador como eu, se dá conta que realmente o maior adversário para bons investimentos é a própria pessoa.  Livros clássicos sobre o tema dedicam várias páginas sobre a necessidade de o investidor conhecer melhor a si mesmo, suas fraquezas, os seus receios, suas tolerâncias a riscos, e apenas depois de um profundo processo de auto-análise, começar a esboçar algumas estratégias de investimento para a perseguição de certos objetivos financeiros.

                Isso é ponto pacífico na técnica sobre finanças pessoais. Não há discussão a respeito do ponto. Não há nenhum livro, ou autor sério, dizendo que é desimportante saber suas próprias limitações, pois não teria nenhuma influência nos resultados financeiros.

                Mas, se isso é verdade para finanças pessoais, seria para outras áreas da vida? É importante se conhecer para melhor navegar pelas vicissitudes de nossa existência? A resposta parece óbvia, não? Como saberei que hobby fazer, se eu não me perguntar o que gosto de fazer? Como saber que trabalho se dedicar, se não se pergunta  o que se quer com o trabalho? Como ter uma existência mais plena, se não se sabe o que são as coisas e situações que levam a um maior bem-estar?

                Isso não é novo. Aliás, é muito antigo, e está quase que na gênese da filosofia ocidental, e muito provavelmente oriental. Afinal, já há milhares de anos estava escrito no Tempo de Apolo na antiga cidade de Delfos a célebre frase: “Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o universo e os deuses”. O processo de iluminação de Buda foi um processo profundo de autoconhecimento.  Logo, o autoconhecimento, a crítica pessoal, é  há bastante tempo celebrado como uma das ferramentas mais importantes ao alcance de uma pessoa para a sua evolução, seja no ocidente, seja no oriente.

                Porém, voltemos para algo mais mundano como investimentos. Por qual motivo é tão importante conhecer a si mesmo? Há diversas razões. Imagine tolerância a risco. O que torna uma pessoa mais ou menos tolerante ao risco? Há explicações genéticas . Há explicações epigenéticas. Há explicações ambientais. Há explicações fisiológicas, como pessoas com maior nível de testosterona, por exemplo, tendem a ser mais tolerantes ao risco. Ou seja, é extremamente complexo para um terceiro explicar o motivo de alguém ser mais ou menos tolerante ao risco.

                E por qual motivo é importante saber a tolerância ao risco? Se uma pessoa com pouquíssima tolerância ao risco resolve investir uma parte substancial do seu capital numa operação mais agressiva, ou num ativo mais volátil, a probabilidade dela se assustar com resultados negativos é muito maior, e com base emotiva, e não racional, tomar decisões péssimas na pior hora possível.

                Logo, se essa pessoa realmente tivesse refletido sobre si mesma, sobre seus reais limites de tolerância ao risco de perda, ela provavelmente não faria um investimento arriscado, ao menos não numa quantia razoável em relação ao seu patrimônio. A pessoa, por um processo de autorreflexão, reconhece uma limitação sua, aceita esse fato e segue com a vida.  Nem todos servem para serem empreendedores em áreas completamente novasE não há nenhum problema com isso. Por outro lado, ao refletir profundamente sobre nós mesmos, não descobrimos apenas falhas, mas também qualidades e pontos fortes, e isso é fundamental para saber melhor aproveitar esses nossos pontos positivos.

                O processo de reflexão e autoconhecimento é para identificar pontos fortes e fracos, para que aqueles não nos façam tomar decisões erradas e para que estes possam fortalecer os processos decisórios.

                Agora, depois de uma página e meia de escrita, eu pergunto a vocês leitores: “Num debate é mais fácil ter um bom desempenho quando desconhecemos ou quando conhecemos o nosso antagonista?”. A resposta parece óbvia, pois ela é intuitivamente óbvia mesmo. Quando eu jogava xadrez semi-profissionalmente, antes da preparação de uma partida importante, procurava conhecer o estilo, as aberturas, pontos fracos e fortes do  adversário, especialmente se era uma partida por um campeonato mundial (eu participei de alguns).

                Quanto mais é possível conhecer de um adversário, seus pontos fracos e fortes, melhor é a possibilidade de se extrair uma estratégia mais eficiente para enfrentá-lo, seja numa partida de xadrez, numa entrevista a um cargo, ou num debate presidencial.

                Falando em política, mas isso se aplica a qualquer área, um erro comum cometido é não reconhecer que o adversário tem qualidades. Isso é um erro primário, mas é repetido muitas e muitas vezes.  O viés de confirmação e câmaras de eco (assunto tratado alguns artigos atrás nesse blog) são aspectos que prejudicam o reconhecimento das virtudes de opositores. Mídias sociais apenas amplificam esse problema. Porém, mesmo que seja cada vez mais difícil, esse fato não impede que possamos quebrar esse ciclo, e reconhecer as virtudes de idéias contrárias e de antagonistas.

