sexta-feira, 24 de março de 2017

A VERGONHA DE ATLAS

"Dizia-se que Nat Taggart tinha enterrado a sua vida na ferrovia muitas vezes. Mas houve uma vez em que ele enterrou mais do que a vida. Precisando urgentemente de fundos, com a construção da ferrovia suspensa, ele jogou por três lances de escada abaixo um distinto cavalheiro que lhe fora oferecer empréstimos do governo. Depois ele empenhou a própria mulher num empréstimo que fez com um milionário que o odiava mas admirava a beleza de sua mulher. Repôs a dívida em tempo hábil e não perdeu o que dera como garantia. Tudo foi feito com o consentimento da esposa. Ela era uma mulher belíssima, descendente da mais nobre família de um estado sulista que havia sido deserdada pela família porque fugira para com casar com Nat Taggart quando ele era ainda apenas um pobre e jovem aventureiro." (A Revolta de Atlas, página 69, Livro 1)


UM POUCO ANTES


Nat Taggart: Boa Tarde.

Banqueiro: Boa Tarde.

Nat Taggart: O meu nome é Nat Taggart e estou aqui pois quero um empréstimo para poder construir um sistema de ferrovias que irá revolucionar os EUA e…

Banqueiro: Você é Nat Taggart?

Nat Taggart: Sim.

Banqueiro: The Nat Taggart?

Nat Taggart: Sim!

Banqueiro: Uau, você é o Nat Taggart que será o herói ancestral da heroína de um dos livros mais influentes da história de nosso país. Você será o modelo de moral, caráter e força de vontade que irá permear as mais de 1000 páginas. Você será a luz ética que sempre conduzirá a heroína Dagny Taggart nos seus percalços e lutas contra parasitas e homens de pouca ou nenhuma força moral. Você será a imagem da virtude, a virtude que um dia existiu, mas terá sido perdida por quase todos, a exceção de uns poucos iluminados, em tempos futuros.

Nat Taggart: Serei tudo isso? Dany Taggart? É parente? Qual livro?

Banqueiro: Sim, sim. Este livro, que será tão influente como a Bíblia para alguns, será escrito daqui uns 100 anos. 

Nat Taggart: Como é que? Como você pode saber?

Banqueiro dá de ombros.

Banqueiro: Sei lá, sou apenas um personagem criado, pergunte para o autor.

Nat Taggart: Como?

Banqueiro: Deixa para lá, como posso ser útil?

Nat Taggart: Bom, como ia dizendo, preciso de um empréstimo para seguir com o meu plano de construir uma ferrovia e mudar o nosso país para sempre!

Banqueiro: Sr. Nat Taggart, quanto o Sr. quer?

Nat Taggart: Dois Milhões de dólares.

Banqueiro: Isso é muito dinheiro para a nossa época. O Sr.Tem garantias para oferecer ?

Nat Taggart: Não.

Banqueiro: Agora estou lembrando. Não foi o Sr. que empurrou um distinto Sr. que ofereceu empréstimo do governo para a sua ferrovia?

Nat Taggart: Sim, fui eu.

Banqueiro: O pobre coitado não quebrou a coluna e está paralisado do pescoço para baixo?

Nat Taggart: Sim.

Banqueiro: O Sr. é o tipo de pessoa que gostamos de fazer negócios, mas não podemos oferecer essa quantidade de dinheiro sem que o Sr. possa oferecer uma garantia.

Nat Taggart: Veja, estava aqui pensando, sou casado com uma mulher lindíssima.

Banqueiro: E?

Nat Taggart: Veja, ela é uma mulher muito bonita, além de ter um corpo sensual. Além do mais, ela vem de uma família de muitas posses e tradicional do Sul.

Banqueiro: Uma daquelas famílias que explorava mão-de-obra escrava negra?

Nat Taggart: Evidentemente.

Banqueiro: São pessoas com o seu caráter moral que gostamos de negociar, Sr.Taggart. Mas, não entendi onde entra a beleza da sua esposa.

Nat Taggart: Olha, ela é muito bonita, prendada. Faz tudo que eu mando, se eu disser pula, ela pula, se eu disser se ofereça como garantia para um empréstimo bancário, ela se oferece.

Banqueiro: Ainda bem que não inventaram o feminismo na nossa época hein? hahaha!

Nat Taggart: hahaha!

Banqueiro: Mas Sr.Taggart, pelo que estou entendendo, você quer oferecer a sua mulher como garantia para um empréstimo bancário?

Nat Taggart: Quero sim.

