sábado, 12 de janeiro de 2019

AS NARRATIVAS CONSTRUÍDAS NO FLUXO DE INFORMAÇÃO: O QUE DONETSK, IÊMEN E BREXIT TEM EM COMUM?

                Como abordar esse tema de maneira um pouco mais lúdica? Pensei em contar uma história pessoal e nisso fazer uma transição para uma reflexão sobre o tema. Não há dúvida de que uma pessoa vivendo numa cidade, em qualquer lugar do mundo, possui muito mais acesso à informação do que há 10 anos. Se eu pensar quando os meus pais eram crianças, na década de 40, a quantidade de informação disponível então hoje é vários graus de magnitude maior. Estamos lidando bem com tudo isso?

                Ulan-Ude é a primeira cidade maior para quem está vindo da Mongólia em direção à Rússia. Ulan-Ude é a capital da República da Buriácia. Para quem não sabe, a Rússia possui dezenas de Repúblicas com graus variados de autonomia, e com presença de diversas etnias. A Rússia é realmente um caleidoscópio de etnias, a visão de loiros de olhos azuis não é necessariamente verdadeira para toda Rússia. Foi nosso primeiro ponto de parada no país, um dos lugares mais inexplorados, ao menos para estrangeiros, e bonitos da terra.

                A característica mais marcante dessa cidade, ao menos para mim, foi ver uma grande presença de russos oriundos de uma etnia mongol.  São chamados Buriates-Mongóis (sim, o nome Buriácia vem daí), são cidadãos russos, mas com uma etnia mongol. Na cidade Ulan-Ude, era extremamente normal ver rodas de adolescentes russos, metade bem loiros, e outra metade com traços mongóis. Vi vários casais também de etnias diferentes. Foi uma grande surpresa, mas também algo muito legal de se ver. A primeira impressão foi de como a Rússia é “mal e porcamente” conhecida pela vasta maioria dos ocidentais, inclusive, talvez principalmente, por aqueles que acreditam ser bem informados. A outra foi como duas etnias complemente distintas (a eslava e a mongol) conviviam em grande harmonia, ao menos para um observador casual como era o meu caso.

A grande cabeça de Lênin no centro da cidade de Ulan-Ude

                Foi em Ulan-Ude que vim ver as primeiras estátuas em homenagem a Lênin,  stalin e outras figuras do passado comunista russo não há nenhuma homenagem ou referência. Creio que utilizam a figura de Lênin com um elo para o passado de um regime que durou mais de 70 anos, pois seja a história triste ou opressiva, ela mesmo assim ainda é a história russa do século vinte. Pude também sentir a atmosfera de uma cidade russa que não seja as famosas e badaladas Moscou e São Perterburgo. 

       Aliás, as cidades russas são incríveis, a completa ausência de estrangeiros, o jeito “rude-mas acolhedor” de muitos russos, a admiração deles quando sabiam que éramos brasileiros (ao menos antes da reputação dos brasileiros ser um pouco arranhada com alguns casos lamentáveis durante a copa), fez que nosso um mês na Rússia fosse fantástico. Foi um mês, mas a Rússia merece ao menos uns quatro meses de viagem. A Rússia, e com certeza a Mongólia, é um dos lugares que pretendo levar a minha filha quando ela for um pouco maior.

                Foi também Ulan-Ude que comecei o meu “tour” de jogar xadrez pelas ruas e cafés das cidades russas apostando dinheiro. Russos não jogam, ao menos eu não observei em nenhum lugar, xadrez ao ar livre sem apostar algum dinheiro.  Nessa primeira vez, foi muito engraçado, pois eles viram um brasileiro jovem, talvez nunca tinham conversado com um brasileiro antes, pedir para jogar. Eles ficaram reticentes e num completo “broken english” falaram que era a dinheiro. Depois da minha quarta vitória seguida, os tiozinhos já estavam sorrindo para mim, como se eu fosse da turma, um deles até falando “mequinho” (mequinho foi o maior jogador de xadrez brasileiro da história), e numa mistura de russo, inglês, mímica, nós íamos conversando. Foi uma experiência incrível.