                Há diversas razões pelas quais deveríamos fazer isso mais constantemente. Há uma de ordem meramente utilitária. Ao conhecer os erros e virtudes de meus adversários, ou de suas idéias, eu posso estar muito mais habilitado a traçar estratégias efetivas para conseguir algum objetivo.  Para além desse argumento, eu, Soulsurfer, acredito que ao reconhecermos que nossos debatedores e contendores são tão humanos como  a gente, ao analisarmos que eles possuem pontos fortes e fracos assim como nós, fica muito mais fácil criar laços de empatia. Empatia é a maneira mais eficaz e fácil de criar relações mais construtivas e vidas mais significativas. É a maneira mais fácil também de diminuir conflitos agressivos e comportamentos de ódio.


                Seja qual for o argumento a se utilizar, a análise e a compreensão das posições e atitudes de outros é fundamental para que possamos traçar estratégias mais efetivas no dia a dia numa gama variada de atividades e situações. Logo, se para você as frases do primeiro parágrafo fazem total sentido, se “conhece-te a ti mesmo” parece um dos conselhos mais sensatos já proferidos, a extensão lógica disso é o esforço para entender e compreender as fraquezas e forças de oponentes ideológicos, profissionais, amorosos, esportivos, etc.

                Difícil? Para mim, e creio que essa é uma das minhas qualidades, não é nem um pouco. Porém, talvez isso se deve há vários anos de reflexão e tentativa e erro. Para muitas pessoas esse tipo de conduta pode ser um desafio e tanto.  Em última instância cabe a cada um decidir como quer se portar na vida, mas saiba que a ignorância seja de si mesmo ou dos outros sempre cobra um preço, e em muitos casos ele não é nada barato.

                Um abraço a todos!

terça-feira, 25 de setembro de 2018

MINHAS CONVERSAS COM "DEUS" E A DESPEDIDA DE UM BOM AMIGO


                Deus existe? A essa pergunta muitas mentes brilhantes devotaram vidas inteiras no passar dos séculos de história humana. Eu fui muito, como quase todas as crianças o são, influenciado pelo meu Pai e Mãe nesse assunto. Minha mãe nunca me obrigou a ir a nenhuma igreja, e nunca teve alguma devoção mais forte a algum culto institucionalizado. O meu Pai, por seu turno, falava coisas , quando eu era um menino de menos de 8 anos, como  “O finito não consegue entender o infinito” ou “quando o nada percebeu que era alguma coisa tudo começou” quando o assunto era religiosidade.

                Minha mãe, porém, instilou em mim o hábito de rezar todos os dias. Porém, a reza era sempre eu que fazia, nunca foi uma reza pré-determinada como um “Pai Nosso”. Um dos momentos, em relação a esse assunto, que mais me marcou foi quando o meu pai me ensinou alguns conceitos defendidos pelo filósofo do século 17 Espinoza. Meu pai então, num restaurante, me disse que Deus não se intrometeria em assuntos humanos, não faria sentido que Ele escolhesse algum lado numa disputa, e não adiantaria rezar para pedir alguma vitória seja no que for.

                Isso ficou comigo. Desde aquele momento, eu comecei a rezar todos os dias sempre pedindo iluminação (ou alguma outra forma menos sofisticado que um menino-adolescente poderia se expressar) e agradecimento pela minha família e por ter saúde físico-mental. Desde sempre eu faço isso. Não existe um único dia que eu não tenha rezado. Eu posso estar colapsado de cansaço depois de 15 horas de uma trilha no meio do nada na Mongólia, mas eu não entrarei no saco de dormir e descansarei enquanto não tiver feito uma prece.

                Nenhum dia da minha vida eu deixei de fazer uma oração, talvez uma exceção quando dormi no estacionamento de uma grande festa que acontecia na cidade na minha época de faculdade. Pensando bem, talvez nessas ocasiões, que ocorreram raramente, eu posso ter ficado sem orar.  Porém, isso foi a exceção da exceção. Nunca pedi nada de material nessas orações, e sempre agradeci o que tinha.

                Boa parte, como isso se transformou num hábito, das minhas orações é feita no automático. Tenho que reconhecer que não há uma intenção tão profunda. Porém, há certas ocasiões, quando algo me tocou emocionalmente, que a minha prece se transforma em algo muito profundo, e não raramente eu choro copiosamente emocionado.

                É com Deus com quem eu falo? Eu, sou um grande admirador de pessoas como Dawkins, Carl Sagan, Sam Harris, entre outros. Para quem não conhece, eles são ateístas, ou pelo menos agnósticos, e sempre foram ferrenhos críticos do obscurantismo que a religião pode se transformar. Logo, eu sinceramente não sei nem mesmo se Deus, uma entidade sobrenatural (ou seja fora do universo natural), realmente existe. O finito (eu) dificilmente teria condições de entender algo infinito (Deus, se ele realmente existisse como a realidade última de tudo).