Banqueiro: O Sr. não sabia que desde os primórdios do direito romano, há muitos e muitos séculos, a mudança das garantia para uma dívida das pessoas para o patrimônio dos devedores foi um dos grandes avanços da humanidade? Antigamente, antes dos romanos, era comum as pessoas se tornarem escravas por dívidas não pagas. Hoje em dia, esse tipo de coisa além de ser ilegal, causa um certo asco as pessoas normais.


Nat Taggart: Eu sei disso. Mas, eu sou um homem determinado a mudar o nosso mundo. Minha força de vontade é maior do que quase todos os homens somados. Minha força moral é tão grande, que talvez nem Alexandre poderia se comparar. E, veja, ela é muito bonita.

Banqueiro: Sr. Taggart, obviamente o Sr. é uma pessoa de força moral. Esse banco não se importa se você quase assassinou e deixou uma pessoa paralisada para sempre, pois não concordou com a oferta de negócios dele. Também não nos importamos sobre o que o Sr. acredita sobre a escravidão de outros seres humanos baseado apenas na sua cor de pele. Aliás, isso não mostra nada sobre o seu caráter. Agora, não podemos aceitar a sua mulher como garantia. Seria ilegal, não que não fazemos coisas ilegais, e também como classificaríamos a sua mulher nos nossos livros? Desculpe, mas não poderemos conceder o empréstimo.


UM POUCO DEPOIS


Nat Taggart: Mulher, o empréstimo bancário me foi negado. Tentei oferecer você como garantia, mas eles não aceitaram.

Mulher: Você fez o quê?

Nat Taggart: Fui a um banco e tentei oferecer você como garantia, mas eles não aceitaram.

Mulher: Você está louco? Me dar como garantia? Como assim?

Nat Taggart: Mulher, eu sou uma força moral e ética. Irei colocar a minha empresa para bilhar e mudar esse país, e você me pergunta coisas de pouca importância como dar a minha própria mulher como garantia de um empréstimo. Tenha Paciência.

Mulher: Que péssima ideia foi largar a minha vida confortável lá no sul com a minha família nobre e tradicional. 

Nat Taggart: Tenho uma ideia. Tem um sujeito que me odeia. Eu também não gosto dele. Ele é feio, barrigudo, possui aquela doença que faz a pessoa suar sem parar. Diz-se também que ele não é muito bom com higiene. Porém, eu sei que ele aprecia a sua beleza. Sei também que ele possui muito dinheiro. Vou pedir empréstimo para ele e oferecer  você como garantia.

Mulher: Você quer me oferecer em garantia para uma pessoa tão repugnante, que ainda por cima odeia você. Você vai me arriscar a me tornar uma escrava sexual?

Nat Taggart: Sim. E escute. Daqui a 100 anos irão escrever um livro fabuloso. Foi o que ouvi. Eu serei a fonte moral histórica que irá impulsionar uma jovem destemida a lutar contra as pessoas sem falta de caráter. O fio condutor da obra será as relações livres e consentidas. Sendo assim, você irá dizer que aceita ser dada como garantia para um empréstimo, pois com a sua aquiescência tudo parecerá melhor.

Mulher: Mas isso é ridículo. Se este livro realmente vier a existir, como as pessoas não irão perceber que você ofereceu a sua própria mulher para pegar um empréstimo, não para salvar a vida de um filho em risco de vida por uma doença, por exemplo, mas para aplicar num investimento arriscado que pode dar certo, como pode dar errado. E se der errado, eu vou ser uma escrava sexual de um sujeito que odeia você. Ou seja, poderei ter trocado uma nobre e honrada família escravocrata sulista para virar uma escrava sexual de um homem que não desejo.

Nat Taggart: Mulher, pelo que ouvi, o livro terá mais de 1000 páginas. Essa parte será apenas um curto parágrafo. Ninguém vai nem perceber. Além do mais estará no meio de várias páginas que tecem elogios ao firme caráter da minha pessoa, pode acreditar que ninguém irá perceber esse fato.

Mulher: E daí? Se você não pagar, eu vou me dar mal, não que a minha vida contigo seja das melhores.

Nat Taggart: Está decidido. Para fins de posteridade, eu preciso do seu livre consentimento. “Mulher, irei oferecer você como garantia de um empréstimo que pedirei para um homem odioso. Acaso eu não pague, você irá se transformar numa escrava sexual dele. Você aceita essa condição?”

Mulher: É para a posteridade?

Nat Taggart: Sim.