Soulsurfer jogando xadrez pela primeira vez na Rússia. Cada partida valia o equivalente a um dólar, e nessa parte da Rússia podia se comer muito bem com quatro dólares (a quantia que fiz).

                
Infelizmente, o vídeo mais engraçado dessa experiência, não consegui dar Upload por ser maior de 100 megas. O interessante, porém, é a tradição de apertar as mãos quando se inicia uma partida (e em campeonatos quando se termina). Por esse motivo resolvi colocar esse vídeo, pois é uma tradição incrível do xadrez. Uma vez num campeonato mundial, na minha melhor competição, em 1996 estava com uma partida ganha. Se eu ganhasse, faltariam apenas 3 rodadas (8 já teriam ido), e eu estaria entre os 10 melhores do mundo. Vai que eu me inspirasse e ganhasse duas e empatasse uma nas últimas três rodadas, poderia terminar entre os três melhores do mundo. Porém, fiz um lance ruim, a posição se igualou, e eu acabei perdendo. No final, eu não cumprimentei o meu adversário (creio que era um Suíço) e me neguei a analisar a partida (uma prática comum em torneios internacionais). O meu pai estava na parte reservada aos observadores, e viu a cena. Ele disse que ficou envergonhado, não por eu ter perdido, mas por eu não ter cumprimentado e negado em analisar a partida. Eu tinha 16 anos, e era mais do que compreensível a minha atitude, mas é aí que entra a moral e caráter dos pais. Até hoje lembro dessa cena, e como o meu pai estava certo ao chamar minha atenção. O cumprimento é o ato de se dignar e respeitar o seu adversário, independentemente se você perdeu ou ganhou. O xadrez me ensinou um pouco disso. Como o mundo não seria melhor se as pessoas, metaforicamente ou não, simplesmente apertassem as mãos dos seus adversários?

            Todo esse perspectiva pessoal sobre Ulan-Ude para dizer que uma noite entramos num restaurante e descobrimos que eles tinham pizza. “Uau, comer uma pizza depois de tantos meses” pensamos com as nossas papilas gustativas já salivando. Lá a pizza era vendida por quilo, e pedimos um quilo de pizza. O atendente num inglês quebrado foi extremamente agradável, e quando falamos que éramos brasileiros, sua simpatia aumentou ainda mais, ele trouxe até um balão de presente. Perguntei de onde ele era, ele respondeu Ucrânia. Perguntei de qual parte da Ucrânia, ele falou Donetsk. “Está um pouco difícil lá nesse momento, não?”, ele aquiesceu e respondeu “é por isso que estou aqui”. Conversamos um pouco sobre a Ucrânia, no limite do possível pela barreira linguística (eu adoro esse tipo de conversa) e sobre a vida dele.

Essa é a pizza
Esse é o balão (e o bar-pizzaria era muito interessante, pois eram inúmeras Tevês passando clipes de russas lindas de biquini em poses sensuais, esse traço da cultura russa, completamente machista, veríamos em muitos e muitos lugares)
E esse é o Ucraniano

                Para quem não sabe, depois da anexação da Criméia por parte da Federação Russa, uma série de conflitos armados se espalharam pelo leste da Ucrânia (onde Donetsk está localidada) entre forças pró-russas e forças ucranianas. A região da Criméia era predominantemente formada por russos, já o leste da Ucrânia como um todo possui muitos russos (ou descendentes de), mas a maioria é formada por  Ucranianos.

                 E o que isso tudo tem a ver com o tema do artigo de hoje? Quando da anexação da Criméia, houve um grande alarido de uma possível guerra de maior escala entre a Rússia e a Otan. Lembro inclusive de textos de “analistas” sobre o potencial grave impacto de um possível conflito na precificação de ativos. Muitas notícias em diversos canais de comunicação. Com o fluxo de informação, muita atenção de pessoas comuns foi orientada para aquela parte do mundo. Passados alguns meses da consumação da anexação, a Ucrânia saiu dos noticiários, e talvez seja esse um dos motivos da esmagadora maioria das pessoas que se considera bem informada não saber que diversas regiões do leste da Ucrânia estão em situação de “quase guerra”. Se havia potencial de um conflito entre a Rússia e a demais potências ocidentais quando da anexação da Criméia, pode ter certeza que o potencial ainda está lá no atoleiro chamado "leste da ucrânia".