                Porém, se não é para Deus necessariamente que eu dirijo as minhas preces para quem será? Eu , sinceramente, não sei. Talvez seja para a minha própria consciência, onde em certos casos eu posso ter diálogos profundos e intensos com ela. Não sei. É um hábito que me foi colocado desde a minha infância, com o qual o meu ser foi reagindo à medida que eu evoluía e crescia.

                Nas últimas semanas, eu algumas vezes intensamente orei. Isso se deu porque um bom amigo faleceu. Eu já tinha falado desse amigo nesse artigo: O Surfista-Garçom de coração grande

                O Lau (o Wad como eu chamava) era um sujeito fantástico. Sempre sorrindo, sempre, sem exceção. Ele desarmava tudo e todos com o seu sorriso e jeito. Um ser humano iluminado. Eu fiz amizade com ele, pois ele era garçom de uma pizzaria que sempre frequento. Eu acho isso fantástico. Como é possível sim termos relações muito mais amistosas e intensas em condições onde socialmente não se espera isso. Com quantos garçons não interagimos, ou esquecemos-nos de interagir, e em quantas relações dessas se desenvolve alguma profundidade, mesmo que seja apenas no instante?

                Uma das primeiras pessoas que fiz questão de encontrar depois que voltei da minha viagem de dois anos foi o Lau. Ele estava na quarta sessão de quimioterapia, não tinha encontrado um doador de medula. Fui à casa dele, e ele estava bem magro e careca. Nem parecia o Lau que conhecia, mas o sorriso no rosto não traía quem ele era.

Eu e Lau no meu retorno de viagem


                Durante algumas horas ficamos eu, minha mulher, o Lau e sua esposa conversando sobre a vida e viagens. Lau era amante do surfe e de viagens. A quimioterapia deu resultado, e ele começou a melhorar e melhorar. No ano de 2017, ele viajou para tudo que é lado, e surfou muito. Sempre o via passeando com dois cachorros enormes nas redondezas.

                Há um mês atrás, ele apareceu na pizzaria (ele não trabalhava mais lá há um tempo), e ele estava muito bem, tanto que eu  disse “tá bonitão em Wad!”. Sorriso e simpatia em pessoa. Alguns dias depois desse encontro, minha companheira me diz "o Lau morreu". O quê? Como?

                A leucemia voltou fulminante e ceifou a sua vida em questão de dias. Caralho! No mesmo dia, o seu corpo estava sendo velado e resolvi ir ao velório. Nunca tinha ido a um velório e nunca tinha visto um corpo sem vida. Vi Lau, imóvel, sem vida, e aquilo teve um impacto muito forte. A energia de alguém sempre sorrindo se foi (ao menos naquele corpo, para quem acredita em reencarnação ou em alma). Aquilo realmente me impressionou bastante.

                No domingo, numa cerimônia muito bonita, nos despedimos de Lau. Seus amigos surfistas (eu incluso) remamos no mar, nos demos as mãos e dissemos “até logo” para o nosso amigo, enquanto suas cinzas eram jogadas no meio do círculo que se formou. Foi uma bela forma de nos despedirmos dele, num ambiente que ele tanto gostava.



                Ele não era um amigo tão íntimo, e nem o conhecia tão profundamente, mas posso dizer sem sombra de dúvidas que ele teve um impacto positivo na minha vida. Ele jogou luz em minha vida. Ele era, e continua sendo, um exemplo de como posso melhorar a forma que reajo a outros ou a adversidades. Ele, para nós que gostamos de finanças, era super antenado com conceitos de independência financeira, tanto que se equilibrando entre trabalhos de garçom e de shaper de pranchas de surfe, conseguia viajar para Havaí, Polinésia, Indonésia, América Central. Ele um dia me disse que vivia bem junto com a esposa com menos de R$ 1.000,00. Não sei se era verdade, mas com certeza ele era um exemplo claro de como podemos ter vidas muito melhores e fazermos o que quisermos, mesmo com patrimônios não tão grandes.

                Em suma, ele era um exemplo.  Creio que uma medida de sucesso na vida, talvez uma das maiores, não é o quanto de dinheiro você deixa para os seus herdeiros, ou o tamanho e riqueza do seu enterro, mas o número de pessoas que realmente foram tocadas pela sua vida. Ao ver pelos choros e reações das pessoas, Lau tocou positivamente a vida de muitas pessoas, e essa é uma inspiração para que eu melhore como ser humano ainda mais, para que eu possa ser um agente positivo para outros seres humanos.

