terça-feira, 20 de janeiro de 2015

AÇÕES - EQUITY RISK PREMIUM (ERP)/PRÊMIO ACIONÁRIO

Olá, colegas.  Hoje escrevo sobre conceito abordado em artigo recente no blog do Além da Poupança: o conceito de prêmio acionário, também conhecido como Equity Premium.

Há alguns meses abordei de uma maneira  um pouco mais específica os fatores de risco delineados pelo seminal artigo de 1992 dos economistas Eugene Fama e Kenneth French http://pensamentosfinanceiros.blogspot.com.br/2014/05/acoes-os-tres-fatores-de-risco-de-fama.html. Naquele momento,  abordei  pouco o conceito de Equity Premium e falei mais sobre as especificidades dos prêmios de valor e tamanho. Entretanto, em artigos nos quais abordei o conceito do custo de oportunidade e a incerteza dos fluxos de dinheiro (com o impacto sobre a precificação de artigos) de certa maneira o conceito de prêmio sobre o ativo “livre” de risco foi delineado.

Primeiramente, é de se dizer que o prêmio acionário é uma construção abstrata teórica, nada mais do que isso. “O que quer dizer com isso Soul?” alguém pode pensar. É simples: nada garante que esse prêmio acionário irá existir nem mesmo em grandes períodos de tempo como 20/30 anos.  Quando se fala em prêmio em finanças, geralmente se associa uma compensação financeira a um determinado risco de investimento. O Iliquidity Premium , ou prêmio de iliquidez, por exemplo, é uma expectativa de retorno maior que um  determinado investidor possui por estar posicionado em ativos ilíquidos ao invés de ativos líquidos. Sendo assim, o prêmio por iliquidez pode existir no mercado de dívidas (renda fixa), imóveis (algo que costumo explorar), renda variável, etc. Há uma série de prêmios abordados pela doutrina mais técnica em finanças. O prêmio acionário nada mais é do que a compensação financeira que um investidor teoricamente deveria receber por possuir ativos mais arriscados, no caso ações.

Logo, respondendo a pergunta retórica feita pelo colega Além da Poupança, sim o mercado acionário tem uma expectativa de retorno maior do que o mercado de dívida.  Quanto é esse Prêmio Acionário? Bom, aqui se divide entre a teoria mais simples, abordada, por exemplo, por um livro mais introdutório como “Stocks For The Long Run” do Jeremy Siegel onde o prêmio acionário é fixo no tempo, e a doutrina mais atual de um prêmio acionário variável no tempo a depender da precificação do mercado e da taxa do ativo livre de risco. Uma taxa fixa é basicamente o prêmio acionário histórico. Assim, muitos autores pegam o retorno do mercado de títulos governamental comparam com o retorno do mercado acionário como um todo por um período longo de tempo e daí tiram um Equity Premium histórico que nos EUA é na faixa de 4% aa nos últimos 85 anos (1929 a 2013, dados retirados do Blog do Damodaran).


Média histórica e diferentes ERP no mercado acionário americano nos últimos 80 anos.


O que isso quer dizer especificamente? Significa que nos últimos 85 anos em média o mercado acionário como um todo teve um retorno de 4% aa superior ao mercado de dívida governamental. Sendo assim, um investidor bem diversificado no mercado americano poderia ter essa perspectiva de retorno para o longo prazo. Entretanto, como dito anteriormente, a doutrina mais atual trabalha com o conceito de um Equity Premium variável no tempo e dependente da precificação do mercado. Logo, a depender do momento em que um investidor entra no mercado, ele terá retornos esperados maiores ou menos, resultado em prêmios acionários maiores ou menores. Não é o escopo deste artigo discutir esse detalhe específico.

Por qual motivo existe o prêmio acionário? A razão de existir o prêmio é simples. Os fluxos de dinheiro de um empreendimento capitalista são mais voláteis do que os fluxos oriundos do pagamento de uma dívida, por exemplo. Como são mais incertos, não faria sentido o mercado acionário ter uma expectativa de retorno idêntica ao mercado de dívida governamental.  Pergunta mais difícil é sobre o tamanho do prêmio acionário. Como vimos, nos EUA o prêmio histórico orbita em torno de 4% aa. Esse é um prêmio alto, tanto que há discussões sobre a razão desse prêmio ser tão alto, o que gerou a expressão Equity Premium Puzzle. Talvez a explicação esteja no fato de que os retornos do mercado acionário americano foram muitos altos, destoando dos modelos de precificação, pois o século passado foi indubitavelmente um século de muito crescimento econômico e desenvolvimento humano.   Tais retornos podem estar superestimado a capacidade de retorno do mercado acionário para o futuro, e isso pode ter conseqüências muito diretas em vários tópicos como precificação de ativos, ou até mesmo taxa de retiradas de um portfólio previdenciário.

A seguir coleciono dois gráficos retirados do Credit Suisse yearbook do ano de 2011 e 2013 respectivamente (recomendo a leitura desses artigos, verdadeiras aulas sobre mercados):

Fica claro como o ERP foi alto no mundo desde a década de 1950, e como ele foi muito baixo, ou até mesmo bem negativo no caso do Japão, a partir de 1980.


A média histórica do século passado foi muito positiva para o mercado acionário desde 1900, e extremamente negativa na década perdida de 2000 a 2010


Assim, fica patente que o prêmio acionário é variável no tempo, sendo negativo em alguns períodos. Parece evidente também que boa parte do prêmio acionário histórico vem de décadas do pós-guerra, o que jogou o prêmio histórico para cima, tendo em vista o ótimo retorno do mercado acionário sobre o mercado de dívidas em inúmeros países.

Soul, você falou em prêmio acionário negativo, faz sentido isso?” alguém poderia perguntar. Essa é uma boa pergunta para abordar o prêmio acionário no Brasil. Lembre-se que o prêmio acionário é apenas uma construção teórica, nada garante que ele venha a existir, como não existiu na média do mundo desenvolvido entre 1980 a 2011. O prêmio é negativo quando o ativo “livre” de risco tem um retorno maior do que o mercado acionário. Sendo assim, no período supracitado, um investidor poderia ter tido um retorno maior e com menos riscos se tivesse pouca exposição acionária, nesse caso o risco de se expor ao mercado acionário não foi recompensado.  Foi exatamente o que ocorreu no Brasil desde a estabilização monetária com o plano real. O Equity Premium brasileiro foi extremamente negativo no período de 1994 a 2014, ou seja 20 anos. Tal fato pode ser corroborado por esses dois gráficos feitos pelo site Minhas Economias:

             
Este gráfico trara de um investimento único de R$ 100,00 em variadas datas. O resultado final é amplamente favorável  ao ativo "livre" de risco. Entretanto, observem que dependendo do momento do aporte único o resultado final para o Ibovespa é superior. Se observarem mais atentamente verão que essas datas coincidem com momentos de baixa do índice como a data marcada no gráfico de 30/10/2002. Na verdade a correlação negativa entre precificação do índice e retorno superior ao ativo "livre" de risco é evidente. Logo, para aportes únicos fica claro que preço importa e muito no resultado final.



 Já nesse outro gráfico com aportes regulares durante 20 anos desde a estabilização mostra que o investimento em ações foi perdedor, por larga margem, para o ativo "livre" de risco, ou seja o ERP foi bem negativo no período para quem fez aportes regulares. Isso parece ser um sinal de cuidado para as pessoas que acreditam que aportes regulares sejam a salvação para não se preocupar com precificação.