                Lembro também quando estava no Irã, eu de vez em quando assistia à televisão local. Sempre nos comerciais havia cenas fortes do conflito do Iêmen e o papel nefasto que algumas potências ocidentais estavam exercendo nesse conflito. A narração era em farsi, mas havia algumas legendas em Inglês, e por isso eu conseguia entender alguma coisa. Isso foi em 2016. 

           A guerra do Iêmen só foi ter alguma pouquíssima atenção no ocidente (e no Brasil nenhuma atenção), quando houve o assassinato de um jornalista saudita crítico do regime ditatorial da Arábia Saudita num consulado árabe na Turquia num ato horrendo. O presidente dos EUA, numa atitude completamente contrária a tradição americana, colocou panos quentes, o que o Senado Americano, de maioria republicana, não aceitou e por unanimidade condenou a Arábia Saudita (realmente, o estrago de Trump nas instituições americanas não será pequeno). 

          Só daí, no final de 2018, começou-se a levantar os vínculos americanos com a guerra saudita empreendida no Iêmen .   Isso já era notícia principal no Irã em 2016, e muito provavelmente antes disso. O conflito no Iêmen, um dos mais catastróficos em termos humanitários (se não for o maior atualmente) é algo invisível para quase todos os ocidentais (e nem me refiro aos Brasileiros), mas no Irã era notícia central há alguns anos. Como poder ser algo tão central para certas redes de notícia, e inexistente para outros? Com certeza, apenas a proximidade geográfica e o envolvimento do Irã no conflito não respondem essa questão na sua integralidade.

                Brexit. Uns comemoraram.  Viram o surgimento de algo novo, era o “povo” dizendo não à burocracia européia. Os mais chegados em teorias conspiratórias viam o Brexit, junto com a eleição do Trump, como um sinal da derrocada do “globalismo” e o surgimento de algo novo. Analistas surfando no óbvio hoje dizem “está vendo, olha como a mídia tradicional, e os analistas puderam ser cegos”.  Outros, por seu turno, dizem que foi um grande erro cometido pelo Reino Unido. Acerto ou erro, o fato é que na época muita atenção foi dada ao Brexit, e de novo várias análises, inclusive de blogueiros amadores, sobre os efeitos do Brexit , as implicações políticas e sociológicas.

                O Brexit, porém, ao menos no Brasil saiu de moda. Acontece que está uma confusão danada no processo de saída, e ninguém sabe ao certo o que realmente vai acontecer. Os acontecimentos de hoje são tão ou mais importantes do que quando o Brexit foi decidido, mas parece não ter muita atenção da mídia.

                O que Donetsk e a guerra civil em standy by no leste da Ucrânia, Iêmen e Brexit possuem em comum, se é que há algo que os une? Por qual motivo eu estou falando disso? Há pessoas com o dom da concisão, não é o meu caso. Os maiores mestres da concisão geralmente são poetas, por isso quando você escutar de alguém que poesia não tem serventia ou sentido, apenas ignore, pois quem diz tal estultice não sabe do que está falando. Como me falta a genialidade da concisão, eu muitas vezes construo inúmeros textos para mostrar como penso sobre determinada faceta da realidade.

                Quando escrevi “estórias” sobre o absurdo de pessoas se importarem mais com a “reforma da previdência” do que aspectos práticos do seu dia a dia, tive muitos comentários do tipo “o seu texto foi prolixo, é evidente que não é o mais importante, mas discutir a reforma da previdência é imprescindível, etc, etc”. Teve até um comentário no sentido “e se o sujeito achar que a reforma da previdência é mais importante do que seu relacionamento conjugal, o que você tem a ver com isso? Hein!”. Ai, ai.  

