sábado, 13 de junho de 2015

FIJI+CLOUDBREAK+WCT+SLATER+ EU = SICK!

 Bula! E aí colegas! Hoje foi demais mesmo! Atualmente, estou em Fiji. O lugar é simplesmente fantástico. O povo é um dos mais acolhedores que eu já conheci. A beleza é indescritível. Na última semana, depois de tanta aventura e dias com inúmeras atividades na Nova Zelândia, eu e a Sra. Soulsurfer ficamos simplesmente sem fazer muita coisa. O lugar? Nacula Island pertencente a  Yasawa group. Ficamos num resort simplesmente espetacular. “Espetacular, aposto que era um resort luxuoso 5 estrelas!” alguém pode estar pensando. Nope. Na verdade ficamos num dormitório (um resort ter um dormitório foi novidade para mim), numa ilha paradisíaca. Quando falo paraíso, não estou exagerando. Já vi praias lindíssimas no Panamá, Filipinas, Tailândia, Indonésia, Malásia, mas uma ilha como aquela eu nunca tinha visto. Foi demais.

 Que lugar é esse...
Uma boa vista para se ter enquanto se come um delicioso café-da-manhã ou almoço.
Sem quase ninguém na ilha. Sem resorts cinco estrelas como é comum em muitas ilhas bonitas. Com um povo hospitaleiro ao extremo. O lugar é simplesmente sensacional. Se tivesse onda, eu acho que eu iria fazer um curso de dive master e morar um tempo no lugar.
   
Por 130 dólares por dia o casal, ficamos no resort com todas as refeições incluídas. Algumas refeições eram simplesmente deliciosas, pareciam feitas por algum chef extremamente talentoso. O resort era completamente integrado a natureza com capacidade para umas 70 pessoas. Nada de shopping-resorts como em Cancun ou algumas partes da Tailândia. Também não era tão rústico como San Blás no Panama. Era simplesmente perfeito. Passamos seis dias sem usar nem mesmo chinelo, fazendo SUP, andando de caiaque, nadando, ficando com o pé na areia e aproveitando as inúmeras atividades culturais que aconteciam de noite. A hospitalidade dos funcionários foi impressionante. Havia ali uma alegria e educação genuínas.

 Uma cervejinha local na janta sempre vai bem...
 Sempre havia atividades culturais, quase todas elas ligadas às pequenas vilas que existem na ilha e que de diversas maneiras se beneficiam do turismo. Uma forma inteligente de se ganhar dinheiro. Nesse dia era um coral, muito por sinal. O legal era que sempre envolvia todas as gerações. Tinha até mesmo uma criança muito simpática com síndrome de Down. Todos os dias tinha cerimônia de Kava, onde se tocava um som muito gostoso de se ouvir. Na última noite, teve dança típica e foi muito divertido mesmo. 
Educação e gentileza no atender e no se portar. Talvez uma boa medida seria trazer milhares de Fijianos para o Brasil. Ajudaria aos brasileiros serem um pouco mais gentis e menos agressivos no trânsito, em blogs de finanças pessoais, na fila do supermercado? Não sei, mas seria uma tentativa:)

    
       O lugar é tão bonito que um dos filmes que mais gosto foi filmado aqui: o sensacional e maravilhoso “Contato”. Se não bastasse isso, o famoso filme “Lagoa Azul” foi filmado na região, e eu tive a oportunidade de visitar alguns lugares da filmagem. Preciso rever esse filme, pois eu não lembro quase nada da história e do cenário.

Um dos locais onde gravaram o filme lagoa azul. Tentativa minha frustada de capturar o momento de um pulo.


 Todos os dias o sunset era impressionante, com uma explosão incríveis de cores. Alguns dias o céu era muito estrelado (não tanto como em alguns lugares que já estive, mas mesmo assim impressionante). Caminhar com a Sra. Soulsurfer descalço numa praia com uma água que parecia uma lagoa,sem quase nenhuma luz artificial com a iluminação das próprias estrelas na água (isso eu nunca tinha visto) foi uma experiência incrível mesmo. Um lugar para se voltar, com certeza absoluta.

 Sunsets sensacionais todos os dias...
Soulsurfer em momento de criança!


   Entretanto, o objetivo principal de estar em FIJI não é para relaxar em alguma ilha paradisíaca, apesar disso não ser nada mau e o divertido da viagem é se adaptar as circunstância do lugar, mas sim ver e tentar surfar ondas perfeitas que habitam o sonho de qualquer surfista.

   O velho e bom Nick também está em FIJI. Para quem não se lembra, ele é um dos americanos que conheci no salto de Bungy, depois reencontrei na iradíssima cidade de Raglan e viajamos diversos dias juntos, sendo que até mesmo num jogo de Rugby fomos em Auckland. Nick estava em FIJI há uma semana a mais do que eu. Em apenas 12 dias, o intrépido americano fez um curso de certificação de mergulho, mergulhou com tubarões de noite, tirou o longo atraso de meses (ele estava viajando com o Steve numa campervan por vários meses na NZ) num barco pesqueiro, quase garantiu vaga num navio partindo de FIJI para Austrália numa viagem que irá passar (meu deus do céu!!) por Vanuatu, Ilhas Cook, Nova Caledônia e ainda quase morreu numa experiência surreal para alguém como ele.

   Sobre trabalhar num barco, ele me indicou o site findacrew.net  É simplesmente sensacional. Meus olhos brilharam, pois é algo que sempre quis fazer. Simplesmente se pode cruzar oceanos, viajar por lugares impossíveis de serem atingidos se você é turista convencional, e isso tudo de graça. Fantástico. Com certeza eu vou querer aprender algumas noções básicas de navegação (e em alguns barcos nem isso é requerido) e vou querer fazer uma viagem dessas. Se juntar com os diversos sites que oferecem hospedagem em casas de graça desde que você cuide da mesma na ausência dos donos ou de algum animal de estimação, as opções de viagem são ilimitadas. Fiquei tão animado com a ideia, que estou considerando seriamente a possibilidade de mudar radicalmente a minha viagem. Talvez não volte tão cedo para o Brasil. Porém, creio que neste exato momento a possibilidade é pequena de fazer uma jornada como essa. Irado Nick!

    Sobre a quase morte do Nick, isso me leva ao tema da minha experiência extraordinária de hoje. Nick não sabia surfar há seis meses. Ele e seu amigo foram para NZ com o objetivo de aprender a surfar. Eu surfei com eles e fiquei impressionado com a postura deles na água. Obviamente, eles eram surfistas com quase nenhuma habilidade, mas surf é um esporte muito difícil mesmo. Atingir o nível deles de remar num mar de um metro e meio até o line up, remar em ondas e dropar (mesmo que reto) uma onda dessas é algo incomum para quem surfa há tão pouco tempo. Entretanto, eu adverti o Nick “Cara, Fiji é outro nível, pode ser muito perigoso, tome cuidado”. Não é que ele foi para Cloudbreak num mar de 6 pés plus (eu não surfaria num mar desses, muito menos se fosse a minha primeira vez em Cloud), junto com o Medina, Slater, Fanny, Toledo e o cara não pegou uma onda? Eu falei: “Não acredito que você fez isso”. Como ele não tem quase nenhuma habilidade, algo que vem com muito tempo de surf, ele dropou reto a onda. Não se faz isso numa onda como Cloudbreak. Ele se viu na zona de arrebentação e sendo cada vez mais empurrado para os reefs (corais) mais rasos. Não tem como remar de volta, e fico feliz que ele se lembrou do meu conselho dado ainda em Raglan de remar paralelo e tentar de todas as maneiras voltar para o canal. Ele disse que  remou quase 40 minutos pela vida e foi a coisa mais assustadora que ele passou na vida (e olha que o cara já fez semi-profissionalmente wakeborad e mount bike e tem inúmeras cicatrizes de acidentes com esportes). Apenas disse : “Meu amigo, isso que você fez foi uma mistura de coragem, insanidade e burrice”, ele apenas assentiu e respondeu “É, eu sei, mas eu surtei Cloudbreak dude!” O que me traz finalmente ao assunto do presente artigo.


   A etapa do campeonato mundial de surf (WCT) está acontecendo em FIJI nessa semana. Pensei comigo mesmo que seria algo sensacional assistir de perto a etapa mais alucinante do Tour. Cloudbreak é uma onda que quebra nos chamados outer reefs, ou seja no meio do nada. O acesso se dá apenas por barco. Sendo assim, não há ninguém assistindo, apenas os surfistas profissionais, o barco oficial onde eles fazem as filmagens e eventuais outros barcos que resolvem ir lá ver a competição (não é permitido surfar lá em dias de campeonato). O Nick arranjou um barco para nos levar lá de Nadi. Hoje de manhã, lá estava eu, minha companheira, o nick, uma família de indianos muito bacanas (conheciam até mesmo Ubatuba, o que foi algo bem fora do comum), dois franceses e um Kiwi. Meus amigos, para mim que sou surfista foi algo extraordinário avistar o palanque dos juízes no meio dos corais (quem é do surf conhece essa imagem). Quando chegamos lá, avisaram por megafone que barcos deveriam ficar bem mais afastados, mas mesmo assim era possível ver as ondas e os profissionais. O Mar estava 8 pés plus, ou seja grande (cloudbreak segura até 15 pés, quando está assim é uma das ondas mais perfeitas, pesadas e perigosas do planeta).

