Olá, colegas. Resolvi vir para Malásia. Passei alguns dias em Kuala Lumpur, capital do país, foi a minha segunda estada na cidade, e foi uma experiência interessante. Neste exato momento, estou indo para Bornéu. Sim, um dos lugares de maior biodiversidade do mundo, onde inúmeras espécies de animais são descobertas ano após ano. Fiz apenas pesquisas muito rápidas, mas resolvi ir assim mesmo. Parece que há parques nacionais remotos, as maiores cavernas abertas ao público do mundo, rios no meio da selva, orangotangos, animais de todos os tipos e um dos lugares mais lindos para se mergulhar no mundo (Siporan). Não sei quanto tempo ficarei, talvez três semanas, mas pretendo visitar também o rico país Brunei do sultão famoso. Creio que será uma grande aventura, vamos ver.
Entretanto, o artigo de hoje não é sobre países ou viagens, mas sim sobre argumentos, tema que para mim é de extrema importância. Desde a minha infância e principalmente durante a minha adolescência, eu fui obrigado a conviver com a lógica dos argumentos e saber aceitar quando estava errado. Isso por causa do meu envolvimento com o mundo do xadrez. Quem não foi ou é do meio, não sabe que depois de partidas de torneios importantes é de bom tom e da etiqueta do esporte analisar a partida com o seu adversário. Geralmente, se vai para uma sala ao lado e se analisa os movimentos. Nessas análises, a comprovação é quase que matemática, pois se o adversário te mostra uma linha que você não tinha observado, e ela se revela uma boa estratégia, não há nada que você possa fazer a não ser aceitar. Essa é a beleza. Você pode estar jogando contra o Kasparov, que foi um dos melhores jogadores de xadrez de todos os tempos, mas se você mostrar para ele uma análise superior numa determinada jogada, ele vai aceitar. É simples assim.
A única vez que me neguei a analisar uma partida foi depois de um jogo num campeonato mundial. Eu estava jogando muito bem esse torneio. Na rodada número 8 (nesse campeonato em específico eram 11 rodadas) eu estava jogando na mesa número 10 (ou seja estava entre os 20 primeiros na competição de um número aproximadamente de 100 jogadores). Tinha uma posição claramente superior na partida. Se eu ganhasse, provavelmente iria jogar na mesa 4 ou 5, ou seja estaria entre os 8-10 primeiros a apenas três rodadas do fim. Iria provavelmente jogar de brancas, o que não deixa de ser uma vantagem, e se ganhasse provavelmente iria jogar na mesa 1 ou 2 faltando apenas duas rodadas e vai saber o que poderia acontecer, pois se eu chegasse nessa posição, com certeza para as duas últimas partidas eu iria ser assessorado por algum grande mestre, que nesse torneio se não me engano era o Gilberto Milos. Ou seja, iria ser um fato histórico para mim e para a cidade onde nasci. Depois de 10 minutos analisando, vi uma linha quase que vencedora. Fiquei tão animado, mais tão animado, que comecei a sorrir internamente. Quando eu ia fazer o movimento, observei aparentemente um furo na análise. Fiquei tão frustrado, que analisei apenas uns dois minutos e fiz uma outra jogada, a qual se mostrou horrível e me colocou numa situação ruim. Depois de ver a bobagem feita, reanalisei a linha que poderia ser vencedora, e não havia furo, eu tinha visto uma miragem. Depois de perceber isso, fiquei abalado e acabei perdendo a partida. Sai do jogo tão brabo comigo mesmo e a situação que quase não cumprimentei o adversário no final da partida, algo que é extremamente rude, e não quis analisar a partida. O meu pai disse que fui muito mal-educado, mas ele entendeu que eu era apenas um adolescente e estava chateado com a situação, mas mesmo assim me passou um leve “sermão" de que se deve saber perder, não se pode ser mal-educado, eu estava representando o meu país e não podia ter esse tipo de comportamento. Uma das coisas boas do xadrez é que ele te ensina a perder individualmente (não há outros para responsabilizar), bem como a aceitar a sua inferioridade intelectual em algumas situações, algo que percebo é extremamente difícil para muitas pessoas, pois como diz o ditado hebreu “quase todos são insatisfeitos com os seus corpos, quase todos são satisfeitos com seus cérebros".