                Envoltos nesses pensamentos e sentimentos, eu rezei para Deus ou minha consciência, e chorei algumas vezes nas últimas semanas. Choros de tristeza, emoção e alegria, ao pensar na minha vida, nos meus pais, na vida da minha filha que está por vir, nos meus amigos, na minha companheira, nos meus erros e acertos. Só tenho agradecer de poder ter sido o seu amigo, Lau.

                Hoje de manhã, minha mulher me liga chorando da rua às 8:00 da manhã. Eu não entendo direito o que ela fala, mas, não sei por qual motivo, compreendo que alguma coisa teria acontecido com a nossa filha. O meu coração foi a boca e um desespero tomou conta de mim. Ela me disse então para se acalmar, e ainda chorando disse que a “branquinha tinha morrido atropelada”. Com um misto de alívio de não ser nada com a minha Serena, e tristeza pelo cachorro, eu tomo conhecimento do que ocorreu.

                A branquinha era um dos cachorros que há vários anos habita a rua. Quanto carinho já não fiz nela. Ela, junto com o “negão” foram adotados por um casal de amigos da rua. Já estavam ficando velhinhos, e foi ótimo eles terem um lar e alguém que os cuidasse nesses últimos meses. Infelizmente, hoje de manhã, ao descer para passear, ela correu em direção a um ônibus e foi atropelada.


A Branquinha brincando nas dunas perto do mar na frente de casa

                Vi o seu corpo sem energia e movimento num saco plástico sendo levado pelo caminhão que recolhe animais para serem incinerados. Um corpo com vida, energia, há algumas horas, para um corpo sem vida. Fiquei triste com o falecimento dela.

                Pessoas iluminadas partem dessa vida, fatalidades com animais que gostamos acontecem, coisas mudam e a vida não nos pergunta nada. Talvez a única forma, pois não podemos controlar o destino, é tentar viver no momento presente da melhor forma possível. Enquanto você está com aquela pessoa que gosta, tentar viver da maneira mais intensa possível aquele momento. Essa talvez seja a única forma de vivermos bem, e quando fatalidades e momentos de despedidas chegarem, nós termos a consciência de que ao menos vivemos com aquela pessoa, e aquela situação, da melhor maneira possível.


Valeu meu amigo


                Um abraço Lau.


quinta-feira, 20 de setembro de 2018

UM ARTIGO SOBRE INDEPENDÊNCIA FINANCEIRA - OU TALVEZ NÃO


                Eu gostaria de ter dinheiro para poder comer 10kg de salmão fresco por dia se eu realmente quisesse. Se eu não conseguir ter dinheiro para possuir ao menos quatro carros de luxo, hum, não sei se eu posso me considerar numa posição confortável financeiramente. As torneiras da minha casa de 750m2 precisam ser de prata, pois , bem, se não for de prata vai ser do quê?

                Quer se juntar à insanidade do parágrafo anterior ou a algo parecido? Ótimo, bem-vindo ao paradigma que é empurrado consciente e inconscientemente no imaginário popular. Na minha lista de blogs ao lado, há alguns blogs estrangeiros sobre independência financeira. Atualmente, eu não leio nenhum deles, pois acho os artigos repetitivos, chatos e enfadonhos. A temática de alguns é sempre algo como: “O que fazer depois da Independência Financeira?”, “É legal ser independente financeiramente?”, “Conselhos para um jovem conseguir IF?", é muito chato.

                Talvez esse enfado, ao menos na minha interpretação, deriva do meu estágio atual de vida e das minhas reflexões atuais. Há um ano, eu consumia esses artigos, ou ouvia Podcasts estrangeiros sobre o tema. Ora, desde 2012 eu consumo material sobre independência financeira, e foi uma jornada que me levou a uma gama enorme de leituras, reflexões e atos na vida prática. Porém, atualmente, acho extremamente repetitivo os argumentos.

                É difícil achar algum texto, envolvendo dinheiro e satisfação de vida, que realmente toque nas questões centrais e realmente importantes para a vida humana. O antológico Mister Money Mustache é uma grande e honrosa exceção. Os seus artigos são um grande estímulo para reflexões profundas de como vivemos e como nos relacionamos com outros seres humanos, e o ambiente de uma forma geral, tendo como pano de fundo o que se chama de independência financeira.

                Colegas leitores, não é um desestímulo a ninguém, e muito menos um menosprezo a quem escreve e está se dedicando a esmiuçar e incentivar as pessoas a ser mais conscientes com o uso do seu tempo (pois independência financeira não tem como foco principal o dinheiro, mas sim o tempo, se você não percebeu isso, sugiro que reflita mais, aliás muito mais sobre o tema). Acho na verdade extraordinário que uma pessoa envolta em tanta desinformação, possa com um simples clique ler artigos escritos de uma forma descontraída sobre esse tema.

                Hoje enxergo com clareza como é insana a preocupação em ter dinheiro aos 80 anos, e isso de alguma maneira ser um impeditivo para a tomada de ações para bem melhor usar o tempo no presente. É insano, e é uma insanidade que ainda persiste em mim. É uma briga constante. E esse é um dos grandes engodos em todo o movimento de independência financeira.

