quinta-feira, 26 de novembro de 2015

BRASIL - DORES DO CRESCIMENTO?

  Olá, colegas. Sou obrigado a dizer que não acompanho de perto o noticiário do Brasil nos últimos oito meses. Havia semanas que eu nem mesmo acessava a internet direito. Porém, sempre tentava acompanhar pelo menos por cima os principais acontecimentos. Infelizmente, aconteceu tantas coisas negativas que não via motivos, estando numa experiência tão bacana na minha vida, de escrever a respeito. Entretanto, ao ler o noticiário de hoje, já que resolvi tirar um dia de folga (depois de ficar uns dias em parques nacionais observando a vida selvagem de Bornéu) para descansar, ficar na internet pesquisando sobre os meus próximos destinos e para ficar lendo diversos periódicos, resolvi escrever uma breve reflexão a respeito.

  Pois bem. Um Senador da República foi preso, mesmo estando no exercício regular de seu mandato. Isso nunca tinha acontecido na história do Brasil, conforme noticiado na imprensa.  Eu como não tenho um conhecimento profundo das nuances da história do nosso país não sabia desse fato. A gravação, não sei se foi a única prova, que serviu de base para a decretação da prisão preventiva é no mínimo reveladora do estado em que se encontra a nossa República. Antes de mais nada, é sempre bom relembrar que república é uma palavra que vem da antiga Roma, e significa coisa (res) pública. Não irei, apesar de ser um assunto que acho interessante, divagar sobre se é correta a existência ou não de coisas públicas, algo que parece natural para maioria de nós, mas é negado por uma ideologia que acredita na privatização de todos os bens (praças, ruas, florestas, rios, etc). Vou deixar a coisa simples e partir do pressuposto que a existência de certos bens públicos seja do interesse da sociedade.

   Eu, sinceramente, não consigo ainda observar por qual caminho esse processo que estamos passando enquanto nação irá nos levar. Eu ainda creio que a questão é muito mais profunda do que um partido A ou um partido B, uma figura política A ou uma figura política B. Eu penso que o nosso país está perdendo, se é que algum dia já teve, a capacidade de se inserir num mundo cada vez mais complexo. Os motivos já foram muitas vezes aqui elencados: nível de agressividade mesmo em acontecimentos banais muito alto, pouca ou nenhuma capacidade argumentativa, educação formal sofrível e uma despreocupação generalizada com fatos.

   Não se constrói um país sério com discursos de ódio (“morte a não sei quem”, etc), pois isso leva a apenas ao acirramento de tensões, e em casos graves a crises sociais que podem descambar para confronto armado. Também não se constrói um país baseado em mentiras, falsificação da verdade, ou posturas contraditórias. Isso para mim infelizmente está entranhado e se entranhando cada vez mais em nosso tecido social, e não há CPI, troca de governo, boom de commodities, crescimento do PIB, que resolvam esse problema. Apenas educação e auto-reflexão enquanto indivíduo e nação e isso leva muito tempo.

   O que esperar de um sistema político onde Renan e Cunha são presidentes das duas casas do congresso. Eu vi uma entrevista do Cunha no Roda Viva e ele me pareceu extremamente bem preparado, mas se notava que ele era uma espécie de “gênio” do mal. E Renan Calheiros? Já foram tantos escândalos envolvendo o nome desse Senhor, que ele ser presidente do Senado Federal é um verdadeiro escárnio. 

  Quem já teve a oportunidade de ler sobre argumentos, ler discursos de pessoas como Churchill, sabe que a platéia (aqui entendida como os receptores do discurso) possui um papel importante. Por qual motivo toco em tantos temas que não estão em consonância com muitas opiniões das pessoas que leem e gostam de finanças? Simplesmente, para que se possa, e eu também, refletir sobre determinadas perspectivas que muitas vezes passam despercebidas. Depois de alguns meses, é muito fácil identificar qual é a linha ideológica de muitos textos e espaços, ou seja da platéia. Não vejo motivos de escrever textos onde a plateia em potencial concorde com tudo que está escrito. Qual é ponto? Como já dito diversas vezes, uma espécie de texto que você sempre concorda com tudo não serve absolutamente para nada. Entretanto, esse não é o único espaço que exponho minhas ideias. Em viagens, 99 em cada 100 viajantes de mais tempo de estrada e com mais experiência em vários países do mundo  coloca a culpa da pobreza de países miseráveis no capitalismo ou em grandes empresas. Você acha que para essas pessoas eu vou falar sobre as maravilhas de se viajar por conta própria? Sobre o fato do dinheiro não ser o único, e talvez nem é mesmo o melhor, indicador de uma vida humana bem vivida? Essas pessoas já sabem disso e já refletiram muito sobre. Logo, não vejo motivos de insistir muito nisso. Porém, vejo motivos para falar de liberdade econômica, do empreendedorismo como forma de empoderamento de comunidades mais pobres, entre tantos outros temas, pois talvez isso faça esses 99% dos viajantes verem determinadas assuntos sobre outras perspectivas.


   Por qual motivo a razão do último parágrafo? Simplesmente para afirmar que não vejo sentido em listar os inúmeros problemas do país para uma plateia que fica remoendo isso a todo instante. Qual é o ponto? O que uma percepção melhor da realidade mais um texto sobre isso poderia trazer? Na minha opinião, nenhuma. Por essa razão, escrevi o artigo o Brasil - É tão ruim assim? e diversos outros. Logo, seria muito fácil construir um artigo e abordar os evidentes problemas de nosso país, e podem acreditar que às vezes eu tenho que fazer esse papel para alguns estrangeiros que pensam que o Brasil é um mar de rosas. Faço com cuidado, pois não gosto de falar muito mal do meu país para pessoas de fora que não tem como compreender a complexidade da nossa nação, e acredite ela é extremamente complexa, até pelo tamanho continental da mesma.

    Os problemas mais visíveis são evidentes, procuro trazer alguns, como destacados no terceiro parágrafo que quase nunca são aludidos no debate público. O que a prisão de um Senador e do banqueiro do BTG (e olha que tenho FII administrados por essa instituição, e faria um bem danado se fossem administrados por outras gestoras) dizem a respeito do nosso país? Numa perspectiva, que vamos muito mal, pois o estado de degradação política parece ser evidente. Vi uma fala do “Paulinho da Força” que ele está com Cunha para o que der e vier, pois ele quer o impeachment da Dilma. Isso é degradação ética completa. A República não está em primeiro lugar, a coisa pública, mas sim algum projeto de poder que nem mais ideologia tem no país, ou alguém acredita que existem políticos hoje, talvez excetuado uma minoria, que possuem algum projeto para o nosso país seja qual for. Eu não acredito. 


   No outro lado, como negar o inegável? O partido dos trabalhadores parece que se transformou numa organização criminosa, como tantos outros partidos parecem ser. Tesoureiros presos, ex-caciques de peso presos, denúncias inúmeras num dos maiores, talvez o maior, escândalo de corrupção da América Latina. Fui por curiosidade saber o que sites claramente dissociados da realidade, e que apoiam incondicionalmente o governo,  falariam a respeito do fato do Líder do governo no Senado ter sido preso depois da revelação de uma conversa telefônica mais incriminadora impossível. Simples. Num país onde argumentos não são mais sérios (uma das razões de escrever o último artigo Argumentos Fajutos), qualquer coisa serve. Assim, o Senador preso “era o mais tucano entre os petistas”. Impressionante.