 Torcida de Fiji para o surfista local. Não deu para torcer para o fijiano, pois a bateria era contra o prodígio brasileiro Felipe Toledo.
 Cloudbreak e os seus tubos largos, compridos e pesados. 
Eu e Nick curtindo as baterias. Quem diria que iria ter tantas experiências fantásticas com esse americano sensacional.


      Ficamos vendo baterias do Felipe Toledo, e outros feras. Até que o Slater caiu na água. Para quem não conhece o Kelly Slater é o Pelé do surf, ou talvez o Pelé seja o Kelly Slater do futebol. O cara é 11 vezes campeão do mundo, tem mais de 40 anos e ainda é extremamente competitivo num  esporte dificílimo e que requer muito vigor físico. Ou seja, o cara é simplesmente uma lenda do esporte e não apenas do surf. A primeira onda do Slater ele pega um tubo bem profundo. A galera vibrou. Falei comigo mesmo, “caraca, preciso ver isso mais de perto”. Perguntei para o barqueiro se eu poderia remar na minha prancha até onde estavam os Jet Skis da competição. Ele falou “provavelmente não, mas vai lá e tenta”. Munido com a minha Go Pro fui remando até bem perto, chegando bem devagar. Quando me dei conta estava no meio dos Jets, bem perto das ondas, e olhei para o lado e tinham vários surfistas profissionais gringos conhecidos.

 Nossa, foi surreal aquilo para mim. Comecei a pensar “Estou em Cloudbreak vendo a famosa etapa do Tour, sentando na minha prancha nessa mar absurdamente azul,  vendo bem de perto essa onda excepcional”. Depois desse pensamento, vi que estava do lado do Kelly Slater e ele estava dando uma entrevista para um repórter sentado numa prancha como eu. A entrevista acabou e o Kelly Slater passou por mim e eu falei “Hey, man!”, e ele assentiu com a cabeça e fez um Hang Loose. 

   Logo depois disso chegou, creio eu, o chefe dos Jets e disse que eu não poderia ficar ali. Eu respondi “Beleza”, ele polidamente agradeceu. Foram uns 20-25 minutos bem intensos e muito bacanas para um surfista como eu que apesar de não ser um bom surfista em matéria de habilidade, possuo um grande sentimento em relação a essa prática que é muito mais do que um esporte. Aliás, é desse sentimento que vem o meu Nickname Soulsurfer.

 Soulsurfer remando em direção à adrenalina (canto direito sem camisa). Ao fundo área dos Jet Skis, e depois fui descobrir que as outras pessoas ali era a imprensa oficial do evento e alguns surfistas internacionais muito famosos (eu creio que eu vi o Fanny, a lenda Occhilupo)

Soulsufer sentando em sua prancha em Cloubreak. Ao fundo Kelly Slater dando entrevista. Mais ao fundo ainda as ondas de cloudbreak. Irado demais!! Ou como diriam os gringos: "Sick Bro!" (algo como "maneríssimo cara!")

    De tarde, depois de tanta adrenalina, peguei um cinema em Fiji (adoro ir a cinemas no exterior, tenho histórias interessantes em cinemas na Índia e Filipinas). Após o mediano filme "Lost World",  comi  camarões gigantes fritos no alho (yummy!!). What a day! Daqui alguns dias, se tudo der certo, será hora de não apenas assistir, mas de surfar Cloudbreak. Será que estou preparado? Não sei, só de pensar já me dá frio na barriga, muito, mais muito maior do que saltar de paraquedas, pular de bungy, ou pensar na possibilidade de perder dinheiro. Apenas a possibilidade de pegar um tubo, ou tentar entubar,  nessa onda perfeita coloca um sorriso na minha face, parecendo que voltei aos dias tão bacanas de criança.  Vamos ver o que vai acontecer.

Escrevi inúmeros artigos enquanto estava na ilha paradisíaca (vou publicando aos poucos). Também com um visual desses (pegava internet na praia), é um incentivo a escrever e manter a serenidade e paz de espírito ao responder alguns comentários...

Grande abraço a todos!


terça-feira, 9 de junho de 2015

BRASIL: EDUCAÇÃO, VIOLÊNCIA E AS SEMENTES ERRADAS

   Bula! E aí colegas tudo certo? Hoje escrevo sobre um tema recorrente, principalmente na blogosfera financeira. Aliás, retomo um tema já aqui tratado. Quando escrevi um artigo chamado "O Brasil é tão ruim?", procurei colocar a minha percepção de como deveríamos analisar o nosso país na conjuntura internacional. Não mudei a minha visão desde então. Eu realmente acredito que é um erro não olhar para o andar de baixo da humanidade, para os três bilhões, eu disse BILHÕES, de seres humanos que sobrevivem com menos de dois dólares por dia.

   Além do mais, parece claro que o Brasil evoluiu em diversos aspectos. Os índices de mortalidade infantil, por exemplo, diminuíram sensivelmente nos últimos 30 anos. Alguém pode pensar "e daí?". Bom, uma sociedade onde os recém-nascidos tem uma probabilidade grande de falecerem com menos de um ano de idade, é uma sociedade que está a anos-luz de sociedades mais desenvolvidas. O Brasil era tão ruim nesse quesito que nós estavámos no andar de baixo em mortalidade infantil no plano internacional.  A miséria extrema também foi diminuída, hoje em dia muito menos pessoas passam fome. Isso não é trivial, muito pelo contrário. Uma pessoa que passa fome não tem possibilidade de ser nada, nem trabalhador, nem cidadão, nem qualquer coisa que imaginemos. A fome é uma chaga na humanidade e é incrível pensar que 1 bilhão de seres humanos são considerados pela ONU como deficientes nutricionais, ou seja ingerem menos caloria do que o mínimo recomendado pela ciência médica. Índices de matrícula de alunos em escola, expectativa de vida, e muitos outros melhoraram consideravelmente nas últimas décadas.

   Isso não é pouco, colegas.  Se nosso país ainda é extremamente deficitário em várias áreas, a situação há 30 anos era ainda mais desesperadora. "Tudo muito bom, tudo muito bem, mas a vida aqui no Brasil é horrível comparada com de um país desenvolvido", alguém pode estar pensando. Há força nesse argumento, admito.

   O colega Rover escreveu um texto sobre as razões de se querer deixar o Brasil. Os argumentos não são novos e  sempre muito utilizados em vários textos, ou vídeos que existem na internet principalmente de brasileiros que vivem no exterior.  Há, no meu entendimento é claro, exageros e certas conclusões equivocadas, principalmente no que toca ao fato da grande variedade de etnias e culturas que formaram o Brasil ser um dos motivos principais pelos problemas nacionais. Não concordo, muito pelo contrário. A nossa exuberância cultural, e ela é reconhecida internacionalmente, é fruto direta da nossa heterogeneidade. Ao contrário de outros países, onde há diversidade, mas não há integração efetiva entre diversas etnias, no Brasil todos os grupos se misturaram, criando um caldo cultural talvez único no mundo. Talvez por isso não tenhamos nenhum problema sério de conflito religioso, étnico ou "racial" (não, não existem raças na humanidade). Para as pessoas que acham isso pouco, basta olharmos os diversos problemas no mundo, e não apenas em países pobres, onde a intolerância com membros de outras etnias ou culturas é catalisador de disputas sangrentas.

    Entretanto, muitos pontos abordados no texto supracitado são verdadeiros. Quero aqui me ater em apenas dois que acho os mais preocupantes. A Corrupção é um fenômeno internacional de maior ou menor medida a depender do país. Muitas instituições brasileiras estão cada vez mais fortes no combate a corrupção e creio que aqui o Brasil vem avançado, por pior que possa parecer a situação (agora imaginem como não era há 30 anos sem um ministério público forte, sem um TCU atuante, sem uma imprensa vigilante, etc). A infraestrutura é um problema, mas nada que não possa ser solucionado. Há centenas de bilhões de dólares de investidores internacionais loucos em colocar o seu dinheiro em projetos que tenham taxas de retornos muito maiores do que projetos em países desenvolvidos. Aliás, talvez a aposentadoria da classe média dos países mais ricos irá depender no futuro da poupança acumulada deles irem para projetos de desenvolvimento ao redor do mundo com taxas de retornos maiores para poder possibilitar taxas maiores de retirada de seus portfólios. Uma maior segurança institucional, um norte mais claro sobre os marcos regulatórios, e dinheiro para melhorar a nossa infraestrutura não irá faltar.