Mulher: Ok, eu aceito, afinal eu sou de uma família nobre e honrada do sul.


O EMPRÉSTIMO


Emprestador: Está aqui os seus dois milhões de dólares. O prazo do empréstimo é de seis meses e os juros são de 10% ao ano.

Nat Taggart: Mas esses juros são extorsivos!

Emprestador: Se é para emprestar por menos, eu empresto para o governo. 

Nat Taggart: Vocês parasitas improdutivos! Emprestar para o governo, ao invés de pessoas produtivas e com caráter moral elevado como eu.

Emprestador: Taggart, não me leve a mal não. É questão de risco x retorno, prêmio de risco, não é nada pessoal, apenas uma decisão financeira racional. Basta perguntar para os investidores de Tesouro Direto.

Nat Taggart: Tesouro o quê?

Emprestador: Esquece. Se o empréstimo não for pago em seis meses, a sua belíssima e suculenta esposa será a minha escrava sexual para sempre. Ela terá que fazer tudo o que desejar, quando eu desejar e como eu desejar.

Nat Taggart: Ok.

Emprestador: Eu disse tudo, tudo mesmo.

Nat Taggart: Ok, apenas me dê o dinheiro.

Emprestador: Eu odeio você. Você não gosta de mim. Sou um homem não atraente fisicamente. Você não tem nenhum peso na consciência de dar a sua bela esposa como garantia de um empréstimo arriscado? 

Nat Taggart: Não, claro que não. Primeiramente, porque ela  livremente aceitou esse fato. Em segundo lugar, porque sou um homem virtuoso que servirá de bússola moral no futuro quando o mundo terá se tornado um lugar de homens apáticos, mal-intencionados e sem força de caráter. E por fim, vai dar certo, irei pagar esse empréstimo.

Emprestador: Seis meses Taggart, seis meses.


UM CISNE NEGRO APARECE E O ATO SE ENCERRA


Nat Taggart: Mulher, se prepare pois irei entregá-la para honrar o contrato.

Mulher: O quê!!! O quê???

Nat Taggart: É isso que você ouviu. Não consegui pagar o empréstimo.

Mulher: Mas você não é a força moral, a salvação ética do futuro, o espírito daquilo que um homem de bem deve aspirar a ser?

Nat Taggart: É claro que sou. Mas, ocorreram problemas imprevisíveis. Sabe, a gente pensava que existia apenas cisnes brancos. Ora bolas, quem já viu um cisne negro?Porém, lendo o jornal parece que num lugar chamado Austrália avistaram cisnes negros. Agora estão usando essa expressão “Cisnes Negros” para eventos inesperados e imprevisíveis.

Mulher: Mas que raio de explicação é essa!

Nat Taggart: É, estava tudo indo conforme o planejado na ferrovia. Mas aconteceu um imprevisto fora das minhas análises, o fluxo de caixa que tinha previsto não se materializou, e não consegui pagar a dívida. Vamos, prepare-se, não esqueça as suas roupas íntimas.

Mulher: Nat! Você não me ama? Não fará nada?

Nat Taggart: É claro que a amo, mais do que tudo. Porém, contrato é contrato. Pacta Sunt Servanda. 

Mulher: Mas isso é um absurdo! Vou virar uma escrava sexual de um homem que possui apenas lascívia em relação a mim por causa de um empréstimo que você fez num projeto que era arriscado. Isso não é justo!

Nat Taggart: Mulher, não seja leviana. Não se comporte como os parasitas do futuro. Homens e Mulheres sem força moral e ética e que vivem às custas de homens honrados como eu. Você consentiu, você disse sim para que eu a oferecesse como garantia. Fizemos uma transação livre e consentida. Não há nada de errado.

Mulher: Mas como isso pode ser certo? Não podemos usar como argumento o caso belamente retratado por Shakespeare no livro “O Mercador de Veneza” quando o juiz de uma forma astuta consegue reverter uma situação parecida com a nossa, fazendo com que o judeu Shylock não pudesse executar a macabra garantia?

Nat Taggart: Quem é Shakespeare?

Mulher: Um dos maiores escritores de comédias, dramas e peças teatrais da história da humanidade. Um homem que de forma brilhante desnudou  as angústias mais profundas dos seres humanos.

Nat Taggart: Teatro? Está de Brincadeira. É por causa de bobagens como essa que daqui 150 anos, o mundo estará virado de cabeça para baixo. Mulher, pare de falar sobre bobagens, o que importa são as ferrovias! E apresse-se, pois o emprestador já está nas portas com uma ordem judicial para a entrega de coisa certa, coisa certa nesse caso é você. Não posso fazer nada.