Assim, não existe argumento de autoridade no xadrez. O que existe é apenas lógica. O argumento de autoridade não é argumento. Não importa se W. Buffett disse qualquer coisa sobre investimento, o que importa é o argumento não quem o disse. Apesar da falha do “argumento" de autoridade, algo que quase todos o tomam como um real argumento, ele ainda consegue ter alguma força perto dos diversos argumentos fajutos que se encontram atualmente em nossa sociedade.
Ao sair da adolescência e ir para juventude, também convivi com argumentos. Em minha faculdade, era conhecido por não poupar argumentos mal-feitos. Diversas oportunidades professores com títulos de pós-doutor em alguma faculdade no exterior, simplesmente perdiam a cabeça e falavam para eu sair da sala de aula. Teve uma vez que quase toda a minha turma saiu junto comigo tal foi a reação esdrúxula do professor. Junto com meus amigos de faculdade mais próximos, e como foi boa essa época, falávamos de tudo: mulher, filosofia, direito, política, surfe, filmes. Aliás, essa foi a diferença da minha turma de faculdade, a existência de diversidade de assuntos, nada mais distante do que a pasmaceira que veio depois da faculdade, com pessoas quase que com apenas um tipo de conversa. Nesse meio, por mais que fôssemos jovens, argumento ruim não tinha espaço e a pessoa tinha que reconhecer simplesmente que estava errada.
Para minha surpresa, no meu trabalho, que era de se esperar pessoas bem capacitadas tal a responsabilidade e nível de exigência para ingresso no mesmo, não foi nada parecido com a minha adolescência e meu tempo na faculdade. Argumentos pífios, orgulho intelectual, ameaças veladas, ou não, simplesmente por contrariar algum pensamento eram às vezes a norma, não a exceção. Ao começar a escrever nesse blog, e ver artigos alheios e mídias sociais, aos poucos constatei espantado que o nível de argumentação de muitos ambientes é medonho, sendo muito benevolente.
Uma sociedade que não sabe argumentar, não sabe discutir e incorre em erros simples de lógica, não pode construir tecnologia de ponta, conhecimento novo, em suma, não será uma nação das mais destacadas. Isso é tão claro e cristalino como as águas de El Nido na ilha de Palawan nas Filipinas. É por isso que existe escola, existe o ensino formal de certas matérias. Para se desenvolver intelectualmente um ser humano precisa de tempo, de conhecimento e de pessoas dispostas a orientar na busca desse conhecimento. Cozinhar e entender de mecânica de carros é ótimo, mas apenas com isso e sem um conhecimento sólido de química e matemática a chance de se prosperar, enquanto nação, num mundo de ideias cada vez mais profundas é quase nenhuma.
A fraqueza dos argumentos denota, em minha opinião, uma nítida fraqueza na formação de ideias. É claro que orgulho e mesquinharia tem a sua grande contribuição, mas creio que tudo é derivado principalmente de um grande deficiência educacional. Não é à toa que a educação, ou a falta dela, é o que provavelmente nos fará ser uma sociedade de renda média nos próximos 15-20 anos.
Após, essa breve digressão, irei enumerar alguns dos argumentos mais obtusos e fajutos com os quais muitas vezes eu me deparo pela internet.
O ARGUMENTO BOM-BRIL OU MIL E UMA INUTILIDADES.
“ O texto produzido pelo Soulsurfer no site pensamentos financeiros sobre conquistas financeiras é superficial e impreciso. No decorrer do artigo, palavras e ideias de efeito são escritas, mas sem qualquer precisão ou conexão com a realidade. Na verdade, o autor faz uma tentativa medíocre de abordar tema complexo. No fundo, o artigo apenas mostra a preferência do autor por uma determinada ideia, sem sopesar as diversas nuances da temática.”
Uau! Isso sim é um argumento dos bons. Como vejo esse tipo de “argumento" por aí, e como ele já foi utilizado nesse meu espaço. Vejamos.
“ O texto produzido pelo Diogo Mainardi na revista Veja sobre a relação entre o bolsa-família e o domínio eleitoral do PT é superficial e impreciso. No decorrer do artigo, palavras e ideias de efeito são escritas, mas sem qualquer precisão ou conexão com a realidade. Na verdade, o autor faz uma tentativa medíocre de abordar tema complexo. No fundo, o artigo apenas mostra a preferência do autor por uma determinada ideia, sem sopesar as diversas nuances da temática”
“ O texto produzido por Gandhi em uma carta endereçada à sua esposa sobre a necessidade de ser gentil é superficial e impreciso. No decorrer da carta, palavras e ideias de efeito são escritas, mas sem qualquer precisão ou conexão com a realidade. Na verdade, o autor faz uma tentativa medíocre de abordar tema complexo. No fundo, a carta apenas mostra a preferência do autor por uma determinada ideia, sem sopesar as diversas nuances da temática.”