   Os reais problemas, em minha opinião, são a violência e a falta de educação. Quando falo de educação não falo apenas da educação formal, que aliás é uma lástima, mas também na forma como nos comportamos nas relações sociais mais triviais. Quando falo de violência, não falo apenas de atos violentos contra a vida ou patrimônio, mas também a violência "invisível" a qual a maioria dos brasileiros são submetidos no seu dia a dia.

  Vejam, a renda per capta do Brasil é muito maior do que a do Camboja, Laos, Myanmar, Fiji (para citar apenas alguns países  não tão desenvolvidos em que já estive). Muito provavelmente, por mais precária que seja, a nossa educação formal é melhor do que estes países citados. Entretanto, as relações humanas nesses países, pelo pouco que pude observar, se dão num contexto de muito mais respeito. Um brasileiro que conheci em Auckland há poucos dias disse-me que isso se dava pelo conceito de carma. Já tinha pensando nisso. Na maioria dos países citados, o conceito de carma é algo muito arraigado. Assim, a religião acaba tendo uma função de controle social e apaziguamento de tensões muito grande. Porém, para além dessa questão, eu creio que nestes lugares as pessoas simplesmente são mais educadas.

   Isso me leva à violência. É claro que assassinatos, sequestros, etc, são crimes violentos abalam profundamente, quando praticados em grande número como no caso do Brasil, a possibilidade de uma vida mais tranquila. Porém, aqui chamo atenção para a violência mais banal e aparentemente espalhada em todas as relações.  É a pessoa irritada porque você esbarrou na mesma na fila do supermercado, é a disputa acirrada por uma vaga de estacionamento num shopping, é os xingamentos no engarrafamento de alguma metrópole brasileira, é algum vendedor atendendo com rispidez um cliente, é um servidor público destratando algum cidadão, etc, etc. A verdade é que nós Brasileiros estamos cada vez mais violentos. É visível a diferença quando eu volto ao Brasil. Olhe na internet. É imbecil, burro, ignorante, idiota para lá e para cá. As pessoas que dizem isso não estão prestando atenção quão horrível esse tipo de conduta é, e quão significativa ela é do nosso estado de humor enquanto sociedade. É deprimente.

   Isso me deixa preocupado. A educação formal no espaço de 30-40 anos nós poderíamos sim dar um grande salto (aqui é outro problema, será que enquanto nação estamos preparados para sermos generosos e saber que devemos plantar sementes boas para as gerações futuras e que talvez nós não venhamos a desfrutar, mas sim nossos filhos?). Porém, será que poderemos tornar as nossas relações sociais e humanas mais gentis e educadas? Isso não é um problema apenas de educação formal, pois o nível de agressividade atual do brasileiro parece não depender de nível financeiro. O exemplo da Coréia do Sul sempre é citado. Acontece que a Coréia do Sul possui uma história tão antiga como o Japão. Há conceitos lá arraigados há centenas, quiçá milhares, de anos. Assim, a educação formal florescer num país como esse não é tão difícil, e evidentemente não é a única parte da história (eu conheço muitos sul-coreanos, são pessoas gentis e esforçadas).

  Eu, sinceramente, tenho sérias dúvidas de que uma mudança na forma de interagirmos uns com os outros de maneira mais cordata possa ser feita em menos de duas gerações. Está a se falar de 60-70 anos, no mínimo. Assim, não, nós não teremos nem mesmo no médio prazo uma sociedade onde a palavra "sorry" parece fazer parte da educação mínima. Nos EUA, Nova Zelândia, ou qualquer outro país desenvolvido, a pessoa cotidianamente fala "desculpa". em várias situações.  Pode ser um ato mecânico muitas vezes, mas atos como estes induzem comportamentos, que induzem hábitos. Aqui é muito difícil ouvir ou ler a palavra "desculpe", infelizmente. Tenho diversos defeitos, mas uma das minhas qualidades é não ter qualquer pejo, receio ou problema de dizer "desculpe". Quantos "desculpe" você ouviu recentemente?

   Sendo assim, o Brasil é um país complexo mesmo. 200 milhões de habitantes, um continente, com desigualdades regionais talvez inexistentes em qualquer outro país do mundo. É inegável que melhoramos muito em várias métricas importantes. Entretanto, é inegável também que plantamos sementes ruins no passado e estamos colhendo resultados muito ruins quando o assunto é violência, educação e relações humanas disfuncionais. O que me assusta é que parece que não só continuamos a plantar sementes ruins, mas como em certos aspectos estamos nos esforçando para escolher sementes ainda piores. A continuar nessa toada, talvez seja realmente muito difícil nos tornarmos uma sociedade mais equilibrada e boa para se viver.

Tolaga Bay - East Cape. Lugar maneiro, uma das estradas mais bonitas que já peguei (250km margeando a costa)
 Raglan! Paraíso do Surf na Nova Zelandia. Altas ondas de Point Break e o lugar ainda é magnificamente bonito. Se um dia eu escrever um livro, voltarei a Raglan para morar alguns meses. Imagem feita de onde eu fiquei (um albergue maneríssimo, com wi-fi liberado, coisa rara na NZ)
Na minha última trilha na NZ (talvez tenha andado uns 250km) fui presenteado com uma sucessão de arco-íris surreal. 

 A tarde no mesmo dia ainda peguei altas ondas (pequenas, mas perfeitas) na surf city de Whanganmata. Sim, fui surpreendido mais uma vez com um belíssimo arco-íris - além da praia ser belíssima. Remar para o line up com um arco-íris duplo não tem preço.
 Fiji Time! Meus limites no Surf serão testados ao extremo nas famosas, e imperdoáveis, esquerdas perfeitas de Cloudbreak e Frigate Pass.
Que lugar lindo, um dos mais bonitos que já estive. Todos os dias o sunset é inesquecível


    Grande abraço a todos!

quarta-feira, 3 de junho de 2015

O DINHEIRO PODE APRISIONAR?

   Olá, colegas! Vixe, tanta coisa para escrever que realmente não sei sobre o que será esse artigo. Iria escrever sobre a trilha mais fenomenal que já fiz na vida, mas lembro que já se foram mais de 10 dias desde então, e tanta coisa maneira aconteceu. Nos últimos dias, fiquei sem qualquer contato com o mundo, e foi muito bacana. Estou escrevendo de dentro da Campervan numa noite chuvosa, pois dei sorte de estar num camper park  do lado de uma biblioteca pública. Aqui em Aotearoa é muito comum as cidades terem acesso de wi-fi gratuito nas bibliotecas. Aliás, é impressionante, pois cidades muito pequenas com 2 ou 3 mil habitantes possuem bibliotecas públicas muito bem estruturadas. A biblioteca da capital do país é fantástica, parece um shopping com vários andares e inúmeras opções de livros, Dvds, teatro, etc. Infelizmente, no nosso país as bibliotecas não são tão espalhadas e incentivadas. O que é uma pena e mostra um pouco da nossa falta de desenvolvimento humano. Porém, não irei escrever sobre diferenças entre países nesse artigo.

Soulsurfer e companheira flutuando na Cathedral Cove

   Ao terminar o primeiro parágrafo, veio à minha cabeça um tema interessante. Na minha última postagem, o colega Corey falou algo que parece muito natural e tido como verdadeiro por quase todos: quando se tem um certo patrimônio, há uma preocupação maior em mantê-lo. Afinal, essa é uma atitude correta? À primeira vista, parece evidente que a preocupação de se manter um capital acumulado prévio é maior de quem mais tem poupança acumulada, do que alguém que não tem. Ora, se uma pessoa deu duro por diversos anos e hoje tem um certo patrimônio, é claro que essa pessoa irá querer ao menos manter o poder de compra do seu patrimônio. Eu concordo, mas aqui quero falar de uma outra faceta do dinheiro que não é muito comentada: a possibilidade do dinheiro nos tirar a liberdade.

  "Como assim Soul?" alguém pode ter pensando. O dinheiro não serve exatamente para nos fornecer liberdade? Não é por isso que as pessoas acalentam o sonho de ser independente financeiramente?  Sim, o dinheiro pode nos oferecer mais liberdade, principalmente em relação a atividades ou situações  com as quais não gostamos.  Porém, o dinheiro pode ter o efeito oposto, fazendo com que nossa liberdade seja diminuída e nossos relações humanas pioradas. Explico-me.

  Eu gosto muito de filmes, e qualquer dia desses pretendo escrever sobre filmes que acho interessantes. Um deles é "Into The Wild" (Na Natureza Selvagem). O filme é sensacional por vários motivos, sendo a trilha sonora um dos principais deles, mas aqui atenho-me apenas a um aspecto do mesmo. O protagonista é um jovem recém-formado. Ele resolve, sem avisar a ninguém, doar todo o seu dinheiro (uns vinte e pouco mil dólares) doar para uma organização humanitária chamada Oxfam e viajar a América com o seu carro velho (a cena dele recusando um carro novo oferecido pelos seus pais e dizendo que eles só se importavam com "things, things, things" é muito boa também). Numa certa parte do filme, o protagonista resolve queimar o pouco dinheiro que ele possuía e resolve viajar pedindo carona e realizando trabalhos nos lugares por onde passa.  Numa outra cena bem bacana, inclusive com uma citação extraordinária de Thoreau, o jovem responde a um casal de "Hippies" (não gosto muito dessa forma de categorizar as pessoas) que queimou o dinheiro, pois o mesmo torna as pessoas mais cautelosas, e, via de consequência, as relações humanas mais pobres.