     Se por um lado há desânimo, num outro há esperança de que o Brasil parece ter instituições sólidas. Porém, eu acho muito engraçado mesmo, no espaço das pessoas que gostam e escrevem sobre finanças, elogiando o trabalho de Procuradores, Juízes e Delegados. Há um consenso, acrítico em muitos pontos, que servidores públicos são um mal. Alguns artigos falam até mesmo termos de baixo calão. Num acesso quase esquizofrênico, essas mesmas pessoas agora vangloriam o trabalho de servidores públicos. “Ah, mas eles estão apurando a corrupção, eles são ótimos servidores, não fazem parte da banda podre”, pode alguma pessoa argumentar. Certo. Então, um juiz que procura julgar bem um pedido de alimentos feito por um filho em relação ao Pai não está dando a sua contribuição? Um Procurador que investiga algum crime contra a Previdência também é desimportante, pois não está envolvido num grande processo de apuração de corrupção? “Ah, mas as carreias de Delegado, Procurador e Juiz  são diferentes, eles são diferentes de outros servidores”.  Certo. Sabiam que Juízes e membros do MP tem aproximadamente três meses de férias (dois meses, mas o recesso de 20 dias de final de ano)? Que a maior punição administrativa para um juiz é aposentadoria compulsória? Que segundo a Lei Orgânica do Ministério Público Federal a diária é equivalente a 1-30 avos da remuneração? Como é diária não incide IR. Assim, a diária de um membro do MPF é superior a R$ 1.000,00 limpos por dia. Que se um membro do ministério público ficar 30 dias seguidos recebendo diária, e isso acontece quando há forças-tarefas, há um mês de indenização, fazendo com que o Procurador receba a remuneração pelo mês, 30 dias de diária sem IR e mais um mês de indenização sem IR também? Que o MP e a Magistratura mandaram pagar auxílio-moraria aos seus membros de mais de R$ 4.000,00 por mês, sem incidência de IR? Que é muito normal tribunais criarem direitos com efeitos retroativos para os juízes, às vezes ignorando prescrição, e autorizarem pagamentos às vezes de milhões de reais para determinados magistrados? Que há juízes que ganham mais de 200 mil reais por mês? 

    
   Algumas questões não são fáceis, e comportamentos esquizofrênicos não ajudam. Como vejo isso? Simples. São carreiras importantes que fazem um importante trabalho para manter uma sociedade equilibrada, (negar isso com argumentos “ah, funcionários públicos são parasitas” parece-me infantil) mas no Brasil parece que há uma casta para certas carreiras.

    Assim, se vejo com esperança a atuação de Procuradores em determinados casos, também vejo como retrocesso para o país a escalada incompreensível no pagamento de parcelas ilegais e imorais, mesmo o país passando por uma grave crise econômica. Vejo com satisfação a Polícia Federal, órgão que não é independente como o Ministério Público, mas sim subordinado ao Ministério da Justiça que é por sua vez subordinado à Presidência, mostrando isenção e investigando os desmandos de um partido que está no poder. Engraçado que certa vez um blogueiro veio nesse espaço dizer que o Executivo Federal pressionava as Polícias Militares e Civis (que são Estaduais) para não apurar crimes, algo que não faz o menor sentido, pois o Executivo Federal não consegue nem colocar no cabestro a polícia que está sob seu direto comando. Bom para o país, má notícia para mal-feitores.


    O fato é que eu esperava no ano passado que a crise política que se espreitava com a lava-jato teria muito maior importância do que aumento da FFR pelo FED, eventual recessão econômica, ou qualquer outro fato. Disse isso várias vezes em mensagens no blog do Tetzner. Entretanto, não poderia imaginar a extensão que vem se mostrando, já que a operação Lava-Jato está na vigésima fase (vigésima!). Sairá um Brasil melhor disso tudo? Eu creio que sim. Sairá um país maduro pronto para discutir as graves questões para o futuro das novas gerações? Tenho sérias dúvidas.


  Não vejo a sociedade pronta para fazer concessões e dialogar. Por qual motivo falo tanto do diálogo? Eu gosto muito de refletir sobre o assunto genocídio. Ontem mesmo estava refletindo sobre isso com dois portugueses bacanas que conheci e viajei junto por uns dias em Bornéu. Atos de genocídio nos fazem, pelo menos para mim, ponderar sobre o que um ser humano pode fazer com o outro em determinados casos (um pouco na linha da reflexão do artigo Cidadão de Bem? ). Já tive em campos de concentração e nos pungentes Killing Fields e prisão S21 no Camboja (ver meu artigo Campos da Morte). Aliás, faço questão de levar minha companheira ao Camboja para ela presenciar esses locais. Um dos genocídios mais recentes foi o de Ruanda em 1994. Qualquer dia escrevo a respeito, pois já li livro , vi vários documentários, e durante algum tempo pesquisei a respeito. A coisa l[a foi feia. Muito feia mesmo, e um mundo omisso (como na atual questão dos refugiados), assistiu calado a um dos maiores massacres que a história moderna já presenciou.

   Depois do que Ruanda passou, seria impossível prever que esse país poderia se reerguer. Aliás, como vizinhos poderiam conviver novamente, já que a matança de Tutsis foi indiscriminada e boa parte da etnia Hutu tomou parte nisso. Vizinhos que antes sorriam um para o outro, transformaram-se em assassinados e assassino. O país passou por um longo processo de reconciliação. Pensem, prezados leitores, você conseguiria se reconciliar com quem matou dois filhos seus a facão?  Pois Ruanda enquanto nação teve que se reconciliar. Hoje em dia, Ruanda é um país que cresce  economicamente, está em 46 lugar no Índex de facilidade para se fazer negócio (muito a frente do Brasil, ver esse link Ruanda ) e parece que está num rumo melhor. Tenho certeza que deve haver inúmeros problemas por lá, mas ao menos o país não degringolou para uma guerra civil, o que facilmente ocorreria se um discurso de ódio e retaliação por conta dos Tutsi contra os Hutu ocorresse. 


   Nós, no Brasil, não passamos, e talvez nunca iremos passar se tudo der certo, por algo nem próximo ao que ocorreu em Ruanda. Não há qualquer razão para que os diversos setores não dialoguem, para que a sociedade não dialogue, para que não se construa pontes onde há divergências. Na verdade, essa é função de um bom político. Não é radicalizar uma determinada opinião, mas sim ter a habilidade de construir soluções possíveis para os diversos problemas que assolam uma determinada sociedade.

  Será que estamos prontos para isso? Eu creio que não, principalmente quando não se discute ideias e quando se ignora fatos. Uma vez li um artigo que o escritor dizia que todos os servidores públicos são inúteis, tirando os militares e os da área de educação e saúde. A pessoa ter essa opinião é um direito previsto em nossa Constituição. Se não me engano no mesmo artigo, a pessoa recomendava outro artigo que dizia que 70 a 80% dos gastos do governo poderiam ser cortados. Não vou me ater a falta de precisão da frase, vou apenas subentender que sejam gastos administrativos de custeio. Por curiosidade, fui ver os gastos do governo, e com militares, educação e saúde corresponde a quase 70% dos gastos do custeio administrativo(não se precisa de muito esforço para observar que há alguma coisa errada no argumento, uma tremenda de uma contradição). Ou seja, não importa os fatos. Porém, colegas, os fatos importam se quisermos construir uma nação melhor.

   Torço para que tudo isso que o Brasil esteja passando seja um processo de amadurecimento e crescimento por mais doloroso que possa ser. Espero que possamos discutir os graves entraves no nosso país, e as reformas tão necessárias: política, previdenciária e tributária. Oxalá isso aconteça, não é algo que creio ser o mais provável, mas é uma característica humana a esperança, por isso Kafka foi genial ao dizer que “o ser humano é o único animal que possui esperança, mesmo quando não há nenhuma”. É necessário ter esperança em certas situações, mesmo que aparentemente as probabilidades não estavam a nosso favor.