“ A palestra dada por Lula numa assembléia da CUT sobre a influência da crise política na economia é superficial e imprecisa. No decorrer da fala, palavras e ideias de efeito são ditas, mas sem qualquer precisão ou conexão com a realidade. Na verdade, o palestrante faz uma tentativa medíocre de abordar tema complexo. No fundo, o discurso apenas mostra a preferência do autor por uma determinada ideia, sem sopesar as diversas nuances da temática”
“ O discurso feito por Obama no Congresso no State of the Union na parte relativa à imigração é superficial e impreciso. No decorrer do discurso palavras e ideias de efeito são ditas, mas sem qualquer precisão ou conexão com a realidade. Na verdade, o discursaste faz uma tentativa medíocre de abordar tema complexo. No fundo, o discurso apenas mostra a preferência do autor por uma determinada ideia, sem sopesar as diversas nuances da temática”
Sim, esse "argumento" fajuto se aplica a qualquer situação. Você pode utilizar em qualquer contexto para qualquer coisa, pois ele é vazio e se aplica a qualquer caso. Na Blogosfera financeira, uma subvariante desse “argumento" é utilizada na forma de uma entidade abstrata chamada “A Banca”. Vale a pena comprar FII? Não, "a Banca" vai te pegar. Qual é o nível adequado de spread entre o yield médio do IFIX e os juros de uma NTN-B? Não sei, e não quero saber, pois "a Banca" está na espreita. Vale a pena investir no exterior via REITs ou ETFs de ações e BONDs? Cuidado, "a Banca internacional" vai levar todo o seu dinheiro. Com o argumento da Banca, nenhuma questão específica precisa ser respondida, e ela pode ser utilizada para “responder" qualquer pergunta.
É evidente que o meu texto, ou qualquer outro, pode ser superficial, e intermediários podem ganhar muito dinheiro com a intermediação-venda de ativos financeiros inflados. Entretanto, a simples afirmação disso é vazia, e quase sempre é utilizada para fugir da análise de fatos ou de perguntas específicas, que a toda evidência necessitam muitas vezes uma reflexão mais pausada, algo que um “argumento" como esse não faz.
Sempre que ver um argumento desses, prezado leitor, apenas pergunte: "Ok, e qual é o ponto específico?”. Isso na maioria dos casos já é o bastante para derrubar esse não-argumento.
O ARGUMENTO “BLABLABLA"
Este belo tipo de “argumento" é bastante utilizado em alguns espaços. Funciona assim: há alguma ideia com a qual não se concorda, e ao invés de se dar elementos objetivos e racionais, ridiculariza-se a ideia com o uso de uma quase onomatopéia “blablabla”. Se alguém diz, por exemplo, que a humanidade passa por uma crise ambiental profunda, outra pessoa pode discordar e dizer “esses ecochatos dizem que há problemas ambientais, pois estão cortando algumas árvores, os rios estão secando e blablabla”. O “blablabla" serve então como uma forma de se ridicularizar alguma ideia sem dizer absolutamente nada de concreto a respeito. Como o argumento de mil e uma inutilidades, o “blablabla" pode servir para pretensamente menosprezar qualquer forma de ideia e pensamento sem entrar objetivamente em nenhum ponto. No fundo, não passa de desonestidade intelectual.
O recurso de blabação é muito utilizado para treinamento no teatro. Já fiz algumas vezes e sempre foi muito divertido. Consiste em simular atuações falando apenas “blabla" sem dizer qualquer palavra. Depois que você faz a mesma cena podendo falar é a mesma sensação de quando treinava capoeira com pesos nas pernas e depois retirava os mesmos e a sensação que a perna ia sair do corpo de tão leve que ficava. Logo, serve no teatro, não na arena do debate de ideias.
O ARGUMENTO AVESTRUZ
Esse “argumento" é o mais medonho que existe e demonstra uma grande covardia intelectual. Antes de ler mais coisas na internet, eu nunca tinha o encontrado, pois ele é tão fraco que eu não consigo acreditar que pessoas realmente agem assim. Nele, simplesmente se foge de ideias, enfiando a cabeça na terra, sobre o pretexto de que algumas ideias são nocivas e as pessoas que as defendem são “boas de lábia”, “cheias de pretextos”, sendo portanto perigoso até mesmo ouvir os argumentos.