                “Como assim? Não entendi. Você sugere que não pensemos em nossa situação financeira aos 80 anos, mas isso não é o que todos fazem, o discurso de viver o presente em detrimento do futuro?”. Não, prezados leitores.  A vida só se vive no presente, é impossível se viver no futuro.  Isso não significa que ações feitas no presente podem ter impacto de como o futuro se apresentará.  Porém, não é possível, se você é uma pessoa de 38 anos como eu, ter a mais vaga noção de como a vida será quando eu tiver 80 anos. Posso, e isso não é uma probabilidade baixa, nem mesmo chegar a essa idade.

                Condicionar uma vida não ótima no presente aos trinta e poucos anos para ter uma pretensa segurança maior aos 80 anos, é uma troca que não faz o menor sentido.  Como assim uma troca? Já escrevi dois artigos apenas sobre isso, mas a segurança de uma taxa de retirada de um portfólio é inversamente proporcional ao tempo de acúmulo. Simples assim.

                Às vezes, e eu me incluo nisso (principalmente num passado não tão remoto),  nós colocamos amarras em nossas vidas que existem única e exclusivamente em nossas mentes. Talvez todas as amarras existam apenas em nossas mentes. Aliás, não, com toda absoluta certeza as amarras existem apenas em nossas mentes, mas essa é uma discussão que prefiro não estender nesse texto.

                Conversarei com aquela garota bonita na festa daqui 20 minutos. Ou, deixarei essa cidade que me faz infeliz, quando atingir X reais.  Ou, largarei minha ocupação que não me deixa feliz, quando eu puder retirar apenas 3% do meu patrimônio, pois, conforme estudos estatísticos, ao chegar aos 85 anos eu terei 98.7% de chance de ainda ter dinheiro, ao contrário de 92.4% se eu retirar 3.3% ao ano corrigido pela inflação. Essas são amarras auto-impostas pela sua mente.

                O mundo é grande. Sim, ele é grande. Isso pode parecer óbvio, mas para a esmagadora maioria não é. As pessoas, nem que a nível inconsciente, realmente acreditam que os sete bilhões de seres humanos pensam e vivem “mais ou menos” como elas vivem.  A ignorância, e aqui é ignorância no sentido de ignorar, não conhecer, de quase todos sobre o próprio planeta é imensa. Talvez por isso, pelo desconhecimento quase total, seja possível que discursos políticos tão inacreditáveis em pleno século 21 possam florescer.

                A ignorância não é apenas externa, ela é principalmente interna. Quantos de nós realmente nos conhecemos? Quantos de nós realmente sabemos o que profundamente queremos? Ou a mais essencial, quantos de nós realmente sabem quem são? Aliás, quantos de nós já se fizeram essas perguntas ou quantos de nós acreditam que isso tenha alguma relevância?

                Espero que se perceba o quão importante o conhecimento externo, e principalmente o interno, é para a vida de cada um, e como isso se relaciona a um subtópico de assuntos humanos que é finanças e a um subtópico do subtópico chamado independência financeira.

                A ignorância em relação ao mundo e a nós mesmos é a forma assegurada para a insatisfação com a vida. Todo esse texto foi elaborado após ler um artigo, desses blogs de finanças estrangeiros que atualmente acho enfadonhos (sim, resolvi mesmo assim ler), sobre quanto seria necessário para se sentir “rico”.  Eu fiquei abismado com as respostas, pois oriundas de um site sobre independência financeira, e observei ali um claro padrão de amarras auto-impostas, senso de segurança para um futuro longínquo que é uma quimera e talvez uma privação no momento presente de uma vida mais significativa.

                É isso, colegas, se a reflexão nesse texto pareceu abstrata demais, paciência. Um abraço!

Obs: Um leitor mais atento poderia perguntar, e onde o primeiro parágrafo se liga com o resto do texto? Apesar de a resposta estar no próprio texto, é uma pergunta razoável. Os desejos irrazoáveis do primeiro parágrafo nada mais são do que tentativa de se ter uma segurança e “conforto” num futuro. Essa roda de desejos, quando confundidas com reais necessidades humanas, nada mais são do que amarras mentais que nos paralisam no presente, e muitas vezes obscurecem o real sentido das coisas, e do que realmente é importante para nós. A ignorância sobre o mundo e as pessoas que o habitam, e principalmente o desconhecimento interno, é um terreno fértil para que isso se prolifere entre as pessoas em graus e intensidades diversos.
                                                                                              

domingo, 9 de setembro de 2018

O QUE É REALMENTE SER POLITICAMENTE (IN)CORRETO?