Essa distorção aconteceu por causa da altíssima taxa de juros que o Brasil teve no decorrer dos últimos 20 anos. É bom lembrar que em 1998, depois da crise da Rússia, chegamos a inacreditáveis juros básicos de 45% aa. Com juros assim, nenhum ativo, nem mesmo W.Buffett pode competir (partindo da premissa que a inflação não fugiu do controle, e os juros nominais altos se confundem com juros reais altos). Juros altos distorcem sobremaneira a precificação dos demais ativos. O motivo foi extensamente abordado no meu artigo sobre custo de oportunidade http://pensamentosfinanceiros.blogspot.com.br/2014/09/financas-custo-de-oportunidade-o.html. É bom salientar que o premio acionário foi negativo nos últimos 20 anos mesmo o mercado acionário brasileiro tendo retornos expressivos no período de 2002 a 2010 em relação ao resto do mundo. Não é demais citar que o crédito aumentou exponencialmente, a renda per capta subiu, o Brasil diminuiu juros, etc, o que culminou com retornos fantásticos do nosso mercado. Gráfico retirado do site HC Investimentos do ano de 2010 mostra como as ações brasileiras dispararam:


 Retornos anualizados de 20% aa por 10 anos, nosso índice acionário no período de 2000 a 2010 teve momentos de Berkeshire Hathaway em seus gloriosos tempos, sendo o mercado que melhor perfomou no mundo em toda década passada (será que o mercado andando de lado há cinco anos nada mais é do que regressão à média?). Pasmem, boa parte desse retorno se deve as agora desprezadas VALE e PETRO. Sim, não é fácil fazer gestão ativa e acetar o futuro do preço dos ativos.  Olhar retrospectivamente hoje em dia e pensar que não compraria PETRO há alguns anos  é sempre mais fácil.


Eu não acredito que nos próximos 20 anos teremos um prêmio acionário negativo, o que é uma ótima notícia para os pequenos investidores em ação. Não creio que teremos juros tão altos distorcendo tudo. Entretanto, a persistência de juros altos em mais de dois dígitos, sendo que o Brasil é o país que mais paga juros reais no mundo, por um período longo de tempo pode sim pressionar e muito o mercado acionário, fazendo com que o ERP no Brasil se mostre modesto nos próximos 10/15 anos. É bom salientar que o ERP é calculado tendo em vista uma carteira diversificada que elimine o risco não-sistêmico. Tal definição nada mais é do que a definição da carteira do mercado, ou índice. Por isso, qualquer estudo sobre ERP levará em conta o retorno de um índice como o IBOVESPA no caso do Brasil, ou outros índices acionários no caso de outros países. A questão sobre se investir em índices é bom ou não é algo relacionado à gestão ativa x passiva, o que não é muito o tópico do ERP. Pretendo abordar esse tema em outra postagem.

Um abraço a todos!

sábado, 10 de janeiro de 2015

RENDA FIXA - MERCADO HIGH YIELD, SPREADs e FII DE PAPEL


        Olá, colegas. Hoje falo um pouco sobre Renda Fixa. Eu ia escrever sobre os dois grandes prêmios que existe no mercado de dívida : Bond Risk Premium e Credit Risk Premium. Entretanto, resolvi escrever sobre o mercado de High Yield, que está de certa maneira no conceito de Credit Risk Premium, e sua relação com o mercado imobiliário de dívida.

            Primeiramente, a maior divisão que existe no mercado de dívida, seja soberana ou corporativa, é aquela que diferencia instrumento de dívida com investment grade e sem investment grade.  Empresas e países que possuem grau de investimento são considerados sólidos e merecedores da confiança do mercado, ao contrário de países ou empresas que não possuem grau de investimento. O que acontece quando alguém precisa se endividar e não possui muito crédito no mercado? Provavelmente, a pessoa só conseguirá empréstimo com juros muito maiores. A mesma lógica se aplica ao mercado de dívida soberana e corporativa. Uma nação sem grau de investimento terá mais dificuldade de captar dinheiro no mercado externo, e terá que pagar uma taxa maior de juros do que outro país com grau de investimento que queira tomar dinheiro emprestado. Essa diferença da taxa de juros, ou spread, entre quem possui ou não possui grau de investimento pode ser considerado um prêmio que os credores exigem para emprestar dinheiro para alguma instituição não tão confiável, e é daí que vem o conceito de Credit Risk Premium.

                “Ok, Soul, entendido, mas essa divisão é aleatória?” alguém poderia perguntar. Não. Talvez quase todos já tenham ouvido falar das agências de classificação de risco. Há várias delas no mundo, sendo algumas mais conhecidas como a Fitch, Mood´s e a Standard and Poor´s. Cada empresa de classificação possui os seus próprios critérios, mas basicamente há alguns filtros de análise para saber a condição de solvência de um país ou de uma empresa. Métricas como a relação da dívida estatal em comparação com riqueza produzida(dívida bruta/PIB), a relação do lucro operacional com o montante pago a título de juros (conhecido também como interest coverage), a relação do valor devido com o valor de mercado de um bem dado em garantia  (Loan To Value), entre outras métricas, servem para que se tenham dados objetivos para que essas agências possam classificar os diferentes tipos de dívida. Quem se lembra do meu artigo sobre FII de Papel http://pensamentosfinanceiros.blogspot.com.br/2014/11/fundos-imobiliarios-de-papel-abrindo.html, lembrará que foram abordados duas métricas de classificação: Loan To Value – LTV e Debt to Income – DTI.

                Assim, uma empresa que possui um interest coverage de oito, ou seja, o seu lucro operacional é superior 8 vezes ao pagamento de juros devidos é muito mais sólida e confiável do que uma empresa possuidora de um lucro operacional duas vezes maior do que o valor devido de juros. A razão é simples: basta uma pequena turbulência nos lucros operacionais da última empresa para que a mesma comece a encontrar dificuldades de honrar os seus compromissos financeiros.

                Não cabe aqui, e nem é o escopo desse breve artigo, entrar em minúcias e detalhamento das diversas classificações das diversas agências. Entretanto, a partir de certa classificação, que vai variar de acordo com cada agência, é considerado que um país ou uma empresa não é um investimento seguro, não é um investimento que possui grau de investimento. A questão não é apenas semântica.  Quando empresas ou países não possuem grau de investimento muitos investidores institucionais como fundos de pensão, seguradoras, etc, são proibidos de investir em dívidas dessas instituições. Logo, o mercado de captação de dinheiro fica muito mais restrito para instituições sem grau de investimento. Quando o universo de dinheiro disponível para captação fica escasso, isso quer dizer que essas empresas ou países terão que pagar mais dinheiro para se endividar, terão que pagar um spread.

                Como títulos de empresas ou governos que não possuem grau de investimento geralmente pagam muito mais juros nos empréstimo, estes papéis de dívida são conhecidos como High Yield. Há muitos fatores interessantes sobre o mercado de High Yield. Primeiramente, ele costuma ser um bom termômetro sobre como anda a liquidez e confiança/receio do mercado. Por qual motivo? Em momentos de muito dinheiro abundante e grande confiança, o spread entre o mercado de High Yield e o ativo "livre" de risco (aqui considerado como um título  do governo americano) costuma ser pequeno, representando que os investidores estão dispostos a se arriscarem mais, mesmo não ganhando tanto a mais.  Por seu turno, quando a liquidez do mercado aperta e o receio toma conta dos investidores, o spread do mercado de High Yield costuma ficar muito alto. Na crise de 2008, o Spread chegou a quase 20% (o que é algo muito alto), sendo que em meados de 2014 esse spread estava em menos de 3%, bem abaixo da média histórica. Sobre o poder preditivo do mercado de High Yield sobre a precificação de outros ativos ler essa interessante reportagem do NY Times http://dealbook.nytimes.com/2014/08/14/the-signals-from-the-high-yield-bond-market/?_r=0.