         Primeiramente, no próprio texto estava explícito (e eu ainda deixei isso explícito no texto) de que a reforma da previdência era apenas uma metáfora para como as pessoas hoje em dia se deixam levar por assuntos que às vezes não compreendem adequadamente em detrimento de assuntos muito mais relevantes para o seu dia a dia.  Quase todos que escreveram comentários nessa linha, não se deram conta nem ao menos disso. Substitua “reforma da previdência”, por “Iêmen, Donekst ou Brexit” e o efeito é rigorosamente o mesmo. Em segundo lugar, amigo, você pode fazer o que quiser da vida, inclusive negligenciar o seu relacionamento, aliás, isso é o que boa parte das pessoas faz, nenhuma novidade aqui.

                O que une Iêmen, Donekst e Brexit, ou a reforma da previdência, é que a forma como esses temas são apresentados a nós são construções de uma narrativa que nem mesmo sabemos a origem ou quem está por trás.  Numa hora um assunto é importante, na outra não. Um assunto é negligenciado numa parte do mundo, na outra não. As narrativas construídas estão completamente fora do nosso alcance, e como nossa capacidade mental tem limite para absorver informações, e como ninguém quer ou pode gastar tempo realmente pesquisando a fundo os diversos assuntos, coloque na cabeça, prezado leitor, que o fluxo constante de informações que chega a você são narrativas criadas por terceiros que podem ou não guardar mais ou menos similitude com a realidade, ou mais ou menos relevância para humanidade, ou em última instância mais ou menos relevância para você.

                O relacionamento de você, leitor, com sua mulher , filhos, amigos, vizinhos, e mais importante consigo mesmo, por outro lado, é real, é seu, é algo que diz respeito direta e incisivamente a você, e tem um grande impacto no seu bem-estar. “Ah, Soul, mas quem não sabe disso?”, algumas mensagens foram escritas quando esse tema foi abordado. Resposta: muitas pessoas, basta fazer um experimento próprio e observar ao seu redor. 

        Minha filha nasceu, por exemplo, e meu padrinho não foi capaz de me mandar uma mensagem sobre esse fato tão importante. Porém, ele é capaz de me mandar mensagens sobre política por mídias sociais.  Isso é sinal de adoecimento das relações. Não me entendam mal, eu adoro o meu padrinho e sinto muito carinho por ele, e nem mesmo fiquei chateado, pois realmente compreendo como as pessoas estão fazendo escolhas tolas nesse aspecto, mas é evidente que muitos indivíduos estão literalmente dando mais importância a informações sem qualquer relevância direta com suas vidas em detrimento de relacionamentos pessoais mais íntimos. Isso é apenas um exemplo, tenho diversos outros, e com certeza isso é apenas uma gota e cada leitor se fizer um esforço talvez tenha um ou mais exemplos, ou talvez seja o próprio exemplo.

                Portanto, talvez as idéias desse blog fizessem mais sentido se expostas num livro de forma mais harmônica, ou num podcast de uma duração mais longa, mas a vida completamente desbalanceada em que muitas pessoas vivem pode ser abordada de diversos aspectos, de diversas formas e com a construção de diversos artigos. “Mas, eu não concordo”. Ótimo, é um direito seu leitor, e fico feliz que assim o seja. “Eu acho o artigo prolixo e sem fundamento”. Tudo ótimo também, ninguém é obrigado a ler o que eu escrevo ou, melhor dizendo, é possível gostar de textos meus, e não gostar de outros, e isso é muito salutar. Ou ainda  “           Brexit, reforma da previdência, Irã, Ucrânia? Isso não tem qualquer relação, vou lá ver o meu vídeo ou o meu artigo sobre o problema X pela enésima vez”, ótimo também.

