quinta-feira, 23 de maio de 2019

O BEBÊ QUE TODOS NÓS JÁ FOMOS UM DIA


                Você consegue se imaginar como um bebê, prezado leitor? Melhor ainda, será que você acha possível imaginar aquela pessoa mal-humorada numa fila de supermercado como um bebezinho de quatro meses descobrindo que é possível fazer sons com a boca? Não consegue pensar? Consegue? Nunca pensou nisso? Essa reflexão é uma perda de tempo?

                Quem se torna Pai, ou Mãe, e tem a possibilidade de passar bastante tempo com o bebê é transportado para “outra realidade” de vida.  Há uma expressão em língua inglesa que se chama “take for granted”. A tradução é alguma coisa como achar que  algo existe ou deve existir sem se refletir que esse algo poderia não existir.  Eletricidade, por exemplo. Qual leitor do meu blog não acredita que Eletricidade é algo que existe, algo que deve existir, e a própria inexistência de eletricidade é um cenário inimaginável?  Porém, para cerca de um bilhão (com B de bola) de seres humanos como eu, ou você prezado leitor, o acesso à eletricidade é algo inexistente ou escasso.  Logo, a eletricidade que nós “take for granted” é algo que inexiste na vida de uma infinidade de pessoas.

                A lista é grande de coisas que não percebemos quão valiosas são por acreditarmos que elas existem como o ar: saúde, relações familiares saudáveis, relações comunitárias coesas, ar limpo, ausência de guerra e destruição do tecido social, fome, etc, etc. Quanto mais evoluímos na satisfação de necessidades básicas materiais, e quanto mais deixamos os piores aspectos da natureza humana controlados em sociedades com marcos institucionais mais estáveis, temos a tendência de esquecer a beleza de certos fatos e a fragilidade de certos arranjos e estados de coisas.

                Em minha experiência pessoal, e na minha jornada nesse planeta, eu cada vez  mais percebo que um dos caminhos para um maior bem-estar, e por via de conseqüência uma maior empatia para com outros seres humanos e até outros seres vivos, é a reflexão , e a gratidão que advém desse ato, de ser feliz e agradecido simplesmente por ter saúde, não viver num campo de refugiados, ter tido uma infância feliz, possuir alguns bons amigos, morar num bairro onde as pessoas se cumprimentam na rua, etc, etc. Ou seja, é ser conscientemente agradecido por uma série de coisas que no dia a dia nós "take for granted".

                Essa reflexão, com o nascimento da minha filha, foi levada a um passo ainda maior. Um bebê de seis meses, a idade da minha filha, mal consegue ficar sentado, não engatinha, tem como única forma de comunicação choro e alguns gritos e precisa de vigilância quase que 24 horas por dia.  Talvez não seja estranho para outros pais de recém-nascidos, mas quando eu toco no corpo da minha companheira me vem uma sensação de “nossa, como o seu corpo e rosto são enormes”.  Eu muitas vezes me pego olhando para pessoas na rua andando, falando, olhando um celular, discutindo, trabalhando e penso que todos esses seres humanos já foram obrigatoriamente bebezinhos como a minha filha que não eram capaz de realizar nenhum dos atos que consideramos triviais como andar e falar.

                Todos, sem exceção. O Bolsonaro já foi um dia um bebê. Lula também por mais difícil que se possa imaginá-lo como um bebê. Um estuprador também um dia já foi uma criança, assim como o Bill Gates ou o Warren Buffett. Todos já foram um bebê indefeso e completamente dependente de um adulto. Todos tiveram que aprender a comer uma fruta, a andar, a se comunicar com outra pessoa, a amar, a detestar, ou seja, a se tornar um ser humano funcional.

                Esse tipo de pensamento me torna uma pessoa ainda mais tolerante. Quando alguma situação me estressa, agora me pego pensando que aquela pessoa que na minha visão está interferindo negativamente na minha experiência presente já foi um adorável bebê. É impressionante. Quando isso ocorre, qualquer sensação de raiva ou ira se esvai quase que instantaneamente.  Às vezes o efeito é tão forte que eu até me solidarizo com a pessoa, e tento, nem que de uma maneira interna, me conectar de forma empática.  Afinal, o que será que aquela criança não passou? Será que ela teve a oportunidade de ser amada com tanta intensidade como a minha filha o é? Quantas sombras será que não foram criadas nesse agora adulto por causa de hábitos ou atos de seus cuidadores?