                E qual é a relação disso tudo com o mercado de FII de Papel? Peço vênia para colar um comentário meu feito no Blog do Tetzner sobre o FII JRSE11:

Colegas, quando escrevi sobre FII de papel pulverizado, muitas pessoas ficaram intrigadas, pois não imaginavam a complexidade que poderia existir nesses instrumentos.
Entretanto, muitos fundos de papel possuem CRIs cujo devedor principal é uma empresa. Nisso,estes instrumentos se assemelham muito a uma Debênture. Se fosse para escolher agora, uma pessoa compraria uma debênture incentivada (isenta de IR) de uma empresa de primeira linha ou compraria debêntures de empresas de construção com graves problemas financeiros ou ,pior, envolvidas no escândalo de corrupção da Petrobrás, com o risco de serem declaradas inidôneas e sofrer grave revés financeiro?
O que é mais arriscado? Qual é o spread que remuneraria adequadamente esse risco caso a pessoa queira se expor? Olha, eu chutaria pelo menos uns 4 a 5% aa.
Soul, isso tudo parece intuitivo, qual é o ponto? Ao analisar o FII JRSE11, eu encontrei essa configuração de CRI:
Suzano IPCA dezembro-24 R$ 16.730.258 2,44%
Brookfield * IPCA março-24 R$ 8.799.755 1,28%
Flamboyant IGPM maio-18 R$ 23.733.957 3,46%
Even CDI julho-16 R$ 66.154.418 9,63%
Even CDI agosto-23 R$ 8.156.100 1,19%
MRV CDI março-15 R$ 9.225.917 1,34%
MRV CDI março-16 R$ 5.624.682 0,82%
Odebrecht CDI outubro-16 R$ 5.478.126 0,80%
Yuny CDI junho-16 R$ 8.989.789 1,31%
Rodobens CDI setembro-16 R$ 57.289.377 8,34%
CCP CDI agosto-19 R$ 70.360.729 10,25% Código Saldo s/
Queiroz Galvão CDI setembro-15 R$ 24.779.810 3,61%
Odebrecht e Queiroz Galvão estão no epicentro do furacão (bom alertar que a OAS já deixou de pagar uma dívida de 100 milhões essa semana). Brookfield tem dados fundamentalistas horrorosos. Even possui dados mehores, assim como MRV e Rodobens. Portanto, o JRSE possui títulos de qualidade bem duvidosa, apesar da esmagadora maioria deles serem de empresas com dados financeiros mais sólidos (pelo menos atualmente) e outras que não possuem capital aberto. Entretanto, o risco de concentração no mercado imobiliário (não na forma de proprietário como quando se tem quotas de FII de tijolo) é enorme. Eu ,particularmente, prefiro me expor ao mercado imobiliário na qualidade de proprietário, não de credor, a não ser que as recompensas financeiras sejam muito atrativas. Portanto, esses títulos de CRI quando não pulverizados se assemelham muito a Debêntures. Há várias opções no mercado (é verdade com liquidez menor provavelmente) com títulos de instituições mais sólidas pagando algo em torno de 12 a 13% aa sem IR. A relação risco x retorno nesses investimentos de FII de papel tem que ser bem atrativa para compensar o investimento em minha opinião.”

                No final do comentário, eu deixo a minha visão de que os títulos de dívida da carteira da esmagadora maioria dos Fundos Imobiliários de Papel possuem menos qualidade do que um título do Tesouro Direto ou uma Debênture incentivada do BNDES, por exemplo, e digo que deve haver uma remuneração adequada para compensar o risco. E qual poderia ser essa remuneração adequada? Para chegar a essa resposta, eu vou considerar que os FII de Papel possuem papeis de qualidade duvidosa ou de devedores arriscado, e portanto irei equipará-los a títulos High Yield. É preciso esclarecer que muitos dos títulos possuem classificação de grau de investimento, mas você se fosse fazer um empréstimo aceitaria receber o mesmo yield em juros do Tesouro Direito para emprestar para Queiroz Galvão? Eu acredito que não. Assim, eu creio que esses títulos podem sim ser equiparados ao mercado de High Yield. Novamente, aqui vou me socorrer de dados do mercado americano, tendo em vista a falta de dados (eu pelo menos não tenho acesso) sobre o mercado brasileiro, para que assim possamos ter um Proxy sobre o que seria ou não conveniente a título de spread.

                Começo com um gráfico sobre o spread de um Index da Merrill Lynch de mercado High Yield em relação  ao Treasury dos EUA:
   


                Percebam como antes da crise de 2008 o spread chegou a níveis baixíssimos, e o salto do spread no final de 2008, significando que muitos dos papéis estavam sendo negociados com deságios enormes. O spread então foi caindo, muito por causa do excesso de liquidez fornecido pelo FED e outros Bancos Centrais, chegando novamente em mínimas muito longe da média histórica.  Esse gráfico nos diz duas coisas interessantes: a) o mercado de High Yield é brutamente abalado em caso de uma grave crise financeira, relevando que o valor a mais que paga de juros vem junto com um grande risco, principalmente em períodos de crise e enxugamento da liquidez;  e b) sempre houve um spread, por mais que ultimamente ele tenha diminuído, entre o mercado de High Yield e o ativo livre de risco.

             A seguir coloco vários gráficos sobre juros, spread e High Yield. As imagens foram retiradas de um relatório do "Guide to Markets - Brasil" da JP Morgan referente ao segundo trimestre de 2014.

 No primeiro gráfico tem-se o pequeno spread atual entre títulos americanos com investment grade e títulos do tesouro americano. O gráfico mais esticado da direita mostra que mesmo os títulos High Yield americanos tem um yield menor do que os títulos de mercados emergentes.

 Estes dois gráficos mostram a composição e o spread entre mercados emergentes e títulos do tesouro americano. Percebam como em 2008 houve o fenômeno de "fly to quality",  mesmo que o epicentro da crise financeira tenha sido os EUA, os spreads entre títulos emergentes e governamentais americanos aumentaram substancialmente, ao invés de se manterem estáveis ou até mesmo diminuírem.
Esse último gráfico trata do spread entre títulos High Yield e o ativo "livre" de risco. Notem que a média história do spread não é pequena.

            Portanto, os gráficos corroboram as duas afirmações sobre a existência de um spread razoável, pelo menos a média histórica, e o fato de que o mercado de dívida High Yield sofre demasiadamente em períodos de crise.  Eu acredito que os FII de papel possuem características de mercado High Yield. Vários fundos possuem Certificados de Recebíveis Imobiliários pulverizados, muitos sem qualquer classificação de risco. Além do mais, há CRIs de empresas com filtros financeiros não muito sólidos, algumas envolvidas em casos de corrupção e outras sem dados abertos ao público já que não são companhias abertas. Percebe-se também uma alta concentração em papéis de construtoras, o que acrescenta um risco específico muito grande a esses papéis, já que é sabido que boa parte das construtoras, mesmo as com capital aberto, estão passando por dificuldades financeiras.  Por esses fatores, como nunca vi nada escrito a respeito sobre o assunto, para responder a pergunta de qual seria uma taxa adequada para remunerar o risco, eu assemelho esses fundos de papel ao mercado de dívida High Yield. Para saber, ou pelo menos ter uma ideia aproximada, de  qual seria um spread adequado sobre o ativo “livre” de risco brasileiro, eu me valho dos dados do mercado americano, numa postura talvez conservadora, pois empresas pequenas e não tão confiáveis americanas possuem muito mais acesso ao mercado de dívida e de capitais do que empresas brasileiras, o que pressuporia um spread maior para o caso brasileiro.