Mulher: Mas não é assim que o livro acontece, Nat! No Livro você paga o empréstimo!



Burro: É deu ruim, Any Rand.

quinta-feira, 23 de março de 2017

QUEM QUER A VERDADE?


Um Traficante e um Aspirante se encontram


Traficante: Como vai essa vida rotineira? Entusiasmado?

Aspirante: Lá vem você com essa empáfia novamente. Do que se vangloria?

Traficante: Nada não. É que sabe, a vida é curta para fazermos coisas sem graça. O que faço é arriscado? Sim. É ilegal? Completamente. Imoral? Talvez sim, talvez não. Mas ao menos eu tenho emoção em minha vida.

Aspirante: É mesmo, pois sabia que entrei para os negócios! 

Traficante: O que? Você que é tão certinho, vai se arriscar agora a ser pego?

Aspirante: Sou honesto, sim, e não sou idiota.

Traficante: Está me chamando de parvo?

Aspirante: Em certa medida sim.

Traficante: Você está louco?

Aspirante: Não! Não me leve a mal! Mas você vende drogas não?

Traficante: Sim.

Aspirante: Elas fazem mal as pessoas que consomem, não? Principalmente se for consumido em excesso?

Traficante: Claro!

Aspirante: Elas não são permitidas por causa desses efeitos não é mesmo?

Traficante: Se é por causa disso, eu não sei, mas elas não são permitidas.

Aspirante: Essas drogas possuem mercado muito pelo poder viciante delas, não?

Traficante: Isso é óbvio!

Aspirante: Ora, por que não vender substâncias viciantes do ponto de vista químico, mas que sejam legalizadas?

Traficante: Como é que é?

Aspirante: Exatamente o que você ouviu. Por qual motivo ter todo um Estado Repressor contra você: Policiais, Juízes, Mídia, Defensores de valores morais, etc, etc. Se a ideia é atuar num mercado de venda de substâncias que levam  estímulos químicos ao cérebro para que seja criado um hábito de vício, por que não fazer isso de forma legal? Tem ainda um Bônus.

Traficante: Qual é?

Aspirantes: Se pode vender para crianças e você ainda é elogiado por isso!

Traficante: Nossa, ao menos os meus clientes são adultos.

Aspirantes: Pois é, clientes para a vida toda desde o berço hein?

Traficante: Mas afinal, o que você está fazendo?

Aspirante: Sou gerente de uma loja que vende comidas com alto teor de gordura e açúcar refinado especialmente para crianças.


Entra o Dono da Loja e um Burro Falante



Dono: Ei, o que você está fazendo aqui, daqui a pouco começa o seu turno. Não se esqueça do projeto dos brinquedos para as crianças.

Aspirante: Já vou, chefe. Estava falando com um amigo aqui que vende drogas.

Dono: Drogas? Quais tipos de drogas?

Traficante: Ah, aquelas nas quais os consumidores estão mais interessados.

Dono: Mas isso é um absurdo! Você não se envergonha de vender drogas que causam dependência química? 

Burro: Mas o Sr. Não vende produtos que de certa maneira causam dependência química?

Dono: Primeiramente, é diferente. Em segundo lugar, de onde você veio e como um Burro Pode falar?

Burro: Bom, eu também não sei porque eu falo, pergunte para o autor.

Dono: ?

Burro: Deixa para lá. Porém, no que seria diferente?

Dono: O quê?

Burro: O fato de você vender produtos que contém substâncias químicas que podem causar dependência.

Dono: Ah, antes de tudo porque não é contra a Lei. O Estado disse que essas substâncias são permitidas.

Burro: Ué, mas estou lembrando de você. Não foi você que fez uma vez um discurso sobre como o Estado é malévolo, e como estaríamos melhores sem a presença de um Estado e suas regulações?

Dono: Eu já fiz um discurso destes, aliás sempre faço.

Burro: Não é contraditório agora apoiar a diferenciação do que você faz em relação a um traficante de drogas ilegais única e exclusivamente na existência de uma regulação Estatal sobre o que é legal ou não? Regulação esta que você diz que nem deveria existir?

Dono: Não! É diferente!

Burro: Por qual motivo?

Dono: Eu gero empregos!

Traficante: Ué, mas eu estou empregado por causa do negócio do meu patrão.

Burro: Correto, mas não foi essa questão.

