sábado, 19 de março de 2016

INDEPENDÊNCIA FINANCEIRA - QUANTO VALE O SEU TEMPO? UMA DICA PRÁTICA PARA REPENSAR A SUA VIDA

Olá, colegas. Não estranhe tantos artigos em sequência. Como estive adoecido por uns dias, fiquei muito tempo dentro do quarto, e escrever não deixa de ser um passatempo para mim. Quando não se sente tão bem, a saudade da sua própria casa aparece. Felizmente, me sinto melhor. Além do mais, não sei se terei acesso ao blog por alguns meses. Ouvi dizer que o blogger é bloqueado na China, espero que não. No meu ultimo artigo, muitos comentários trouxeram muitos temas interessantes à tona. Reforma Política, Bolsonaro, Politicamente Correto foram alguns do que surgiram. Entretanto, resolvi seguir a sugestão de um leitor de nome Gabriel que perguntou se eu não iria trazer alguns temas relacionados ao bem-viver.

 Pois bem. Já ouviu aquela “estória” do cafezinho economizado? Se a pessoa economizasse no cafezinho durante x anos, ela teria um grande valor acumulado. Há até mesmo uma carta lida por Max Gehinger viver ou juntar dinheiro? um senhor que não economizou no cafezinho, em viagens ou restaurantes, não tinha um tostão no banco, mas se jactava de ter tido uma boa vida. Muitos blogs já comentaram sobre essa história  O que quero , baseado num dos artigos mais famosos do mundialmente famoso blog do Mister Money Mustache (MMM) é fazer esse mesmo exercício mental sobre outra perspectiva.

  Quanto você precisa para se considerar Independente Financeiramente? Talvez é a questão das questões para os blogueiros e leitores de blogs de finanças pessoais. Dez Milhões, cinco, oito, dois? Evidentemente, essa é uma questão difícil de ser respondida, pois ela depende dos gastos pretendidos, bem como do retorno a ser obtido pelo capital acumulado que gere segurança para o dispêndio pretendido. Sobre o retorno do capital acumulado, mais precisamente sobre uma taxa “segura" de retirada, já disse que irei escrever uma série a respeito, provavelmente para marcar o início do meu novo blog. Entretanto, infelizmente irá demorar “um cadinho” a mais do que eu imaginava. Contudo, vamos simplificar é colocar a famosa regra dos 4%. Sendo assim, uma pessoa é Independente Financeiramente assim que tiver acumulado 25 vezes os seus gastos anuais.

  Agora fica fácil responder o quanto uma pessoa precisa. Quer gastar R$100 mil reais por ano? Precisa de R$2.5 Milhões. Quer gastar R$1M por ano? Precisa de R$25Milhões. Veja que quanto maiores os gastos pretendidos, maior o capital a ser acumulado. Óbvio e intuitivo.

   Assim, se alguém acha essencial ter uma empregada doméstica ou diarista que custa R$1.666,6 por mês, ou R$ 20.000,00 por ano, tal gasto deverá ser bancado por um patrimônio acumulado de R$500.000,00. Sim, para ter a comodidade de você não limpar a sua casa ou fazer outros afazeres domésticos, você precisará de meio milhão de reais acumulado. 

   Quantos anos isso representa em sua vida?   “Como assim, Soul?”. Essa é a grande sacada de pensarmos sobre uma outra ótica a questão. Quantos anos de sua vida você tem que gastar trabalhando para poder bancar uma determinada despesa. Essa é uma questão fácil de responder. Vamos imaginar uma pessoa com um salário razoável, para padrões nacionais, de 10 mil reais líquidos. Talvez a esmagadora maioria dos leitores não ganhe nem 10 mil reais bruto, mas coloco um salário desses apenas para reforçar a praticidade do exemplo. Vamos supor também que a pessoa tenha uma alta taxa de poupança de 40% da renda, muito maior do que a média nacional, logo essa pessoa poupa 4mil por mês, ou 48 mil ano. Se nosso investidor conseguir investir com um retorno real, ou seja já descontada a inflação, de 6% aa, ele em aproximadamente oito anos conseguirá acumular R$500.000,00.

   O que isso significa? Para se “dar ao luxo” de não fazer nenhuma tarefa doméstica, o nosso incansável trabalhador-investidor deverá trabalhar nada menos do que 8 (oito) anos a mais. Serviços domésticos feitos para você valem 8 anos de sua vida?            

  Esse tipo de raciocínio pode ser aplicado a qualquer gasto. Adora ver o time de futebol no maravilhoso campeonato brasileiro por meio do Pay Per View junto de um belíssimo pacote de 253 canais de televisão? Gasta R$416,6 por mês? O nosso investidor-torcedor vai precisar de  R$125 mil acumulados, o que significa nada mais nada menos do que aproximadamente 2.5 anos trabalhando a mais. Um time de futebol vale esse esforço adicional? Para alguns talvez sim, para outros talvez não, o importante é ter consciência desse fato. Acrescente qualquer exemplo que queiram, prezados leitores, e terão um susto ao analisar os gastos com a contrapartida em anos trabalhados.

  Isso mostra não que devemos parar de gastar dinheiro com coisas que gostemos ou damos importância, apenas mostra a relação direta entre os seus gastos e o que há mais de importante na sua vida: O SEU TEMPO.

   Uma certa dose de capital acumulado é necessário para ser independente financeiramente. A esmagadora maioria das pessoas querem ter uma vida razoável do ponto de vista material, o que implica gastos de diversas ordens. Cada um pode ter gostos e hobbies únicos, e isso resultar em dispêndios monetários. Nada disso é errado, muito pelo contrário. Entretanto, tente se conhecer mais profundamente, para saber o que realmente te deixa satisfeito ou não. Será que determinados tipos de gastos são tão importantes assim para o seu bem-estar, ou no final são apenas impulsos oriundos de uma propagada intensa  a qual todos nós somos bombardeados diariamente? Pior ainda, será que são gastos que fazem você melhor, ou servem apenas para impressionar outras pessoas (gastos com carros, jóias, viagens luxuosas, etc, costumam cair nessa categoria)?  Tanto no primeiro caso, como no segundo, você está deixando que terceiros sejam senhores do seu tempo. Tomar as rédeas dos seus gastos, é na verdade tornar-se senhor de si mesmo e do seu próprio tempo.

  Gaste menos e com mais consciência, e você precisará trabalhar menos anos, e poderá ser independente financeiramente muito mais rápido do que imagina com menos idade do que a maioria das pessoas se aposentarão. Você terá mais tempo para si, e mais ainda, será muito forte, pois não deixará que terceiros digam de forma indireta ou não o que fazer com o seu tempo.

  Além do mais, o capital acumulado que você não precisará porque não terá um determinado gasto específico é apenas uma faceta da reflexão. A partir do momento que você não enxerga necessidade de gasto no futuro, provavelmente ele não se faz necessário no presente também, fazendo com que se possa acumular mais rapidamente capital, encurtando ainda mais o tempo necessário para a Independência Financeira.

  E sobre o cafezinho? Eu, particularmente, não gosto, então para mim é fácil a resposta. Agora se fosse sobre rodízio de comida japonesa, nossa  como gostaria de comer um depois de tanto tempo viajando, com certeza tenho que deixar uma parte do capital acumulado para pagar essa despesa:)


  Grande abraço a todos!

quinta-feira, 17 de março de 2016

BRASIL - O QUE REALMENTE QUEREMOS?

 Olá, colegas. Realmente, o que está ocorrendo no Brasil é algo incrível mesmo. A cada dia uma notícia mais espantosa do que outra. Eu tinha colocado a mim mesmo que não iria mais acompanhar tanto o noticiário, porque afinal eu acho que muitas notícias não fazem bem para a sanidade mental das pessoas. Além do mais, tira o tempo para pesquisas de assuntos com uma importância maior para mim no presente momento. Entretanto, o momento é sui generis, e difícil de não ficar curioso sobre os acontecimentos.

  Há uns meses, escrevi um artigo chamado Dores do Crescimento? Nele refletia se os acontecimentos do país não seriam estágios necessários para sairmos da nossa adolescência democrática rumo a uma maturidade maior enquanto nação. De la para cá muitas coisas aconteceram, o que mostra o quão imprevisível podem ser os acontecimentos políticos. A pergunta que se faz é a seguinte:  Afinal, as milhões de pessoas que foram às ruas representam um país que realmente quer mudar?

  Ao escrever sobre os desafios da Previdência nesse artigo, o meu objetivo era contribuir para o debate e mostrar que possuímos muitos desafios estruturais.  Um outro artigo meu escrito no ano passado, apontava para o aumento inevitável da  carga tributária sobre a renda e patrimônio A Inevitável Tributação de sua Renda com dados objetivos, mas por algumas pessoas foi interpretado como uma opção ideológica. 