Um dos maiores escritores de todos os tempos.



  Grande abraço a todos!

sábado, 21 de novembro de 2015

ARGUMENTOS FAJUTOS

Olá, colegas. Resolvi vir para Malásia. Passei alguns dias em Kuala Lumpur, capital do país, foi a minha segunda estada na cidade, e foi uma experiência interessante. Neste exato momento, estou indo para Bornéu. Sim, um dos lugares de maior biodiversidade do mundo, onde inúmeras espécies de animais são descobertas ano após ano. Fiz apenas pesquisas muito rápidas, mas resolvi ir assim mesmo. Parece que há parques nacionais remotos, as maiores cavernas abertas ao público do mundo, rios no meio da selva, orangotangos, animais de todos os tipos e um dos lugares mais lindos para se mergulhar no mundo (Siporan). Não sei quanto tempo ficarei,  talvez três semanas, mas pretendo visitar também  o rico país Brunei do sultão famoso.  Creio que será uma grande aventura, vamos ver. 

   Entretanto, o artigo de hoje não é sobre países ou viagens, mas sim sobre argumentos, tema que para mim é de extrema importância. Desde a minha infância e principalmente durante a minha adolescência, eu fui obrigado a conviver com a lógica dos argumentos e saber aceitar quando estava errado. Isso por causa do meu envolvimento com o mundo do xadrez. Quem não foi ou é do meio, não sabe que depois de partidas de torneios importantes é de bom tom e da etiqueta do esporte analisar a partida com o seu adversário. Geralmente, se vai para uma sala ao lado e se analisa os movimentos.  Nessas análises, a comprovação é quase que matemática, pois se o adversário te mostra uma linha que você não tinha observado, e ela se revela uma boa estratégia, não há nada que você possa fazer a não ser aceitar. Essa é a beleza. Você pode estar jogando contra o Kasparov, que foi um dos melhores jogadores de xadrez de todos os tempos, mas se você mostrar para ele uma análise superior numa determinada jogada, ele vai aceitar. É simples assim. 

   A única vez que me neguei a analisar uma partida foi depois de um jogo num campeonato mundial. Eu estava jogando muito bem esse torneio. Na rodada número 8 (nesse campeonato em específico eram 11 rodadas) eu estava jogando na mesa número 10 (ou seja estava entre os 20 primeiros na competição de um número aproximadamente de 100 jogadores). Tinha uma posição claramente superior na partida. Se eu ganhasse, provavelmente iria jogar na mesa 4 ou 5, ou seja estaria entre os 8-10 primeiros a apenas três rodadas do fim. Iria provavelmente jogar de brancas, o que não deixa de ser uma vantagem, e se ganhasse provavelmente iria jogar na mesa 1 ou 2 faltando apenas duas rodadas e vai saber o que poderia acontecer, pois se eu chegasse nessa posição, com certeza para as duas últimas partidas eu iria ser assessorado por algum grande mestre, que nesse torneio se não me engano era o Gilberto Milos. Ou seja, iria ser um fato histórico para mim e para a cidade onde nasci. Depois de 10 minutos analisando, vi uma linha quase que vencedora. Fiquei tão animado, mais tão animado, que comecei a sorrir internamente. Quando eu ia fazer o movimento, observei aparentemente um furo na análise. Fiquei tão frustrado, que analisei apenas uns dois minutos e fiz uma outra jogada, a qual se mostrou  horrível e me colocou numa situação ruim. Depois de ver a bobagem feita, reanalisei a linha que poderia ser vencedora, e não havia furo, eu tinha visto uma miragem. Depois de perceber isso, fiquei abalado e acabei perdendo a partida. Sai do jogo tão brabo comigo mesmo e a situação que quase não cumprimentei o adversário no final da partida, algo que é extremamente rude, e não quis analisar a partida. O meu pai disse que fui muito mal-educado, mas ele entendeu que eu era apenas um adolescente e estava chateado com a situação, mas mesmo assim me passou um leve “sermão" de que se deve saber perder, não se pode ser mal-educado, eu estava representando o meu país e não podia ter esse tipo de comportamento. Uma das coisas boas do xadrez é que ele te ensina a perder individualmente (não há outros para responsabilizar), bem como a aceitar a sua inferioridade intelectual em algumas situações, algo que percebo é extremamente difícil para muitas pessoas, pois como diz o ditado hebreu “quase todos são insatisfeitos com os seus corpos, quase todos são satisfeitos com seus cérebros". 

   Assim, não existe argumento de autoridade no xadrez. O que existe é apenas lógica. O argumento de autoridade não é argumento. Não importa se W. Buffett disse qualquer coisa sobre investimento, o que importa é o argumento não quem o disse. Apesar da falha do “argumento" de autoridade, algo que quase todos o tomam como um real argumento, ele ainda consegue ter alguma força perto dos diversos argumentos fajutos que se encontram atualmente em nossa sociedade.

  Ao sair da adolescência e ir para juventude, também convivi com argumentos. Em minha faculdade, era conhecido por não poupar argumentos mal-feitos. Diversas oportunidades professores com títulos de pós-doutor em alguma faculdade no exterior, simplesmente perdiam a cabeça e falavam para eu sair da sala de aula. Teve uma vez que quase toda a minha turma saiu junto comigo tal foi a reação esdrúxula do professor. Junto com meus amigos de faculdade mais próximos, e como foi boa essa época, falávamos de tudo: mulher, filosofia, direito, política, surfe, filmes. Aliás, essa foi a diferença da minha turma de faculdade, a existência  de diversidade de assuntos, nada mais distante do que a pasmaceira que veio depois da faculdade, com pessoas quase que com apenas um tipo de conversa. Nesse meio, por mais que fôssemos jovens, argumento ruim não tinha espaço e a pessoa tinha que reconhecer simplesmente que estava errada.

   Para minha surpresa, no meu trabalho, que era de se esperar pessoas bem capacitadas tal a responsabilidade e nível de exigência para ingresso no mesmo,  não foi nada parecido com a minha adolescência e meu tempo na faculdade. Argumentos pífios, orgulho intelectual, ameaças veladas, ou não,  simplesmente por contrariar algum pensamento eram às vezes a norma, não a exceção. Ao começar a escrever nesse blog, e ver artigos alheios e mídias sociais, aos poucos constatei espantado que o nível de argumentação de muitos ambientes é medonho, sendo muito benevolente.

   Uma sociedade que não sabe argumentar, não sabe discutir e incorre em erros simples de lógica, não pode construir tecnologia de ponta, conhecimento novo, em suma, não será uma nação das mais destacadas.  Isso é tão claro e cristalino como as águas de El Nido na ilha de Palawan nas Filipinas.  É por isso que existe escola, existe o ensino formal de certas matérias. Para se desenvolver intelectualmente um ser humano precisa de tempo, de conhecimento e de pessoas dispostas a orientar na busca desse conhecimento.  Cozinhar e entender de mecânica de carros é ótimo, mas apenas com isso e sem um conhecimento sólido de química e matemática a chance de se prosperar, enquanto nação, num mundo de ideias cada vez mais profundas é  quase nenhuma. 