Dono: Não me interessa se essa não foi a questão. Eu gero empregos, e as pessoas procuram livremente os meus produtos.

Traficante: Ué, os consumidores também procuram livremente os meus produtos. Aliás, nem precisa fazer propaganda, eles voltam sem eu fazer absolutamente nada.

Dono: É mesmo? Poxa, meus gastos com propaganda são altíssimos. Boa parte das minhas margens são corroídas com o dinheiro que invisto em marketing, principalmente o indireto direcionado a crianças. Talvez eu possa aprender um pouco com o negócio de vocês…Ah, quer dizer, o que você disse é um absurdo! É lógico que elas voltam, você as vicia.

Burro: Mas os seus produtos não são viciantes também? Elas não ativam as mesmas áreas do cérebro que algumas drogas ilícitas?

Dono: Não vou comentar sobre isso. E o que você quer dizer com isso? Que um refrigerante é tão maléfico como cheirar cocaína?

Burro: Eu sou apenas um burro. O que um Burro sabe sobre as coisas? Porém, não foi essa a minha pergunta e nem quis dizer nada com a minha pergunta.

Dono: Veja, tudo bem. É verdade que o argumento de criar empregos não é o dos mais fortes. Várias atividades desprezíveis como prostituição infantil, tráfico de humanos, também criam.

Burro: Nisso concordamos.

Dono: Também é verdade, mas não espalhe, que vendemos produtos químicos que podem vir a causar dependência. É claro que colocamos instrumentos para entregar esses produtos de forma não tão direta. De certa forma é como o cigarro que nada mais é do que um instrumento para entregar nicotina É verdade também que as pessoas procuram livremente o vil traficante desse conto, logo não poderia argumentar, com racionalidade, que esse poderia ser o divisor entre a minha atividade e a dele.

Burro: Continuamos concordando.

Dono: Porém, eu conquisto o meu espaço pela minha inventividade. Não uso de violência, não uso de coação, como esses traficantes de drogas ilícitas. Além do mais, eu gero lucros para acionistas sérios que compram ações em bolsa de valores.

Burro: Porém, um traficante não tem que conquistar o seu espaço pela inventividade? Não precisa conquistar mercados consumidores assim como você faz?

Traficante: É, eu preciso fazer isso. Se eu me manter parado, a concorrência assume o meu espaço.

Dono: É, mas eu não uso de violência, não mato ninguém, não ameaço ninguém.

Traficante: Dr., e como eu faço para executar as dívidas de alguém que não pagou? Levo a protesto? E como faço para defender o meu território se um outro grupo quiser tomar o meu lugar? Aciono um advogado?

Dono: Bom, Não sei.

Burro: Se um concorrente entrar na sua loja, quebrar instrumentos e ameaça-lo de morte, o que você faria?

Dono: Eu vou ao Judiciário e à Imprensa. Em pouco tempo a reputação dele estará destruída. Seria até bom para os meus negócios.

Burro: Seria correto afirmar, então, que no seu negócio se a concorrência usar de violência pode vir a ser benéfico?

Dono: Sim, claro. É evidente que podemos usar de outras violências. Violências legalizadas, ou às vezes não. Mas deixa isso para lá.

Burro: Se um traficante invadir o seu território e fizer ameaças de morte, o que você pode fazer?

Traficante: Burro, a atividade é ilegal. O Estado não regula. Não tem essa história de Judiciário, ou Advogado e muito menos imprensa. É ele ou Eu. E cá entre nós, prefiro eu!

Burro: E quanto a acionista, Traficante? Tem?

Traficante: Ah, não é tão chique como o Dr.Aí, mas tem os donos sim, os lucros vão para eles. Por isso sempre estamos preocupados aqui com os custos e com a margem do negócio. Se o lucro cai, os "acionistas" vem para cima, fica ruim para a gente burro.

Dono: Eu gostaria de voltar ao ponto dos malefícios dos produtos que vendo. Não é verdade. Não é verdade mesmo. Eu vi um documentário, muito bom por sinal, chamado FatHead. Nele, um leigo em assuntos nutricionais diz que na verdade esse tipo de alimentação faz perder peso! Ou seja, faz bem para a saúde.

Burro: E desde quando perder peso está relacionado com saúde, e substâncias químicas que ativam certas áreas do cérebro? 

Dono: Ora, eu não sei. Mas o rapaz perdeu peso!

Burro: Traficante, em seus consumidores mais fiéis, você não nota uma perda de peso?

Traficante: Sim, alguns ficam muito magros.