                Eu não tenho a menor dúvida (aliás, dúvidas sempre devemos ter, melhor dizendo acredito ser uma boa explicação) de que as frustrações, ansiedades, neuroses, animosidades, que vemos no nosso dia a dia e em nós mesmos nada mais são do que sombras gestadas em nossos primeiros anos de vida.  Há uma autora que se especializou apenas nesse tema e chama-se Laura Gutman. Qualquer mulher grávida (e alguns pais, mas poucos) mais atenta e curiosa já ouviu falar do livro “A Maternidade e o encontro com a Própria Sombra”.


                Qual não foi a minha surpresa ao escutar um dos últimos podcasts do Joe Rogan ao ouvir dele que a sua maturidade e transformação num ser humano mais tolerante com os outros, ao menos uma parte significativa dela, veio de fazer o exercício de imaginar as pessoas como crianças pequenas (algo que ele começou a fazer depois de ser Pai). Talvez poucos conheçam o Joe Rogan aqui no Brasil, mas o podcast dele talvez seja o maior do mundo. A audiência dele muitas vezes equivale a programas de televisão das maiores emissoras americanas.

                Joe Rogan é um comediante e comentador de lutas marciais que iniciou um podcast há alguns anos. Hoje em dia, ele é uma referência. Suas entrevistas duram algo em torno de 2 a 4 horas. É um cenário simples, uma mesa e ele fazendo perguntas. É um bate papo. Você não leu errado, muitos podcasts tem três horas e meia até quatro horas de duração. Ele entrevista todos os tipos de pessoas, de todos os vieses políticos e ideológicos, neurocientistas, filósofos, etc. O que tem de fantástico nesse formato é que ele realmente é curioso em saber o que a pessoa pensa independente do seu próprio posicionamento sobre um determinado assunto. Ele gosta de caçar, por exemplo, mas se ele entrevistar alguém que abomina a caça de animais ele com certeza tentará da melhor maneira possível representar com fidelidade o pensamento do entrevistado. E isso é uma maravilha. 

                No Podcast número 1295 ele entrevistou a candidata à indicação democrata para a Presidência dos EUA Tulsi Gabbard. A entrevista foi ótima, e a candidata ,que eu não conhecia, foi uma grata surpresa positiva.  Mais ou menos com uma hora e dez minutos de entrevista, o Joe Rogan fala sobre essa questão de imaginar as pessoas como bebês ao contar o que ele sentiu ao observar uma senhora absorta nessas máquinas de roleta num cassino nos EUA. Eu já vi essa cena algumas vezes quando estive em cassinos, e ela realmente é deprimente.  Porém, ao reformular a imagem, e imaginar aquela senhora como um bebê, o pensamento que veio a cabeça dele foi algo como “o que será que aconteceu na vida dela para ir de um bebê cheio de potencialidades para uma senhora solitária jogando um jogo sem sentido de maneira irrefletida?”.

                Isso não é pouca coisa, isso é muita coisa.  Os pais possuem uma responsabilidade enorme, não em fazer com que os seus filhos consigam estudar em faculdades de prestígio ou estejam preparados para ganhar dinheiro, mas em proporcioná-los uma primeira infância repleta de amor, carinho e empatia, para que possam se transformar em adultos sem sombras tão profundas.  A nós adultos machucados em maior ou menor grau talvez caiba olharmos uns aos outros com mais empatia, reconhecendo a criança inocente e curiosa que algum dia habitou o corpo agora adulto.

                Isso quer dizer que estupradores não devem ser punidos ou ter os seus atos reprovados? Não, evidentemente que não. Isso significa que não podemos ficar genuinamente insatisfeitos com o comportamento agressivo ou inconveniente de outros seres humanos? Não, evidentemente que não. Apenas significa que cada um de nós pode, e o mais importante tem a possibilidade de controle, olhar para as imperfeições alheias de forma muito mais suave e empática, e isso, prezados leitores, é um alívio tremendo em nossas vidas.

Quem tiver interesse e compreende razoavelmente bem o inglês falado esse é o pedcast mencionado.

                Um grande abraço a todos!