                Porém, em que pese o parágrafo anterior, podem ter leitores (três, quatro, dez) que realmente possam parar e refletir com seriedade sobre as próprias condutas. O grande filósofo Sócrates disse, ou ao menos se atribui a ideia a ele, que “ a vida não examinada não merece ser vivida”.  Quer o leitor concorde ou não,  “Iêmen, Donekst ou Brexit” mostram que o fluxo de informação  chega até nós com uma narrativa embutida, seja de maneira consciente ou não, tanto que é muito difícil diferenciar o que é real, o que é importante, do que é apenas uma visão parcial e distorcida. Se o Brexit era importante em 2016, ele ainda o é mais importante no começo de 2019, por mais que as notícias não demonstrem isso.

                Portanto, sobre esse ponto de vista, ainda mais agravado pelo “click bait” (que se dá de diversas formas), pela falta de profundidade de análises, pela pura repetição acrítica de idéias, ou pelo abuso do sensacionalismo de “notícias” que não mereceriam qualquer relevância, quase todo o noticiário é de certa forma tóxico. Além der ser informações com uma narrativa construída, sem qualquer participação sua leitor, quase nunca esse fluxo de informação faz com que os consumidores dele se sintam melhores,  empoderados, felizes e realizados com suas próprias vidas.  

                Suas relações mais próximas, sua saúde, física e principalmente mental, por outro, são reais e imprescindíveis para uma boa vida. Uma vida refletida necessariamente passa por um processo profundo, e muitas vezes demorado, de questionamento de muitos hábitos de nossa vida cotidiana.

                Como disse o baterista do Iron Maiden (Nicko Macbrain) uma vez “se você gosta do Iron Maiden, eu te amo. Se você não gosta do Iron Maiden (pausa dramática), eu te amo também”, termino esse artigo dizendo “se você gostou, ou melhor, ainda, se esse artigo ou outros textos desse espaço te ajudaram, fico feliz e desejo o melhor para você. Se você não gostou desse artigo, ou de outros, ou pior ainda, se não gosta do escritor por algum motivo especial, (pausa dramática) fico feliz também e desejo o melhor para você”.


Mas pode se comer com 3-4 dólares? Ah pode sim. No Lago Baikal, compramos pães deliciosas e um peixe defumado da família do Salmão por U$ 1,50.

A melhor vista possível do restaurante

O peixe era delicioso.

E ainda com mais um dólar se comprava um monte de fruts vermelhas (que delícia).

                Um grande abraço!






23 comentários:

  1. Alguns comentários:

    1) Vc tem um jeito (ou trejeitos) que lembram o Rafael Ilha (não sei se alguém já te disse isto) (interprete como um elogio rs)

    2) Já assistiu a este documentário? Acredito que vc iria gostar.
    https://www.youtube.com/watch?v=6CULrgHuhRE&

    3) Dizem que vivemos na era da "pós-verdade". Observo que o excesso de viés nas "narrativas" (que cada vez são mais narrativas carregadas ideologicamente e menos factuais) só atrapalha a interpretação do mundo. Se por um lado temos excesso de informação, fazer uma análise para separar o que é "fato" do que é "narrativa" é algo trabalhoso. Junte-se a isto o pouco interesse (ou implicação) que aqueles acontecimentos podem ter sobre a sua vida prática... pronto... é um pé para a alienação fácil e consentida.

    Eu sempre defendi que o papel ético da imprensa deveria ser a tentativa de se abordar de modo imparcial os fatos do mundo. É óbvio que 100% de imparcialidade é utopia e não existe, mas quando a intenção é de ser imparcial já há um ganho enorme de valor nisto.

    4) Não só os fatos do mundo são carregados de "narrativa" (entendo aqui narrativa como fatos interpretados e emoldurados sob uma determinada visão parcial e não técnica). Nossas próprias vidas pessoais são narrativas que nós construímos juntos com os outros - e, por vezes, estas próprias narrativas podem gerar discordâncias e dissonâncias entre as pessoas.

    Somos constantemente convidados a viver e criar "narrativas" sobre aquilo que vivemos. Há quem seja muito fantasioso e irracional nestas construções de narrativa e não querem se deparar com o real de uma forma mais "fidedigna", vamos dizer assim.

    Neste sentido, se há lunáticos e radicais nas visões políticas de grandes questões do mundo, os mesmos também podem assim agir em suas vidas pessoais e particulares.