                Uma característica importante dos FII de papel brasileiros é que ao menos eles possuem muitos títulos em carteira, dessa forma mitigando o risco não-sistêmico dos papeis.  Possuem alguma semelhança com um ETF, não são idênticos, mas não deixam de ter certos traços em comum. Aliás, uma vez um anônimo falou surpreendido que não sabia que existia ETF para renda fixa e nem sabia a utilidade que poderia ter. O ETF de mercado de dívida serve principalmente para se expor a mercado de dívida High Yield , de mercados emergentes ou até mesmo de novíssimos mercados como Mongólia, Angola, etc. Para entender o motivo, imagine que você tenha 20 milhões de reais. Com essa quantia, você compraria uma LCI no valor de R$ 4 milhões de um banco com dados financeiros não tão sólidos para ganhar um retorno de 120% do CDI? Muito provavelmente não. Agora, se fosse possível investir em LCI de 20 bancos menores ao mesmo tempo por meio de um ETF com o retorno esperado de 117% do CDI, talvez algum investidor se interessasse pela dispersão de risco, já que um banco pode quebrar, mas é difícil todos eles quebrarem fora de uma grave crise financeira. O mesmo raciocínio se aplica ao mercado de dívida soberana ou de High Yield. A forma mais indicada para se expor a esses mercados é por meio de ETFs ou de índices.  Logo, os FII de papel ao menos possuem certa diversidade, o que em certa medida dilui o risco de grandes perdas.

                Feito esse aparte, cito alguns FII de papel mais conhecidos e estimo, e aqui é bem aproximado, as taxas que os papéis remuneram:
a)       O FEXC é lacônico sobre a ponderação, porém é algo que pode ser feito utilizando os dados fornecidos, a mesma coisa com o XPGA. Nota-se que as taxas contratadas pelo XPGA são maiores do que no FEXC (algo em torno de índice + 8/9%), sendo que há papel pagando IPCA + 12%, o que é alto. Isso releva que o fundo deve carregar papéis mais arriscados. Novas compras foram negociadas com Spread de 1,4 a 3% sobre o CDI. Os dois fundos com despesas em torno de 15% do resultado;
b)       VTRA tem papéis pulverizados e de empresas de médio e grande porte. Taxas variando de indexador + 6 a 8%. Despesas em torno de 10% do resultado.
c)       RBVO mostra a ponderação que é igual a índice + 8,11% (conforme relatório  do segundo trimestre de 2014). Há papéis pulverizados , de shoppings e de algumas empresas  de capital fechado(tirando um das Lojas Americanas).  Taxas menores do que em outros fundos girando em torno de 5% das receitas.


        Eu não fiz a ponderação nos fundos FEXC, XPGA e VTRA, pois não consta no relatório e eu não sei operar adequadamente uma planilha de Excel. Porém, as minhas estimativas não estão muito longes. O que exatamente isso quer dizer? Vamos pegar o caso do RBVO que possui  uma carteira rendendo índice + 8,11%. Isso quer dizer que quem comprar pelo valor patrimonial das quotas irá receber essa remuneração. É a mesma coisa que comprar NTN-B no tesouro direito numa determinada data a taxa de IPCA + 6,5%, por exemplo. Pensando dessa maneira, fica mais fácil comparar os títulos e de alguma maneira tentar analisar se os spreads são adequados ou não.  Muitas pessoas dizem: “Ah, mas os FII não pagam IR na distribuição, assim o resultado é líquido, não podendo se comparar com o tesouro direto”, porém isso é apenas uma parte da equação. Se como nos FII FEXC e XPGA as taxas administrativa, de custódia e performance comem 15% dos rendimentos, isso equivale a um IR de um título do tesouro direto com mais de dois anos na carteira. Portanto, as altas taxas administrativas de alguns FII de papel se assemelham ao IR de uma NTN-B, por exemplo. A comparação seria ainda pior se pegássemos debêntures incentivadas onde não há qualquer Imposto de Renda.

       Imperioso ressaltar também que essa comparação deve ser feita sobre o valor patrimonial de cada FII, pois é assim que os administradores relatam. Portanto, se o RBVO é negociado com deságio no mercado secundário sobre o seu VP, isso quer dizer que o investidor no secundário está comprando uma carteira que irá render mais do que índice + 8,11% a depender do deságio. Por seu turno, aquele que porventura compra acima do  VP irá receber menos.  Logo, compras com deságio no mercado secundário aumentam o spread em relação ao ativo livre de risco, fazendo com que a margem de segurança aumente. Compras acima do VP fazem com que o spread diminuía, tornando quase inexistente qualquer margem de segurança.

      Pelos dados históricos americanos, eu creio que um spread de 4 a 5% é algo razoável para remunerar o risco do mercado de High Yield. Sendo assim, tesouro direto pagando IPCA + 6%, não me parece que RBVO pagando índice + 8,11% seja adequado. Agora, como o RBVO está com 15% de deságio, o spread se aproxima de 4%, ainda mais que as taxas são baixas nesse FII, o que talvez possa começar a remunerar o risco mais adequadamente.

      Sendo assim, colegas, receber mais em FII de papel do que uma LCI de um banco de primeira linha ou no tesouro direito não é nada demais, e dependo do spread não é nem mesmo uma remuneração adequada do risco. Com o derretimento de alguns fundos de papel nos últimos meses, talvez a relação risco x retorno, medida na diferença de spread, possa começar a ficar interessante. Cabe ao investidor refletir se quer ficar exposto a esse tipo de risco para receber mais remuneração. Não há qualquer mal nisso, desde que o investidor tenha claro que pode estar comprando papeis de complexa precificação como os pulverizados ou dívidas de empresas em estado financeiro não muito saudável. Há pessoas que pela remuneração a mais tem vontade de se expor a esses papéis, há pessoas que não, o que torna a decisão de investir ou não nesses papéis algo muito pessoal. Apenas recomendo que o investimento nesses papeis de alguma maneira esteja alinhado com a estratégia do investidor.

Espero que tenham gostado. Grande abraço a todos!

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

INVESTIMENTOS - ENVELHECIMENTO E PRECIFICAÇÃO DE ATIVOS IMOBILIÁRIOS

           
         Olá, amigos! Hoje farei um breve artigo sobre um assunto interessante, pelo menos para mim, sobre muitos aspectos: envelhecimento e conseqüências financeiras.  Abordarei apenas alguns conceitos desenvolvidos no artigo “Ageing and Asset Prices” de Elod Takáts do BIS (Bank For International Settlements), deixando de fora eventuais outras questões interessantes sobre o tema.

           A tese principal do artigo é de que o envelhecimento das populações dos países desenvolvidos, e em menor intensidade nos países emergentes, trará conseqüências negativas para as próximas décadas, principalmente em relação ao mercado imobiliário residencial.  Qual é a premissa principal do texto? Conforme o autor, e ele cita diversos outros artigos que tratam sobre o tema de diversas perspectivas, quando a razão de dependência aumenta é lógico pensar que o preço dos ativos irá diminuir.  Primeiramente, necessário esclarecer que a razão de dependência mede a quantidade de idosos em relação à quantidade de pessoas economicamente ativas. Essa métrica é fundamental para analisar sistemas previdenciários, e ela é geralmente um dos indicadores mais importantes para se analisar a saúde financeira ou não de algum determinado sistema previdenciário nacional.  Se o índice de dependência de um país é de 20%, isso quer dizer que para cada pessoa idosa há cinco pessoas em idade economicamente ativa (1/5). Fica claro que quanto maior esse índice, maior é a pressão na geração jovem para a manutenção da geração mais velha em questões previdenciárias, assistenciais e de saúde.