  Tendo em vista os acontecimentos com alta carga emocional do país nos últimos tempos, não teria a ilusão de que mudanças estruturais estariam no foco da mídia, dos políticos e da população como um todo. Entretanto, a pergunta remanesce “e depois do turbilhão, o que fazer?”. 

  Pergunto a você leitores, a maioria que faz parte de uma minoria que poupa capital e investe, “o que fazer?”. “Diminua o Estado!” São todos parasitas!” Alguns repetem. “Mas não mexam com os velhinhos do INSS, com a educação e os Militares!”. Hum. A nossa carga tributária é de algo em torno de 35-36% do PIB. O nosso gasto com previdência de 12.5% do PIB, Educação querem gastar 10% do PIB até 2022, e o Ministério da Defesa é de longe a pasta que mais consome recursos entre os diversos Ministérios na esfera federal. Se colocarmos o serviço da dívida, sim o pagamento de juros dos investidores em títulos do governo, soma-se mais uns 6-7% do PIB. A conta não fecha, e olha que não falei de Saúde, Investimento e dos gastos com Judiciário e MP e ainda deixei de fora os gastos dos Estados e Municípios com suas respectivas máquinas.

  É incoerente e mentiroso afirmar que se pode diminuir o Estado Brasileiro em 80% sem deixar de pagar benefícios previdenciários, militares e professores. Simplesmente, impossível. Ou se defende o fim da previdência pública, da educação pública e diminuição substancial das forças armadas, ou se cai em contradição lógica.

  Talvez não deva existir Previdência Pública, nem Educação Pública, nem Saúde Pública. Esse é um debate interessante. Talvez, mesmo que não haja exemplos internacionais de países com populações maiores, a função do Estado seja apenas garantir contratos e a propriedade privada. Ótimo, debate válido. Se é isso que você pensa ser o correto, deve defender de forma clara e transparente. O único problema é que não estamos construindo um país de um pedaço de papel em branco. É um país que já existe, com instituições que já existem. Logo, tenho certa dúvida da possibilidade real disso ter alguma chance de ocorrer, sem uma quebra  completa da ordem interna do país.

  “Não, eu não quero isso, Soul, mas alguma coisa tem que mudar”. Sem dúvidas. Entretanto, o que exatamente? Algum  candidato propondo “Sangue, Suor e Lágrimas” à população brasileira tem alguma chance real de se eleger? E o que seria para mim "Sangue, Suor e Lágrimas"? É dizer para os funcionários públicos que os reajustes serão abaixo da inflação, que em alguns cargos os salários nominais devem ser diminuídos e uma brutal diminuição dos cargos em comissão. Para os aposentados é dizer que o Salário-Mínimo deve ser desvinculado do pagamento de benefícios previdenciários. Aos prestes a se aposentar que as regras devem ser mudadas para que o sistema seja minimamente solvente para futuras gerações. Aos trabalhadores é dizer que o Salário-Mínimo não pode ser reajustado pela inflação + crescimento do PIB, mas sim pelo aumento real e efetivo da produtividade. Para os investidores  dizer que não tem sentido algumas isenções e que o  Brasil é um dos únicos países do mundo com regime tributário tão benéfico para investidores. Para os empresários dizer que a farra de empréstimos subsidiados chegou ao fim, rever exonerações, o que implicará em aumento da carga, e se questionar se o Simples, que é equivalente a duas bolsa-família de renúncia fiscal, foi um programa que alcançou resultados práticos. Para a população em geral dizer que os gastos com saúde e educação devem ser desvinculados e o Brasil não é um país rico para se gastar o que se pretende gastar nessas duas áreas.

   É isso que os milhões de brasileiros que foram às ruas querem? As pessoas querem “Sangue, Suor e Lágrimas”? Aliás, os brasileiros fazem uma auto-crítica de que são parte do problema, ou o problema sempre está nos outros?

  
    Eu queria ter anulado o meu voto no segundo turno da eleição presidencial, mas acabei votando no Aécio. Votei no Aécio, mas achava que o PT só sairia do poder com a eleição de Dilma. Apesar de achar isso, acabei votando no Aécio. Minha análise acabou se tornando correta. Todos os problemas maquiados estouraram no  governo do próprio PT. Se o governo fosse do Aécio, e o Armínio fosse o Ministro da Fazenda, o aumento de juros, o desemprego e todos os problemas atuais seriam colocados única e exclusivamente na conta do novo governo. Uma eventual operação Lava-Jato seria mais difícil, pois se diria que era perseguição ao ex-governo, e creio que as chances de Lula ser eleito presidente no primeiro turno em 2018 seriam enormes.

  O que seria impensável há alguns anos ocorreu: Tanto Lula e o PT implodiram. Havia um receio legítimo que o PT poderia se transformar num PRI moderno (partido Mexicano que ficou algo em torno de 80 anos no poder). Isso não tem mais nenhuma possibilidade de ocorrer. Disso, enquanto nação, nos livramos. Entretanto, a pergunta fica “ o que fazer?”

  Se a Dilma renunciar, o Temer também tem que sair. Ora, se o foco da operação Lava-Jato são empreiteiras e o relacionamento escuso dessas com o governo e o financiamento de campanhas, é evidente que ele também se beneficiou. Renan e Cunha também não possuem qualquer legitimidade ética e moral para assumir a presidência. Aécio está implicado na delação de Delcídio, inclusive com possíveis contas no exterior, assim como Cunha. Se novas eleições forem convocadas, tenho a impressão que Marina Silva ganha com folga. Já pensaram nesse cenário? É isso que a população quer? 

  Tenho a impressão que ninguém sabe muito o que se quer. A maioria dos brasileiros querem o fim da corrupção, mas não o fim da TV a cabo puxada ilegalmente, ou do atestado médico comprado, ou das diversas microcorrupções que ocorrem normalmente no nosso tecido social. Queremos mudança na economia, mas quase ninguém está disposto a falar em redução de gastos, principalmente se são gastos que direta ou indiretamente afetam a vida de algum indivíduo específico. 

  Nós “Somos Todos Moro”, mas não questionamos a moralidade de Juízes receberem quase 5 mil reais de auxílio-moradia, inclusive o Juiz Moro, quando a nossa Constituição fala claramente que o pagamento deve ser feito em parcela única por meio de subsídio. Evidentemente, o trabalho feito no caso específico da operação Lava-Jato por parte dos membros do MP e do Juiz em questão é de tirar o chapéu na maioria dos seus atos. Entretanto,  em minha opinião  o pagamento de auxílio-moradia a todos os  membros do judiciário, bem como MP, é uma forma de afrouxamento ético, e eu tenho dificuldades de conceber como instituições que são as responsáveis pelo julgamento de desvios éticos podem se beneficiar de pagamentos claramente anti-éticos e isso de alguma maneira resultar num país melhor.

    Talvez tudo isso leve a uma mudança na forma que os brasileiros se relacionam entre si e com a coisa pública. Talvez “puxar um gato” de TV comece a ser tratado não como algo normal, mas como roubo, a falsificação de atestado médico não como uma desculpa legítima, mas como fraude, talvez isso venha a ocorrer. Eu duvido, pois mudanças dessa magnitude acontecem no curso de gerações e com uma educação de alta qualidade da população. Entretanto, pode ocorrer, oxalá seja esse o caso.


      O meu maior receio é alguém sem qualquer preparo técnico, com clara tendência fascista como um Bolsonaro da vida, ganhe relevância maior do que merece, ao ponto de ser cogitado como um presidenciável com chances de ganhar. Espero que a maioria dos brasileiros, os que foram às ruas incluso, não queiram esse retrocesso institucional, pois além de um sujeito como ele não ter qualquer resposta para perguntas como gastos públicos, previdência, etc, ele ainda aprofunda receios, medos e preconceitos que realmente o Brasil não precisa.

  Assim, leitores, precisamos pensar o que realmente queremos enquanto nação, e se o que de fato queremos é compatível com nosso comportamento enquanto sociedade.


 Abraço a todos!

terça-feira, 15 de março de 2016

LEILÕES DE IMÓVEIS - MITOS E VERDADES

 Olá, colegas. Escreverei hoje sobre um tema que alguns querem saber: Leilões. O que vou escrever, muito provavelmente você não verá em nenhum lugar da internet, muito menos num livro. Provavelmente também seu amigo advogado, se você possui um, também não terá conhecimento sobre todos os tópicos abordados.  Porém, antes vou falar um pouco sobre os últimos dias e próximas semanas.