Burro: Será por que elas ingerem menos caloria do que gastam com o seu metabolismo normal, muito provavelmente por estarem tão absortos na droga?

Traficante: Eu sei lá! Sei que ficam magros e a maioria emagrece.

Dono: Ok, ok! Eu sei que o emagrecimento tem a ver com a quantidade de calorias ingeridas e gastas, e não necessariamente com a qualidade dos alimentos. Também sei que o não-expert do documentário não ingeria refrigerantes, nem batatas fritas, também sei das centenas de estudos ligando uma série de doenças ao consumo de açúcares refinados, gorduras saturadas entre outros ingredientes que utilizamos. Estou ciente que crianças estão desenvolvendo doenças que eram tipicamente de adultos. Sei que há uma epidemia de obesidade. Sei que esse tipo de alimentação gera externalidades de todos os tipos que são arcadas por outras pessoas.

Aspirante: Externalidades chefe?

Burro: Deixa essa para um novo conto.

Dono: Sei que algo que vendemos como um frango, na verdade é um composto com mais de 30 produtos químicos. Eu sei disso tudo. Mas o que você, aliás não sei porque chamo um burro de você, quer que eu faça? Quer que eu vá à falência, e não gere empregos, lucros e dividendos?

Burro: Não, claro que não. Por que não começa dizendo a verdade?

Dono: E quem quer realmente a verdade?

Traficante: Quem quer a verdade?

Aspirante: Está louco Burro! Quem quer a verdade?


Burro: É…quem quer a verdade?

quarta-feira, 22 de março de 2017

UM TEATRO TRAGICÔMICO

Dois Revoltados, Um Parvo, Um Sábio e um Burro Falante

Revoltado: São todos uns vermes! Idiotas!

Revoltado 2: O que aconteceu, colega?

Revoltado :Você não acredita! Estava lendo sobre a história de um homem e uma mulher que diziam levar uma vida feliz, diziam que achavam satisfação para coisas além do dinheiro!

Revoltado 2: Haha, que piada.

Revoltado: Comunistas idiotas, isso sim! Debocham da família, da religião cristã, não passam de parasitas esquerdistas imundos.

Parvo: Comunismo? Comunismo???? A América é o maior país de todos!

Burro: Existe um país chamado América? Pensei que fosse um continente, melhor dizendo três continentes…

Parvo: (…)

Sábio: Essa cultura da satisfação hoje em dia, nada mais é do que um cliché que mostra quão irracionais estão as nossas crenças. Idiotas que são basicamente guiados pela mensagem de Hollywood, e…

Parvo: Hollywood? Hollywood??? Hollywood! A América é o maior país de todos!

Sábio: Como ia dizendo, essa cultura plastificada vinda de Hollywood transforma o populacho em zumbis. Emoção, ora o que isso significa? Nada! O que importa é a nossa racionalidade, nossos modelos baseados em métodos estatísticos de fazer escolhas para tudo na vida, e…

Burro: Ó Grande Sábio, você escolheu a sua mulher usando métodos estatísticos pesando os prós e contras?

Sábio: Primeiramente, você é um burro, como ousa me interromper? Em segundo lugar, eu não tenho mulher, pois os algoritmos colocados na modelagem para a escolha de uma mulher levaram-me a…

Burro: Ah, Entendi. E Parvo você parece aquela história de “quatro é bom dois é ruim”.

Parvo: O quê?

Burro: Orwell.

Parvo: Hã?

Burro: Deixa para lá.


O Homem é avistado


Revoltado: Que audácia! Olhe o sujeito de quem eu estava falando!

Revoltado 2: Idiota, olha só para ele, dá para ver que é um arrematado imbecil!

Burro: Esses adjetivos proferidos a um homem que nem conhecem são condizentes com os ideais cristãos de respeito ao próximo?

Revoltados em coro: Cale a Boca Burro!!

Sábio: Burro, seu animal insolente. Como pode trazer o cristianismo para essa discussão? Você não sabe que…

Burro: Apenas quis saber se a ofensa gratuita faz parte dos ideais cristãos já que há poucos minutos eles disseram que o Homem que disse que havia satisfação para além do dinheiro era contra os valores cristãos.

Sábio: Seu Burro! Pare de me interromper! O Cristianismo é baseado no cálculo de variáveis complexas, fazendo assim a construção de um código moral complexo onde as emoções tem um lugar secundário porque…

Burro: Não é atribuído ao Messias a ideia de que devemos Amar, ou menos tentar, Amar o próximo? O Amor não é uma emoção?

Sábio: Que Heresia!