  Isso é uma afirmação forte e com uma grande dose, em minha opinião, de verdade. Num exemplo extremo, temos alguém com muito dinheiro mesmo que não sabe se as relações de amizade e amor são verdadeiras ou não. Como a pessoa não pode saber, talvez a forma de interagir com outros seres humanos não possa atingir a sua completude. Recentemente, li um artigo no blog pequeno investidor de uma carta de uma jovem recém-milionária queixando-se expressamente desse fato. No caso de uma pessoa com centenas de milhões de reais isso é fácil de perceber, ou de se refletir a respeito. Porém, no caso de pessoas mais comuns, será que é tão nítida essa faceta do dinheiro?

  Ao encontrar tantas pessoas diferentes nessa viagem, eu me peguei refletindo algumas vezes sobre esse aspecto do dinheiro. Eu encontrei os americanos que compartilharam a minha experiência com Bungy 40 dias depois numa cidade que é o paraíso para quem pega onda. Dessa vez, o encontro não foi tão fugaz e passamos vários dias juntos fazendo diversas coisas (pegar onda numa praia deserta e selvagem, depois  da sessão de surf ir nadando até pedras com milhares de mariscos e cozinhar a comida na praia mesmo, foi uma dentre várias experiências fantásticas). Um deles, o Nick, tinha uma passagem comprada para FIJI e não tinha dinheiro para sair do país. Ele iria tentar achar emprego num barco para poder viajar de FIJI para Austrália, trocando o trabalho por hospedagem e comida no barco. Mesmo sem ter dinheiro, ou não tanto dinheiro para os padrões de um americano (não, eu não esqueci que metade da população humana vive com menos de dois dólares por um dia, sempre reflito sobre isso quando penso que alguma coisa está "difícil" na minha vida), é inegável que ele está gozando de uma grande liberdade, não está deixando que eventuais temores o afaste de buscar aquilo que o possa fazer mais satisfeito com a sua vida. Nós conversamos bastante sobre isso. Ele poderia facilmente ter seguido a vida de uma maneira mais tradicional, poderia estar agora com mais bens, mas se assim o fosse ele provavelmente estaria muito mais cauteloso e com medo de perseguir os seus reais objetivos.

Nick pegando nossa comida depois de uma sessão de surfe numa praia irada, selvagem e deserta. Não há almoço grátis mesmo? :P Experiência fantástica que irei lembrar por muitos e muitos anos.

  Olhe a sua volta, e principalmente para si mesmo, e reflita se o dinheiro não pode muitas vezes ser um empecilho. Quanto mais a pessoa vai possuindo, parece que com mais medo vai ficando de tomar algumas decisões. Sempre haverá algum motivo relacionado à alguma situação material (imóvel, emprego, estabilidade, etc) para muitas vezes justificar a não realização de algum ato ou atividade nova que pode trazer riscos para a manutenção da situação atual, mas que pode ter um significado humano muito grande para a pessoa.

  "Ok, Soul, estou indo no banco tirar o meu dinheiro e a fogueira vai ser grande lá em casa!" :) Colegas, antes de fazer fogueira com o dinheiro, seria melhor, como o protagonista do filme, fazer uma doação para uma organização como o Médico Sem Fronteiras.  Soul, quero manter o que eu arduamente conquistei. Eu também, colega. Não há nenhum mal nisso, pelo contrário, pois o dinheiro por outro lado pode sim nos trazer muita liberdade. O que talvez precisamos, e como o meu Pai sempre tentou me passar quando criança e adolescente, é ter uma relação saudável com o patrimônio acumulado. Não podemos deixar (em certa medida infelizmente isso é inevitável) que o dinheiro nos deixe cautelosos demais a ponto de desistirmos de alguns objetivos, pois o receio de alguma perda patrimonial possa estar presente. Acima de tudo, não podemos deixar que o dinheiro enfraqueça nossas relações humanas. Eu cada vez mais me convenço, na verdade já estou convencido, que a nossa satisfação enquanto ser humano é mais facilmente atingida quando compartilhamos com outros seres humanos momentos, experiências e porque não coisas materiais. Aliás, essa é a conclusão que o protagonista do filme "Into The Wild" chega ao final do filme ao refletir sobre a vida num abrigo isolado no Alasca: a vida e a felicidade só valem a pena quando compartilhadas. Infelizmente, ele descobriu isso tarde demais, mas não deixa de ser uma mensagem bonita. Eu concordo plenamente. Quando compartilhamos com outros seres humanos (e essa é uma das razões de eu continuar escrevendo nesse blog, mesmo com eventuais contratempos), nossa vida fica mais colorida e significativa.

  Assim, caros leitores e colegas, abortem a fogueira, mas não deixe que o dinheiro se transforme de um instrumento em uma espécie de prisão.

  Não resisti e resolvi colocar algumas imagens da sensacional trilha Tongariro Alpine Crossing. Provavelmente, escreverei um artigo apenas sobre esse dia especial. Demos muita sorte, pois além de ser um dia lindíssimo, ter pouquíssimas pessoas na trilha de quase 20Km, ainda compartilhamos essa experiência com diversas pessoas interessantes no decorrer da trilha. Para quem gosta do filme, esse foi o local onde as cenas de Mordor foram filmadas no antológico Senhor dos Anéis. Fazer essa trilha em Mordor foi outra experiência sensacional.

 Lago azul cristalino, vulcão, geiser....
Beleza extraordinária, ao fundo o Mount Doom residência de Sauron (é um vulcão bem ativo)
 A aridez de Mordor (Tongariro Alpine Crossing)
 Já andei muito por esse mundão. Adoro fazer trilhas puxadas de um ou vários dias. Ver uma paisagem como essa com uma simples "olhada" é algo que nunca vi no mundo. Gelo, deserto, vulcões, montanhas com pico nevado, lagoas verdes, azuis, cratera vermelha de um vulcão colapsado, gêiser, zona ativa de vulcões, e ainda por cima é Mordor....Difícil bater essa trilha como melhor day hike do mundo.
 Soulsurfer contemplando a beleza das lagoas esmeraldas com um gêiser ao fundo.


Grande abraço a todos!


terça-feira, 19 de maio de 2015

FINANÇAS - CRESCER OU MANTER O PATRIMÔNIO? EIS A QUESTÃO

   Olá, colegas. Hoje escrevo um pouco sobre finanças, afinal o nome do blog possui alusão a finanças (talvez eu tenha que mudar). Ultimamente (já alguns meses), venho escrevendo sobre temais mais abstratos. Tenho que confessar que prefiro assim. Finanças, dinheiro, economia, são assuntos interessantes, mas não são os mais instigantes para mim. O escritor do livro "A Lógica do Cisne Negro" escreve expressamente que ganhar dinheiro é uma habilidade secundária em ordem de grandeza. Taleb diz que entrou para o mercado financeiro com o intuito de ter dinheiro para literalmente dizer "foda-se" (ele diz textualmente essa palavra). Conforme o autor do famoso livro, os interesses humanos pela verdade, ciência, etc, são muito mais elevados do que interesses motivados simplesmente por aspectos financeiros. Eu concordo com ele. Por isso, Buffett, Lemann, etc, não significam muita coisa para mim do ponto de vista humano. Eles podem ser seres humanos maravilhosos, mas eu me inspiro mais em pessoas como Carl Sagan, Sérgio Viera de Mello (esse brasileiro desconhecido por quase todos), Yunnus, Gandhi, Einstein, etc.

 A habilidade de ganhar dinheiro é apenas uma habilidade derivada da nossa necessidade de sobrevivência. Para mim, a história de uma mulher que foi estuprada por 40 homens ao mesmo tempo, teve três dos seus cinco filhos assassinados, habitando um país esquecido e desolado como a República Democrática do Congo, e mesmo assim consegue sobreviver, sorrir e criar os seus outros dois filhos, é uma história muito mais extraordinária do que alguém que saiu de uma família mais humilde e construiu uma rede de padarias de sucesso, por exemplo. São histórias de sobrevivência humana, e metade da população humana, mais de 3 bilhões de seres humanos, vive com menos de dois dólares por dia, e a história dessas pessoas, a capacidade de sobrevivência, me impressiona mais do que a habilidade eventual de ganhar dinheiro num país de renda média como o Brasil. 