   A  fraqueza dos argumentos denota, em minha opinião, uma nítida fraqueza na formação de ideias. É claro que orgulho e mesquinharia tem a sua grande contribuição, mas creio que tudo é derivado principalmente de um grande deficiência educacional. Não é à toa que a educação, ou a falta dela, é o que provavelmente nos fará ser uma sociedade de renda média nos próximos 15-20 anos. 

   Após, essa breve digressão, irei enumerar alguns dos argumentos mais obtusos e fajutos com os quais muitas vezes eu me deparo pela internet. 

O ARGUMENTO BOM-BRIL OU MIL E UMA INUTILIDADES.

    “ O texto produzido pelo Soulsurfer no site pensamentos financeiros sobre conquistas financeiras é superficial e impreciso. No decorrer do artigo, palavras e ideias de efeito são escritas, mas sem qualquer precisão ou conexão com a realidade. Na verdade, o autor faz uma tentativa medíocre de abordar tema complexo. No fundo, o artigo apenas mostra a preferência do autor por uma determinada ideia, sem sopesar as diversas nuances da temática.”

    Uau! Isso sim é um argumento dos bons.  Como vejo esse tipo de “argumento" por aí, e como ele já foi utilizado nesse meu espaço. Vejamos. 

  “ O texto produzido pelo Diogo Mainardi na revista Veja sobre a relação entre o bolsa-família e o domínio eleitoral do PT  é superficial e impreciso. No decorrer do artigo, palavras e ideias de efeito são escritas, mas sem qualquer precisão ou conexão com a realidade. Na verdade, o autor faz uma tentativa medíocre de abordar tema complexo. No fundo, o artigo apenas mostra a preferência do autor por uma determinada ideia, sem sopesar as diversas nuances da temática”

“ O texto produzido por Gandhi em uma carta endereçada à sua esposa sobre a necessidade de ser gentil é superficial e impreciso. No decorrer da carta, palavras e ideias de efeito são escritas, mas sem qualquer precisão ou conexão com a realidade. Na verdade, o autor faz uma tentativa medíocre de abordar tema complexo. No fundo, a carta apenas mostra a preferência do autor por uma determinada ideia, sem sopesar as diversas nuances da temática.”

“ A palestra dada  por Lula numa assembléia da CUT sobre a influência da crise política na economia é superficial e imprecisa. No decorrer da fala, palavras e ideias de efeito são ditas, mas sem qualquer precisão ou conexão com a realidade. Na verdade, o palestrante faz uma tentativa medíocre de abordar tema complexo. No fundo, o discurso apenas mostra a preferência do autor por uma determinada ideia, sem sopesar as diversas nuances da temática”

“ O discurso feito por Obama no Congresso no State of the Union na parte relativa à imigração é superficial e impreciso. No decorrer do discurso palavras e ideias de efeito são ditas, mas sem qualquer precisão ou conexão com a realidade. Na verdade, o discursaste faz uma tentativa medíocre de abordar tema complexo. No fundo, o discurso apenas mostra a preferência do autor por uma determinada ideia, sem sopesar as diversas nuances da temática”

   Sim, esse "argumento" fajuto se aplica a qualquer situação. Você pode utilizar em qualquer contexto para qualquer coisa, pois ele é vazio e se aplica a qualquer caso. Na Blogosfera financeira, uma subvariante desse “argumento" é utilizada na forma de uma entidade abstrata chamada “A Banca”. Vale a pena comprar FII? Não, "a Banca" vai te pegar. Qual é o nível adequado de spread entre o yield médio do IFIX e os juros de uma NTN-B? Não sei, e não quero saber, pois "a Banca" está na espreita. Vale a pena investir no exterior via REITs ou ETFs de ações e BONDs? Cuidado, "a Banca internacional" vai levar todo o seu dinheiro. Com o argumento da Banca, nenhuma questão específica precisa ser respondida, e ela pode ser utilizada para “responder" qualquer pergunta.

   É evidente que o meu texto, ou qualquer outro,  pode ser superficial, e intermediários podem ganhar muito dinheiro com a intermediação-venda de ativos financeiros inflados. Entretanto, a simples afirmação disso é vazia, e quase sempre é utilizada para fugir da análise de fatos ou de perguntas específicas, que a toda evidência necessitam muitas vezes uma reflexão mais pausada, algo que um “argumento" como esse não faz. 

   Sempre que ver um argumento desses, prezado leitor, apenas pergunte: "Ok, e qual é o ponto específico?”. Isso na maioria dos casos já é o bastante para derrubar esse não-argumento.

O ARGUMENTO “BLABLABLA"

   Este belo tipo de “argumento" é bastante utilizado em alguns espaços. Funciona assim: há alguma ideia com a qual não se concorda, e ao invés de se dar elementos objetivos e racionais, ridiculariza-se a ideia com o uso de uma quase onomatopéia “blablabla”. Se alguém diz, por exemplo,  que a humanidade passa por uma crise ambiental profunda, outra pessoa pode discordar e dizer “esses ecochatos dizem que há problemas ambientais, pois estão cortando algumas árvores, os rios estão secando e blablabla”. O “blablabla" serve então como uma forma de se ridicularizar alguma ideia sem dizer absolutamente nada de concreto a respeito. Como o argumento de mil e uma inutilidades, o “blablabla" pode servir para pretensamente menosprezar qualquer forma de ideia e pensamento sem entrar objetivamente em nenhum ponto. No fundo, não passa de desonestidade intelectual.

   O recurso de blabação é muito utilizado para treinamento no teatro. Já fiz algumas vezes e sempre foi muito divertido. Consiste em simular atuações falando apenas “blabla" sem dizer qualquer palavra. Depois que você faz a mesma cena podendo falar é a mesma sensação de quando treinava capoeira com pesos nas pernas e depois retirava os mesmos e a sensação que a perna ia sair do corpo de tão leve que ficava. Logo, serve no teatro, não na arena do debate de ideias.

O ARGUMENTO AVESTRUZ

   Esse “argumento" é o mais medonho que existe e demonstra uma grande covardia intelectual. Antes de ler mais coisas na internet, eu nunca tinha o encontrado, pois ele é tão fraco que eu não consigo acreditar que pessoas realmente agem assim. Nele, simplesmente se foge de ideias, enfiando a cabeça na terra, sobre o pretexto de que algumas ideias são nocivas e as pessoas que as defendem são “boas de lábia”, “cheias de pretextos”, sendo portanto perigoso até mesmo ouvir os argumentos. 

  Isso é simplesmente ridículo. Se você teme ouvir uma ideia que não é do seu agrado, sob o pretexto de que ela será atrativa e bem fundamentada , e isso de alguma maneira seria errado, há duas hipóteses: a) ou a ideia com a qual você concorda é simplesmente fraca, pois você não consegue nem mesmo contrapor uma ideia antagônica com fundamento ou b) você é um radical que não se importa com a verdade ou não de suas convicções, pois suas convicções sempre estarão certas não importando evidências em contrário. Ora, se for o caso da letra “b”, não há qualquer diferença dessa postura para o comportamento de um fundamentalista muçulmano em relação às suas convicções, por exemplo. Repito: nenhuma. A diferença será nos malefícios que um determinado fundamentalismo e fanatismo poderá ocasionar a si e a outros. No caso do argumento avestruz numa rede social, por exemplo, é possível que os efeitos maléficos para outras pessoas sejam nenhum ou bem pequenos. No caso de um fundamentalista religioso, os efeitos negativos para a vida de terceiros podem ser terríveis.

  Prezado leitor, nunca tenha medo de ouvir, ler ou escutar qualquer ideia. Não se amedronte e use o argumento “avestruz”. Eu posso ler sobre qualquer coisa mesmo, e isso em nada me afetará. Poderá reforçar ideias preexistentes, questioná-las ou fazer surgir novas formas de ver os diversos aspectos da vida humana, porém espero nunca ficar com medo de ouvir qualquer tipo de ideia.