  Estou pela segunda vez, a primeira foi em 2008, na belíssima cidade de Luang Prabang no Laos. A cidade é muito bonita e é declarada Patrimônio da Humanidade pela Unesco. Estou muito cansado. Nos últimos dias, fui a uma província remota do Laos . Foram 7 horas para percorrer um pouco mais de 200km. Uma estrada sinuosa como nunca tinha visto no meio das montanhas. Pessoas vomitado no transporte, locais não eram nem estrangeiros, numa viagem extremamente cansativa. Na cidade de Phonsavan, capital da província,  tive uma experiência única. Além de visitar a misteriosa Plain of Jars (centenas de construção de jarros enormes que datam em algumas estimativas há mais de 2000 anos e ninguém sabe muito bem quem as fez). Fiquei diversas horas numa ONG que trabalha limpando campos de UXO (bombas que não explodiram durante a guerra secreta dos EUA no Laos). Soube muito  mais, eu não tinha noção da extensão, dos crimes de guerra cometidos pelos americanos num país tão pacato como o Laos. Um dos grandes crimes de guerra do século passado, sem sombra de dúvidas, e quase ninguém sabe. Fiquei horas vendo documentários, lendo a respeito e me causou uma impressão muito forte. Naquela  noite, não sei, o meu coração encheu-se de amor pelo povo do Laos, mais especificamente o povo daquela região que foi o local no planeta terra mais bombardeado em todos os tempos. Sim, o Laos foi o país que mais recebeu bombas per capta na história da humanidade, foram quase 1 tonelada de explosivos para cada habitante. Vocês conseguem imaginar isso, colegas leitores? Mais de 270 milhões de uma absurdamente desumana arma chamada Cluster Bomb, ou bomba de fragmentação,  foram lançadas sobre uma população na época de 2.5 milhões de pessoas. Aproximadamente 80 milhões dessas bombas não explodiram ao tocar no chão, e depois de 40 anos de encerrada a agressão covarde, elas ainda matam principalmente crianças. É um horror ver as histórias. A região que eu estava foi a mais bombardeada dentro do Laos.

  Entretanto, apesar de todo o horror, eu senti amor no meu coração, e essa é uma das melhores sensações da vida. No outro dia, andando de moto, ouvi uma explosão muito forte. Foi muito alta. Foi uma UXO? Alguns metros a frente, uma equipe da MAG (a ONG em questão) fez sinal para parar e segundos depois uma bomba mais próxima ainda explodiu, me dando um susto imenso, nunca tinha presenciado uma bomba explodindo na minha vida e a sensação não é boa. Vimos mais dois caminhões da MAG. Quando já estávamos nos afastando, fiz questão de voltar e parabenizar o belo trabalho que as equipes faziam pelo país deles e pelo mundo. Infelizmente, eles  não falavam absolutamente nada em Inglês. Grandes homens e mulheres. Escreverei mais sobre isso num outro artigo.

  A canseira bateu e conseguimos achar um quarto confortável por menos de 15 dólares. Vou ficar uns dias descansado e me preparando para o desafio que será viajar na China de forma independente. Quando falam em China, quase todos pensam em Beijing, ou Hong Kong ou talvez guerreiros de Terracota, mas a China é muito, mais muito mais do que isso. Ao trabalhar o roteiro cheguei num impasse: como vou do belíssimo estado Chinês de Yunnan para o outro belíssimo estado Chinês de Sichuan. Há duas opções: um voo de duas horas que não é tão caro assim, apesar de não ser barato, ou uma aventura épica de 9 dias passando pelo platô tibetano, com montanhas que podem chegar a quase 8 mil metros de altura, monastérios tibetanos, paisagens de cair o queixo e a cultura tibetana em todo o seu esplendor. Visitar o Tibet é difícil e caro, já que estrangeiros precisam de diversas autorizações para ir lá. Entretanto, a fronteira do Tibet com o estado de Yunnan é menos controlada e se pode viajar sem autorização (porém, tudo pode mudar a qualquer momento). Aliás, pelo que pesquisei, incrivelmente a tradição e valores tibetanos são mais livremente expressos nessa região mais remota, do que no próprio Tibet. Sem sombras de dúvidas, vou optar pela viagem de 9 dias em transportes públicos no meio de montanhas do que um voo insosso de duas horas.

   Por fim, minha operação imobiliária estagnada há quase 24 meses, pode dar uma reviravolta surpreendente. O corretor nem queria passar a proposta e só o fez porque eu e o meu sócio na operação somos da área (fico feliz que ele tenha passado). Pagamentos atrelados a um precatório que uma Senhora tem a receber. O valor a receber pela casa seria algo em torno de 25 a 30% maior do que eu esperava vender. O que para muitas pessoas pode parecer complexo, é muito  simples e é possível fazer um contrato que não coloque nenhum risco na operação para mim. Se isso ocorrer, levaria o retorno da operação para 100% bruto em três anos, o que não seria fantástico, mas muito bom já. Aguardar para ver se isso se concretiza.


  Escrito o que eu pretendia escrever, passemos para o tópico do artigo.



Histórias sobre o coração se enchendo de amor, guerra secreta em um país desconhecido, cruzar o platô do Tibet podem não interessar a muitas pessoas, afinal esse é um blog que tem o nome pensamentos financeiros.  Vamos às finanças então.


I - SE ALGUMA COISA DER ERRADA NO LEILÃO, EU NECESSARIAMENTE RECEBO TODO O DINHEIRO DE VOLTA CORRIGIDO - MITO

  
   Isso não é verdade. Pesquise na internet, fale com advogados que não têm conhecimento na área, e eles invariavelmente dirão que não há risco de perder o dinheiro dado num arremate. Nada mais longe da verdade. O que deveria ser dito é que a probabilidade de se perder o dinheiro é pequena, não que ela inexiste. Eu posso citar vários exemplos teóricos onde isso é possível, mas, tendo em questão que nosso cérebro gosta de histórias concretas, vou dizer sobre um caso específico onde eu fiz uma análise prévia.

  Um terreno de uns 8 mil metros quadrado. Uma casa de 300m2. Lagoa da Conceição, bem perto de onde morei quando era estudante. O preço que avaliei sem muita precisão? Algo em torno de 1.5M por baixo. Quanto tinha sido avaliado para fins de leilão na Justiça do Trabalho? 900 mil. Isso queria dizer que os lances poderiam começar com 451mil. Sim, às vezes aparece essas barbadas em potencial, aquelas que se acerta pode ficar uns 8-10 anos sem trabalhar, na verdade muito mais, se você tiver controle e responsabilidade com seus gastos.

  Tudo lindo. Todo o check list tinha passado no filtro. Fui ler a matrícula novamente, “peraí, esse imóvel nem pertence mais ao executado”. Era uma execução de uma dívida do caseiro da casa, a relação era de empregado doméstico. O vínculo era de 2009 a 2012, se não me engano. Entretanto, o executado, que era estrangeiro, tinha transferido a propriedade para uma empresa com sede em Luxemburgo no ano de 2007. Estava-se a leiloar um bem que não  mais pertencia ao réu da ação original. Muito difícil alegar qualquer tipo de fraude, pois a transferência foi feita antes não só do ajuizamento da ação, mas do próprio vínculo de trabalho. Além do mais, nada disso tinha sido discutido nos autos.

  A minha pessoa de confiança, além de ser um dos meus melhores amigos,  é sócio de um dos melhores escritórios de advocacia do Estado, daqueles que saem em catálogos de revistas internacionais de advogados. Foi professor de Processo Civil na federal. O cara tecnicamente é muito bom. Falei para ele que a probabilidade de dar “merda" era gigantesca, ele aquiesceu. Perguntamos então, associado do escritório dele, a um dos melhores advogados trabalhistas da cidade, e ele não tinha certeza, mas concordou com nosso raciocínio.

  O que pode acontecer? Eu apenas acompanhei o leilão e não participei. O imóvel saiu por 650k. A operação na parte negocial foi muito boa, e esse era exatamente o limite que eu iria. O dinheiro deve ter sido depositado no dia seguinte. Não deve ter tido Embargos de Arrematação (um dos recursos disponíveis ao executado para questionar a arrematação), pois para o Executado tanto faz como tanto fez, aliás ele deixou de se manifestar nos autos muitos atos processuais anteriores ao leilão. Como não deve ter havido Embargos, o juiz deve ter emitido a carta de arrematação, documento a ser levado ao registro de imóveis para passar o imóvel para o nome do arrematante. Como a carta foi expedida, o juiz deve ter autorizado o dinheiro depositado na Justiça, fruto do lance do imóvel,  a ser sacado pelo trabalhador. Uma beleza. Uma arrematação bem-feita sem qualquer contra-tempo. Será?