                Eu, soulsurfer, não convivo com nenhuma mulher negra. Passo por pouquíssimas mulheres negras pelas ruas no meu dia a dia. Nunca nenhuma mulher negra teve alguma grande relevância em relação algum relacionamento mais importante em minha vida. A única mulher negra que lembro que travei mais contato foi uma faxineira que minha mãe contratava chamada Helena quando eu tinha algo em torno de 7-8 anos. Helena era uma mulher alta e “cheinha”. Até hoje lembro que ela era  sempre sorridente, estava sempre sorrindo ou cantando, seja lavando louça ou passando pano.

                Eu gostava de Helena, pelo pouco que lembro, além de ser cativado pelo seu riso e alegria, ela me tratava muito bem.  Helena uma mulher negra e faxineira que vivia numa comunidade periférica de Santos. Uma mulher negra brasileira típica. Tirando Helena não me lembro de ter convivido mais tempo com nenhuma outra mulher negra. O universo de ser uma mulher negra para mim é de todo desconhecido.

                O Universo de ser mulher negra”?”Sim, todos nós fazemos parte da mesma espécie humana, e por causa disso todos nós, homens, mulheres, brancos ou negros, compartilhamos tudo aquilo que nos faz humanos. Porém, é inegável que eu Branco, Homem, Brasileiro tenho um “universo” diferenciado de uma Mulher, Negra e Brasileira.

                Sendo assim, como conviver com mulheres negras não faz parte do meu cotidiano, a verdade é que qualquer afirmação sobre mulheres negras, seja ela “politicamente (in) correta” , ou não,  terá pouco ou nenhum impacto prático sobre a minha vida. 

               Se eu disser em tom jocoso, ou não, que uma mulher negra é comparável a uma leitoa, posso, ou outros podem fazê-lo, classificar essa frase como aceitável, ou não, como politicamente incorreta ou não, mas do ponto de vista prático pouca diferença fará na minha vida. Talvez fizesse uma diferença maior se eu, agora como adulto, tivesse que encarar Helena nos olhos depois de proferir tal sentença, mas atualmente nada mudaria em minha vida.

                Muçulmanos e Islamismo. Eu já tive a oportunidade de estar em incontáveis regiões de maioria muçulmana como Oeste da China, Malásia, Irã, Tunísia, Indonésia, Sul da Tailândia, Quirguistão, Cazaquistão, Quirguistão, Tajiquistão, Sul da Rússia, Turquia, Azerbaijão, inúmeras regiões da Índia como Rajastão, dos que eu me lembro de cabeça.  Não morei nesses lugares, mas convivi um pouco. Sendo lugares com geografias, latitudes e longitudes, história, cultura tão diferentes entre si não é de se espantar que o islamismo tenha características diversas nesses locais. Habitantes locais de credo muçulmano já me hospedaram em suas casas diversas vezes. Eu já almocei e jantei com pessoas dessa religião e conversei com as mesmas sobre inúmeros temas. O conceito de islamismo e muçulmanos é algo com certa concretude para mim.

                Entretanto, e para a maioria das pessoas que moram no Brasil? Será que já entraram numa mesquita, ou foram acordados pelo som de algum minarete chamando para a oração de antes do nascer do sol? Será que já foram hospedados por alguma família muçulmana, será que já conversaram com algum muçulmano? Será que alguém que já foi a um país de maioria muçulmana, ou trabalhou num, vivenciou o islamismo em outros lugares diferentes? Muito provavelmente, não. Os muçulmanos e sua religião, para a esmagadora maioria dos brasileiros, é um conceito abstrato.

                Logo, qual diferença prática irá fazer na vida de um brasileiro médio se ele escreve ou fala algo “politicamente correto ou incorreto” sobre os muçulmanos? Nenhuma.

                Refugiados. Quantos leitores desse blog já foram a algum campo de refugiado? Provavelmente, poucos, ou nenhum. Sendo assim, o conceito de refugiado é algo abstrato derivado apenas de cenas de vídeos ou reportagens de televisão. Logo, se eu tiver uma retórica inclusiva de refugiados ou mais agressiva em relação a eles, politicamente correta ou incorreta, qual diferença prática isso fará na vida de quase todos? Nenhuma.

                Para quem mora na cidade de Pacaraima (eu inclusive já passei por ela, e essa fronteira do Brasil-Venezuela, quando fiz a trilha de ascensão ao Monte Roraima), porém, o tema refugiados se tornou  um conceito bem concreto. Lá um discurso incentivando violência contra refugiados, ou a acolhida dos mesmos, terá conseqüências práticas profundas para boa parte das pessoas que habitam o município de Pacaraima.

                Portanto, quanto mais próximo estamos de algo, alguém ou grupo, mais conseqüências práticas teremos em nossas vidas oriundas de discursos “politicamente (in) corretos”.  Minha opinião é que muitos que acreditam ser a ditadura do politicamente correto  um problema e que proferem discursos "politicamente incorretos" estão apenas se enganando sobre os tópicos realmente difíceis, pois em quase todos eles não há qualquer conseqüência prática em suas vidas diretas. 