AS FALÁCIAS AD HOMINEM USADAS COMO ARGUMENTO 

  Esse aqui é o prato cheio, o creme de la creme dos argumentos fajutos. Não irei dar um definição do que seja uma falácia ad hominem, vou dar exemplos. Colegas, se eu disser que a taxa de juros real no Brasil é muito alta, mesmo para eventual risco-país, se alguém não concorda com essa afirmação e dizer que eu sou um “tolo", essa postura em nada se contrapõe a ideia de que os juros reais são altos no Brasil mesmo ajustado para o risco. Houve um ataque ao emissor do argumento, não ao argumento em si.  E aqui entra mais um detalhe. Mesmo que eu fosse realmente um “tolo" isso em nada contraria o argumento sobre os juros no Brasil, e a quantidade de pessoas que não entende essa simples constatação lógica é surpreendentemente muito alta.

   Se A disser que matar outro ser humano, a não ser em casos de legítima defesa, é errado, não adianta B replicar dizendo que A já matou sem ser em legítima defesa para anular o argumento de A, pois isso em nada contraria o argumento sobre assassinato. O máximo que se pode dizer é que A está sendo hipócrita, não que o seu argumento não é forte eticamente.

  Poderia fazer diversos pensamentos aqui nesse tópico. Sobre o efeito “halo" muito conhecido nas finanças comportamentais. Poderia falar sobre o meu artigo sobre rótulos, pois o que não é muitas vezes um rótulo usado em argumentos se não uma falácia ad hominem? Não concorda? Se está a se falar sobre externalidades negativas na indústria química e a justiça ou não em tentar se quantificar financeiramente essas externalidades, o que irá ajudar na resolução da questão dizer que alguém é de esquerda ou de direita e simplesmente parar o "argumento" aí? Em absolutamente nada.

   O debate de ideias por meio de argumentos sólidos é essencial para o desenvolvimento de uma sociedade, mas também do próprio indivíduo. Isso não é um assunto de pouca importância. Tentem fugir da utilização desses “argumentos" fajutos, e saibam reconhecer quando eles são utilizados. O seu desenvolvimento pessoal e a sociedade como um todo agradecem.

As belíssimas Petrona Towers, símbolo máximo de Kuala Lumpur, vistas de noite. Há um complexo muito bacana no local, com um shopping bem chique, bem como com um teatro onde a filarmônica da Malásia sempre se apresenta. Como não tinha roupa para ver o concerto da filarmónica, o que foi uma pena, fui ao cinema com a Sra.Soulsurfer ver jogos vorazes. O filme é meia boca, mas foi bacana ir ao cinema de novo. Hoje tentei relembrar todas às vezes e já fui ao cinema em 11 países diferentes e cada um deles foi uma experiência diferente. Poderia escrever um artigo apenas sobre isso, como as pessoas, o cinema, as propagandas, a forma de assistir o filme, variam de país para país.



  É isso colegas, grande abraço a todos!

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

INDONÉSIA - MENTAWAI: OBRIGADO!

  Olá, colegas. É difícil explicar como me sinto. Aliás, talvez seja  bem fácil. Sinto-me realizado e feliz. Há uma grande diferença, apesar de não ser muito compreendida e discutida em nossa sociedade apressada, entre estar e ser feliz. Estar feliz é um sentimento associado à satisfação momentânea de algum desejo humano. Comprou um carro novo? Talvez isso faça o adquirente feliz. Conquistou uma garota(o) bonita(o) em alguma festa de fim de ano? Isso pode trazer uma grande sensação de bem-estar. Entretanto, pelo menos entre os pensadores que refletem sobre o tema, essas satisfações momentâneas não parecem nos trazer uma felicidade mais duradoura. Aqui entra o conceito de ser feliz. 

    Ter uma existência feliz e satisfeita diz respeito a um sentimento mais profundo. Diz respeito a como nos sentimentos em relação à vida e a outros seres humanos. Muito dificilmente essa nossa percepção mais densa sobre nós mesmos vai ser muito influenciada pelos nossos episódios momentâneos de felicidade. É difícil colocar em palavras algo como isso, mas ser feliz é aquela sensação de bem-estar resultante de uma vida bem vivida. Uma vida bem vivida geralmente está associada com a forma que nós interagimos com os seres humanos mais próximos da gente, e como nos sentimentos em relação ao rumo de nossas próprias vidas.  É importante sentir-se feliz, mas com certeza se conseguirmos ser felizes a sensação de bem-estar é muito mais intensa e duradoura.


   Mentawai  me fez estar feliz. Entretanto, mais do que isso, creio que atingi um estado de ser feliz nessas duas semanas. É claro, e isso poderia contradizer o que eu escrevi nos primeiros parágrafos, minha sensação de felicidade na vida não pode ser resultado de 15 dias numa ilha. É verdade. Porém, essas duas semanas fizeram-me  sentir muito bem comigo mesmo, não que eu já não estivesse, e com a vida. Estou bem contente mesmo.

Como não ficar feliz?


   O Surfe é algo que eu amo. Como peguei onda nessas semanas. Estive pensando que nesses meus 45-50 dias pela Indonésia , principalmente nos últimos 15 dias, talvez eu tenha surfado mais ondas boas do que nos meus últimos 8-10 anos no Brasil.  Obviamente, não sabemos quais os caminhos a vida nos reserva, mas por mim eu voltaria várias e várias vezes para esse destino tão especial.


Indo para Mentawai num barco bem pequeno, tentando descansar. Foram mais de duas horas onde eu e Sra. Soulsurfer, e todas as nossas roupas, ficaram completamente encharcadas. Sorte que não estragou o computador.


   A recompensa não vem sem os potenciais riscos como aludi no meu artigo sobre Lakey Peak. Machuquei-me com um pouco mais de gravidade, pois atingi a bancada de coral com força. Abri um talo na minha mão, cortes no braço e nas costas. Ao chegar no surf camp, todos os lugares que eu ia surfar precisava pegar um barco,  apenas disse para a minha companheira que tinha me machucado um pouco mais sério, e o meu braço estava escorrendo bastante sangue.  Isso foi há uns oito dias.  Felizmente, foi apenas um susto, e os ferimentos já estão melhorando, inclusive o corte mais profundo na mão.

   As pessoas que conheci fizeram a experiência ser ainda mais incrível. Joe “pretty hair” (como eu o apelidei), um surfista local, surfava comigo todos os dias, sempre me incentivando e ajudando. Suu, o barqueiro, sempre sorrindo e falando “go go!” quando algum set com ondas vislumbrava-se no horizonte. Iin, o fotógrafo que capturou em vídeos e fotos meus momentos de alegria nas ondas. Diego, o dono do surf camp. Um colombiano que foi para Austrália, deu certo lá, trabalhava com trading de commodities em Sydney, mas resolveu abandonar essa vida dos “sonhos" para muitos latinos americanos, engravidou uma Indonesiana (Laura, uma mulher de fibra que fez pizzas maravilhosas para a gente.Muito bom matar a saudade de uma pizza boa, algo que adoro comer no Brasil) e hoje possui uma vida devotada para o surfe.  Ou a família espetacular de Australianos (ah, coisa boa ter um lugar para ficar na mítica Margaret River, quando voltar para Austrália para fazer a não tão conhecida West Coast) Paul, Adeile e o pequeno Nat. Este, um garoto de nove anos que pega altas ondas. Nove anos! Já tem patrocínio a jovem promessa. Super educado, extremamente gentil e numa felicidade extrema de estar surfando na Indonésia. O pai então era uma alegria só. Também pudera, imagina surfar ondas perfeitas ao lado do seu filho de nove anos. Deve ser uma sensação muito boa mesmo. Vai que o pequeno Nat se transforme no próximo Fanning ou Medina, para garantir tirei algumas fotos com ele! Fora todos os outros locais sempre sorrindo e sendo prestativos. Ah, ainda tinha o cachorro, Shagy, que era uma figura. Caçava caranguejos no mangue, ia junto no barco para o surfe (numa vez ele chegou a pular do barco e ir nadando até onde as ondas estavam quebrando, quando todo mundo começou a gritar para ele voltar) e quando pegava a sua mão de brincadeira não soltava mais. 