 Feitas as devidas digressões, foco no tema do presente artigo. Ultimamente, pelos blogs que às vezes acompanho, poucas postagens estão sendo feitas sobre temas relacionados estritamente ao mercado financeiro. Pois bem. O colega Além da Poupança escreveu um artigo sobre mais uma simulação, usando vários métodos. Como sempre a postagem foi interessante. Entretanto, ao passar pelos comentários, o que me chamou a atenção foi para uma resposta do colega do blog Di Finance (um dos blogueiros que se mantém fiel à tradição de focar em textos sobre finanças, o que é bom em minha opinião). Eu não sei dar control C e V nesse sistema operacional, mas o blogueiro dizia textualmente que finalmente tinha entendido a mensagem de Buffett sobre o mercado e que o mesmo serviria apenas para manter o patrimônio acumulado, não para multiplicá-lo, pois do contrário seria muito arriscado.  Gostaria de refletir um pouco sobre os diversos conceitos e ideias existentes na afirmação citada alhures.  Os comentários a seguir são feitos apenas com o intuito de reflexão e em maneira nenhuma constituem uma provocação, continuo acreditando que a melhor forma de evoluirmos é questionando conceitos, ideias, etc.

 Primeiramente, eu penso ser temeroso achar que, a não ser que o indivíduo em questão tenha expressamente dito, falar que entendemos o que alguma pessoa pretensamente quis dizer. Se é difícil com uma pessoa conhecida, imagina saber o que um dos maiores investidores financeiros de todos os tempos realmente pensa sobre o mercado. Isso é tarefa para um biógrafo que realmente se debruça sobre a vida do investidor em questão. Entretanto, é possível que uma pessoa realmente tenha captado o que alguma personalidade do mercado realmente pensa.

 Então, o mercado deve ser utilizado apenas para a manutenção do patrimônio? Se isso é verdade, e a pessoa acredita nisso, então a estratégia é simples. Qual o ativo, para qualquer investidor internacional, tem-se mostrado resiliente ao longo do tempo como forma de manutenção do valor? Sim, o vil metal poeticamente descrito por Shakespeare: o ouro. Há ciclos, há momentos de euforia e depressão, mas em longos períodos o ouro tende a ser uma ótima forma de manutenção do poder de compra de uma pessoa, ou seja o patrimônio é mantido. Assim, a pessoa deve apenas focar nos aportes e na taxa de poupança. Se ganha 3 mil, tentar ganhar 10 mil. Se ganha 10 mil, talvez tentar ganhar 20 mil. Se economiza 30%, talvez tentar economizar 50%. Encontrar uma forma segura e eficiente para se investir em ouro e a estratégia está montada.

 Porém, será que é assim que funciona? Primeiramente, nenhum doutrinador de finanças irá dizer, até porque contrário aos resultados históricos na esmagadora maioria dos países, que o mercado é uma forma apenas de manutenção do patrimônio. O próprio Buffett é a antítese dessa interpretação, pois ele é o mago da multiplicação do patrimônio sobre sua responsabilidade. Além do mais, a afirmação contesta o princípio básico de valor do dinheiro no tempo. Explico-me no próximo parágrafo.

 O motivo mais aceito sobre a existência de juros é a questão da preferência temporal. Se vou abrir mão de um consumo hoje, faz sentido que eu consuma mais amanhã, esse meu esforço de não consumir hoje deve ser recompensado, isto é remunerado. Quem já viu vídeos sobre o famoso teste do marsmallow com crianças, conseguirá entender a questão da preferência sobre o adiamento do consumo. Atualmente, devido à existência de juros nominais negativos em títulos não apenas de curta mas de longa maturação de alguns países europeus, há alguns questionamentos sobre se essa premissa em relação aos juros é correta ou não. Há textos interessantes no site do Instituto Mises Brasil sobre o assunto e eu sugiro a leitura, já que não é o foco desse artigo. Partirei da premissa que o consumo adiado deve ser recompensado, ou seja a poupança acumulada deve ser de alguma maneira remunerada.

 Se o capital acumulado deve ser remunerado, parece uma conclusão óbvia que o mercado é uma maneira natural de crescimento do patrimônio, e não apenas de manutenção do mesmo,  já que o capital acumulado, ou seja a poupança, deve ser remunerado (sobre o assunto, diversos textos do Mises e o Livro do Piketty são dois nortes para visões com perspectivas diversas sobre o tema). Se assim não  o fosse teríamos que admitir que não há a questão de preferencia temporal. Logo, se alguém possui capital acumulado, é natural que haja remuneração desse capital. Se há renda do capital e a mesma não é totalmente consumida, mas parte reinvestida, então o patrimônio deve necessariamente crescer e não apenas se manter.

 Porém, a questão principal não é nem o aspecto teórico discutido nos parágrafos acima, mas sim outra questão mais prática e tangível: o risco. Poetas escrevem de maneira muito peculiar sobre a ideia de que uma vida sem riscos não vale a pena ser vivida. Pensem, caros leitores, em algumas conquistas suas, ou histórias divertidas, e reflitam se não envolveu algum tipo de risco (nem que seja o risco de ser "ridicularizado" por outros).  Eventuais empreendedores, creio não haver muitos leitores empreendedores desse blog (acho que preferem blogs de empreendedores como o Corey e o Rover), podem responder se as eventuais histórias de sucesso não envolve certo tipo de risco. Até um guru de avaliação de ativos como o Damodaran diz em seus ótimos textos do seu blog que a partir de certo limite não se pode mais estimar muita coisa, e que uma certa dose de risco sempre estará envolvida. Logo, o risco faz parte da nossa vida. É evidente que devemos tentar mensurar os riscos que valem ou não a pena correr. Porém, uma vida mais significativa, e falo aqui num escopo muito maior do que apenas finanças, necessariamente apresentará mais riscos do que uma vida mais "acomodada".  Aliás, assumir riscos é o que leva à humanidade para frente, nos faz evoluir.

 E se o risco se materializar de forma negativa e realmente um evento ruim acontecer? Bom, se não for o risco de morte ou de ficar com alguma incapacidade física severa, eu pergunto e daí? E se for para pessoas jovens, o meu "e daí?" será ainda mais enfático. Foi abrir uma loja, não deu certo, perdeu dinheiro, levante-se de novo. Foi prestar um concurso não passou, tente de novo. "Soul, eu entendo e concordo, mas riscos financeiros do mercado não são diferentes?" alguém pode pensar. Sim, claro que são. É por isso que eu descobri uma estratégia mais confortável para mim, mexer com certos tipos de investimentos onde eu tenha mais capacidade de mensurar os riscos e retornos associados. Também acredito, e talvez tenha sido essa a mensagem, apesar de não ser a literalidade do escrito, do Di Finance, de que enriquecer facilmente, multiplicar diversas e diversas vezes o patrimônio, em pouco tempo com produtos financeiros seja uma ilusão. É verdade, também acho. Porém, uma taxa real de crescimento de "apenas" 4% aa faz com que o patrimônio em aproximadamente 36 anos  (época de uma geração) multiplique por 4. Pode parecer pouco, mas o meu pai sempre me falou isso, e hoje eu consigo entendê-lo melhor. Se a pessoa tiver dois herdeiros, eles serão duas vezes mais ricos do que a geração anterior. Isso é multiplicação do patrimônio e é como os países ricos se tornaram ricos e como muitas famílias se tornaram ricas e permanecem ricas. Se a taxa for de 6% aa, o patrimônio será 8 vezes maior, e os herdeiros 4 vezes mais ricos.  Assim, a poupança acumulada pode sim fazer uma diferença enorme para gerações futuras ou para longos períodos de tempo.

  Portanto, em minha opinião, os mercados não são instrumentos apenas de manutenção do patrimônio. Além do mais, riscos não são para ser evitados a todo custo. Riscos desnecessários talvez, não qualquer tipo de risco. A vida fica muito mais colorida quando nos arriscamos. Falando em risco, amanhã vou de skydive a mais de 15.000 pés, risco desnecessário? Eu acho que não, penso que será uma experiência fantástica.


Será que vale a pena correr riscos? Será que o maior risco de pessoas que possuem o mínimo existencial assegurado não é levar uma vida abaixo, em alguns casos bem abaixo, do seu potencial? 

Abraço a todos!

domingo, 17 de maio de 2015

O NASCER DO SOL, AS ESTRELAS E A LÁGRIMA

   Olá a todos. Neste artigo, escrevo sobre uma experiência muito bacana. Existiram muitas outras, porém vou escrever apenas sobre uma hoje. Não creio que o texto será longo.

   Após mais uma jornada de carro fabulosa em uma via magnífica, propus a Sra. Soulsurfer sermos os primeiros humanos no hemisfério sul ao ver o sol nascer no dia 17 de maio de 2015. Ela, como sempre, disse "Por que não?". Assim, encaminhamos-nos para  Te Araroa. Já era de noite quando chegamos e a questão de sempre - onde vamos dormir essa noite? - surgiu. Aliás, esse é um dos aspectos diferentes de uma longa jornada, atos básicos como dormir, comer, etc, deixam de ser rotineiros e se transformam em novas experiências quase todos os dias. Decidimos, já que o lugar mais ao leste ficava num antigo Farol a 20km acessível por uma estrada de chão batido, ficarmos o mais perto possível do local.