           Sim, podemos discutir se um discurso contra refugiados é compatível com os ideais cristãos ou humanos mais elevados, por exemplo, ou se certos discursos podem conduzir a mais ódio e incompreensão em relação a um determinado grupo, ideologia ou etnia. É possível fazer isso, e é salutar. Porém, em última instância, é um exercício mais intelectual do que prático, apesar de acreditar que como vemos a vida e outros seres humanos, mesmo aqueles que nada conhecemos, altera a nossa fisiologia, nosso estado mental e em última instância nosso bem-estar.

                Algo realmente é sensível e politicamente incorreto quando toca a nossa vida no dia a dia, nos atos mais comezinhos do nosso cotidiano, apontando alguma falha lógica, falta de ética, ou qualquer outra coisa. Nossa, aí sim, se está na área do real politicamente incorreto.  E sabe o que mais se encaixa nisso, prezados leitores? Raça, muçulmanos, porte de arma? Não, comida.

                Todos nós comemos, certo? Entre numa padaria e lá está uma esfirra de frango. Olhe para uma mãe apressada fazendo o café-da-manhã e lá está o pão com presunto. Passe num restaurante por quilo, e lá estão 85-90% das pessoas se servindo de carne.  Qualquer discussão sobre sofrimento animal e consumo de carne atinge quase todas as pessoas em cheio nos seus hábitos cotidianos mais automáticos e irrefletidos, ou seja, no verdadeiro cerne de suas vidas.

                O cerne de nossas vidas orbita muito mais no ato de comer, do que falar sobre islamismo, ou política, ou sobre mulheres negras se você é alguém como eu (e muitos leitores nesse aspecto devem ser parecidos). Logo, qualquer reflexão ética sobre o que e como comemos é um ataque frontal ao nosso estilo de vida, ao que é mais natural na rotina de quase todos.  Pode-se eleger o Bolsonaro, e muitos ficarem furiosos. Pode-se eleger algum candidato do PT, e muitos ficarem furiosos. Questione-se a ética do churrasco de todo domingo, especialmente no Rio Grande do Sul, e uma revolução acontece (no sul, talvez até mais forte do que a revolta farroupilha).

                O assunto de longe (muito mais do que globalismo, Trump, Obama, Estado ou Não-Estado, etc, etc) que mais vejo mexer com as pessoas é quando se fala do que elas comem, especialmente se lidar com algum aspecto ético. Não foi uma, nem duas, nem três vezes, foram diversas e diversas vezes. Tive mais um exemplo desse tipo de comportamento num comentário feito no meu artigo anterior.

                Um leitor anônimo, talvez por ter dito que provavelmente votarei na Marina, escreveu que o "Vice da Fada da Floresta" queria fechar todas as churrascarias. O comentário dizia isso textualmente.  Ele se referia a um debate entre os vice-presidentes que ocorreu na semana passada. Esse é o vídeo:


                Sim, o leitor anônimo estava mentindo e deturpando o que tinha sido dito pelo Sr. Eduardo Jorge. Eu realmente não gosto de atitudes assim, pois elas tornam o debate, sobre qualquer assunto, medíocre. Eu não gosto de fazer isso com ninguém e nenhuma ideia, pois eu realmente acredito que se deve fazer um esforço para entender o que, mesmo que seja um antagonista em uma determinada posição, a pessoa realmente disse ou o que quis dizer.

                O mais engraçado desse vídeo é que a jornalista que fez a pergunta foi a mesma que estava no programa roda viva do Bolsonaro, e foi duramente criticada pelos seus apoiadores, com grande dose de razão, já que a bancada daquele programa não foi lá fazer uma entrevista isenta. O Vice candidato de Marina deixou claro que ele possui uma visão ética sobre o assunto, e ele entende que o sofrimento animal é um problema a ser enfrentado.  Por duas vezes ele disse que isso é um posicionamento pessoal dele, mas ele entende que a longo prazo é preciso estimular a diminuição do consumo de carne, pelo exemplo e convencimento, não pela força.

                Ora, isso é uma posição ética dele. Você pode concordar ou discordar, e isso está dentro do jogo democrático. O que o leitor anônimo fez, porém, foi algo completamente diverso e infelizmente muito comum. Ele mentiu sobre o que o vice tinha dito, mas como a mentira é muito facilmente descoberta hoje em dia, ele ridicularizou a ideia do sofrimento animal. Por qual motivo? Pois se o sofrimento animal passa a ser um problema, ou algo que devemos levar em conta, obviamente as atitudes dele mais simples do dia a dia, como comer um salgado, deveriam ser questionadas, ou simplesmente refletidas sobre outras perspectivas.