Uma típica manhã em Mentawai. Indo para o surfe às 8 da manhã para voltar às duas da tarde, quando o mar estava bom. Dias incríveis.

Depois de uma sessão de surf bem bacana num break chamado 4bobs, fomos descontrair nessa lindíssima ilha (eu, minha companheira, o dono do camp, seu filho dando cambalhota no ar e a família de australianos)

Shagy, um dos cachorros mais figuras que já conheci.

A família Aussie. Uma pena que convivemos apenas quatro dias. Todos eram muito legais. O pequeno Nat pegava altas, era extremamente educado e parecia ser uma criança super feliz. Nossa, deve ser demais ter uma experiência dessa com um filho. Quem sabe um dia..

Iin, o Fotógrafo. Gente boníssima. Ao fundo, Suu, figuraça. Divertia um monte com ele dentro da água surfando.

Família Mentawai. Ao centro, Diego, um colombiano que tinha um escritório com vista apenas para o Opera House em Sydney. Largou essa vida, apesar de já ter passaporte australiano, para viver uma vida diferente. Ele me disse que ao se fixar em Sydney realizava o sonho de muitos latinos. Ao morar em Mentawai, realizava o sonho de muitos australianos.


    E as ondas? E as ondas…Surfei sete lugares diferentes com níveis de dificuldade diferentes. Com certeza evolui e muito o meu surf. inúmeras vezes surfei com pouquíssimas pessoas na água, ondas incrivelmente boas. Água quente. Isso é o sonho para qualquer surfista brasileiro, e os beach breaks inconsistentes, ondas curtas e várias pessoas na água com níveis grandes de stress algumas vezes. Foi um sonho. Os meus melhores dias surfando, um dos highlights não só dessa viagem, mas como de todas as viagens. 


Mandado ver em Beng Bengs...

Na esquerda divertida de Good Times, que dia foi esse....

Beng Bengs, surfei umas 10 vezes nesse lugar. Esse dia foi especial, eu e mais uns dois surfistas na água, um sunset espetacular e ondas incríveis.

Na direita de Nipussy. Foi nesse local que fui fazer uma visita mais próxima a bancada de coral. 

   Escrevo esse artigo com a Sra. Soulsurfer dormindo nos bancos ao lado num fast ferry de volta para a cidade de Padang na ilha de Sumatra. Tenho algumas horas de viagem. Daqui alguns instantes muito provavelmente um filme de luta chinês com legendas em Bahasa irá passar na televisão que se encontra na minha frente. Despedi das minhas duas companheiras, minhas duas pranchas que me acompanharam desde o Brasil. Como viajaram. Pela terra do Sr. dos Anéis na Nova Zelândia, pelas ondas difíceis e pesadas de Fiji, pelos quase 20 mil Km do “continente" Australiano, e pelas mais diversas ilhas da Indonésia. Meus próximos meses, quantos serão não tenho a menor ideia, serão sem surfe pelo continente asiático e não teria motivos carregar o trambolhão que é o meu surf bag. Assim, vendi tudo. Sou um surfista sem prancha. Não importa, quando chegar a hora compro outras. Agradeço a essas minhas duas companheiras pelos momentos de felicidade compartilhados em vários surf breaks pelo mundo. Vida que segue.


Último momento com minhas companheiras. Quantas aventuras juntos. Vida que segue:)

    Obrigado, Mentawai. Obrigado pelas suas ondas maravilhosas, por me fazer feliz. Para onde vou agora? Não sei. Quando chegar em Padang, irei decidir se amanhã vou para Malásia, ou se continuo mais uma semana em Sumatra para tentar ver orangotangos mais ao norte. Espero que ainda ache voos com preços bons, mesmo estando em cima da hora. O meu único plano é estar na Mongólia daqui 4-5 meses.

   Ah, peço desculpas aos colegas que postaram alguns comentários não respondidos. A internet era realmente muito lenta. Vou tentar responder a todos, pois acho que o acesso a WI FI será mais fácil daqui para frente.


  Grande abraço a todos! 

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

REFLEXÃO - CIDADÃO "DE BEM"?

Olá, colegas. Você é um cidadão “de bem”? Sim, não, talvez, não sabe? Pois bem, o artigo de hoje é sobre a ideia falsa por trás dessa expressão. Essa é uma das frases mais utilizadas e quase que acriticamente repetidas. Como a ideia de que afirmar que o pior do Brasil é o Brasileiro, ser brasileiro e não se achar o pior do Brasil é uma afirmação ilógica, como já demonstrado em artigo desse blog, a ideia por trás do mote cidadão “de bem” não se sustenta a uma análise mais crítica.

      Primeiramente, para que alguém se considere a si, ou outros, como cidadão “do bem”, é condição lógica que essa mesma pessoa pense que outros são cidadãos “do mal”. Aqui é apenas obviedade. Em segundo lugar, para se saber o que é ser cidadão “do bem”, obviamente é obrigatório a definição do que seja bem e do que seja mal. Então, o que é bem e o que é mal?

    Essa discussão não é nova no mundo das ideias, há o mal absoluto? Há o bem absoluto? Eu creio que em certas situações, se pode fazer juízos tão categóricos assim. Porém, na vida real de bilhões de seres humanos é muito difícil fazer afirmações tão peremptórias. O motivo é muito simples: nós não somos personagens com linhas de caráter extremamente bem definidas como num desenho infantil, geralmente os seres humanos são uma mistura de muitas coisas ao mesmo tempo. 

  “O que basicamente você quer dizer com isso, Soul?”. Vou pegar o meu próprio exemplo. Às vezes sou um bom companheiro, às vezes não. Às vezes sou um bom vizinho, às vezes não, etc, etc.  Podemos nos comportar eticamente de maneira irretocável em certas ocasiões, em outras nem tanto. Isso é o normal do comportamento humano, não é à toa que os grandes escritores da história da humanidade foram geniais por saberem retratar os seres humanos com todas as suas contradições, não porque criaram personagens que eram a encanação do bem ou do mal.  Isso é muito claro no misticismo oriental, principalmente no hinduísmo.

   O Hinduísmo possui uma mitologia rica, intrincada e complexa. Para começo de conversa são três principais divindades: Bramna, Vishnu e Shiva. Um é o criador e quase nunca é representado com figuras terrestres, pois ele é uma ideia. O outro é o mantenedor (Vishnu) e diversas vezes veio à terra sobre diversas formas. O outro é Shiva, ou o destruidor. Muitas pessoas, numa primeira impressão, acham que Shiva é uma espécie de “demônio”, pois ele é o destruidor, quando na verdade só pode haver criação quando há destruição. Ou seja, apenas o básico do misticismo hindu já dá um nó na cabeça de quem é acostumado com o simplismo da mitologia cristã.  