  O que aconteceria, se é que já não aconteceu, quando a empresa que comprou o imóvel em 2007 questionar essa lambança da Justiça do Trabalho? É praticamente certo que uma ação de anulação da arrematação seria julgada procedente, pois um bem de terceiro foi erroneamente levado à Leilão. Se isso ocorrer, a arrematação será desfeita. “E o que acontece com o arrematante que pagou 650 mil reais, Soul?”. Bom, o dinheiro já foi sacado. Ele terá que entrar na justiça com perdas e danos contra o executado que se beneficiou da anulação da arrematação. Sim, o dinheiro dele terá evaporado, e sobrará a ele o direito de processar, e quem sabe daqui muitos anos, tentar executar algum bem do executado. Quem trabalha com direito, sabe que isso é caso de P.T., não é o partido no poder, mas sim Perda Total.

  Portanto, dizer que o dinheiro não pode ser perdido em leilão é um mito, pode ser sim e há algumas hipóteses que isso pode ocorrer.

  II - PRECISO CONHECER O LEILOEIRO PARA SABER DOS “NEGÓCIOS QUENTES”, POIS HÁ UMA MÁFIA , BEM COMO ELE É QUEM VAI ESCLARECER SOBRE EVENTUAIS PROBLEMAS- MITO

  Amigos, vi que o colega blogueiro Além da Poupança leu um livro sobre leilões, nem sabia que existia um no Brasil, de um leiloeiro. Vi alguns comentários também de pessoas curiosas sobre o tema, mas que, e não há nenhum problema pois o tema não é fácil, sem conhecimento técnico.

  Leiloeiro não trabalha para Justiça. Ele é um auxiliar da Justiça, e isso é uma diferença brutal. Ele é um intermediário, como um corretor de imóveis. Ele não está lá para te ajudar, mas sim para vender e ganhar a comissão. Ponto.  Além do mais, muitos tem evidentemente experiência na área, mas a esmagadora maioria deles, pelo pouco que conversei, confundem alguns conceitos técnicos básicos. 

  Mais um caso no qual participei. Minha companheira é nascida em Curitiba. Havia um grande leilão lá e dois imóveis me chamaram a atenção. Fomos então a Curitiba, já que gosto dos restaurantes e parques de lá. Passei uma tarde olhando os diversos processos referentes aos dois imóveis.

  Um era um terreno de 1.500m2 com uma casa de 300m2 numa área semi-nobre da cidade. Valor? Como não sou de lá, difícil dizer, mas por baixo entre 1.5 a 2M. Imóvel foi avaliado por 700 mil, isso queria dizer que os lances começavam em 351mil. Há uma explicação técnica de porque em alguns casos a avaliação pode ser tão mais baixa do que o valor de mercado. Em alguns casos e situações, pode levar a anulação da arrematação e em outros muito provavelmente não.

  Depois de folhear o processo principal, resolvi ler outro onde o réu também era executado. Para a minha total surpresa, o imóvel indo em leilão no próximo dia, já tinha sido leiloado  num outro processo duas semanas antes. “Ah, mentira, Soul! Isso pode acontecer?” Sim, colegas, bem-vindos ao manicômio que é o nosso sistema judicial. As pessoas gritam “Somos Todos Moro”, mas a forma como o processo da Lava-Jato vem sendo tratado, até pela importância do mesmo, em absolutamente nada se compara com o descaso que a esmagadora maioria dos outros processos são tratados. E não há qualquer perspectiva de melhora nesse quadro no curto prazo.

  No dia do leilão, avisei o leiloeiro sobre o fato. Ele ficou surpreso, mas me disse “Ah, não tem problema, quem levar primeiro a carta de arrematação no Registro de Imóveis leva o imóvel”. Bela resposta. Agradeci e pensei apenas comigo:  “Vixe, é para os leiloeiros que as pessoas vão perguntar as duas dúvidas sobre o leilão?”

   Além do mais, é impossível existir máfia em leilão. Vão te proibir de dar lance? “Ah, mas eles podem inflar o preço dando vários lances”. Ué, e daí? Num leilão, você deve estabelecer um lance máximo onde o retorno potencial seja contrabalançado  cos diversos riscos potenciais.  Esse é um dos conceitos centrais, e onde começa haver ponto de contato com finanças pessoais, economia comportamental e erros de julgamento. Se passar desse preço, simplesmente pare de dar lances, e problema de quem está inflando os preços conscientemente ou  não.

  Como disse um investidor famoso uma vez, não lembro quem, “não vá a uma loja de sapatos perguntar se você precisa de novos sapatos”. Logo, não vá a um leiloeiro para saber se você deve ou não comprar um imóvel em leilão.

III - PRECISO CONHECER DIREITO IMOBILIÁRIO - VERDADE, MAS COM UMA GIGANTESCA RESSALVA

  Há uma falsa percepção de que a pessoa, pois se trata de imóveis sendo vendidos, que quer comprar imóveis em leilão precisa ter um grande conhecimento em direito imobiliário. Evidentemente, esse conhecimento ajuda bastante, porém ele não é o mais importante, principalmente quando se mira leilões judiciais.

  Na verdade, o maior conhecimento é sobre direito processual. Se direito imobiliário pode interessar quem é leigo, tenho absoluta certeza que direito processual é muito mais chato para quem não teve educação formal na área. Um processo mal conduzido, mesmo que alguém possa ter razão, pode ser procrastinado e até mesmo anulado a depender do erro processual cometido. Há tantas minúcias, que fica difícil colocar num texto tão breve. Além do mais, esse é um dos nó górdios para escrever um livro a respeito, como transformar numa linguagem mais simples, fazendo explicações sobre processo, imóveis, bem como diversos conceitos de Finanças Pessoais?

  Vamos a um caso, e já advirto que pode ser de difícil entendimento para aqueles que não lerem com atenção.

  Os outros dois tópicos, qualquer advogado ou um juiz com uma boa formação técnica consegue reconhecer sem tantas dificuldades. Porém, eu nunca vi em nenhum lugar a associação de diversos conceitos financeiros com os conceitos jurídicos por trás de leilões. Aliás, nunca vi nem nada parecido.

  Um dos livros mais complexos que já li sobre Finanças  chama-se “Expected Returns”. A coisa é para nível de gestor profissional e dos bons. Da Blogosfera financeira apenas sei que o Viver de Renda o leu. Quase ninguém conhece no Brasil. Livros como do Siegel “Ações para o Longo prazo” são introdutórios perto do conhecimento que o Expected possui. A parte de renda fixa então, vixe, parece que um gestor de dezenas de bilhões de dólares, e o autor é gestor de um fundo desse tamanho, está mostrando as entranhas teóricas dessa classe de ativo. Não há nada remotamente parecido no Brasil e muito menos na blogosfera financeira.

  Uma vez me perguntaram se valeu a pena ler livro com tanta complexidade. Sim, valeu. Não porque me tornou um investidor pronto para achar as barganhas no mercado financeiro. Eventualmente, acerto uma como comprar BBAS3 a 12,90. Queria ter comprado de 25 a 30 mil ações, acabei comprando apenas 400 por questões logísticas. Eu não creio ter essa  capacidade, e nem me preocupo com isso. Porém, como diz W.Buffett “o conhecimento também se comporta como juros compostos” - não sei se a frase é textualmente assim. O meu conhecimento de mundo apenas aumenta com minhas leituras de tópicos tão diversos como biologia, budismo, finanças ou física. Apenas consigo fazer mais conexões do que seja uma boa vida a ter experiências como a narrada no Laos. Atualmente, consigo ver tantas associações em tantas coisas, que fico triste que não consigo compartilhar tanto, pois muitas pessoas são presas a visões de mundo tão estreitas, empobrecidas e errôneas. Falarei sobre isso com mais vagar no meu artigo que pretendo nomear “Desconstruindo o Mito do Mito Escandinavo”.

Citado já algumas vezes por aqui. Se realmente quer entender sobre muitos assuntos do mercado financeiro, e fugir um pouco de informação básica requentada, sugiro a leitura desse livro (é um livro para se ler com muita calma e em vários meses, até porque ele é imenso e com letras minúsculas e cheio de notas de rodapé tão interessantes quanto os assuntos tratados no corpo do texto).


  Ler o livro mencionado fez o meu conhecimento crescer. Não para fazer Trades no Tesouro Direto, pois não há muito o que saber e qualquer pesquisa na internet pode mostrar estratégias, e no final é apenas uma análise sobre inflação esperada e variação do prêmio de juros reais exigido. São variáveis macroeconômicas muito difíceis de se antever,  ainda mais no Brasil (por isso essa volatilidade toda) apesar que pode sim ter limites de corda muita esticada ou frouxa. Porém, o livro me trouxe uma nova forma de tentar compreender diversos assuntos, e diversos tópicos foram importantes para eu fazer associação com leilões.