                Na minha resposta a ele, eu tinha dito que Gandhi havia afirmado que a verdade possuía três estágios. Creio que Gandhi realmente afirmou isso, mas a origem, ao menos conhecida, parece remontar ao grande filósofo Arthur Schopenhauer.



                A ridicularização e o cinismo associado são a forma mais comum de combate a uma ideia que realmente nos desagrada por nos atingir em nosso âmago mais profundo. Isso é humano.  A oposição violenta é aquele estágio onde a ideia que nos confronta é aceita como digna de ser considerada, mas ela é oposta com violência ideológica ou muitas vezes física. Ela é um estágio posterior à ridicularização, pois algo só é combatido com energia quando se entende que este mesmo algo é crível e digno de ser debatido. As formas mais eficazes de não se enfrentar algo é ignorar este algo ou ridicularizá-lo. 

                Quanto mais próximo de nós uma determinada ideia contrária ao que entendemos ser correto, ou seja, quanto mais próximo de ter efeitos práticos em nossa vida cotidiana, mais propenso a ridicularizarmos a Ideia nós estamos. Isso é o verdadeiro politicamente incorreto. É o questionamento constante dos nossos hábitos mais arraigados. Não é à toa que um dos maiores pensadores de todos os tempos, Sócrates, foi condenado à morte.

                Sócrates, segundo se diz (creio que a maior fonte sobre Sócrates seja Platão, já que nenhum escrito de Sócrates sobreviveu, o que fez alguns historiadores e pensadores questionarem a sua existência) , saía pelas ruas de Atenas fazendo os cidadãos atenienses refletirem sobre os seus hábitos mais comuns, e muitas vezes verem o quão errados eles estavam. Imagina você indo pegar um ônibus, e aparece alguém com uma capacidade argumentativa infinitamente maior que a sua demonstrando diversas falhas éticas e lógicas em como você conduz a sua vida. Já imaginou como seria a sua reação? Pois é, os atenienses não gostaram muito.

O gigante Sócrates

                É preciso dizer que eu como carne, e não sou vegetariano, e muito menos vegano. Minha mulher não é vegetariana ou vegana. Porém, nesse caso específico, há muito tempo eu passei da ridicularização ou da oposição violenta, e reconheci que há um problema sério ético sobre sofrimento animal (além de existir questões ambientais e até mesmo nutricionais e de saúde). 

         Certa vez, instigado pela minha curiosidade sobre Inteligência Artificial, eu li uma resposta brilhante de um  cientista ao responder como ele achava que uma IA bilhões de vezes mais inteligente do que um ser humano trataria a humanidade (se chegarmos ao que os cientistas chamam de explosão de inteligência de IA, e muitos acreditam que podemos chegar lá em 60-70 anos): “Do mesmo modo que tratamos organismos menos inteligentes”.

                Sim, há cientistas nas profundezas dos laboratórios do vale do silício, fazendo coisas incompreensíveis para 99.999% da população humana, que acreditam que como tratamos os animais pode ser um indicativo de como uma IA superinteligente pode vir a tratar a espécie humana. Aliás, há todo um ramo de pesquisa sobre como fazer IA alinhada com os interesses humanos, e talvez esse seja um dos ramos de pesquisas mais importantes da humanidade no presente momento, e quase ninguém nem sabe que existe um problema desse tipo. É conhecido como IA Alignment Problem.

                Logo, a relação entre seres humanos e animais para consumo (e há inúmeras outras áreas onde é possível fazer questionamento ético como entretenimento, animais de estimação, animais para pesquisa e para roupas e acessórios) e o sofrimento animal associado é um assunto complexo, multifacetado e que diz respeito ao nosso cotidiano nos atos mais banais e automáticos. Meu conselho é que você passe da ridicularização para a informação sobre o assunto, e se for o caso para a oposição, não necessariamente violenta, mas informada e racional.

                Portanto, e aqui concluo, não se iluda prezado leitor que ao falar sobre refugiados ou muçulmanos, você, ou algum candidato, ou algum pensador, está sendo politicamente correto ou incorreto. O que é realmente politicamente incorreto é aquilo que nos atinge no âmago do nosso cotidiano. E, não, infelizmente o Brasil está longe de estar maduro para tratar desse tema. Um país onde um candidato é esfaqueado tem ainda muitos níveis de civilização para construir antes de enfrentar um tema como esses. Os países mais avançados do mundo e satisfeitos com a vida, como Nova Zelândia e Dinamarca, já incorporaram a temática em sua discussão pública política. O Brasil, infelizmente, está a anos luz ainda desse estágio de consciência coletiva pública.

               Se quer realmente combater o discurso do politicamente correto, e ser politicamente incorreto, comece fazendo questionando os atos mais arraigados, inconscientes e banais do seu cotidiano. Você pode se surpreender com o resultado.

                Abraço!