                Sobre a ótica financeira, é aceita por muitos economistas a ideia de que a geração mais jovem é compradora de ativos para acumular reservas para a aposentadoria, enquanto a geração mais velha é vendedora de ativos para financiar a sua aposentadoria.  Se essa forma de pensar é correta, e ela parece ser, então temos três situações:

a)       Situação de crescimento populacional com muitos jovens- Há mais jovens compradores de ativos e menos idosos vendedores de ativo, isso faz com que o preço dos ativos se valorize. É o que comumente se aceita como ocorrido nos EUA no pós-guerra com a geração de Baby Boomers. Esta geração seria responsável pelo aumento muito grande nos preços dos ativos, e pelos grandes retornos nos ativos financeiros daquele país. Talvez por isso o retorno espetacular dos ativos financeiros nos EUA se comparados com outros países desenvolvidos.
b)       Situação neutra do ponto de vista demográfico - Aqui, não haveria mudanças na precificação dos ativos por questões demográficas.
c)       Situação de envelhecimento com diminuição do número de jovens – Aqui, a situação é inversa do item “a”. Haverá muito mais idosos vendendo os seus ativos para financiar suas aposentadorias e menos jovens para comprar esses ativos, o que provavelmente leva a diminuição do preço dos ativos. O artigo em tela trata dessa hipótese.


          O item “a” parece ter evidência nos dados, conforme se pode ver nos seguintes dados onde claramente o preço dos ativos vem aumentando desde a década de 70 (período onde os Baby Boomers estavam começando a vida adulta).

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Essa série de gráficos mostra valorização em todas as classes de ativos: BOND (RF), Ações e mercado imobiliário.


                    O artigo sobre análise tenta capturar a influência positiva da demografia no mercado imobiliário residencial de 22 países desenvolvidos entre 1970 e 2009 e baseado nesses dados tenta estabelecer algumas relações estatísticas para fazer previsões sobre o efeito  da demografia nesses países nos próximos 40 anos.  O autor diz que a escolha por analisar o mercado imobiliário residencial de cada país foi feita para afastar o efeito de eventuais influxos de capital numa economia cada vez mais globalizada. Apesar de não serem imunes a fluxos estrangeiros, realmente o mercado residencial é algo mais restrito a investidores nacionais e a fluxos internos de dinheiro. Com isso, o artigo tenta de certa maneira “isolar” os países de possíveis contatos com outros países. O autor também deixa claro que utiliza as projeções feitas por demógrafos da ONU para os próximos 40 anos. Reconhece que essas previsões podem não se concretizar, mas que de certa maneira servem como um norte de como estará a demografia humana em 2050.


           Ao analisar os dados desses 22 países e ao aplicar diversos testes estatísticos técnicos, confesso que estão além da minha compreensão nessa matéria, o autor chegou as seguintes conclusões:

a)  1% de aumento na renda real per capta corresponde a 1% de aumento real do preço dos imóveis;
b) 1% aumento de população corresponde a 1% de aumento real dos imóveis;
c) 1% de aumento na métrica de razão de dependência corresponde a 0.65/0.7% de  desvalorização real dos imóveis.


                Coleciono três  gráficos interessantes do estudo sobre o preço real dos imóveis em 22 países e o efeito demográfico no crescimento/desvalorização real dos imóveis:
              

Gráfico do retorno real dos imóveis nos últimos 40 anos. Chama atenção que o efeito demográfico negativo foi bem visível na Alemanha e Japão (dois países onde a razão de dependência aumentou consideravelmente).

Entretanto tal efeito não foi visto com clareza em países onde a razão de dependência aumentou significativamente também como Itália e Coréia do Sul, o que apenas salienta que os efeitos demográficos na valorização real dos imóveis é uma variável, não é a única variável.
  
                  
 Dado consolidado de todos os países e o efeito positivo ou negativo da demografia no preço real dos imóveis.


               Tendo em vista os dados coletados e algumas análises estatísticas de regressão, o autor então estima o impacto que o aumento da razão de dependência, ou seja, envelhecimento, poderá ter no preço real dos imóveis nos próximos 40 anos nos 22 países estudados:



O retorno real negativo que o efeito da demografia deve exercer sobre países de língua inglesa nos próximos 40 anos. Observem que o efeito esperado não é tão grande em países como a Inglaterra e a Austrália e relativamente grande na Irlanda.


Na Europa, tendo em vista o maior envelhecimento os efeitos podem ser bem pesados, como se pode ver para os países Ibérios, Grécia e Itália e Dinamarca.



          É importante ressaltar que o autor não está dizendo que o preço real dos imóveis irá diminuir nos próximos 40 anos, pois o preço real dos imóveis também é influenciado por outras variáveis, como crescimento real per capta. O que os dados parecem sugerir, bem como a previsão baseada nesses dados, é que os preços de imóveis em economias mais desenvolvidas nos próximos 40 anos irão enfrentar muito mais dificuldades do que nos 40 anos precedentes, tendo em vista a pressão negativa do envelhecimento sobre o valor dos imóveis. Cito palavras do próprio autor: "In sum, the estimates suggest that real house prices will face substantial headwinds over the next forty years due to ageing. Though the results do not imply absolute real price declines, they   suggest   that   in   the   next   forty   years  house   prices   in   advanced   economies   will   face   a more difficult environment than in the past forty years."( Tradução Livre - "Em suma, as estimativas sugerem que o preço real de residências irá  enfrentar fortes dificuldades nos próximos 40 anos devido ao envelhecimento. Embora os resultados não impliquem declínios reais de preços, eles sugerem que nos próximos 40 anos preços de residências em economias desenvolvidas irão enfrentar um ambiente mais difícil do que os 40 anos passados".


          E o Brasil? Bom, aqui pode-se apenas imaginar alguns cenários. A nossa população é relativamente jovem com razão de dependência bem menor do que países desenvolvidos. Tal situação deverá se inverter a partir de 2035/2040, quando o Brasil começará a encerrar o período de transição demográfica. Logo, ao contrário de economias avançadas, o Brasil terá impactos positivos da demografia nas próximas décadas. Além do mais, o nosso pib per capta é ainda muito baixo, o que abre um caminho grande para valorizações reais por meio do crescimento da renda real per capta. Por isso, as perspectivas para os próximos 40 anos para os imóveis brasileiros parecem ser de razoáveis a boas.


          Ressalte-se novamente também que o estudo é feito com base em dados passados e análises estatísticas, e não pode ser considerado um previsor para o comportamento absoluto do preço real dos imóveis. Entretanto, em que pese as limitações e eventuais deficiências, o artigo traz à tona aspectos muito interessantes sobre demografia, envelhecimento e precificação de ativos que podem jogar um pouco de luz sobre o que talvez aguarde o Brasil nos próximos 40 anos. 

         Espero que tenham gostado. Um abraço a todos!

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

VENEZUELA - PARA MUITO ALÉM DO CHAVISMO

                Olá, colegas. Desejo um feliz 2015 para todos. Nesse artigo, escrevo um pouco sobre um país lindíssimo, mas temido por muitos brasileiros pelo suposto espectro negativo que lança sobre o Brasil: A Venezuela. Este foi um dos países que mais me surpreendeu na vida pela quantidade de paisagens belas e diversas. Não é à toa que a Venezuela faz parte do seleto grupo de países com megadiversidade biológica (http://pt.wikipedia.org/wiki/Pa%C3%ADses_megadiversos).