  Dirigir de noite numa estrada de terra onde só tinha espaço para um carro com o oceano a menos de um metro de distância foi uma experiência e tanto. Com sorte encontramos um local para dormir. Se fosse no Brasil, com certeza eu não dormiria naquele lugar, pois seria muito arriscado, neste aspecto é muito bom viajar em um país seguro. Entretanto, mesmo assim, a Sra. Soulsurfer ficou um pouco preocupada, eu a acalmei e disse que não haveria nenhum problema e seria uma grande noite. Exploramos um pouco o local, comemos alguma coisa e fomos dormir, pois teríamos que acordar bem cedo para ver o nascer-do-sol.

   Nunca dormi com um visual como o que eu vi deitado na cama da campervan. Abrirmos as cortinas e como crianças ficamos contemplando o céu absurdamente estrelado. A parte "leitosa" da via láctea estava sublime, assim como as dezenas de milhares de estrelas visíveis. Olhando para o alto com a cabeça no travesseiro cercado por toda aquela beleza estampada num céu sem  nenhuma luz artificial por perto fez me entrar num estado de devaneio.

  Todas aquelas estrelas com centenas de milhões, muitas delas com bilhões de anos, e de repente senti que minha vida tem uma existência muito curta. Ao pensar que há centenas de bilhões de estrelas em centenas de bilhões de galáxias talvez em centenas de bilhões de universos (acaso a teoria do multiverso seja correta, atualmente ela está mais para ficção científica), um ar de insignificância percorreu o meu ser.  Insignificância não é a palavra correta, pois eu acredito que toda vida humana é significativa. Creio que o termo correto seja pequenez.

 Sou feliz? Fui e estou sendo um bom filho para o meu Pai e para a minha Mãe? E as pessoas queridas que por ventura eu tenha cometido algum erro e as magoado? Sou um bom companheiro para a minha mulher? Estou levando uma vida significativa? Estou ajudando outras pessoas a terem vidas mais significativas? Todas estas, e muitas outras, questões percorreram a minha cabeça de maneira quase que instantânea. Senti saudades do meu pai e mãe e lamentei o fato de nos últimos 16 anos ter morado tão longe deles. Pensei no meu Pai com quase 80 anos e minha mãe com mais de 70 anos. Será que vou ter filhos? Será que eles vão pode ser um norte para os meus filhos como eles foram para mim? Será que eu seria um bom Pai?

 Como não tinha resposta para quase nenhuma das questões, resolvi olhar de novo para as estrelas. Será que foi uma estrela cadente que eu vi rapidamente passando no meio do céu estrelado? Não sei o que eu vi, mas uma lágrima escorria no meu olho esquerdo. Foi pensar na minha família? Nos meus erros? No rumo da minha vida? Ou foi simplesmente a beleza de tudo aquilo que eu estava vivenciando naquele momento presente tão intenso? Não saberia responder. Viro-me para o lado e resolvo observar as estrelas apenas pela janela lateral do carro. Estou cansado. Aos poucos vou me entregando ao impulso de fechar os olhos, resisto, pois quero experimentar por mais um tempo toda aquela sensação. Será que foi outra estrela cadente que observei? Ao fim, meus olhos não resistem e adormeço. Uma noite memorável. Mal sabia que a minha próxima manhã também seria inesquecível, pois seria abençoado com um nascer do sol maravilhoso, tendo o privilégio de ser um dos primeiros seres humanos a ver o sol nascer no hemisfério sul, sentando no topo de um morro ao lado de um antigo farol numa terra com ar de selvagem e inexplorada tendo como companheira uma mulher maravilhosa.  Só tenho a agradecer a bênção de estar vivo e poder vivenciar momentos tão especiais como os descritos.

 6 horas da manhã. Muito frio, muito vento, mas depois de uma noite sublime é hora de levantar âncora.
 Espetacular! Bem-vindo sol!
 Grande companheira de viagem e de vida....
 A estradinha mais maneira que eu dirigi. De noite foi demais fazer esse percurso, de dia foi fabuloso.
Se não bastasse uma noite maravilhosa, um nascer do sol especial ainda tive o prazer de ver um pôr-do-sol espetacular como esse na charmosa cidade de Whakatane.

Um grande abraço a todos!


quinta-feira, 14 de maio de 2015

SOBRE O ANONIMATO

     Olá, colegas. Hoje escrevo sobre um tema muito recorrente nos dias atuais de intensa atividade virtual. O anonimato não é novo na história humana, mas talvez a internet tenha potencializado a possibilidade de pessoas ficarem anônimas. O anonimato é ruim per si?

   É completamente compreensível nós humanos gostarmos de ser anônimos em algumas ocasiões. Em Veneza, ficaram célebres os bailes de máscaras, onde no anonimato as pessoas podiam realizar alguns atos que provavelmente não o fariam se estivessem expostas a todas as regras sociais e morais que se deve respeitar quando se vive no dia a dia de uma sociedade. Quem não gostaria de poder espiar o vestiário feminino sem ser  notado (ou o masculino no caso de mulheres ou de pessoas com preferência sexual pelo mesmo gênero)? O BBB da globo nada mais é do que isso, a satisfação de um impulso humano de olhar a vida de outras pessoas sem ser identificado. Assim, o nosso impulso pelo anonimato possui razões profundas no nosso ser. Nada demais até aqui.

  O anonimato também pode ser a única forma de expressão segura para uma pessoa. Como denunciar  uma pessoa violenta sem se expor demasiadamente? Pelo anonimato. É por isso que os nossos disques-denúncias, sobre certas circunstâncias, aceitam denúncias anônimas (não sei como está a questão jurisprudencial a respeito, confesso). Além do mais, num país onde haja cerceamento de liberdade de expressão, talvez a única forma de expressar certas ideias seja de forma anônima. Assim, o anonimato é um impulso humano compreensível, bem como em certas circunstâncias parece ser a única forma de expressão ou de relatar um fato.

   Entretanto, exercer a liberdade de expressão pelo anonimato é a exceção, não a regra. A nossa Constituição Federal, documento legal que todo cidadão deveria ter noções mínimas, diz no art.5 (talvez um dos artigos mais importantes do nosso ordenamento jurídico), inciso IV que "é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato". Assim sendo, parece claro que o anonimato é a exceção em nossa ordem constitucional. A razão é clara, colegas. Um regime democrático pressupõe liberdade de manifestação. Porém, para que um regime democrático não se transforme em caos social, é implícito que contrabalançando a liberdade de expressão haja a obrigação de não se ofender, denegrir, difamar, caluniar, outras pessoas. E como se consegue fazer isso? Evitando-se o anonimato.

  Assim, eu sou livre para expressar as minhas opiniões, mas eu devo saber que há repercussões sociais e legais acaso eu de alguma maneira ofenda alguma outra pessoa. Para que isso ocorra, é imprescindível a identificação do emissor de uma determinada manifestação de pensamento. Focamos muito nos nossos direitos, no caso a liberdade de expressão, mas pouco nos deveres correlatos, a obrigatoriedade de não usar a liberdade de expressão para ofensas, difamações, calúnias de outros membros da sociedade. Não há sociedade, e democracia, saudável sem um equilíbrio entre direito e dever.

 Logo, se uma pessoa quiser ofender outra, ela deve estar consciente que pode ser responsabilizada por isso (nem que seja socialmente). O anonimato, entretanto, desequilibra a balança entre direito e dever. Se uma pessoa pode emitir uma opinião e não ser identificada, o que vai impedir que a mesma abuse do seu direito e utilize a manifestação de pensamento para ofender, denegrir? A pessoa não será identificável, assim ela não poderá ser responsabilizada, seja legalmente, seja socialmente.

  Infelizmente, o anonimato muitas vezes é utilizado com fins destrutivos. A Internet potencializou o anonimato, mas ele sempre esteve presente. O problema com o anonimato é que ele pode destruir ambientes. Assim, uma pessoal mal-intencionada pode dizer o que bem entende, sem qualquer possibilidade de responsabilização. Como é possível criar um ambiente salubre assim? Quantas pessoas já não sofreram com anonimato em seu ambiente de trabalho, ou na faculdade, ou na escola? Quando uma pessoa ofende, calunia ou denigre alguém de forma anônima, isso apenas mostra uma fraqueza de caráter.  Eu não consigo entender esse tipo de comportamento, pois é tão distante do que o meu Pai e Mãe ensinaram sobre o que é ser um Homem correto. Portanto, foi um grande choque para mim quando eu descobri na minha vida adulta que esse tipo de comportamento não só existe, como ele é disseminado em diversas esferas da nossa vida, no nosso trabalho principalmente.