16 comentários:

  1. Em filas, locais públicos ou até no trabalho, quando uma pessoa está mais alterada, procurando discussões, eu procuro falar e um tom baixo e depois perguntar como a pessoa está se sentindo, olhando bem nos olhos dela. Acredite, muda tudo. Pessoas insuportáveis voltam a ser bebês e às vezes elas começam a desabafar. Claro que há quem tenha o "sangue ruim" por natureza, mas, situações de stress, como as da contemporaneidade, deixam qualquer um triste.

    Eu não tenho essa aversão ao ser humano. Muita gente diz que deveriam ser extintos, como se eles não fossem humanos também. Precisamos sempre de ajuda e de empatia.

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    1. Olá, colega.
      Claro, a pessoa mais mal humorada, agitada, está ansiando por uma atenção genuína. Já escrevi um artigo sobre uma experiência minha com uma motorista atormentada numa viagem de blabacar.
      Olhar diretamente nos olhos e perguntar como a pessoa se sente é se conectar com a mesma, algo que pessoas passam meses e meses, às vezes anos sem exercitar.

      Um abraço!

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  2. Atitude de Valor23 de maio de 2019 19:28

    Excelente exercício de empatia, Soul!

    Interessante o timing do seu artigo.

    Tenho um garoto de 11 anos e compartilho muitas de suas impressões.

    Estou na fase final de um dificílimo mestrado e tenho me cobrado muito com relação às minhas obrigações com ele nesses primeiros anos de vida.

    Ao menos para mim, há um trade-off entre buscar melhorias nos apectos mais "mundanos" (carreira, dinheiro) e esse foco total na construção dos laços na primeira infância.

    Moro bem perto do trabalho e até que consigo passar muitas horas com ele, mas o estado constante de estafa mental me faz pensar se estou conseguindo oferecer o meu máximo.

    Achei curioso o texto porque pensei exatamente nisso essa semana, vendo ele pegar no sono: "pensar que um dia eu já fui deitar sereno como ele está agora, sem nenhum peso na cabeça...".

    Minha esposa é uma mãe incrível e tem a oportunidade de ficar com ele o tempo todo... embora isso pese bastante nas minhas costas, acho que no futuro valerá a pena.

    Um abraço!

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    1. Errata:

      11 meses, não 11 anos

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    2. Olá, colega! Grato pela mensagem, bom saber que há outras pessoas por aí compartilhando alguns sentimentos bacanas em comum.
      A estafa mental é um problema mesmo. Não adianta, não conseguimos dar o melhor de si se estamos extremamente cansados, ainda mais para uma criança tão pequena que demanda tanto.
      Tente achar algum "escape" nessa sua rotina, nem que seja algumas horas na semana onde você esteja completamente descansado e possa estar 100% energizado para estar com o seu filho.
      Um abraço!

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  3. Empatia para mim é difícil com alguns tipos.
    Ladrões e criminosos em geral, não quero nem saber pelo que passaram, quanto mais ter empatia com eles.
    Me sinto até muito bem em ver eles se ferrando naqueles vídeos de assaltos que dão errado, meu dia fica até mais feliz.

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    1. Olá, colega.
      Há muitos anos vi um padre numa entrevista na rede viva que falou uma das coisas mais maravilhosas que já escutei.
      Ele trabalhava com adolescentes difíceis, muitos deles já envolvidos com drogas, crimes, brigas, ou seja jovens difíceis.
      O entrevistador então perguntou por qual motivo ele trabalhava com esse tipo de jovem?
      Ele então respondeu, resgatando os ensinamentos religiosos do próprio Jesus Cristo, que os jovens que estudam, não brigam, são respeitosos, esses todos querem conviver, mas os jovens com dificuldade estes são os que realmente precisam de ajudam.
      Minha resposta a seu comentário sobre a empatia seria na linha da resposta do padre.
      Amigo, tome cuidado, esses vídeos são deprimentes, e acho, sem nenhuma ofensa, manifestação de psicopatia se divertir com o sofrimento alheio, de quem quer que seja.

      Um abraço!

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  4. Muito interessante a reflexão. Quantas coisas que tomamos por granted mas que existem milhões de pessoas fazendo acontecer !