    Abraços!

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    1. Olá, Renato.
      1) Nem sabia quem era, fui olhar, pô, cara, agora tu me zoou! hehe
      2) Vou dar olhada.
      3) Sim, eu concordo contigo.
      4) Você tem toda razão ao dizer "Nossas próprias vidas pessoais são narrativas que nós construímos juntos com os outros". Isso é tão profundo e interessante que mereceria muitos artigos a respeito, mas aqui apenas vou concordar contigo. É muito interessante tentar ler sobre a neurociência por trás da construção do nosso "eu".

      Um grande abraço!

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  2. Boa conclusão. Realmente, há uma assimetria de informação muito grande mesmo e acaba que a gente foca nossa percepção nas coisas que nos dizem ser importantes, e não no que realmente o é.

    Esse artigo serviu como um tapa na cara pra mim. Ajudou com algumas coisas que já venho percebendo acontecer comigo e minha família, principalmente no WhatsApp. Obrigado!

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  3. O grande fluxo de informações constante no mundo atual força as pessoas a retirarem o foco do essencial, no caso, elas mesmas, colocando a atenção em coisas e fatos que nada ou pouco influenciarão as suas vidas. Disso decorre aqueles indivíduos que sabem a novidade mais recente do mundo político por exemplo, mas não tomam o devido cuidado com a própria saúde, com os relacionamentos ou com seu eu interior. Como diria Jordan Peterson, no seu livro "12 regras para a vida", cuide primeiro de sua casa antes de querer transformar o mundo.
    Parabéns pelo post e por compartilhar as experiências de viagem.
    Abs
    Fabio

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    1. Olá, Fabio.
      Eu num primeiro momento não gostava muito do Peterson, mas depois de ouvir, sei lá, umas 10 horas de entrevistas, debates, com ele, meu entendimento mudou. Ele possui hombridade em realmente querer discutir os temas, ele não tenta "lacrar", possui visões bem interessantes sobre diversos temas complexos, e está ajudando muitas pessoas.
      Ainda não li o livro dele mais popular (12 regras, o mais "filosófico" dele chama-se "Maps of meaning"), mas pretendo fazê-lo em breve.
      Um abraço!

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  4. No seu artigo anterior narrei como a minha percepção sobre o processo de reforma da previdência (ou brexit ou donetsk) "de dentro" da Esplanada era bastante diversa daquela que o fluxo de informações constrói.

    Durante minha estada em Brasília, vivenciei "de dentro" alguns episódios de maior repercussão e, ainda jovem, tive uma experiência bastante imersiva entre a distorção realidade pratica e a realidade construída.

    Mas uma dúvida ainda me atormenta:

    Qual a causa raiz principal?

    Seria apenas inabilidade da imprensa, que tenta amoldar temas complexos ao entendimento do brasileiro médio, o "Homer Simpson" que ve o JN?

    Seria intencional? A mídia sendo elemento de manobra política, construindo silenciosamente um "senso comum" sobre o tema para colher frutos no momento apropriado?

    Seria apenas economia? Notícias curtas e rasas capturam nossa atenção enquanto textos e análises densas afugentam as massas e os anunciantes.

    O impacto já é amplamemam conhecido: formação de pseudo especialistas, informados achando que São conhecedores, acirramento das polarizações.

    Mas a percepção precisa das causas ainda me escapam em mistério.

    Forte abraço!

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    1. Olá, amigo.
      Creio que há variadas razões. Primeiramente, nem tudo pode ser noticiado ao mesmo tempo. Em segundo lugar, o mundo e as relações são muito complexos, e criamos um ambiente de informação que privilegia o superficial em detrimento de análises mais nuançadas. Porém, com esses podcasts (Os intelectuais da "Dark Web") de 2-3 horas, esmiuçando diversos assuntos, algo novo começa a tomar forma nesse campo. Há também as ideologias, os interesses políticos, religiosos, etc, que moldam a forma como a narrativa é construída.
      Creio que é multifatorial.
      Um abraço!