   “Dê um exemplo dessa mistureba, Soul”. No Brasil, existe a instância ordinária de recursos e a extraordinária. Naquela, quase tudo pode ser rediscutido, é o que acontece quando se Apela ao Tribunal de uma sentença do juiz de primeiro grau, nesta o escopo da discussão judicial é muito mais reduzido. Para que existe a instância extraordinária? O objetivo principal é unificar a interpretação das Leis e da Constituição Federal no sistema Judiciário.

  Os Tribunais Superiores (STF, STJ, TST, TSE E TSM) são responsáveis pelo julgamento. Atenção, só existe um Tribunal Supremo, e é o STF. Todos os outros são superiores, o que há de jornalista escrevendo Supremo Tribunal de Justiça não está no gibi. Os requisitos para se ter um recurso admitido na instância extraordinária para julgamento são muito mais rígidos do que uma Apelação para um Tribunal de Justiça, por exemplo. No direito, quando se recorre há dois juízos feitos pelo tribunal: num primeiro momento, ele observa se certos requisitos formais foram aceitos para que o julgamento possa ocorrer. Se todos os requisitos forem preenchidos, o Tribunal RECONHECE o recurso, em termo técnico isso quer dizer que o recurso será analisado. Se alguém recorrer fora do prazo legal, por exemplo, o Tribunal não irá reconhecer o Recurso. Não importa se a parte tem razão ou não em suas alegações, se não cumpriu o prazo legal de recurso, o Tribunal  não reconhece o recurso, e simplesmente não há um novo julgamento. Reconhecido o recurso, o tribunal pode dar provimento ou não ao recurso. Ou seja, se der provimento dirá quem recorreu tinha razão, se não der provimento dirá que não tinha razão. Logo, há o juízo de reconhecimento ou não do recurso e o juízo de provimento ou não do recurso.


  Até aqui, ok?  O direito processual do trabalho é um pouco diferente do direito processual civil normal. Os prazos e recursos são diferentes em muitas ocasiões. Quando já se está na fase de execução de um processo trabalhista, geralmente qualquer decisão judicial é atacável por um recurso chamado Agravo de Petição. Aqui, vai entrar uma discussão ainda muito mais sutil. Quando eu disse que a função dos Tribunais Superiores é unificar o entendimento sobre a legislação, quando se trata de normas constitucionais tal tarefa é do STF. Quando diz respeito a leis  infraconstitucionais é do STJ.  Quando são normas trabalhistas é do TST

  Há entendimento claro na Jurisprudência de que ofensas reflexas, e não diretas, a Constituição não são de competência do Supremo. O que é uma ofensa reflexa e não direta? O conceito de preço vil numa arrematação, por exemplo. Se o bem foi avaliado por 100 mil e arrematado por 10 mil, essa arrematação muito provavelmente será considerada nula por preço vil. A vileza ou não de uma arrematação é um conceito que consta no Código de Processo Civil (ainda deve constar no novo CPC certamente). Não há no nosso texto constitucional nada dizendo sobre arrematações e preço vil. Eu posso dizer que perder uma casa que vale 100 mil por 10 mil num leilão é uma forma de desapropriação injusta, que ofende a minha dignidade humana (esses dois preceitos que constam em nossa Constituição), e qualquer outro argumento criativo que advogados podem criar. Essa ofensa será, entretanto, reflexa à Constituição, não será direta. Se assim o é, quem deve julgar eventuais recursos alegando preço vil é o STJ, não o STF. Se o recurso for endereçado ao STF, ele não será Reconhecido.

  A Justiça do Trabalho, entretanto, tem uma particularidade. O Tribunal Superior do Trabalho - TST - julga ofensas constitucionais, tendo o STF a palavra final, acaso haja recurso contra a decisão do TST. Lembram-se quando disse que o recurso para atacar decisões judiciais na fase de execução, onde os leilões ocorrem, na Justiça do Trabalho é o Agravo de Petição direcionado ao Tribunal Regional do Trabalho - TRT- competente. E qual é a decisão em processo de execução que contesta via recurso de cunho extraordinário decisão do TRT proferida em Agravo de Petição? Um recurso chamado Recurso de Revista. Não há jeito de transformar isso em algo mais simples, peço desculpas aos leitores leigos em direito.

  Entretanto, Recurso de Revista em execução na Justiça do Trabalho apenas se tiver ofensa literal e direta à Constituição Federal. Ofensas à legislação infraconstitucional  não podem ser analisadas nesse caso. Logo, o preço vil não pode ser analisado pelo TST. Entretanto, isso não ocorre em leilões da Justiça Estadual ou Federal, já que o Recurso Especial para o STJ pode e deve tratar apenas de questões infraconstitucionais. Se eu expliquei corretamente, você já terá totais condições de entender o “juridiquês" da decisão abaixo (abstraia o Agravo de Instrumento para não complicar mais ainda):

"Ementa: AGRAVO DE INSTRUMENTO. RECURSO DE REVISTA.EXECUÇÃO DE SENTENÇA. ARREMATAÇÃO. PREÇO VIL. VIOLAÇÃO A DISPOSITIVO CONSTITUCIONAL. NÃO-CONFIGURAÇÃO. Conforme preceitua o parágrafo 2º do artigo 896 da CLT , tratando-se de acórdão proferido em execução de sentença só é cabível a interposição de recurso de revista fundado em ofensa literal e direta a dispositivo constitucional. Não viabiliza, portanto, o recebimento do apelo extraordinário a invocação de ofensa a dispositivo constitucional pela não observância do artigo 692 do CPC , vez que se alguma violação restar configurada esta se dará em relação ao comando legal indicado, hipótese esta, contudo, que não se enquadra na exceção de que trata o dispositivo consolidado citado. Agravo de Instrumento a que nega provimento, particular." (TST - AGRAVO DE INSTRUMENTO EM RECURSO DE REVISTA AIRR 7637237920015125555 763723-79.2001.5.12.5555 )


   O que isso quer dizer, colegas, trazendo para as finanças pessoas e objetivos financeiros? Isso quer dizer que se eu comprar um imóvel na Justiça do Trabalho, a maioria de eventuais objeções do Réu não irá para Brasília ser julgada. A parte executada pode até tentar um Recurso de Revista para o TST, mas bate e volta em poucos meses, sem qualquer risco de perda.  Portanto, há apenas duas instâncias de julgamento quando se compra na Justiça do Trabalho: o juiz de primeiro grau e o Tribunal Regional.

  Se há menos instâncias, eventual problema na Justiça será resolvido muito mais rápido do que um processo na Justiça Comum que pode levar anos para o Processo ser julgado em Brasília, já que o STJ está entupido de recursos para julgamento.

  Além do mais, boa parte das defesas desesperadas de advogados quando o cliente já teve o imóvel leiloado geralmente não são técnicas, mas emotivas alegando diversos princípios constitucionais. Isso pode criar alguma confusão entre STJ e STF, mas nenhuma confusão no TST.

  Logo, o tempo da operação imobiliária potencialmente se encurta se houver questionamento de um imóvel comprado num leilão de um processo trabalhista. Se o tempo, as instâncias e as matérias passíveis de arguição diminuem, o risco também diminui. Se o risco diminui, se pode exigir margens menores para compensar a diminuição do risco, fazendo com que se possa ter mais chances de realmente comprar um bom imóvel em leilão. 

  Se o mesmo imóvel pudesse ser replicado em um leilão na Justiça Estadual e na do Trabalho, o prêmio exigido no leilão da Estadual (margem de segurança - conceito central em finanças e na vida prática) deve ser maior, pois a taxa de desconto (risco) é maior, fazendo com que o Valor Presente Líquido seja menor por causa desse fato. Pergunte algum leiloeiro sobre isso, e veja as prováveis belas respostas que se seguirão.

   Essa é apenas uma das diversas associações que faço entre conceitos de finanças e como agir em leilões. É o modelo mental pelo qual opero quando estou nessas operações. Se não sabe o que é modelo mental, sugiro pesquisar na internet ou dar uma olhada num artigo recente meu sobre erros de julgamento.