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  5. Eu faço um exercício mental parecido: quando alguém é muito escroto comigo, eu respiro fundo e mentalmente lembro que essa pessoa um dia vai morrer como eu também vou um dia, lembro dos momentos finais que assisti de parentes, lembro da minha mãe morrendo e visualizo a pessoa arrogante na mesma situação difícil assim como me vejo passando pelo mesmo, assim minha raiva ou princípio de reagir com grosseria se dissipa com o sentimento de igualdade e união e uma compaixão estranha pela pessoa floresce em algum lugar da minha mente .

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    1. Olá, Gerson.
      Um exercício interessante que vai mais para a linha da nossa finitude na terra, e como o simples ato de pensar nisso faz com que os aborrecimentos do dia a dia se tornem quase sem importância.
      Se faz bem para você e é a forma que você encontrou de lidar com o stress diário, maravilha.
      Um abraço!

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  6. Muito interessante a sua observação sobre como sua percepção do tamanho do rosto/corpo da sua companheira mudou (temporariamente, claro) com o nascimento da sua filha..."quando eu toco no corpo da minha companheira me vem uma sensação de “nossa, como o seu corpo e rosto são enormes”."... Eu tive a mesmíssima sensação após o nascimento da minha, mas nunca tinha comentado com ninguém... Sabe aquela coisa que vc acha que ninguém vai se importar?!rsrs...

    Outra coisa interessante é que há muito tempo eu tb já usei esse nick "soul surfer", no há muito tempo falecido ICQ, mas diferente de vc que já surfou de verdade em altos picos eu, até então, sou apenas um surfista de espírito mesmo rs... Quem sabe um dia eu aprenda de verdade esse maravilhoso esporte :D

    Abraços.

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  7. Olá Soul Surfer! Parabéns pelo excelente trabalho. Venho acompanhando a um tempo seu site e tenho aprendido bastante. Gostaria de saber se você pode divulgar meu site aqui no seu blog.

    Meu site é voltado para Dividendos no Exterior. Invisto 100% no Mercado Americano e decidi criar um site para divulgar minha trajetória e meus conhecimentos.

    O endereço do site é : https://www.ivonoe.com

    Fico no aguardo de uma resposta, para incluí-lo em meu site também. Obrigado!

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    1. Opa, amigo. Interessante a proposta do seu blog. Vou dar uma passada lá, um abraço.

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  8. E a dialética petista, hein? Frasezinhas?

    “Muito engana-me, que eu compro”

    Nós todos apreciamos consumir alguma coisa, com certa constância. Então isso poderia ser bom.
    Eis:
    Vive o PT© de clichês publicitários bem elaborados por marqueteiros.
    Nada espontâneo.
    Mas apenas um frio slogan (tal qual “Danoninho© Vale por Um Bifinho”/Ou: “Fiat® Touro: Brutalmente Lindo”). Não tem nada a ver com um projeto de Nação.
    Eis aqui a superficialidade do PETISMO:

    0.“Coração Valente©”
    1.“Pátria Educadora™” [Buá; Buá; Buá].
    2.“Haddad agora é verde-amarelo®” [rsrsrs].
    3.“A Copa das Copas ®”
    4.“Fica Querida©”
    5.“Impeachment Sem Crime é Golpe™” [lol lol lol]
    6. “Pronatec©, transformando a Vida de Milhões de brasileiros ™”[kkk].
    7.“Foi Golpe™”
    8.“Fora Temer©”
    9.“Ocupa Tudo®”
    10.“Lula Livre®”
    11.“®eleição sem Lula é fraude” [kuá!, kuá!, kuá!].
    12.“O Brasil Feliz de Novo ™”
    13.“Lula é Haddad Haddad é Lula®” [kkkk]
    14.“Ele não®”.
    15.“Controle social da mídia” (hi! hi! hi!): desejo do petismo.
    16.“LUZ PARA TODOS™” (KKKKK).
    17. (…e agora…):
    “Ninguém Solta a Mão de Ninguém ©”

    18.
    “SKOL®: a Cerveja que desce RedondO”. [Nesse estilo. Desse tipo]

    PT© é vigarista e é Ersatz.

    PT Vive de ótimos e CALCULADOS mitos publicitários.
    É o tal de: “me engana que eu compro”.
    Produtos disfarçados, embalagens mascaradas e rótulos mentirosos. PT!

    Saúde! Alta-Cultura! Segurança! Educação.

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    1. Amigo, não entendi muita coisa da sua mensagem.
      Um abs!

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