                Apesar de suas belezas naturais, imagino que o que vem na cabeça de todos ao citar  a Venezuela é o nome Hugo Chávez ou a palavra Chavismo.  Isso talvez  possa até mesmo obscurecer o simples fato que a Venezuela é muito maior do que o seu sistema político atual. Não é o meu enfoque, até porque não tenho conhecimento específico para tanto, fazer uma sofisticada e completa digressão sobre as condições políticas, econômicas, históricas e sociais desse país. Não. O meu intuito é apenas passar, como já fiz com outros lugares, as minhas impressões sobre o que vi e senti ao visitar este extraordinário país.

                A Venezuela possui uma característica que a diferencia dos demais países da América do Sul: ela possui muito petróleo.  Se o petróleo é uma maldição para os venezuelanos, se é a porta de saída para uma vida melhor, é difícil dizer para um país com história social e política tão conturbada.  A Venezuela tem tanto petróleo que é o país com as maiores reservas comprovadas do mundo, ultrapassando até mesmo a Arábia Saudita nesse quesito, representando  mais de 24% das reservas mundiais (não você não leu errado) com quase 300 bilhões de barris (http://www.opec.org/opec_web/en/data_graphs/330.htm). Um petróleo a U$100,00 o Barril significa que o país está sentando em 30 trilhões de dólares, com um barril a U$ 50,00 significa 15 trilhões de dólares a menos (simplifico aqui, antes que as pessoas com mais expertise em petróleo reclamem). Sendo assim, mudanças expressivas no valor do petróleo  podem atingir a Venezuela na ordem de magnitude de centenas de bilhões ou até mesmo trilhões  de dólares. Além do mais, o petróleo responde por um terço do PIB venezuelano, 80% das exportações e 50% das receitas do governo. Portanto, fica claro que o Petróleo é o sangue da economia  Venezuelana, com as eventuais benesses e problemas que isso pode representar.

                Todo país tem sua própria e interessante história, mas nos países da América do Sul e Central (talvez com exceção do único país de colonização Portuguesa), o enredo é similar: os europeus chegam e exploram a população nativa, há movimentos nacionais pela independência que muitas vezes resultam em batalhas sangrentas, há uma série de ditadores e governos antidemocráticos nos 150 anos após as independências, resultando em países pouco desenvolvidos do ponto de vista social, econômico e democrático.  A Venezuela possui muito desse enredo.  Afetada positivamente pelo aumento brusco do preço do petróleo no início da década de 70 (o que gerou uma expansão enorme de gastos) e depois duramente pela queda dos preços na década de 80 (será que o mesmo filme está se repetindo?), a Venezuela na década de 90 era um país com alta inflação, com o PIB per capta retrocedendo para níveis da década de 60, grande desemprego e condições sociais e econômicas muito duras. Foi nesse caldo social e político que um General chamado Hugo Chávez chegou ao poder por meio de eleições democráticas no ano de 1998 (Chávez já tinha tentado um golpe fracassado em 1994), e iria transformar a Venezuela de maneira profunda e chamar atenção não só da região, mas de todo o mundo.
                
Talvez uma das personalidades mais polêmicas das últimas décadas na humanidade. Atrás na foto um dos grandes ícones para Chavéz: Simon Bolivar herói da independência em muitos países americanos. A admiração era tão grande que o nome da Venezuela foi mudado para República Bolivariana da Venezuela. 

                Não vou aqui tecer pesadas críticas ou elogios ao Chávez. Digo apenas duas coisas. Todas as entrevistas mais densas que eu li ou ouvi sobre a Venezuela e Chávez foram de jornalistas estrangeiros que viveram na Venezuela e retrataram uma figura ambígua e complexa, nem o salvador que algumas pessoas ainda insistem em rotular, nem o demônio em que muitas pessoas atualmente gostam de retratar. A segunda é que quase todos os venezuelanos com quem tive a oportunidade de conversar sobre o tema disseram-me que a grande guinada de Chávez para um radicalismo mais exacerbado foi pós-golpe frustrado de 2002. Poucas pessoas aqui no Brasil sabem sobre esse golpe, nem como ele foi feito. É considerado um dos primeiros golpes midiáticos da História, numa grande farsa e encenação. Há um belo documentário sobre o tema feito por dois irlandeses que foram pegos de surpresa quando o golpe aconteceu, creio que eles estavam fazendo um documentário sobre a Venezuela. Há imagens primorosas feitas, pois mostram o desenrolar do golpe dentro do Palácio Miraflores. O documentário chama-se “La Revolución no será Transmitida”.  Quando escrevi sobre o Oriente Médio (http://pensamentosfinanceiros.blogspot.com.br/2014/08/reflexao-infamia-mentira-o-massacre-e.html), refleti como ações impensadas criaram um monstro chamado ISIL (mais comumente conhecido como ISIS). O monstro é muito pior do que eu pensava, como pode ser visto nessa reportagem do primeiro repórter ocidental autorizado a percorrer territórios controlados pelo  ISIS (http://edition.cnn.com/2014/12/22/world/meast/inside-isis-juergen-todenhoefer/). A coisa vai piorar muito antes de melhorar. Assim como a invasão desastrada do Carandiru levou a criação do PCC, o golpe frustrado na Venezuela levou a uma radicalização de Chavéz e do seu projeto de poder. Se isso foi apenas uma escusa para o Chavéz se sentir legitimado, eu não tenho conhecimento para responder. Porém, uma coisa é clara, violência desmedida e impensada geralmente cria resultados muito piores, muitos deles inesperados.

Um ótimo documentário de como uma história sempre tem diversos lados. O que acho mais interessante é como a manipulação dos meios de comunicação pode ser muito forte.

                Em que pese eventuais erros e lapsos da oposição venezuelana, o ponto objetivo é que hoje a Venezuela é um país em crise econômica, social e política. A inflação está acima de 60%, o país entrou em recessão esse ano, há uma grande divisão da sociedade venezuelana (o que ficou visível nas manifestações violentas do ano passado)e a  violência assola o país, tornando a Venezuela o segundo país onde mais se  mata por ano, com uma taxa de homicídios o dobro da do Brasil que já é altíssima (http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/04/140410_homicidio_onu_mm).  Para piorar o preço do petróleo não para de cair o que pode ocasionar a falência do país para pagar as suas obrigações em dólar (os títulos Venezuelanos estão sendo negociados a menos de 40 centavos para cada dólar, o que representa um desconto de mais de 60% no valor de face - http://www.bloomberg.com/news/2014-12-15/venezuelan-bonds-fall-to-16-year-low-as-maduro-affirms-subsidies.html - basicamente significando que são JUNK BONDS) e pode ficar impossível financiar o  espantoso déficit 11.5% do PIB previsto para 2014 (http://www.tradingeconomics.com/venezuela/government-budget). Enfim, se a situação econômica é ruim para o Brasil esse ano, para a Venezuela é desesperadora.
               
                Sempre quando um país sofre uma grave crise econômica com reflexos em seu câmbio, os governos tendem a impor limites muito restritos para a compra, venda e saída de moeda forte do país.  Quase sempre há muitas limitações para a compra de dólar, o que leva a formação de mercados negros de câmbio. É aqui que minha história na Venezuela se inicia. Quando estive na Venezuela entre abril e maio de 2011, eu sabia que a cotação oficial da moeda era de 1 dólar para 4 Bolivares Furtes.  Isso queria dizer que todas as transações oficiais seriam convertidas por essa cotação: ATM, compra com cartão de crédito, casas oficiais de câmbio. Entretanto, eu tinha lido no site estrangeiro Trip Advisor que se podia no mercado negro vender dólar a 8 Bolivares Furtes. Sendo assim, se algo custasse 80 Bolivares e eu resolvesse usar o cartão a fatura iria sair 20 dólares. Se eu trocasse dólar no mercado negro, a mesma compra custaria 10 dólares. Portanto, a única solução seria levar dólar em espécie e foi o que fiz. Essa divergência entre câmbio oficial (atualmente está em 6.3 Bolivares por dólar) e o mercado paralelo (que atualmente está em inacreditáveis 50 Bolivares) num país que importa quase tudo que consome faz com que o poder de compra da população caia absurdamente.