Revoltado: Quanta bobagem! Além do mais, aquele sujeito é um comunista imundo, ateu portanto!

Parvo: Comunismo? Comunismo??? Comunismo! A América é o melhor país do mundo!

Burro: Ah, não.



O Homem entra no Recinto:


Revoltado: Seu idiota, esquerdista, comunista, maoísta!!!

Homem: Você me conhece? 

Revoltado2: Cínico!

Homem: O quê?

Revoltado: Dizer que pode haver mais satisfação na vida para além do dinheiro! Uma idiotia dita por um arrematado idiota!

Homem: Hum. Pense nos três momentos mais felizes da sua vida, algum deles envolveu dinheiro ou melhor dizendo muito dinheiro?

Revoltado: Não desvie de assunto! Conheço bem essas artimanhas sofistas!

Homem: Você sabe o que é um sofisma e quem eram os sofistas?

Revoltado: Não desvie de assunto!

Revoltado2: Você não tem vergonha de se posicionar contra a família, contra os valores cristãos, contra o capitalismo?

Homem: E quando eu fiz isso? Ei, você. É você que se diz sábio e defensor da razão, pode me dizer sobre o que esses senhores estão dizendo de uma forma clara, objetiva e racional?

Sábio: Os modelos estatísticos de regressão num sistema complexo fazem com que as variáveis sejam classificadas como intangíveis e…

Homem: Você poderia responder objetivamente ao meu questionamento?

Revoltado2: É um mal-educado mesmo! Além de esquerdista não respeita a opinião dos outros. 

Homem: Como?

Revoltado: É isso que ouviu!

Homem: Fiz algum mal a vocês?

Revoltado: Isso não vem ao caso. É por causa de pessoas como você que a sociedade é dividida entre parasitas e homens virtuosos.

Homem: Deixa eu adivinhar, vocês fazem parte do grupo dos homens virtuosos?

Revoltado2: É claro que sim!

Homem: Posso saber o motivo?

Sábio: Nós defendemos os valores familiares, cristãos e do capitalismo!

Homem: Posso saber por qual motivo vocês ficam repetindo capitalismo, comunismo a esmo?

(…)

Homem: Há algum grande pensador da história da humanidade que disse que a finalidade última de uma boa vida era o dinheiro em si?

Revoltado2: Sofista!

Homem: A afirmação de que há satisfação para além do dinheiro, de alguma maneira aquiesce ou vilipendia com algum sistema econômico como socialismo ou capitalismo?

(…)

Homem: Desde quando a ofensa gratuita pode ser associada com a defesa de valores familiares e cristãos? Não foi Cristo que passou a ideia de que deveríamos respeitar aos próximos, na célebre passagem da história de Madalena?

Burro: Eu já perguntei isso.

Revoltado, Revoltado2 e Sábio em coro: Que heresia!  Além do mais você é um comunista, ateu portanto. Como ousa falar sobre religião?

Parvo: Comunismo? Comunismo??? Comunismo! A América é o maior país do mundo!

Homem: ?


Burro: Here we go again…


Homem: Por incrível que pareça, num mundo de parvos, revoltados e sábios de araque, o fato de um burro falar não é o que mais me chama atenção.

quinta-feira, 16 de março de 2017

MINHA ALEGRIA AO RECEBER UM E-MAIL DE UM LEITOR

Olá, colegas. Depois de passar uma semana no belo estado do Mato Grosso, estava pensando em escrever sobre algumas experiências humanas interessantes que tive por lá. Porém, irei fazer um breve texto sobre um e-mail que recebi.

 Um colega que acompanhava o Blog me pediu há uns três anos se ele poderia me conhecer, já que estaria viajando do Rio de Janeiro para a cidade onde moro. Respondi que não teria problemas, e fiz alguns passeios juntos com ele e sua namorada. No final de semana que ele esteve por aqui, conversei bastante com o mesmo. 

 Ele era, e ainda o é, bastante jovem. Lembro-me de conversar sobre algumas questões bem profundas com ele enquanto saboreávamos uma das melhores pizzas do mundo. Ele tinha muitas dúvidas. Trabalhava numa empresa, fazia pequenos trades com ação, não sabia se queria uma Independência Financeira apenas daqui vários e vários anos, não sabia qual rumo queria dar a vida.

Todos esses questionamentos são normais para um jovem. São normais para mim que não sou tão jovem. E não deveriam ser anormais para quem é mais velho. No último artigo que escrevi, perguntaram-me o que eu tinha a dizer sobre a eleição da França. A minha resposta foi que eu não tinha muito o que dizer, pois sabia pouco ou nada sobre o assunto.