   A mitologia de origem indiana parece-se muito mais com o que ocorre na vida  dos seres humanos. A história da mitologia cristã parece-se mais com uma história infantil. Não é à toa que a mitologia hindu possui uma história para a cosmologia do mundo absurdamente atual . Uma vez vi um vídeo do célebre Carl Sagan relatando que Hindus há milhares de anos já acreditavam que o universo teria bilhões de anos, o que é algo surreal, principalmente levando em conta que o conceito de “bilhões" é extremamente contemporâneo, e há milhares de anos alguém pensar nessa quantidade de tempo é simplesmente extraordinário.  É tão inacreditável que um dos livros do físico brasileiro Marcelo Gleiser tem inspiração em mitos cosmológicos Hindus. O livro chama-se a “A Dança Cósmica” e vem da ideia da Dança Cósmica de Shiva.

A Dança Cósmica de Shiva.


     Por seu turno, a interpretação literal (atenção ao grifo, por gentileza) da mitologia judaico-cristã dá a esse mundo apenas alguns milhares de anos e possui uma história cosmológica sem pé nem cabeça. O que é mais inacreditável é que há pessoas, centenas de milhões delas na bem da verdade, que acreditam literalmente nessa história cosmológica. 

   Assim, na mitologia hindu há deuses representados com 10 caras, cada elas com um semblante diferente, querendo mostrar como algo pode ser muitas coisas ao mesmo tempo. Isso, meus amigos, é exatamente como é a vida no planeta terra para seres humanos. A descrição de céu e inferno é uma forma simples de querer se entender algo tão complexo como o comportamento humano e suas diversas facetas. O meu pai, quando eu tinha 5 anos, costumava dizer que havia um monstro numa porta ao lado do elevador de serviço no prédio onde ele mora na cidade de São Vicente, no Estado de São Paulo. Apenas muitos anos depois, eu não morava com o meu pai, fui descobrir que ali na verdade era uma lixeira, e que o meu pai, de maneira muito criativa,  tinha inventado um monstro para que o seu filho de cinco anos não entrasse num lugar insalubre.  Foi algo muito engenhoso, mas evidentemente falso. Assim, histórias sobre monstros, pessoas “do bem”, pessoas “do mal”, são boas num contexto infantil, numa forma infantilizada de ver o mundo. Podem ser eficazes, e podem transmitir alguns conceitos morais importantes, mas a toda evidência nunca serão instrumentos aptos a explicar a complexidade do universo humano.

Para muitas pessoas adultas o mundo é povoado por "monstros" do lixo. Sim, a vida e as relações humanas seriam mais fáceis se as explicações simplistas, e evidentemente em alguns casos falsas, de mundo fossem verdadeiras.


    Meu pai, para citá-lo mais uma vez, sempre me disse quando era criança que o símbolo da medicina era a representação de opostos que se completam. Se pensarmos no conceito de Ying-Yang , o conceito de complementaridade de opostos fica ainda mais evidente. Na verdade, o bom não existe sem o mau, o belo sem o feio, etc, etc. Essa é uma forma muito mais densa de ver o complexo mundo das relações humanas. Na verdade, o meu pai foi mestre Rosacruz e desde criança bem pequena tive que conviver com ideias como “o finito nunca poderá entender o infinito” - quando eu perguntei o que era Deus, ou “quando o nada percebeu que era alguma coisa, tudo foi criado” - quando eu perguntei como as coisas vieram a existir. O fantástico dessa última resposta, é que essa é uma das hipóteses mais aceitas pela física contemporânea sobre como tudo veio a existir, uma flutuação quântica do vazio. Hoje em dia, agradeço enormemente que desde criança eu tenha sido exposto a uma forma mais complexa de tentar apreender o mundo (em que pese o meu medo do “mostro" da lixeira:))

   Há tantos exemplos históricos para exemplificar o que digo nesse artigo que não teria razão de enumerar muitos deles.  Vou citar apenas um dos que eu mais gosto: Oscar Schindler.   A história dele ficou muito famosa pelo filme chamado “A Lista de Schindler” que para mim é o melhor filme de todos os tempos.  Schindler durante anos explorou mão-de-obra escrava judia. Torrava o dinheiro obtido com contratos feitos com o exército nazista, usando repita-se mão-de-obra escrava, em festas, mulheres, e outros prazeres mundanos. Um homem desses jamais poderia ser considerado uma pessoa “de bem”, muito pelo contrário, correto seria considerá-lo um criminoso por crimes contra a humanidade. Em determinando momento de sua vida, entretanto,  ele resolveu ir à falência, e colocar a sua própria vida em risco, para ajudar milhares de judeus a sobreviverem. Se analisarmos apenas esse aspecto da vida de Oscar, ele poderia ser considerado uma cidadão “de bem” honoris causa. O que foi Oscar Schindler, então? Se não ler o livro, veja o filme e reflita você mesmo. Se já viu o filme, veja novamente, vale muito a pena. Eu já vi tantas vezes, e com isso pude perceber tantos detalhes fantásticos, que posso citar de cabeça a maioria das falas do filme. 

Criminoso de Guerra? Explorador de mão-de-obra escrava? Grande humanista? Herói? Exemplo ético? Quem era Schindler? Para mim apenas um ser humano como eu e você que fez algo maravilhoso.


   Uma vez li num livro (creio que sobre a história da felicidade no decorrer do tempo, muito interessante o livro) que os gregos tinham uma “sabedoria popular” de nunca dizer que uma pessoa teve uma vida feliz e realizada até essa pessoa literalmente dar o último suspiro. Isso derivava do fato que mesmo no final da sua vida, tragédias épicas gregas poderiam ocorrer, e o caráter de uma pessoa poderia ser revelado no último instante. Isso me faz lembrar de uma história do meu Pai (não foi intencional, mas enquanto eu ia escrevendo o nome dele foi aparecendo). Os últimos anos de casamento do meu Pai e Mãe foram tumultuados. Em relacionamentos tão longos que às vezes não terminam da melhor maneira é normal e natural que haja um certo ressentimento por parte de ambos. Infelizmente, tive que conviver com isso, pois desde os meus dois anos eles são separados. Porém, há uma história que minha mãe conta que a deixou orgulhosa do meu pai. Aparentemente, houve um acidente com uma família de japoneses numa estrada e os meus pais presenciaram. Como ocorre nessas situações, a maioria das pessoas, por uma curiosidade mórbida ou por não saber o que fazer, geralmente se omitem. Não foi o que ocorreu naquele dia. Conta minha mãe que o meu pai, naquela época não deveria ter SAMU(s) tão eficientes, carregou as crianças ensanguentadas no colo, colocou no carro e levou para o hospital. Elas foram salvas, e se não fosse pela ação do meu pai hoje poderiam estar mortas.


    Nesse episódio o meu pai teve um comportamento fantástico. Logo, ele é um cidadão “de bem”? O meu pai, assim como quase todos os humanos, possui alguns defeitos e agiu talvez não tão sabiamente em muitas ocasiões da vida. Agora, numa situação limite ele mostrou um comportamento ético exemplar. Será que eu teria o mesmo comportamento? E você, querido leitor? Se alguém ensanguentado bater na sua porta as 11 e meia da noite numa segunda-feira chuvosa dizendo que levou uma facada na barriga e pedindo ajuda, o que você faria? Isso para mim mostraria, apesar da ideia por trás da expressão comentada nesse artigo ser falsa, muito mais sobre quem é ou não um cidadão “de bem”. São nessas situações limites que realmente vemos com as pessoas reagem sobre extrema pressão. E se você não ajudasse a pessoa morrendo à sua porta, mas um criminoso condenado várias vezes pela justiça por roubos ajudasse? Quem seria o cidadão “de bem”?