Isso é simplesmente ridículo. Se você teme ouvir uma ideia que não é do seu agrado, sob o pretexto de que ela será atrativa e bem fundamentada , e isso de alguma maneira seria errado, há duas hipóteses: a) ou a ideia com a qual você concorda é simplesmente fraca, pois você não consegue nem mesmo contrapor uma ideia antagônica com fundamento ou b) você é um radical que não se importa com a verdade ou não de suas convicções, pois suas convicções sempre estarão certas não importando evidências em contrário. Ora, se for o caso da letra “b”, não há qualquer diferença dessa postura para o comportamento de um fundamentalista muçulmano em relação às suas convicções, por exemplo. Repito: nenhuma. A diferença será nos malefícios que um determinado fundamentalismo e fanatismo poderá ocasionar a si e a outros. No caso do argumento avestruz numa rede social, por exemplo, é possível que os efeitos maléficos para outras pessoas sejam nenhum ou bem pequenos. No caso de um fundamentalista religioso, os efeitos negativos para a vida de terceiros podem ser terríveis.
Prezado leitor, nunca tenha medo de ouvir, ler ou escutar qualquer ideia. Não se amedronte e use o argumento “avestruz”. Eu posso ler sobre qualquer coisa mesmo, e isso em nada me afetará. Poderá reforçar ideias preexistentes, questioná-las ou fazer surgir novas formas de ver os diversos aspectos da vida humana, porém espero nunca ficar com medo de ouvir qualquer tipo de ideia.
AS FALÁCIAS AD HOMINEM USADAS COMO ARGUMENTO
Esse aqui é o prato cheio, o creme de la creme dos argumentos fajutos. Não irei dar um definição do que seja uma falácia ad hominem, vou dar exemplos. Colegas, se eu disser que a taxa de juros real no Brasil é muito alta, mesmo para eventual risco-país, se alguém não concorda com essa afirmação e dizer que eu sou um “tolo", essa postura em nada se contrapõe a ideia de que os juros reais são altos no Brasil mesmo ajustado para o risco. Houve um ataque ao emissor do argumento, não ao argumento em si. E aqui entra mais um detalhe. Mesmo que eu fosse realmente um “tolo" isso em nada contraria o argumento sobre os juros no Brasil, e a quantidade de pessoas que não entende essa simples constatação lógica é surpreendentemente muito alta.
Se A disser que matar outro ser humano, a não ser em casos de legítima defesa, é errado, não adianta B replicar dizendo que A já matou sem ser em legítima defesa para anular o argumento de A, pois isso em nada contraria o argumento sobre assassinato. O máximo que se pode dizer é que A está sendo hipócrita, não que o seu argumento não é forte eticamente.
Poderia fazer diversos pensamentos aqui nesse tópico. Sobre o efeito “halo" muito conhecido nas finanças comportamentais. Poderia falar sobre o meu artigo sobre rótulos, pois o que não é muitas vezes um rótulo usado em argumentos se não uma falácia ad hominem? Não concorda? Se está a se falar sobre externalidades negativas na indústria química e a justiça ou não em tentar se quantificar financeiramente essas externalidades, o que irá ajudar na resolução da questão dizer que alguém é de esquerda ou de direita e simplesmente parar o "argumento" aí? Em absolutamente nada.
O debate de ideias por meio de argumentos sólidos é essencial para o desenvolvimento de uma sociedade, mas também do próprio indivíduo. Isso não é um assunto de pouca importância. Tentem fugir da utilização desses “argumentos" fajutos, e saibam reconhecer quando eles são utilizados. O seu desenvolvimento pessoal e a sociedade como um todo agradecem.
As belíssimas Petrona Towers, símbolo máximo de Kuala Lumpur, vistas de noite. Há um complexo muito bacana no local, com um shopping bem chique, bem como com um teatro onde a filarmônica da Malásia sempre se apresenta. Como não tinha roupa para ver o concerto da filarmónica, o que foi uma pena, fui ao cinema com a Sra.Soulsurfer ver jogos vorazes. O filme é meia boca, mas foi bacana ir ao cinema de novo. Hoje tentei relembrar todas às vezes e já fui ao cinema em 11 países diferentes e cada um deles foi uma experiência diferente. Poderia escrever um artigo apenas sobre isso, como as pessoas, o cinema, as propagandas, a forma de assistir o filme, variam de país para país.
É isso colegas, grande abraço a todos!