  O artigo já ficou bem grande. Poderia escrever páginas e mais páginas sobre o tema, mas vou ficando por aqui. Um grande abraço a todos!

quinta-feira, 10 de março de 2016

MINHA SITUAÇÃO PATRIMONIAL ATUAL

 Olá, colegas! Visto de dupla entrada na China na mão. Maravilha! Pensava que talvez não pudesse conseguir, mas até que foi relativamente fácil. Cada vez que estudo mais sobre a China, fico maravilhado com a quantidade de coisas que tem para ver e fazer. Poderia ficar tranquilamente uns seis meses viajando apenas por lá, mas por restrições de visto é difícil ficar tanto tempo. Também descobri que o meu Pai lê o meu blog. Nossa, fiquei muito feliz mesmo. Ele não gosta muito de ler coisas na internet e costuma ser bem crítico na avaliação de artigos em jornais. Ele me elogiou e disse que poderia ser escritor, o coração de pai deve ter falado mais alto nessa avaliação. Enfim, creio que todo o filho, nem que de forma insconsciente, procura uma certa “aprovação" dos pais e o fato narrado me deixou realmente contente.

  Entretanto, o artigo de hoje não é sobre as relações conscientes ou não entre pais e filhos, e nem sobre a minha viagem, mas sim sobre a minha situação financeira. Como o visto Chinês demorava alguns dias úteis para ser emitido, tive que ficar quase uma semana na capital do Laos que se chama Vientiane. Aproveitei a pausa para principalmente colocar em dia minhas informações financeiras para fins de Imposto de Renda e também para controle pessoal. Fui até além, comprei um novo FII para carteira, fiz um pequeno trade com BBAS3 e rendeu 60% de lucro e refleti sobre a minha estratégia financeira, bem como se ela continua forte e coerente com meus objetivos financeiros.

   Como com o Leão não se pode brincar, sempre sou, e imagino que a maioria dos leitores também o são, muito criterioso a fazer minha declaração. Checo os dados diversas vezes e faço um roteiro de declaração para me certificar que nada ficou de fora, pois eu possuo muitas fontes diversas de rendimentos isentos e com tributação definitiva. 

 É difícil quantificar muito precisamente o meu patrimônio e os percentuais, pois possuo imóveis e a precificação dos mesmos não é tarefa fácil, ainda mais num ambiente de incertezas profundas como vivemos, já que meu patrimônio está alocado exclusivamente em ativos brasileiros. Porém, colocando um valor conservador nos meus bens (algo em torno como 10-15% a menos do “valor de mercado”), a composição seria mais ou menos assim:


Operações imobiliárias   - 30%
imóveis próprios  - 21%
Renda Fixa com liquidez imediata - 42,5%
Fundos Imobiliários - 5,5%
Ações - 1%


   Eu às vezes sou um pouco relaxado com essas formas de controle, creio que obsessão por detalhes faz com que as pessoas percam o foco de coisas muito mais importantes. Ainda acredito nisso, mas é inegável que um bom controle sobre algumas variáveis ajuda a refletir mais claramente sobre onde se está indo e como ajustar algumas coisas do ponto de vista financeiro.


OPERAÇÕES IMOBILIÁRIAS

  O Brasil passa um momento delicado. As pessoas estão receosas. O financiamento imobiliário diminuiu consideravelmente (porém, acabo de ler uma notícia que a CEF vai aumentar o limite de financiamento de imóveis, isso pode ajudar em 2016, sem entrar no detalhe se a CEF deveria ou não fazer isso). Assim, ficou difícil vender imóveis no ano de 2015. Se o valor do imóvel é superior a 500 mil é quase certo que só virá proposta com outro imóvel em permuta para pagamento parcial. Apesar de tantos problemas, em relação às operações imobiliárias o ano foi de fraco para médio, o que é algo interessante, pois tinha receio que o ano poderia ser horrível.  Das diversas operações em andamento, apenas uma empacou e vai fazer 24 meses de anúncio de venda. É um ótimo imóvel, o preço já está abaixo do valor de mercado, e eu já considero vender 15% abaixo, mas infelizmente as poucas propostas que vieram ficaram muito aquém. Paciência. 

  Por questões de logística e operação, afinal estou há quase um ano viajando pelo mundo, entrei em apenas uma operação no ano de 2015. Pessoas de confiança minha estão querendo ficar líquidas, então como preciso dessas pessoas para realizar essas operações enquanto estou fora, não vejo, a não ser que seja realmente uma grande oportunidade e dentro do Estado da Federação em que vivo no Brasil, no horizonte de curto prazo eu iniciando novas aquisições. O que me fez questionar o outro item do meu patrimônio.

RENDA FIXA COM LIQUIDEZ IMEDIATA

  Eu não compartilho o ceticismo de alguns bons blogueiros a respeito do Brasil. Se o ceticismo é sobre o nosso país virar um país realmente desenvolvido, então o meu apoio é quase total. Se o ceticismo é voltado em relação aos retornos financeiros dos nossos ativos, e como nós deveríamos “proteger" nosso capital fora do país, então eu penso um pouco diferente. Para mim o país é a terra de quem poupa capital. Em nenhum lugar do mundo, há remunerações tão grandes em determinados ativos financeiros. Como o povo brasileiro não é muito inclinado a poupança, como os povos asiáticos por exemplo, eu creio que a taxa de juros  reais no Brasil será positiva ainda por um bom tempo. 

  Além do mais, no Brasil se pode ter títulos de maturação mais longa, mas sem qualquer risco de duration (ou seja de perdas por marcação a mercado com mudanças nas taxas de juros). Isso também é algo meio que único. Portanto, ter uma aplicação num banco de ponta pagando líquido mais de 13%aa com liquidez imediata e sem qualquer risco de rentabilidade negativa, é algo extremamente tentador, ainda mais para a minha situação particular.

  Entretanto, tendo em vista o que comentei no tópico anterior, realmente comecei a questionar a necessidade de ter tanta liquidez assim. Poderia migrar uma parte para baixa liquidez em diversos bancos menores até o limite do FGC e conseguir algo em torno de 1-1.5%aa a mais. Poderia migrar uma parte para NTN-B, e o teria feito se as taxas ainda estivesse  no patamar de 7,8% aa, apesar das taxas atuais ainda serem bem altas e provavelmente não permanecerão nesse patamar, se houver sinais claros de que o Brasil rumará para objetivos mais claros. Poderia aumentar mais minha exposição em FII, gerando mais fluxo de caixa mensal. As opções são muitas, mas como costumo fazer mudanças de curso de forma pensada e devagar, vou ainda refletir mais sobre isso.

FUNDOS IMOBILIÁRIOS E AÇÕES

  Eu, como mostrado na tabela, tenho algo em torno de 1% em ações. É pelo valor de mercado e não de aquisição. Não vejo muito sentido para o meu objetivo,  estágio de vida e  situação patrimonial ter alocação em ação. Talvez no exterior via ETF, não aqui no Brasil. O que tenho em ações daria para pagar minhas despesas, grosso modo, de um ano de vida no Brasil. Portanto, apesar de não ser quase nada em relação ao global, é uma quantia significativa. Vou vendendo aos poucos. Essa semana vendi quase tudo que tinha em STBP11, um prejuízo de quase 40% (sem contar dividendos e juros). O lucro do pequeno trade em BBAS3 foi quase idêntico ao prejuízo em STBP, então, apesar de ser um erro de julgamento, o meu sistema cognitivo não ficou tão chateado.


  Agora, Fundos Imobiliários é uma outra história. Depois de mais de um ano, voltei a ler alguns relatórios, participar de algumas discussões sobre essa espécie de ativo, e realmente é um tipo de ativo que faz todo o sentido para mim. Atualmente, tenho apenas 5.5% em FII. No início de 2018, é provável que haja um planejamento sucessório  parcial familiar , fazendo com que a alocação, mantidas todas as condições, caia para algo em torno de 4%. Ou seja, muito pouco. Uma boa alocação para  mim seria algo entre 20 e 25%, portanto tenho bastante espaço para aumentar minha exposição nessa classe de ativo.

   O que me surpreendeu foi que recebi de dividendos e aluguéis de FII algo em torno de 55-60% de todos os meus gastos no Brasil (gastos calculados até março de 2015  nos 12 meses anteriores). Ora, se 6.5% do meu patrimônio pode pagar quase 60% das minhas despesas, quer dizer realmente que estou com uma margem de segurança bem boa. Eu prevejo que com dois filhos, os quais ainda não tenho e não sei se terei mas faço o meu planejamento de independência financeira já para essa hipótese, os meus gastos aumentariam 100% já colocando uma margem de segurança (sim, esse conceito é central para  mim). Vendo os gastos detalhados do nosso colega do Blog U.Bife com seu filho, minha estimativa até que foi bem boa.  Então, na situação atual, de 25 a  30%  dos meus gastos no futuro com dois filhos  estariam cobertos apenas com o fluxo de FII e ações.