   No filme “Batman, o Cavalheiro das Trevas” (um baita filme, diga-se de passagem, e olha que não gosto de filmes de personagens de quadrinhos), há uma cena que ilustra isso a perfeição. No final do filme, há duas balsas e cada uma dela possui um controle remoto que poderia destruir a outra embarcação, e, se não me engano, se nenhuma das embarcações tomasse uma atitude em terminado tempo ambas seriam explodidas.  Isso é um teste moral dos mais fortes que já vi num filme. Destruir a outra balsa e ser o responsável direto pela morte de centenas de pessoas, ou correr o risco de ser explodido. Num certo momento, cidadãos “de bem” de uma balsa querem destruir a outra balsa, mas não possuem a coragem para tanto. Até que um presidiário enorme com cara invocada (o tipo estereotipo de uma pessoa “do mal”) se levanta e diz algo como “passe esse controle para mim já que vocês não tem coragem de fazer o que deve ser feito”, e quando todo mundo pensa que ele vai apertar o botão para explodir a outra balsa, ele simplesmente joga o controle fora no mar, ou seja, ele teve uma atitude heróica, corajosa e ética, quando pelos nossos esteriótipos e rótulos mais rudimentares somos inclinados a pensar que ele teria a atitude que seria de se esperar de uma cidadão “do mal”.

Um filme surpreendente. Na verdade, só sabemos quem realmente somos quando somos submetidos a situações de intensa pressão. Não é dando olá para vizinhos (algo que deve ser feito e torna a vida melhor) que você pode saber se agiria bem ou se estupraria, mataria, no caso de uma situação limite como foram os dias pós-katrina nas cidades afetadas.


  Nós humanos temos espaços para muitos comportamentos dentro do nosso interior. Isso já é bem sabido há muito tempo por filósofos e pensadores. Entretanto, não vou falar novamente dos sistemas 1 e 2 que nosso cérebro utiliza na tomadas de decisão, mas ei se você realmente quer entender mais sobre o mundo deveria saber do que se trata, parece que uma parte considerável dos seres humanos preferem a forma mais “infantilizada” de ver o mundo. Uso o termo infantil aqui não no sentido da curiosidade maravilhosa da criança, sobre a qual escrevi no meu artigo “Uma ode à nossa criança interior”, mas sim sobre uma forma incompleta de ser ver o mundo. Para essas pessoas, faz todo o sentido cidadão “de bem”, e na verdade elas quase sempre se auto-proclamam assim. Por isso, é que tantas vezes ouvimos a história de que uma pessoa era tida por vizinhos como um exemplo de cidadão e comete algum ato sombrio como violentar crianças, e ninguém entende como nunca se percebeu nada. Ora, pelo simples fato que uma pessoa pode ser um pessoa “de bem” para muitas coisas: ser cortês com vizinhos, gerar empregos sendo empreendedor, pagar os seus tributos, etc, etc, mas pode num momento da sua vida cometer algo abominável como molestar crianças. É como dito no meu artigo sobre sucesso humano, as pessoas não conseguem entender como alguém que possui bilhões de dólares pode ter uma vida mais simples, já que dinheiro e consumo é o suprassumo  da felicidade humana. Assim, se fala, ao invés de questionar as próprias premissas da sua realidade, “ah, ele é low profile”. Wtf? Como se criar uma expressão pudesse ajustar a contrariedade entre os pressupostos ideológicos e a realidade. 

   Por fim, e aqui encaminho-me para o final desse artigo, por qual motivo demolir essa sensação de que alguém é cidadão “do bem”? Para colocar as pessoas para baixo? De maneira nenhuma. Serve basicamente para duas coisas. Primeiramente, para se repelir oportunistas que com o discurso fácil de “cidadão de bem” conseguem obter poder político. Hitler deveria conclamar aos alemães “de bem”, assim como Jihadistas conclamam os muçulmanos “de bem” a cometer atos horripilantes. Geralmente, pessoas que sempre se auto-proclamam cidadão “de bem” são figuras um tanto quanto capengas e sinistras, e que em última análise podem ser tudo, menos cidadãos “de bem”. Toda vez que ouço essa expressão na boca de um político, me dá um arrepio, e uma tristeza de como estamos atrasados intelectualmente.

Hitler e sua exortação aos alemães "de bem" o seguirem na sua ideia louca, suicida e genocida. É difícil ver imagens de Hitler com cachorros, algo que ele adorava. Sabem o motivo? Porque isso o humaniza, isso o torna parecido comigo e você que gostam de cachorros. Porém, como Hitler é colocado como a encarnação do Mal, é melhor que se tire qualquer menção à humanidade de Hitler, para que com isso não nos vejamos nele. Assim, é muito fácil entender algo e alguém como Hitler, quando na verdade a história é muito mais tênue.


   Em segundo lugar, quando percebemos que há o mal e o bem em todas as pessoas, e que de certa maneira todos os seres humanos são parecidos nesse aspecto, muito dificilmente iremos colocar rótulos como forma de discriminar grupos humanos. Assim sendo, fica muito mais fácil de ver um ser humano como você no outro, ao invés de um Judeu, um negro, um “playboy" rico, um miserável, etc, etc. Quando temos a capacidade de ver outros humanos assim, fica muito mais fácil construir pontes de relacionamentos e resolver problemas humanos.  É muito conhecida a história de como na primeira guerra mundial os dois lados da batalha confraternizaram durante um natal. Porém, o meu pai, mais uma vez ele, contava-me uma história que se passou na guerra entre a Rússia e o Japão que se não me engano foi em 1905. Quando um soldado, não me pergunte de qual nacionalidade, estava pronto para perfurar o corpo de um soldado inimigo com sua baioneta, ele viu uma lágrima escorrer dos olhos do soldado tombado. Instantaneamente, aquela imagem o fez perceber que aquele soldado prestes a ser assassinado era tão humano como ele. Talvez com filhos, esposa, medos, ambições, alegrias. Ele não era um monstro sem alma e sem humanidade, não, ele era um outro ser humano exatamente como ele. Ao fim e a cabo, ele não mata o outro soldado. Se pararmos para pensar, é a primeira coisa que se faz numa guerra é “desumanizar" o outro lado, pois fica muito mais fácil matar seres que não consideramos mais humanos.

    Quando percebemos que todos somos humanos, que todos estamos submetidos a erros e acertos, é muito mais fácil achar soluções para os problemas, pois em ambientes assim o ódio costuma não florescer, e quando não há ódio tudo fica mais fácil.

   É isso colegas, vou para o meu quinto dia em Mentawai. Paraíso do surf realmente. Já peguei tanta onda, que só de pensar que ainda tenho mais 10 dias aqui só posso sorrir. Hoje mesmo a sessão de surfe foi muito boa mesmo, ondas fortes e tubulares, consegui até mesmo tirar um tubinho bem rápido. Fiz a estréia na bancada de coral, e já arrumei a minha primeira cicatriz no joelho, faz parte. Hoje a onda estava tão rápida e pesada que vi duas pessoas se machucarem feio na minha frente, um deles deslocou o ombro. A internet aqui é lenta e cara, então a uso apenas para mandar notícias e ver sobre o andamento dos meus negócios imobiliários no Brasil. Vou aproveitar para publicar esse texto.

Isso é apenas uma fração das ondas que há na região. É absolutamente incrível.



  Grande abraço a todos!