  Eu no início sofria muito com isso, pois eu não entendia como as pessoas não tinha retidão de encarar de frente umas as outras. Porém, a vida não é muitas vezes o que gostaríamos que ela fosse. Tive que aprender a conviver com isso da melhor forma possível. Minha experiência aqui no blog com alguns anônimos raivosos, apesar de ser uma experiência sem grande impacto na minha vida, apenas me fez refletir mais sobre alguns conceitos. Para mim parece claro que uma boa sociedade, comunidade, não pode existir simplesmente na premissa da atribuição de direitos sem que haja responsabilização pela transgressão de certos limites - sim, é o que aprendemos na teoria na primeira fase do curso de direito. O outro fato é que poucos, ou às vezes apenas um, elementos, quando não há limites e responsabilizações claras, podem desestabilizar uma comunidade para pior. Esse é um dos motivos da minha opinião de achar que o anarcocapitalismo é apenas uma ideia sem qualquer sustentação na prática.

 Assim sendo, o anonimato pode sim transformar ambientes virtuais, e até mesmo ambientes reais, em lugares muito piores para se conviver com os outros. Eu, particularmente, não vejo qualquer problema em ouvir ou ler críticas sobre opiniões minhas ou sobre mim mesmo. Faz parte. Às vezes pode até mesmo fazer nós evoluirmos, como tentei mostrar de uma maneira um pouco diferente e mais "científica" no meu artigo sobre as duas formas de pensamento com que o nosso cérebro opera. Entretanto, há uma grande diferença entre uma crítica de uma pessoa identificável (que obviamente, se for prudente, não irá ofender ou caluniar à toa, pois deveria saber que há responsabilização até mesmo criminal a depender da gravidade da ofensa) de uma crítica destrutiva e raivosa de uma pessoa que não se identifica.

  Portanto, esse espaço permanece aberto para qualquer tipo de comentário e crítica. Até mesmo ofensas, como muitas vezes aqui foram feitas. Entretanto, comentários apenas ofensivos serão apenas liberados se a pessoal se identificar. Toda pessoa pode dizer o que bem entender, porém deve estar ciente que não há apenas o direito, há o outro lado da moeda do dever. Provavelmente comentários apenas ofensivos não existirão, pois pela minha experiência, o anonimato como forma de ofender outras pessoas geralmente é acompanhado de covardia.  Também não acho que a internet seja tão diferente. Creio que uma pessoa que usa o anonimato fácil da internet para ofender, não seja tão diferente na vida "real". Provavelmente essa pessoa apenas vai ser mais cautelosa, mas no íntimo não vejo grandes transformações de personalidade de um ambiente para o outro. Minha mãe adora repetir que a minha Avó sempre falava que "o sol é o melhor desinfetante", e ela estava absolutamente correta. Numa sociedade, a melhor forma de lidarmos com a corrupção, com comportamentos danosos para a comunidade, é com transparência, ou seja muita luz do sol.

 É isso amigos, não foi um artigo dos mais divertidos e interessantes, mas para mim foi importante ter escrito. Para descontrair, algumas paisagens sublimes...


Terra do Arco-Íris

 Hotel cinco estrelas. Preço  = 0
 Desse jeito dá gosto dirigir não?
Soulsurfer sem palavras para descrever tanta beleza...

  Abraço a todos!

sexta-feira, 8 de maio de 2015

OS ENCONTROS FUGAZES DE UM VIAJANTE

    Olá colegas, here I am. Muitos acontecimentos e histórias nesse último mês. O acesso à internet, apesar de alguns lugares ser difícil conseguir se conectar à rede mundial de computadores, não é tão difícil como pensei que iria ser. Sendo assim, escrever nesse blog talvez seja uma forma de manter as memórias mais vivas.

    Hoje, resolvi escrever sobre os encontros fugazes que temos na vida. Eles são temporários, mas nem por isso deixam de ter significado. O bacana de se estar fora da sua rotina, numa grande viagem por exemplo, é que esses encontros são inúmeros, ao contrário de quando estamos apenas seguindo com as nossas vidas rotineiras. Cada dia numa viagem é diferente, e como não deveria deixar de ser as pessoas com que nos relacionamos também são diferentes. É difícil encontrar a mesma pessoa vários dias seguidos.

   A primeira questão sobre esses encontros fugazes é que eles são rápidos. Entretanto, uma pessoa que você conhece num dia pode ser o companheiro de uma grande experiência que você teve e que manterá consigo para o resto da vida. Sendo assim, por mais estranho que possa parecer à primeira vista, uma pessoa desconhecida com que você travou um breve contato pode ficar marcada na sua vida por muito tempo. Desconfio que isso tem explicação científica. Se eu tivesse que "chutar" uma diria que o nosso cérebro tende a reter por muito mais tempo experiências que de alguma maneira nos marcaram do que alguma atividade comum que se faça todo dia. Assim, uma pessoa que compartilha uma grande experiência contigo, nem que seja por alguns momentos, pode de alguma maneira ficar em sua memória por muito tempo. Logo, apesar de curta duração no tempo, esses encontros podem deixar marcas, sejam elas boas ou não.

   A segunda coisa que eu notaria é que esses encontros reforçam em mim alguns conceitos pregados pelo Buda Histórico. Não irei falar aqui sobre as quatro grandes verdades (que  são bem simples e lógicas), mas para Buda a razão do sofrimento humano está em não reconhecer, ou reconhecer e não aceitar, a transitoriedade de tudo. Logo, nós sofremos, pois não aceitamos que a nossa juventude um dia se esvai. Sofremos porque queremos que o encontro com aquela mulher estonteante dure para sempre. Sofremos porque os nossos pais faleceram ou um dia não estarão mais entre nós. Conforme o Buda Histórico, reconhecermos que o mundo é transitório, que as coisa são transitórias (a vida, nossa saúde, a saúde daqueles que amamos, a juventude,etc) é o primeiro passo para tentarmos livrar-nos do sofrimento. "Ok, Soul, mas qual é o ponto?". Como esses encontros são fugazes e muitas vezes únicos, temos, pelo menos eu, um instinto natural de alguma forma querer prolongá-los no tempo, e com isso de alguma forma se deixa escapar a beleza que é estar complemente no presente. Assim, quando se tem muito desses encontros, se é obrigado a refletir que é uma ilusão querer prolongar esses momentos, pois a vida não funciona assim. O melhor a se fazer é aproveitar com toda a força o momento presente. Quando se consegue isso, e às vezes reconheço que é difícil, tudo fica mais fácil e o momento ganha ainda mais significado.

  Tive diversos desses encontros nas últimas semanas. É muito bacana conhecer pessoas e vidas diversas. Como o casal da Malásia que conheci numa Hot Springs. Depois de várias horas dirigindo, chegamos numa cidadezinha linda no meio das montanhas com um complexo de piscinas quentes. Nossa, como foi bom. Numa das piscinas resolvi falar a célebre fase que uso para me aproximar de japoneses "Ninhon-go hanasemaska" - você fala japonês - e a pessoa, que parecia muito japonês, respondeu que "eu não falo japonês". Isso foi o bastante para iniciarmos uma conversa, e ele dizer que gostou das churrascarias do Brasil. Eles viviam em Malaka (eu lembrava que era uma região da Malásia de colonização portuguesa, o que é muito interessante pois eles criaram uma dialeto próprio com algumas palavras em português). Falamos sobre economia, falei sobre a Petrobrás e perguntei como era a estatal Malaia de Petróleo, ele falou que era a mesma coisa, com nomeações políticas, suspeitas de desvio, etc. Foi uma conversa de 40 minutos muito interessante.

  O meu "você fala japonês" funcionou com um casal muito simpático de japoneses que encontrei numa trilha num parque para além de belo (é um um lugar muito especial). Falei algumas frases em japonês, e eles ficaram surpreendidos, e acabamos almoçando juntos numa mesa à beira de um lago lindíssimo. Ela trabalhava como cuidadora de idosos, ele trabalhava numa empresa de material esportivo para montanhistas. Brinquei com ele que iria revistar a mochila dele e se encontrasse algum item da North Face (para quem não sabe é a coca-cola das roupas de esporte para frio. Na bem da verdade, a Top mesmo do mercado é a Mammut, mas quase não é conhecida no Brasil) iria dizer ao chefe dele, e ele caiu na gargalhada. Falamos como Lamen do Japão era delicioso, assim como o sushi de esteira por Hyakuen (100 ienes - atualmente menos de 1 dólar), e eles falaram que sentiam saudade do Japão.  Depois de almoçarmos algumas sementes e sanduíches, fomos para o nosso caminho, eles para o deles. Alguns minutos depois, na trilha de volta, comecei a conversar com um rapaz. Americano, morava em San Francisco e trabalhava no Vale do Silício. Perguntei se ele era mais um dos gênios que adora fazer aventuras esportivas. Ele respondeu que existiam pessoas bem mais inteligentes do que ele por lá, que ele trabalhava com robótica e provavelmente iria trabalhar na Tesla. Perguntei como era a atmosfera do Vale do Silício, se era tão empolgante como parece ser. Ele respondeu que sim, que é uma reunião absurda de talentos e ideias inovativas. Entretanto, ele me disse que parecia que o grosso das pessoas queria apenas abrir uma empresa e vender para alguma gigante num acordo tipo whatsapp da vida (ele pensava que tinha sido por 10Bi que esse app tinha sido comprado pelo facebook, quando falei que tinha sido 19bi, ele falou "no way"). Quando ele disse isso, eu falei que não era muito diferente de algumas bolhas que aconteceram durante a história nos últimos 300 anos, ele respondeu que não tinha a menor dúvida que havia uma bolha ali. Se ele está certo ou não eu não sei, mas é algo para se pensar.