  
  Acompanhando a distribuição dos Fundos Imobiliários, pelo extrato de proventos da minha corretora, fiquei satisfeito ao saber que houve resiliência na distribuição em muitos fundos. Alguns fundos irão diminuir rendimentos, alguns pouco outros de forma mais significativa,  outros provavelmente aumentarão pela inflação. Eu estimei uma queda de uns 15% nos rendimentos totais de minha carteira de FII, não é bom, ninguém gosta, mas caso eu aumente posição, os yields atuais já estão razoavelmente atrativos. Além do mais, os FII sofreram bastante: desvalorização do valor patrimonial, vacância, diminuição dos aluguéis em negociações, etc. É visível que a crise imobiliária atingiu muito fortemente, numa intensidade muito maior do que no mercado residencial ou de negociações diretas. Como para mim é tudo imóvel, é possível que seja apenas efeito da falta de liquidez em negociações diretas a única coisa que impede ou impediu uma deterioração ainda mais profunda no mercado imobiliário de negócios diretos. 

  Portanto, há ainda uns 2-3 anos de revisionais negativas, vacância elevada e dificuldades, mas os FII já estão absorvendo muito dessas pancadas, o que está precificado em valores muito defasados na negociação de quotas no secundário. Logo, vou reformular um pouco minha carteira de FII, acrescentar mais uns 2-3 fundos e retirar uns 3 fundos e pretendo talvez voltar a aportar com um pouco mais de consistência.

   Se eu elevar para algo em torno de 25% a participação em FII,  num processo longo e gradual de alguns anos,  isso quer dizer que teoricamente poderia chegar a um fluxo mensal, já colocando uma margem de segurança para vacâncias e revisionais negativas, equivalente a mais de 200% das minhas despesas sem filhos, o que é algo que dá tranquilidade.

IMÓVEIS PRÓPRIOS

  Nesse item, são imóveis que não utilizo para ganho de capital. Pretendo apenas manter o meu apartamento que moro no Brasil, pois eu acho que é localizado no melhor lugar possível para se viver no país, não só a cidade, mas como o bairro e  mais especificamente a rua. É o canto que me sinto bem e confortável no país, então não vejo motivos para me desfazer. Assim, levaria a participação dessa parte do meu patrimônio para algo em torno de 13%, a valores atuais, do patrimônio,  o que é algo razoável. Entretanto, pretendo apenas mexer nessa situação lá por 2018 por questões particulares.


   Iria delinear mais os meus planos de independência financeira, e como vou adicionar camadas de várias margens de segurança, algo que pensava intuitivamente mas que ficou bem mais claro ao ler um artigo do Money Mustache a respeito. Entretanto, vou deixar para fazer isso num outro artigo. 



  Grande abraço a todos!

segunda-feira, 7 de março de 2016

ERROS DE JULGAMENTO - HINDSIGHT BIAS: O QUE OS JORNAIS DE 20 ANOS ATRÁS PODEM NOS ENSINAR

Olá, colegas! Muitas coisas acontecendo no país, bem como na minha vida. Porém, essa é a beleza de estar vivo: sempre inúmeros acontecimentos se desenrolam. É incrível. Quando estou com o humor certo, às vezes paro alguns minutos e fico apenas observando as pessoas numa rua, praça ou shopping. É impressionante a quantidade de coisas que acontecem, pequenas coisas, mas que passam despercebidas quando não prestamos atenção. O fato de no último ano fazer isso em países estrangeiros apenas adiciona mais cor a estes momentos. Entretanto, nesse artigo gostaria de abordar um assunto que me fascina: erros de julgamento. Em diversos artigos , já fiz menção a este tópico do conhecimento humano, um exemplo é meu artigo sobre Viés de Confirmação escrito há mais de ano. Por qual motivo esse assunto é tão fascinante?

  O motivo é simples, amigos. Nós, enquanto seres humanos, cometemos muitos mais erros sobre a leitura do mundo do que imaginamos num primeiro momento. Inúmeras percepções nossas da realidade, algumas talvez profundamente arraigadas em certos indivíduos, são simplesmente erros de julgamento, formas errôneas de nosso cérebro analisar o mundo complexo que nos cerca. Dar-se conta disso é como enxergar o mundo com novas cores, é como afastar-se das sombras da caverna e olhar o mundo como realmente ele é, como brilhantemente descrito por Platão no célebre “O Mito da Caverna”. 

  Quem  produz esses erros? Todos nós. Basta ser pertencente da espécie humana. Por qual motivo? Simplesmente, e muitas pessoas no dia de hoje parecem esquecer essa realidade, o ser humano é apenas mais uma espécie dentre as milhões existentes, e como muitas outras, a sua composição biológica (e isso inclui a forma como raciocinamos sobre o mundo) foi fortemente moldada pela nossa evolução biológica enquanto espécie. Entender a nossa evolução é procurar num grau mais profundo compreender quem nós somos e porque nós somos do jeito que somos.

  O assunto é apaixonante e foi o meu foco de atenção no último ano enquanto estava no Brasil. Recentemente, comprei um livro bem interessante que aborda sobre dezenas de erros de julgamento. Como o autor não é um cientista do ponto de vista formal, mas um escritor, bem como um empreendedor, o mesmo escreve de maneira simples, clara e objetiva, o que tornou o seu livro um grande Best-Seller. Terminada a leitura do mesmo, iria doar para algum lugar, pois livro pesa numa viagem tão longa como essa, mas resolvi mantê-lo, pois o mesmo servirá de inspiração para diversos artigos que irei escrever. O nome do livro é “The Art of Thinking Clearly”.

Um Belo Livro. Deve servir de inspiração para muitos artigos.


    Todos nós estamos sujeitos a essas falácias cognitivas, porém nós podemos minimizar os seus efeitos. Como?Reconhecendo que cometemos esses erros para que possamos de certa maneira tentar que seus efeitos não sejam tão deletérios, principalmente quando iremos tomar decisões importantes. Charlie Munger , o sócio de W.Buffett, deu um discurso brilhante do ano de 1994  chamado A Lesson on Elementary, Wordly Wisdom as It Realtes to Investment Management and Business , nele o famoso investidor traz à tona a sua filosofia de modelos mentais. O texto é extremamente interessante, e se você sabe ler Inglês vale a leitura . A parte que mais me chama atenção é quando ele expressamente aduz que todos nós estamos sujeitos a erros de julgamento, pois são inerentes à biologia humana, mas que podemos nos esforçar para reconhecê-los e minimizar os seus efeitos em nossas decisões. O mais fantástico desse conselho é que em 1994 o campo sobre economia comportamental ainda não era tão popular como hoje, e nem mesmo num nível mais fundamental os diversos estudos sobre neurociência e comportamento humano. Logo, um dos grandes investidores de todos os tempos reconhece que o caminho para se tornar um grande investidor, e numa maneira mais ampla um ser humano melhor, é se tornar consciente como a nossa visão de mundo pode ser extremamente falha e limitada. 

   Isso não é algo trivial, muito pelo contrário. Aliás, talvez pouquíssimas pessoas realmente fazem um esforço para diagnosticar erros de julgamento em seus próprios raciocínios. Quantas certezas não vemos por aí? Pessoas que aparentam estar certas sobre como uma sociedade deve se organizar, como países se relacionam, sobre  corrupção humana, desejos, e uma miríade gigantesca de assuntos. Quase sempre há certezas, quase nunca dúvidas.  Quanto mais inflexível, quanto mais certeza uma pessoa tem sobre o mundo, isso é um indicativo muito forte de pobreza de argumentos, visão estreita da realidade e muitos, muitos erros de julgamento.

    Talvez o erro mais comum, e mais presente, é o viés de confirmação (ler o texto linkado para saber mais a respeito). Isso é tão inato nos seres humanos, as pessoas cometem esse erro tão comumente, que boa parte das pessoas não conseguem nem mesmo perceber que esse viés é um erro de julgamento. Para muitas pessoas não basta ler, repetir, refletir, o viés de confirmação não será considerado um erro. As pessoas passarão horas, dias, meses lendo e escutando ideias que apenas confirmam suas ideias anteriores. Chamarão de brilhantes textos, ou palestras, que apenas confirmam suas ideias prévias de mundo, e terríveis as que não se encaixam em suas  visões de realidade. Está em todo o lugar.  É por isso que a Ciência não é tão popular, pois ela trabalha num sistema contrário ao viés de confirmação.  As pessoas gostam dos frutos que o método científico trouxe para a humanidade, mas não necessariamente o modo de pensar científico. Assim, a pessoa pode andar de avião de primeira classe e ter um método de pensamento completamente anti-científico. Faz parte. Entretanto, esse artigo não é sobre esse erro de julgamento, mas sobre outro mais sutil. Contudo, fica sempre a dica que não canso de repetir da sabedoria que o meu pai  me disse quando  eu era ainda adolescente: “Filho, quando você ler um livro que não haja discordância de sua forma de pensar, de quase nenhuma valia ele será. Quando você ler um livro com o qual você discorda de partes significativas, cabe a você escolher entre a evolução ou não”.