 Um leitor, então, de certo modo contrariado, disse que eu não teria posição em quase nada. Esse é o mundo fácil da certeza. O mundo confortável das ideias prontas sobre tudo. Dá para perceber que o papel da dúvida e do simples ato de dizer “Eu Não Sei” são  elementos centrais no meu entendimento para uma vida bem vivida.

 A última vez que falei com esse rapaz foi há mais de um ano,. Na ocasião, ele me perguntou se deveria comprar um imóvel no Rio de Janeiro ou ir para um curso de Intercâmbio na Irlanda. Desde então, nunca mais tive nenhuma resposta. O que ele resolveu? Este é o e-mail que ele me enviou:

"Grande Surfer!
Como estão as coisas, meu amigo? Esse ano ainda não acompanhei o blog, está por onde?

Lembra aquela conversa de quase 1 ano atrás?
Então, larguei tudo e optei pelo intercâmbio, daqui 3 dias eu embarco pra Irlanda. Ficarei por lá esse ano, se tiver pela Europa dá um alô!

E gostaria de te apresentar meu novo projeto: (vídeo you tube)

Você é uma inspiração e fez parte desse processo. Mesmo que não saiba, sua forma de pensar e seu estilo de vida me ajudaram a formar quem eu sou e o que eu quero daqui pra frente.

Grande abraço para vocês!"

  Fiquei muito contente com o teor do e-mail. Apesar das inúmeras dúvidas que possamos ter sobre quem somos e o que queremos, há alguns fio condutores que parecem ser muito parecidos seja para um Chinês, para um Brasileiro ou um  ser humano que habitou a Europa no século XIV. Muitos autores, atores, escritores, pensadores de alguma maneira expressaram de forma artística ou não, de forma brilhante ou não, o que de certa maneira torna a vida humana mais digna e contente.

 Perceber que este jovem está aprendendo e apreendendo isto no mundo foi o que me deixou mais contente. Sermos alegres, procurarmos ter bons amigos, estarmos dispostos a nos desafiar parecem ser os ingredientes para uma vida significativa.

  Seja você um empresário, um brasileiro frustrado que quer emigrar, um ator de filme pornô, um servidor público, ou qualquer outra coisa que possamos pensar, a alegria, a amizade e a busca perene pelas belezas do conhecimento e do mundo são caminhos que apontam para uma boa vida.

 É difícil algumas, talvez a maioria, das pessoas perceberem isso. Perguntam-me diversas vezes neste blog “Soul, por qual motivo você continua respondendo certos comentários ofensivos e de baixo valor argumentativo?”. Inúmeras pessoas já me fizeram esse questionamento. A verdade é que acredito que  boa parte das pessoas com comentários ofensivos infelizmente possuem uma visão um tanto quanto limitada sobre a vida, e elas nem mesmo percebem o mal  que isso pode fazer para elas próprias. Com o simples ato de responder a um comentário deste tipo, eu creio de alguma maneira estar ajudando essas pessoas, mesmo que elas por ventura não percebam.


  Por isso, colegas, seja em qualquer lugar do mundo, ou exercendo qualquer profissão, fica o meu desejo que a Alegria, a Empatia e o Sentimento de Assombro para as belezas e tristezas do mundo entrem na sua vida. É o que parece estar ocorrendo com o meu amigo carioca, e fico feliz de ter uma participação singela nesse processo. 

 E fico contente por orgulho, vaidade? Talvez, quem pode responder a uma pergunta como essa com elevado grau de certeza? Entretanto, para mim um bom objetivo de vida é poder de certa maneira ajudar outras pessoas em alguma coisa. 

 Uns tratam de pessoas doentes. Outros vão para países distantes combater doenças que já foram erradicadas de países mais ricos. Outros criam atividades produtivas e ajudam outros seres humanos a poder vencer as necessidades financeiras que a vida apresenta. Outros interpretam filmes ou peças de teatro magníficas que ajudam a refletir sobre o mistério da existência. Eu, infelizmente ou não, não sei ao certo no que a minha existência possa estar contribuindo para outros seres humanos.

 Portanto, fico sim satisfeito quando alguns colegas me escrevem dizendo que os meus escritos de alguma maneira os ajudaram em alguma coisa na vida. Ah, o vídeo abaixo é o que ele menciona no e-mail escrito para mim.

Vídeo do colega leitor



 Um grande abraço a todos!