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  5. Gostei do texto, as pessoas custam entender que estão perdendo a vida delas e deixando de aproveitar o melhor dessa vida pra poderem viver ouvindo as narrativas de terceiros, Donetsk ou Iêmen, Brexit ou Trump, será que esses assuntos são mais importantes que o que a pessoa ao seu lado tem pra te dizer?
    Não duvido que os comentários do texto anterior devem se repetir, mas gostei do teu ponto de vista, sei que pensa assim a certo tempo, mas a paternidade tem-lhe feito bem. Abraços!

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    1. Olá, colega. A paternidade tem me feito muito bem sim, cada vez mais feliz em ser Pai.
      Um abraço!

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  6. Soul, nunca tivemos tanta informação na história, uma criança de 5 anos tem mais alcance a informação que um idoso do início do século passado, mas aparentemente nós humanos não estamos sabendo lidar com tamanha informação, qual a sua opinião sobre os efeitos dessa inundação de informações na vida das pessoas? Abraço.

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    1. Olá, marco antônio.
      Olha, nosso cérebro não evoluiu para lidar com esse fluxo absurdo de informações. Eu creio que é preciso muita maturidade e bom senso, e mesmo assim é fácil se sentir perdido e sobrecarregado.
      Os pontos negativos de tanta informação estão começando a ficar bem claros. Eu creio que a existência de muita informação disponível pode ser algo muito bacana e poderoso, se a pessoa consciente e ativamente procura a informação, como por exemplo alguém que quer pesquisar sobre a relação colesterol e eventos cardíacos. Por outro lado, a exposição completamente passiva e inconsciente a um fluxo interminável de informações, notícias, etc, eu creio ser algo deletério.
      Um abraço!

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  7. Digo uma coisa: seus artigos são fodas!

    É bom saber que em plena era das "certezas" ainda existe gente que consegue expressar pensamentos que mostrem esse mundo em constante mutação e consegue criticar ele de forma construtiva.

    Seus posts são fantásticos e acho muito bacana (e raro) a forma como aborda experiência pessoais na sua vida e faz isso conectando com temas que estão no contexto de vida da maioria dos leitores.

    Ansioso pelo próximo post.

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  8. Nobre e inclíto cavalheiro, felicito-o e a sua consorte pelo nascimento da pequena Sabedoria.



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    1. Meu amigo, mensagens suas são sempre uma honra.
      Muito obrigado, bem feliz com a minha filha.
      Um abraço!

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  9. Amigo, pelo que me lembro, O Yemen começou a ser bombardeado ainda no governo do Obama, o pior presidente da história dos EUA e o único presidente de quinto mundo que aquele país já teve.

    Além de ter entrado e saído do poder, sempre em guerras, e ter deixado o Estado Islâmico nascer e florescer a olhos vistos sem fazer nada, ele ainda conseguiu piorar toda a situação e nunca explicou o episódio de Benghazi.

    O Trump por sua vez, praticamente eliminou o Estado Islâmico e está retirando as tropas americanas da Síria. Ao que me parece o Trump está se aproximando e ouvindo os libertários americanos, principalmente o Rand Paul, que defende a não-intervenção em países estrangeiros, coisa que discordo parcialmente. Enfim, jogar aquela situação no colo do Trump e não implicar o Obama até o pescoço juntamente com a desastrada Hillary não dá.

    Paz.
    :)

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  10. Parabéns pelo artigo, Soul! Espero ansioso por seus podcasts, mas agora com a filhinha deve ser mais complicado de tirar este projeto do papel.
    Seus textos são mto bons e apesar de não comentar em muitos, sempre os leio e reflito bastante.
    Abraços

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  11. Belo texto e que experiências incríveis vc teve na Rússia.
    Por coincidência, acabei de ler um romance que retrata a Rússia após a Revolução. Se vc se interessar, o nome dele é "Um Cavalheiro em Moscou".

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  12. Excelente reflexão! Fazia um tempo que não aparecia por aqui. Conteúdo sempre de grande qualidade.

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