                Entrei na Venezuela vindo da espetacular e feliz Colômbia.  A diferença de humor entre os Venezuelanos, principalmente em Caracas, e os colombianos foi um aspecto que me chamou atenção de que algo deveria estar profundamente errado com a Venezuela.  Na fronteira entre Colômbia e Venezuela tentei trocar os meus suados dólares por bolívares pela cotação de oito, mas consegui apenas sete, o que me fez trocar poucos dólares. A viagem da fronteira até a cidade de Maracaibo na Venezuela foi uma história a parte. Pegamos um coletivo com um casal de ingleses. O carro mexia de um lado para o outro, numa das sensações mais esquisitas que já tive dentro de um automóvel, onde eu seriamente temi pela minha segurança e da minha companheira. Por fim, chegamos ilesos a Maracaibo.



Mochilas devida e seguramente acomodadas, o expresso maracaibo estava pronto para partir...

                
                Ao chegar à rodoviária da cidade, percebi que não era um bom momento. Era de noite, feriado no país e não havia nenhum ônibus que iria circular para nenhum lugar naquela noite e no próximo dia. Olhei rapidamente o guia Lonely Planet e consegui um táxi coletivo que estava indo para a cidade de Coro. Essa viagem também foi uma outra aventura. O taxista tentou nos dar um golpe, quase discutimos com policiais chavistas de madrugada e com muita sorte encontramos uma pousada para ficar. As primeiras impressões da Venezuela não estavam sendo nada boas.

                No dia seguinte fomos de coletivo em coletivo e conseguimos chegar em Caracas. A capital da Venezuela, ao contrário da capital colombiana Bogotá, possui um ar triste, favelas para todos os lados e uma sensação de insegurança no ar. Eu estava quase desistindo da Venezuela, quando resolvemos tentar ir para Los Roques. Acabei fechando um pacote para Los Roques e o parque nacional Canaima, mal sabia que estava rumando para os lugares mais bonitos em que eu já tive a oportunidade de visitar.

                Apesar do caos econômico que a Venezuela se encontra, muitos indicadores sociais melhoraram significativamente no governo Chávez. Queda da pobreza extrema, melhora de índices de mortalidade infantil e desnutrição, bem como aumento na renda real per capta. Como tudo na vida sempre é bom olhar o outro lado e outras opiniões. Achei esse repórter do insuspeito The Guardian que escreve sobre a Venezuela, algumas palavras do mesmo (http://www.theguardian.com/commentisfree/2013/nov/07/venezuela-not-greece-latin-america-oil-poverty): “However, thegovernment got control of the national oil company in 2003, and the whole decade's economic performance turned out quite well, with average annual growth of real income per person of 2.7% and poverty reduced by over half, and large gains for the majority in employment, access to health care, pensions and education.” (Contudo, o governo tomou controle da companhia nacional de petróleo em 2003, e a performance econômica de toda a década foi muito boa, com uma média de crescimento anual da renda real média per capta de 2.7% e a pobreza reduzida pela metade, e grandes ganhos para a maioria em emprego, acesso a cuidados médicos, pensões e educação - Tradução Livre) 

            Portanto, com certeza a máquina de propaganda do regime tem papel fundamental na manutenção do poder. Porém, parece inegável que apesar de todo o caos que a Venezuela se encontra a vida, por incrível que pareça, melhorou para as camadas mais pobres do extrato social venezuelano, o que me leva a pensar  quão ruim não era a vida  antes para os mais pobres.  Evidentemente, eu vejo todas as falhas e problemas da Venezuela atualmente, mas talvez sistemas disfuncionais como o chavismo , e nós latinos americanos somos pródigos em criar isso, só tem chance de florescer em sociedades muito desiguais e empobrecidas.

                Los Roques é um arquipélago de ilhas ao norte da Venezuela no meio do Caribe. Só é possível chegar lá em aviões de pequeno porte para 15/20 passageiros. Dizem que é o paraíso para KiteSurf (esporte que pretendo aprender ), não saberia dizer. Agora posso afirmar que lá é um dos lugares mais maneiros para relaxar e estar acompanhado que eu já estive no mundo. Água absurdamente cristalina, ilhas desertas (sendo que a ilha principal nem veículo motorizado tem), uma beleza de cair o queixo. Passamos alguns dias memoráveis no arquipélago de Los Roques. Com certeza quero retornar um dia (as fotos a seguir não são minhas, eu não tenho muito habilidade e paciência para tirar fotos).

 Posso garantir que as fotos retratam bem o que é Los Roques
 Praias desertas para se aproveitar...
 Água incrivelmente transparente
Los Roques uma das belezas de nosso continente,

                De Los Roques fomos para uma cidade  chamada Ciudad Bolivar , porta de entrada para o espetacular parque nacional Canaima no coração da Venezuela.  O parque é considerado patrimônio da humanidade e é uma atração absolutamente fabulosa, sendo acessível apenas por avião. O parque é imenso e é nele que se encontra a maior queda d água do mundo, o impressionante Salto Angel.  Para chegar até o Salto é preciso ir de barco numa viagem que demora entre 4 e 5 horas, passando por dezenas de Tepuis (formações geológicas verticais com o seu topo achatado, como as nossas chapadas, o Monte Roraima é um Tepui), num percurso de uma beleza indescritível. O transporte é feito por Índios.  Após a jornada de barco, é necessário mais uma hora de caminhada mata a dentro, o que demanda um certo esforço, mas que é prontamente recompensado pela vista magnífica da grande cachoeira. Há um certo ar de Lost World, o que torna o ambiente muito agradável e diferente para quem viveu toda uma vida em meios urbanos. Dorme-se no meio do mato em redes numa construção improvisada. Como a água do rio na região do abrigo é muito rápida não há insetos. Mesmo que houvesse, seria muito difícil que os insetos passassem pelas centenas de aranhas das mais variadas cores e tamanhos que cercavam o acampamento com suas teias. O dia terminou com uma janta e uma animada conversa com um grupo de holandeses que nos fazia companhia. Conhecemos um rapaz da África do Sul que morava na Austrália e foi uma das pessoas mais engraçadas que já encontrei. Foi um dia para se guardar na memória.



No voo para Canaima o co-piloto não apareceu, o que obrigou a Senhorita Soulsurfer a assumir o posto.
Um dos passeios mais sensacionais para se fazer no mundo. São cinco horas dentro de um rio no meio do nada, cercado por dezenas de Tepuis (há um deles ao fundo).
 Contemplando o magnífico Salto Angel. Infelizmente, fomos  numa estação com pouca água, mas mesmo assim o local é extraordinário.
A acomodação chique da aventura. Se tem algo que gosto em minha companheira é a ausência de frescura para dormir em lugares como esse, algo de certa maneira não muito usual em boa parte das mulheres brasileiras.

          No outro dia, voltamos para a vila indígena de Canaima. Passamos o dia nos banhando no rio em uma paisagem surreal. Agradeço por ter tido a oportunidade de conhecer lugar tão fantástico no planeta terra.

 Uma paisagem incrível....