  Num outro dia, acampando num lugar belíssimo (algo que nunca vi, no mesmo lugar cliffs, praia selvagem, rio, floresta), a senhorita Soulsurfer estava fazendo a janta no nosso fogãozinho quando um casal de suíços entrou no pequeno abrigo. Começamos a conversar, ofereci um pouco de brigadeiro (aparentemente não gostaram, é incrível como os estrangeiros não gostam tanto do nosso brigadeiro) e falamos um pouco sobre a Suíça. Ela trabalhava decorando ambientes com flores para um hotel 5 estrelas. A minha mulher perguntou-afirmou que ela deveria ser feliz no trabalho, ela respondeu que sim. Sempre imaginei que quem trabalha com flores tem uma vida mais tranquila. Isso sempre vem a minha cabeça quando penso como a Holanda e os Holandeses são maneiros. Também pudera, um país onde os principais itens de exportação são flores e queijo só pode criar um ambiente bom. Se não me engano há uma cidade em São Paulo chamada Holambra que é especializada em flores. Ele era eletricista, disse que tinha uma boa vida, mas os imóveis eram caros demais. Encontramos com eles mais uma vez em outra cidade e foi bem legal.

  Falando em preço de imóveis, dormi num mesmo quarto de quatro jovens suecos num albergue. Fiquei impressionado com a sagacidade e a cultura dos rapazes no auge dos seus 20-21 anos. Falavam com fluidez não apenas o Inglês, mas sobre diversos temas. Um deles estava lendo o ótimo livro "Freaknomics" - o qual recomendo a todos. Falamos sobre diversas coisas, mas o mais interessante foi quando perguntei sobre o estado de bem-estar social Sueco e qual era visão de jovens como eles a respeito (algo que já tentei fazer no site Mises Brasil, mas lá é difícil ter algumas conversas pois o clima é muito radicalizado). Foi muito interessante. Eles divergiram entre si, falaram que algumas coisas tem que mudar, mas no geral, com exceção de um, gostariam que se mantivesse uma certa rede de proteção social razoavelmente ampla. Perguntei sobre o preço dos imóveis, como eu sempre faço se a conversa tem algum viés econômico, e eles me disseram que nos últimos anos tinham subido muito e era impensável jovens como eles comprarem um imóvel. Efeito dos juros baixos por um período muito prolongado? Das diversas injeções de dinheiro? Eu creio que sim. Realmente, quando o spread dos títulos high yields (tema já tratado nesse blog) chega a níveis históricos baixíssimos, pode-se ter de alguma maneira afetado profundamente a nossa percepção de precificação de ativos pelo mundo. Não tem sentido a Suíça pagar juros negativos, não apenas reais, mas nominais, num título de 15 anos. Não faz o menor sentido. Logo, é muito possível sim que essa injeção de dinheiro extraordinária, sem ter causado inflação, possa sim ter causado inúmeras bolhas nos ativos ao redor do mundo e a extensão disso tudo pode ser muito difícil de se saber. Talvez seja por isso que os imóveis na Suécia e Suíça estejam tão caros. Entretanto, pode ser que haja outra explicação mais prosaica, vai saber.

  Na cozinha de um camperark, conhecemos uma brasileira. Ela tinha um namorado da Nova Zelândia . O namorado dela, Darryl, era muito gente fina. Fizemos um passeio juntos. Ele me falou como adorou a comida brasileira e sobre algumas peculiaridades da vida na Nova Zelândia. Ela falou sobre a vida dela, como ela iria agora tentar a vida num outro país. Acabamos nos encontrando numa outra cidade e resolvemos ir ao cinema. Tinha sido um dia que tinha feito uma trilha de 18Km de 4-5horas apenas de subida e uma ida ao cinema foi muito bom. O cinema era demais. Sentavam-se em poltronas de avião e tinha até mesmo um sofá para se sentar. Podia-se beber vinho na sala. O filme foi excepcional "Woman in Gold" e o melhor de tudo é que  o filme teve pausa no meio, e se vende um cookie caseiro maravilhosamente gostoso. Que cookie gostoso, penso nele sempre agora quando quero comer algum doce. Talvez reencontremos o casal mais para frente na viagem, quem sabe. Foram uma ótima companhia.

    Há poucos dias foram três encontros diferentes no mesmo dia. O primeiro foi com um casal, ele da República Tcheca - não lembro o nome, ela, Martina, da Eslováquia (sim, os dois antigos países da Tchechosláquia). Os dois estavam há dois anos longe de casa. Viveram um bom tempo em Sydney. Ambos muito simpáticos. Contamos diversas histórias, demos gargalhadas. No final, o Tcheco nos ajudou um monte com equipamentos de informática e como mexer num computador Apple. O cara foi muito simpático e prestativo e sem ele ainda estaria batendo cabeça com coisas simples. O bacana da história é que eles iriam voltar em poucas semanas. Quando eles voltassem, as duas famílias iam se conhecer pela primeira vez. Além do mais, iria ser aniversário de 50 anos das duas mães, uma irmã da Martina ia ter bebês quase que no mesmo dia em que eles iam voltar, ou seja a festa vai ser grande. Falei "Uau, vai ser a maior festa da Bratislava hein!". Horas depois, conheci um Dinamarquês. Falamos um pouco sobre os locais em que já tínhamos visitado. Em um lugar específico, uma geleira muito bonita, ele disse que tinha ocorrido um terremoto enquanto ele fazia a trilha. Eu falei que não acreditava, pois tinha feito a mesma trilha dias antes. Ele contou como tudo balançou e as pedras enormes começaram a despencar. Deve ter sido uma experiência aterradora. Ao falarmos sobre a escala do terremoto, perguntei se ele sabia que era uma escala logarítmica, ele disse que sim, pois era físico. Falei que era uma escala de 10, ele discordou, consultamos o google e realmente é de 10. A partir daí começamos a falar sobre física, principalmente sobre String Theory (teoria das supercordas). Ele me disse que achava a explicação simples, mas a modelagem matemática era extremamente complexa e não parecia correta. Concordei com ele, e parecia que sempre que surgia um problema a teoria simplesmente acrescentava mais uma dimensão (a primeira série de teorias eram com 10 dimensões, agora se usa 11 dimensões), o que não deixava de parecer que era um arranjo puramente matemático sem relação com a realidade física. Porém, falei para ele como  me encantava o intelecto humano elaborar explicações tão elaboradas e complexas para fenômenos tão complexos.  Por fim, conheci outro dinamarquês. Era fotógrafo e estava viajando para fotografar. Extremamente simpático. Contou-me como conheceu a ex-mulher numa estação de trem e se apaixonou imediatamente. Falei "Opa, isso está me lembrando aquela trilogia muito bacana do "Antes da meia-noite", ele apenas respondeu "Exatamente". Ele tem um site de fotografia que ainda não olhei com mais detalhe thephotoguy.dk.


   Quando falava sobre experiências inesquecíveis, conheci dois americanos ao fazer Bungy. Um trabalhava como modelo e o outro eram bartender. Estava há meses viajando, e tinham surfado mais de 50 lugares diferentes. Os dois eram muito bacanas. Eles dormiam na mesma cama improvisada dentro de uma campervan que eles compararam (não, não eram gays). Depois de vivenciar uma sensação absurdamente diferente, resolvemos tomar uma cerveja. Por sorte tínhamos comprado uma caixa da deliciosa blue moon um dia antes. A Sra. Soulsurfer fez um lanchinho improvisado, e um deles, o Nick, estava me mostrando um livro de surf sobre todos os picos para surfar no país. Eu, sem querer, derrubei um molho gorduroso no livro e fiquei sem jeito. Ele olhou para mim, e disse "sem problemas, veja..." e pegou a camisa dele e limpou o livro e completou fazendo uma cara de louco "cara, eu vivo num carro há meses, você acha que eu me importo com isso", eu apenas disse "you are THE man bro", pois numa viagem longa a primeira coisa que se perde é a frescura e o apego com certas coisas. Espero reencontrá-lo em FIJI para quem sabe pegarmos altas ondas, se não acontecer, sem problemas, pois a experiência que vivenciamos juntos já foi inesquecível.

    Tiveram muitos outros encontros, isso em apenas poucas semanas. Só posso ser grato por ter encontrado tantas pessoas diferentes, em locais tão especiais. É isso meus amigos, numa outra postagem talvez fale mais da minha viagem em si e de alguns lugares.

 Apenas um pequeno passo.....
Mais uma trilha sensacional (já devo ter andado uns 150km) com uma paisagem incrível. Um ótimo lugar para se pensar na vida e na grandiosidade do nosso mundo.


Abraço a todos!