   Como nós avaliamos o passado? Essa não é uma questão trivial. Será que a avaliação que fazemos do passado no presente é neutra? Não, não é colegas. Vou dar alguns exemplos. Quando estava na primeira fase do curso de Direito na Federal de Santa Catarina, na aula de Ciência Política, uma professora com Pós-Doutorado soltou a seguinte pérola: “Aristoteles  era machista”.  Quando ouvi essa frase (tinha apenas 19 anos), senti que tinha alguma coisa errada, mas não soube bem responder o que exatamente  na época. Ora, a sociedade grega sempre foi centrada em homens livres ( o que excluía mulheres e escravos), parecendo então que realmente as mulheres eram de certa forma discriminadas, o que poderia fazer com que Aristoteles realmente fosse machista. Entretanto, a situação é mais sutil.

   Não se pode negar que as mulheres eram cidadãos de segunda classe se comparadas com os homens na Grécia Antiga. É verdade. Porém, ao dizer que Aristoteles era machista, a professora estava analisando o passado com “olhos” do presente. Ora, isso é normal e natural. Afinal, como podemos analisar alguma coisa do passado sem ser pelas nossos valores do presente? Entretanto, o simples fato é que a noção de machismo é recente. O fato das mulheres serem consideradas (apesar de na prática isso ainda não ser verdadeiro) de mesma dignidade do que um homem na sociedade ocidental atual é um conceito muito recente. Para um homem livre Grego há dois mil anos seria natural pensar que as mulheres eram inferiores em dignidade na Polis do que um homem, pois a vida simplesmente era assim. Hoje um homem ter esse mesmo tipo de raciocínio, pelo menos para pessoas mais esclarecidas, é algo anacrônico.   Portanto, dizer que Aristoteles era machista, levando em conta padrões morais do século 21, não tem sentido. É um erro de julgamento.

   Quando os desmandos da Petrobrás na administração petista estavam começando a ser revelados, lembro de uma declaração da antiga presidente Graça Foster numa CPI dizendo que “na época a transação de Pasadena parecia ser um bom negócio”. O que eu vi de pessoas indignadas com essa afirmação, falando coisas "como ela pode dizer isso?”. Isso também é um erro de julgamento, e muito comum em investidores amadores e “especialistas" em mercados financeiros.

  Esqueça por um minuto, por mais difícil que seja, todo o turbilhão que a operação Lava-Jato trouxe ao país. Não vamos focar também se houve ou não desvios na operação de Pasadena, mas apenas na frase da Graça Foster. A  conclusão é que ela poderia estar dizendo a verdade. Ora, com base nas informações que se tinha na época da operação (mais uma vez esqueçam a existência ou não de eventuais desvios) era bem possível que a negociação poderia parecer um bom negócio. Com o passar dos anos e o desdobramento dos acontecimentos, a operação se mostrou um fracasso, mas isso não quer dizer necessariamente que na época, levando em conta as informações da época, a negociação tenha sido necessariamente ruim. Isso  não quer dizer também, a toda evidência, que só com as informações da época a negociação com base  numa análise prudente já se mostrasse um grande equívoco.

   Esse exemplo é o mesmo do Aristoteles. É julgar o passado tendo em vista o  nosso conhecimento do presente, e não o conhecimento que se tinha no passado. Isso é um erro de julgamento.  Qual é o grande problema com essa falácia cognitiva? Achar que o mundo é muito mais inteligível e previsível do que ele realmente é.

   Pensemos em finanças. Olhando em retrospecto para o Brasil, parece claro que a situação fiscal dava sinais de deterioração, o BC estava abusando do instrumento de Swaps Cambiais e a inflação de preços administrados estava artificialmente controlada, o que redundaria em mais inflação no futuro, superando e muito não só a meta, mas como o teto da mesma estabelecida pelo Banco Central. Tudo muito claro, como pensar diferente? O problema é que estaríamos observando o passado com “olhos" do presente. Se era tão claro isso em 2013-2014, não agora em 2016, por que muitas pessoas não simplesmente compraram dólar a R$2,20? A resposta  é porque não era tão simples vislumbrar uma deterioração cambial tão forte como a ocorrida no ano de 2015, algo que é simples de analisar retrospectivamente em 2016.

  Isso não quer dizer que algumas pessoas não possam ter percebido que alguma coisa estava estranha com o Câmbio. Claro que existiram essas pessoas, o gestor do fundo verde é um deles. Apostou contra o real, num primeiro momento não deu certo, pois a desvalorização não veio (tanto que o fundo verde perdeu para o CDI em 2013 se não me engano), mas “lavou a égua” com a desvalorização que se seguiu. Até um colega investidor amador e blogueiro (Guardião do Zé Mobral) tirou uma lasquinha. O fato é que era muito mais difícil saber se o câmbio ia se desvalorizar a um ritmo mais forte do que o CDI há dois anos. E para onde vai o dólar daqui dois anos? Percebam como é difícil. Tenho certeza que daqui dois anos as pessoas pensarão “nossa, os sinais eram claros, porque eu não comprei(vendi) dólares?” e elas estarão se enganando. Eu não faço a mínima ideia o que pode acontecer com a nossa moeda, mas penso que um outro erro de julgamento, chamado Recency Bias, pode estar afetando o pensamento de muitas pessoas, eu incluso, mas isso é conversa para outro artigo.

  Lembro que em 2013 perguntei para um especialista o que fazer com 3m de reais para viver de renda. Na mesma pergunta, pedi conselho se valeria a pena investir no exterior. A pergunta sobre os 3M foi porque à época existia um blog de uma Moça simpática chamado “O Culto da Ostra Azul”, e ela tinha chegado nesse valor para se sentir Independente Financeiramente. Não é que eu tinha ou tenho mais ou menos do que esse valor, mas apenas um número objetivo. O especialista então me disse que a saída mais segura e prática era se posicionar em NTN-B de duration longa, o que daria um yield real líquido de algo em torno de 3% aa para as taxas da época (era época de Selic baixa e taxas reais magras). Sobre investir no exterior, ele disse que não valeria a pena, pois era complicado e os retornos seriam bem menores do que o Brasil. Foi um conselho que fazia talvez todo o sentido para as informações constantes na época.

  O que teria acontecido se alguém tivesse seguido esse conselho? As taxas quase dobraram nas NTN-B, num título com durarion longa e marcação a mercado isso significa rentabilidade negativa muito grande. O dólar disparou e os mercados externos superaram topos históricos. Ou seja, seria perda de dinheiro alta. Analisar agora que os fatos aconteceram é muito mais fácil do que na época, mas isso apenas mostra como é difícil interpretar corretamente tantos sinais emitidos pelos mercados financeiros.

   Diversos autores dão nomes diversos a esse erro de julgamento. O autor do livro em destaque chama de “Hindsight Bias”. O subtítulo do capítulo desse erro cognitivo é interessante “Porque você deveria manter um diário”. É verdade. Escreva o que acha que irá acontecer com o Brasil, EUA, o Oriente Médio, o futebol brasileiro, a economia nacional, e veja daqui 10 anos como suas previsões sairão. Melhor, pegue os jornais de 10-15 anos atrás e veja como as notícias interpretavam o mundo, tenho certeza que muitos irão se surpreender. 

   No campo pessoal, muito provavelmente irei conseguir um visto de dupla entrada para a China que me permitirá ficar de dois a três meses. Descobri que   o Brasil chegou a um acordo com a Mongólia em setembro do ano passado, e os brasileiros não precisam de visto para ficar 90 dias, o que me deixou muito feliz, pois pretendo ficar dois meses nesse país. Aliás, a Mongólia é o destino que mais me chama para conhecer, mais do que qualquer outro lugar. Uma operação imobiliária está prestes a ser finalizada e talvez haja uma grande reviravolta no campo profissional. 

Em Setembro, o Ministro das Relações Exteriores brasileiro e a Embaixadora da Mongólia no Brasil estavam assinando um acordo de reciprocidade e liberando a necessidade de visto para estada de até 90 dias. Que maravilha! A Mongólia é o país mais aguardado em todas as minhas viagens, até mais do que o paraíso do surfe chamado Mentawai na Indonésia. Com essa decisão vou poder estender mais a minha estada nesse país que parece ser único e maravilhoso. Necessidade de visto agora só para o Irã.



   É isso, colegas espero que tenham gostado do artigo. Abraço!