Era hora de se despedir de Canaima, pois a última aventura da viagem seria ainda mais incrível


          Eu senti o povo Venezuelano mais triste do que seus irmãos (a rivalidade entre os dois países é enorme) colombianos. Porém, conheci muitas pessoas bacanas. Não sei se foi coincidência ou não, mas todas as pessoas com as quais conversei, inclusive uma funcionária pública, estavam fartas do governo de Chávez, e isso em 2011, o que me leva a crer que a situação deve ter piorado bastante de lá para cá. As reclamações eram sempre sobre violência e sobre o encarecimento da vida e a dificuldade de se ter acesso a bens, já que boa parte do que é consumido pelo país é importado.  Eu creio que as pessoas com as quais mantive contato eram da classe média venezuelana, o que me faz acreditar que realmente o grande apoio do governo vem das classes menos favorecidas e empobrecidas.

                De Canaima voltamos de avião para Ciudad Bolivar e lá eu precisava achar guias indígenas para fazer o trekking de seis dias ao topo do majestoso Monte Roraima. Restavam-me apenas U$ 650,00 (e eu não conseguia usar o meu cartão, em que pese a questão do câmbio oficial, pois o mesmo tinha sido bloqueado ao tentar usá-lo em Bogotá) eu precisava achar algum tour disponível para duas pessoas por essa quantia, o que não seria fácil. Depois de muito procurar, acabei encontrando um guia cujas duas maiores alegrias eram beber e falar mal de Hugo Chávez. Acertei por U$ 620,00 dólares (com alimentação, Porter e barraca inclusa)  e na mesma noite rumamos para um dos grandes desafios físicos da minha vida.
                
             
             O Trekking ao monte Roraima é feito em seis dias, mas acabamos fazendo em cinco. A caminhada em si não é tão demandante, mas para quem nunca tinha dormindo tantos dias seguidos em barraca foi desafiador. A equipe era formada por mim, Sra. Soulsurfer, o guia e um carregador índio que era uma figura chamado Osmar. Ele falava uma mistura de português com espanhol com um sotaque muito engraçado. É impressionante a força dos Índios que carregam os equipamentos. Eu fico imaginando os Sherpas no Nepal carregando dezenas de quilos nas costas a mais de 5.000 metros acima do nível do mar, mas isso é história para outro artigo.


                No primeiro dia de caminhada, o guia e o carregador tomaram toda bebida e chegaram ao acampamento completamente bêbados. Desse dia lembro  de milhares de vaga-lumes que pareciam estrelas, foi algo muito diferente,  No segundo dia, sem bebida, os dois se mantiveram sóbrios e a caminhada foi um pouco mais pesada e longa. No entanto, o local de acampamento era extraordinário, de uma beleza quase que poética. O terceiro dia foi a escalada do monte propriamente dito. Não foi fácil, mas não foi tão difícil como eu imaginei, deve ter durado umas 6/7 horas.  Estar no topo do Monte Roraima parece que se está em outro mundo, em outro ecossistema. Andamos ao leu no topo, tomamos banho em piscinas naturais, passamos por vales de cristais, numa experiência fantástica. Dormirmos duas noites no topo do monte, numa sensação de estar apartado do mundo, das preocupações mundanas, do stress do dia a dia. No quinto dia resolvemos voltar e fazer o percurso de dois dias em apenas um, pois queríamos chegar um dia mais cedo em Boa Vista e mudar a passagem do avião de volta para casa. Não foi uma boa escolha. Andamos mais de 14 horas e levamos o nosso corpo a exaustão. Ao final, eu apenas queria me jogar no chão e dormir. O nosso guia entrou em contato com um líder indígena local e ainda bem que não foi preciso dormir na barraca, pois vieram nos buscar de carro e nos levar até uma pequena cidade. Imagine a cena de dois brasileiros exaustos no meio da noite numa caminhonete cheia de Índios ouvindo uma música chamada “A Loira mais Gostosa da Gran Sabana” por quase 30 minutos, pois é a cena foi e ainda é um pouco surreal para mim, mas pensando em retrospectiva não deixa de ser divertida. Chegando a pequena cidade dormirmos em maravilhosas camas e tomamos um maravilhoso banho.  Aliás, uma das coisas mais prazerosas depois de um trekking desse é dormir numa cama, tomar banho e comer uma comida gostosa. O prazer que se sente é imenso, o que para mim apenas deixa claro como não são necessárias grandes conquistas materiais para nos sentirmos satisfeitos com a vida.


É preciso caminhar....

 Isso sim é uma hospedagem cinco estrelas!
Desbravando um mundo desconhecido no topo do magnífico Monte Roraima
 Um banho de piscina natural no topo do mundo:)
Nosso simpático guia, beber e falar mal do regime chavista eram os passatempos prediletos dele. A comida que ele preparava era simples, mas bem gostosa.

                No final da viagem fomos num coletivo até Boa Vista (cidade brasileira que gostei bastante, apesar de ser absurdamente quente). Na fronteira entre Brasil e Venezuela, um policial federal olhou com cara de brabo para mim e apenas perguntou “É Brasileiro?” , eu assenti que sim com a cabeça, e ele perguntou novamente a mesma coisa, eu respondendo “Sim!”. Ele ficou me encarando mais uns segundos e permitiu que o carro prosseguisse. No banco da frente, apenas ouvi um “Graças a Dios” de um Peruano que estava sem os documentos, mas mesmo assim conseguiu entrar no Brasil, graças a minha cara de gringo e a implicância do policial federal. Ao chegar num bar local na beira da estrada, soube que o Santos tinha sido o único time a não ser eliminado na taça libertadores, o que selaria o caminho do glorioso alvinegro praiano para a sua terceira conquista da taça libertadores, um título que sempre quis ver desde menino, mas isso também já é outra história. No último dia de Trekking, acho que tomei muitas picadas na minha perna de um mosquito chamado puri-puri , quando cheguei em Boa Vista a batata da minha perna estava absurdamente inchada, vermelha, dura e doendo. Foram alguns dias passando pomada para a dor passar, uma lembrança que às vezes são os pequenos objetos e percalços que te derrubam.

                A situação atual da Venezuela me deixa triste, pois é um país que gostei tanto de conhecer e os venezuelanos possuem as suas similaridades com nós brasileiros. Ao contrário do que alguns pensam, eu acredito que a chance da situação do Brasil se deteriorar econômica, social e politicamente para como está a Venezuela no curto/médio prazo é quase nenhuma. Nosso país é muito mais diversificado economicamente. Nossas instituições são muito mais sólidas, nossa mídia muito mais forte, nosso exército muito mais independente,  o que torna quase impensável que um grupo político se aproprie por completo do Estado e da sociedade civil organizada. A forma como o partido no poder há 12 anos vem apanhando de todos os lados, a espada de dâmocles pairando sobre o governo quando as delações de Roberto Costa e Youssef vierem a público com as denúncias e os nomes dos políticos e a guinada surpreende da Presidente Dilma Roussef no discurso econômico, apenas mostram que um regime similar ao chavismo não teria condições de florescer atualmente no Brasil. Agora, todos aqueles que querem mudanças políticas nesse país, eu incluso, precisamos ter a sapiência de não fazer a bobagem que a oposição venezuelana fez em 2002, e devemos buscar a mudança pelos meios democráticos, não por impeachment ( a não ser que se comprove cabalmente envolvimento da Presidente no mega escândalo de corrupção da Petrobrás) ou pedindo, algo que para mim é absolutamente incompreensível, como a volta dos militares. 

                É isso colegas, espero que tenham gostado do relato e possam ter outra visão, ou ao menos outra perspectiva, sobre esse país fabuloso que é a Venezuela.


                Grande Abraço a todos!